terça-feira, 31 de agosto de 2010

É POR CAUSA DO PROF. QUEIROZ, NÃO É?

Dos jornais:
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O Presidente da República, Cavaco Silva, recebe esta quarta-feira em audiência o procurador-geral da República, Pinto Monteiro, anunciou hoje o Palácio de Belém, sem adiantar os motivos do encontro.
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É por causa do processo do Prof. Queiroz, não é? É isso, não é? Além disso, não estou assim a ver de que mais possam falar.
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FELIPE OLIVEIRA BAPTISTA

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A notícia tem horas: o estilista português Felipe Oliveira Baptista é o novo director artístico da Lacoste. O currículo do jovem criador, divulgado pela imprensa, é de tirar o folêgo a qualquer um. A isso não foram insensíveis os responsáveis da marca do crocodilo. Que o escolheram de um grupo muito restrito de pré-seleccionados, onde estavam os melhores de entre os melhores.
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Pode ser um pouco provinciano, mas fico sempre contente quando vejo um português sair-se bem lá fora. Mesmo que à frente de uma marca que nunca usei.
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Site:
http://www.felipeoliveirabaptista.com/

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

1000

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Mil posts já lá vão neste blogue, iniciado em Dezembro de 2008. Outros mil se seguirão. Que fotografia é esta? A do rei Pelé, comemorando o seu milésimo golo, marcado no dia 19 de Novembro de 1969. Andava eu na 1ª classe. Um facto menos relevante, sem dúvida.

BALADA DO PAÍS QUE DÓI

O barco vai
o barco vem
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português vai
português vem
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o corpo cai
o corpo dói
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português vai
português cai
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o barco vai
o barco vem
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português vai
português vem
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o país cai
o país dói
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o tempo vai
o tempo dói
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português cai
português vai
português sai
português dói
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O dia está de sol e eu devia estar de acordo com o sol. Mas não estou. Deixem-me partilhar com quem aqui passa a balada do país que dói, de Ana Hatherly (n. 1929). Poesia experimental, sim, mas também intensamente melancólica e portuguesa. Tão melancólica quanto a fotografia cheia de sol que Agnès Varda (n. 1928) fez, em 1954, na Póvoa de Varzim.

JOSÉ CUBERO SÁNCHEZ "EL YIYO" (1964-1985)

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Foi no derradeiro momento do último touro da tarde. José Cubero Sánchez El Yiyo, que participara, um ano antes, na fatídica corrida de Pozoblanco, teve morte quase imediata ao ser atingido no coração. A lide tinha sido de grande categoria e o jovem matador evidenciava todas as qualidades que auguravam uma brilhante carreira. Bastará dizer que, dois anos antes, e com apenas 19 anos, saira duas vezes em ombros pela porta grande de las Ventas. Coisa que não é para qualquer um.
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Recordo-me de ter visto, atónito, as imagens no telejornal. El Yiyo morreu na praça de Colmenar Viejo, faz hoje 25 anos. Um registo desses trágicos momentos pode ser visto aqui.

domingo, 29 de agosto de 2010

EVOCAÇÃO DE SANTO ALEIXO


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“Ao prezente he do termo de Moura sendo antiguamente independente della”. Assim se escrevia em 1758 nas memórias paroquiais, as mesmas que davam conta da abundância dos campos e nos falavam do trigo, da cevada, do centeio e das bolotas que se podiam ver em volta da aldeia.
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Santo Aleixo é um conjunto de tribos familiares. Vivem, desde sempre, em volta de um forte ou de uma igreja. Que são o mesmo sítio. A igreja é o centro da aldeia. Que é o mesmo que dizer que é o centro do mundo.
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A aldeia organiza-se como uma acrópole, as ruas fechando-se em baixo na Rua Nova, limite antigo de Santo Aleixo. Chega-se devagar, cruzando rios e riachos, terras de montado e de silêncio. O silêncio mantém-se quando passamos o primeiro largo e as primeiras ruas. Várias ruas são percorridas e ainda não se vê ninguém nas ruas. É já demasiado tarde para quem saiu para trabalhar no campo, e ainda demasiado cedo para o resto do dia. Cruze-se a aldeia um pouco mais, até à escola, onde a musicalidade e as lengalengas do ensino de outrora deram lugar a novos métodos. São 40 meninos, menos, muito menos que em tempos idos. Em breve saberão qual o melhor pego e qual a melhor amoreira das redondezas. Começarão sem pressa a tactear o território e a tomar conta dele. Vai neles, nas brincadeiras deles, e na fala deles, o futuro da aldeia de Santo Aleixo.
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Há um secreto rumor que não lobrigamos ainda. Mercearias de desenho antigo onde cada menos gente vai – “só para as faltas”, ouve-se dizer dizer – contrapõem-se ao bulício da confeitaria, onde se fazem bolos com nomes originais – argolas de vinho, coronilhas, moreninhas de manteiga. De aromas e de alguns sons se vai fazendo esta parte da manhã.
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Entremos mais, um pouco mais, na aldeia, até uma dessas pequenas oficinas desconhecidas, onde os artefactos do dia-a-dia são ainda feitos como há muitos anos atrás. As cadeiras são, ainda são, de loendro e de zambujo, mas o buinho deu lugar à mais prosaica corda. Há um mundo antigo que desaparece, podemos senti-lo a cada passo, em cada casa e em cada conversa. Por isso um sapateiro nos diz “hoje a bota caneleira é bota de luxo, para pôr de festa”. O que antes era trabalho é hoje coisa supérflua e de ostentação.
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De onde quer que estejamos, a igreja é o centro da aldeia e, portanto, o centro do mundo. Chega-se à igreja vencendo o desnível, socalco após socalco, até se poder olhar o território em volta. Há casas num primeiro plano, depois terras, a Adiça ao longe, desaparecendo nos dias de bruma. Não diz muito uma aldeia vista de cima, com as ruas desertas e as casas fechadas. Vem, não sabemos donde, um silêncio que se sobrepõe a todos os sons. O tempo deixa de existir e é como se toda a vida se detivesse à volta dos muros das casas, imobilizando-se os ramos das árvores e deixando-se os pássaros suspensos no seu voo.

