sábado, 30 de abril de 2011

ABRIL É O MAIS CRUEL DOS MESES


Abril é o mais cruel dos meses, gerando
Lilases na terra morta, misturando
A memória e o desejo, atiçando
Raízes inertes com a chuva da primavera.
O inverno manteve-nos quentes, cobrindo
A terra com a neve do esquecimento, alimentando
Um pouco de vida com tubérculos secos.

April is the cruellest month, breeding
Lilacs out of the dead land, mixing
Memory and desire, stirring
Dull roots with spring rain.
Winter kept us warm, covering
Earth in forgetful snow, feeding
A little life with dried tubers.


O mês de abril foi cruel, sim, mas não no sentido em que Eliot o afirma. Menos poeticamente: o País afoga-se em contradições e dificuldades e as ondas de choque fazem-se sentir por toda a parte. Se em abril os problemas se avolumaram, maio irá trazer problemas acrescidos. Ao nível das empresas, das autarquias, das associações (designadamente das que têm na investigação a sua atividade principal).

Esse mundo estaria fora das cogitações de T.S. Eliot (1888-1965) quando, em 1922, escreveu The waste land. Deixo-vos o início da 1ª parte - O enterramento dos mortos -, aquela de que mais gosto (juntamente com a 4ª). A fotografia é de Cartier-Bresson. Não sei a data, mas gosto da sugestão de vertigem.

A CULPA É DA INFORMÁTICA

A ideia era/é simples: atualizar o perfil no facebook. As coisas das informáticas são, teoricamente, de uma desarmante simplicidade.

De acordo com a "atualização" que fiz casei-me ontem. Tenho sido indecentemente gozado por familiares e amigos à conta disso.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

O MUHAMMAD SAEED AL-SAHAF DE SERVIÇO



O momento Muhammad Saeed al-Sahaf do dia foi-nos proporcionado pelo inenarrável Valter Lemos. No estado em que isto está veio repetir, valha a coerência, as afirmações do dia 1 de março. Ou seja, o desemprego está alto mas estabilizou. Tal como acontecia com o Ministro da Informação do Iraque não se dá conta da figura que faz e perde mais uma magnífica oportunidade para estar calado.


Aviso à navegação: o senhor é professor-coordenador, mesmo sem doutoramento, do Politécnico de Castelo Branco. O que quer dizer que há a hipótese de regressar ao ponto de origem. Tremei, albicastrenses!


GEOGRAFIA FÍSICA: O PÚBIS






Quando estás vestida,
Ninguém imagina
Os mundos que escondes
Sob as tuas roupas.

(Assim, quando é dia,
Não temos noção
Dos astros que luzem
No profundo céu.

Mas a noite é nua,
E, nua na noite,
Palpitam teus mundos
E os mundos da noite.

Brilham teus joelhos,
Brilha o teu umbigo,
Brilha toda a tua
Lira abdominal.

Teus exíguos
- Como na rijeza
Do tronco robusto
Dois frutos pequenos -

Brilham.) Ah, teus seios!
Teus duros mamilos!
Teu dorso! Teus flancos!
Ah, tuas espáduas!

Se nua, teus olhos
Ficam nus também:
Teu olhar, mais longe,
Mais lento, mais líquido.

Então, dentro deles,
Bóio, nado, salto
Baixo num mergulho
Perpendicular.

Baixo até o mais fundo
De teu ser, lá onde
Me sorri tu'alma
Nua, nua, nua...

Poema e fotografia em tangente ao tema. Nem tudo tem que ser explícito. O poema é de Manuel Bandeira, a fotografia de Francesca Woodman (1958-1981), artista de grande e precoce maturidade. E que decidiu, um dia, que a sua missão estava terminada.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

REZEMOS

A começar por mim, que sou agnóstico.


Roberto é o guarda-redes do Benfica, na meia-final da Liga Europa desta noite. Que o Todo Poderoso tenha misericórdia do nosso clube...

MAIS AMARELEJA


Teve ontem lugar, na Amareleja, a apresentação do plano da zona industrial daquela vila. Tem sido um processo difícil e do qual não abrimos mão. Em finais de 2009 foi aberto concurso público para a elaboração do plano, em 2010 escolhida a equipa e dados os primeiros passos. Durante o corrente ano terá de estar concluído o projeto e lançadas a concurso as infraestruturas.


