sábado, 5 de Dezembro de 2009

JORGE LOPES - HOMENAGEM

Jorge Lopes (1947-2009) faleceu no passado domingo, mas a notícia só foi revelada alguns dias mais tarde.
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Quando o seu nome aparecia como comentador televisivo de uma qualquer prova de atletismo ficava, na minha qualidade de espectador, com um par de certezas:
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* Que os comentários iriam ser sóbrios e concisos;
* Que a identificação dos atletas seria acompanhada de informações pertinentes sobre o seu percurso, o que era resultado de um longo acumular da dados e de um trabalho profissional de qualidade;
* Que as explicações técnicas sobre o que estávamos a fazer eram um serviço prestado ao espectador e não uma demonstração vaidosa de conhecimentos;
* Que ao acabar aquela jornada eu iria ficar a saber um pouco mais sobre o que tinha acabado de ver.
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Nos dias que correm jornalistas assim, ainda para mais pouco telegénicos, têm cada vez menos espaços. Sobram as bonecas do teleponto. São giraças mas pouco mais.
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Isso ainda me vai fazer sentir mais saudades de Jorge Lopes.
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A CAMINHO DA AMARELEJA


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Embora pecador, vil e infeliz,
Não desespero e não corro para o templo como os idólatras.
Embriagado, levanto-me de novo de manhã,
Desejo vinho e o ser amado e não mesquita e paraíso.
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Umar-i Khayyam
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O quadro, O triunfo de Baco, pintado por volta de 1628-1629 por Velázquez (1599-1660) tem um tom jocoso. Mas o poema de Umar-i Khayyam não é isento de sarcasmo...

sexta-feira, 4 de Dezembro de 2009

SOUTH AFRICA 2010

Dia 15.6.2010: Costa do Marfim-Portugal, em Port Elizabeth
Dia 21.6.2010: Portugal-Coreia do Norte, em Cidade do Cabo
Dia 25.6.2010: Portugal-Brasil, em Durban
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Um curiosidade: em 1966, o Brasil (no grupo que também integrava a Hungria e a Bulgária) e a Coreia do Norte, nos quartos-de-final, foram adversários de Portugal. Façam as vossas apostas.

AMARELEJA - VINHA E VINHO

É já amanhã que tem início a 8ª edição da Feira da Vinha e do Vinho, em Amareleja. A organização é da Junta de Freguesia local e da Câmara Municipal de Moura. Durante quatro dias haverá lugar a provas de vinhos, a momentos de animação musical e a uma mostra de artesanato e de produtos regionais.
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Ver: www.feirasdeamareleja.pt

Programa da feira

Dia 5 (Sábado)

09.00 H - TT Rota dos Vinhos de Amareleja 2009 – concentração no “Largo do Regato”
20.00 H - Sessão de Inauguração da Feira
21.00 H - Actuação dos Grupos: Coral Masculino da Casa do Povo de Amareleja e Coral Feminino “Espigas Douradas”
22.30 H - Actuação da “Tuna Sabes” da Escola Superior de Educação de Lisboa


Dia 6 (Domingo)
19.00 H - Actuação do grupo de música tradicional Portuguesa “Cantes do meu Cante”
21.00 H - Actuação do grupo espanhol “Sones Romeros” de Ensinasola (Huelva)
22.30 H - Actuação do grupo “Quarteto Eléctrico”


Dia 7 (Segunda-feira)
20.00 H - Actuação dos Grupo Coral da Sociedade Recreativa Amarelejense
21.00 H - Concerto de Acordeões


Dia 8 (Terça-feira)
18.00 H - Concerto pela Banda da Sociedade Filarmónica União Musical Amarelejense


Horário da Feira:
Sábado: 20.00 – 24.00 Horas
Domingo e Segunda-Feira: 11.00 – 24.00 Horas
Terça-feira: 11.00 – 20.00 Horas

quinta-feira, 3 de Dezembro de 2009

PATRIMÓNIO E TURISMO

"É uma visão redutora o património ser o motor do turismo". A frase, a extraordinária frase, foi proferida ontem à noite, na Assembleia Municipal de Moura, por um destacado membro do Partido Socialista. O mesmo que questionou, na passada Primavera, o interesse da reabilitação do Edifício dos Quartéis. E a quem parecem incomodar os investimentos e os progressos que a Câmara Municipal de Moura tem feito nesta matéria. Sublinho que ao enfatizar a aposta no património não me refiro apenas ao património construído, que é, e muito justamente, uma das pedras de toque do que tem vindo a ser realizado.
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É uma das vantagens da democracia. Dizer disparates, como o de ontem à noite sobre o património, não comporta punições. A não ser de ordem política.
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Rir é, sempre, o melhor remédio. Aqui vos deixo um inspirado desenho de Sempé.

PAUL CELAN

Não busques nos meus lábios a tua boca,
nem diante do portão o forasteiro,
nem no olho a lágrima.
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Sete noites mais alto muda o vermelho para vermelho,
sete corações mais fundo bate a mão à porta,
sete rosas mais tarde rumoreja a fonte.
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Comprei há dias um livro de poesia que virá, decerto, a ser decisivo: Sete rosas mais tarde, de Paul Celan (1920-1970). Talvez não tenha muita lógica acompanhar este poema, Cristal, com o quadro de Quinten Matsijs (1466 – 1530), um dos meus preferidos de entre toda a pintura flamenga, mas a forma como o nosso olhar se pode desviar do essencial para o acessório estão presentes num e noutro.

quarta-feira, 2 de Dezembro de 2009

CRUDA SORTE! AMOR TIRANO!




Cruda sorte, em versão integral, numa gravação antiga (1957), com Teresa Berganza.

ARGEL IX - L' ITALIANA IN ALGERI




D'un sguardo languido,
D'un sospiretto...
So a domar gli uomini
Come si fa.

A trama de L'italiana in Algeri tem lugar no palácio do Bey, em Argel. É uma história de amores cruzados. Elvira ama Mustafà, que já não a ama e pensa casá-la com Lindoro, o seu escravo italiano. O qual está apaixonado por Isabella. Isabella desperta a curiosidade de Mustafà, que estava obcecado em ter uma italiana. Mustafà aceita libertar Lindoro e deixá-lo partir para Itália se ele levar consigo Elvira. A trama segue por aí fora. No final, Isabella e Lindoro escapam-se para Itália e Mustafà pede a Elvira que o perdoe.

Rossini (1792-1868) compôs esta célebre ópera em 1813, com apenas 21 anos. Cruda sorte integra a 4ª cena do 1º acto. Gosto, em especial, nesta cavatina, da divertida interacção de Marilyn Horne com o público e do entusiasmo do coro, no final.

terça-feira, 1 de Dezembro de 2009

ZORRINHO - GUARDADOR DE CENTRAIS E DE SONHOS...

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Lemos hoje no site da RÁDIO PAX:
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Responsável pela pasta da Energia no Governo Chileno visita Ferreira do Alentejo
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Marcelo Tokman Ramos, responsável pela pasta da energia no Governo Chileno e Carlos Zorrinho, Secretario de Estado da Energia e Inovação de Portugal, visitam hoje Ferreira do Alentejo. Os governantes têm na agenda uma deslocação à última central solar construída em Ferreira do Alentejo pela Tecneira - Produção de Energia Renovável. (fim de citação)
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Fico a perguntar-me:
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1. Porque é que raio terá o governo português escolhido a central de Ferreira do Alentejo para ser visitada? Qual o critério?
2. A Câmara de Ferreira é socialista, a de Moura é comunista. Terá esse factor pesado na escolha?
3. O projecto de Ferreira do Alentejo não chega, nem de perto nem de longe à dimensão do de Moura e Amareleja. Sendo que este comporta vertentes (a fábrica de painéis, o Fundo Social e o tecnopolo), que ultrapasam em muito a simples instalação de uma central solar. Será que a escolha do sítio teve a ver com a proximidade de Lisboa?
4. O projecto liderado por Moura, e que mereceu justificada projecção internacional ao Presidente Pós-de-Mina ainda causará engulhos a alguns socialistas, com dificuldade em engolir o sucesso político do que foi concretizado em Moura e Amareleja?
5. Que manobras futuras poderemos esperar do Doutor Zorrinho?
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José Carlos Zorrinho é docente da Universidade de Évora e, detalhe não desinteressante, Doutorado em Gestão da Informação. É melhor ficarmos atentos...

JOAQUIM OLIVEIRA CAETANO DIXIT

Detalhe do Rapto de Proserpina (Bernini)
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"Um director de um museu é como um eunuco num harém. Tem todos os prazeres por perto mas não os usa."
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Joaquim Caetano (n. 1962) é historiador de arte e Director do Museu de Évora.

FADO II - ADEGA MACHADO

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Fechou a Adega Machado. Fui lá poucas vezes, normalmente para afogar as mágoas das desgraças europeias do Benfica. O meu cicerone era o João, um amigo bem mais velho, a quem os empregados e as fadistas (em especial as fadistas) tratavam de forma familiar. O João garantia sempre que só lá passava de ano a ano. Eu ria e fingia que acreditava.
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Por lá cantaram Amália Rodrigues e Mariza. Foi na Adega Machado que vi actuar o filho de Alfredo Marceneiro, o polémico e pouco ortodoxo Alfredo Duarte Júnior (1924-1999), conhecido como fadista bailarino...
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Embora o estilo das casas de fado não faça o meu género é com pena que vejo desaparecer este símbolo de uma Lisboa em vias de extinção. Para o desemprego vão 28 pessoas.

FADO I - INÊS GONÇALVES

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E hoje fala-se aqui de fado por bons motivos. Uma jovem mourense, a minha amiga Inês Gonçalves, foi ontem a vencedora da II Grande Noite do Fado do Algarve. O evento teve lugar na capital algarvia. Sei, porque já a ouvi cantar muitas vezes, que a Inês é uma magnífica fadista - gostava de a ouvir um dia cantar a Maria Madalena... -, e fico feliz por saber que esse reconhecimento ultrapassou as fronteiras da nossa região.
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A Inês cantou Amor de mel, amor de fel e um clássico imortal, Há festa na mouraria.

segunda-feira, 30 de Novembro de 2009

A ESCRITA LUMINOSA DE MASSOUDY

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Lancemos cor, nestes momentos de intolerância, sobre o quotidiano. Hassan Massoudy é um calígrafo iraquiano, nascido em Najaf em 1944. A sua recriação da escrita árabe deu-lhe uma justificada reputação mundial.

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Não tenho disso a certeza, mas aposto que Massoudy conhece a poesia de Ibn Ammar (século XI) e subscreve estes belos versos:

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a minha pupila resgata o que está preso na página:

o branco ao branco, o negro ao negro.