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É assim Santo Aleixo no sossego dos seus dias. Foi assim que conheci Santo Aleixo, no Verão de 1973. Nunca me lembro de ter visto quase ninguém nesses dias passados na estação dos Correios, onde fazia companhia, fraca companhia, à tia Elisa. Na verdade lembro-me de duas pessoas, da professora que me tinha inquirido no exame da 4ª classe (como se chamaria e o que será feito da senhora?) e de um rendeiro que veio mandar um vale de trinta contos. “Ena, tanto dinheiro”, pensei, mas Elisa explicou-me que era o dinheiro de todo o ano e que cultivar a terra também tinha despesa. “Ah!”, pensei outra vez, “afinal não é assim tanto”. Aos dez anos, a vida deixava de ser um eterno idílio. Descobri isso em Santo Aleixo. As outras duas memórias da aldeia são precisas e dizem respeito só à estação dos Correios: à placa outorgada ao almoxarife, atestando o bom estado das instalações, e ao cheiro a madeira afagada pela cera. É engraçado que a coisas tão pouco importantes, e que nunca se apagarão, se possam resumir as recordações de uma terra. Só voltei a Santo Aleixo muitos anos depois, sem voltar a saber da professora e do rendeiro. Calor, silêncio e o cheiro às madeiras polidas e enceradas ficaram sendo sinónimos da aldeia.
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À volta de Santo Aleixo repousam restos das santo-aleixos doutros tempos. Os nomes são só nomes nos livros de História – Anta da Negrita, Castelo do Murtigão, Bezerra de Ouro –, abandonados nos campos e esquecidos por quase todos. A prosperidade antiga deste território, nos tempos em que os seus campos davam prata, repousa em livros que poucos lêem. Durante séculos, os homens alimentaram-se do ventre da terra. Em segredo, no mais completo silêncio, as minas de prata alimentaram uma prosperidade frugal. Palmo a palmo, metro a metro, a superfície e as entranhas da terra foram revolvidas. Podemos imaginá-los, aos santo-aleixenses de há mil anos, envenenando-se com os vapores do chumbo, enquanto derretiam o minério. Podemos vê-los, por entre o mato, em sítios escondidos à volta de Santo Aleixo, arrancando metais à terra, transformando-os e vendendo-os nos mercados das grandes cidades do sul. Podemos ouvir o seus passos surdos, nas tardes quentes de Verão e nas noites frias de Inverno, escapando às tropas dos imperadores, dos califas e dos reis e ludibriando quadrilhas de ladrões até chegar em segurança à aldeia.

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A prata partiu há mil anos, sem deixar rasto nem memória nem nada.

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Foi aqui que nasceu, no século IX, e que a partir da aldeia desafiou os poderosos do seu tempo, o guerreiro Faraj b. Khayr al-Tutaliqi. Poetas e guerreiros, pastores e mineiros. São ecos que chegaram até nós como sons que se desvanecem e poucos em Santo Aleixo reconhecerão o parentesco com esses remotos antepassados.

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Fora da aldeia, só os pastores e os rebanhos se movem num cenário que pouco deve ter mudado em mil anos. Os fumos do minério deram, contudo, lugar ao espesso negrume dos fornos de carvão, cujo fumo vemos, aqui e além, cortar a linha do horizonte. A dureza do dia-a-dia não mudou e ficará, talvez, como a marca perene num ambiente pouco amigável e que não dá tréguas a quem aqui vive.

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Fora da aldeia, longe da aldeia e longe do mundo, fica o Convento da Tomina, sítio de uma fé casada com o isolamento. O convento foi erigido entre brenhas e penhascos – em sítio áspero e fragoso, diz um texto antigo -, longe de tudo e fora do mundo. Um delírio em pedra argamassada sob a forma de fé, mas não deixa de impressionar a tenacidade dos que levaram a cabo tal empresa e habitaram o convento durante séculos. A Tomina é hoje uma quase miragem. A Senhora da Tomina dá o nome à principal festa religiosa da aldeia.

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Regressemos à aldeia, ao território dos santo-aleixenses. Regressemos ao centro do mundo. Muitas vezes esse mundo teve que se defender à custa do sangue de quem aqui nasceu. Numa ocasião, em 12 de Agosto de 1644, o ataque atingiu dimensões nunca vistas. A descrição que nos chegou refere-se a uma data e a uma ocasião. O que nela se conta ocorreu muitas vezes antes e muitas outras depois. São vozes vindas do passado que nos contam como se tentou tomar a aldeia encostando sessenta escadas às trincheiras e são os mesmos sussurros que nos dizem como depois os habitantes mataram pelas ruas e casas mais de quatrocentos dos inimigos.

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Se pararmos na Rua Lopo Sancas e esperarmos que passe a máquina do tempo veremos começarem a tomar forma vultos e sombras. Olhemos as casas que ardem, os muros das casas que se derrubam para que de umas se pudesse passar a outras: “E como Lopo Mendes quisesse levantar bandeira branca, e pedir quartel, as mulheres que estavam dentro do reduto lho não quiseram consentir, e pegando na bandeira lha fizeram baixar”. Cinzas e lume, dor e morte. Evoquemos a fúria das mulheres de Santo Aleixo, as mesmas que arrancavam lajes da igreja e as atiravam para cima dos inimigos, deixando-os logo sepultados debaixo dos pedaços das campas.

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Tudo acabou na igreja, com o tecto a cair no meio de uma explosão, gente morta e estropiada, outra lançando-se do que restava do telhado. Sentemo-nos no adro da igreja e olhemos o que resta desse cenário terrível: uma lápide onde se lêem os nomes dos homens principais de Santo Aleixo que foram mortos ou ficaram feridos ou cativos. Estranha justiça esta que homenageia só os homens, e dentre estes apenas os principais, aqueles que por riqueza herdada ou adquirida se distinguiam de todos os outros.

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Na igreja de hoje, apenas a placa evoca esses momentos de horror. O silêncio do templo só é quebrado nos momentos de celebração ou nos dias de festa. Nesses dias Santo Aleixo ganha reverberações da Anadaluzia e guerras antigas tornam-se ainda mais difusas.

