quarta-feira, 30 de junho de 2010

INFORMAÇÃO OFICIAL

A informação é 100% segura: abriu agora mesmo a silly season.

DEFENSOR DE MOURA ADMITE CANDIDATURA PRESIDENCIAL, anuncia hoje o Expresso on-line. O deputado socialista e antigo presidente da Câmara Municipal de Viana do Castelo está disponível.
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À partida nunca votaria neste candidato: declarou a sua cidade anti-tourada. E isso é coisa que não tem perdão.
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Na minha adolescência, o João levava-me a uma cervejaria, em Queijas. Havia lá um tipo que, para meu grande embaraço, avançava sempre de dedo espetado e me dizia Sabes uma coisa, pá? Eu sou primo do Marquês de Pombal! Não sei porquê, mas a ideia de Defensor de Moura na Presidência da República avivou-me essa recordação.

terça-feira, 29 de junho de 2010

UM TOQUE DE CLASSE

Um toque de classe foi o que faltou hoje a Cristiano Ronaldo. Dentro do campo. Mas, sobretudo, fora do campo. Responder a um jornalista "fale com o Carlos Queirós", quando inquirido acerca das razões do fracasso, denota falta de estatura.
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Andamos a criar ídolos com pés de barro. Mais tarde ou mais cedo isso torna-se evidente. Quase sempre de forma feia.
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SONETO

Tanto de meu estado me acho incerto,

Que em vivo ardor tremendo estou de frio;

Sem causa, juntamente choro e rio,

O mundo todo abarco, e nada aperto.

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É tudo quanto sinto um desconcerto:

Da alma um fogo me sai, da vista um rio;

Agora espero, agora desconfio;

Agora desvario, agora acerto.

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Estando em terra, chego ao céu voando;

Num' hora acho mil anos, e é de jeito

Que em mil anos não posso achar um' hora.

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Se me pergunta alguém porque assim ando,

Respondo que não sei; porém suspeito

Que só porque vos vi, minha Senhora.

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Camões e Mapplethorpe. Para os que gostam de sonetos e do lirismo do grande poeta. E de fotografias não menos líricas. Já é a segunda vez que associo estes dois autores, porque um e outro fazem parte de realidades apaixonadas.

Ó TIA ELISA, PORQUE É QUE NÃO FOSTE PARA PRIMEIRA-MINISTRA?

Excerto de um discurso do engenheiro relativo - como António Ribeiro Ferreira gosta de lhe chamar - José Sócrates, em Arcos de Valdevez:
Mário Soares é um patriota, gosta de Camões. Eu gosto de políticos que gostam de Camões. Eu gosto muito do dr. Mário Soares.
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Excerto de uma redacção da minha madrinha, escrita quando andava na 2ª classe, em 1950:
O café. Eu gosto muito de café. De manhã com uma torrada untada com toicinho até vai rabulindo.
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Ó tia Elisa, porque é que a política nunca te tentou?
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FESTAS DE MOURA 2010

Está no facebook em http://pt-pt.facebook.com/group.php?gid=128444840499133
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Falo do programa das Festas de Moura, um dos momentos altos do calendário anual aqui do burgo. São cinco dias de estúrdia. E as noites são piores ainda. Toiros, petiscos, música, bailes, procissões, foguetes, coisas assim. "Intelectuais", abstenham-se sff.

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Quinta Feira 15 de Julho
8:00 Salva de Morteiros
21:00 Inauguração das Festividades e da iluminação com a presença do Ex.mo. Governador Civil de Beja, Presidente da Câmara Municipal de Moura, Autoridades, Grupo de Escuteiros e População
22:00 Procissão das Velas ao Bairro da Salúquia
23:00 Baile com a Banda " Trio MP3 " Palco Super Bock
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Sexta -feira 16 de Julho
8.00h- Alvorada com salva de morteiros
18.00h- Tarde infantil jogos com o apoio:
Grupo 314 Moura - CNE
Grupo Hip Pop “Easy Fast”
19.00h - Passeio a cavalo pelas ruas da cidade
21.00h - Concurso de Montras
21.30h - Desfile de automóveis personalizados pelas ruas da cidade
22.00h -Encontro Alentejano
Brisas do Guadiana
Grupo Coral e instrumental “Os Leões” ,“ A cantar O Alentejo”
Grupo acordeonista “ Os Leões” , “ O Alentejo em Melodia”
00.00h - Actuação da banda “ Antecipação” Palco Super Bock
03.00h - Vacada Nocturna, Praça de toiros

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Sábado 17 de Julho
8.00h- Alvorada com salva de morteiros
9.00h -Transmissão em directo do programa “ Nunca mais é sábado” Restaurante Liberato transmissão em directo Radio Planicie 92.8 fm ou www.radioplanicie.com.
10.00h - Larga de toiros junto ao matadouro
17.00h - Concerto com o grupo “ Ateneu Mourense” Igreja de S. João Baptista
18.00h -Desfile de Automóveis antigos e Grupo de Motards pelas ruas da cidade
19.00h - Desfile da fanfarra dos Bombeiros Voluntários de Moura pelas ruas da cidade
20.30h - Saudação à Padroeira N. Srª do Carmo pelas Bandas Filarmónicas e Ateneu Mourense
21.00h - Tradicional venda de carne de touro e vinhos da região Largo de Santa Comba
22.00h - Actuação do tradicional grupo popular “ Ardila “ Largo da Santa Comba
00.00h - Espectacular Fogo de Artificio
01.00h - Concerto com a banda “ Lideres” Palco Super Bock
04.00h - Vacada nocturna Matadouro

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Domingo 19 de Julho
8.00h- Alvorada com salva de morteiros
11.00h – Missa Solene em honra de N. Srª do Carmo
18.00h – Procissão honra de N. Srª do Carmo
22.00h - Actuação do grupo “ Vá de Modas” Palco Super Bock
23.00h – Actuação de “ Juan José” Palco Super Bock
00.30h – Baile com a Banda “ Nova Onda” Palco Super Bock