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MINARETES APAGADOS

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O Prof. Cunha Serra insistia que disséssemos sempre "alminar" e não "minarete", que é um galicismo. A palavra vem do árabe manara, com o significado de farol. É dali que é feito o chamamento à oração.
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Ontem, os suiços decidiram, em referendo, proibir os minaretes. A coisa mete alterações à Constituição. E vai ser pretexto para mais uma longa polémica.
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A extrema-direita é especialista em apagar fogos com gasolina. Infelizmente, a estupidez e a intolerância não são passíveis de alteração via referendo.
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Diga-se, já agora, que o que acima se escreve é totalmente válido, mutatis mutandis, para as monarquias do Golfo que se divertem a reprimir o catolicismo.

domingo, 29 de Novembro de 2009

ARGEL VIII - LA TAVERNE DU LAC

Cidade de contrastes e de contradições, em Argel podemos ver, na mesma rua, a poucos metros de distância, bares onde não há bebidas alcoólicas e cervejarias onde quase não há outra coisa para beber. Por vezes, os "barbudos", como depreciativamente lhe chamam aqueles que são ferozmente laicos, exercem pressão e chantageiam os proprietários. As cervejarias resistem, porém. Não são locais secretos nem de bas-fonds. A clientela é masculina e ruidosa. Foi assim, entre muitas cervejas e muito peixe frito, que conheci a Taverne du Lac. O nome é bizarro, porque o único lago é o da cerveja que corre em abundância. Senti-me ali tão em casa como em tantas tabernas e bares que conheço pelo Alentejo dentro. A conversa com o Boussad foi muito longa e foi aí, como tantas vezes acontece nas nossas vidas, que a palavra amizade ganhou um pouco mais de forma.
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Amanhã de manhã telefonarei ao Boussad para saber se a Taverne du Lac existe e continua de boa saúde. E se os fascistas da incultura já lhe deram cabo da livraria.
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COMEÇA A CIMEIRA IBERO-AMERICANA

Começa a cimeira. Para além das chachadas do costume e da falta de alguns VIP, o verdadeiro momento do dia foi a declaração de José Sócrates, para o qual o blogue de Amílcar Mourão me alertou. Ou seja, e cito do site da TSF:
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O primeiro-ministro lamentou que os portugueses andem tão distraídos com as questões ligadas à inovação e conhecimento, que vão marcar a XIX Cimeira Ibero-americana, que começa este domingo, com um acto inaugural nos Jardins da Torre de Belém.
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Gosto sempre de ouvir José Sócrates falar de cátedra sobre inovação e conhecimento. Sobretudo quando temos de ter em conta o seu sólido, prestigiado e coerente passado académico...
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FIM-DE-SEMANA IV: CHE

Foi no sábado ao fim da tarde, na estação dos combóios da Amadora. Um jovem estava sentado em frente a um daqueles postos informativos individuais que existem agora por toda a parte. Quando passei por ele não resisti a voltar a cabeça para trás. É feio, já se sabe, mas a fixação do jovem causou-me estranheza. Estava a ler, com rara concentração a biografia do Che, numa página da wikipédia. São estes pequenos detalhes que me dão esperança.
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FIM-DE-SEMANA III: PEDRO MEXIA

O poeta e dramaturgo Pedro Mexia deu uma entrevista ao Expresso. O que diz é tão interessante e acutilante como o que escreve nas suas crónicas. Mas, a páginas tantas, lê-se:
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Na minha experiência [a camaradagem é uma coisa exclusiva da amizade masculina]. Numa relação com uma mulher, num momento qualquer, passou aquela sombra sexual. Sempre.
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Não é assim e Pedro Mexia fez muito bem em relativizar. Tenho exemplos pessoais do que digo. Não muitos, mas tenho.
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FIM-DE-SEMANA II: TETRO

Está provado que Francis Ford Coppola não sabe fazer maus filmes. Mas este Tetro não é o relançamento da sua carreira. Muito longe disso. A ideia que está na base da história é um achado, mas depois o argumento perde-se em meandros sem interesse. Vale a pena vê-lo, porque está magnificamente fotografado e porque tem o tom trágico e operático de todos os filmes de Coppola. E porque se fica com vontade de conhecer La Boca, em Buenos Aires.
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FIM-DE-SEMANA I: O BAZARISTA DE TUIAS

Não sendo fanático de centros comerciais, reparei hoje que o Colombo está transformado num labirinto de bancas ambulantes (rentabilizar, é preciso!), que atravancam os corredores e tornam as compras num pesadelo. Acreditem que até o bazar de Marrakech tem mais lógica.
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sábado, 28 de Novembro de 2009

PORTFOLIO ERÓTICO

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Ao consultar hoje de manhã o SOL online reparei num portfolio fotográfico sobre o V Salão Erótico de Lisboa, recentemente realizado.
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A admito que a falha seja minha, mas nunca percebi o que é que "isto" tem de erótico...

sexta-feira, 27 de Novembro de 2009

SCAPRICCIATIELLO


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Não sendo hábito meu multiplicar as referências a filmes, lembrei-me deste excerto de Wild is the wind, rodado em 1957 sob a direcção de George Cukor (1899-1983). Nunca vi o filme, mas agora tenho vontade o ver. Sobretudo depois desta interpretação de Scapricciatiello, por Anna Magnani. Dolores Duran também gravou o mesmo tema, imitando na perfeição o dialecto napolitano. Cantava melhor que Anna Magnani, claro, mas sem o mesmo sentimento.

MAIS OLYMPIA

No passado mês de Fevereiro entretive-me a encontrar variações ao quadro Olympia, de Manet. Havia de tudo um pouco, no que são, sobretudo, homenagens à genialidade do pintor francês.
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Ontem à noite, já não sei a que propósito, "caiu-me nos braços" mais esta Olympia, do escultor Larry Rivers (1923-2002), que inverteu um pouco a história com este I like Olympia in black face (1970).

TEATRO DEL DRAGO

Deixei-me arrastar, sem demasiada convicção, para o cine-teatro de Mértola. Ainda bem, porque o espectáculo foi extraordinário. Uma pequena peça de marionetas, pelo Teatro del Drago, de Ravenna, intitulada O sequestro do príncipe Charles. Durante cerca de 45 minutos seguimos as peripécias de Fagiolino, Balanzone e de todos os outros. A peça era falada em italiano? E daí? Tinha trocadilhos nem sempre fáceis de seguir? E depois?

No final, Mauro Monticelli explicou que a família se ocupa daquela arte desde meados do século XIX. E que são os derradeiros de uma tradição que teima em não morrer.

Foi então que levantou o pano do teatro e nos mostrou que toda a peça era ele só, manipulando os burattini. Pudémos então dar-nos conta da ilusão. E se às vezes o levantar do véu da ilusão tira a magia das coisas, ali não foi esse o caso. Viva o TEATRO DEL DRAGO!



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Para saber mais:
Via Sant'Alberto 297
48100 Ravenna - IT

Telef. 00.39.3355342500
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O Teatro del Drago foi a Mértola no âmbito do projecto Oralidades, que engloba Arles (França), Birgu (Malta), Évora (Portugal), Idanha-a-Nova (Portugal) Mértola (Portugal), Ourense (Espanha), Ravenna (Itália) e Sliven (Bulgária), unidas num vasto programa de cooperação e intercâmbio cultural. Neste âmbito, será criado um Centro de Recursos da Tradição Oral, que ficará sedeado em Évora.

quinta-feira, 26 de Novembro de 2009

ANTI-IMPERIALISTAS

São controversos e têm, por vezes, atitudes e declarações que desafiam o mais elementar bom-senso. Têm, contudo, uma enorme e salutar vantagem. Deixam o imperalismo norte-americano completamente HIS-TÉ-RI-CO.
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Saravá!

HERÓIS DO DIA

"Serão convidados da noiva? Devem ser do noivo...", "Serão convidados do noivo? Devem ser da noiva...". A situação era clássica nos casamentos de certas terras do Alentejo. E assim os penetras iam tirando partido da confusão.
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Na Casa Branca, mesmo sem serem alentejanos, o casal Salahi adesivou-se e chegou mesmo a fazer uma foto para a posteridade com o vice-presidente Biden.
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Saravá!
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LISBOA-ARGEL

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O ambiente descrito no texto que acabo de reeditar tem pouco a ver com a realidade actual, felizmente. Recordo que, na altura, a maior parte das companhias europeias não voava para Argel, por razões de segurança. Cheguei a ir a Frankfurt para apanhar um voo de ligação...
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A TAP vai passar a ter voos directos para Argel. O primeiro devia ter lugar hoje, conforme anunciado em tempos. O site da companhia, porém, mantém-se silencioso a este respeito.

ARGEL VII - OS DIAS E AS MIRAGENS (3ª parte)

Conclusão de
http://avenidadasaluquia34.blogspot.com/2009/11/argel-ii-os-dias-e-as-miragens-1-parte.html (9.11.2009)
e
http://avenidadasaluquia34.blogspot.com/2009/11/argel-iv-os-dias-e-as-miragens-2-parte.html (15.11.2009)

