sábado, 23 de janeiro de 2010

ATÉ JÁ

Bem sei que em Bissau também há computadores e internet. Ainda assim, a minha atenção estará virada para outros temas. Assim sendo, retomo a actividade do blogue no próximo dia 1 de Fevereiro.
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sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

NELSON EDDY E JEANETTE MacDONALD

Ao passar esta tarde pelo Quai de Gesvres deu-me o coração um baque. Daqueles que já só dão raramente. Estava à venda uma velha revista, que tinha na capa o grande duo Nelson Eddy e Jeanette MacDonald. Só os que têm mais de 45 anos compreenderão o significado profundo da minha angústia. Que é a mesma de muitos da minha geração. As tardes de domingos dos nossos tempos de infância eram, periodicamente, assombradas pelos filmes de Nelson Eddy e Jeanette MacDonald. As nossas mães gostavam imenso, porque choravam imenso com aquelas histórias muito tristes, a puxar ao sentimento e com canções xaroposas à mistura. Os filmes eram pior que o "Deus me livre", ele sempre vestido com aquelas fardas da Real Polícia Montada do Canadá e com as sobrancelhas depiladas à António Calvário, ela muito loirinha e de olhinhos apaixonados.
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O duo está hoje mais que esquecido. Mas não aposto que seja para sempre.
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quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

DE POMPEIA A ROISSY

Quando o aeroporto de Roissy foi inaugurado era apresentado como o exemplo máximo de eficácia e de comodidade. Garantiam então que o passageiro tinha apenas de percorrer a pé um máximo de 75 metros desde o momento em que saía do taxi ou do autocarro e entrava no avião. Nada de novo, afinal. A mesma lógica de conforto é verificável em cidades como Pompeia, onde as casas estavam a uma distância máxima dos pontos de abastecimento de água.
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Em Pompeia o sistema colapsou no dia em o Vesúvio assim o entendeu. Em Roissy não há mortes, felizmente, mas a eficácia prevista entrou há muito em crise e há sempre nervos em franja. Os espaços abertos de outrora deram lugar a barreiras e mais barreiras, obstáculos e mais obstáculos, percursos labirínticos e à prova de lógica. Em especial na zona mais antiga do terminal 2. O conforto e o racionalismo são uma miragem. E o que foi preparado para a "eternidade" tem, manifestamente, os dias contados.
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O ALENTEJO E A INVESTIGAÇÃO CIENTÍFICA


Fotografia: http://alentejanando.weblog.com.pt
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Um texto hoje publicado no blogue A CINCO TONS punha em causa a validade de um determinado centro de investigação da Universidade de Évora, tendo em conta uma classificação supostamente negativa atribuída pelo painel de avaliadores da Fundação para a Ciência e a Tecnologia. Julgo ser interessante a publicação da lista completa das entidades avaliadas pela FCT e cuja actividade está relacionada com o Alentejo:
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EXCELLENT

Centro de Estudos e Formação Avançada em Gestão e Economia da Universidade de Évora (CEFAGE-UE)

Coordenador Científico: Cesaltina Maria Pacheco Pires

VERY GOOD

Instituto de Ciências Agrárias Mediterrânicas - ICAM

Coordenador Científico: Maria do Rosário Gamito de Oliveira

Centro de História da Arte e Investigação Artística (CHAIA)

Coordenador Científico: Christine Mathilde Thérèse Zurbach

Centro de Estudos Arqueológicos das Universidades de Coimbra e Porto / Campo Arqueológico de Mértola

Coordenador Científico: Maria da Conceicao Lopes

Centro Interdisciplinar de História, Culturas e Sociedades da Universidade de Évora

Coordenador Científico: Mafalda de Sousa Machado Soares da Cunha

GOOD

Centro de Investigação em Matemática e Aplicações - CIMA

Coordenador Científico: Vladimir Alekseevitch Bushenkov

Centro de Química de Évora

Coordenador Científico: Peter Joseph Michael Carrott

Centro de Geofísica - Évora

Coordenador Científico: Ana Maria Guedes de Almeida e Silva

Unidade de Investigação em Música e Musicologia - UnIMeM

Coordenador Científico: Benoît Gibson

Centro de Estudos de História e Filosofia da Ciência (CEHFC)

Coordenador Científico: Maria de Fatima Nunes

FAIR:

Centro de Investigação em Ciências e Tecnologias da Saúde

Coordenador Científico: Peter Prosper Auguste Elodie Vogelaere

Centro de Investigação em Sociologia e Antropologia-Augusto Silva

Coordenador Científico: Eduardo Alvaro do Carmo Figueira

Centro de Investigação em Educação e Psicologia da Universidade de Évora

Coordenador Científico: António Manuel Águas Borralho

Mais informações sobre os processos de avaliação em:
http://alfa.fct.mctes.pt/apoios/unidades/avaliacoes/

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

COLLEGE D'ESPAGNE

Foi extremamente interessante a sessão que hoje decorreu no Collège d'Espagne. O seminário Islam médiéval d'occident, organizado por uma unidade conjunta de investigação que reúne as Universidades de Paris I e IV tem este ano como tema as Constructions politiques, organisation et contrôle du territoire dans l’Occident islamique médiéval. E se o território de Beja, que apresentei, pode ser sempre interessante pelo seu exotismo - a realidade do nosso período islâmico é muito pouco conhecida fora de portas - tive a sorte de ter como colega de mesa Jean-Pierre Van Staevel, um historiador de grande categoria, que se debruçou sobre a região do Sous, no sul de Marrocos. Os alunos e professores presentes contribuiram para a animação da sessão com perguntas e observações, num debate que se prolongou para lá da hora prevista. Deve ter corrido bem, porque me convidaram para a próxima saison.
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Parte menos boa: à saída falei na Casa de Portugal, que se encontra no mesmo complexo. Nenhum dos presentes tinha ouvido alguma menção a tal sítio. Isso dá razão a um lamento do embaixador de Portugal, escrito há dois meses. Sobretudo, e tendo em conta a visibilidade do Collège, torna-se evidente que o nosso "desaparecimento" é também o reflexo da falta de investimento das entidades oficiais (e não-oficiais) neste domínio. E sem investimento não há retorno.
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Que imagem escolher para ilustrar este Islão do Ocidente? Tânger, cidade de rara beleza. Que o é por causa do porto, por causa da baía, por estar às portas do Mediterrâneo, pelos cafés do Petit Zoco. Cidade de má reputação, e pouco turística, conserva o charme das coisas que estão um pouco fora do tempo. Comprei este postal, por um preço escandalosamente baixo, em Setembro de 1999, num antiquário de Tânger. Foi uma forma de perpetuar no tempo a minha memória da cidade e para festejar o facto de termos (o Francisco Motta Veiga, a Conceição Amaral e eu) sugerido a cidade como local da Cimeira Luso-Marroquina. A exposição foi, em termos de carreira, importante. Mais importante ainda foram amizades que ficaram e que o tempo foi sedimentando.
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Informação sobre o seminário:
http://www.diwan.info/spip.php?article483

100.000

Obrigado a todos.
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SOBRAL - REDE DE ÁGUAS E ESGOTOS

As obras de renovação da rede de águas e esgotos começaram ontem. Não pude, por ter outros compromissos já assumidos, estar com os meus colegas de vereação, e com o presidente da junta, a assistir ao início da obra. Mas sinto-me feliz pelo começo dos trabalhos e por outro compromisso assumido ganhar agora forma.
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terça-feira, 19 de janeiro de 2010

AIR FRANCE OU AR FRANÇA?

Vivi, há poucas horas, um momento de verdadeira boa disposição a bordo do voo para Paris. O comissário de bordo, um jovem luso-francês, resolveu ignorar o livro dos discursos e improvisou. Disse, textualmente, o seguinte: "os senhores passageiros deverão desligar os telemóveis antes de os arranjar" (do fr. ranger: arrumar).
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Pois...
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INTER-CIDADES

Permanece para mim com um dos mistérios da Pátria o facto de muita gente preferir usar sempre, mas sempre mesmo, viatura própria ao combóio. Um dos bons exemplos de um serviço cómodo, rápido e económico é o Inter-Cidades Beja-Lisboa (2 horas e 5 minutos entre a capital do distrito e Sete Rios). O público desta manhã era, como sempre, maioritariamente constituído por reformados.
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Duas notas de viagem:
1. O revisor ostentava na lapela a bandeira arco-íris do orgulho gay. Para os que dizem que as mentalidades no nosso País não mudam. Alguém imaginaria uma situação parecida há 20 anos? Ou, até, há 10?
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2. Ao passar sobre o IC 20 (antigamente conhecido como Via Rápida para a Costa, embora de rápida só tivesse o nome) diverti-me a observar que o antigo bar para adultos (chamavam-se boîtes e era o sítio onde iam senhores casados sem as respectivas) O SELIM ostenta uma faixa onde se lê CAPARICA PELES. O ramo é outro, claro, mas que há pontos de contacto, lá isso há.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