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A procissão, esse desfile de celebração tão remoto como o Mediterrâneo, marca o compasso da festa. O tamborileiro, tão antigo como a procissão, marca o ritmo do desfile. O percurso é antigo e de todos conhecido. Todos os preceitos passam de geração em geração. Há flores, guiões e andores e imagens. Há anjinhos, música e padres. “A luxúria leva ao fogo”, proclama um clérigo, enquanto moças bonitas e vestidas a preceito vão passando devagar. A quem se dirigirão as palavras? Às moças, a nós ou a si próprio?

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Nos dias de festa a quietude é quebrada e revive uma Santo Aleixo antiga e telúrica. Quando quase todos partem, voltam a quietude e o silêncio, quase só quebrado pelas vozes que, a espaços, ainda ecoam nas tabernas ou pelos insistentes ensaios dos grupos corais.

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Um ritmo conhecido retoma-se nos dias seguintes às festas. Voltaremos mais tarde à aldeia. Partidos os visitantes, soam agora outros passos nas suas ruas. Guardas e carteiros são quem as percorre com regularidade e por dever de ofício. Há menos cartas a entregar e menos ocorrências a registar. Com o passar dos anos, as voltas e os percursos tornam-se mais rápidos.

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Há dias que ficaram lá atrás no tempo e que não se podem retomar. Não podemos aí demorar-nos, não vá o destino tomar conta de nós. Depois de sairmos é a partida sem olhar para trás, porque a podemos perder como a Eurídice. E assim a aldeia mergulha a pouco e pouco no horizonte como uma cidade vista do mar, quando o barco se afasta e nessa altura já não se vê a cidade.

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Em 1758 a aldeia tinha 737 habitantes. Em 2001 eram 842 os residentes. Diáspora e perenidade marcam o horizonte de Santo Aleixo da Restauração. Os que ficam são os guardiães da aldeia. Os que partem talvez não regressem. Os que ficam repousarão um dia à saída da aldeia. Chamam-se Carrasco. Ou Fialho. Ou Caldeira. Ou Quitéria. Ou Balancho. São os santo-aleixenses.
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Texto do livro Santo Aleixo da Restauração, ontem apresentado ao público.

VAE VICTIS

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

RECORDAÇÕES DA CASA AMARELA

Sexta longa-metragem de João César Monteiro (1939-2003), estas Recordações da Casa Amarela, de 1989, mereceram ao seu autor reconhecimento internacional. Cineasta interessante, que sabia escrever e filmar histórias (o que é coisa pouco vulgar num cinema nacional, onde a qualidade dos argumentos é uma generalizada desgraça), João César Monteiro dá-nos, com este alter ego (João de Deus), uma visão sardónica e provocadora de uma Lisboa meio marginal. A filmografia de João César Monteiro tem outros momentos interessantes, com filmes como Silvestre (1986), A comédia de Deus (1995) e o crepuscular Vai e Vem (2003). A sua obra mais falada, e menos vista, terá sido Branca de Neve, que mereceu ao realizador contundentes opiniões sobre o público português (ver e ouvir aqui).
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Como é dos poucos cineastas portugueses de que verdadeiramente gosto, aqui fica um excerto de um filme que vale a pena ser visto:
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DOMINGO, EM SANTO ALEIXO

É no domingo, às 11 horas, o lançamento do livro Santo Aleixo da Restauração, com fotografias de Alberto Frias e texto meu. O trabalho levou, entre inúmeras peripécias, hesitações, avanços e recuos de toda a ordem, em grande medida da minha responsabilidade, quase dez anos a ver a luz do dia. É narrativa que ficará para mais tarde. Para daqui a muitos anos.
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O Alberto teve, segundo me disse depois, de ser amparado, por não ter resistido à emoção da frase "Alberto, a impressão está terminada".
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A iniciativa, da Câmara Municipal de Moura, faz parte do programa das Festas da Tomina.
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Imagem do livro (© Alberto Frias e CMM)

LICENCIAMENTO ZERO

A ideia é, em si, interessante. Ou seja, reduzir a um mínimo indispensável os procedimentos burocráticos para facilitar a vida aos cidadãos é sempre um passo importante. Responsabilizar os cidadãos e dar-lhes margem de manobra, comprometendo-os, ao mesmo tempo, nas soluções, parece-me outro passo importante. Toda a gente aplaudiu: empresários, autarcas, deputados etc. etc.
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Problema não negligenciável: anunciar este licenciamento zero da forma como o foi feito vai dar a muitas pessoas a ideia que podem fazer as coisas de imediato ("foi isso que o senhor primeiro-ministro disse, não foi?"). Mais, lançar assim programas como este, tão ao gosto da mentalidade anglo-saxónica, num país mediterrânico, e onde o improviso e a indisciplina são regra, vai causar uma generalizada confusão. Em especial em localidades de pequena dimensão, mais afastadas dos grandes centros e com populações menos jovens.
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Frases ainda menos negligenciáveis da imprensa on-line de ontem: "vão ser também eliminadas todas as licenças prévias a algumas atividades, substituindo-as por ações sistemáticas de fiscalização posterior ao início da atividade"; "vai ser possível abrir um restaurante só com registo electrónico. A verificação dos regulamentos será feita a posteriori"; "em contrapartida, será agravado o regime de multas para quem não cumprir as regras". Os distraídos e os mais ingénuos que se cuidem.
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47 anos de lusitanidade deixam-me uma funesta sensação: isto vai dar rebaldaria. E multas. Muitas multas e muito desespero. Desejo, do fundo do coração, estar equivocado e poder dizer, dentro de um ano, o simplex funcionou e aquela coisa do licenciamento zero não deu barraca.
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quinta-feira, 26 de agosto de 2010