A tranquilidade de honrar compromissos vai a par com a necessidade de lançar pontes para o futuro. Aos que duvidam da consistência dos caminhos trilhados recordarei, em breve e uma vez mais, os passos dados no nosso concelho nos últimos anos. É coisa que faço sempre com prazer.



O plano da UP4 (zona industrial da Amareleja) está a cargo do ATELIERMOB. O arq. Tiago Mota Saraiva esteve ontem na nossa vila e fez o ponto de situação do projeto.


Sobre o ateliê: www.ateliermob.com

quarta-feira, 27 de abril de 2011

DINASTIA FILIPINA: II - PHILIP-LORCA DI CORCIA

Sob o signo da insubordinação. O poema de insubordinação, de Maria Teresa Horta, sublinha a fotografia de Philip-Lorca DiCorcia (n. 1951), ele próprio um artista pouco convencional e nada mainstream. O homem retratado tem um toque insubordinado, de ar agressivo e tronco nu, fazendo não se sabe o quê naquele parque de estacionamento.


Preto

sem submissão

palavra de relevo agudo

nas ruas

.

Preto

De água de vento de pássaro

de pénis

de agudamente preto

de demasiado

.

como um cardo submerso

de som

.

Preto de saliva na ogiva

dos lábios

objectos solares

quentes interiores marítimos

.

curvos inseguros

Preto

.

o tempo dos desertos

facetados na boca

.

lento

por dentro das pedras

.

a supurar de luz

[...]

VITORINO MAGALHÃES GODINHO (1918-2011)

Faleceu o catedrático Vitorino Magalhães Godinho.


Nome maior da investigação histórica, teve uma extensa produção, que se prolongou por muitas décadas. Doutorou-se em História na Universidade de Paris, foi professor em França e em Portugal e dirigiu a Biblioteca Nacional. A sua atitude crítica em relação à situação das Universidades foi tema de um conhecido ensaio - "A situação da Faculdade de Letras de Lisboa : alguns aspectos", escrito em 1970 em co-autoria com António Oliveira Marques e António José Saraiva. Opôs-se ao fascismo e a sua carreira pagou por isso. Embora seja mais que evidente o fôlego de livros como Os descobrimentos e a economia mundial ou A economia dos descobrimentos Henriquinos, o trabalho de maior impacto no autor deste blogue foi A estrutura da antiga sociedade portuguesa, já várias vezes mencionado (ver aqui) e cuja leitura devia ser obrigatória. No Secundário, uma vez que chegar a um curso de História sem o ter lido não é, sequer, admissível.


Leiamos Vitorino Magalhães Godinho, a melhor forma de lhe prestarmos uma mais que justa e perene homenagem.

terça-feira, 26 de abril de 2011

FOLEIRO - NOVO SIGNIFICADO

José Lello disse que Cavaco Silva é foleiro, por não ter convidado os parlamentares para a sessão solene do 25 de Abril. Pior que a atitude casca-grossa do deputado socialista foi a explicação. Afirma Lello que, em politiquês, teria dito que "o Presidente não foi suficientemente abrangente". Ou seja, está encontrado um novo significado: foleiro = não suficientemente abrangente.

Assim sendo, se eu disser "o quadro do menino da lágrima é foleiro" estou, também, a dizer "o quadro do menino da lágrima não é suficientemente abrangente". Faz sentido? Não faz lá muito, pois não?

E não me chateiem com essa coisa da polissemia, ok?


O quadro do menino da lágrima é, juntamente com o dálmata de loiça, um ícone da arte de subúrbio. Desconheço o nome do autor dos dálmatas de loiça. Mas o menino da lágrima saiu do pincel, não muito privilegiado, de Bruno Amadio "Giovanni Bragolin" (1911-1981). E foi abrangente, sim senhor. Não sei como uma amiga minha não comprou um...

GIRLS ONLY

Passos Coelho já veio anunciar que, se ganhar as eleições, não vai encher a Administração Pública de quadros do PSD. Com ele, não haverá jobs for the boys.

Parece-me bem.


ECOS DO RECIFE: ARQUITETURA TROPICAL

Arquitetura tropical é a que se faz nos trópicos e para o clima dos trópicos. A cantina da Escola de Artes da Universidade Federal de Pernambuco é um edifício aberto ao exterior. Nem portas nem janelas. Nem ar condicionado, graças a Deus.

Pragmatismo é isto.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

MÉRTOLA E A CULTURA ÁRABE

Talvez não seja a forma mais comum de usar um 25 de Abril, solarengo e tudo, mas a causa é boa. Preparo uma intervenção sobre a "visibilidade da História".

