segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

FADO DO 31

Tudo tem um princípio e um fim. E Liedson, nesta sua sua oitava época no Sporting, levava apenas três golos marcados. Aos 33 anos também já não teria grande margem, nem muito espaço no plantel.
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Regressa agora ao Corinthians. Embora não gostasse dos golos que marcava ao SLB (e marcou alguns) fica a imagem de um profissional sério e que deixará, decerto, saudades em Alvalade.
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domingo, 30 de janeiro de 2011

EGIPTO

Dois textos, muito curtos e muito elucidativos, foram publicados nas últimas horas. Ajudam, em pouquíssimas palavras, a perceber o que se passa e o que se teme que se possa vir a passar. Um é de Francisco Seixas da Costa e está na blogosfera (v. aqui). Ou outro está disponível no Diário de Notícias (v. aqui).
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Os filhos de Mubarak partiram para Londres. E a preocupação do Ocidente é saber se o Egipto resiste ou não à deriva islamita. Pelo que se tem lido e visto nos últimos dias a margem de manobra é curta. E El Baradei a ser preso numa mesquita não é uma boa indicação.
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sábado, 29 de janeiro de 2011

DO GHARB AO ALGARVE: GRAND FINALE

Não será um momento operático, mas nem por isso terá menos interesse. Hermenegildo Fernandes, da Faculdade de Letras de Lisboa, encerrará o ciclo de conferências que acompanharam a exposição Do Gharb ao Algarve: uma sociedade islâmica no Ocidente. A sua intervenção intitula-se Do Orientalismo. A visão dos vencidos: percursos velhos e novos dos estudos árabes em Portugal. Dia 4 de Fevereiro, às 18 h., na Casa da Cultura Islâmica e Mediterrânica de Silves.
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A exposição encerra no dia 5 de Fevereiro.
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SOYLENT GREEN

O final do filme Soylent Green é trágico. Subitamente descobre-se que, num mundo em estado de caos, as pessoas se comem umas às outras.
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José Sócrates, mais conhecido pelas suas incursões na arquitectura contemporânea da Cova da Beira, lançou ontem novas pistas sobre a sua visão do mundo, designadamente no mundo laboral: "a rigidez do setor laboral em muitos domínios afeta aqueles que querem entrar para defender aqueles que lá estão", defendendo que "os sindicatos devem ter presente que não devem defender apenas quem lá está mas defender aqueles que têm direito a ter um posto de trabalho".
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A época dos saldos vai abrir. Vai ser o salve-se quem puder. Se fosse vivo, Milton Friedman ficaria com inveja de José Sócrates.
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Fotograma do filme de Richard Fleischer

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN

Um dia
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Um dia, gastos, voltaremos
A viver livres como os animais
E mesmo tão cansados floriremos
Irmãos vivos do mar e dos pinhais.
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O vento levará os mil cansaços
Dos gestos agitados irreais
E há-de voltar aos nossos membros lassos
A leve rapidez dos animais.
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Só então poderemos caminhar
Através do mistério que se embala
No verde dos pinhais na voz do mar
E em nós germinará a sua fala.

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O livro foi publicado há dois meses, pela Caminho (49,90 €). Só agora o vou comprar. Obra poética reúne toda a poesia editada de Sophia de Mello Breyner Andresen. Escolhi este poema quase, quase ao acaso. E esta fotografia do grande Paul Strand (1890-1976) evoca-me cansaço e passos surdos. "Um dia, gastos, voltaremos / A viver livres como os animais"? Talvez. Se ainda tivermos tempo...

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

NUCCIA BONGIOVANNI

Não é a primeira vez que esta cantora de voz delicodoce, há muito desaparecida, passa pelo blogue. Era ela quem dava voz a um extraordinário anúncio do Fiat 500, com a Casa Portuguesa, de Amália, cantada em italiano (ver aqui). E ainda a um dos melhores anúncios jamais concebidos: o da Royal Mail com a música de Amore baciami (ver aqui). Pat Boone também interpretava esta canção num filme, mas confesso que o estilo de Pat Boone me dá sono.
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Aqui, Nuccia Bongiovanni canta Questa picolissima serenata, uma música célebre na época, para promover os sabões Asborno. O anúncio tem mais de dois minutos, algo de impensável pelos nossos padrões.
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Pormenor divertido: tanto no Fiat 500 como neste Nuccia Bongiovanni anda à volta de lavagens com abundância de espuma. Um certo complexo de Pilatos, como alguém diria.
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HÁ SUL E SUL, HÁ IR E VOLTAR

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Mais um fim de semana a sul, com iniciativas que valem a pena. O sul vale a pena. De sexta a domingo, as rotas andarão entre Moura, Mértola e Silves. Aqui fica a divulgação.
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Sábado à tarde, Luís Filipe Oliveira, professor na Universidade do Algarve, dará uma conferência sobre A mouraria de Lisboa no século XV, iniciativa integrada no programa sócio-educativo da exposição Do Gharb ao Algarve: uma sociedade islâmica no Ocidente. Às 17 horas, na Casa da Cultura Islâmica e Mediterrânica de Silves.
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Domingo, em Moura, discutem-se alternativas para os caminhos da Cultura, da Arte e da Sociedade. De manhã e de tarde, nas instalações do Conservatório Regional de Música. Participam, entre outros, José Maria Pós-de-Mina, Manuel Gusmão, Jorge Feliciano, Carlos Vidal, André Levy e Carlos Pereira (programa completo aqui).
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Lá estarei. Em Silves e em Moura. Com uma passagem por Mértola.
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quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