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Segunda - Feira 19 de Julho
8.00h- Alvorada com salva de morteiros
10.00h – Jogos tradicionais Largo José Maria dos Santos
12.00h – Romagem ao cemitério em homenagem aos festeiros falecidos
22.00h – Espectáculo de Final de Festas no Parque de Feiras e Exposições com:
Micaela
Némanus
UHF
Djs: Sunlize e Luigy

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Fotografia: António Cunha

segunda-feira, 28 de junho de 2010

CONVENTUS PACENSIS

Mensagem de José d'Encarnação, da Universidade de Coimbra, hoje divulgada na net:

Enquanto se aguarda a possibilidade de serem digitalizados os dois volumes de Inscrições romanas do Conventus Pacensis : subsídios para o estudo da romanização (Coimbra : Inst. Arq. da Fac. de Letras, 1984), é com todo o gosto que anuncio que estão, para já, disponíveis em http://hdl.handle.net/10316/578 a introdução, a conclusão e o índice geral. Uma gentileza que fico a dever ao SIBUC, na pessoa do Dr. Bruno Neves - bem haja!


Para os não-iniciados: o estudo de José d'Encarnação é a mais completa e sistemática abordagem da epigrafia romana sobre uma extensa área do sul de Portugal. Que a edição, de 1984, esteja em breve ao alcance de um clic é uma grande notícia.

Uma das tábuas de Vipasca (Aljustrel): Placa de bronze com inscrição jurídica em latim. O texto é composto por 46 linhas gravadas em letra latina, representando um trecho de um código de minas que abrangia pelo menos três placas. A placa apresenta cinco furos para fixação e encontra-se parcialmente dobrada. O texto está redigido formalmente sob a forma de carta endereçada a Úpio Eliano, o procurador do distrito mineiro de Vipasca.

(do site do Museu Naional de Arqueologia)

domingo, 27 de junho de 2010

MULHERES DE ALMODÓVAR

Gosto deste filme por muitas razões. Pela música, pela montagem, por Madrid, pelo ritmo, pelas mulheres neuróticas. É uma das obras mais conhecidas de Pedro Almodóvar (n. 1949), mas nem por isso foi especialmente incensada por parte da crítica. Mujeres al borde de un ataque de nervios, rodado em 1988, tem, por vezes, o ritmo e o estilo de uma slapstick comedy. Sob essa capa esconde-se um melodrama, tão ao gosto espanhol. É, também, um filme de cinéfilo. O que justifica que parte da trama se desenvolva em torno da dobragem de uma obra clássica: Johnny Guitar.
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A primeira coisa de que gostei foi da canção inicial, Soy infeliz, da grande cantora ranchera Lola Beltrán (1932-1996). Levei anos de procura obsessiva à procura do disco. Valeu-me uma amiga mexicana, cujo rasto entretanto perdi. O que tem Mujeres? Amores e desencontros, dois actores que já se amaram e que dobram um filme, também sobre desencontros, sem nunca se cruzarem. Há uma mulher obsessiva e paranóica, uma advogada sem escrúpulos, terroristas xiitas e um extraordinário mambo-taxi.
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No final do trailer vê-se Carmen Maura a cruzar uma rua, com a Torrespaña em fundo. É a Calle O'Donnell, perto do cruzamento com a Calle de Narvaez. A minha avó morava ali a dois passos. Passei por aquele sítio, pela mão dela, muitas vezes. São, também, as recordações que nos fazem regressar aos sítios. E aos filmes.
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O filme pode ser encomendado pela net em www.fnac.es. Custa, com despesas de envio, pouco mais de 10 euros. Uma perfeita ninharia, para aquilo que é.

sábado, 26 de junho de 2010

SPIK INGLICHE, PLIZ

Sócrates veio hoje, numa homenagem a Mário Soares, falar sobre a decadência civilizacional (fruto, decerto, de alguma leitura recente de Spengler). O melhor momento foi, contudo, aquele sobre o gleimâr do pessimismo. Whatever this is...
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STAR-SYSTEM NORTE-COREANO

No Público de ontem:
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"Quando ando na rua, toda a gente vem ter comigo para me apertar a mão. Nos últimos dias tenho tido algumas dores na mão" - Chun Yong-han, mulher do jogador norte-coreano Yun Nam-ji, autor do golo da Coreia do Norte frente ao Brasil (2-1) e novo herói nacional do seu país.
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Pensávamos nós que a Coreia do Norte era só Kim Il-sung e Kim Jong-il. Afinal até têm heróis não ideológicos (apesar de agora o Yun Nam-ji ter, seguramente, de gravar um CD intitulado A nossa bola é marxista-leninista ou coisa que o valha) e, mais espantosamente ainda, as esposas dos heróis serem conhecidas publicamente. Alguém me arranja um exemplar da Caras de Pyongyang?
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SANTO AMADOR - UP 1

Foi ontem à noite. Eram exatamente 22.52. A Assembleia Municipal de Moura aprovou, por unanimidade, o Plano de Pormenor da Unidade de Planeamento 1 de Santo Amador. É o derradeiro passo antes da publicação do documento no Diário da República. O valor de execução desta UP ronda os 2,5 milhões de euros.
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A conclusão de planos de pormenor tem sido um dos domínios a que se tem dedicado maior atenção. Porque é necessário concluir o que se inicia. Porque, pessoalmente, detesto ver processos inacabados ou que, como por vezes acontece, se arrastam.
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A história da UP 1 de Santo Amador será publicada no livro que tenho em preparação sobre a minha experiência enquanto vereador da Câmara de Moura. Os dez nutridos cadernos de apontamentos que já somei (o undécimo vai a meio) serão um precioso auxiliar para A minha aventura na República Autárquica.
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sexta-feira, 25 de junho de 2010

OITAVOS DE FINAL

Estou surpreendido. Pela qualificação e por, nos últimos dois jogos, se ter jogado futebol decente. Tiremos o chapéu ao Prof. Queirós. Eu e esta senhora, que, pelo padrão dos filtros de conteúdo impróprio, é um apelo à luxúria. Ela, bem entendido, não eu.
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PORNOGRAFIA

Há coisas que me fazem rir com gosto. Uma informação que me deram há pouco está nesse grupo. Para que conste:

Na CCDRA este modesto blogue não pode ser consultado. É filtrado por se considerar que tem conteúdos pornográficos. Comenta um amigo meu: "Uma maravilha estes filtros na Administração Pública... o que é que mais não filtrarão?"