A que cidade vim eu parar, repito-me dias mais tarde. Não o chegarei a saber, apesar da relativa tranquilidade que ali se respira. O ambiente é de acalmia, depois de anos de terror. Isso vai-nos permitir uma visita à fantástica cidade romana de Tipasa, 60 quilómetros a ocidente de Argel, e um jantar na aldeia piscatória de La Madrague. O regresso tardio à cidade há-de fazer-se por uma estrada deserta e espectral, num percurso impossível de cumprir pouco tempo antes.
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É verdade que na noite de Argel também quase não há movimento nas ruas e que são escassos os restaurantes e ainda mais raras as discotecas dos hotéis, caras e de ambiente pouco recomendável. É verdade que há bairros onde se pode circular a pé e outros onde ainda não se pode fazê-lo. Mesmo no território das embaixadas, em El Biar, a imagem de dois estrangeiros a pé provocará olhares de algum espanto. Os ocidentais deixaram o país depois de uma série de atentados; mantém-se apenas os diplomatas, acantonados em refúgios protegidos e vivendo uma existência à margem do quotidiano.
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Respira-se hoje um pouco melhor e fala-se menos nas falsas barreiras policiais que, mesmo na capital, apanhavam e eliminavam à toa alvos escolhidos ou quem calhasse. As barreiras, as verdadeiras, ainda estão por toda a parte, armadas e tensas. Nesse sentido pode dizer-se que Argel é uma cidade segura. Há, em muitos sítios, detectores de metais e aparelhos de raios-X por onde temos de passar e mais seguranças e mais polícias. Por isso, quando um ansioso jornalista me pergunta, numa entrevista para um canal de rádio francófono se vejo Argel como uma cidade segura respondo que sim, sem ter a certeza de estar a mentir ou a dizer a verdade.
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Antes da partida hei-de olhar muitas vezes, entre o desconsolo e a resignação, para o mapa da costa da Argélia. De ocidente para oriente alinham-se, de um fôlego, Tlemcen, Cherchell, Tipasa, El Asnam, Annaba, Sétif. Com apenas uma excepção, não chegarei a ver estas cidades, outrora entrepostos comerciais elogiados e invejados, cheios de gente de todo o Mediterrâneo. Todos eles são hoje apenas uma glória do passado, com o que resta dos anfiteatros, dos banhos e das praças. E sobretudo, e uma vez mais, com o que ficou da memória dos mártires, das basílicas e das imensas necrópoles que encontramos fora de portas.
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De Argel a Barcelona vão mais do que os 600 quilómetros que as separam. Vão muito mais que os 50 minutos de voo que haveremos de vencer num avião sem lugares marcados. Saímos de Argel com tempo encoberto e chegamos a Barcelona com as mesmas nuvens e o mesmo ar pesado. A paisagem é também semelhante e poderíamos pensar que não tinhamos saído do mesmo sítio.
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Quase tudo muda, porém, naquele pequeno salto. Ao ambiente enervado do aeroporto Boumediene - são quinze os controlos a transpor atá se entrar no avião - sucede-se a descontracção cosmopolita de Barcelona. 50 minutos separam o barzinho decrépito, onde beberemos um último chá de menta, das sofisticadas lojas de salmão fumado e de charutos caros. É para essa miragem que espreitam todos os dias os que se alinham às portas das embaixadas ocidentais em Argel os que esperam o milagre de um visto que lhes permita fugir ao desemprego e à violência de todos os dias e ter acesso ao paraíso dos ricos. A juntar ao azul do céu e a uma paz que ninguém sabe quando chegará, é essa a terceira e definitiva miragem daquela terra do Magrebe.
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PS: Já depois de escrita esta crónica leio na imprensa a notícia de mais dois massacres na pacífica Tipasa. Num dos casos o alvo foram turistas argelinos. Não acredito que haja grandes motivações políticas ou religiosas para o que aconteceu. A miséria, a fome, a raiva, o desespero, o desejo de uma qualquer vingança e, sobretudo, a garantia da impunidade são razões mais que suficiente para as tragédias que todos os dias se repetem naquelas paragens.

Texto publicado no Diário do Alentejo em 28.7.2000 e reeditado em A quinta coluna, ed. DA, 2001
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Desenho da Argel otomana (século XVI), com a qasbah ao centro.

quarta-feira, 25 de Novembro de 2009

FAUSTO GIACCONE

Faz hoje 34 anos que a festa da Revolução acabou. A catarse durara exactamente dezanove meses. A ressaca não tardaria.
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O sul de Portugal foi, durante esse ano e meio, terreno fértil para o trabalho de fotógrafos e cineastas. Nenhum me impressiona e comove tanto como a reportagem de Fausto Giaccone (n. 1943), nas terras do Couço, no final de Agosto de 1975.

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Fausto Giaccone voltou ao Couço em 1986. É a história da ocupação de uma herdade e do regresso do fotógrafo italiano ao Ribatejo que está contada no extraordinário livro Uma história portuguesa. A edição é de 1999. Presumo que esteja esgotadíssima.

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Vale a pena ver: http://www.faustogiaccone.com
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O tom épico da fotografia de cima e o vermelho da bandeira fez-me lembrar um poema de um autor medieval, que António Borges Coelho traduziu para o seu Portugal na Espanha Árabe.

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AS SEARAS

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Olha o vento semeado onde as searas parecem

ao inclinar-se ante o vento

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esquadrões de cavalaria que fogem derrotados

sangrando pelas feridas das papoilas.

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Iyad (séculos XI-XII) – trad. de António Borges Coelho

"ISTO NÃO VAI DAR NADA..."

A primeira página do Público de hoje parece dar razão à vox populi. E, traduz, em toda a sua dimensão, o significado da palavra JUSTIÇA no Portugal do século XXI.

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terça-feira, 24 de Novembro de 2009

MARILYN CHAMBERS

Nunca eles pensaram. De certeza que não. A ideia não passou pela cabeça de Linda Lovelace (1949-2002). Nem de Gerard Damiano (1928-2008). Nem de Marilyn Chambers (1952-2009). São nomes de referência do cinema porno dos anos 70. Protagonizaram filmes como Garganta Funda, O diabo em Miss Jones ou Por detrás da porta verde.
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Antigamente, castos pais de família iam ver essas fitas ao Capitólio e ao Cinebolso. De óculos escuros, não fosse o diabo tecê-las e serem reconhecidos.
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Agora já não é preciso o secretismo. Oh, não! A Cinemateca Portuguesa (sim, essa mesma!) promove um ciclo sobre MARILYN CHAMBERS E O PORNO DOS ANOS 70. Onde os ditos filmes podem ser vistos ao longo desta semana. Se dentro da sala alguém vos/nos reconhecer não tenham/os problemas. Podem/os sempre dizer: "O quê? Mas não é um filme do Dziga Vertov que está programado para hoje???"
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Tudo isto e muito mais em http://www.cinemateca.pt
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LA HABANERA

Está tudo fora de tom. O filme passa-se, supostamente, em Porto Rico, mas foi rodado nas Ilhas Canárias, pouco antes do começo da 2ª Guerra Mundial. Todos os porto-riquenhos falam um alemão irrepreensível e a habanera (habanerrra, que é como eles dizem no filme) é originária de Cuba. Para além disso, repare-se no perfil nórdico da latina femme fatale do filme: alta, de pele branquíssima (tinha, na verdade, nacionalidade sueca), com mãos enormes e tranças à valquíria wagneriana.
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O filme é um melodrama mas o resultado desta cena é mais divertido que outra coisa.
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Em português o título era O veneno dos trópicos e vi-o na Cinemateca há mais, bem mais, de 25 anos. O realizador, Detlef Sierck (1900-1987), emigrou, pouco tempo depois deste filme ter sido concluído, para os Estados Unidos. Americanizou o nome para Douglas Sirk, tendo-se tornado um reputado, mas não muito considerado, director de filmes dramáticos. A sua obra tem vindo a ser reabilitada em tempos recentes. Voltarei a Douglas Sirk um dia destes.
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segunda-feira, 23 de Novembro de 2009

PECADO ORIGINAL

A recordação da travessia aventurosa do Parque da Liberdade leva-me direitinho a um dos quadros da minha vida: La cacciata di Adamo ed Eva dal Paradiso Terrestre, de Masaccio (1401-1428). Confesso que gosto mais de ver a pintura "fora de contexto", que no seu local de origem, à entrada da capela Brancacci, onde a representação se perde por entre a magnificência do resto da Chiesa di Santa Maria del Carmine. Adão e Eva são expulsos e todo o drama do castigo se reflecte de forma exemplar na dor e na vergonha do momento. Espantosa é ainda a maturidade desta obra de Masaccio, que haveria de falecer prematuramente.
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O frescos estiveram, durante longos anos, envoltos nas ramagens do pudor. Podemos vê-los hoje em toda a sua magnificência.
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A pintura de Masaccio, antes e depois do restauro, outra forma de dizer pudor...

ARGEL VI - O PARQUE DE TODAS AS LIBERDADES

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Caía a noite em Argel quando resolvemos encurtar caminho, entrando pelo Parque da Liberdade. Dentro de momentos teria lugar mais uma reunião do projecto Discover Islamic Art. "Por aqui vamos mais depressa", dissera o Boussad. Segui atrás dele.
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Quando começámos a subir as alas, parque acima, não pude deixar de reparar nas raparigas de lenço branco que enchiam os bancos do parque. Um bando de devotas muçulmanas, de traje a rigor, gozando o fim de tarde. Não estavam sós, porém. Em cada banco, em cada canto do parque, cada rapariga, de lenço branco na cabeça e de longo traje da ortodoxia islâmica, tinha junto a si um rapaz. O parque era o sítio de todas as liberdades. Os lenços estavam já um pouco à banda, os beijos tinham o calor da liberdade, as mãos desapareciam por entre os trajes da ortodoxia. "Les mains sont baladeuses", comentaria depois o malicioso Boussad. É sempre assim, entre gestos escondidos, que começam a cair as ortodoxias. "Por aqui encurtamos caminho", dissera o Boussad e eu fui atrás dele, de passo cada vez mais apressado e sem virar a cabeça.
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O Parque da Liberdade fica entre a Rua Didouche Mourad e o Boulevard Krim Belkacem.
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O Musée National des Antiquités et des Arts Islamiques foi inaugurado em 1897, o que faz dele o mais antigo da Argélia. Na altura em que o projecto teve início, em 2003, o seu director era o Dr. Lakhdar Driass. Várias peripécias fizeram com que eu próprio acabasse por estabelecer com o grupo argelino uma ligação que passou, em muito, a simples relação profissional. O museu tem como actual directora a minha colega Houria Cherid, que integrou a equipa do projecto Discover Islamic Art.

De entre a importante colecção do Museu aqui vos deixo este nicho em estuque, proveniente de Sedrata e datado do período rustemida (século X).

O site do museu, http://www.musee-antiquites.art.dz/, não faz justiça à colecção. Refira-se, contudo, que o site é recente e representa um importante passo em frente para colmatar uma lacuna que se fazia sentir.

domingo, 22 de Novembro de 2009

"AJUDE-ME, POR FAVOR!"