No dia 27 de Abril, depois de amanhã, tem lugar no Politécnico de Beja um colóquio sobre Mértola e a cultura árabe. A iniciativa é do meu colega Carlos Viegas, aluno do curso de Animação Sociocultural da ESE do Politécnico.


Programa do dia

9.30 - Abertura
Vito Carioca - Presidente do IPB
Jorge Raposo - Diretor da ESEB
Jorge Pulido Valente - Presidente da CM Beja
Jorge Rosa - Presidente da CM Mértola

10
A importância atual do nosso passado árabe
Jorge Rosa - Presidente da CM Mértola

10.30
Tornar a História visível: da Antiguidade Tardia ao período islâmico.
Santiago Macias - Investigador do Programa Ciência 2008 da FCT (Universidade de Coimbra)
CEAUCP/CAM

11
Os signos do quotidiano. Gestos, marcas e símbolos na Mértola islâmica.
Susana Gómez Martínez - Investigadora do Programa Ciência 2008 da FCT (Universidade de Coimbra)
CEAUCP/CAM

11.30
O Festival Islâmico: uma história de sucesso?
Manuel Passinhas - Responsável da organização do Festival Islâmico

12
Debate

14
A comunicação do Festival Islâmico
Carlos Viegas - Animador sociocultural da CM Mértola

14.30
A língua árabe e os arabismos do Português
Abdallah Khawli - Professor de Árabe

15
Debate

16
Workshop de escrita árabe com Abdallah Khawli


Blogue do colóquio:
http://coloquioseseb.blogspot.com/

Sobre o Instituto Politécnico de Beja e sobre a Escola Superior de Educação:
http://www.ipbeja.pt
http://www.eseb.ipbeja.pt/

domingo, 24 de abril de 2011

ANTES DO 25

Tenho, do final da ditadura, uma recordação prosaica e banal. O dia 24 de Abril de 1974 era "quarta-feira europeia" e o Sporting jogava em Magdeburgo a segunda mão das meias-finais da Taça das Taças. Depois do empate a uma bola, em Lisboa, a coisa esteve quase. Mesmo no fim Tomé falhou um golo certo que daria o 2-2 e a qualificação do Sporting. Factos ignorados na imprensa da manhã seguinte, que dava todo o espaço a outros acontecimentos.


Bem sei que são memórias sem carga política mas de um miúdo de dez anos não seria de esperar muito mais...
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sábado, 23 de abril de 2011

sexta-feira, 22 de abril de 2011

A PAIXÃO SEGUNDO OLIVIERO TOSCANI



Fotografia de Oliviero Toscani para uma campanha da Benetton

quinta-feira, 21 de abril de 2011

PÁSCOA

História verídica:

Depois da procissão de sexta-feira santa, a Comissão de Festas promoveu um jantar, para o qual convidou o padre, um conhecido franciscano.

Pudicamente, na sala ao lado havia presunto e enchidos. Longe da vista da mesa oficial. Ao padre, bon vivant, não escapou a agitação da improvisada copa. Às tantas dirigiu-se para lá, apontou para um pratinho cheio de bom presunto e pediu a um dos moços da Comissão "passa-me aí o peixe!". O rapaz, atarantado, ainda argumentou, "mas isto não é peixe, senhor padre". A resposta causou um arraial de gargalhadas e a insistência do padre "deixa-te de coisas e passa para cá o peixe".

Aquele peixe era ótimo, posso garantir.

TUNÍSIA V: O MUSEU DO BARDO

Ainsi un homme dont la vue serait assez rétrécie pour n'embrasser du regard sur un parquet de marquetterie que le module d'un seul carreau, accuserait l'ouvrier d'avoir ignoré la symétrie et les proportions; incapable d'embrasser dans l'ensemble et dans les détails, ces emblêmes qui concourent à l'unité d'un beau tableau, il prendrait pour un désordre la variété des pierres précieuses. Il n'en est pas autrement de certains hommes peu instruits. Dans l'impuissance où est leur faible esprit d'embrasser et d'envisager la liaison et l'harmonie universelles, ils s'imaginent, quand ils sont blessés d'une chose qui a pour eux de l'importance, que c'est un grand désordre dans l'univers.