PESSOAS - II: PAULO AMORIM

Era uma turma engraçada, a do 8º ano (1976/77) do Liceu Nacional de Queluz. Todos nós queríamos ser coisas diferentes e mais ou menos disparatadas. A turma acabou por "dar", até, um banqueiro (!). Mas o mais consistente de todos era o Paulo Amorim. Queria, do alto da certeza absoluta dos seus 13 anos, ser guitarrista profissional. Além de jogador de basquetebol do Clube Atlético de Queluz era, já nessa altura, um exímio executante. Estudou solfejo, gravou discos e deu e dá concertos. É uma pessoa excepcional e um músico de primeira linha. Pontos do discórdia: tinha horror ao hard-rock e era politicamente conservador. Nunca chegámos a acordo em relação a esses temas. Continuamos amigos
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Mandou-me ontem um sms. Dá hoje, em directo, um concerto na Antena 2. Lá estarei.
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Aqui fica o convite. Mais informação em
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PESSOAS - I: ARSÉNIO MENDES FIALHO, UM MOURENSE NA ALTA RODA

O evento teve lugar na semana passada, mas só ontem dele tive conhecimento. Arsénio do Carmo Sales Mendes Fialho, Professor Associado do Instituto Superior Técnico, concluiu com sucesso as provas de agregação. Daí a catedrático vai um pequeno passo, e há-de ser dado, ainda para mais tendo em conta que o Arsénio é, ainda, bastante novo.
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O Arsénio é de Moura. Não é da Salúquia, mas o pai dele, o meu amigo Arnaldo, faz parte desse sector da vila. Não percebo nada de biologia molecular, mas ter chegado onde chegou, numa escola de prestígio, não é para qualquer um. O Arsénio é um académico brilhante. E, ainda por cima, é muito boa pessoa. Como se pode ver pelo ar dele na fotografia.
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Um abraço, Arsénio, e só não te trato pela alcunha de família porque essas coisas não são para a blogosfera.
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terça-feira, 25 de janeiro de 2011

LANGUE DE BOIS

Um politólogo da Universidade Católica (gosto imenso dos politólogos, estão para a política como os eclesiásticos estão para as questões de sexo: têm a teoria toda mas não praticam nem sabem nada da prática) falou do deputado xis que tinha tratado o deputado ípsilon de uma forma que não se justificava e que isso era uma falta de respeito para com a instituição adversarial.
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Um quarto de hora depois recuperei do trauma e passei a rádio para a Antena 3.
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FLEXIBILIDADE LABORAL - TIPO ASSIM

No Público, ontem:

As organizações patronais querem reduzir para metade ou para um terço as indemnizações nos processos de despedimento colectivo ou por extinção do posto de trabalho e defendem a imposição de um tecto máximo, que actualmente não existe. Os sindicatos, principalmente a CGTP, nem querem ouvir falar de tal hipótese.

No Público, hoje:

(...) a ministra do Trabalho propôs aos parceiros sociais uma redução das indemnizações - que passarão a ter por base 20 dias de salário por cada ano de antiguidade contra os actuais 30 - e a imposição de um tecto máximo de 12 meses. Além disso, Helena André formalizou a criação de um fundo para financiar uma parte das indemnizações, alimentado exclusivamente pelas empresas.

Perceberam a diferença entre o que querem os patrões e o que quer o governo? Perceberam? Se perceberam têm mais sorte que eu. É preciso assim uma legislação mais flexível, assim tipo espanhola ou moderna ou qualquer coisa. Uma jornalista do Expresso mostrava hoje na SIC uma angústia assim tipo existencial. Do tipo querem ver que daqui a pouco também estou no olho da rua. O Partido Socialista, se até há pouco tinha uma ideologia assim tipo social-democrata, com tanto de social como o queijo tipo Serra tem a ver com o original, agora deixou-se de invenções e passou a ter uma ideologia assim tipo de gatas antes o patronato.

É preciso sermos flexíveis, assim tipo Nokulunga Buthelezi, só que em termos laborais. José Sócrates descobriu a pólvora. É preciso dar condições aos patrões para trabalharem. Assim tipo América onde basta a renegação verbal "you're fired", assim tipo muçulmanos radicais no casamento.

É um socialismo moderno, tipo assim. Como agora se diz.

Léon Blum deve estar a dar voltas no túmulo.

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Nokulunga Buthelezi, contorcionista sul-africana, uma trabalhadora sem dúvida muito flexível.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

A GRANDE ESFINGE DO EGITO

A Grande Esfinge do Egito sonha por este papel dentro...
Escrevo — e ela aparece-me através da minha mão transparente
E ao canto do papel erguem-se as pirâmides...
Escrevo — perturbo-me de ver o bico da minha pena
Ser o perfil do rei Quéops ...
De repente paro...
Escureceu tudo...
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Caio por um abismo feito de tempo...

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Estou soterrado sob as pirâmides a escrever versos à luz clara deste candeeiro

E todo o Egito me esmaga de alto através dos traços que faço com a pena...
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Ouço a Esfinge rir por dentro

O som da minha pena a correr no papel...
Atravessa o eu não poder vê-la uma mão enorme,
Varre tudo para o canto do teto que fica por detrás de mim,
E sobre o papel onde escrevo, entre ele e a pena que escreve
Jaz o cadáver do rei Quéops, olhando-me com olhos muito abertos,
E entre os nossos olhares que se cruzam corre o Nilo
E uma alegria de barcos embandeirados erra
Numa diagonal difusa
Entre mim e o que eu penso...
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Funerais do rei Quéops em ouro velho e Mim! ...

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Fernando Pessoa

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Talvez tenha sido acaso mas ontem, ao chegar a casa, caiu-me nas mãos o livro L'Egypte de Keiichi Tahara, de um grande fotógrafo japonês nascido em 1951. E depois, logo a seguir um poema da Esfinge, de Fernando Pessoa. Na noite da esfinge vitoriosa são boas escolhas. E melhores, muito melhores, que a esfinge de carne e osso.
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Ver www.keiichi-tahara.com

NOTAS DA NOITE - EU DIRIA MESMO MAIS, É UMA JOVEM ESPERANÇA!

João Cravinho, na SIC-NOTÍCIAS, acha que Manuel Alegre, que tem 74 anos, não comprometeu o seu futuro político. Claro que não, pelo padrão Manoel de Oliveira, está praticamente no começo.

domingo, 23 de janeiro de 2011

NOTAS DA NOITE - JÁÁÁ?