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Fotograma das 1001 noites, de Pier Paolo Pasolini, um cineasta que os bons costumes burgueses gostavam de considerar pornográfico. Deixo aqui a imagem porque gosto muito do filme. E gostava de ter, vá lá, a centésima parte do talento de Pasolini.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

www.mouraturismo.pt

A partir de hoje o concelho de Moura tem um sítio na internet: www.mouraturismo.pt. O objetivo é o de fornecer aos potenciais visitantes do nosso concelho o máximo de informação disponível no que concerne a alojamentos, restauração, produtos tradicionais, locais a visitar etc. As festividades do concelho terão o devido destaque, o mesmo sucedendo em relação a atividades empresariais que venham a ser desenvolvidas no âmbito do turismo. A música dos grupos corais da nossa terra e uma galeria de imagens completam uma perspetiva em permanente evolução.
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Vale a pena uma visita a este endereço de promoção do turismo do concelho de Moura. A atualização é permanente. A participação dos cidadãos é essencial.
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quarta-feira, 23 de junho de 2010

MÉRIDA - I

Já uma vez contei aqui no blogue como foi em Mérida, no meio da mais completa solidão, que ultrapassei uma decisiva crise em torno da minha tese. Foi em Maio de 2003. De então para cá, a cidade faz parte dos meus percursos habituais. Tenho por lá amigos (Miguel Alba, diretor científico do Consorcio de Mérida, e Pedro Mateos, diretor do Instituto de Arqueologia de Mérida, uma unidade mista de investigação um pouco ao estilo gaulês, algo que podemos classificar como raridade em vias de extinção) e a cidade em si vale bem uma visita. Ou muitas visitas, para podermos ver muitas vezes as mesmas coisas.
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Inicio aqui uma série de dez textos sobre Mérida. Começando por aquilo que foi um gesto distraído. Enquanto fazia o registo no hotel reparei num folheto que anunciava a 49ª edição do Festival de Teatro Clássico de Mérida. Voltei em Agosto. E praticamente todos os anos depois desse decisivo 2003. Já lá vi coisas banais. Peças de teatro sem história, bailados soviéticos fora de moda e ao estilo heróico. Mas também representações de exceção, como Pentesilea. Ou uma curiosa versão da saga de Ulisses, transposta para as Caraíbas, e representada ao som do calypso.
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Em todo o caso, mesmo se o cartaz nos pode desiludir, o sítio nunca nos desaponta. O ambiente do teatro é majestoso. E as ruínas iluminadas nas noites de Verão superam todos os contratempos. Boa parte do trabalho de redescoberta da cidade deve-se ao labor de dois arqueólogos clássicos: José Ramón Mélida e Maximiliano Macías. Este último não era meu familiar.
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Veja-se, em particular, o programa do Festival para o corrente ano: http://www.festivaldemerida.es/

terça-feira, 22 de junho de 2010

POMPAS FÚNEBRES

A morte foi tema falado e glosado nos últimos dias. Vale a pena recuperar um texto, com mais de dois anos, escrito por Vasco Pulido Valente para o Público (12.4.2008):
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Como qualquer arqueólogo sabe, a maneira como se tratam os mortos diz muito sobre os vivos. Já aqui falei do fascínio da cultura da imortalidade em que vivemos, pela visão crua do cadáver: um fascínio em princípio absurdo, mas no fundo inteiramente lógico. Agora aparece em Portugal, como um eco distante e distante de Evelyn Waugh, o enterro de luxo. O primeiro serviço abriu em Elvas (para explorar o mercado espanhol) e é anunciado como um hotel de cinco estrelas, num panfleto que o DN publicou. O "complexo" da Servitur (nome da empresa) é um "espaço" rico e agradável, "onde predominam os sofás de pele e o interior de madeira" e que oferece confortos como lojas (de quê, meu Deus?), telefone, computadores, ligação à internet e, principalmente, ecrãs de plasma (suponho que que para o CSI e A patologista). Cá fora, uma paisagem "arranjada", com oliveiras, pequenas pedras brancas, espelhos de água, relva muito verde e "um horizonte a perder de vista", traz "tranquilidade e paz". Melhor ainda: as crianças têm uma sala especial com televisão, legos, Playstation e "pinturas".
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Tudo isto se destina, como nota argutamente o director da Servitur, a atrair a família e os conhecimentos do "ente querido". O velório deixa de ser uma maçada e passa a ser uma festa. Pena que a Servitur não forneça também um restaurante e quartos. Se fornecesse, a morte de um "ente querido" começava com certeza a entrar no calendário social. Tanto mais que a Servitur pensou, e pensou bem, que as pessoas não o querem aturar - ao morto, como é óbvio. Neste admirável arranjo "funerário", "o caixão nunca se cruza com os presentes", cujo convívio por isso não perturba. Circula para a capela e o crematório por um "corredor de apoio", estritamente reservado a funcionários. Mesmo no velório, o morto fica numa sala discreta, "climatizada" a cinco graus centígrados e com paredes de vidro, onde a assistência só entra se lhe apetecer. E na Sala da Última Despedida, a do crematório, um vidro "fosco" põe a operação numa discreta penumbra. Nada deve abalar o repouso dos vivos. Apenas, para almas de uma delicadeza rara ou de irreprimível inclinação turística, a Servitur fabrica diamantes com os cabelos do "ente querido" em várias cores de requintado gosto (âmbar, amarelo canário, verde e azul). Com esta extraordinária sofisticação, a Servitur transformou a morte - pelo menos, do próximo - num acontecimento banal. A morte da Servitur é o retrato da dessacralização da vida.
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A fotografia é de Paulo Nozolino. Como todas, mas mesmo todas, as suas imagens reflecte desconforto e inquietação. É o próprio que assim fala: "Nenhuma das minhas imagens é agradável. Admiro imenso quem compra as minhas fotografias e as tem em casa. Porque eu não tenho."