Santo Agostinho, De Ordine (Livro 1, Cap. 1)




Não é provável que Santo Agostinho, que escreveu o De Ordine em 386, tenha visto este Triunfo de Neptuno, concebido em meados do século II. O texto de Santo Agostinho serve de suporte a outra argumentação, mas a necessidade de distanciamento das coisas serve-me na perfeição.


Este mosaico pode ser visto num dos mais belos museus do mundo, o Bardo, em Tunis. Instalado num palácio adpatado a novas funções tem uma coleção extraordinária e um ambiente único. O seu reponsável máximo, o Prof. Taher Ghalia, é uma grande conhecedor de arte paleocristã.


Há estação do metro de superfície (linha 4, direção Den Den) mesmo ao lado.


Site do museu: http://www.museedebardo-tunisie.tn/test/


Para ler o texto do De Ordine na íntegra: http://www.abbaye-saint-benoit.ch/saints/augustin/ordre/index.htm

quarta-feira, 20 de abril de 2011

MOU



Valdano? Ganhou um campeonato, pelo Real.

Cruyff? Um pouco mais. Ganhou campeonatos, pelo Barça, e uma Taça do Rei, em 1990. Mais duas da UEFA, uma dos Campeões e uma Super-Taça. Não ganha nada desde 1994.

Di Stefano? Dois campenatos na Argentina, um em Espanha, mais uma Taça de Vencedores das Taças. Última conquista? Em 1980.

As críticas chovem. Já se sabia que Mourinho não teria a vida fácil no Real Madrid (v. aqui). O estilo do seu futebol nem sempre é bonito. Mas ele ganha. Esta noite voltou a mostrá-lo. Se tiver sucesso na Liga dos Campeões muita gente engolirá em seco. E, bem entendido, ninguém o calará.

HEIMAT

Hoje, passámos o final da tarde na Póvoa de S. Miguel. Está a decorrer mais uma edição do Primeiro, o Local. Uma das formas de estarmos (ainda) mais perto das populações. Heimat? Sim, que a Póvoa é a terra da minha bisavó paterna. E porque a Amareleja, a outra localidade incluída nesta iniciativa, é a terra das minhas raízes maternas.


A reunião de câmara teve lugar no salão da Casa do Povo. Na mesma sala onde, há mais de 40 anos, ía ver os episódios do Bonanza.


A passagem pelos sítios e os contactos com as pessoas são um lento cerzir de histórias. Misturam-se cores e padrões, como num tapete berbere. E, às vezes, muitas vezes, dá vontade de voltar às origens. E de nunca mais delas sair.



A Origem do Mundo

De manhã, apanho as ervas do quintal. A terra,
ainda fresca, sai com as raízes; e mistura-se com
a névoa da madrugada. O mundo, então,
fica ao contrário: o céu, que não vejo, está
por baixo da terra; e as raízes sobem
numa direcção invisível. De dentro
de casa, porém, um cheiro a café chama
por mim: como se alguém me dissesse
que é preciso acordar, uma segunda vez,
para que as raízes cresçam por dentro da
terra e a névoa, dissipando-se, deixe ver o azul.
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Nuno Júdice in Meditação sobre Ruínas

UF, AINDA BEM QUE DESTA VEZ NÃO FOI IDEIA DAQUELES STALINISTAS DO PCP...

No Público online:


Entretanto, o ex-líder do PS/Lisboa Miguel Coelho é o novo director do jornal oficial deste partido, o “Acção Socialista”, após uma eleição por braço no ar na Comissão Nacional de domingo, substituindo neste lugar Jorge Seguro Sanches. Jorge Seguro Sanches, deputado por Castelo Branco, foi director do “Acção Socialista” nos últimos cinco anos, cargo para o qual disse ter sido sempre eleito por voto secreto, ao contrário do que sucedeu na votação de domingo. (fim de citação)


Nem quero pensar na chuva de comentários e de "análises" caso uma mudança de regras deste género tivesse acontecido numa reunião do PCP...