Júlio Magalhães, na TVI, interroga-se sobre quem poderá ser o próximo Presidente (ele refere-se a 2016). Ter pressa é isto.

NOTAS DA NOITE - "OS MADEIRENSES SÃO TODOS ASSIM?"

Espantado com o teor das declarações de José Manuel Coelho, um adolescente, que no próximo ano já vota, perguntou-me "os madeirenses são todos assim?". Não, Manuel, não são. Mas os 39,01% (46.247 votos) na região e as vitórias nos concelhos de Machico, Santa Cruz e Funchal dão que pensar.

NOTAS DA NOITE - MAIS UM "HAS BEEN"

A TVI não perde tempo a dar em directo as declarações de Manuel Alegre. Passa-as em diferido e corta-as a meio porque Cavaco Silva sai de casa.

NOTAS DA NOITE - O SEGUNDO SCOOP DE BERNARDO FERRÃO

São 21.45 e o intrépido repórter Bernardo Ferrão anuncia que as luzes da casa de Cavaco se começam a apagar e que os seguranças arrumaram os sobretudos na mala do carro. O que quer dizer que Cavaco Silva está quase a sair de casa. Temos Pulitzer à vista.

NOTAS DA NOITE - O MOMENTO BURLESCO

José Sócrates diz, sem se rir, que os dirigentes do PS estiveram ao lado de Manuel Alegre na campanha. No Second Life, talvez.

NOTAS DA NOITE - MÁRIO SOARES

Estou em Mértola e ouço claramente as gargalhadas do Dr. Mário Soares. Juro.

NOTAS DA NOITE - UMA NOVA VOCAÇÃO

O meu amigo, e antigo colega da Fac., José Manuel Mestre está a sair-se muito bem na cobertura do velório da candidatura de Manuel Alegre. Os obituários são difíceis de fazer. Mas ele está a fazer aquilo com elegância.

NOTAS DA NOITE - A PRESSA

Jerónimo de Sousa está a discursar. José Barata Moura vê as horas. Psst, camarada, há coisas que se devem evitar em público.

NOTAS DA NOITE - O SCOOP DE BERNARDO FERRÃO

O repórter Bernardo Ferrão continua à porta da casa do PR, na Travessa do Possolo. Em duas horas ainda nada aconteceu, mas há filmes franceses que são assim e têm imenso sucesso.
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Em desespero de causa entrevista quatro garotinhas - com os seus 6/7 anos, o que farão na rua a estas horas? - que declaram que o Presidente lhes dá "muitos beijinhos e abraços". Foi isso que eu ouvi.

NOTAS DA NOITE - ALÔ SIS!

O jornalista da SIC acaba de descobrir dois jornalistas chineses no CCB. Ele não fala mandarim ou cantonês e eles não falam outra(s) língua(s).
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Tendo em conta as finanças do País, era melhor saber quem são os senhores.

PROTAGONISTAS DO DIA: OS OUTSIDERS

E eis que aparecem os candidatos-tv. Com pouquíssimas iniciativas de massas - aquela distribuição de papéis no Cais do Sodré foi penosa - e quase sem máquina de apoio, Fernando Nobre e o inenarrável José Manuel Coelho atingem resultados apreciáveis: o primeiro ultrapassa os 13%, o segundo tem mais de 4% e é o segundo (!) na Madeira.
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PROTAGONISTAS DO DIA: PAULO MACHADO E FERNANDO COSTA SOARES

A eleição já não estava assim muito electrizante, mas a clamorosa barracada que a Direcção-Geral da Administração Interna (Paulo Machado é o responsável máximo - fotografia de cima) e a Comissão Nacional de Eleições (Fernando Costa Soares é o responsável máximo - fotografia de baixo) deram com a parte gaga dos cartões de eleitor quase tiraram o protagonismo a Cavaco Silva.
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Não haverá demissões. Em Portugal não há esse hábito. Aguardo, divertido, as explicações, seguramente complexas, para a carnavalada.
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PROTAGONISTAS DO DIA: CAVACO SILVA

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É reeleito e esmaga a concorrência. É o grande vencedor, mas há agora sombras em relação aos homens do presidente. Cavaco Silva não sai incólume.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

AMAZÓNIA

É só até domingo que está patente ao público, no Pavilhão do Conhecimento, em Lisboa, a Expedição Amazónia Exposição. Entre 26 de Dezembro de 2009 e 9 de Janeiro de 2010, ilustradores, fotógrafos, designers, médicos, professores e jornalistas registaram de forma livre e espontânea, dia e noite, as suas impressões acerca da Amazónia, ora a bordo do barco-residência Dorinha, em percursos exploratórios em canoas, ora em caminhadas pela floresta, nas margens do Rio Solimões e do Rio Negro.

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O ponto de inspiração foi a expedição científica liderada, em 1783, por Alexandre Rodrigues Ferreira, e que teve como título Viagem Filosófica ao Grão - Pará.

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A mostra é composta por cadernos de campo realizados no terreno pelos ilustradores, reproduções de uma selecção de desenhos, fotografias captadas por três fotógrafos e o projecto multimédia Amazónia 2010, produzido a partir de textos, imagens e sons do local e que é apresentado em formato digital (vídeo) com animação 2D e 3D e banda sonora de João Lucas.

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Texto adaptado a partir de

http://www.pavconhecimento.pt/exposicoes/temporarias/index.asp#amazonia

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De quem é este desenho? De Nádia Torres (n. 1962), pintora, ilustradora e ourives.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

SONDAGEM


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Sondagem Intercampus, 16-19 Janeiro, N=1004, Presencial
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Entre parêntesis, mudança desde sondagem anterior da mesma empresa:
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Cavaco Silva: 54,6% (-5,5)
Manuel Alegre: 22,8% (-2,5)
Fernando Nobre: 9,1% (+4,9)
Francisco Lopes: 8,2% (+1,9)
José Manuel Coelho: 2,7% (+1,1)
Defensor de Moura: 2,6% (+0,1)
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Notas:
Cavaco Silva desce mas, para já, continua a assegurar a vitória à primeira volta; Manuel Alegre afunda-se; Fernando Nobre e Francisco Lopes afirmam-se e José Manuel Coelho arrisca atingir um score inesperado.