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A minha cadeira mexeu um pouco, não muito, alguém a puxava. Sem tempo para pensar, virei-me e dei de caras com uma mulher, que não era nova nem velha, nem bela nem feia. O "ajude-me, por favor!" soou logo a seguir e fiquei a olhar para os olhos dela, que eram olhos de medo e de desespero. Mas só depois é que pensei nisso, que os olhos dela eram de medo e de desespero. Naquele momento, fitei só a mulher, nem nova nem velha, nem bela nem feia, que se agarrava à minha cadeira e me pedia ajuda. O café calara-se e só a estúpida da telenovela "desconfie dessa mulher, meu amor" soava no aparelho, lá no alto. A mulher continuava agarrada à minha cadeira, puxando atrás de si uma miúda, quinze dezasseis anos, que puxava em sentido contrário e tinha, também, olhos de medo e de desespero, como os da mulher. "Ajude-me a levar a minha filha para casa!", primeiro um pedido, depois uma súplica, depois um sussurro, a voz mais baixa, cada vez mais baixa, a olhar-me com aqueles olhos assustados. O café calado, a filha da puta da telenovela com a conversa do costume "meu bem, eu te adoro, não me deixa não" e por aí fora, e os meus amigos e eu a olharmos para a mulher e para a miúda, mudos, quedos, e sem nada para dizer ou fazer. Um minuto antes, tínhamos o Mundo na mão, discutíamos o Iraque, o Governo, o futuro, tínhamos todas as certezas e todas as respostas e agora uma mulher dizia-me, com medo e desespero, "ajude-me, por favor!", e eu nada, nem um som, nem uma ideia. Apetecia-me fugir porta fora, deixando osamigos, a mulher, a miúda, o café e a telenovela imbecil, mas só consegui ficar a olhar para as duas, paralisado e mais idiota que a televisão. "Ajude-me a levar a minha filha para casa, que tem lá um filho com um ano e meio!". A garota tinha ar disso mesmo, de garota, vestia de cor-de-rosa, é a única cor que me ocorre quando penso nela. Poucos, muito poucos anos antes, tinha bonecas e uma festa de anos na escola. "Ajude-me, por favor!", as bonecas estavam esquecidas ou talvez não, as festas de anos eram uma recordação em papel de fotografia. Ficava agora uma miúda de quinze dezasseis anos, com um bebé de um ano e meio, olhos de medo nela e na mãe, que talvez pensasse "e se eu lhe falto? o que vai ser dela?", mas que naquele momento só a queria levar para casa. Continuei mudo, por uma eternidade de meio minuto, a olhar para as duas e para os olhos das duas e para o desespero das duas.
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"Vá com a sua mãe para casa!", berrou, enfim, um homem gordo de bigode, encostado ao balcão do café. A mulher arrastou a miúda de cor-de-rosa, tavez fosse outra cor mas isso pouco importa, pela porta fora, perdendo-se na noita fria de Castelo Branco. O silêncio continuou por um instante, antes de se retomar o barulho e do som da telenovela "meu bem, meu amor" continuar, idiota como antes. Saímos do café pouco depois, pela mesma rua fria onde pouco antes a mulher arrastara, com medo e desepero, a miúda de cor-de-rosa.
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Crónica publicada em A Planície, em 1 de Fevereiro de 2005.
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Que imagens melhor exprimem a angústia? A resposta é banal, mas sincera. Mais do que quaisquer outros, os pintores expressionistas deram corpo a esse sentimento. Resisti a reproduzir O grito, mas este A onda (1921), de Edvard Munch (1863-1944), e a Natureza-morta com máscaras (1896) de James Ensor (1860-1949) levam-nos, em linha recta, a um universo torturado.

sábado, 21 de Novembro de 2009

CRISTOVÃO COLOMBO ERA SOLTEIRO?

Descansem, que não é mais uma daquelas teses disparatadas, mas apenas uma deliciosa boutade com que Lopes Guerreiro resolveu fechar a noite de ontem. O texto pode e deve ser lido num belíssimo blogue que sigo atentamente e que já ganhou lugar cativo no meu quotidiano. Antes de clicarem aqui deixo o aviso: abstenham-se os/as defensores/as furiosos/as das quotas, das paridades e coisas assim. E, sobretudo, os/as macambúzios/as.
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E, caso leias este post, deixa-me que te diga, caro Lopes Guerreiro: para quem, desde há muito, faz vida de nómada, há ali frases que me são estranhamente familiares.

sexta-feira, 20 de Novembro de 2009

DO BRANCO À COR

O branco é a ausência de cor ou a junção de todas as cores? Será, mas a brancura da cal, fotografada pelo tunisino Jellel Gastelli (n. 1958) é tão expressiva como o colorido sumptuoso da arquitectura de Luis Barragán (1902-1988). A brancura pode ser barroca? Claro que pode. Tanto quanto a cor pode parecer quase despojada.
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Para estes criadores aqui vai uma homenagem, em forma de poema:
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Curiosidades estéticas
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O mais importante na vida
É ser-se criador - criar beleza.
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Para isso,
É necessário pressenti-la
Aonde os nossos olhos não a virem.
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Eu creio que sonhar o impossível
É como que ouvir uma voz de alguma coisa
Que pede existência e que nos chama de longe.
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Sim, o mais importante na vida
É ser-se criador.
E para o impossível
Só devemos caminhar de olhos fechados
Como a fé e como o amor.
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ANTÓNIO BOTTO

E AMANHÃ COMEÇA A FEIRA DO LIVRO DE MÉRTOLA

Programa e mais informações em:
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http://www.cm-mertola.pt/cm-mertola/upload/cm-mertola/img/feiradolivro2009.pdf



ADITAMENTO A UM DESMENTIDO FORMAL

Podendo o anterior texto – sob o título DESMENTIDO FORMAL – ter causado algumas dúvidas cabe-me esclarecer que não foi / não é / não será minha intenção “apontar o dedo” a sectores, secções ou serviços da Câmara Municipal de Moura. Ninguém está sequer autorizado a dizer ou insinuar que “aquilo” era dirigido a uma secção em concreto.

Limitei-me a reportar um facto preciso, que me chegou de fonte mais que fidedigna.

Tive, e tenho, com estes comunicados um objectivo: clarificar responsabilidades e, até, levar os munícipes a questionarem-me directamente sobre assuntos pendentes e que sejam da minha directa responsabilidade.

NB: Não serão publicados comentários sobre este post.

quinta-feira, 19 de Novembro de 2009

LES MAINS DE LA FRANCE

Ce ne sont pas des mains d'artiste,
De poète proprement dit,
Mais quelque chose comme triste
En fait comme un groupe en petit ;


de um poema de Verlaine

nem eu sei porque é que me lembrei disto...

O MALCOM McDOWELL DA BOITE DO REGO

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O João foi buscar-me a um bar da zona da Praça das Flores, o After Eight, poiso de rapazolas como eu, de balzaquianas à procura de emoções e de uma certa esquerda desiludida e a caminho da via alcoólica para o socialismo. O pretexto? "Vai reabrir um bar na zona do Rego, o dono convidou-me para ir até lá e é capaz de ser giro". Para não ser antipático, lá fui.
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O bar era o Rei Cuango (fechou há muito) e ficava na Rua Carlos Reis. O sítio estava quase às moscas, a fazer lembrar uma das cenas finais do filme Nova Iorque fora de horas, com umas pequenas madeirenses que por ali cirandavam e com a grande atracção da noite, o disc-jockey (na altura ainda não se dizia "didjei") Paulo Leston Martins, creio que já falecido.
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Foi uma noite temível. O disc-jockey às tantas, imagino que por deferência do dono do estabelecimento, dedicou-me uma música e uma das pequenas foi-me buscar para dançar. Insistiu, depois de saber que estudava no Instituto Britânico, em falar inglês comigo, "só para treinar". Não faço ideia que falta lhe faria saber inglês numa boîte do Rego, mas enfim... O inglês da moça era péssimo, mas isso não a coibiu de comentar para o patrão: "O miúdo não é nada de especial a dançar, mas no inglês dá uns toques."
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Às tantas comecei a ficar farto daquilo e fiz um ultimato ao João. Convenceu-me a tomarmos um último whisky. Fez bem. Porque assisti a uma cena absolutamente única. O empregado tinha ar de doidivanas e era um perfeito sósia do Malcom McDowell. Com um ar dominador, pegou na garrafa, prendeu a tampa no globo ocular e manteve a garrafa suspensa, enquanto a girava rapidamente pela base. Acto contínuo, e sempre com a tampa pendurada, à guisa de monóculo, serviu o whisky de uma altura superior a um metro, sem falhar os copos nem desperdiçar uma gota. Ao ver-me boquiaberto fez um ar de triunfo.
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Saímos, o João e eu, sozinhos, pouco depois. Ao recordar o Malcom McDowell da Rei Cuango não posso deixar de pensar que Jim Jarmusch ou Quentin Tarantino gostariam de o ter conhecido.

ARGEL V - DA QASBAH ALTA À QASBAH BAIXA

"E pode visitar-se a qasbah?", foi a minha pergunta. Mustafah, motorista da embaixada, olhou para mim quase ofendido. Claro que se podia visitar a qasbah. E do centro da cidade me levou à qasbah alta. O começo não foi muito prometedor. Entrámos a pé por uma rua bloqueada ao trânsito. Era aí que ficava o comissariado da polícia. A esquadra estava blindada, com as janelas protegidas por uma rede de aço. O chefe da esquadra era amigo do Mustafah. Um personagem de filme, baixote, de gestos rápidos e bigodinho cínico. Eu queria visitar a qasbah? Claro que podia. Em voz de comando chamou quatro calmeirões para me acompanharem na "visita". Saímos. Eu no meio, e os quatro polícias à minha volta, munidos de metralhadoras. Senti-me seguríssimo... O passeio durou escassas centenas de metros. A partir de uma determinada zona "não havia condições". Dias depois, pedi ao Mustafah para descer junto à mesquita Ketchoua, na qasbah baixa, perto do mar. Perguntou-me se eu achava que era o Indiana Jones. Fiquei esclarecido.
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Só cinco anos mais tarde me foi dada a possibilidade de cruzar a pé todo o bairro.

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A qasbah de Argel, um denso emaranhado de ruas, ruelas e becos, é Património da Humanidade desde 1992. Sítio hostil às agressões ou ameaças exteriores foi alvo de particular repressão por parte da colonização francesa. Que chegou a fazer uma extensa rua (a actual Abderrahmane Arbadji), de forma a cortar o bairro ao meio.
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Imagem de cima: La casbah d'Alger de Henry Valensi (1883-1960), tela pintada por volta de 1920
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Imagem de baixo: Um simpático sufi, que me enfiou na aljama de Argel e me apresentou ao mufti da mesquita. Tem na mão uma edição antiga das tradições islâmicas, a fundamental obra de El-Bokhari.

quarta-feira, 18 de Novembro de 2009

DESMENTIDO FORMAL

Venho por este meio divulgar dois mails remetidos aos trabalhadores da Câmara Municipal de Moura (em 9.2.2009 e em 18.11.2009).

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Boa tarde a todos

Enviei, no passado mês de Fevereiro, uma mensagem com o título “o processo está para despacho do vereador” (cf. infra), a todas as pessoas que, no município, têm correio electrónico.

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Fui, há dias, confrontado com uma situação particularmente desagradável. Um empresário de Moura tinha uma escritura pendente de um documento camarário que estava, uma vez mais, “a aguardar despacho do vereador”. A frase surpreendeu-me, até porque não tinha qualquer documento para despacho.

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Não sei, nem quero saber, quem profere frases desse género. Entendo, contudo, que a óbvia falsidade das mesmas não é inocente. Significados e objectivos políticos à parte, aqui fica o essencial da questão, e repetindo, com algumas alterações, o que em Fevereiro escrevi:

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  1. Em caso algum, e quando confrontado com falhas ou atrasos (reais ou mais ou menos imaginários) dos serviços camarários me desculpei com os funcionários ou com este ou aquele departamento;
  2. Não preciso, por outro lado, de me esconder atrás de ninguém para justificar as minhas falhas e omissões. Quando falho, assumo a falha e peço desculpa. Procuro, sobretudo, corrigir os meus próprios erros;
  3. Não posso, por isso, aceitar ser usado como pretexto para justificar quaisquer atrasos na resposta aos munícipes;
  4. Devo também clarificar que entendo o cargo de vereador como uma missão e um serviço público;
  5. Procuro, por esse motivo, estar disponível para atender os munícipes e, sempre que possível, resolver no mais curto prazo de tempo as questões que me são colocadas;
  6. Documentos essenciais para escrituras, registos etc., são assinados na hora e sem qualquer tipo de entraves;
  7. Outros processos que venham para meu despacho são devolvidos ou no próprio dia ou no dia seguinte. Despachos com mais de 48 horas são uma raridade e têm, por norma, uma justificação precisa;
  8. Exceptuam-se, como é natural, as poucas ocasiões em que me ausento de Moura;
  9. Não tenho processos para despacho neste momento;
  10. Entendo, portanto, que a repetição injustificada de frases deste género têm apenas por objectivo denegrir-me ante os meus conterrâneos. E essa é uma atitude que não posso admitir.

