terça-feira, 30 de novembro de 2010

SOBRAL DA ADIÇA - UM PEQUENO DETALHE QUE NÃO DEIXA DE SER INTERESSANTE

Alguns divertidos anónimos têm-se entretido (há quem tenha pouco que fazer...) a estabelecer relações de causa-efeito entre candidaturas da Câmara ao PIDDAC (coisa que não existe, refiro-me às candidaturas, não ao PIDDAC), a taxa de recursos hídricos e a falta de resposta das entidades responsáveis.
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Há um pequeno episódio, conhecido nos meios políticos em Moura - foi tema de uma intervenção numa recente sessão da Assembleia Municipal - merece ser relatado. Que cada um tire as suas conclusões.
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Durante uma das últimas cheias da Ribeira da Perna Seca (em Dezembro de 2009) telefonei a uma pessoa responsável da ARH pedindo a presença de técnicos dos serviços no Sobral. Pelo menos para ser feita uma avaliação no local e terem uma percepção da dimensão do problema. Foi com estupefacção que ouvi o pedido de transporte. Não havia verba disponível para deslocações e teria de ser a Câmara de Moura a ir buscar os técnicos da ARH a Beja... Assim fizémos.

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Estou deveras intrigado. Não havia meia dúzia de euros para gasolina, mas havia apoio para uma obra de mais de 2 milhões de euros? Ainda para mais ao abrigo de candidaturas que não existem... Ena, essas são de truz.

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segunda-feira, 29 de novembro de 2010

O ISLÃO EM PORTUGAL

O Islão em Portugal foi o título do workshop que hoje teve lugar, em Lisboa, numa iniciativa conjunta da Fundação Gulbenkian e do British Council. De que se tratava? Muito simplesmente, de dar opiniões e de apresentar perspectivas, numa dimensão ao mesmo tempo histórica e contemporânea, sobre o tema em debate. Éramos 24, sob a moderação de António Vitorino. Havia jornalistas (Margarida Santos Lopes, autora de notáveis trabalhos no Público), antropólogos (José Mapril e Maria Cardeira da Silva), escritores (Luís Carmelo e Adalberto Alves), religiosos (sheik David Munir), historiadores (António Dias Farinha e Cláudio Torres) etc.
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A diversidade de perspectivas foi interessante, ainda que um tanto dispersa, o que é natural, tendo em conta as diferentes proveniências e origens científicas e culturais. Centrei a minha intervenção (cada participante dispunha de cerca de 3 minutos para apresentar uma ideia chave) em torno da necessidade de enfatizar a componente económica da intervenção cultural. Ou seja, não creio que faça muito sentido que as operações de empresas portuguesas no Magrebe não seja acompanhada de esforços mecenáticos e de uma ofensiva diplomática no terreno cultural. A difusão da língua, as traduções, o intercâmbio de estudantes, os trabalhos de campo e as publicações científicas e/ou de divulgação deveriam estar numa primeira linha de preocupações. A tradição em Portugal nestes domínios é debilíssima. Justamente por isso está na hora de inverter a tendência. E de tentar acompanhar o passo de outros. Que trabalham melhor que nós.
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No final da sessão António Vitorino apresentou algumas conclusões, necessariamente provisórias e uma vez que esta sessão foi um início e não um fim. Centrou a intervenção em torno de quatro ideias (informação/conhecimento/agentes do conhecimento/existência ou não de uma questão islâmica). Ficou, em pano de fundo, a ideia de segurança interna. Não era esse o enfoque que eu estaria à espera, à partida. O Cláudio riu-se da minha naïveté. Acho que teve razão para se rir.
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O texto poderia ser acompanhado de uma qualquer imagem de património. A mesquita de Mértola? Porque não? A Porta da Vila, em Faro? Talvez sim... Ainda assim, preferi escolher esta fotografia de um grande autor iraniano, Abbas Attar (n. 1944). Porquê? Porque sim.

domingo, 28 de novembro de 2010

ESTRUTURA DA ANTIGA SOCIEDADE PORTUGUESA

Já por uma vez (ver aqui) me referi ao livro Estrutura da antiga sociedade portuguesa, de Vitorino Magalhães Godinho (n. 1918), cuja primeira edição data de 1971. Ensaio de uma espantosa clareza e concisão, aponta para muitos dos problemas estruturais da nossa organização e das suas falhas de base ao nível da sociedade e do território.
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Não sei se ainda é de leitura obrigatória no 11º ano. Se não é, devia ser.
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Milagre! Milagre! Há exemplares deste livro à venda. Em http://www.arquimedeslivros.net/, por 10 euros. Não foi feita nenhuma tradução em inglês técnico.

RIBEIRA DA PERNA SECA - A PROPOSTA

Foi-me enviado o seguinte comentário, a propósito da obra no Sobral da Adiça:
Leio este Post e pergunto-me: Não seria mais correto colocar aqui a proposta para a conhecermos? A Câmara não recebeu já dinheiro para aquela Obra? Já passou tanto tempo porque só agora surge a Proposta do Deputado João Ramos? Porquê o anterior Deputado da CDU não apresentou a seu tempo uma proposta destas?
27 de Novembro de 2010 21:45

Não sei quem é o/a autor/a co comentário. Apesar disso, e porque as perguntas são perfeitamente lógicas e pertinentes, aqui vão algumas clarificações:
1. A proposta pode ser lida mais abaixo; embora os valores estejam omissos, posso dizer que a repartição de verbas é a seguinte: 100.000 para a intervenção no Rio Mira, 900.000 para a Ribeira da Perna Seca. Refira-se que o valor do que se vai concretizar no Sobral ultrapassa os 2 milhões de euros.
2. A Câmara não recebeu dinheiro para esta obra. E pelo andar da carruagem, não estou lá muito optimista...
3. Estas propostas têm barbas e têm anos. A CDU por várias vezes, através dos deputados do PCP e do PEV, fez propostas no sentido de haver uma comparticipação do Poder Central. Um resumo desta pouco edificante história pode ser lida em:
http://avenidadasaluquia34.blogspot.com/2009/12/sobral-da-adica.html
e em

PARTIDO COMUNISTA PORTUGUÊS

Grupo Parlamentar
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Proposta de Lei nº 42/XI
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Orçamento do Estado para 2011
Proposta de Alteração
MAPA XV – PIDDAC
11 - Ministério do Ambiente e do Ordenamento do Território
50 - Investimentos Plano
15 - Ambiente e Ordenamento do Território
33 - Habitação e Serviços Colectivos - Protecção do meio ambiente e conservação da natureza
NUT II - Região Alentejo
Reforço da dotação para 2011----------------------------------------1.000.000 Euros
Reforço de 1.000.000,00 Euros na Medida acima referida para afectação ao projecto situado na NUT II – Região Alentejo (Distrito de Beja)

- Elaboração de Estudos par desassoreamento do Rio Mira

- Regularização da Perna Ribeira Seca (Concelho de Moura)

Assembleia da República, 08 de Novembro de 2010

O Deputado,

João Ramos

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Fotografia: Frederica Rodrigues (http://olharsobreadica.blogspot.com)

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Algumas notas à margem:

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João Dinis, presidente da junta de freguesia de Sobral da Adiça disse, ao jornal A Planície de 15.10.2009: "… eu considero que a Câmara, por si só, não tem capacidade financeira para realizar a obra, mas tem de interceder junto de outras entidades…".