CAFÉ ALIANÇA

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Uma notícia triste. Fechou, de vez (?), as portas o Café Aliança, em Faro. Se descontarmos a Brasileira, em Lisboa, e o Majestic, no Porto, hoje a atirar para o chique, o Aliança era um dos raros bastiões de que nunca me esqueço. A par do magnífico Santa Cruz, em Coimbra. Mas também do Arcada, em Évora, agora convertido em casa de bifes.
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O Aliança tinha um detalhe de particular interesse: as suas paredes estavam forradas de fotografias antigas, imagens magníficas de um Algarve pré-turístico que se perdeu no tempo. Mais: algumas dessas fotografias estavam assinadas Zambrano. Nunca consegui chegar à fala com o proprietário, mas tenho quase a certeza que as fotografias eram de Zambrano Gomes, natural de Oliva de la Frontera (Espanha), mas que fez grande parte da sua carreira em Moura.
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É espreitar e escolher:
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http://www.cafesantacruz.com/
http://www.cafemajestic.com/
http://www.abrasileira.pt/
http://www.lusitana.com/
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Zambrano Gomes, fotógrafo de Moura é um livro editado pela nossa Câmara Municipal.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

PARA NÃO DIZEREM QUE EU É QUE SOU MAU...

Para não dizerem que eu é que sou mau convido-vos à leitura do texto de Ana Sá Lopes sobre a passagem do Bloco de Esquerda à clandestinidade (cliquem aqui sff).
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Não sei porquê, mas acho que vou ter mais comentários do que quando escrevo sobre cinema, cidades ou corridas de touros...
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Apoiantes do Bloco num comício de Manuel Alegre (aquilo dos óculos escuros é para não serem reconhecidos)

MÉRIDA - VI: ALCÁÇOVA EMIRAL

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Ao longo dos séculos VIII e IX a região de Mérida manteve-se em quase permanente pé de guerra. Os confrontos entre as guarnições enviadas a partir de Córdova e a oligarquia local moçárabe foram permanentes. Antes ainda de surgirem líderes regionais como al-Jilliqi o poder emiral, face às constantes dificuldades que sentia, resolveu construir uma fortificação no interior da cidade, junto ao Guadiana.
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Embora muitas pessoas pensem, ao visitar o local, que a alcáçova se destinava a proteger os emeritenses dos cristãos do norte a verdade é bem mais prosaica: a fortaleza era uma forma das tropas muçulmanas se protegerem da fúria dos cristãos, que nunca deixaram de ter um papel preponderante naquela região.
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Texto da lápide fundacional da alcáçova (220 H./ 835 d.C.):
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"En el nombre de Dios, el Clemente, el Misericordioso. Bendición de Dios y Su protección para los que obedecen a Dios. Ordenó construir esta fortaleza y servirse de ella como refugio de los obedientes el emir Abd al-Rahman, hijo de al-Hakam –glorifíquele Dios–, por medio de su camil Abd Allah, hijo de Kulayb b. Talaba, y de Hayqar b. Mukabbis, su sirviente [y] Sahib al-bunyan, en la luna del postrer rabi del año doscientos veinte"
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O RIO DA MINHA ALDEIA

Por vezes, embora não com muita frequência, reproduzo comentários de leitores. Achei uma graça muito particular a este:
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olha... Uma "entrada" no blog que tem que ver com algo que não seja futebol e toiros... À parte as eternes "viagens pela minha terra" ou, se quiser, pelas terrass dos outros... Santiago, não te parece um bocado VAZIO passar horas esquecidas a repetir as (inevitáveis) redacções que fazíamos no início das aulças: "Como passei as minhas férias"?? E o futebol e os toiros, e a tasca do liberato... Ouve lá, mas tu já reparaste que te estás, de há uns bons (demasiados) tempos para cá, a vegetalizar?? Vê lá mas é se tens juízo e acordas, homem! Porque a mim parece-me que nem sempre foste uma couve... Mas se calhar sou eu que estou enganado. (enviado a 25.8.2010 - 1:36)
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Tem graça, porque as avaliações mais verrinosas se escondem sempre detrás da capa de algo parecido a elogios sobre as coisas interessantes que teremos feito num passado remoto. Aqui vai uma rápida reflexão sobre o que tem sido, e continuará a ser, este blogue:
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1. O avenida da salúquia 34 é um blogue estritamente pessoal, tem e terá apenas um responsável;
2. As matérias andam sempre à volta dos temas que estão listados no sector "organizando a avenida";
3. Quando falo em política o número de visitas aumenta (dos 10 dias mais visitados, 8 dizem respeito à altura da campanha eleitoral para as autárquicas), mas não me interessa falar só de política;
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Horas esquecidas? Meu caro/minha cara, tenho mais que fazer. O blogue é programado com semanas de antecedência. Tempus fugit e a minha vida é muito ocupada.
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Falo de coisas pouco importantes? Talvez. Falo do que quero e do que gosto, quando quero e como quero. Sem perguntar a ninguém se o faço assim ou assado. Um dia o blogue acabará. Como tudo na vida. Para já vou contando com o interesse de quem por aqui passa. A pedra de toque e o espírito do blogue vão um pouco no sentido do poema que abaixo reproduzo, e que, coisa inédita, aqui publico pela segunda vez. Com uma imagem do Luís Pavão (n. 1954), fotógrafo de quem gosto muito e com quem já publiquei um livro. Em tua honra, meu caro/minha cara.
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De Alberto Caeiro:
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O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.
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O Tejo tem grandes navios

E navega nele ainda,
Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,
A memória das naus.
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O Tejo desce de Espanha

E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde vai
E donde ele vem.
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E por isso, porque pertence a menos gente,

É mais livre e maior o rio da minha aldeia.
Pelo Tejo vai-se para o Mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Nunca ninguém pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.
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O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.