Creio, enfim, que o transitório desempenho das funções de vereador (isto são apenas alguns anos na nossa vida) não mudará o essencial da minha atitude e da forma como me relaciono com os meus conterrâneos. E este princípio não é susceptível de alteração.

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Estou também solidário com o Presidente da Câmara e com os meus colegas de vereação que são, injustificadamente, fustigados com afirmações do género das que me tiveram como alvo.

Mais informo que irei publicar estes textos no meu blogue pessoal. Serão os mesmos também difundidos através da minha lista de mails.

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Cumprimentos,

Santiago Macias

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De: Santiago Macias
Enviada: segunda-feira, 9 de Fevereiro de 2009 10:22
Para: Todos os utilizadores
Assunto: O PROCESSO ESTÁ PARA DESPACHO DO VEREADOR

Bom dia a todos

A frase que encima este texto é frequentemente ouvida a propósito de processos de obras particulares, direitos à informação etc – tenho mesmo sido pessoalmente confrontado com a mesma nas ruas do nosso concelho a este respeito – sem que eu saiba qual a origem, nem me interesse averiguar o assunto.

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Para que conste, e porque a inverdade não deve ser deixada à solta, aqui vos deixo estas afirmações:

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1. Os processos que vêm para meu despacho são devolvidos ou no próprio dia ou no dia seguinte. Despachos com mais de 48 horas são uma raridade e têm, por norma, uma justificação precisa.

2. Exceptuam-se as poucas ocasiões em que me ausento de Moura.

3. Não preciso de me esconder atrás de ninguém para justificar as minhas falhas e omissões. Quando falho, assumo a falha e peço desculpa. Procuro, sobretudo, corrigir os meus próprios erros.

4. Não tenho processos para despacho neste momento.

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Podem divulgar este mail junto de terceiros.

Com os melhores cumprimentos

Santiago Macias



O meu gabinete, de acordo com algumas visões delirantes (a imagem foi produzida pelo notável fotógrafo Jan Banning, que fez um projecto sobre a burocracia no mundo)
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NB: Não serão publicados comentários sobre este post.

segunda-feira, 16 de Novembro de 2009

DUBUFFET BY FAIREY

Foi criado um dos primeiros grandes ícones do século XXI: o cartaz de Obama, Hope, por Shepard Fairey (n. 1970). Era difícil, em artes gráficas, fazer melhor, com tanta simplicidade e com tanta carga política.
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Fairey usa intensamente o vermelho e o azul, as cores da bandeira americana. Se falássemos em termos arqueológicos, diriamos que a tipologia das duas imagens não tem nada a ver. E, contudo, que ninguém me queira convencer que Fairey não se lembrou, ainda que de forma remota ou inconsciente, do uso da cor que Jean Dubuffet (1901-1985) fazia, designadamente neste auto-retrato, de 1966.


domingo, 15 de Novembro de 2009

O QUE É O GÉNIO?

Tendo em conta a semana que se aproxima o melhor é começá-la assim...

No início desta cena do filme Amici miei ouvem-se os acordes, um pouco ao estilo do mambo, de Bella figlia dell'amore, uma conhecida ária de Verdi. O que se passa de seguida no interior daquele palácio da alta sociedade merece ser visto. Mais que uma vez.

Che cos’è il genio? È fantasia, intuizione, decisione e velocità di esecuzione. Esta é a frase chave da cena que vos deixo e que deverá, ainda assim, ser evitada pelos que não apreciam humor escatológico. O filme ficou também célebre pela invenção da palavra supercazzola (pretexto para a incompreensível frase Tarapia tapioco come se fosse Antani con la supercazzola prematurata con scappellamento a destra), pela cena da despedida na gare ferroviária e pela inovadora interpretação da ária do Rigoletto que acima referi. 

É uma obra-prima da comédia italiana e relata as aventuras, nem sempre muito recomendáveis, de um grupo de amigos de meia-idade da cidade de Florença. Amici miei (Oh, amigos meus, na tradução portuguesa) foi um sucesso enorme na época. Bem que podia passar de vez em quando na televisão...

 

O filme devia ter sido realizado por Pietro Germi (1914-1974), que escrevera o argumento, mas o desaparecimento prematuro deste pôs a realização nas mãos de Mario Monicelli (n. 1915). O inesquecível grupo era constituído por Ugo Tognazzi (1922-1990), Gastone Moschin (n. 1929), Philippe Noiret (1930-2006), Duilio Del Prete (1938-1998) e Adolfo Celi (1922-1986).

O humor de Oh, amigos meus, tem, também, um toque de melancolia e de sentimento. Mas no sul gostamos das coisas assim, não é verdade?

ARGEL IV - OS DIAS E AS MIRAGENS (2ª parte)

Continuação de:

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A Argel colonial está ainda por toda a parte. Nas ruas, nas tais arcadas onde não se poderá fotografar por razões de segurança, nos palacetes que coroam as colinas em volta do Mediterrâneo. E em sítios como o antigo hotel St. George, instalado em 1889 sobre os restos de um velho palácio hispano-mourisco. Apesar dos trabalhos de renovação com que há 20 anos o paramentaram com um pesado gosto de carpetes e cortinados de decoração densa, no St. George persiste uma aura de brilho que nem as obras conseguiram apagar. As marcas do tempo ficaram amarradas à parede. Haveremos de encontrar fotografias de um tranquilo almoço do Natal de 1920 no jardim do hotel; mais adiante, uma placa junto à entrada do quarto 1101 assinala, respeitosamente, que ali viveu, entre 1942 e 1943, o general Eisenhower. Muito pouco - aquilo que ficou nas fachadas das áreas menos tocadas pela fúria dos melhoramentos - se consegue identificar dessas velhas fotografias. Mesmo assim, justifica-se ainda o “ainda há paraísos”, dito pelo escritor Henry de Montherland depois de uma estadia no St. George .
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É essa ainda um pouco a imagem da cidade de hoje. A descrição feita pelo grande geógrafo al-Idrisi em meados do século XII diz apenas que “Argel se situa à beira-mar; os seus habitantes bebem água doce proveniente de fontes situadas perto do mar e de poços. É uma cidade muito povoada, de comércio florescente, bazares muito frequentados e manufacturas movimentadas”. Embora os livros nos contem toda a saga de Argel ao longo de milénios – cidade de marinheiros, piratas, aventureiros, comerciantes, diplomatas e de todos os desesperados do mar Mediterrâneo -, a sua face actual começou apenas a ser construída após 1830, quando os franceses tomam posse daquele apetecível troço do Norte de África. A pirataria e o corso foram a justificação para as operações militares que se iniciaram naquele ano, com o desembarque de 37000 homens em Sidi Ferruch, e que se iriam prolongar durante muito tempo, sem que a europeização e a cristianização do território alguma vez tivessem sido aceites pelos africanos.
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Ao longo de mais de um século será construída uma próspera e atraente metrópole colonial. Tirando partido do relevo a cidade vai estender-se muito para lá da velha casbah, ocupando os cerros em volta das zonas mais antigas. É, enfim, um pouco da Europa burguesa e capitalista que se vai instalar em pleno Magrebe. A organização urbana da cidade de El-Djezair (as ilhas) há-de, por isso, ser mudada. Os rochedos que deram nome ao aglomerado foram unidos, por força de um enorme aterro, ao continente, criando-se aquele que hoje é conhecido por “velho porto”. A casbah, que antes se estendia até à beira-mar, foi cortada por novas avenidas, ficando apenas, como memória desses tempos, uma pequena ilhota de casas com uma rua a que se deu o nome de “bastião 23”.
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Imagino que terá sido esse sonho de um tempo perdido que deixaram para trás os pieds-noirs (os retornados da Argélia) quando se viram forçados a abandonar esse canto do Norte de África. Nos dias seguintes à independência do país, em Julho de 1962, 5000 pieds-noirs morrerão ou desaparecerão, no meio de infindáveis vinganças. Perto de um milhão sairá em tropel nos meses seguintes.
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E se a memória desses acontecimentos trágicos ficou apenas na memória dos que os viveram, a história da luta da independência está escrita em cada rua e em cada esquina de Argel. Terão morrido entre 300000 e 600000 pessoas, muçulmanas ou cristãs, civis ou militares. Os números precisos jamais serão conhecidos, tal como nunca saberemos da amargura dos refugiados, dos orfãos, dos que foram presos ou deslocados. Fala-se em um milhão de mártires, o que justifica até hoje um culto obsessivo e ao qual não se escapa em Argel.
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A começar pelo monumento aos mártires em Riadh el Feth, que se avista de toda a cidade. O colosso em betão armado e gosto duvidoso alia a memória dos combatentes a um bizarro pragmatismo que voltaremos a encontrar mais vezes. Debaixo do memorial existe um centro comercial, meio-vazio por força da crise económica. E se o triplo obelisco não nos deixa esquecer os mártires, a verdade é que os voltamos a encontrar a cada esquina. Uma das grandes avenidas da cidade é o Boulevard des Martyrs; aos pés da casbah há a Place des Martyrs. Passeamos rodeados por mortos. Uma das grandes artérias comerciais recorda o combatente Didouche Mourad (comandante das forças independentistas na zona de Constantina, abatido em 1955). A outros heróis que não viram o dia da independência – Aït Homouda Amirouche, Youcef Zirout, Mustafa Ben Boulaïd, Mohamed Larbi Ben M’hidi - está também reservado lugar de destaque na toponímia da cidade.E esse aspecto tão ligado ao sacrifício humano parece quase pertencer à genética argelina. Desde há muito que os mártires, de hoje e de ontem, estão presentes na geografia do país. Ao longo de toda a costa multiplicam-se os santuários dos primeiros tempos da cristandade. Em todos eles há basílicas e memórias dos mártires desses dias, a história e a vida de homens e mulheres que morreram em nome de uma crença e de uma causa. Como ainda hoje sucede em Argel, onde os mártires e o sofrimento humano parecem surgir a cada esquina. A paz e uma longínqua tranquilidade são a segunda miragem de Argel.
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sábado, 14 de Novembro de 2009