No jornal A Planície de 1.2.2010 a secção de Moura do Partido Socialista declarava que esta obra não é da responsabilidade da Administração Central.

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A primeira declaração inscreve-se na lusitaníssima lógica do "interceder" (que tem no "ó amigo/ó sôtor faça lá um jeitinho" a sua expressão máxima), leia-se do "requerer", do "pedir" ou do "pedinchar" junto dos poderosos.

A segunda é a revelação do seguidismo em todo o seu esplendor.

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Desde que tomei posse como vereador em 2005, foi este o meu/nosso percurso:

1. A Câmara Municipal tinha de concluir o projecto, iniciativa em que, uma vez mais, esteve sozinha;

2. À medida que se avançava para a conclusão do processo, teriam de se buscar parcerias para o seu financiamento. Intercedendo ou não intercendendo, somámos recusas: do INAG, da ARH, da ANPC etc. etc.

3. Senti, enquanto cidadão português, uma profunda vergonha. Tinha vergonha da minha impotência em resolver o problema mais depressa - e fomos sempre à velocidade máxima permitida num país enredado em leis, em papéis, em prazos idiotas e em exigências disparatadas -, mas tinha, sobretudo, vergonha do Governo que temos, dos seus boys, dos seus bajuladores e puxa-saquistas.

4. Tive vergonha de vários dos meus interlocutores, não pela recusa em colaborar ou em financiar, mas pelo distanciamento e pela indiferença.

5. Senti o sentido da palavra "abandono". Percebi, em muitas ocasiões, a quem estamos entregues e a forma como o interior é deixado à sua sorte por governos de gente indiferente e pouco capaz.

6. Esses sentimentos só me aguçaram o sentido da luta e aumentaram a determinação. Talvez por isso, e mais do que em qualquer outro dossiê, o processo da Ribeira da Perna Seca me deixa um sentimento pessoal de dever cumprido. Que me leva a aguardar, com impaciência pelo início da obra. A entrega de propostas termina, repito, no dia 17 de Dezembro.

7. Peçam lá ao sr. Pita Ameixa que explique aos sobralenses o voto contra o apoio do Governo a esta intervenção.

sábado, 27 de novembro de 2010

THE SEVEN YEAR ITCH

O filme, The seven year itch (O pecado mora ao lado), não é assim tão extraordinário como muitas vezes se diz. O nível é alto, mas sem ser excepcional. Mas esta cena, que dura pouco mais de dois minutos, marca o filme e tornou-se uma das imagens de marca da actriz e, de certo modo, de toda a cultura pop ocidental. Só os joelhos da Marilyn não me convencem...
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Realizado por Billy Wilder (1906-2002), um realizador que fez coisas tão interessantes como Double Indemnity (Pagos a dobrar) ou Sunset Boulevard (O crepúsculo dos deuses), este The seven year itch é divertido e inteligente. Um desajeitado Tom Ewell (não me recordo qual o nome do seu personagem no filme) tenta convencer a rapariga que é um homem irresistível. Vale a pena ver esta originalíssima cena e, de passagem, todo o filme. Nem sempre a realidade tem a ver com os filmes, diga-se.
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Nunca liguei muito à treta dos oscares. Nos últimos anos menos ainda. Mas o talento de Billy Wilder é quase uma excepção: um como produtor, dois como realizador, três como argumentista, mais o Irving Thalberg Memorial. Mais quatro Globos de Ouro e um Grand Prix em Cannes.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

CAMINANTE NO HAY CAMINO

Muitos são os caminhos, muitas mais as dúvidas. O que vale para percursos como o do projecto da Ribeira da Perna Seca vale igualmente para muitas outras coisas na vida. No meio destes caminhos socorro-me de um conhecidíssimo poema de Antonio Machado (1875-1939). E de uma grande fotografia do suiço René Burri (n. 1939), feita em Abu Dhadi, em 1975. Uma e outra dão-nos ideias dos caminhos. Embora os entendam de forma distinta.
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Todo pasa y todo queda,
pero lo nuestro es pasar,
pasar haciendo caminos,
caminos sobre el mar.

Nunca persequí la gloria,
ni dejar en la memoria
de los hombres mi canción;
yo amo los mundos sutiles,
ingrávidos y gentiles,
como pompas de jabón.

Me gusta verlos pintarse
de sol y grana, volar
bajo el cielo azul, temblar
súbitamente y quebrarse...

Nunca perseguí la gloria.

Caminante, son tus huellas
el camino y nada más;
caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.

Al andar se hace camino
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.

Caminante no hay camino
sino estelas en la mar...

Hace algún tiempo en ese lugar
donde hoy los bosques se visten de espinos
se oyó la voz de un poeta gritar
"Caminante no hay camino,
se hace camino al andar..."

Golpe a golpe, verso a verso...

Murió el poeta lejos del hogar.
Le cubre el polvo de un país vecino.
Al alejarse le vieron llorar.
"Caminante no hay camino,
se hace camino al andar..."

Golpe a golpe, verso a verso...

Cuando el jilguero no puede cantar.
Cuando el poeta es un peregrino,
cuando de nada nos sirve rezar.
"Caminante no hay camino,
se hace camino al andar..."

Golpe a golpe, verso a verso.

OS VOTOS CONTRA DO PARTIDO SOCIALISTA

O deputado João Ramos (PCP) apresentou uma proposta na Assembleia da República para financiamento de parte da obra a realizar na Ribeira da Perna Seca, em Sobral da Adiça.