segunda-feira, 21 de junho de 2010

MEDINAS

Não sei se há amor à primeira vista. Embora acredite que sim. Com este livro, tive um coup de foudre, que mais tarde se transformou, prosaicamente, em aquisição.
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Jean-Marc Tingaud (n. 1947) fotografou as medinas marroquinas durante a noite. A película encheu-se de luzes: amarelas, vermelhas, azuis, verdes. Uma festa de cor que se juntou a palavra de Tahar Ben Jelloun (n. 1944). O calígrafo Lassaâd Métoui fez o resto.
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Admito que os textos de Tahar Ben Jelloun, com a excepção de Jour de silence a Tanger, não me entusiasmam em particular. A simplicidade dos curtos poemas em Medinas ajuda, contudo, a valorizar o despojado barroquismo da fotografia. As ruas e os largos desertos que Jean-Marc viu são os mesmos do Alentejo de há 40 anos. Só que esses ninguém os registou em película e ficaram só na memória de cada um de nós.
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Medinas, publicado em 1998 pelas Éditions Assouline, custou-me, na moeda antiga, 349 francos. Hoje é vendido na Amazon por cerca de 150 euros. Vale bem mais que isso.
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Sur les terrasses des vieilles maisons
les rêves des femmes veillent sur la mémoire des hommes
l'ombre de la vertu caresse les patios de l'attente
un parfum ancien se promène
odeur froissée d'un amour secret.

domingo, 20 de junho de 2010

ALEMANHA-GRÉCIA

O sketch da seleção francesa levou uma amiga a sugerir-me este outro sketch, de verdadeiro génio, dos Monty Python. Num momento em que certas "argumentações" parece ter caído a níveis nunca antes vistos vale a pena espreitar esta visão filosófica do futebol. São três minutos e pouco de criatividade total, que não de futebol total...

ALTAS INDIVIDUALIDADES

Nem o Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, nem o Presidente da Assembleia da República, Jaime Gama, estarão presentes no funeral de José Saramago.
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É caso para dizer que nem sempre as altas individualidades estão à altura das circunstâncias.
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sábado, 19 de junho de 2010

MATEMATICAMENTE FALANDO - III

Matematicamente falando, a França deve ter ido à vida. Basta um empate ao Uruguai e ao México para ambos se qualificarem. Para além disso, o futebol dos gauleses tem sido igual a zero. Mas pior ainda é a manchete de hoje do L'Équipe. Anelka, substituído no final da primeira parte do França-México, terá sugerido ao selecionador Domenech a prática de um determinado ato sexual.
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Ao pé disto, as bocas de Deco são quase um elogio a Carlos Queirós.
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METROPOLIS

É uma das obras essenciais da História do Cinema. Um jovem Fritz Lang (1890-1976) dirigiu-a, com tenacidade germânica, apenas com 35 anos. O filme chama-se Metropolis e retrata uma cidade no futuro, dividida entre dois mundos: o da urbe moderna e luxuosa, que vive à superfície, e o da cidade subterrânea, onde os trabalhadores são escravizados, para manterem o nível de vida dos exploradores. Uma leitura marxista das cidades do futuro? Nem tanto. No final de uma trama complexa, trabalhadores e capitalistas unem-se e dão as mãos. A derradeira sequência do filme teve o dedo da argumentista Thea von Harbou (1888-1954), militante nazi.
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Nestas alturas em que as leis do trabalho voltam a ser as culpadas da crise, vale a pena rever esta cena (e todo o filme, bem entendido) e pensar um pouco.
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Mensagem particular para a Vânia: clica lá no filme, vá lá...
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Lang abandonou a Alemanha em meados dos anos 30 e fixou-se nos Estados Unidos. O sistema de produção americano não lhe permitiu o experimentalismo de Metropolis. Ainda assim, nas suas obras derradeiras, recuperou um pouco do fôlego da juventude.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

JOSÉ SARAMAGO (1922-2010)

Faleceu hoje José Saramago, nome maior das literaturas portuguesa e universal. Foi Prémio Nobel da Literatura e somou distinções nos quatro contos do mundo. O Expresso chama-lhe, com justiça, "um símbolo português". Escreveu e traduziu. Foi jornalista. Foi um cidadão notável, solidário e empenhado. Era militante do Partido Comunista Português.
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Vi-o apenas uma vez, na Feira do Livro de Mértola, em 1991. Recordo um jantar de grande cordialidade, a desmentir a maneira de ser difícil que muitos lhe apontavam. Recordo, em especial, o grande e sentido elogio que fez ao Miguel Rego pela apresentação feita do conjunto da sua obra. Foi o cabo dos trabalhos para os apresentar, porque o Miguel fugiu depois de ler o texto...
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Não sendo um apreciador indefectível e em toda a linha do estilo de escrita de José Saramago, tenho o seu Memorial do Convento como uma das obras chave da minha vida. Portugal perde um dos seus melhores. Disso não tenho dúvidas.
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Uma nota espantosa, quase sórdida, e que diz muito do que é a nomenclatura jornalística dos nossos dias. O Público apresenta, a propósito do falecimento de José Saramago, declarações do Presidente da República, do Primeiro-Ministro, do Ministro dos Assuntos Parlamentares (!?), de Passos Coelho, do CDS-PP e do BE. Não sei porquê, mas acho que falta ali alguém. Mas pode ser só impressão minha, claro...