PARE ESCUTE OLHE

Sobretudo, veja.
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A iniciativa, a todos os títulos notável, é do Teatro Fórum de Moura. É uma grande ideia mostrar um pouco do DOCLISBOA no nosso concelho (há muito mais vida para lá do junk-food cinematográfico). E é boa ideia mostrar aos mais novos os filmes Documento Boxe e Combate às escuras. Foram momentos particularmente emotivos do último DOCLISBOA. Mas chamo, em especial, a atenção para o documentário Pare, Escute, Olhe, de Jorge Pelicano (n. 1977). "Pare, Escute, Olhe é uma viagem através de um Portugal esquecido, vítima de promessas políticas oportunistas", lê-se no texto de promoção do documentário. Não se passa no nosso Alentejo, mas sim num Alentejo igual ao nosso, só que mais a norte.
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O filme passa no Cine-Teatro Caridade, no dia 28 (21.15) e é de visão obrigatória.
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O resto da programação está em http://www.teatrofmoura.org/
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O documentário tem página: http://www.pareescuteolhe.com/ que dá ligação a um blogue

ARCHPORT

José d'Encarnação congratulava-se no outro dia pela elevada adesão dos profissionais, assim como de não profissionais interessados nos temas da arqueologia, à ARCHPORT, uma lista por ele dinamizada a partir da Universidade de Coimbra. Anunciada assim: "esta lista é um meio de comunicação acessível a todos os que queiram debater a Arqueologia Portuguesa" é, na verdade, muito mais que isso. Por ali passam anúncios de iniciativas, informações sobre saídas de livros, ofertas de trabalho, notícias de colóquios, discussões tranquilas ou um tanto agrestes. A ARCHPORT é uma ideia magnífica, cujo sucesso se saúda. Tem uma irmã gémea, não menos importante, a MUSEUM, dedicada aos temas de museologia.
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Believe it or not, ARCHPORT é, também, uma marca de sapatos. O seu lema, o segredo está na alma, é válido para os apaixonados pela descoberta do passado.
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Para quem quiser saber mais sobre sapatos ver:
http://www.archport.com/

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Se os interesses forem arqueologia ou museologia inscreva-se em:
http://ml.ci.uc.pt/mailman/listinfo/archport
http://ml.ci.uc.pt/mailman/listinfo/museum

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

O INTERCIDADES, O PCP E O PS

No site da Rádio Voz da Planície:

PCP: Apresentado projecto de resolução sobre serviço intercidades

O Grupo Parlamentar do PCP apresentou na Assembleia da República, um Projecto de Resolução sobre a manutenção do serviço intercidades Beja-Lisboa-Beja. O documento foi rejeitado pelos votos contra do PS e as abstenções do PSD e CDS/PP.

Os votos contra do PS, incluindo os dos deputados Luís Pita Ameixa e Conceição Casanova eleitos pelo distrito de Beja, e as abstenções do PSD e CS/ PP, rejeitaram um Projecto de Resolução apresentado pelo Grupo Parlamentar do PCP e votado na passada sexta-feira na Assembleia da República, que “defende a manutenção do serviço intercidades, Lisboa-Beja e Lisboa-Évora e reclama a sua qualificação em termos de oferta e adequação de horários". (fim de citação)

Será que percebi bem? O PCP apresentou uma uma proposta defendendo a manutenção do intercidades Lisboa-Beja e o PS votou contra? Os srs. deputados baixo-alentejanos (como eles gostam de dizer) Pita Ameixa e Conceição Casanova, do PS, votaram contra essa manutenção. Contra? Porque será? E se a linha fosse Lisboa-Baixo Alentejo votariam a favor?


Fotografia no blogue: http://texasselvagem.blogspot.com. Ia jurar que é a estação do Barreiro...

Automotoras como esta tiveram uma longa vida nas linhas férreas do sul. Em segunda classe havia bancos de madeira e um inconfundível cheiro a gasóleo. No Ramal de Sueste chegavam a atingir uns estonteantes 70 kms/hora. A estrutura rangia toda e ficávamos com a sensação que a automotora ia descolar em direcção aos céus. Ainda não se falava no Beja International Airport, claro.

Vale a pena ler o que Luís Maneta escreveu hoje no A Cinco Tons (v. aqui).

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

JASPER JONHS - FALSE START & BED

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Jasper Johns (n. 1930) é o décimo pintor mais caro de sempre. É, também, o único que está vivo neste top ten. O seu quadro False start, de 1959, está em décimo sexto lugar na lista das obras mais caras. Foi vendido em 2006 por 80 milhões de dólares e está numa colecção particular. Artista importante na afirmação da arte americana dos anos 50 Johns é muitas vezes incluído no grupo da Pop Art, corrente com a qual tem pontos de ligação, mas de cuja corrente principal não fez parte. Mais do que False start ou Flag, talvez a sua obra mais conhecida, a minha obra preferida na obra de Jasper Johns é Bed, de 1955. O prof. Rio-Carvalho chamava-nos sempre a atenção para a atitude, simultaneamente de compromisso e de ruptura, do artista ao conceber esta obra, entre a escultura e a pintura. Ou um ready-made um pouco às avessas.
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Leia-se, mais abaixo, o poema de Carlos Drummond de Andrade. Porque a palavra chave é a que remete para a obra de Johns. Porque Drummond de Andrade bebeu, com prazer, a vida até à última gota.
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O que se Passa na Cama
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O que se passa na cama
é segredo de quem ama.