A intervenção está a concurso, terminando o prazo de apresentação de propostas no próximo dia 17 de Dezembro. Todo, mas mesmo todo, o processo foi conduzido pela Câmara Municipal de Moura. Assim se cumpre a lei, que há uns dez anos um governo (socialista) sacudiu as cheias do capote e passou a responsabilidade da resolução destes problemas para as autarquias. O habitual coro de bajuladores pode agora dizer "no fundo, é obrigação das câmaras dar cumprimento às leis". Mas os bajuladores valem o que valem...

No caso da Ribeira da Perna Seca há quatro rápidas observações a fazer:

1. A Câmara Municipal de Moura, da qual me honro de ser vereador, cumpriu a sua palavra;

2. As entidades governamentais viraram, até à data, as costas ao problema;

3. Esta intervenção resolve um problema que os sobralenses sentem na pele;

4. A falta de solidariedade do Governo da Nação faz com que a Câmara Municipal tenha menos capacidade financeira para concretizar outros projectos.

video


Ouviram bem?

Se não ouviram, eu escrevo:

"A proposta foi recusada com os votos contra do Partido Socialista, a abstenção do PSD e do CDS e os votos favoráveis das restantes bancadas."

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

LEITURAS DO SUL CRISTÃO EM MÉRTOLA

Falta uma semana para o colóquio que o Campo Arqueológico de Mértola e o Centro de Estudos Arqueológicos das Universidades de Coimbra e Porto vão organizar, subordinado ao tema Leituras do Sul Cristão. O evento tem o apoio da Câmara Municipal de Mértola e da Fundação para a Ciência e a Tecnologia.
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As sessões terão lugar no Salão Nobre da Câmara Municipal de Mértola. O programa, definitivo e confirmado, é o seguinte:
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2 de Dezembro
9.00 - Abertura
Tema 1: Lendo o território
9.30-10.00 – Maria da Conceição Lopes (Universidade de Coimbra / CEAUCP-CAM)
O território do sul da Lusitânia na geografia económica do mundo Tardo Antigo
10.00-10.30 – João Bernardes (Universidade do Algarve)
Estruturas de produção no mundo rural do sul da Lusitânia (sécs. V-VII d.C.)
10.30-11.00 – Manuel Real (Arquivo Histórico do Porto)
Reflexões sobre o moçarabismo no Gharb al-Andalus: o caso português
11.00-11.15 – Pausa
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Tema 2: Lendo a iconografia
11.15-11.45 - Santiago Macias (Universidade de Coimbra / CEAUCP-CAM)
Os mosaicos de Mértola e a arte do Mediterrâneo Oriental
11.45-12.15 – Miguel Rego (Câmara Municipal de Castro Verde)
Elementos tardoromanos da villa de Santo Isidoro - Entradas (Castro Verde)
12.15-12.45 – Maria Cruz Villalon (Universidad de Extremadura)
La escultura visigoda en proceso de revisión. Imágenes de la Alta Edad Media en la Península Ibérica
12.45-13.15 – Debate
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Tema 3: Lendo a arquitectura
15.00-15.30 – Inês Vaz Pinto (Universidade Lusíada / CEAUCP-CAM / troiaresort), Ana Patrícia Magalhães (troiaresort), Patrícia Brum (troiaresort) e João Pedro Almeida (UNIARQ/FCT)
Novos dados sobre a Tróia cristã
15.30-16.00 - Justino Maciel (Universidade Nova de Lisboa)
De Constantino a Justiniano: Marcas na Arquitectura Paleocristã do Sul de Portugal
16.00-16.30 – Virgílio Lopes (CEAUCP-CAM)
Mértola Cristã. Novos dados para a leitura da cidade
17.00-17.30 – Debate
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18.00 – Inauguração da exposição Arquitectura de Mértola entre Roma e o Islão
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3 de Dezembro
Tema 4: Lendo a sociedade
9.30-10.00 – Cláudio Torres (CEAUCP-CAM)
Cristianismo e orientalismo antes do Islão
10.00-10.30 – Manuela Alves Dias
Novos achados de epigrafia paleocristã em Mértola - A confirmação de um quadro sócio cultural
10.30-11.00 – Mélanie Wolfram e António Monge Soares (ITN)
Baptistérios na Lusitania: o exemplo da Igreja de São Jorge (Vila Verde de Ficalho)
11.00-11.30 – Pedro Mateos (Instituto de Arqueologia de Mérida)
Augusta Emerita: La cristianización de una ciudad en época tardoantigua
11.30.12.00 – Debate e encerramento
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Tarde – visita a Mértola
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4 de Dezembro
Visita a Tróia (a confirmar)
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Assume especial importância, e terá o devido destaque, a exposição, já em fase de montagem, Arquitectura de Mértola entre Roma e o Islão, integrada num projecto apoiado pelo INALENTEJO.

JERUSALÉM

O pretexto desta referência é o recente prémio atribuído em França a Gonçalo M. Tavares. Deste autor li apenas um livro, Jerusalém, mas poucas, muito poucas obras me impressionaram tanto como esta. Não é só rigor formal da escrita, tanto quanto disso me consigo aperceber, mas também a densidade da narrativa. Custa a crer que aos 34 anos se veja o mundo com tanta clareza. O livro é difícil, mas são essas leituras as que causam prazer mais intenso. Eis o início:
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Ernst Spengler estava sozinho no seu sótão, já com a janela aberta, preparado para se atirar quando, subitamente, o telefone tocou. Uma vez, duas, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez, onze, doze, treze, catorze, Ernst atendeu.
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Não sei se a escolha do nome Spengler foi um acaso, mas creio que não. Jerusalém está á venda via internet. Em www.wook.pt, por 12,72 euros.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

GREVE GERAL

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Porque temos direito a um País melhor, mais justo e solidário.
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Está na hora de serem feitas mudanças profundas, que vão além da substituição de protagonistas.

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terça-feira, 23 de novembro de 2010

O OUTONO DO NOSSO DESCONTENTAMENTO

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Now is the winter of our discontent, made glorious summer by this sun of York. Assim começa a peça Ricardo III, de William Shakespeare. Aqui não há verão glorioso. Mas há um Outono de descontentamento. E amanhã começa a despedida.