Quem está ao pé dele está só ao pé dele.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

OS ICONOCLASTAS DE SERVIÇO

Vários orgãos de comunicação social optaram, por não publicar, nas suas edições on-line, a fotografia do candidato presidencial do PCP, Francisco Lopes.
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Não há nada como um certo modo, discreto mas eficaz, de eliminar candidatos. E depois é ouvi-los perorar sobre Orwell...
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PEREGRINATIO HISPANICA: SERTÓRIO

Regresse-se, simbolicamente, ao local de partida: o Museu de Évora. E a uma das minhas peças favoritas, falsa como Judas: a suposta lápide de Sertório. A história de uma cidade não tem a dignidade que se desejaria? Então, dê-se-lhe essa dignidade. As narrativas não envolvem personagens de prestígio? Então, tragam-se esses personagens. Foi isso que pensou André de Resende (1500-1573). Criou lápides "romanas" e criou trechos da História. Numa delas, a que vemos na imagem, chegou a eliminar passagens do texto, para sugerir uma destruição da narrativa, às mãos dos inimigos de Sertório.
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As falsificações de Resende ocupam hoje uma das alas do Museu de Évora. São um arquivo vivo da vontade da alma humana.

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segunda-feira, 23 de agosto de 2010

PEREGRINATIO HISPANICA: CORRIDA DE TOUROS EM EL PUERTO

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Podia ter algumas dúvidas, mas agora já não tenho: José María Manzanares (n. 1982) é um grande toureiro, bem ao nível do seu pai, conhecido pelo mesmo nome. Depois de ter, claramente, superado Ponce, em Huelva, foi agora a vez de se impor frente a Morante. As duas orelhas no quinto touro parecem-me um exagero, sobretudo depois do pinchazo, mas as simpatias do público e as condescendências das presidências raramente se explicam.
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Do site www.mundotoro.com:
El Puerto de Santa María (España). José María Manzanares ha vuelto a formar un alboroto en la plaza de El Puerto y de nuevo lo ha hecho a pesar del fuerte viento imperante en la localidad gaditana. El alicantino paseó un total de cuatro orejas en otra demostración de su espectacular momento. Daniel Luque paseó una oreja del tercero, mientras que Morante no tuvo opción con el lote menos apto.
Manzanares entendió el buen pitón derecho del bravo Cuvillo que hizo segundo, por el cual basó toda su faena, que resultó un compendio de composición, estética y poder. A punto estuvo Manzanares de ser prendido por el toro en varias ocasiones debido a las rachas de viento que le dejaban totalmente desprotegido. No se arredró y remató su labor de un estoconazo fulminante.
En quinto lugar sorteó otro Cuvillo con el que volvió a firmar una labor con estética, transmisión y gran profundidad. Los muletazos, de Manzanares, de mano muy baja, no encontraron problema en el viento a pesar de que no paró en toda la tarde. Otra estocada y un total de cuatro orejas de premio.
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Morante de la Puebla, silencio y ovación tras aviso;
José María Manzanares, dos orejas y dos orejas;
Daniel Luque, oreja y ovación.
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A amiga que me acompanhava disse, no final da lide, "além de bom toureiro é uma brasa". Rosnei, como me cabe na qualidade de menos guapo, qualquer coisa pouco simpática. É a vida.
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El Puerto de Santa María é uma cidade agradável. Se ignorarmos as praias e nos virarmos para as ruelas à volta do porto há um assinalável conjunto de opções para uma noite agradável. O sítio mais conhecido, e de justificada reputação, é a Cervejaria El Romerijo. Um tanto barulhenta e um tanto à balda, para padrões lusitanos, mas que, decididamente, vale a pena visitar. Sites interessantes:
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domingo, 22 de agosto de 2010

PEREGRINATIO HISPANICA: LOS PANCHOS

No regresso da curta peregrinatio lembrei-me de Los Panchos. Entre Lebrija e Ayamonte vim de braço dado com eles. Havia discos deles, daqueles 78 rpm, na casa do tio João, em Paymogo. Os temas andam sempre à volta de amores, frequentemente desencontrados, e de paixões ardentes. Durante muito tempo não me lembrei de Los Panchos. Até há uns anos atrás. Comprei um cd duplo. Há coisas que pensamos estarem esquecidas e que, um belo dia, ressuscitam, quase por milagre. Começar a ficar um pouco mais velho deve ser isso...
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Quem aqui canta este Perdida é a formação original de Los Panchos: Alfredo Gil (1915-1999), Chucho Navarro (1913-1993) e Hernando Avilés (1914-1986). Os Panchos têm um site de fãs: www.lospanchos.com

PEREGRINATIO HISPANICA: NA PORTA DO ORIENTE

O vento sopra de Oriente, em Cádiz. A placidez da cidade de hoje contrasta com o esplendor e o bulício de outrora. A cidade de há 2500 anos desapareceu sob o tempo. Suba-se à Torre Tavira, ignorem-se os arranha-céus de San Fernando e da zona balnear gaditana e teremos um pouco do ambiente de outrora.
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Cádiz era um dos melhores portos do extremo ocidente e sítio privilegiado para as trocas comerciais. Os metais da Hispânia chegavam ao seu porto, e aos da zona de Huelva, antes de rumarem a oriente. Tal riqueza deixou testemunhos exuberantes e de uma riqueza ímpar. E permitiu que chegasse até nós um legado orientalizante de extraordinária qualidade. O ouro brilha por entre o alabastro e o vidro. Podemos ter uma ideia do que foi esse passado mítico no Museu de Cádiz. A exposição Cádiz y Huelva, puertos fenicios del Atlántico está patente ao público até ao dia 12 de Outubro. A entrada é livre.
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Veja-se: http://www.juntadeandalucia.es/cultura/museocadiz

sábado, 21 de agosto de 2010

PEREGRINATIO HISPANICA: ELECTRA EM BUSCA DA LUZ

Numa Mérida marcada pela arqueologia não deixou de ter interesse, ainda que relativo, a encenação de Electra, uma peça do início do século XX, de Benito Pérez Galdós (1843-1920). O interesse do texto é, em si, arqueológico e provoca, por vezes, involuntários sorrisos. É um discurso muito datado e muito intensamente político. O labirinto sentimental desta Electra aparece obnubilado por uma luta entre a luz da ciência e as trevas de uma religiosidade opressiva. Electra surge-nos, nesta encenação (não percebi porquê), como uma menina meio tonta e dada a gritinhos histéricos. O momento hilariante dá-se quando abre uma prenda que lhe foi enviada pelo apaixonado. Electra rejubila ao constatar que é um livro de Darwin. Na época em que a peça foi escrita a intenção era clara. Agora parece-nos um momento quase penoso.
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Foi o momento mais desinteressante em dez anos de Festival? Talvez. Mas o cenário em volta tudo ultrapassa.
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O Festival de Teatro Clássico de Mérida vai até 29 de Agosto: www.festivaldemerida.es