É segredo de quem ama
não conhecer pela rama
gozo que seja profundo,
elaborado na terra
e tão fora deste mundo
que o corpo, encontrando o corpo
e por ele navegando,
atinge a paz de outro horto,
noutro mundo: paz de morto,
nirvana, sono do pénis.

Ai, cama, canção de cuna,
dorme, menina, nanana,
dorme a onça suçuarana,
dorme a cândida vagina,
dorme a última sirena
ou a penúltima... O pénis
dorme, puma, americana
fera exausta. Dorme, fulva
grinalda de tua vulva.
E silenciem os que amam,
entre lençol e cortina
ainda húmidos de sémen,
estes segredos de cama.

Carlos Drummond de Andrade in O Amor Natural

domingo, 16 de janeiro de 2011

RACHID AL-GNANNOUCHI

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Tunísia: islâmicos querem tomar o poder após o caos. O Diário de Notícias estampava hoje o disparate, na primeira página. Na realidade, o que se queria dizer é que os islamitas querem tomar o poder. A cara da notícia é o quase septuagenário Rachid al-Ghannouchi,ou Rāshid al-Ghannūshī, líder do Ḥizb al‐Nahḍah, o Partido do Renascimento. Está há longos anos no exílio e já veio declarar a meio da semana que está disponível para liderar um governo de unidade nacional.
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O Magrebe é uma região de fragilíssimos equilíbrios. Ben Ali que, tal como o seu antecessor Bourguiba, nunca pactou com os religiosos radicais, sucumbiu ao poder da rua. Das duas, uma: ou o novo poder consegue ultrapassar rapidamente o clima de caos que se vive ou os islamitas, longamente ostracizados, ganharão rapidamente terreno.
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Curiosamente, nada disto parece interessar os jornalistas, como hoje assinalava Ferreira Fernandes, ou preocupar os políticos em Portugal. Saberão onde fica a Tunísia?

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

BEJA, O AEROPORTO E O COMBÓIO

A imprensa de hoje anuncia que Beja vai perder a ligação directa a Lisboa. Quando as obras de renovação da via estiverem terminadas haverá uma automotora até Casa Branca e depois o combóio. Vão chover os protestos, as moções das câmaras, os artigos na imprensa etc.
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A situação pode não parecer confortável - eu que o diga, na qualidade de utente regular do intercidades - mas bem vistas as coisas, dá vontade de dizer "ó pá não compliquem". Se vamos ter o aeroporto e os aviões para Lisboa, para que queremos nós os combóios? Sim, para quê?
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ANTEVISÃO:
A carreira Lisboa-Beja das 20.15
da Air Baixo Alentejo no momento da aterragem na capital do distrito
(vista do cockpit)

SÁBADO A SUL

E amanhã será dia de ir almoçar a Beja, com camaradas aqui de Moura. E de muitos outros sítios, bem entendido. Tenho um bom pressentimento para amanhã. E para o futuro, também.
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Depois, irei ainda mais para sul, para ouvir a minha colega e amiga Maria João Branco (Universidade Aberta), que vai dar uma conferência a Silves sobre "O relato da conquista de Silves". É mais uma iniciativa integrada na exposição Do Gharb ao Algarve: uma sociedade islâmica no Ocidente.
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Um sábado para actividades políticas e sociais. Sintam-se convidados a participar. Naquilo que vos disser mais ao coração, bem entendido.
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quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

CIÚME

Carlos Saura tentou hispanizar o ciúme, esse sentimento universal. O filme é melhor do que se disse, e na altura, em 1983, disse-se bem e disse-se mal. Ganhou o BAFTA e o Grande Prémio do Júri, em Cannes.
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Nesta cena, a da fábrica de tabaco - na ópera, a cena tem lugar no primeiro acto - há uma luta feroz entre duas mulheres. O elemento masculino só entra mais tarde, quando a disputa entre Escamillo e José se torna evidente. Carmen, com libretto de Merimée e partitura de Bizet, é uma celebérrima ópera, de finais do século XIX. Sobe este ano, de novo, à cena no S. Carlos.
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Enquanto esses dias não chegam, rendamo-nos aos sons do sul: à música e ao taconeado, que também é música.
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Elegia do Ciúme
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A tua morte, que me importa,

se o meu desejo não morreu?
Sonho contigo, virgem morta,
e assim consigo (mas que importa?)
possuir em sonho quem morreu.
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Sonho contigo em sobressalto,
não vás fugir-me, como outrora.
E em cada encontro a que não falto
inda me turbo e sobressalto
à tua mínima demora.
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Onde estiveste? Onde? Com quem?
— Acordo, lívido, em furor.
Súbito, sei: com mais ninguém,
ó meu amor!, com mais ninguém
repartirás o teu amor.
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E se adormeço novamente
vou, tão feliz!, sem azedume
— agradecer-te, suavemente,
a tua morte que consente
tranquilidade ao meu ciúme.
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Este poema de David Mourão-Ferreira está publicado em Tempestade de Verão

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

5.000.000.000

5.000.000.000 de euros é a bagatela já enterrada no BPN. É o equivalente à totalidade do orçamento dos 308 municípios portugueses para dois anos. E ainda sobram 200 milhões...
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Nada mal, não acham?
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SONDAGENS

Vai começar, com mais intensidade, a dança das sondagens. Pedro Magalhães, num post no blogue margens de erro recorda as previsões de 2001. A candidatura de António Abreu, apoiada pelo PCP, foi marcada por diversas incoerências. Ainda assim foi, e bem, a votos. As sondagens davam-lhe entre 1,2 e 2,4%. Teve 5,1 (clicar na imagem sff).
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A campanha de Francisco Lopes avança no terreno e afirma-se. A última sondagem atribui-lhe 6,3%. Aguardemos as próximas. Um pouco mais de punch e pode entrar nos terrenos de outros candidatos. Sobretudo no de Manuel Alegre, que se submerge numa apagada e vil tristeza.
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terça-feira, 11 de janeiro de 2011