ANTÓNIO CAMÕES GOUVEIA

António Camões Gouveia, professor na Universidade Nova, é o novo director do Museu de Évora. A notícia, que há vários dias estava a correr, teve agora confirmação oficial. Um percurso profissional de elevada craveira - com uma passagem pela Comissão dos Descobrimentos - e uma extensa experiência profissional na área da divulgação cultural são razões mais que suficientes para se saudar esta nomeação. Parabéns, António!
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Fotografia: Notícias de Castelo de Vide

JORNALISMO ALENTEJANO

"Manuel e Aurora Guerreiro são dali perto, de Corte do Pinto, mas só ontem arranjaram um tempinho para espreitarem o bailado furioso das águas." Onde vem esta afirmação? No Público. O que tem de invulgar? É que o ali perto refere-se à distância entre a barragem de Alqueva e a Corte do Pinto. Qual a distância real? Uns 75 km. bem contados. Ou, como dizemos no Alentejo, "é logo ali".
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A imagem, arranjada na net, refere-se a um Prémio de Atletismo na Corte do Pinto. Os moços estão com ar de quem vai começar a correr. Mas não deverão, em princípio, ir até à Barragem de Alqueva, apesar desta ser perto.

SMORZANDO

Nos próximos dias a actividade do blogue vai em smorzando.
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Não é preguiça, nem falta de tema. Compromissos externos a isso obrigam. O primeiro é bom, o segundo também. Primeiro, a participação num colóquio sobre o Islão no Ocidente no período medieval, em França. Depois, uma deslocação a Guiné-Bissau integrando uma delegação do Munícipio de Moura. Ficarei mais uns dias, por minha conta, a fotografar e a preparar textos. Nem uma nem outra actividades me devem deixar grandes oportunidades para blogar.
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Irei, contudo, cumprindo os chamados "serviços mínimos" e, sempre que possível, colocando algum texto novo.
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E para a minha amiga BB aqui fica um Kandinsky. Quem quiser ver uma corrida de bicicletas na qual Kandinsky terá participado é só clicar aqui.

sábado, 16 de janeiro de 2010

MANUEL ALEGRE

O histórico dirigente socialista Manuel Alegre declarou a sua disponibilidade para ser candidato à presidência da república. Traduzindo de forma mais clara: Manuel Alegre vai ser candidato.
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O Bloco de Esquerda, que dispara mais rápido que a própria sombra, já veio declarar o seu apoio à candidatura.
Vitalino Canas, do PS, já veio dizer que essa candidatura dividirá seriamente o PS.
José Lello, do PS, já veio dizer que “não posso comentar uma coisa que é a ele que lhe diz respeito. Não me empenharei nem vou obstacularizar [a candidatura], é um problema dele. Não sou entusiasta dessa candidatura, portanto é-me relativamente indiferente”.
Vítor Ramalho, do PS, já veio cinicamente dizer que não pode comentar o que não existe.
Renato Sampaio, presidente da Federação Distrital do Porto do PS, já veio dizer que a sua posição “é a posição oficial do partido” (ainda bem que ele não é do PCP, senão caia-lhe toda a gente em cima, assim o que Sampaio diz é apenas disciplina partidária...).
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Isto promete.
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VAMOS A LA PLAYA, CALIENTA EL SOL!