DE PONTO EM BRANCO

A expressão de ponto em branco parece-me apropriada a esta iniciativa. Não tinha ouvido falar dela até a Fátima me ter ligado há umas semanas perguntando-me se estaria interessado em participar no dîner en blanc. De que se trata? De um piquenique improvisado, que tem lugar nesta altura do ano, em Paris. O local só é conhecido de um grupo restrito de organizadores que, com poucas horas de antecedência, avisam os participantes, num bem montade esquema de boca-a-boca e sms. Porquê o secretismo? Porque o dîner en blanc é uma manifestação não autorizada. Mas também nunca foi reprimida.
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Para além desta originalidade há uma outra, que dá o nome à iniciativa: as roupas, as toalhas, as mesas, os vinhos (nada de tinto sff), tudo deverá ser branco. Não há, em princípio, toalhas de papel, nem copos de plástico. Não deixa de ser um tanto elitista, mas tem a sua piada.
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Disse à Fátima que irei no próximo ano, se ela fizer parte das pessoas contactadas. Uma velha amiga minha chamou-me a atenção para a contradição entre a militância política e uma coisa destas. Pois. Mas é assim. Que fazer?
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O dîner en blanc de 2009 (na fotografia) foi em plena Concorde; o de ontem no pátio do Louvre.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

JUSTIÇA POÉTICA

Cito da crónica de Paulo Paixão, no "Expresso" on-line:
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O facto do México equipar de camisola verde - a mesma cor da República da Irlanda, afastada da fase final com um golo irregular dos franceses, em Paris, marcado com a mão - dá ao momento uma certa justiça poética.
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Ri com gosto ao ler estas palavras. O texto completo está em http://aeiou.expresso.pt/guinness-por-corona=f588787.
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O CASTELO DOS MORTOS

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Visto de fora, o castelo de Santiago do Cacém é um monumento semelhante a tantos outros que existem no sul do País. Um bonito conjunto de muralhas, uma bela barbacã, uma posição de domínio sobre a cidade e as imediações.
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Agora o facto que tanta estranheza causa em muitos turistas: o seu interior é totalmente ocupado pelo cemitério municipal. Um impressionante conjunto de campas e jazigos e um silêncio que é ali maior que noutros sítios. Reside em Santiago do Cacém a nossa pequena ilha de San Michele.
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OS NÓS DOS OUTROS

São fotografias, senhores. Com tanto de grande quanto de belo. Mariano Piçarra (n. 1960), fotógrafo e designer, andou pelo Médio Oriente. O resultado desse périplo pode ser apreciado, até 23 de Outubro, no Museu Municipal de Arqueologia de Silves. A iniciativa integra o projecto Algarve - do reino à região. E fará um interessante contraponto com a exposição Algarve Islâmico, a inaugurar em breve.
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quarta-feira, 16 de junho de 2010

EM DIRECÇÃO À ILHA

Em direcção à ilha, junto dos mortos,
casados com a canoa desde o bosque,
com os céus enrolados nos braços como abutres,
as almas saturninamente aneladas:
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assim vogam os estranhos e os livres,
os mestres do ferro e da pedra:
rodeados pelo barulho de bóias que se afundam
e pelos latidos do mar azul tubarão.
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Eles remam, remam, remam:
oh mortos, nadadores, adiante!
Cercado também isso com nassa!
E o nosso mar que amanhã estará seco!
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Caspar Andriaans van Wittel (1653-1736) foi um daqueles nórdicos que se tomou de amores pelo Mediterrâneo. Nasceu em Amersfoort, faleceu em Roma. Neste quadro, pintado pouco depois do início do século XVIII, representa o cemitério de Veneza. Que fica, como é natural, numa ilha. Afinal, Arnold Böcklin não foi assim tão original...
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E o poema de Paul Celan, publicado em 1955, fez-me lembrar, de forma irresístivel, as pinturas setecentistas onde se vê a Isola di San Michele. Tenho pelo sítio, que não conheço, uma velha obsessão. Que vem de há muito, quando vi, num telejornal, colocarem a urna com os restos mortais de Igor Stravinsky (1882-1971) dentro de um barco. Não sei o que terei pensado na altura. Mas não mais me esqueci do funeral.
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Em Portugal há, também, uma ilha dos mortos. Será tema para outro texto, amanhã.

terça-feira, 15 de junho de 2010

MATEMATICAMENTE FALANDO - II

Nada está perdido e ainda podemos ser apurados. Aparentemente, Eriksson recuperou muito bem das dores de cabeça que Queirós garantiu que os avançados portugueses lhe iam dar.
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HOPE é a palavra. É também o tema desta escultura de Robert Indiana (n. 1928), nome grande da Pop Art. A escultura data de 2008, mas o trabalho que lhe esteve na origem foi um cartão de natal, concebido pelo próprio Indiana em 1964, e onde se lia LOVE. Voltarei dentro de dias a este ícone da arte americana do século XX.

MATEMATICAMENTE FALANDO - I

Matematicamente falando, tenho a certeza que este ano há muito menos bandeirinhas portuguesas por aí. Ainda isto mal começou e já se suspira por Scolari.
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Imagem em http://renaseveados.weblog.com.pt/arquivo/2004_07.html

segunda-feira, 14 de junho de 2010

LANGUE FRANÇAISE

Preocupados com a perda de influência da língua francesa, dois radialistas portugueses, Pedro Jorge e João Filipe, resolveram usar o seu programa na Antena 3 - o qual tem o pouco vulgar nome de Rosa Mota, um programa de rádio e variedades - para uma original difusão do idioma de Molière.
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Ao pé deles, Mário Soares parece ter a pronúncia irrepreensível de Giscard d'Estaing. Vale o esforço dos moços. E já houve gente a receber a légion d'honneur por muito menos...
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O NOME DA MINHA RUA