TUNÍSIA I: EL KEF

Estacámos à porta da cervejaria, pois disso se tratava. Dezenas de homens enchiam por completo o espaço. Sobre as mesas, que eram muitas, espalhavam-se centenas de minis. O barulho era ensurdecedor. Fomos conduzidos à única mesa disponível, ainda espantados e aturdidos. Bebemos uma cerveja rapidamente, antes de tomarmos o caminho da rua, antes que o som nos derrotasse. O bar continuou cheio pela noite dentro. Alguns dos frequentadores acusavam já o peso das libações, quando lá voltámos a passar.
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"Imaginavas uma coisa destas?", perguntou-me o António Cunha. Claro que não imaginava. Quem diabo poderia imaginar que em El Kef, a pouco mais de 20 km. com a Argélia, iríamos encontrar um tal antro de perdição. Mais do que o consumo livre do álcool o que mais surpreendeu foi o ar de descontracção dos frequentadores. Ali, não havia repressão religiosa ou social que valesse.
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Tempos depois perguntei a um amigo tunisino o que explicava aquilo. Sorriu e explicou que a região de El Kef era especial. Porquê? Por causa dos tumultos e protestos populares ocorridos anos antes. Desde então, uma inusitada tolerância reinava na região. Um jogo de compensações? Sem dúvida.
Cidade orgulhosa, antiga capital, em território de montanha, o espírito de El Kef vai bem com a paisagem agreste.
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Ao ler, nos últimos dias, as notícias da Tunísia, constatei, sem grande surpresa, que a rebelião estalara no limite ocidental do país, em Kasserine e em Thala, perto de El Kef.
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Um amigo tunisino lamentava que os países europeus voltassem as costas a este problema. Em política, nem sempre o que parece é. E a displicência ocidental é a tradução do apoio não explícito a um status quo que lhe é mais conveniente que qualquer deriva islamita. É uma aposta arriscada e que uma juventude flagelada pelo desemprego não entenderá. Ou os bares ou as mesquitas irão encher-se, em El Kef.
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El Kef (a antiga Sicca Veneria) numa gravura de finais do século XIX

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

ÁGUA LUSTRAL

O tema do banho e das banhistas (sempre AS) dá pano para mangas na História da Pintura. Ao procurar ontem imagens encontrei muitas pinturas de renomados pintores. A marca comum é a sensualidade, a visão carnal e a tocar o erotismo de muitas delas. Em particular as de Cézanne, as de Degas ou de Renoir. Mas podemos recuar no tempo, que lá estarão Tintoretto ou Clouet para lembrar outras visões da beleza feminina.
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Ainda assim, a imagem que me surgiu como mais divertida foi esta, que não conhecia, Venus Rising from the Sea - A Deception, de Raphaelle Peale (1774–1825). Imaginemos então a vénus que não lobrigamos...
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O quadro, de 1822, está hoje no Nelson-Atkins Museum of Art, Kansas City (USA)
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The Bath-Tub
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As a bathtub lined with white porcelain,
When the hot water gives out or goes tepid,
So is the slow cooling of our chivalrous passion,
O my much praised but-not-altogether-satisfactory lady.
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O poema foi incluído em Lustra, de 1916, de Ezra Pound (1885-1972)
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Site do museu: http://www.nelson-atkins.org ( e não me perguntem porquê, que não sei, mas os sites dos museus americanos são todos muito bonitos). Os poemas de Ezra Pound estão em http://www.poemhunter.com/ezra-pound/

domingo, 9 de janeiro de 2011

E EIS QUE AS "NOVAS OPORTUNIDADES" CHEGAM À UNIVERSIDADE

A notícia foi dada pela RTP:

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O presidente do Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas (CRUP), António Rendas, disse hoje que "foram aprovadas recomendações para iniciar o processo de creditação dos licenciados pré-Bolonha".

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Falando no final da reunião da CRUP, que decorreu no Campus de Angra do Heroísmo da Universidade dos Açores, António Rendas revelou que "essas orientações visam credenciar os licenciados anteriores ao processo de Bolonha com o grau de mestre".

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Para isso, "conforme o currículo académico e profissional de cada um terão de fazer algumas disciplinas, apresentar e defender um relatório final, cujas definições serão determinadas por cada uma das universidades".

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"Puta que pariu! Estás a falar a sério?" foi a surpresa e indignada reacção de uma professora universitária a quem telefonei, perguntando se tinha tido conhecimento prévio disto, no conselho científico da sua faculdade.

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Longe vão os tempos em que Sottomayor Cardia (1941-2006) foi (injustamente) crucificado por propor a redução das licenciaturas de 5 para 4 anos, que seriam depois complementadas com mestrados de 2 anos. O tempo lhe daria razão e a tiraria aos que, eu incluído, achavam que se menorizava a importância do grau de licenciado.

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O que veio depois é conhecido: licenciaturas de três anos, mestrados com três semestres mais um para o seminário de dissertação, teses cada vez mais curtas, muitas vezes sem o tempo necessário de reflexão e de escrita, a investigação transformada em pílulas.

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Aquela história do "relatório final, cujas definições serão determinadas por cada uma das universidades" é tudo menos tranquilizadora. E não garante, podem ter a certeza, qualquer qualidade ou relevância nos trabalhos realizados. E, em última análise, nem sequer é o grau académico que determina o nível de proficiência. Mas será essa a verdadeira questão? Não creio. O fundo do problema não está na atribuição indiscriminada dos graus de mestre ou de doutor, mas sim numa questão de sobrevivência. E na necessidade crescente de, seja lá como for, se financiarem as universidades. Já lhes terá ocorrido a possibilidade de leiloar graus?