Pois, todos criticaram e quase crucificaram o ministro Mário Lino e afinal o homem tinha, pelo menos, semi-razão. Quando o ministro falava no deserto da margem sul estava quase certo. Na parte que se refere à areia, pelo menos. É que o seu sucessor na pasta das Obras Públicas, António Mendonça, veio agora dizer que "Lisboa e toda a zona em redor será, provavelmente, a praia de Madrid."
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São assim os horizontes da Pátria. Fazem lembrar uma cena do filme Malteses, Burgueses e às Vezes..., de Artur Semedo. O protagonista repreende um arrumador de carros invocando o país de marinheiros que somos e nosso passado de glória, num discurso empolgado. Remata a prédica prometendo-lhe uma ocupação mais condigna. Cena seguinte: o arrumador de carros está a guardar barcos na doca de Pedrouços...
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Nos tempos em que António Mendonça foi do PCP não era de esperar que ouvisse esta música conformista e decadente. Aqui lhe/vos deixo o inesquecível grupo Los Payos e o não menos inesquecível sucesso María Isabel, que a minha prima Maria me cantava nas férias em Paymogo. São palavras de inspiração e, já agora, de convite, para quem vive em Madrid e arredores. Bute curtir prá Costa da Caparica!
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BECOS DE LISBOA

Não conheço todas as cidades do mundo. Nem nunca irei conhecer uma ínfima parte das que existem. Ainda assim, não tenho dúvidas que, com a provável excepção do Rio de Janeiro, Lisboa é a mais bela cidade do mundo.
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Ainda hoje, tantos anos volvidos sobre os primeiros e solitários passeios na cidade antiga, gosto de voltar as mesmos sítios para, sozinho, me perder de novo na cidade antiga. A melhor recordação data, contudo, de 1996 ou 1997. Conduzia um grupo de amigos franceses, mais velhos, pelas ruas de Alfama. Ao acaso, sem lojas para turistas nem restaurantes típicos. Perto da rua de S. João da Praça há um grelhador com sardinhas em plena rua. O cozinheiro não está à vista. E ei-lo que sai do seu estabelecimento, de tesoura ainda em punho, para, num golpe rápido, mandar uns borrifos de água para o grelhador e virar as sardinhas. Era o barbeiro que, no meio do atendimento, preparava o almoço.
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Ficaram extasiados, como os grupos de excursionistas sempre ficam, quando desembarcam em sítios longínquos e exóticos e vêem coisas que, nos países civilizados, fazem parte dos livros de histórias. Quase tive de jurar que aquilo não era combinado com o homem.
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Acabámos a manhã almoçando numa taberna perto do Chafariz d'el-Rei, entre o cheiro das sardinhas assadas e o sotaque gingão dos lisboetas de Alfama.
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Aqui ficam, para o fim-de-semana, palavras a sério de um bom poeta e duas imagens, a do pintor seguramente melhor que a do "fotógrafo".
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PRIMEIRA CANÇÃO EM LISBOA

Em Lisboa é que nascem as gaivotas.
Que pena, meu amor, o mar não ser
um copo de água pura. De água para
a sede que em Lisboa eu vi nascer.

Em Lisboa. Capital do vento sul.
Coração do meu povo. A doer tanto
que a dor se tornou cor. E é azul
como a ganga dos homens do meu canto.

Em Lisboa a gente morre sem idade.
Devagar. Como se faz uma canção.
E há um pássaro que voa. É a saudade.
E uma janela aberta. O coração.

Joaquim Pessoa


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Imagem de cima - pintura, datada de 1935, de Carlos Botelho (1899-1982), um bom artista plástico, hoje em dia bastante esquecido. A tradução em imagem da topografia de Lisboa, que lhe foi tão cara, é-me ainda hoje bastante querida. E importante em termos profissionais.
Imagem de baixo - fotografia feita pelo autor do blogue, em 2007, algures na zona antiga da capital.

NIGÉRIA

O 10º lugar, em termos de visualizações de  páginas, deste blogue cabe à Nigéria. Outro local qualquer chamaria menos a atenção. Mas a Nigéria...
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A curiosidade matou o gato, mas quem será o mourense que vive por essas bandas? Algo me diz que é um mourense.
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sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

VITÓRIA OU A LEI NÃO É IGUAL PARA TODOS?

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Das duas uma. Ou a lei não é igual para todos ou o movimento OLD LIBERATO pode cantar vitória. O senhor da imperial chama-se Francisco Manta.
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Nota pessoal: há sempre uns intelectuais à séria que acham que na vida não há espaço para a diversão. Tenho recebido mensagens de crítica sobre o pouco interesse deste tema. Meus caros, só passa aqui pela Avenida quem quer...