Alemanha, princípio dos anos 40. Eclesiásticos de braço no ar. Não posso, contudo, garantir que se trate de uma votação.

terça-feira, 19 de abril de 2011

GEOGRAFIA FÍSICA: AS NÁDEGAS

O fogo que na branda cera ardia,
Vendo o rosto gentil que eu na alma vejo,
Se acendeu de outro fogo do desejo,
Por alcançar a luz que vence o dia.
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Como de dous ardores se incendia,
Da grande impaciência fez despejo,
E, remetendo com furor sobejo,
Vos foi beijar na parte onde se via.
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Ditosa aquela flama, que se atreve
A apagar seus ardores e tormentos
Na vista de que o mundo tremer deve!
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Namoram-se, Senhora, os Elementos
De vós, e queima o fogo aquela neve
Que queima corações e pensamentos.
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Camões lido à luz de Lucien Clergue (n. 1934) ganha outra perspetiva. E podemos enfatizar palavras que doutra forma outra leitura teriam. Nada mais se diga, que ante os grandes poetas devemos remeter-nos ao silêncio.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

JU DOU

Não é meu hábito sugerir filmes aqui no blogue através de trailers. Abro um exceção com este Ju Dou. O filme, rodado em 1990, conta uma história tórrida. De uma mulher condenada a um destino infeliz, que se apaixona pelo sobrinho adotivo do marido, um homem mais velho.

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O que na altura mais me impressionou no filme não foi tanto a história, já de si invulgar, mas o tratamento da cor que o realizador Zhang Yimou (n. 1950) consegue. Optando por um processo caído em desuso, o technicolor, o diretor chinês consegue tons invulgarmente intensos. A cinematografia chinesa acompanha, no seu esplendor, o despertar daquele país imenso. Mergulhados na nossa Europa e convencidos de sermos o centro do mundo só de tempos a tempos nos damos conta do outro mundo lá fora. Os filmes de Zhang Yimou são sumptuosos. Sobretudo do ponto de vista plástico e no tratamento da cor. Vejam estes dois minutos.

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MUNDO INVISÍVEL

Um dos pontos interessantes da exposição Primitivos Portugueses (1450-1550). O século de Nuno Gonçalves é a preocupação com o desenho subjacente ao que hoje se vê. Dúvidas, hesitações e alterações de programa tornam-se assim visíveis. Fui para História da Arte por causa dos métodos de análise da pintura antiga. Gostas de saber o que está por detrás das coisas, alguém me notou. Talvez seja. A arqueologia leva ao que se esconde por baixo da terra.

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Foi um dia de mundos invisíveis que culminou com o filme A cidade dos mortos, de Sérgio Tréfaut. Um documentário contido, quase púdico. Rodado nos extraordinários cemitérios do Cairo, onde os vivos e os mortos partilham o mesmo espaço, não vemos nenhum funeral e a imagem da morte é-nos dada pelos olhos e pelas palavras dos vivos. .

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A ciência ao serviço da Arte: desenhos e esboços, hoje invisíveis, nos Painéis de S. Vicente.

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Sobre o filme de Sérgio Tréfaut: http://www.acidadedosmortos.com/

sexta-feira, 15 de abril de 2011

OS PRIMITIVOS PORTUGUESES - AO ESTILO DO COMETA HALLEY

A exposição encerra no dia 23 e o melhor é não perder tempo. Quando telefonei ao Joaquim para combinar um encontro no Museu Nacional de Arte Antiga recebi um aviso algo desconcertante: "é melhor despachares-te, que a próxima exposição deve ser lá para 2080; aos 120 anos, já não deves estar em grandes condições para andares a visitar museus". Depois esclareceu que se fez uma grande antológica sobre os primitivos portugueses por volta de 1880, outra em 1940. E agora esta. Achei a explicação típica do Joaquim. A visita ficou marcada para amanhã ou depois.
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Martírio de S. Sebastião - Gregório Lopes (c. 1490-1550)
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Fui para História da Arte por causa da pintura antiga. O tempo e as voltas do destino se encarregaram de me colocar noutro caminho. As técnicas laboratoriais de análise da pintura ficaram para trás. O interesse pela arquitetura e pelo urbanismo nem por isso. O lento cerzir das cidades e dos prédios são o pano de fundo que justificam o tédio de uma escavação.

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Ver: http://www.mnarteantiga-ipmuseus.pt/