O livro chama-se assim: O nome da minha rua. É uma compilação sobre as ruas de Moura e sobre os nomes antigos e actuais pelos quais as conhecemos. Obra curiosa, fruto de uma pesquisa longa e bem estruturada, é o resultado do trabalho de um jovem mourense, José Francisco Finha (n. 1976), interessado pela história local. O repositório de informação é notável e leva-nos por uma Moura que já não conhecemos ou que o tempo se encarregou de ir modificando. Voltam a viver nomes há muito perdidos: Rua das Tendas, Rua do Morgadinho, Terreiro das Olarias ou Rua da Assaboeira. Os sítios são feitos de mudança e a importância de livros como este é o de nos permitirem recuperar, a cada momento, a memória de outros tempos.
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O livro teve revisão histórica do meu colega José Chaparro e uma interessante e lúdica capa de António Finha. É edição recente da Câmara Municipal de Moura.
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Reprodução da capa, directamente inspirada nas placas toponímicas existentes no centro histórico de Moura.

domingo, 13 de junho de 2010

A COR DA ARQUEOLOGIA

"Voltei", diz Paul Newman na derradeira sequência de A cor do dinheiro. Um antigo profissional de bilhar terminava aí a sua travessia do deserto e voltava a jogar. Dá uma tacada, as bolas rolam e o filme acaba.
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"Voltei", disse eu também no passado dia 18 de Agosto, retomando um filme cortado em Julho de 1990. O recomeço das escavações arqueológicas no Castelo de Moura parecia-me, há uns anos atrás, uma miragem improvável, uma daquelas coisas para nunca mais. Tinha já passado demasiado tempo, a vida tomara outro rumo e há coisas que, no nosso percurso, estão condenadas ao abandono. A escavação do Castelo de Moura estava catalogada nesse sector.
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Afinal não. Como no velho jogo do Monopólio regressa-se à casa de partida e recomeça-se tudo. De momento, não se pode dizer que a arqueologia tenha muita cor, nem muito glamour (o glamour da arqueologia é só nos filmes do Indiana Jones, sempre rodeado de miúdas giras e a frequentar ambientes sofisticados), com o pó a asaltar por todos os lados e aquela expectativa que sempre acompanha os primeiros momentos de uma escavação arqueológica: vamos encontrar o quê? que estruturas e que pavimentos irão contar a história do castelo? os velhos desenhos do século XVI (medidos em varas) corresponderão à realidade? como se concluirá um dia este projecto?
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A verdade é esta: dar início (ou recomeçar) um projecto como o do Castelo de Moura é, também, um compromisso moral e ético com as pessoas que vivem no nosso concelho. Não pode o projecto ser abandonado por simples capricho ou porque a informação não é, do ponto de vista científico, aquela que eventualmente se espera ou gostaria de ter. Se o financiamento não faltar, uma escavação é um casamento à moda antiga, sem direito a divórcio, para ser continuada até que a morte nos separe. Os trabalhos arqueológicos em grandes sítios, como Pompeia ou Conímbriga, já têm centenas de anos; noutros, menos importantes, como Mértola, ou mesmo como Moura, há menos décadas de investigação e, felizmente, não tenho esperança de algum dia ver esses trabalhos concluídos. Os arqueólogos sucedem-se, até os seus nomes passarem a ser notas de rodapé em publicações obscuras. Mas escavação é assim mesmo, trabalho de artesanato, uma manta em permanente tecelagem e quem as começa não pode ter mais esperança que a de construir à volta dos sítios ideias e teorias que um dia irão ser corrigidas, refeitas e reconstruídas por outros. Nem toda a gente aceita essas leis da vida e prefere construir cortes bizantinas à sua volta. Não creio que vala a pena escrever nomes ou reproduzir episódios.
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Para já, voltei e é quase como se o tempo não tivesse passado, que afinal é de ilusões dessas que se alimenta a vida. São também essas coisas que dão cor à aridez da arqueologia. Para já, só isso, o recomeço, o pensar "agora é que é", as ilusões e as expectativas me interessam.
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Este artigo foi publicado na Planície em Setembro de 2003. Muita coisa mudou desde então. O projecto de intervenção arqueológica no Castelo de Moura continuou e continuará, sob a minha direcção e da Vanessa Gaspar. E com a consultoria científica da Profª Conceição Lopes (Univerisdade de Coimbra). Haja o que houver.

Uma nova proposta para o quadriénio 2010-2013 acaba de ser entregue ao IGESPAR. Há, no meio de tudo isto, novidades importantes. A escavação é, agora, enquadrada pelo Centro de Estudos Arqueológicos das Universidades de Coimbra e Porto. Uma memória das sete campanhas já efectuadas está a ser ultimada e será publicada ainda em 2010, devendo os resultados mais importantes dos trabalhos vir a ser apresentados no III Forum de Arqueologia Urbana, que este ano terá lugar no Recife.

E, bem entendido, desde 2003, o Castelo de Moura, sofreu uma revolução. Que ainda está em curso.

Sobre o que é o CEAUCP: http://www.uc.pt/uid/cea

sexta-feira, 11 de junho de 2010

COMEÇA O MUNDIAL - EXPECTATIVAS

Ora vamos às previsões, aquela coisa que é melhor fazer só depois do jogo acabar.
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Onde estão os favoritos? À partida diria que são a Argentina, a Espanha, a Inglaterra e, talvez, a Itália. A Argentina porque tem os jogadores que tem, a Espanha é a detentora do título europeu e pode ser que quebre o enguiço (o melhor resultado foi um 4º lugar em 1950). É treinada pelo pouco carismático Del Bosque, que mesmo sem carisma deu duas Ligas dos Campeões ao Real Madrid... A Inglaterra, que não joga uma final desde 1966, é treinada por outro mago do banco: Fabio Capello. A Itália, que tem o hábito de jogar de forma chata e irritante, tem jogadores de peso, muitos deles em fim de carreira. É treinada por Marcello Lippi, que se celebrizou na Juventus.
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Atenção ao que pode fazer a Costa do Marfim, sob o comando de Sven-Goran Eriksson. A Suiça está longe de integrar qualquer grupo de favoritos. Mas Ottmar Hitzfeld será tudo menos inexperiente.
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Já agora, não acredito na França do arrogante Domenech, nem no Brasil. Nem em Portugal. Mas é melhor guardar as previsões para o fim do Mundial...
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Falando sinceramente, vou sentir a falta de Gabriel Alves nos comentários deste ano. É verdade que dava imensas gaffes, fruto do profundo entusiasmo com que via e vivia o jogo. Apesar dessas gaffes (quem nunca as deu que avance) era muito mais interessante, e até involuntariamente divertido, que essa rapaziada sopa morna, e com falta de conhecimentos, que por aí pulula.