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Os meus últimos anos de faculdade (1983/85) foram marcados por tumultos permanentes e por guerras entre facções no corpo docente: a direita reaccionária ganhou, a esquerda perdeu. À medida que o tempo passava, e à medida que os despedimentos à esquerda se sucediam (para além da falhada tentativa de José Manuel Tengarrinha, ficaram célebres os episódios de Hernâni Resende, de Cláudio Torres, para além das pressões exercidas sobre José Mariz, Isabel Castro Henriques etc.) fiquei com a nítida sensação que se vivia ali um fim de ciclo. Alguns colegas da Direcção da Associação de Estudantes de Letras perguntavam-me quais eram os meus projectos. Na brincadeira, dizia sempre "estou a pensar candidatar-me a um lugar na Universidade de Bujumbura; por aqui não devo ter grandes hipóteses...". O tempo passou, mas ainda tenho uma planta da cidade. Nunca se sabe...

FRANCISCO LOPES 2011

Uma candidatura ao serviço do País e do Povo. O mote está dado.
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As propostas são justas e aguerridas. Não têm sound bites - e deveriam ter alguns, desde que não se limitassem ao mero fogo de artifício. É pelas propostas e por acreditar que as lutas valem a pena que estarei no comício de Beja, no próximo dia 15. Só não votarei no meu camarada Francisco Lopes se ele tiver comprado acções da SLN a 1 euro ou se tiver participado em campanhas publicitárias do BPP. Aí temos o caldo entornado...
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O Francisco começou com 1% nas previsões, na passada 6ª feira, e antes do começo oficial da campanha atingia 6,3% na sondagem da Intercampus. A palavra de ordem é confiança.
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Site da candidatura: http://www.franciscolopes.pt/

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As acções de campanha de Francisco Lopes foram, há pouco, comentadas na Antena 1 por Carlos Magno. Das três, uma: ou Carlos Magno não é o Carlos Magno que integra a Comissão de Honra de Aníbal Cavaco Siva; ou vamos ter gente de todas as campanhas comentando todas as campanhas; ou temos a palhaçada armada, e nem quero imaginar o berreiro que estalaria se o Vítor Dias fizesse os comentários das acções de campanha dos seis candidatos...

sábado, 8 de janeiro de 2011

BAB EL-OUED

Seis deslocações a uma cidade não são suficientes para a conhecermos tão bem quanto isso. No entanto, ao ver as imagens na televisão tive a quase certeza que um dos sítios dos motins que assolam Argel era o bairro de Bab el-Oued. Não me enganei. Reconheci mais tarde a popular Place des Trois Horloges, nome antigo que ainda se mantém.
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Bab el-Oued era, nos tempos coloniais, o bairro dos pequenos funcionários europeus. A zona dos remediados. Situado na zona norte da capital argelina é um bairro de ar simpático, com prédios brancos e janelas azuis. Depois da independência, as características populares de Bab el-Oued mantiveram-se. Isso explica que sejam os seus habitantes os primeiros a sofrerem as consequências das crises económicas. Foi assim em 1988, quando motins assolaram esta zona de Argel. É assim, ciclicamente, nos momentos de maiores dificuldades. No meio está uma juventude desesperada e sem perspectivas. Desemprego e um futuro sem futuro. Acima, está a oligarquia do FLN e uma corrupção que esgota os recursos de Hassi Messaoud e de Hassi R'Mel. Em todas as casas há antenas parabólicas que permitem ver um outro mundo, de suposta abundância. À espreita estão os imãs radicais. É uma equação desgraçadamente fácil de entender.
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É provável que, antes do verão, volte a Argel. Pergunto-me o que irei encontrar e que mudanças foram feitas.
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A tradução de Bab el-Oued dá algo como A porta do rio. Parte do bairro foi edificada sobre uma linha de água. As inundações mortíferas sucedem-se.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

ENTRE O NÍGER E O NILO

Between Niger and Nile é um célebre livro de Arnold Toynbee (1889-1975). Foi traduzido em português com o sugestivo título de África Árabe, África Negra. As diferenças entre uma e outra estão bem evidentes nessa obra, que li nos tempos de estudante e que amanhã retomarei.
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Domingo é dia de referendo no sul do Sudão. O país vai dividir-se em dois. Os secessionistas ficarão com a área onde há petróleo... Não é a primeira vez que coisas destas acontecem. Há uns anos nasceu a Eritreia, um país que deixou a Etiópia sem acesso directo ao mar. Reabre-se no domingo a caixa de pandora das divisões territoriais.
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Daqui por 30 ou 40 anos, quando alguns documentos classificados puderem ser lidos se saberá a verdade. Independentemente das legítimas aspirações dos povos à autodeterminação, ver-se-á quem manipulou o quê. Leia-se o artigo do embaixador José Cutileiro no Expresso do passado sábado e veja-se como a grande potência - actualmente só há uma - cria heróis, mitos e factos à sua medida. E na justa medida dos seus interesses.
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Há vários abismos entre as duas fotografias: a de cima é de George Rodger (1908-1995) e faz parte do livro Village of the Nubas; a de baixo é de Marco di Lauro (n. 1970) e integra o projecto Khartoum, jewel of the desert. São do mesmo país. Retome-se, então, a leitura de Toynbee.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

A FORTIFICAÇÃO SEISCENTISTA DE MOURA NUMA PLANTA DO SÉCULO XX

Pensa-se, ao cabo de um estudo, que já se viu tudo e que se conferiram todas as cartas, todos os textos e todos os dados. Mas não é bem assim.

Durante meses, no já distante ano de 1985, cumpri uma via sacra de aprendiz de investigador. Estava a redigir, para a cadeira de História da Arte Moderna, um trabalho sobre a fortificação de Moura nos séculos XVII e XVIII. Ao longo de meses andei entre a secção de reservados da Biblioteca Nacional, o Arquivo Histórico Militar, a formidável secção de cartografia do Gabinete de Estudos Arqueológicos de Engenharia Militar e o Arquivo Nacional da Torre do Tombo. O estudo, com abundante cartografia inédita e uma recolha bastante completa das fontes escritas, ficou francamente bom. O que queria dizer, na avaliação do Dr. Álvaro Simões, 14 valores. Raras vezes senti uma tão forte amargura ao ver uma nota numa pauta. Não porque andasse na caça à nota ou porque o 14 comprometesse a média final do curso, mas porque senti que o esforço e o resultado não batiam certo com a classificação.