quinta-feira, 14 de abril de 2011

AUT CAESAR, AUT NIHIL


Dedicado a
Fernando Nobre, político da III República

ECOS DO RECIFE: PORTUGAL TROPICAL

Uma das facetas mais espantosas destas cidades do Nordeste é o casamento entre o urbanismo e a arquitetura importados da Europa e o calor e ao ambiente dos trópicos. A igreja que se vê nesta imagem, e não é por acaso, é a de Nossa Senhora do Carmo. Fico mesmo no centro de Olinda.
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É um Portugal diferente o que se abre ante os nossos olhos. É um Portugal que não existiria sem a figura extraordinária do Marquês de Pombal.
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Rosário
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E eu que era um menino puro
Não fui perder minha infância
No mangue daquela carne!
Dizia que era morena
Sabendo que era mulata
Dizia que era donzela
Nem isso não era ela
Era uma moça que dava.
Deixava... mesmo no mar
Onde se fazia em água
Onde de um peixe que era
Em mil se multiplicava
Onde suas mãos de alga
Sobre meu corpo boiavam
Trazendo à tona águas-vivas
Onde antes não tinha nada.
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Os portugueses dos séculos XVII e XVIII inventaram o Brasil. E criaram a mulata.
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Sobre Olinda: http://www.olinda.pe.gov.br/
O resto do poema Rosário, de Vinicius de Moraes, pode ser lido em http://www.viniciusdemoraes.com.br/site/

quarta-feira, 13 de abril de 2011

AEROPORTO 2011


Há pista, mas não há aviões. Houve um investimento imenso, mas o dinheiro gasto ainda não trouxe a prosperidade. Há aquilo a que se chama um aeroporto ou, melhor dizendo, a expectativa de um aeroporto. À boa maneira do sul, hesitou-se e avançou-se. Quando se avançava, parecia que se recuava. Discutiam-se minudências. Debatia-se o nome a dar ao aeroporto e esta questão menor tornou-se motivo de guerra. Houve confusão e balbúrdia. Os custos eram uns e depois já não eram esses. Eram outros, foram outros, muito maiores. Os valores dispararam e atingem muitos milhões.


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Passado todo este tempo, e são vários anos já, continua a não haver aviões. Teoricamente, deveria haver. Foi para isso que se fez o projecto. Tecnicamente, o aeroporto, situado numa zona plana e sem ventos difíceis, deveria ter movimento. As questões ambientais são, até, menores. Depois, chove pouco na região. Os dias de nevoeiro são raros, o que faz do aeroporto um sítio potencialmente interessante.


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Passado todo este tempo, a pista é um deserto de alcatrão. Os autarcas que a defenderam em breve passarão à história, os especialistas que a justificaram terão desaparecido e terão explicações complexas para o fracasso.


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Agora, que a desgraça está consumada, algumas perguntas ganham maior sonoridade:


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Qual o efectivo interesse do aeroporto?


Qual o investimento total necessário até a estrutura estar em funcionamento?


Quais os negócios em perspectiva?


Quais as companhias que já manifestaram interesse em ali se instalar?


Qual o volume de negócios necessários para a amortização do investimento?


Quantos anos se prevê que sejam necessários para que a estrutura se torne lucrativa?


Quais os custos de manutenção anuais da infraestrutura?


Quem paga?


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O que até agora estive a contar refere-se ao Aeroporto de Ciudad Real, em Espanha. Inaugurado em 2008, depois de um conturbado percurso, teve 53.500 passageiros em 2009 e 31.000 até final de Novembro passado. O aeroporto está às moscas e há despedimentos em vista. As promessas converteram-se em ruína. Agora, toda a gente assobia para o lado. O Aeroporto de Ciudad Real fica a 220 quilémtros de Madrid, dos quais 160 são em auto-estrada. Não sei se esta situação vos faz recordar algo. A mim faz.


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Crónica redigida, há uns meses, para a Rádio Pax.


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O primeiro voo sai do aeroporto de Beja amanhã. Conto os minutos para registar a quantidade de disparates que se irão debitar.

terça-feira, 12 de abril de 2011

A GREVE

Não nos dão descanso. . Todos os dias temos motivos para uma nova diversão, tanta é a criatividade que assola a Pátria. No Público de hoje: . Novo regulamento dos serviços prisionais Presos que queiram iniciar greve de fome têm de preencher formulário

. Greve de fome sim, mas primeiro há que assinar o formulário. A partir de agora qualquer preso que queira iniciar uma greve de fome tem de declarar essa intenção por escrito e esperar que a sua pretensão seja confirmada por um funcionário do respectivo estabelecimento prisional. Este, por sua vez, tem de passar ao papel as razões que levam a o recluso a privar-se dos alimentos.



. Não sabemos se o formulário está sujeito ao pagamento de taxa. Ou se a interrupção da greve implica o preenchimento de outro formulário. Eu, que sou agnóstico, rezo com fervor para que nos vejamos livres dos regulamentos imbecis e desta fúria regulamentora que nos flagela. .
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Jan Banning fez um projeto fotográfico sobre a burocracia no mundo. Espantosamente, não veio a Portugal. Ou, se calhar, quis vir e não preencheu o formulário apropriado.