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Devíamos ter adivinhado. Mas não adivinhámos. O climax está no site da Columbia University: At the age of 18 he went to Coimbra, where he earned a degree in civil engineering. He received an MBA in 2005 from the Lisbon University Institute. Coimbra soa bem - é a universidade portuguesa com maior notoriedade -, mas Sócrates obteve a sua controversa licenciatura na Universidade Independente, entretanto extinta no meio de uma imensa balbúrdia. O MBA corresponde, na verdade, à parte curricular de um mestrado que não completou. Palavras para quê? Antes aqueles que não têm vergonha, nem têm que ter, de escrever no currículo "profissão: electricista". São esses os homens honrados de que precisamos.
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AL-ANDALUS - II: ALMORÁVIDAS E ALMÓADAS

À mesma hora em que António Dias Farinha colocava um ponto final na sua carreira académica era lançado em Mértola o guia Do Estreito ao ocidente do al-Andalus. O livro, com boa apresentação gráfica, tem textos de Fernando Branco Correia, na área que corresponde a Portugal.
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A sessão integrou-se no programa da Feira do Livro de Mértola e contou ainda com um momento musical, a cargo de Muhammad Akel.
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AL-ANDALUS - I: ANTÓNIO DIAS FARINHA

Foi hoje a última lição do catedrático António Dias Farinha, professor de cultura árabe na Faculdade de Letras de Lisboa. A vocação era antiga e teve como primeiro resultado uma tese de licenciatura de grande utilidade, História de Mazagão durante o período filipino. A sua carreira prolongou-se por várias décadas. Marrocos esteve sempre no seu horizonte, numa paixão que pude várias vezes testemunhar. Homem tímido e afável, o prof. Dias Farinha manteve ao longo da carreira um perfil discreto, que em nada menoriza o historiador conhecedor e apaixonado pelos seus temas de estudo.
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Os compromissos na Câmara de Moura impediram-me de me deslocar a Lisboa. Mando-lhe um abraço aqui do Alentejo profundo.
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domingo, 21 de novembro de 2010

STARS IN MY CROWN

Fazendo jus à tradição de deixar aqui pequenos excertos do grande cinema clássico é hoje a vez de Stars in my crown, de 1950, rodado pelo franco-americano Jacques Tourneur (1904-1977). O nome é apenas familiar aos cinéfilos, mas Tourneur tem mais cinema numa sequência como esta que os fabricantes de fogo de artifício (Cameron e outros que tais) em tudo o que fizeram. Out of the past, de 1947, típico film noir, é outro de nos cortar o fôlego. Às vezes Tourneur passa pela Cinemateca.
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O que aqui vos deixo é a cena chave do filme. Não vale a pena contar toda a trama. O poder destas imagens fala por si:
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Uma curiosidade: o miúdo é o hoje veterano Dean Stockwell, que teve em Blue Velvet um papel bem menos angelical.

SÓCRATES SAAED AL-SAHAF

A tenda já foi desarmada, as manifestações correram como seria de esperar no país dos brandos costumes. Os nossos governantes salivaram abundantemente quando os poderosos condescenderam em olhar para eles e elogiaram a nossa capacidade de organização. Essa necessidade quase patológica de sentir que somos ungidos pelos poderosos do planeta enfurece-me mais que tudo o resto.
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O mundo real volta na próxima segunda-feira. Sócrates dirá, como vem repetindo desde há meses, com toda a convicção, que não há motivos para alarme. Até o contrário ser verdade, claro está. Sócrates faz-me lembrar, cada vez mais, o inacreditável e caricato Muhammad Saaed al-Sahaf, ministro da informação de Saddam Hussein, que todos os dias apresentava factos e mais factos de um mundo que existia apenas na sua cabeça.
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Muhammad Saaed al-Sahaf fazia-nos rir até às lágrimas. Desgraçadamente, a situação do nosso País sugere-me tudo, menos a gargalhada.
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Quem se quiser descontrair pode consultar o site (que eu pensava já ter sido desactivado):
http://www.welovetheiraqiinformationminister.com/

sábado, 20 de novembro de 2010

O TIO PODGER

"Tens de ir ao Bricomarché", disse-me a Isabel. Ouvi a frase com um estremecimento e um certo sentimento de fatalidade. Bricolagem e ferramentas não são o meu forte - au contraire... - e só ontem soube, via Mário Valério, o que é um "roquete". Sou uma alma gémea do imortal do tio Podger, que pendurava quadros com uma técnica em tudo idêntica à minha:

"Faz-me sempre lembrar o pobre do meu tio Podger.
Nunca se vê tamanha comoção numa casa como quando o meu tio Podger resolve pôr mãos à obra. Por exemplo, chegava do encaixilhador um quadro que ficava na sala de jantar à espera de ser pendurado; a tia Podger perguntava o que se ia fazer dele e o tio Podger respondia:
- Oh, deixa isso comigo. Não te preocupes, nem tu nem mais ninguém. Eu encarrego-me do trabalho.
E, aí, tirava o casaco e começava. Mandava a rapariga à rua buscar seis pence de pregos e depois mandava um dos rapazes atrás dela para lhe dizer que tamanho havia de trazer; e assim sucessivamente, até pôr toda a casa em polvorosa.
- Vá, vai buscar o meu martelo - gritava - e traz-me a régua, Tom; e preciso do escadote; e mais vale trazerem-me também uma cadeira da cozinha; e, Jim!, corre à casa do senhor Goggles e diz-lhe: "O pai manda cumprimentos e espera que esteja melhor da perna; e se faz favor de lhe emprestar o nível de bolha". E, oh!, Maria, não te vás embora porque preciso de alguém que me segure na lanterna; e quando a rapariga voltar, tem de sair outra vez para ir buscar um pedaço de cordão para quadros; e, Tom! - onde se meteu o Tom? - Tom, chega cá; quero que me passes o quadro.
E depois pegava no quadro, deixava-o cair, o quadro soltava-se do caixilho e, ao tentar salvar o vidro, o tio Podger cortava-se; e então punha-se aos saltos pela sala à procura do lenço. Não conseguia encontrar o lenço porque este estava no bolso do casaco que ele tinha tirado e, como não sabia onde tinha posto o casaco, toda a casa tinha que deixar de procurar as ferramentas para se pôr à procura do casaco, enquanto ele dançava pela sala e incomodava toda a gente.
- Mas será que ninguém nesta casa sabe onde está o meu casaco? Nunca na vida vi gente assim - palavra de honra. Seis! E nenhum consegue encontrar o casaco que eu tirei, ainda não há cinco minutos! Bolas, francamente...
Depois levantava-se e descobria que se tinha sentado em cima do casaco; e então exclamava:
- Oh! Já não precisam de procurar! Já o encontrei eu! Mais valia pedir ao gato que procurasse do que esperar que esta gentinha desse com alguma coisa.
E depois de se ter gasto meia hora a amarrar-lhe o dedo e de se ter encontrado um vidro novo e reunido as ferramentas, o escadote e a cadeira, de se ter trazido uma vela, ele fazia uma nova tentativa, com toda a família, incluindo a rapariga dos recados e a empregada, reunida em círculo em volta dele, pronta para ajudar. Duas pessoas tinham de segurar na cadeira, uma terceira ajudava-o a trepar lá para cima e a segurá-lo lá, uma quarta passava-lhe um prego e uma quinta estendia-lhe o martelo, e ele pegava no prego e deixava-o cair.
- Pronto! - dizia ele, numa voz magoada. - Agora desapareceu o prego.
E todos nós tínhamos de nos pôr de joelhos à procura do prego, enquanto ele ficava de pé, em cima da cadeira, a resmungar, perguntando se era para ficar ali a noite inteira.
Finalmente, quando se encontrava o prego, ele já tinha perdido o martelo.
- Onde está o martelo? Que é que eu fiz do martelo? Valha-me Deus! Vocês são sete, todos para aí embasbacados, e nenhum viu onde eu meti o martelo!
Encontrávamos-lhe o martelo mas entretanto já ele tinha perdido de vista a marca que tinha feito na parede, onde o prego havia de entrar. E todos nós tínhamos de nos empoleirar na cadeira, ao lado dele, a ver se a conseguíamos achar. E cada um de nós a descobria num lugar diferente e então ele chamava-nos parvos, todos um bando de parvos, e mandava-nos descer da cadeira. E pegava na régua, e voltava a medir, e descobria que tinha de saber quanto era metade de setenta e nove centímetros e setenta e nove milímetros a partir do canto, tentava calcular de cabeça e ficava furibundo.
Todos nós tentávamos calcular de cabeça, e todos nós chegávamos a diferentes resultados, e fazíamos troça uns dos outros. No meio da confusão geral, esquecia-se o número inicial e assim o tio Podger tinha de voltar a tirar as medidas.
Desta vez usava um pedaço de fio e, na altura crítica em que o velho louco se vergava sobre a cadeira, num ângulo de 45°, e tentava chegar a um ponto situado dez centímetros para além daquilo que lhe era possível alcançar, o fio escapava-se-lhe da mão e ele estatelava-se em cima do piano, produzindo um efeito musical do mais fino recorte, de tal maneira o corpo e a cabeça batiam em todas as teclas ao mesmo tempo.
A tia Maria dizia que não permitia que as crianças ali ficassem a ouvir uma linguagem daquelas.
Finalmente, o tio Podger conseguia localizar de novo a marca e colocava a ponta do prego sobre ela, com a mão esquerda, segurando no martelo com a mão direita. E, com a primeira martelada, esmagava o polegar e, uivando, deixava cair o martelo em cima dos pés de alguém.
A tia Maria observava mansamente que, da próxima vez que o tio Podger quisesse pôr um prego na parede, esperava que ele a prevenisse a tempo para que ela pudesse ir passar uma semana com a mãe, enquanto o trabalho estava a ser feito.
- Oh! Vocês mulheres! De tudo fazem uma confusão! - replicava o tio Podger, endireitando-se. - Que queres, os trabalhinhos deste tipo divertem-me!
E depois fazia mais uma tentativa e, à segunda pancada, o prego entrava direitinho pela parede adentro e metade do martelo ia atrás dele, e o tio Podger era precipitado de encontro à parede, com força quase suficiente para esborrachar o nariz.
Depois tínhamos de voltar a procurar a régua e o fio e novo buraco era feito; e, lá pela meia-noite, o quadro estava pendurado, todo torto e mal seguro, com a parede à volta que parecia varrida a tiro e toda a gente morta de cansaço e furiosa. Toda a gente excepto o tio Podger.
- Pronto! Já está! - dizia ele, descendo pesadamente da cadeira para cima dos calos da empregada e inspeccionando com um orgulho evidente a bagunça que tinha feito. - Quando penso que há pessoas capazes de chamar um operário para fazer um trabalho destes! "
(...)
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Nos dias maus socorro-me, como pílula de boa disposição, do livro "Três homens num bote", escrito em 1889 por Jerome Klapka Jerome (1859-1927). Há lá histórias imortais, a do tio Podger, a do queijo que acaba enterrado na praia, a do pianista alemão e a do homem que só conseguia remar de pé.
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Não há imagens do tio Podger. Mas há de Frank Spencer, essa outra minha alma gémea. A série, Some Mothers Do 'Ave 'Em, passou na RTP por volta de 1975. Michael Crawford (n. 1942) tinha nas reparações caseiras um dos seus temas chave. Só disponível no youtube, onde vale a pena espeitar, aqui, a aventura da árvore de Natal.
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Já agora, fui ao Bricomarché. Obviamente, enganei-me no tipo e tamanho das acendalhas.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

AMANHÃ, EM MOURA

Não podendo estar amanhã em Moura não posso deixar de recomendar vivamente, a quem tiver essa possibilidade, o programa que irá ter lugar no Pátio dos Rolins. Neste renovado espaço da cidade vai ser debatido o tema Vivências e sobrevivências do passado do quotidiano. A qualidade dos intervenientes e o interesse das propostas garantem uma tarde em que cada minuto será tempo ganho.
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PUNCH-LINE

A sessão do SUSTENTAR terminou com uma tirada de bom-humor do Prof. Eduardo Oliveira Fernandes, antigo Secretário de Estado do Ambiente (1984-1985) e da Energia (2001-2002). Este catedrático do Porto, amigo de Moura, teve o seguinte comentário para o Presidente Pós-de-Mina: "os seus vereadores [referia-se a José Oliveira e a mim próprio] são gente afinada; e aqui o vereador Macias até já aderiu à energia eólica, pondo uma ventoinha no pescoço".
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O hilariante comentário tem uma ponta de injustiça para com o bonito laço ASPEN, modelo da Bow Tie Club. Toda a gama em: www.bowtieclub.com