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

O RELÓGIO DE SANTOS DUMONT

Lia-se ontem na imprensa que os estudantes americanos que estão prestes a entrar para a universidade pensam que Beethoven foi um cão ou que Michelangelo é um vírus de computador. Nada de novo. O que mais me chamou a atenção foi o facto desses mesmos estudantes estarem a abandonar o uso do relógio de pulso, uma vez que dispõem de informação horária no telemóvel.
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Os relógios de pulso nasceram da necessidade de um aristocrata brasileiro, Santos Dumont (1873-1932), que não podia pilotar o avião e ver as horas ao mesmo tempo. O seu amigo Cartier resolveria o problema, em 1904, criando um modelo de relógio para o aviador. É a memória desses tempos que começa agora a desvanecer-se.
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Modelo Santos (Cartier), comercializado a partir de 1911. Até hoje.

ADELE BLOCH-BAUER

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Quando, aos 25 anos, Adele Bloch-Bauer foi pintada por Gustav Klimt (1862-1918) estava muito longe de imaginar que a sua representação sobre tela faria correr rios de tinta, originaria disputas judiciais e que o seu nome entraria para as enciclopédias de arte. Até se tornar no terceiro quadro mais caro de sempre: 144.800.000 dólares (valores actualizados).
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Outro quadro de Klimt, representando a mesma senhora da alta sociedade vienense ocupa o 13º lugar do ranking. O mercado das artes tem tendências evidentes e se Klimt sempre foi um autor reputado, há 30 ou 40 anos não estava decerto na primeira linha destas milionárias transacções.
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O simbolismo de Klimt veste-se aqui de uma sensualidade que, noutras pinturas, cruza a linha do erotismo. O uso da cor dourada pode parecer estranha mas é bem intencional e remete-nos para o mundo dos ícones e da arte bizantina.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

PERIGO PÚBLICO

Não se trata exactamente de encontrar uma saída para o frustrado sonho de juventude de um dia trabalhar na área da cinematografia. É mais sério que isso.
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Ontem, pelas 18.20, uma barulheira no rio Guadiana tirou-me do computador onde trabalhava no meu projecto do Ciência 2008 e levou-me até à janela do gabinete, onde se tem uma ampla panorâmica sobre o rio. Três motas de água, subiam o rio, a uma velocidade impressionante. Dois minutos mais tarde, voltavam a descer em direcção à foz. Filmei a cena durante 34 segundos.
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Vou enviar, dentro de minutos, uma denúncia para a Capitania de Vila Real de Santo António e para a Administração da Região Hidrográfica do Alentejo. A situação é de evidente perigo. Ao fim da tarde, o rio Guadiana é ocupado pela miudagem da vila, numa prática que tem tanto de antiga como de salutar. Que a sua integridade possa ser posta em causa por energúmenos urbanos que olham para estes territórios do interior como uma reserva exótica, própria para divertimentos imbecis, é algo que me causa profunda preocupação e irritação. "Há dias eram mais de dez", informou-me depois um canoista, acrescentando "nem se conseguia treinar".
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Espero vir a ter da Capitania e da ARH mais que a habitual verborreia da legislação e da regulamentação. A suivre...
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video

SICÍLIA !


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Sicília! não é um filme fácil, pelo menos se o virmos na óptica habitual e formatada pelos ritmos comerciais de Hollywood. Não é um filme subsidiável, na óptica artística de Pacheco Pereira (veja-se o que escreveu no seu blogue e, sobretudo, a defintiva resposta que António Pinto Ribeiro lhe deu nas páginas do Público).
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Sícília! é o relato breve de um homem ao encontro da terra que deixou e às memórias do seu passado. Assim dito parece pouco, mas se tivermos em conta o rigor formal da obra e a sua noção de tempo na montagem veremos Sicília ! utra óptica.
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Quando o filme estreou em Portugal Francisco Ferreira escreveu, nas páginas do Expresso, que era o mais belo filme dos últimos dez anos. Deve andar muito perto da verdade.
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O filme data de 1999. Foi realizado por Jean-Marie Straub (n. 1933) e Danièlle Huillet (1936-2006).

terça-feira, 17 de agosto de 2010

DO GHARB AO ALGARVE: A RECONSTRUÇÃO DAS MURALHAS DE ÉVORA

El señor de Badajoz, Abdallah b. Muhammad temió que, al haber quedado Evora desierta, se metieran en ella algunos de los bereberes de las inmediaciones y resultara perjudicado, por lo que, saliendo con los suyos hacia allí, destruyó los torreones y echó abajo el resto de sus murallas, hasta dejarlas por tierra, regresando luego. Quedó así Evora abandonada el resto del año 301 (acaba el 26 julio 914), hasta que la reconstruyó este Abdallah b. Muhammad al-Jilliqi para su amigo, Masud b. Sadun as-Surunbaqi el año siguiente, 302 (27 julio 914 - 16 julio 915).
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O Muqtabis V, de Ibn Hayyan (987-1075), de onde excerto foi retirado, foi traduzido para espanhol por Maria Jesús Viguera e Federico Corriente. A edição é já antiga (1981) e esteve a cargo da Anubar Ediciones. Trata-se de uma obra fundamental para a compreensão dos mecanismos de subida ao poder de Abd ar-Rahman III.
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Uma das faces desta lápide confirma a narrativa de Ibn Hayyan, ao dar conta da reconstrução das muralhas de Évora. O tipo de escrita não deixou dúvidas ao grande epigrafista Artur Goulart de Melo Borges, que a data dos inícios do século X.
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Na outra face da lápide foi, em meados do século XII, gravada nova inscrição, que regista uma construção mandada realizar por Ibn Wazir, senhor da cidade.
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Esta peça de excepcional interesse, que pertence ao Museu de Évora, está desde ontem e até meados de Setembro patente ao público na Casa vda Cultura Islâmica e Mediterrânica de Silves, na exposição Do Gharb ao Algarve: uma sociedade islâmica no ocidente. Tal como foi em tempos anunciado um dos sectores da exposição mostrará aos visitantes, em sistema rotativo, peças provenientes de fora da região algarvia.
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Para saber mais sobre esta peça veja-se a página web do Museu de Évora:
http://museudevora.imc-ip.pt/pt-PT/coleccoes/epigrafia2/ContentList.aspx