A NOITE

Filme que pertence à célebre trilogia da incomunicabilidade de Antonioni, La notte, de 1961, retrata um casal num beco sem saída. Giovanni (Marcello Mastrianni) e Lidia (Jeanne Moreau) vagueiam sem rumo, entre pequenas escapadelas, bares nocturnos e festas, num meio burguês e entediado. O filme acaba com Lidia lendo uma carta de amor que Giovanni lhe escreveu antes de se casarem, e da qual ele não se lembra.
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Gostei tanto do filme quando o vi que decidi não repetir a experiência. Há filmes que perdem o encanto e ganham muitas rugas com o tempo. Com o dele e com o nosso, que ganhamos perspectivas diferentes das coisas. Talvez um dia volte a esta noite.
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Eu...

Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada… a dolorida…

Sombra de névoa ténue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!…

Sou aquela que passa e ninguém vê…
Sou a que chamam triste sem o ser…
Sou a que chora sem saber porquê…

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver
E que nunca na vida me encontrou!

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As palavras de Florbela Espanca, a sua tristeza e abandono, têm um ritmo que não é muito diferente do que tem o filme. O filme é lunar, o poema um pouco também. Tragam-nos o sol.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

SÓCRATES E O DEBATE DE AMANHÃ SOBRE O ENSINO SUPERIOR

Mariano Gago deslocou-se duas vezes a Mértola. Foram visitas interessantes, por diferentes ordens de razões. Na primeira foi mais técnico que ministro. Quis saber imensas coisas dos projectos, como funcionava o Campo Arqueológico, quais os projectos que cada um de nós tinha. Tratou-nos por tu e insistiu que todos o tratássemos por tu. Coisa que ninguém fez, claro está. Foi fraterno e portou-se como um colega mais velho que se interessa pelo trabalho dos novatos.
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A segunda visita foi mais institucional mas não menos interessante. Na sessão de apresentação do mestrado Portugal Islâmico e o Mediterrâneo dissertou longamente sobre os desafios do ensino superior. Foi irreverente e contestatário. Manifestou-se contra todos os métodos estupidamente quantitativos de avaliação de carreiras, disse coisas que ninguém esperaria sobre as formas de contratação de docentes no ensino superior e sobre a estupidez da burocracia. Mais parecia o jovem extremista de outrora que o ministro do ensino superior de um país da Europa Ocidental. Não levei o que disse minimamente a sério mas Mariano Gago foi, como sempre, brilhante e convincente.
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Lentamente, vai levando a água ao seu moinho - o da progressiva e discreta privatização do sistema de ensino superior ou, pelo menos, o da crescente, participação do sector privado empresarial no destino das universidades -, embora não se resolva um enigma de base:
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Como vão nos países europeus, com uma tradição mecenática relativamente pobre no apoio às Ciências Humanas, sobreviver essas "inutilidades" do ensino do grego, do estudo da poesia medieval ou da evolução das basílicas na Antiguidade Tardia?
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O Governo escolheu o ensino superior como tema do debate quinzenal de sexta-feira, com a presença do primeiro-ministro, José Sócrates, disse à agência Lusa fonte do ministério dos Assuntos Parlamentares. Deve ser má vontade minha, mas nunca percebi o que é que raio o nosso primeiro terá a dizer sobre o ensino superior. A não ser que seja para ensinar uns truques à malta...

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

THALASSA! THALASSA!

Thalassa! Thalassa! (O mar! O mar!). Foi assim que os soldados gregos comandados por Xenofonte saudaram a visão do mar no Ponto Euxino.
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Este curto parágrafo já foi, em tempos, publicado aqui no blogue. Mas foi essa a sensação - a de estar perante o mar - que tive quando hoje de manhã cheguei à Estrela. A fotografia tem como autor Orlando Fialho.
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E assim a barragem de Alqueva chegou à cota máxima...