SOLEIL LEVANT

Terminou hoje, em Moura, a iniciativa SUSTENTAR. Um intenso programa de intervenções, debates e visitas culminou na assinatura de um protocolo entre uma fundação brasileira vocacionada para a ciência e a tecnologia e a LÓGICA E.M. Está aberto o caminho para uma cooperação mais intensa entre entidades portuguesas, brasileiras e dos PALOP. As vibrantes palavras do deputado federal Pedro Uczai e o empenhamento do presidente Pós-de-Mina dão-nos a certeza que o caminho das energias renováveis e a aposta nas áreas de investigação e do desenvolvimento serão um rumo certo nos próximos anos.
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O êxito da iniciativa ficou muito a dever à equipa da LÓGICA e dos trabalhadores da Câmara de Moura que marcaram presença durante estes dias no Parque Municipal de Feiras e Exposições.
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Para todos eles e todas elas aqui vai o Soleil Levant - Impression, pintado em 1872 por Claude Monet (1840-1926). O título da tela baptizaria o movimento impressionista. O sucesso da aposta, das apostas, feitas em Moura estão longe de ser uma impressão.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

TRÊS LIVRARIAS

São, segundo a Lonely Planet, as três mais belas livrarias do mundo. A primeira fica em San Francisco (City Lights Books), a segunda em Buenos Aires (El Ateneo Grand Splendid), a terceira fica no Porto (Lello e Irmão). A primeira não me convence lá muito, mas pode ser que as fotos que estão na net não sejam expressivas. Já o Ateneo corta a respiração a qualquer um. Ei-las, pela ordem em que estão no pódio:
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Curiosidade: nem o Ateneo nem a Lello têm site. Bem vistas as coisas, com sítios de tal esplendor quem disso precisa?

SOBRE BARCOS

Qual a razão de um post? Nem sempre há uma. Talvez seja o caso deste. Para além do facto de gostar de poemas e de achar que a fotografia de Werner Bischof não é suficientemente conhecida nem se lhe fazer a devida justiça. "Um barco / atracado ao cais / é sempre / um sonho preso" diz, com razão e sensibilidade, o meu amigo Luís Filipe Maçarico.
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A minha vida é um barco abandonado
Infiel, no ermo porto, ao seu destino.
Por que não ergue ferro e segue o atino
De navegar, casado com o seu fado?
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Ah! falta quem o lance ao mar, e alado
Torne seu vulto em velas; peregrino
Frescor de afastamento, no divino
Amplexo da manhã, puro e salgado.
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Morto corpo da ação sem vontade
Que o viva, vulto estéril de viver,
Boiando à tona inútil da saudade.
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Os limos esverdeiam tua quilha,
O vento embala-te sem te mover,
E é para além do mar a ansiada Ilha.
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Fernando Pessoa, in 'Cancioneiro'
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LIVROS, BIBLIOTECAS E DGLB

O tema "bibliotecas" tem causado agitação de sobra nos meios académicos e culturais.
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Motivo 1 (a ordem é arbitrária): a fusão da DGLB na Biblioteca Nacional. A primeira coisa que me passou pela cabeça foi o portuguesíssimo desabafo "só em Portugal". Sendo conhecidas as diferentes missões e os diferentes objectivos, só vejo duas razões para esta medida: reduzir custos, seja a que preço for e, sobretudo, acabar de vez com o financiamento de novas bibliotecas. O que está subjacente à existência de entidades como a DGLB - a promoção do livro e da leitura, a Cultura, essa coisa pouco rentável... - corre um perigo real. Por mais beatíficas que sejam as palavras da nossa ministra da cultura só me passa uma ideia pela cabeça quando a ouço garantir que os objectivos da DGLB serão mantidos: "desculpe, mas não acredito no que está a dizer".´
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Conheço o percurso da instituição desde a sua origem - a biblioteca de Moura foi uma das primeiras sete, no sul do país, a beneficiar de apoio para ampliação de instalações, em 1988 - e tive o privilégio de poder contactar com muita gente qualificada do IPLL (depois IPLB, depois DGLB). A segunda vida do projecto da Biblioteca de Moura passou por muitos contactos aí mantidos.
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É pena que em Portugal tenhamos disponibilidade, para com a maior desfaçatez e leviandade, nos desfazermos do que temos de melhor. Há dez anos destruímos, sem pestanejar, a equipa da Comissão dos Descobrimentos - o remorso chama-se Museu da Viagem. A história repete-se.
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Motivo 2: o encerramento da sala de Leitura Geral da Biblioteca Nacional durante nove meses. A situação é trágica, para quem tem de fazer trabalhos de investigação. E é pouco sério apontar a Biblioteca da Academia das Ciências, ou a Biblioteca de Arte da Gulbenkian ou a Faculdade de Letras como alternativas. Quem o faz ou está a brincar ou não frequenta a Biblioteca Nacional. Não só por as teses de mestrado e doutoramento ali estarem depositadas, como pelo facto de haver inúmeras obras que não existem, de todo, em qualquer das outras. A sala de leitura geral fechou a 15 deste mês, os reservados encerram no dia 1 de Abril. Reabre tudo (será?) no dia 1 de Setembro de 2011.
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A paixão pelas biliotecas é antiga. Pelos livros também , sendo eu fraco leitor. Há poucas bibliotecas de que gosto sem reservas: a Biblioteca Nacional, em Paris, é uma delas. Mas tenho um lugar guardado para a biblioteca do Instituto Arqueológico Alemão, em Madrid. Tudo está impecavelmente organizado, o sítio é confortável e silencioso. E sem silêncio profundo não há leitura capaz.
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Sobre a polémica da DGLB ler este texto e consulte-se ainda o site da BN: http://www.bnportugal.pt/