Aqui vai a minha cena preferida, num jogo que vi na televisão. Posso, pois, testemunhar que isto aconteceu mesmo:

Campeonato do Mundo (EUA) de 1994 - Quartos-de-final: Suécia-Roménia (10/7/1994)

Comentário de a uma jogada de ataque da equipa romena:
George Hagi, estratega da equipa... (pausa enorme)
Raducioiu... (nova pausa)
Já perdeu tempo de remate (pausa de meio segundo). Golo!"

quinta-feira, 10 de junho de 2010

COMEÇA O MUNDIAL - OS HINOS QUE VAMOS OUVIR

E a partir de amanhã vão soar os hinos nacionais. A Pátria que me perdoe, mas os hinos mais bonitos são os de toque operático. Dentre eles destacam-se, sem sombra de dúvida, os do Brasil (1822), do Uruguai (1845) e Itália (1847). Foram compostos, respectivamente, por Francisco Manuel da Silva (1795-1865), Francisco José Debali (1791-1859) e Michele Novaro (1818 –1885). É o que diz a wikipedia, mea culpa...
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A influência rossiniana é mais que evidente. Ainda pensei em colocar aqui a abertura de La gazza ladra, ópera estreada em 1817. Fica um coro de Verdi, de Il trovatore, posterior aos hinos acima citados.
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Viva a ópera italiana. E viva o futebol, que tem momentos operáticos.

COMEÇA O MUNDIAL

A partir de amanhã o planeta vira-se para a África do Sul. Durante um mês, qualquer compromisso ou marcação de reunião será acompanhado por um rápido olhar para o calendário. Propor o que quer que seja para os dias 15 (às 15 horas), 21 (às 12.30) e 25 (às 15 horas) é uma pura perda de tempo. No outro dia disse isto numa reunião onde predominavam aqueles-típicos-intelectuais-de-esquerda-que-odeiam-a-bola. Olharam para mim como se fosse um insecto desprezível. Não voltei a falar no assunto.
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Começa o Mundial. Portugal não é favorito. Nem de perto nem de longe. Duas convicções: aconteça o que acontecer, Deus nos livre crucificar ou endeusar a selecção; e, ao contrário do que no outro dia um cretino disse numa estação de rádio, não é o prestígio de Portugal que está em jogo.
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Eusébio no fim do Portugal-Inglaterra, em 1966. Valha-nos a autenticidade dos sentimentos.

terça-feira, 8 de junho de 2010

LÁ VAMOS, CANTANDO E RINDO

Mais de 1200 crianças do agrupamento de escolas de Aveiro vão participar, amanhã, num projecto escolar destinado a reviver os últimos cem anos da história portuguesa.
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Uma parte dessas crianças irá disfarçar-se com as fardas da Mocidade Portuguesa, uma organização juvenil dos tempos do fascismo. A carnavalização da História é um dos nossos tópicos preferidos. Não se aprende nada mas é giro. Com a candura típica dos simplórios a responsável afirmou que “nada neste projecto leva para ideias de fascismo”, adiantando que “as coisas são trabalhadas nas escolas com dignidade e muito sentido de responsabilidade”. Tenho a certeza, como é evidente, que a profª. Joaquina Moura também vai explicar à garotada o que era a PIDE, a censura, o Tarrafal, o estatuto do indígena. Mais os 10.000 jovens portugueses falecidos na Guerra Colonial. E, já agora, o 25 de Abril de 1974. Vai explicar essas coisas todas, não vai sra. professora? Tenho a certeza que sim.
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COMEÇANDO EM PLANO INCLINADO

Do site da RTP:
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"O relvado do estádio de críquete onde se realiza o encontro amigável entre Portugal e Moçambique está em mau estado. Há locais onde nem relva existe e para "disfarçar" o relvado foi pintado a verde."
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Já no noticiário das 8 na Antena 1 se clarificava que os relvados de críquete são mais altos no meio que nos lados (sic) e se caracterizam por alguma irregularidade. Segundo repórter Fernando Eurico o piso apresenta mesmo alguns buracos e "Carlos Queirós vai levar as mãos à cabeça". É evidente que não cabe ao seleccionador nacional fazer o trabalho de escolha dos sítios onde se vai treinar. Fica a dúvida: para que raio serve aquela vasta comitiva que a Federação leva a toda a parte por dá cá aquela palha?
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Começamos bem...
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Aqui fica este relvado alternativo, como sugestão para a prática do alpifute...

segunda-feira, 7 de junho de 2010

NOS CAMPOS DE MÉRTOLA

Esta metade de São Sebastião
cobre com uma coifa
a cabeça.
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A carne de barro pintado
brilha branca rosa
riscos vermelhos
no lugar das setas
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Pousamos no muro
o corpo metade
de olhos rasgados
de boca vermelha
e disparamos
tiros de luz e plástico
para o guardar
para sempre
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Da terra de xisto
sobe o canto
de mutidões antigas
que afogaram
o som e as lágrimas
nesta metade
de barro pintado
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António Borges Coelho (Mértola, 25.4.1978)
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Este poema foi publicado no livro Historiador em discurso directo, que coordenei para a Câmra de Mértola em 2003. Inclui uma extensa entrevista com António Borges Coelho, textos inéditos e uma nota biográfica da autoria de António Marques de Almeida. E ainda textos de apresentação, de Cláudio Torres e de Jorge Pulido Valente. Lembrei-me dele nestes dias em que o Verão já assoma, em que está na altura de ir para os mastros e em que o futuro está sempre ao virar da esquina.