PITA AMEIXA: à descoberta do concelho de Moura

E chega Pita Ameixa às terras de Moura e afirma à comunicação social esperar que o município de Moura, por ser liderado pela CDU, não crie obstáculos ao desenvolvimento da freguesia de Amareleja, cuja Junta de Freguesia é, desde as últimas eleições autárquicas, liderada por um movimento de independentes.
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Fico sempre fascinado com estes descobridores. Pita Ameixa aventurou-se em território desconhecido e descobriu coisas. Primeiro, já encontrou o caminho para a Junta de Freguesia de Amareleja. Em anterior deslocação à freguesia não conseguiu lá chegar. Depois, descobriu também o caminho aventuroso e difícil para o Sobral da Adiça. Entretanto, e no meio do périplo, divertiu-se a debitar umas banalidades e umas jonglerias absolutamente confrangedoras sobre o que já se fez noutras freguesias e noutros concelhos. Há coisas na nossa região que são assim. Uma delas é que, a par das coisas boas que temos, somos, de quando em vez, fustigados pelo pita-ameixismo.
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Faço votos que o deprimente Pita Ameixa encontre, em futura vinda a estas terras longínquas, o caminho da Câmara Municipal de Moura. Não por razões de solidariedade política, institucional ou pessoal. Mas apenas por uma questão de boa educação.
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Chapéu colonial - modelo que aconselhamos ao explorador Pita Ameixa em próximas aventuras no concelho de Moura. Está de acordo com um certo modo de descobrir o mundo desconhecido. Para a capacidade de debitar asneiras não há chapéu que lhe valha...

OLD LIBERATO

Há sítios assim e pessoas assim. O Liberato é um sítio que vale pelo sítio, e pelo próprio Jorge. Durante muito tempo pudémos, ao fim da tarde, desfrutar de grandes momentos de convívio ao balcão do Liberato. Em particular nos últimos anos o bar tornou-se uma tertúlia popular. Numa tertúlia popular não se discute filosofia contemporânea, nem literatura, nem pintura, nem coisas assim. Os temas são outros, e têm a ver com a vida de todos nós. Com o dia-a-dia na nossa Moura. São sítios privilegiados de trocas de informação, de um pouco de má-língua e de grande animação ao fim da tarde.

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O Jorge era/é mestre na arte do dichote e da graça a propósito. A gargalhada e a boa disposição foram a imagem de marca de muitas tardes no Liberato.
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Desde o dia 4 de Janeiro, o Jorge acabou com os copos ao balcão. É claro que o ambiente ficou mais pacato, um pouco mais "europeu" e silencioso. É evidente que não vamos deixar de ir ao Liberato ao fim da tarde. Mas é diferente, porque aquele ambiente um pouco andaluz de animação se perdeu.

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Depois de uma breve troca de impressões, e na nossa qualidade de indefectíveis do bar e do direito a bebermos uns copos em pé, e num controlado desassossego, resolvemos tornar público este lamento.

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Corrige lá isso, Jorge! Caso contrário avançamos para o abaixo-assinado e, quiçá, com uma petição na Assembleia da República.

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O presente texto será publicado pelos seus autores, e promotores do movimento OLD LIBERATO, nos seguintes blogues:

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http://castelodemoura.blogspot.com/ (Francisco Manta)

http://pdmoura.blogspot.com/ (Harley)

http://rentearelva.blogspot.com/ (Rafael Rodrigues)

http://avenidadasaluquia34.blogspot.com/ (Santiago Macias)

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Fotografia de um final de tarde "clássico" - tirada do blogue http://oliberato.blogspot.com

Mandem sff mensagens de protesto para rest.liberato@sapo.pt ou oliberato@gmail.com

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

A CHUVA CHOVE...

A chuva chove mansamente... como um sono
Que tranqüilize, pacifique, resserene...
A chuva chove mansamente... Que abandono!
A chuva é a música de um poema de Verlaine...
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E vem-me o sonho de uma véspera solene,
Em certo paço, já sem data e já sem dono...
Véspera triste como a noite, que envenene

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... Num velho paço, muito longe, em terra estranha,
Com muita névoa pelos ombros da montanha...
Paço de imensos corredores espectrais,

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Onde murmurem, velhos órgãos, árias mortas,
Enquanto o vento, estrepitando pelas portas,

Revira in-fólios, cancioneiros e missais...
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Jackson Pollock (1912-1956), figura de proa do expressionismo abstracto, cultivou uma técnica conhecida como "dripping" (gotejamento). Não usava pincéis, no sentido em que habitualmente estes são utilizados. Lançava a tinta sobre a tela, colocada no chão, usando por vezes regadores ou arrastando os pés sobre a superfície sobre a qual trabalhava. Lembrei-me do nome de Pollock (chovendo sobre a tela, na imagem de cima), de cujo trabalho não sou um fã de primeira linha, nestes dias em que toda a água do céu parece cair sobre Portugal.