terça-feira, 16 de novembro de 2010

SUSTENTAR

A iniciativa, organizada pela LÓGICA E.M. e pela Câmara Municipal de Moura, tem início amanhã e termina na próxima sexta-feira.
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É este o texto de apresentação:
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Sustentar é a designação adoptada para uma iniciativa que tem por tema central a sustentabilidade, nas suas diversas vertentes, lançada no Brasil e promovida pela Assembleia Legislativa de Santa Catarina em 2008 e que já concretizou, este ano, a sua terceira edição.
Fruto da colaboração dos últimos anos e de vários contactos bilaterais entretanto estabelecidos com entidades e autoridades estaduais do Estado de Santa Catarina, no Brasil, surgiu o desafio de realizar uma iniciativa irmã em Portugal, capaz de reforçar os laços de cooperação que queremos promover e de proporcionar um espaço de aprendizagem mútua numa área de importância estratégica e onde existem diferentes mas ricas experiências dos dois lados do Atlântico.
Queremos que o Sustentar de Novembro em Moura, Portugal, seja um passo importante nesse sentido centrando atenções numa área vital para a sustentabilidade, a energia.
A experiência de Moura neste domínio, através das concretizações já conseguidas e dos projectos em marcha, tal como a experiência de Santa Catarina na área das energias renováveis proporcionam o espaço ideal para que se possa promover um debate rico, assente em dados e projectos concretos a decorrer nos respectivos territórios, capaz de abrir caminhos de cooperação de interesse mútuo, no sentido da promoção do desenvolvimento que, para o ser efectivamente, terá de ser sustentável.
Para além das experiências em curso e do conhecimento acumulado quer em Portugal quer no Brasil em áreas tão diversas como a energia solar ou os biocombustíveis, o facto de estarmos perante uma iniciativa que junta comunidades que partilham, para além de boa parte da sua História, a mesma língua, levou mais longe a ambição de poder proporcionar a diferentes comunidades lusófonas a discussão e o debate em torno da temática da sustentabilidade e das energias renováveis, pelo que passou a fazer parte dos objectivos desta iniciativa a participação, sob diferentes formas, dos países africanos de língua oficial portuguesa.r
Do programa que propomos, para além do ciclo de painéis temáticos, destacam-se as visitas técnicas a instalações associadas a investigação neste domínio, a centros electroprodutores de diferentes dimensões e a partir de diferentes fontes, uma mesa redonda alargada ao espaço lusófono, bem como um programa cultural que queremos demonstrador do património da nossa terra.
Muitos e bons motivos para aceitar e levar por diante o desafio lançado ao Município de Moura em final de Maio, no encerramento do Sustentar 2010, em Chapecó, Santa Catarina, Brasil.
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Programa e demais documentação em http://www.sustentar.info (página web da iniciativa)
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segunda-feira, 15 de novembro de 2010

À QUEIMA-ROUPA

"Estás preparado para dez anos de recessão?". A pergunta, assim à queima-roupa, foi-me disparada no sábado à tarde, durante uma festa de aniversário. O autor da questão é militante socialista (ala sampaísta) e foi, há não muitos anos, secretário de estado de um sector chave da economia. O visado pela pergunta era o autor deste blogue. Achei uma certa graça amarga à pergunta, apesar das circunstâncias. Que um quadro qualificado faça esta leitura da situação e avise que é para uma década dá bem a dimensão do estado a que chegámos. E quem tem a culpa não são os trabalhadores.
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Daqui a dez anos, se lá chegar, terei 57. Ainda estarei a trabalhar, salvo razão de força maior. Mas a perspectiva de uma década de trevas não é entusiasmante. Passamos, a todos os níveis, por tempos de reflexão. E de luta.
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Faltam nove dias para a greve geral.

domingo, 14 de novembro de 2010

UMA PERGUNTA SOBRE ALTER PEDROSO

Ao regressar de Óbidos voltei a passar os olhos por uma passagem do Muqtabis II, de especial interesse para esta região no período islâmico. Por volta de 835 d.C., e numa época de grande agitação, tiveram lugar estes acontecimentos:
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[A guarnição da cidade de Beja, derrotada pelas tropas da Mahmud b. Abd al-Jabbar numa batalha, toma o caminho da fuga] por lo que salieron huyendo en franca derrota, sin volverse por nada, mientras Mahmud los acuchillaba, haciendo en ellos gran carnicería y persiguiéndoles hasta la aldea de Riba Awtah de aquel distrito (...) La noticia de este encuentro se hizo famosa, hablándose mucho de él y haciéndose conocido en aquel país como la batalla de Ubadah Bitrushah, y Mahmud tuvo ciertamente inigualable ayuda divina en su victoria, Diós sabrá con qué propósito: tras ella continuó su camino, saqueando los llanos de Beja sin que nadie se le opusiera hasta llegar a la cora de Ocsónoba.
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Os tradutores da obra, Mahmud Ali Makki e Federico Corriente lançam duas pistas importantes: numa nota referem que Riba Awtah é "topónimo no identificado, del romanandalusí RÍPA ÁWTA rípa alta, "orilla alta", seguramente en alguna de las hoces del Guadiana en esta zona, donde discurrían los fugitivos a refugiarse en Beja"; noutra, adiantam que Ubadah Bitrushah deriva do latim "oppidum petrosum "fortaleza pétrea", a través de un romandalusí ÓPIDO PETRÓSÓ, atestiguado en el topónimo Úbeda y diversos derivados del latín petra "piedra" en los Glosarios de Simonet y Asín (...) El lugar no resulta fácilmente identificable, aunque debió estar en el área al norte de Beja, como los otros antes citados.
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Desconheço se esta passagem já foi objecto de alguma abordagem por algum colega da área da História ou Arqueologia, por isso aqui lanço a hipótese desta passagem da obra de Ibn Hayyan se reportar ao castelo de Alter Pedroso, fortaleza antiga e junto à qual se situa Alter do Chão, cujo pano de muralha aponta, no seu embasamento, para cronologia em muito anterior à Reconquista.

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Imagem do castelo de Alter Pedroso
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A primeira parte do Muqtabis II é uma das obras mais célebres da historiografia do al-Andalus, escrita no século XI. Citado por Lévi-Provençal numa obra publicada em 1944, o manuscrito desaparece misteriosamente, após a morte do grande arabista, ocorrida em 1956. Em 1999, Joaquín Vallvé edita uma versão facsimilada do texto. Sabe-se então que o manuscrito estivera, todo esse tempo, nas mãos de Emilio García Gómez (1905-1995), amigo de Lévi-Provençal e que tivera, provavelmente a intenção de estudar e editar o célebre Muqtabis II/1. Em 2001, Mahmud Ali Makki e Federico Corriente publicaram, finalmente, uma tradução da obra.
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A rocambolesca história foi tema para um comentário, de grande interesse, assinado por Manuela Marín, em 1999, na revista al-Qantara e que pode ser descarregado aqui.
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Índices da al-Qantara disponíveis em: http://www.eea.csic.es/qantara/qantara.html
O Muqtabis II/1 custa cerca de 21 euros e está disponível em www.porticlibrerias.es

O NU, AS FOLHAS E O BUSTO

O quadro intitula-se Nu au Plateau de Sculpteur. Pablo Picasso pintou-o em 1932, aos 51 anos. A mulher era Marie Thérèse-Walter, a sua companheira de então. O quadro, de inspiração clássica e com alusões a um mundo onírico próximo de De Chirico, não é dos mais conhecidos do pintor. Foi vendido este ano por 106,5 milhões de euros. É o sétimo quadro mais caro de sempre.
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O tema da mulher nua evoca-me um poema de Juan Ramón Jiménez, presença regular aqui no blogue. O bucolismo das palavras não anda longe do ambiente onde a mulher repousa.
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LA MUJER DESNUDA

Humana fuente bella,
surtidor de delicia entre las cosas,
tierna, suave agua redonda,
mujer desnuda: ¿un día,
dejaré yo de verte;
te tendrás que quedar
sin estos asombrados ojos míos,
que completaban tu hermosura plena,
con la insaciable plenitud de su mirada?