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Sobre a exposição veja-se a página web da Câmara de Silves:
http://www.cm-silves.pt/portal_autarquico/silves/v_pt-PT/pagina_inicial/destaques/gharb+ao+algarve.htm

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

FIESTA

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Porta gayola ou larga cambiada, de grande efeito estético. Os conhecedores nem sempre têm sido unânimes quanto ao mérito desta sorte. Esperar um touro de joelhos evoca-me, a mim que não sou conhecedor, tudo menos falta de mérito...
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«El toreo es probablemente la riqueza poética y vital de España, increíblemente desaprovechada por los escritores y artistas, debido principalmente a una falsa educación pedagógica que nos han dado y que hemos sido los hombres de mi generación los primeros en rechazar. Creo que los toros es la fiesta más culta que hay en el mundo»
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Federico García Lorca
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Este texto é motivado pelo cobarde ataque desta madrugada em Ciudad Real. No pasarán!

BETIS Y SEVILLA

A história passou-se na temporada de 1967/68. Aquilo estava a correr francamente mal lá para os lados do Guadalquivir. O Betis e o Sevilla ocupavam os dois últimos lugares da tabela da 1ª Divisão. Se há coisa que os andaluzes, e os sevilhanos em particular, nunca perdem é o sentido de humor. Os dirigentes do Betis enviaram aos seus rivais de sempre um cartão onde se lia BETIS - Bajaremos Esta Temporada Irremediablemente a Segunda. Os do Sevilla não se ficaram e mandaram outro cartão de volta: SEVILLA - Seguiremos Ese Vuestro Itinerario LLegaremos Antes. De facto, baixaram ambos de divisão.
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Moral da história, e dos dias recentes: é melhor levarmos as coisas com calma e não nos rirmos das desgraças dos outros...
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O Sevilla tem uma massa associativa um tanto burguesa, o Betis - que inclui no nome aquele delicioso arcaísmo de Balompié - é mais popular. À boa maneira do sul não partilham espaços: cada um tem o seu estádio. Os primeiros jogam no Sánchez-Pizjuán, os segundos no Ruiz de Lopera.
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Sites dos clubes: http://www.sevillafc.es/ e http://www.realbetisbalompie.es/

CEM

O Avenida da Salúquia acaba de chegar ao centésimo território aqui do planeta. Foi hoje de manhã, graças a um visitante das Filipinas. Quem será e como terá aqui vindo parar?
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domingo, 15 de agosto de 2010

SE HOUVESSE DEGRAUS NA TERRA...

Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu,
eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.

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Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se,
levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho.
Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra,
e a fímbria do mar, e o meio do mar,
e vermelhas se volveram as asas da águia
que desceu para beber,
e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.

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Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
Correram os rapazes à procura da espada,
e as raparigas correram à procura da mantilha,
e correram, correram as crianças à procura da maçã.


Herberto Helder
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E, por falar em céu e em inferno, e como a moral judaico-cristã liga os dois à noção do pecado original, nada melhor que convidar para o blogue um trabalho maior - ele nunca os fez menores, diga-se - de Michelangelo Buonarroti (1475-1564). E mais outro de Herberto Helder (n. 1930).

ANDRES SERRANO

A imagem que ilustrava o texto de ontem causa desconforto. Uma palavra que se molda bem ao trabalho de Andres Serrano. As suas fotografias são marcadas pela provocação (um negro sorridente vestido com as roupas do KKK) e, sobretudo, pelo anti-clericalismo: uma Pietà onde Cristo foi substituído por um peixe, uma freira masturbando-se, uma Crucificação mergulhada em urina. Um certo toque de Luis Buñuel passa por ali, como já alguém fez notar.
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Este Heaven and Hell data de 1984, antes ainda de polémica de Piss Christ.
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Mostrei a uma amiga, de quem já não esperava a pergunta: "onde é que está aí o Céu? e o Inferno?". Fiquei surpreso. E sem resposta.
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Andres Serrano faz hoje 60 anos.
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sábado, 14 de agosto de 2010

A PESTE ESCARLATE

Uma "superbactéria" capaz de resistir aos antibióticos mais potentes está a assustar as autoridades de saúde do Reino Unido, onde já foram identificados 50 casos. EUA, Austrália e Holanda também já encontraram microorganismos com este novo mecanismo de resistência, levando os especialistas a considerar que se trata de uma ameaça (...) à saúde pública.
Os investigadores alertam ainda para o perigo de este mecanismo passar para outras bactérias, já de si resistentes a antibióticos, criando infecções impossíveis de tratar. E o potencial para se espalhar a todo o mundo é "claro e assustador", escrevem. in "Diário de Notícias"
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"It looked serious, but we in California, like everywhere else, were not alarmed. We were sure that the bacteriologists would find a way to overcome this new germ, just as they had overcome other germs in the past. But the trouble was the astonishing quickness with which this germ destroyed human beings, and the fact that it inevitably killed any human body it entered. No one ever recovered."
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A leitura da novela A peste escarlate, publicada em 1912 por Jack London (1876-1916) ganha por estes dias novos contornos. A adequada gestão dos pânicos é, também, matéria que ajuda a indústria farmacêutica a ir gerando lucros colossais. Acompanha estes textos uma fotografia de Andres Serrano (n. 1950), produzida para o projecto Morgue. Via-a há uns dois anos no Museu Berardo, mas não tenho a certeza se pertence à instituição.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