12 DE ABRIL DE 1961

Faz hoje 50 anos.
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A URSS dava mais um passo na conquista do espaço. Depois do Sputnik (1957), Yuri Gagarin andava à volta da Terra e ganhava fama mundial. Seriam ainda os soviéticos a garantir o primeiro passeio espacial fora de uma nave (Alexei Leonov, em 1965). Guardado estava o bocado. Seriam os arqui-rivais americanos os primeiros a chegar à Lua.
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Vi uma vez, numa exposição, um dos módulos tripulados Vostok. Era uma espécie de calote metálica, rodeada por uns objetos semelhantes a panelas de pressão. Tudo aquilo tinha um ar extremamente frágil e embarcar naquele trem de cozinha implicou, decerto, uma coragem similar à dos navegadores que se aventuravam mar dentro, dentro de barcos de solidez igualmente questionável.
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Marte está à espera. Mas já não deverei ver esse dia.
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segunda-feira, 11 de abril de 2011

DINASTIA FILIPINA: I - PHILIPPE DUDOUIT

E hoje, dia em que chegou o FMI e a nossa independência se esfumou um tanto, é dia de recordar a dinastia filipina. Não esses filipes, que no-la levaram, mas outros filipes, de evocações não menos sombrias. O primeiro é o suiço Philippe Dudouit (n. 1977), que por várias vezes se perdeu nos caminhos de África. Vi as suas primeiras imagens no Expresso, mas foi um trabalho de fundo na Ojo de Pez que me conquistou.
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Podia ter mostrado hienas ou os guerrilheiros tuaregs, mas preferi esta imagem pesada e solitária.
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Abidjan

Site do fotógrafo: http://www.phild.ch/

domingo, 10 de abril de 2011

A ILUSÃO DE HERING

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Ao olhar as linhas horizontais parece que estão curvadas, mas na realidade são perfeitamente retas. A distorção aparente é produzida pelo desenho radial do fundo, que estimula a perspetiva e cria uma falsa impressão de profundidade.
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Este efeito ótico foi descoberto por Ewald Hering (1834-1918), em 1861. A convergência das linhas provoca efeitos de distorção. Creio que a aplicação deste princípio se estende, também, à política e a algumas convergências que por aí andam.

FERNANDO NOBRE - CANDIDATO À PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA

O tempo comprime-se e acelera-se. Fernando Nobre, que tantos entusiasmos juvenis causou em tanta esquerda, será o cabeça de lista do PSD no círculo eleitoral de Lisboa nas eleições do próximo mês de Junho.
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A política pode ser divertida? Pode, até chega a ser hilariante. O independente, o marginal, o outsider Fernando Nobre converte-se. Ainda Cavaco Silva mal tomou posse e já há quem ponha os binóculos em riste olhando para 2016.

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Auri sacra fames. E nem só aos capitalistas gordos dos murais da UDP isto se aplica.
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O fotograma foi recolhido do filme Eyes wide shut, de Stanley Kubrick. Um filme sobre máscaras e perversidades. Bastante apropriado, parece-me.

"O ELETRICISTA DA PINTURA"

Era um professor singular. Para dizer o mínimo. De entre as suas muitas particularidades destacava-se o gosto pelo estilo teatral e pelas frases de grande efeito. Dirigia-se aos alunos de História da Arte e interpelava-os/nos diretamente. Numa aula do 1º ano, em 1981/82, teve esta tirada para um de nós: "você tem ar de quem gosta daquele pintor, do eletricista". "Do eletricista, professor??" foi a resposta, articulada com dificuldade. "Sim!", quase gritou o professor, concluindo "o Rembrandt! aquele que põe focos dali, tira luzes do outro lado, acende lâmpadas por detrás. Aquilo não é pintura, é eletricidade". A explicação era acompanhada por uma coreografia de mãos e de movimentos de tronco a que nos haveriamos de habituar.
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Sobrevivi à história do eletricista da pintura, como a tantas outras. A minha admiração por Rembrandt, pela sua capacidade de desenhar e pelo seu tratamento da luz saiu incólume dessas aulas.
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A Ronda da noite foi pintada em 1642 por Rembrandt Harmenszoon van Rijn (1606-1669). O quadro está em exibição no Rijksmuseum Amsterdam. Há Rembrandts aqui por perto, no Museu Gulbenkian.
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http://www.museu.gulbenkian.pt/

sábado, 9 de abril de 2011

FICOU MELHOR ASSIM? OU FICO MELHOR ASSIM?