(¡Estíos; verdes frondas,
aguas entre las flores,
lunas alegres sobre el cuerpo,
calor y amor, mujer desnuda!)

¡Límite exacto de la vida,
perfecto continente,
armonía formada, único fin,
definición real de la belleza,
mujer desnuda!: ¡un día,
se romperá mi línea de hombre,
me tendré que espandir
en la naturaleza abstracta;
no seré nada para ti,
árbol universal de hoja perene,
eternidad concreta!

sábado, 13 de novembro de 2010

EL NEGRO ZUMBON

Um cd, nas intermináveis viagens de automóvel, trouxe-me um punhado de recordações. Hang on little tomato, dos Pink Martini, tornou-se um inesperado protagonista da campanha da CDU nas autárquicas de 2005. O José Maria Pós-de-Mina pedira-me que arranjasse sons que pudessem dar um pouco de colorido e evitassem com que todos endoidessemos depois de ouvirmos a Carvalhesa de manhã à noite. Supresa e desconfiança são palavras imprecisas para descrever a recepção que teve a minha modesta proposta. Em vez dos tradicionais Zeca, Vitorino, Adriano arrisquei uma grupo de tambores do Burundi, Maurice Jarre (os acordes iniciais do filme Lawrence da Arábia) e este El negro zumbon, que os Pink Martini recuperaram mais de 50 anos depois de ter sido um dos grandes momentos, em 1951, do filme Anna, da Alberto Lattuada (1914-2005).
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Anna é uma pecadora que se torna freira. Nesta cena recorda, com uma expressão intraduzível, as suas noites num
night-club. Anna era interpretada por Silvana Mangano (1930-1989), cujas coxas ao léu no filme Arroz amargo foram motivo de perturbação para toda a geração dos anos 50.
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De Alberto Lattuada guardo, da RTP dos dias de juventude, uma fortíssima recordação de
O capote, de 1952, um filme neo-realista que entra pelos domínios do fantástico.
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A banda sonora de 2005 resultou bem, felizmente. Pelo sim, pelo não, nunca mais me pediram consultoria nesses domínios.

FUNDAXÍMETRO

No meio das desencontradas conversas que são a imagem de marca de congressos, simpósios e afins, alguém me faz uma revelação, que me pareceu verdadeiramente extraordinária. A Fundação da Casa de Bragança cobra, desde há uns meses, 15 euros à hora aos investigadores que querem ter acesso aos seus fundos arquivísticos. 15 (?!) euros à hora? A FCB parece ter-se antecipado ao esbulho que o Ministério das Finanças põe em prática como medida de combate à crise. Se a moda pega...
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O site da Fundação nada diz sobre o tema. Veja-se http://www.fcbraganca.pt/, que parece contrariar o estatuto de utilidade pública da entidade.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

O SENHOR DO ADEUS

João Manuel Serra morreu aos 80 anos. Tornara-se, nos últimos anos, uma figura emblemática e insólita da cidade de Lisboa.
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"Chamam-me o Senhor do Adeus, mas eu sou o Senhor do Olá. Aquele que acena no Saldanha, a partir da meia-noite. Tudo isto é solidão? Essa senhora é uma malvada, que me persegue por entre as paredes vazias de casa. Para lhe escapar, venho para aqui. Acenar é a minha forma de comunicar, de sentir gente", escrevia, em Março de 2008, o Expresso sobre João Manuel Serra, salientando: "São quase duas da manhã e os carros não param de lhe apitar. Nem eu de lhes acenar. Só fico triste quando o movimento acaba."
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"Venho para a Praça Duque de Saldanha, desde que fiquei nas mãos de não ter ninguém. Nasci aqui perto, na casa da minha avó. Um palacete tão bonito, que o Calouste Gulbenkian quis comprá-lo. Vê-se que foi um menino rico. Sou filho de gente abastada, nunca trabalhei nem entrei numa cozinha".
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O texto do Expresso, que li e recortei, coisa que raramente faço, era de uma sensibilidade rara. Foi escrito por Ana Sofia Fonseca, a quem devo o contacto com esta história única do homem que acenava a quem passava como forma de combater a solidão. Um grupo de anónimos lisboetas rendeu-lhe ontem homenagem. Fellini teria gostado de o conhecer. Jarmusch também.
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quarta-feira, 10 de novembro de 2010

VOLTA, STEVE DOIG, ESTÁS PERDOADO!

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Manifestação com cinco estudantes escoltada por dez polícias
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Lentamente e com passo miudinho cinco estudantes do ensino secundário de Beja caminharam, nesta quarta-feira, ao longo da principal avenida da cidade, segurando uma faixa amarela com três palavras de ordem escritas a negro: “Não aos exames – ao regime de faltas – estudantes estão na rua”.
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Ninguém vinha atrás. Apenas um carro da PSP com quatro agentes. À frente da “manifestação”, outra viatura e uma motorizada com mais elementos desta força policial. O cenário apresentava contornos insólitos.
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O protesto dos estudantes do secundário de Beja juntou apenas cinco jovens, que outros colegas (decorria um intervalo nas aulas) olhavam no passeio, alguns em silêncio, outros rindo e perguntando o que é que se estava a passar, alegando desconhecer que era dia da manifestação nacional dos estudantes do ensino secundário.
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Os automobilistas é que não acharam piada nenhuma. E os próprios agentes da PSP não conseguiram disfarçar o constrangimento que a situação provocou. O trânsito ficou caótico durante o tempo em que os cinco jovens percorreram cerca de duzentos metros, distância que medeia entre as duas escolas secundárias D.Manuel I e Diogo de Gouveia.

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O que acabaram de ler não é piada. Aconteceu mesmo. O texto é do jornalista Carlos Dias e saiu no Público. No meio de tanta desgraça e daquela excitação dos 7% há coisas que ainda nos fazem rir a bandeiras despregadas. E há ali cinco jovens que não conheço e que ganharam o meu respeito.