WOMAN III

Esta mulher tem um toque involuntário de perversidade. O quadro, pintado por Willem de Kooning (1904-1997) entre 1951 e 1953, pertenceu ao Museu de Arte Contemporânea de Teerão. Depois da Revolução de 1979, as regras impostos pelo regime dos ayatollas impediu a exibição de obras como esta.
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A pintura acabou por ser trocada no mercado das artes por um manuscrito persa do século XVI.
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Ironias do destino: Woman III pertence a um financeiro judeu, que deu por esta mulher, em valores actuais, 148.500.000 dólares. O quadro está no 2º lugar das obras mais caras.
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Do ponto de vista dos costumes não me parece que o quadro seja minimamente ofensivo. Mas há olhares perversos que vêem o que nós não imaginamos.
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O Museu de Arte Contemporânea de Teerão tem página na net, mas só os conteúdos em árabe estão disponíveis: http://www.tehranmoca.com/

PME

Na mesa do lado, num bar em Moura:
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Uma jovem empresária proclamava, alto e bom som, o arrependimento que sentia por ter aberto um negócio. Não se queixou da Câmara Municipal, não sei se por eu estar ali e a conversa ser, deliveradamente, para eu ouvir.
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Dizia ela "se não fosse o contrato com o centro de emprego fechávamos já; trabalhamos tanto e os lucros vão todos para outras empresas e instituições: seguradoras, fornecedores, HCCP, saúde, desbaratizações, polícias sanitários que nunca fizeram nada na vida e que nos dão ordens altivamente a limpeza assim, a acomodação dos artigos assado, contabilista, segurança social, EDP, PT, empregadas, etc,etc; as PME estão na sua maioria condenadas; as políticas praticadas a isso nos levam; para onde vai tanta gente e o que vão fazer é que não sei, deveria preocupa o governo, mas não há problema porque a economia, no entender dessa gente, já está a recuperar." (fim de citação)
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A jovem empresária foi de uma absoluta clareza. Aquilo a que tenho assistido nos últimos tempos, na minha actividade de vereador, confirma um cenário mais que preocupante.
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A imagem é de uma barreirista. Mas podia ser uma jovem empresária antes de iniciar a sua carreira no insondável mundo das PME.

SANTA CRUZ-DAMAIA

Recolhemos as bagagens. Por uma questão de princípio, nunca apanho táxis do aeroporto. E tinha de ir buscar o carro à Buraca. Tirei o relógio do pulso e entreguei a carteira à Isabel. Fiquei com 10 euros no bolso, a carta de condução e as chaves do carro. E meti-me no combóio para sair na estação da Santa Cruz-Damaia. A Isabel troçou "parece que vais para Cabul". Nem tanto mas a verdade, nua e crua é esta: é dos poucos sítios que tenho medo de frequentar.

Ontem, houve um assalto nessa estação. Foi ao princípio da tarde. O que li deu para ver que foi coisa feia.

Há uma questão que nunca percebi. Porque é que se juntaram duas estações, Damaia e Santa Cruz, numa só, que está no meio de sítio nenhum? Quem decide estas coisas andará em transportes públicos? Os corredores de acesso metem medo. Uma das saídas dá para uma via rápida, a outra para as traseiras de prédios. Depois do pôr-do-sol aquilo é sítio para heróis. Ou para malfeitores.

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A estação numa das minhas perspectivas preferidas: vista de longe.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

MÉRIDA - V: HIPÓDROMO

A imagem do google foi obtida num blogue emeritense: http://colonia-augusta-emerita.blogspot.com/. Não era, não é, dos sítios mais visitados na antiga capital da Lusitânia. Mas vale a pena afastarmo-nos um pouco do centro da cidade e das suas zonas mais turísticas para termos outra percepção da vida quotidiana dos romanos. É interessante, e depois de lermos as informações que existem no centro de interpretação, percorrermos (a pé, como é evidente) o hipódromo. Olhe-se para um lado e para outro. Ouviremos ainda o rumor das multidões nos dias em que ali se competia.
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O caminho do conhecimento e da verdade não seria a primeira das preocupações dos aurigas, mas posso garantir que o génio do lugar paira ainda no hipódromo. Convido quem por lá passar a ganhar uns minutos lendo este excerto de Parménides.
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"As éguas, que me transportam, tão longe quanto o meu coração alguma vez podia almejar, rapidamente me conduziram, depois de me terem levado e colocado no afamado caminho do deus, que conduz o homem sabedor por todas as cidades. Por esta estrada fui eu levado, por este caminho os sensatos animais me transportaram, puxando o carro, e donzelas me guiavam. E o eixo, levado ao rubro, nos cubos soltava o silvo de uma siringe, pois de ambos os lados com força era impelido pelas duas bem torneadas rodas, enquanto as filhas do Sol se apressavam por levar-me para a luz, depois de abandonarem a morada da Noite e de com suas mãos terem retirado os véus da cabeça.
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Aí se encontraram os portões dos caminhos da Noite e do Dia, encimados por um lintel e com pétrea soleira. Eles mesmos, bem altos no ar, são fechados por grandes batentes, e a Justiça vingadora empunha os ferrolhos alternados. A ela seduziram as donzelas com brandas palavras e habilmente a persuadiram a retirar rapidamente a tranca aferrolhada dos portões. E, ao escancararem-se, fazendo, cada um por sua vez, girar nas chumaceiras os gonzos de bronze, ajustados com pregos e cavilhas, mostraram um abismo hiante, na moldura da porta. Directamente, através deles, no amplo caminho, as donzelas guiaram os cavalos e o carro.
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E a deusa acolheu-me afavelmente, tomou-me a dextra na sua e dirigiu-me com estas palavras: «Ó jovem, tu que vieste à minha morada na companhia das aurigas imortais, com corcéis que te transportam, salve. Não foi má sorte que te impeliu a percorrer este caminho – pois bem longe ele fica do trilho dos homens –, mas o Direito e a Justiça. Convém que tudo aprendas, tanto o ânimo inabalável da rotunda verdade, como as opiniões dos mortais em que não há verdadeira confiança. Todavia aprenderás isto também, como aquilo quem se acredita deve sê-lo sem qualquer dúvida, fazendo passar todas as coisas através de tudo»