Cota da barragem de Alqueva às 23 h. de ontem: 151.90

LISBOETAS E JOSÉ TRIBOLET

Numa cena do filme Lisboetas, de Serge Tréfaut, uma mulher oriunda do leste europeu (Rússia ou Ucrânia, se não estou em erro), fala ao telemóvel com alguém do seu país de origem. A mulher está sentada na praia e descreve Portugal com a calma de uma adquirida traquilidade. E que diz ela? Que o país é magnífico e que as pessoas são simpáticas. Que o clima é óptimo e que há segurança nas ruas. O monólogo vai por aí fora até a mulher referir o sistema de ensino. Que classifica como muito fraco, sem rigor nem níveis de exigência.
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Ontem à noite, apanhei, por acaso um excerto do programa "Prós e Contras". No meio daquela chatura sem dimensão achei graça a uma intervenção, meio enfurecida e genuína, do Prof. José Tribolet. Clamava que era necessário "trabalho, trabalho, trabalho" e "disciplina, disciplina, disciplina".
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Nem mais. Tanto a mulher de leste como o Prof. Tribolet tocam num ponto sensível: o da falta de exigência e da ausência de métodos de trabalho que rodeiam o nosso ensino. Os curricula do secundário estão cheios de inutilidades pomposas como Estudo Acompanhado, Formação Cívica e de carnavaladas inconsequentes como Área Projecto. Ao todo, uma série de horas atiradas à rua. O trabalho de memorização (que horror!) foi atirado para a Pré-História, a leitura dos clássicos passou a passatempo, o trabalho duro de aprendizagem tornou-se uma amável reinação.
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No "meu tempo" é que era bom? Não era. Havia um ensino mais elitista, havia menos possibilidades de intercâmbio, havia menos ferramentas e uma tecnologia incomparavelmente mais atrasada. Ora, justamente por termos todo esse leque de possibilidades é que deveríamos dar passos em frente. Não é isso que está a acontecer. Não há disciplina alguma, nem se incute nos jovens estudantes a ideia que um curso, uma carreira, um trabalho de investigação, implicam muitas horas de trabalho, frequentemente solitário, e de sofrimento. Resultado: se antes tinhamos um ensino pensado para o terciário urbano, hoje temos um ensino que criou nichos para a formação de super-elites. Justamente o contrário que a democratização preconizava...
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Bibliothéque Nationale de France, Paris

Divirto-me hoje a recordar que, na Associação de Estudantes da Faculdade de Letras, algumas colegas (sobretudo elas) me chamavam "monge" pelas horas gastas na biblioteca ou "alemão", por ser um partidário do trabalho persistente. Elas não tinham razão. Sempre achei, e hoje tenho a certeza, que trabalho intenso não é incompatível com diversão intensa. Muito pelo contrário.

domingo, 10 de janeiro de 2010

MUROS E MUROS ERGUENDO

O primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, aprovou hoje a construção de uma barreira em dois segmentos da fronteira com o Egipto e a instalação de um sofisticado equipamento de vigilância para impedir a entrada no país tanto de imigrantes ilegais como de militantes armados. “Esta é uma decisão estratégica para garantir o carácter judeu e democrático de Israel”, explicou o líder da direita israelita no anúncio de um projecto que, segundo o diário "Ha’aretz" irá custar 1500 milhões de dólares (16.700 milhões de euros). Nos últimos anos, milhares de africanos entraram em Israel pela fronteira egípcia, fugindo à pobreza ou aos conflitos nos seus países de origem, mas o fluxo desagrada às autoridades, que privilegiam o acolhimento de judeus oriundos de outros países.
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A notícia saiu há poucas horas na edição on-line do Público. A orla mediterrânica agita-se. "Vem aos meus braços, querido amigo", pensou, decerto, Berlusconi. O racismo já nem se dá ao trabalho de se esconder ou de disfarçar intenções. Em Portugal ainda só se rosna contra os imigrantes. A luta está por conta do folclórico PNR. O estilo português suave ainda não rima com os pogroms calabreses. Para já. É tudo uma questão de tempo.
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Fotografia de Larry Towell, na Faixa de Gaza, em 1993