HOCKNEY: OUTRAS NATUREZAS

A reprodução de uma pintura de Josefa de Óbidos e a expressão natureza-morta (um género que nunca me entusiasmou especialmente) fez-me lembrar a obra de um pintor que tem na sua obra algumas naturezas-mortas, mas que se celebrizou, nos anos 60, por pinturas como a que se reproduz mais abaixo. David Hockney (n. 1937) nunca foi, na realidade, um artista pop, embora, por vezes, essa designação lhe tenha sido atribuída. A sua obra evoluiu deste aparentemente frio e gráfico formalismo para tons mais quentes, quase matissianos. Nos últimos anos tem pintado, sobretudo, retratos e a natureza, lida num desenho cada vez mais livre. Haveria que juntar num percurso já longo o trabalho do domínio da fotografia e no desenho.
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A página web do artista é excepcional:
http://www.hockneypictures.com/
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Imagem de cima: A bigger splash (tinta acrílica sobre tela), 1967
Imagem de baixo: Hockney fotografado por R. Mapplethorpe, 1976

TopCo

Ouvi o anúncio, ontem à noite, num dos telejornais. Vai nascer a terceira maior companhia aérea do mundo: a TopCo, resultado da fusão da Iberia e da British Airways. O nome não me parece muito bom, a lembrar uma empresa de compressores. Estou certo que os executivos estudaram a matéria até à exaustão. Como naquele cartoon de Sempé, em que é necessário escolher um nome para uma pomada para sapatos e finalmente se opta pela onomatopeia ZGROUTICH (zgrouitchez vos chaussures...).
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Nomes à parte, já se começaram a fazer contas: as duas companhias, em conjunto, somam mais de 400 aviões, muitas centenas de destinos e perto de 55.000 trabalhadores. Apareceu, numa conferência de imprensa, um serventuário do capitalismo (gosto destas expressões à MRPP) a dizer, com toda a fleuma, que a fusão implica "some job losses". Em linguagem fria, some job losses são despedimentos, hipotecas por vencer, os estudos dos filhos atirados para as calendas gregas, as pensões em risco. Some job losses é uma linguagem fria e sem vergonha...
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A fusão de gigantes desta dimensão não se faz, seguramente, à margem dos governos. A nova companhia irá ou não voar para Gibraltar? 
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sexta-feira, 13 de Novembro de 2009

A CÂMARA DOS DIAS DA ARCÁDIA

Este foi o meu primeiro aparelho fotográfico, um Ferrania 1014. Tinha 10 anos quando mo deram. Acompanhou todas as incursões pelas margens do Ardila, até cerca de 1980/81. Era todo em plástico e com uma pequena lente fixa. Funcionava (funcionava é maneira de dizer...) com umas cassetes de formato 126, que deixaram de se fabricar há dois ou três anos.
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A marca, Ferrania, vai buscar o nome à cidade onde está a sede da empresa. O modelo 1014 é do princípio dos anos 70. Não faço ideia o que será feito da relíquia que animava os nossos acampamentos.

NATUREZA-MORTA

O pretexto foi uma colecção de peças de cerâmica recolhida há pouco mais de 30 anos nos terrenos do Convento de Santa Clara, em Moura. Foram salvas, in extremis, por João da Mouca, então responsável pela Biblioteca Municipal e a quem o Município ficou a dever a recolha de um significativo espólio arqueológico.
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Anos mais tarde pude, em conjunto com Miguel Rego, estudar estes materiais, apresentados pela primeira vez num encontro de arqueologia, em Castro Verde, em 1988. Muitos mais anos se passaram até que publicássemos, em 2005, o livro Convento de Santa Clara (Moura) - um conjunto cerâmico do século XVII. O estudo está, ainda, incompleto. Pode ser que, antes da reforma, o Miguel e eu tenhamos tempos para mais uns acertos.
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A pintura de Josefa de Óbidos (1630-1684) foi providencial para nos ajudar a enquadrar cronologicamente os materiais de Santa Clara. A peça mais parecida - é quase idêntica, aliás - com a do quadro tem o nº de inventário 691 CER. Reproduzo outra por ser mais legível graficamente.

Temos então um conjunto de peças - muitas delas são finíssimas e dir-se-ia pertencerem a um boudoir feminino -, que podemos datar do século XVII e que, com toda a probabilidade, foram produzidas em ateliers da zona de Lisboa ou do Alto Alentejo. É um tema em aberto e ao qual talvez volte, um destes dias.

FACE EXPOSTA

Face Oculta? Qual face oculta?
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Desde que o princípio da justiça-espectáculo impera em Portugal que nada é oculto. Nem o segredo de justiça, nem o direito à privacidade, nem os documentos classificados. Como se faz para se saber o andamento de um processo judicial de grandes dimensões? A resposta é fácil: basta comprar o Correio da Manhã ou o 24 horas.
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Face Oculta? Era aconselhável que o sr. procurador renomeasse o processo como Face Exposta...
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APAGÃO

Um jornal da Lusitânia comentava ontem que o apagão que afectou parte do Brasil "prejudicou a imagem de modernidade (...) que o Presidente brasileiro tem procurado projectar".
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Não há nada como um pouco de preconceito neo-colonial...
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O apagão durou duas horas. Fico a cogitar o que terá o mesmo jornal dito, a propósito de modernidade, no dia em que a região nordeste dos Estados Unidos ficou sem energia durante várias horas (14 de Agosto de 2003). Sabendo-se que, nessa altura, várias unidades industriais ficaram de tal modo afectadas que só retomaram a laboração normal uma semana mais tarde.
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quinta-feira, 12 de Novembro de 2009

ARGEL III - ELSIE HERBERSTEIN

Dei há dias, numa daquelas gavetas onde guardamos as coisas que não queremos deitar fora e a que não sabemos exactamente o que fazer, com um postal do porto de Argel, publicado por Elsie Herberstein (n. 1963) em 2004, e que ela mesma me deu poucos dias depois de ter sido impresso, durante um jantar num restaurante de nome pomposo e fora de contexto: Le Béarnais.

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Cidadã do mundo, Elsie estava nessa altura no Magrebe, preparando um livro, Alger, simples confidences, que saiu um ano depois na Jalan Publications. Não sei se a cidade me pareceu algum tão espantosamente colorida como ela a desenhou, mas Elsie é, ela mesma, uma pessoa colorida. Os seus cadernos de viagens vão do Cambodja à África do Sul e do Tibete à Guatemala. Não voltei a encontrá-la, mas sei, pela sua página na net, que continua a desenhar e a publicar. É pouco provável que Elsie tenha alguma vez ouvido falar do poeta Ibn Sara (1043-1123), mas este poema, que não é sobre Argel, evoca-me a cidade de forma impressiva, e em tons muito próximos daqueles que ela a viu.

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"Os viajantes da noite murmuram o teu nome
e as areias do deserto derramam sobre quem te pisa
o perfume do almíscar.
E da formosura da invocação sabemos da beleza do invocado
como pelo verdor das margens se pressente o rio".
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Ibn Sara era natural de Santarém.
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Para mais informações sobre o trabalho e o percurso de Elsie Herberstein veja-se

quarta-feira, 11 de Novembro de 2009

AMIGOS PARA SEMPRE - III

As fotografias de Oliviero Toscani (n. 1942), em especial as que concebeu para a Benetton, foram sempre marcadas pela beleza, pela audácia e pela polémica. A da mulher negra que amamenta o bebé branco foi das mais contestadas. Gosto dessa, da do jovem moribundo - uma fotografia feita no limite do admissível eticamente - e, em especial desta. Amigos para sempre? Para a eternidade.
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Amiga

Deixa-me ser a tua amiga, Amor,
A tua amiga só, já que não queres
Que pelo teu amor seja a melhor,
A mais triste de todas as mulheres.

Que só, de ti, me venha mágoa e dor
O que me importa a mim?! O que quiseres
É sempre um sonho bom! Seja o que for,
Bendito sejas tu por mo dizeres!

Beija-me as mãos, Amor, devagarinho ...
Como se os dois nascêssemos irmãos,
Aves cantando, ao sol, no mesmo ninho ...

Beija-mas bem! ... Que fantasia louca
Guardar assim, fechados, nestas mãos
Os beijos que sonhei prà minha boca! ...

Florbela Espanca, in "Livro de Mágoas"

A imagem dos religiosos que se beijam, assim castamente (acho que é castamente) é inspiradora. Palavras como as dos poemas fazem sentido nestes, e noutros, momentos. E Florbela Espanca é uma poetisa para a Eternidade.
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Página web de Oliviero Toscani:

http://www.olivierotoscani.com/

EU DIRIA MESMO MAIS...

Timothy Garton Ash e Teresa de Sousa são o Dupond e Dupont da geopolítica europeia. Mas só europeia.

A LILI CANEÇAS DE OXFORD

Numa entrevista publicada ontem:
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"O mundo é cada vez menos parecido com a Europa" (Timothy Garton Ash)
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Ligeiramente, mas só ligeiramente, melhor que o inesquecível estar vivo é o contrário de estar morto.

PENSAMENTO MATINAL

O calcanhar de Aquiles. O tornozelo de Ronaldo.
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Onde andam os Homeros do nosso tempo? Quem contará a saga às gerações vindouras?
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terça-feira, 10 de Novembro de 2009

ONE FROM THE HEART

Já não se fazem filmes assim...

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É uma história banal (Teri Garr veio depois dizer que o filme era muito intelectual, vá lá um cristão perceber porquê...), de desencontros e de amores. Por norma, uma coisa e outra estão associadas. O filme tem fantasia e alguma inocência. São elementos que a deliberada artificialidade de Do fundo do coração acentua:

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A rodagem foi inteiramente realizada em estúdio, pelo que os exteriores são falsos;

A cidade onde decorre a acção é Las Vegas, uma cidade cenário e que vive à margem do mundo real;

O sol, o céu, a chuva são de plástico;

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As pessoas no filme andam à procura do Amor e do Paraíso (nome da agência de viagens que vemos surgir nos primeiros momentos), mas não sei se, de facto, os encontram. Mas encontram momentos de fantasia e de ilusão. E Coppola sabe passar as ideias para o écran como ninguém. Bendito arrojo de fazer um filme assim, sem ter a noção que era difícil fazê-lo passar junto do grande público...

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Concebido também como desafio aos estúdios de Hollywood, Do fundo do coração atirou a Zoetrope Studios para a falência e fez Coppola passar um mau bocado.

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Do fundo do coração foi desprezado e ridicularizado. Os fracassos são, com frequência, mas estimulantes e interessantes que os êxitos. Quando o vi, em 1982, sofria de mal de amores. O filme não me ajudou mesmo nada nessa altura, mas talvez tenha gostado dessa primeira vez que o vi por causa disso mesmo. Aqui vos deixo o seu início, com as vozes contrastantes de Tom Waits e de Cristal Gayle.