Acabei por publicar uma versão resumida desse estudo no livro Fortificações Modernas de Moura, assinado em conjunto com Vanessa Gaspar e dado à estampa em 2007. É trabalho de que não me envergonho e que só foi possível concretizar porque nos “tempos bárbaros” em que estudei havia disciplinas anuais. Uma coisa “arcaica” que foi banida, aniquilando de vez a possibilidade dos jovens estudantes começarem a fazer trabalho de investigação nos tempos de faculdade.

Pensava já ter encerrado o dossiê das fortificações pós-medievais quando, ao olhar, há semanas, e pela enésima vez, para uma planta de Moura dos anos 30 do século XX reparei numa curiosa estrutura triangular, pertencente às obras da fortaleza (v. imagem). Situava-se na zona do Fojo, em terrenos onde mais tarde se construiu um lagar e onde hoje se localiza o super-mercado Pingo Doce. Não deixa de ser um tanto surpreendente que tenha sobrevivido quase até meados do século XX um revelim (construção externa de duas faces, que formam um ângulo saliente, normalmente situada diante da cortina ou muralha), assinalado como “arruinado” na planta de Miguel Luís Jacob, feita em 1755. Assinalável exemplo do sentido de reciclagem e de adaptação de estruturas antigas a novas necessidades.

A história da cidade de Moura é, como a de tantas outras, feita destes pequenos episódios. A história e o percurso das nossas investigações vivem de caminhos que se retomam, vezes sem conta, quantas vezes para constatarmos os nossos erros e as nossas insuficiências. Ai dos dogmáticos e dos infalíveis.

Voltei, uma vez mais, a um tema que pensava ter encerrado. Já deixei de dizer – quase aos 50 anos já não era sem tempo… - “nunca mais”. Este insignificante episódio fez-me acreditar que, por mais que os abandonemos, há temas que nos perseguem. Na investigação como em tantas outras coisas.


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Crónica publicada em A Planície de 1.1.2011

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

MANITAS DE PLATA

Nasceu no sul de França em 1921. Chama-se Ricardo Baliardo, mas é conhecido em todo o mundo como Manitas de Plata, pela rapidez do seu dedilhar e por usar bem as mãos. Lembrei-me dele hoje. Aqui fica Por el camino de Ronda, em homenagem à música do sul e a todos os que sabem usar as mãos habilmente.
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CAMARATE - 9ª COMISSÃO

Ricardo Rodrigues, o célebre deputado socialista que, quando as perguntas começaram a dar para o torto, desviou o gravador às jornalistas da revista Sábado, vai presidir à 9ª comissão de inquérito ao Caso Camarate. É um importante dado, que prestigia certamente a comissão.
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Tendo em conta os antecedentes, sugere-se o uso de rolos de papiro para o registo das actas das reuniões. Os gravadores são, francamente, de evitar.
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Ricardo Rodrigues

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

CORNELIUS DUPREE JR.

É um tríptico um tanto diferente do desta manhã. Nem por isso menos importante, ainda que de outra forma.
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Até hoje, nunca tinha ouvido o nome de Cornelius Dupree Jr. (foto de cima). É texano e tem 51 anos. Passou os últimos 30 (de uma pena de 75) numa prisão. Testes de ADN acabaram de provar que estava inocente dos crimes de roubo violento e violação. 30 anos? Três décadas inteiras numa penitenciária por um crime que não se cometeu?
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Nesta lista de triste recordes incluem-se ainda os nomes de James Bain (35 anos de cárcere na Florida - foto do meio) e de Lawrence McKinney (mais de 31 anos numa prisão do Tennessee - foto de baixo). Estavam também inocentes.
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Há mais qualquer coisa que aproxima estes cidadãos... Será a cor da pele?
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TRÍPTICO

Nem sempre os pontos de contacto são evidentes. Neste caso é o título que une os dois trípticos: o de Francis Bacon (1909-1992), pintado em 1976, e o poema de Herberto Helder.
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No mais, tudo são diferenças, Bacon era uma pop-star da pintura, Herberto Helder um recluso. O quadro foi vendido a Roman Abramovich há dois anos e vale 87 milhões de dólares; Herberto Helder não se dá, sequer, ao trabalho de receber os prémios que lhe atribuem. Os trípticos e a ideia de sequência foram uma constante na obra de Bacon. As palavras pouco fáceis são-no na poesia de Herberto Helder.
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Curiosidade: é de Bacon o quadro de que Joker gosta no filme Batman...
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Não sei como dizer-te que minha voz te procura

e a atenção começa a florir, quando sucede a noite

esplêndida e vasta.

Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos

se enchem de um brilho precioso

e estremeces como um pensamento chegado. Quando,

iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado

pelo pressentir de um tempo distante,

e na terra crescida os homens entoam a vindima

— eu não sei como dizer-te que cem ideias,

dentro de mim, te procuram.

Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros

ao lado do espaço

e o coração é uma semente inventada

em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia,

tu arrebatas os caminhos da minha solidão

como se toda a casa ardesse pousada na noite.

— E então não sei o que dizer

junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.

Quando as crianças acordam nas luas espantadas

que às vezes se despenham no meio do tempo

— não sei como dizer-te que a pureza,

dentro de mim, te procura.

Durante a primavera inteira aprendo

os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto

correr do espaço —

e penso que vou dizer algo cheio de razão,

mas quando a sombra cai da curva sôfrega

dos meus lábios, sinto que me faltam

um girassol, uma pedra, uma ave — qualquer

coisa extraordinária.

Porque não sei como dizer-te sem milagres

que dentro de mim é o sol, o fruto,

a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,

o amor,

que te procuram.


excerto do poema «Tríptico», publicado em A Colher na Boca, datado de 1961