domingo, 6 de junho de 2010

QUE FAREI NO OUTONO QUANDO TUDO ARDE

Que farei no outono quando ardem
as aves e as folhas e se chove
é sobre o corpo descoberto que arde
a água do outono
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Que faremos do corpo e da vontade
de o submeter ao fogo do outono
quando o corpo se queima e quando o sono
sob o rumor da chuva se desfaz
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Tudo desaparece sob o fogo
tudo se queima tudo prende a sua
secura ao fogo e cada corpo vai-se
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prendendo ao fogo raso
pois só pode
arder imerso quando tudo arde
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Gastão Cruz, in "As Aves"

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Andava à procura de fotografias e de livros de fotografia quando deparei com esta imagem de invulgar beleza, força e ternura. O mais extraordinário foi saber depois que um dos mais populares sites de fotografia, o Flickr, a tinha censurado e apagado, pelo seu conteúdo inapropriado. Uma classificação que só é hábito dar-se às imagens de pornografia (de que cor será o racismo, perguntamos nós...). Fabio Bórquez (n. 1964), o seu autor, é argentino e vive na Alemanha. Suponho que não se importaria mesmo nada que alguém aliasse o lirismo da imagem ao das palavras de Gastão Cruz (n. 1941).

sexta-feira, 4 de junho de 2010

"DAQUI A POUCO JÁ NÃO HÁ NINGUÉM"

Alguém me dizia há dias, em Mértola, "daqui a pouco já não há ninguém". O interior despovoa-se. O fenómeno é mais sensível em toda a faixa que percorre a fronteira com Espanha. Quem governa deveria ter sido obrigado a ler no liceu dois livros de capital importância: A estrutura da antiga sociedade portuguesa, de Vitorino Magalhães Godinho, e Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico, de Orlando Ribeiro. Pensaria, decerto, duas vezes antes de mandar fechar as escolas primárias com menos de 20 alunos. E faria todos os possíveis para que as escolas do interior tivesse mais de 20 alunos. Temos o país inclinado para a costa. Ficar é, hoje, um acto de resistência e de incompreensível paixão.
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Enquanto isso, José Sócrates inaugura auto-estradas na Beira Alta e declara que tem a intenção de minorar o insucesso escolar, e realçou a introdução de aulas de inglês, de desporto, de música, assim como de estudo acompanhado. Daria vontade de rir, se não fosse trágico.
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Uma das escolas do duplo centenário: imagem no site da Câmara Municipal de Grândola

quinta-feira, 3 de junho de 2010

JOÃO AGUIAR (1943-2010)

Calou-se hoje a voz de João Aguiar, jornalista e escritor. A homenagem que lhe rendo é a do leitor que, como tantos outros, lhe admirava a criatividade.
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João Aguiar nunca soube, claro está, que a minha primeira incursão no domínio das exposições foi feita sob o signo de um dos seus livros. Em 1987 comecei a preparar aquilo que viria a ser Moura na época romana. A minha amiga Susana Correia aconselhou-me a leitura de A Voz dos Deuses (Memórias de um companheiro de armas de Viriato). Assim descobri um grande romance histórico contemporâneo, que me serviu para uma visita sensorial aos tempos da romanização. E que ajudou no percurso de construção dessa exposição. Tornou-se-me então claro que a explicação da História para um público não especializado teria de passar, na medida do possível, pela criação de imagens visuais que fizessem as pessoas recuar no tempo. Recordo, na Voz dos Deuses, a imagem impressiva da descrição dos povoados pré-romanos e a forma como entramos no quotidiano dos sítios. Lembro-me de ter pensado "exactamente, João Aguiar, é isso que eu preciso e você acaba de me dar a chave para resolver o problema".
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Que melhor homenagem podemos render a um escritor do que lhe dizer "obrigado, a sua obra, além de bem escrita, foi para mim uma enorme ajuda"?
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Fotografia: http://www.flickr.com/photos/aps2007/

POP ART FORA DE HORAS

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Hoje de manhã ofereceram-me um filme: o Nova Iorque fora de horas (1985), uma obra considerada menor na filmografia de Martin Scorsese (n. 1942). Não acho que seja menor. Talvez por gostar do tema da topografia das cidades e dos labirintos que elas escondem. A história tem lugar ao longo de uma noite e até à manhã seguinte. Um homem sai para um encontro, tudo lhe corre mal e não consegue regressar a casa. É uma comédia um pouco angustiante, pontuada pelo som do tique-taque de um relógio. O filme não seria o que é sem a montagem original e frenética de Thelma Schoonmaker (n. 1940), uma artista de enorme talento. Nesta cena, do final do filme, "transforma" Paul em escultura. Dois ladrões levam o homem-escultura para dentro de uma carrinha e têm um delirante diálogo sobre o que é Arte.
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LARÁPIO 1 - Vale a pena levar esta coisa?
LARÁPIO 2 - Estás doido, pá? Isto é arte.
LARÁPIO 1 - A arte é bem feia, pá.
LARÁPIO 2 - Pois, assim se vê o que sabes. Quanto mais feia é a arte mais ela vale.
LARÁPIO 1 - Isto deve valer uma fortuna.
LARÁPIO 2 - É verdade. É de um tipo famoso, Segal.
LARÁPIO 1 - Sim?
LARÁPIO 2 - Aparece no Carson Show. Toca banjo.
LARÁPIO 1 - Nunca vejo o Carson.
LARÁPIO 2 - Assim se vê o que percebes de arte.
LARÁPIO 1 - Não sei, pá. Um dia destes arranjo uma aparelhagem estereofónica.
LARÁPIO 2 - Para quê, pá? Uma aparelhagem é uma aparelhagem. A arte é para sempre.
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Um dos larápios tem laivos de cultura e fala de George Segal (1924-2000), um artista plástico americano que integrou a Pop Art e que ficou célebre pelas suas esculturas hiper-realistas (imagem de cima). Na realidade, o assaltante faz confusão e mistura o Segal escultor com um actor que tem o mesmo nome... Um reencontro com Segal é-nos sugerido pelas representações humanas que animam o belo espaço que o Museu de Portimão é (imagem de baixo).
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Sobre George Segal:
http://www.segalfoundation.org/