MUROS MUITO MENOS POPULARES QUE O DE BERLIM

Os muros são, sempre foram, uma forma de nos separar a nós, os "bons", dos outros, os "maus". De nós, que somos a "ordem", dos outros, que são o "caos". A vida da morte, a riqueza da pobreza. Podem multiplicar as oposições sff.
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De baixo para cima:
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O muro de Adriano - construído no século II em Inglaterra, não era uma estrutura defensiva capaz de impedir uma invasão, mas sim uma forma de dissuadir a entrada de pequenos bandos e de imigrantes (já então...) indesejados. Era também um símbolo do poder de Roma.
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O muro entre o México e os Estados Unidos - cerca de 1000 km. de muro. 5.000 (cinco mil) mortes nos últimos 13 anos, segundo a Human Rights National Commission of Mexico. A imprensa ocidental tem sido menos lesta a denunciar este tipo de situações que o foi no caso do muro de Berlim. E, no entanto, do ponto de vista da dignidade do ser humano, não percebo em que é que a situação é menos grave. Provavelmente, é-o bem mais.
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Muro a delimitar uma favela no Rio de Janeiro - a incapacidade total do poder político ante a degradação da situação económica e social. As justificações poderão ser piedosas, mas denotam, antes de mais, falta de resposta adequada.
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Muro na Palestina e em Gaza - vergonha maior do início do século XXI, foi concebido e executado ante o silêncio do ocidente. As justificações são longas e escondem o essencial do problema: a imposição da lei da força e a expulsão dos palestinianos das terras que sempre lhes pertenceram. Todos os dias espero que Obama, essa esperança de coisa nenhuma da nossa esquerda descafeinada chegue a Telavive e brade, alto e bom som: "Mr. Netanyahu, tear down this wall!".
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O fotógrafo em frente do muro é Larry Towell (n. 1953). De origem canadiana, alia a sua grande capacidade de repórter - é membro da mítica agência Magnum - à visão política. No seu cartão profissional lê-se apenas "Larry Towell, ser humano".
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Todos estes muros existem. São testemunho de quem os constrói e oprime os outros. Só me pergunto porque raio se fez tanto alarido à volta do muro de Berlim e se esquecem, todos os dias, estes símbolos da repressão. Porque será?

FRANCIS FORD COPPOLA

O cineasta americano Francis Ford Coppola (n. 1939) veio ao Estoril dizer que está "cheio de ideias". Oxalá que sim. Desde 1982, com Do fundo do coração, que não faz um filme digno de figurar na História do Cinema. E a partir daí, fez apenas três filmes muito bons: Os marginais, Juventude Inquieta e Drácula. O último data de 1992. Coppola só sabe fazer filmes bons. Mas para quem fez dois que são absolutamente geniais - Apocalypse now e Do fundo do coração - esperamos sempre mais.
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NB: não vi Youth without without e ainda não vi Tetro.
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segunda-feira, 9 de Novembro de 2009

BERLINER MAUER

Os dados são mais que conhecidos: o muro de Berlim foi construído na madrugada de 13 de Agosto de 1961. Tinha uma extensão de 66,5 km de gradeamento metálico e compreendia ainda 302 torres de observação, 127 redes metálicas electrificadas. Dezenas de pessoas morreram tentando cruzar o muro de Berlim para chegar ao sector ocidental da cidade. Nenhuma foi morta ou capturada na direcção inversa.

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O muro foi abaixo, faz hoje vinte anos. O assunto tem, ao longo do dia, suscitado várias reflexões interessantes, como a da Francisco Seixas da Costa. A queda do muro não foi a causa do que viria a suceder nos anos seguintes, mas sim a consequência de décadas de governação dominada por uma elite que se tinha, podemos dizê-lo sem hesitações, acomodado e aburguesado. E corrompido moralmente. Na realidade, a derrota do bloco de leste começa na década de 50 e não trinta anos depois. A derrocada desenha-se com o derrube, processo sumário e vegonhosa execução de Imre Nagy. Repetindo o que ontem escrevi num comentário, no blogue A cinco tons: pensava-se que com o socialismo nasceria o Homem Novo. Bastaria o desejo de transformar a sociedade e sua transformação aconteceria. Não bastou e não aconteceu. E a absoluta estatização da vida levaria - e levou - ao tédio, ao desinteresse e à burocratização do sistema. A absoluta estatização matou também as ambições individuais, esse sal necessário à diferenciação e ao desejo de fazer mais e melhor. A completa burocracia da criação matou as vanguardas, controlou o pensamento e deu corpo a polícias políticas.

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Onde esteve então a vantagem do socialismo e quais as diferenças em relação ao nazismo? A primeira parte da questão liga-se com a segunda. Sem o socialismo de leste teria tardado muito mais a libertação do Terceiro Mundo. Sem a difusão do ideário marxista, a tomada de consciência dos povos colonizados não teria tido a pujança que teve e o sopro libertador que varreu África nos anos 50 e 60 do século XX seria muito mais lento e feito de acordo com o tempo das antigas potências. Estas acabaram, décadas mais tarde, por recuperar o terreno perdido, mas isso é já outra história… E a dinâmica libertadora que, à sombra inspiradora do socialismo, varreu o mundo do pós-guerra não tem paralelo de qualquer tipo nos regimes nazi-fascistas, aos quais a palavra SOLIDARIEDADE foi sempre repulsiva. Dizer e, pior, tentar provar o contrário é uma obscena mentira e uma falácia sem classificação. E nunca será de mais sublinhar que é nas forças de esquerda, com os comunistas à cabeça, que reside a esperança de libertação de vastos sectores do planeta. O laboratório político da América do Sul tem, nesse aspecto particular, ainda muito a dizer.

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Porque sou, no meio de todas as contradições, militante do Partido Comunista Português? Por algumas das razões que me levariam a não o ser num país de leste nos anos 50, 60 ou 70. Antes de mais pela necessidade que há hoje em combater o "establishment". Porque há uma proximidade em relação aos mais desfavorecidos que não vejo noutros partidos. Porque gosto de estar junto do povo, no seio do qual nasci. E porque reconheço no PCP uma ética de actuação e uma modéstia nas atitudes que não vejo também noutros. Estarei sempre deste lado da estrada. Até ao dia da tomada do poder ou até ao momento em que a tentação do pensamento único quiser prevalecer.
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De outros muros, bem menos populares junto da dócil comunicação social que temos, apresentarei alguns dados amanhã.

O ISLÃO ENTRE TEJO E ODIANA

Recebi, há pouco, um mail do Campo Arqueológico de Mértola, anunciando que a exposição O Islão entre Tejo e Odiana está patente em Arraiolos até ao próximo dia 27.
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Li o mail com uma sensação estranha - seria nostalgia? -, por ver que ainda mexe um projecto que eu próprio concebi em 1996 (!) e que a exposição, montada pela primeira vez, em Évora, em 1997 (!), ainda circula. Percorreu dezenas de concelhos - sobretudo da região alentejana -, mostrando, em pouco mais de uma dezena de painéis, os aspectos mais visíveis da presença islâmica em terras do sul. Pensava eu que a mostra estava, em definitivo, arrumada. Enganei-me. Às vezes é bom estarmos enganados.
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O projecto O Islão entre Tejo e Odiana foi financiado pela CCRA desses tempos já distantes.
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Detalhe de peça em corda seca total do Museu de Mértola

ARGEL II - OS DIAS E AS MIRAGENS (1ª parte)

O velho 727 da Air Algérie descreve uma curva apertada e quase acrobática, 360º que causam ansiedade e mal-estar em alguns passageiros. O avião vai descendo depressa, inclinado sobre o lado direito o que nos faz trocar, por momentos, a vista da terra pela do mar, poucas centenas de metros mais abaixo. Alguns minutos mais tarde aterramos, com rapidez e brusquidão, na pista da aeroporto Houari Boumediene, em Argel. Quando saímos, já o aparelho está rodeado por um grupo de militares de metralhadora em punho, olhando desconfiadamente a área em volta. A que país vim eu parar, é a primeira pergunta que faço, sem esperança de ter resposta.


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Não teria vindo a Argel, se tivesse dado ouvidos aos conselhos que me deram. Um país em ebulição, uma guerra civil latente e os atentados não fazem de Argel o melhor dos sítios para fazer turismo ou dissertar sobre arqueologia.


E, contudo, a violência pouco tem de inédito naquela parte do Magrebe. Desde 1980 que a subida do integrismo islâmico começou a pôr os nervos em franja ao poder político argelino. Manifestações estudantis, prisões e mortes foram marcando uma escalada de violência que desembocaram nos graves tumultos de 5 de Outubro de 1988 em Bab el-Oued, bairro popular de Argel. Duas semanas mais tarde hão-de contar-se por centenas os mortos.


A espiral começa, em definitivo, nesses dias. Os islamistas do FIS (Frente Islâmica de Salvação) conquistam a confiança dos bairros populares e irão ganhar, com mais de 50 % dos votos, as eleições locais e regionais de Junho de 1990 e, com 47, 5 %, a primeira volta das legislativas em Dezembro de 1991. O resto da história é bem conhecido: anulação das legislativas, prisão dos lideres integristas, estado de sítio, mais prisões e massacres, perseguições a jornalistas e a quadros superiores, assassinato de estrangeiros, a guerra civil instalada quase até hoje. No meio não faltarão vozes a acusar os militares de estarem por detrás de muitas das acções atribuídas ao FIS, bem como de serem os responsáveis pela corrupção e, em última análise, pelo empobrecimento da população.


Nada disso é visível à chegada, apesar do espalhafato das metralhadoras, nem no percurso que a viatura da embaixada faz pelas ruas de Argel, por entre subidas e descidas rodeadas de vegetação frondosa e onde, de vez em quando, se consegue ter uma vista do centro da cidade, com a casbah ao fundo, o Mediterrâneo à direita e um céu baço por cima. As areias do Saara chegam até aqui e dão ao ar um tom acastanhado. A primeira miragem de Argel é o céu azul, que não dará sinais durante toda uma semana.


Imaginamos sempre os sítios que não conhecemos, como se pudéssemos conceber e urbanizar cidades distantes. Construímos ruas que nunca existirão, praças que não foram construídas, ambientes que são estranhos à realidade, ficcionamos cores e pessoas. Foi um pouco diferente com Argel. Sabia das ruas largas e das longas arcadas de ar acolhedor, que vira em tempos no célebre “Z, a orgia do poder”, supostamente passado algures mas rodado na margem sul do Mediterrâneo. Sem que o tivesse dito a ninguém, era por causa daquele filme e das ruas que mostrava que agora ali estava.


Durante muitos anos, tive de Argel essa imagem dos tempos coloniais, numa cidade pouco magrebina e africana ainda menos. Entre o centro de Argel e o extremo norte da cidade, no bairro de Bab el-Oued, repetem-se os prédios do princípio do século. Colunatas, janelas de desenho elaborado e frontões de recorte neo-clássico dão aos edifícios um ar próspero e por momentos julgamos estar numa cosmopolita cidade europeia.

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Primeira de três partes de uma reportagem publicada no Diário do Alentejo no Verão de 2000. A viagem tivera lugar durante a Primavera desse ano. A fotografia (tirada por volta de 1880) mostra o porto, com os edifícios, já da era colonial, ao longo do Mediterrâneo e a cidade antiga por detrás.

sábado, 7 de Novembro de 2009

AMIGOS PARA SEMPRE - II

Antes de me remeter a um silêncio de 48 horas - até segunda-feira, por volta da hora do almoço, altura em que "viajarei" entre Argel e Berlim - aqui fica uma fotografia, que não é das mais citadas, de Henri Cartier-Bresson (1908-2004).

A fotografia foi feita em 1969, em Simiane-la-Rotonde, no sul de França. Como tantas outras imagens de Cartier-Bresson é de uma aparente simplicidade. O "truque" esteve sempre em transformar o instante decisivo em momentos sublimes. A pose dos dois amigos, em primeiro plano, expressa bem a cumplicidade e a perenidade das amizades de infância, aquelas que, juramos naquela altura, são para sempre. Com o passar dos anos são semi-esquecidas. Com o passar de mais anos começamos a ganhar a certeza que nos dias de infância tinhamos razão.

sexta-feira, 6 de Novembro de 2009

MAIS MOURENSES

Um leitor anónimo estranhou o meu desconhecimento em relação a nomeações para os prémios MAIS ALENTEJO. Reitero que disse - no site da revista não consegui obter informações - e só através de um blogue cheguei aos nomeados. Aqui deixo, com todo o gosto, o nome dos meus conterrâneos que estão nessa lista:
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Mais Autarca - José Maria Pós-de-Mina
Mais Política - Sílvia Ramos
Mais Teatro/Televisão - Isaac Alfaiate
Mais Literatura - João Mário Caldeira
Mais Artes - Silvestre Raposo
Mais Desporto - Miguel Garcia
Mais Manjares - O Celeiro / Sabores da Estrela
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Fotografia Carlos Monteiro. APEL. Funchal.

BERLIM - 1945

Agora que tanto se fala de Berlim - e a Berlim "voltarei" no dia 9 - é hora de prestar homenagem a um dos nomes maiores da fotografia do século XX. Refiro-me a Yevgeny Khaldei (1917-1997), nascido na Ucrânia no seio de numa família judia. Não ter nascido no ocidente fez com que o seu nome seja conhecido num círculo relativamente restrito. O que é pena, porque o á-vontade com que Khaldei se movimentou entre o experimentalismo e a fotografia de reportagem, o seu talento e sentido plástico fazem dele um artista à altura de George Rodger ou de Robert Capa.
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A fotografia do soldado soviético no topo do Reichstag, uma das mais extraordinárias (e célebres) imagens da 2ª Guerra Mundial, tem vários detalhes "picantes". Relato um deles: a fotografia que a imprensa então publicou teve que ser retocada. É que o soldado exibia dois relógios, um cada pulso. Não havendo necessidade de saber as diferenças de fuso horário entre Berlim e Moscovo era mais que evidente que o conquistador se dedicara a plácidas tarefas de pilhagem...
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À falta de melhor veja-se: http://www.chaldej.de/

LÓGICA E.M.

O que é?
A Lógica – Sociedade Gestora do Parque Tecnológico de Moura, EM, é uma sociedade comercial, constituída sob o tipo de empresa municipal, que iniciou actividade em final de Fevereiro de 2008.
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Missão
Instalação, Desenvolvimento e Gestão do Parque Tecnológico de Moura, bem como a prestação dos serviços de apoio necessários à sua actividade.
Promover actividades de Investigação, Desenvolvimento Tecnológico e Demonstração (I&DTD) na área das energias renováveis em parceria com a indústria e entidades do Sistema Científico e Tecnológico.
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A LÓGICA E.M. tem uma nova página web:
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É bom ver o nosso concelho na vanguarda.
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A arte cinética de Victor Vasarely (1908-1997) representa o dinamismo do futuro à nossa frente. Bem sei que Vasarely teve uma fase de popularidade que não se reflecte nos nossos dias, mas continuo a achar interessante o seu exprimentalismo.

quinta-feira, 5 de Novembro de 2009

SUBITAMENTE, CECÍLIA MEIRELES

RETRATO

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.
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Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.
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Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
_ Em que espelho ficou perdida
a minha face?
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Subitamente, outra inspiração, com as palavras de Cecília Meireles (1901-1964). Não foi difícil encontrar uma face que exprimisse, de forma enigmática, a tristeza e a melancolia do retrato. Poderia ter recorrido aos olhos de Anna Magnani. Preferi o ar distante, de tudo e de todos, de Jean Seberg, num filme que já aqui foi citado e que nunca poderei esquecer: Bonjour tristesse.

RECOMEÇO

E assim começa em pleno o novo mandato autárquico. O despacho assinado ontem pelo Presidente da Câmara determina, de forma que a seguir se resume, a seguinte distribuição de pelouros e competências.
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José Maria Prazeres Pós-de-Mina (PCP) - Presidente da Câmara
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Terá a seu cargo a coordenação das quatro áreas definidas no organograma em vigor.
Terá sob a sua responsabilidade directa o Departamento de Gestão, de Recursos Humanos e Financeiros e os serviços que, de acordo com o organograma, dependem directamente do presidente.
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José António Linhas Roxas de Oliveira (PCP) - Vice-Presidente da Câmara
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Responsável directo pela Divisão de Obras Municipais e Conservação e pela Divisão de Serviços Urbanos e Ambiente. Será ainda responsável pela secção administrativa do Departamento Técnico Municipal.
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Maria José Fialho Silva (ind.) - Vereadora em regime de permanência
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Responsável directa pelo Departamento Sócio-Cultural e pelo Espaço de Informação às Mulheres.
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Santiago Augusto Ferreira Macias (PCP) - Vereador em regime de permanência
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Responsável directo pela Divisão de Planeamento e Administração Urbanística e pela Divisão de Apoio ao Desenvolvimento e Assuntos Comunitários

SERRA DE SERPA

Há uns vinte anos a zona do Alentejo onde vivemos tinha a designação, directa e verdadeira, de Zona Crítica Alentejana. Depois, vieram os burocratas e passou a ser extensivo o uso de siglas: NUT, OID, PNPOT, etc. etc. O interior alentejano não deixou de o ser e os problemas não despareceram. Apenas as conversas se tornaram mais sofisticadas.
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A RTP apresentou ontem uma reportagem sobre os montes da Serra de Serpa que continuam a não ter energia eléctrica. Como habitante no território e como apaixonado pelo jornalismo e pela comunicação fiquei, no mínimo, surpreendido com a abordagem escolhida por Mafalda Gameiro. Depois de entrevistar os habitantes e de ouvir as suas queixas, virou as atenções para a Central Fotovoltaica de Brinches e para a Câmara de Serpa. Que disseram da sua justiça, embora, e sei-o por experiência própria, as autarquias sejam sempre o alvo mais fácil de atingir e o elo mais fraco nesta cadeia.
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Enquanto habitante no território e enquanto cidadão português não percebi porque raio a jornalista não entrevistou ninguém da EDP, nem nenhum responsável governamental. Ou um deputado, já agora.
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Fiquei sem saber coisas que gostaria de ter ficado a saber:
1. Qual a responsabilidade social de empresas como a EDP?
2. Conta apenas o lucro (e que lucros a EDP tem tido!) ou há outro tipo de compromissos para com os cidadãos?
3. Tem o Estado o mesmo tipo de tratamento em relação aos habitantes do litoral e aos do interior? Tem o interior mecanismos de compensação?
4. Que tipo de apoio podem aqueles agricultores - não estamos a falar de casas de férias - esperar?
5. Quanto custaria a electrificação dos montes da Serra de Serpa? Quanto é que isso representa, em termos de percentagem, dos lucros da EDP?
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Sim, já sei que as perguntas são de uma absoluta ingenuidade... Mas são aquelas que acho que deveriam ter sido feitas e não foram.
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ET IN ARCADIA EGO

Quebrando um hábito meu aqui se publica um post quase privado. Ou melhor, feito a pensar em tempos que já lá vão. E em coisas de que ficaram boas recordações.
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Este é também um post exclusivamente mourense e dedicado aos amigos com quem passava as férias de Verão. À falta de capitais para irmos para o Algarve organizávamos acampamentos nas margens do rio Ardila. Como este, feito em Agosto de 1980.
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Foi, talvez, o último acampamento que fizémos. O ambiente não era exactamente o de "Reviver o passado em Brideshead", que li por essa altura, mas a memória de um tempo feliz e despreocupado ficou. Não há ninguém que não tenha passado por isso...


Em baixo, de guarda ao garrafão e a fumar um cigarro, assim com ar à malandro: António Raposo. É hoje um pacato comerciante, estabelecido no centro da cidade. Não vale a pena perguntar pelo snack-bar do sr. Raposo. Toda a gente em Moura o conhece por Tarugo.
Em cima, e da esquerda para a direita: Rafael Rodrigues, José Francisco Moita, Mário Catarrunas e o autor do blogue.

quarta-feira, 4 de Novembro de 2009

ARGEL I - DO FILME ÀS RUAS DA CIDADE

Aqui se inicia uma série de dez textos ou evocações da cidade de Argel. É uma das mais belas cidades do Mediterrâneo, mesmo tendo em conta que não conheço a costa da Dalmácia.

O primeiro fascínio nasceu quando vi o filme Z (1969), de Costa-Gavras (n. 1933), de que aqui deixo um breve excerto. A película inspira-se nos acontecimentos que envolveram o assassinato do deputado comunista Gregoris Lambrakis (1912-1963), ocorrido em Tessalónica. A impossibilidade de rodar o que quer que fosse na Grécia, obrigou os produtores a recorrerem a Argel. Nunca mais esqueci as ruas que vi no filme, nem as extensas arcadas junto ao porto, nem as escadarias que vencem as escarpas junto ao mar.

Há nove anos pude ir, pela primeira vez, a Argel. Alguns anos depois travei amizade com um editor e livreiro argelino, que participara no filme como figurante. Foi ele que me permitiu conhecer a outra cidade de Argel. O regresso não tardará.


SUBITAMENTE, RAINER MARIA RILKE

Mas se tentasses...
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Mas se tentasses isto: de mãos dadas seres
para mim como no copo de vinho o vinho é vinho.
Se tentasses isto.
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Subitamente, uma inspiração. Sem que o esperasse, Rainer Maria Rilke (1875-1926) cruza-se-me no caminho. Nada melhor que esta fotografia, este Un beso (1996), de Helena Cabello e Ana Carceller para dar outro corpo às palavras.