Lone Ranger aconselhando Tonto sobre a melhor forma de se colocar para ficar bem na fotografia .
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Uma única questão me intriga nestes dias: quem é o indispensável Luís? De alguma forma, ele teve e não teve os seus 5 minutos warholianos de fama.

GEOGRAFIA FÍSICA: O PESCOÇO

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Segredo

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Não contes do meu

vestido

que tiro pela cabeça

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nem que corro os
cortinados

para uma sombra mais espessa

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Deixa que feche o

anel

em redor do teu pescoço

com as minhas longas

pernas

e a sombra do meu poço

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Não contes do meu

novelo

nem da roca de fiar

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nem o que faço

com eles

a fim de te ouvir gritar.

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A geografia física não tem um só sentido. Daí que possamos descer e depois subir. Porquê estas escolhas? Porque quando penso num pescoço um pouco deixado ao abandono me recordo sempre deste Fado (1910) de José Malhoa (1855-1933). E há uma carga intensa e erótica neste poema já antigo (1972) de Maria Teresa Horta (n. 1937). Em especial no Deixa que feche o / anel / em redor do teu pescoço / com as minhas longas / pernas / e a sombra do meu poço. MTH é muito mais interessante de ler do que de ouvir a gritar radicais feminismos.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

TUNÍSIA IV: A CERVEJARIA DA AVENIDA BOURGUIBA

A cerveja que se vendia na cervejaria da Avenue Bourguiba era esta, a Celtia. Nada de especial, e cara, mas era o que havia. Público masculino, mas com alguns casais à mistura.
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Fico sempre com curiosidade de saber o que acontecerá a estes sítios. Já passei por cafés em cidades do norte de África onde, anos mais tarde, as bebidas fermentadas são banidas. A hipocrisia impera. Em muitas cidades está decretada a leis seca. Numa delas passei o dia bebendo água e coca-cola. Quando, na manhã seguinte, fui fotografar uma basílica cristã do século VI encontrei o solo pejado de latas e garrafas de cerveja. A juventude do bairro rico da cidade encontrara o seu local de diversão.
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Há uns quatro anos que não vou à Tunísia. Tenho curiosidade, quando voltar, em saber o que terá acontecido à cervejaria da Avenue Bourguiba.
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A propósito, que se passará na Tunísia? O país desapareceu da agenda mediática ocidental.
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TUDO NORMAL

Este ano temos visto o mundo um pouco às avessas.
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Ontem foi tudo normal:
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A Catedral estava quase esgotada.
Não faltou a luz.
Encontrei gente conhecida (um grupo de mourenses e de santo-amadorenses duas filas acima).
Houve golos e uma equipa que parecia a da época passada, embora a partir dos 70 min. as forças tivessem faltado.
O campo foi regado antes e não depois do jogo.
O Roberto deu mais um frango.
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As meias-finais são a 28 de abril e a 5 de maio.
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quarta-feira, 6 de abril de 2011

VITÓRIA! VITÓRIA! VITÓRIA!

Dominique Strauss-Kahn pode não ganhar as presidenciais francesas de 2012. Mas é, já, o vencedor antecipado das legislativas portuguesas de 2011.

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PRONTO, JÁ ESTÁ

Eram 20.38 quando o anúncio começou a ser feito. Terminou quatro minutos depois.

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Um espectro terrível ficou a pairar quando Sócrates se calou. Passos Coelho falou a seguir para alinhavar banalidades.

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Aproximam-se tempos difíceis. Estranhamente, os pacotes de férias para destinos exóticos estão esgotados para a quadra pascal. Um certo ambiente de Titanic percorre a Pátria.

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Quadro existente na cidade brasileira de Igarassu. A peste percorre as ruas das outras cidades. Só a proteção divina salva Igarassu. Os crentes que comecem a rezar sff.

DOIS MESES MENOS UM DIA

Faltam dois meses menos um dia para as eleições legislativas. Vai ser um tempo penoso. O PSD não descola, Passos Coelho arrasta-se em banalidades, Sócrates remeteu-se ao silêncio e prepara a artilharia. O PCP, o BE e o CDS vão ter alguma subida. Nada mais.

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Depois haverá um governo de direita. Nessa altura já os alfaiates do FMI estarão a talhar o fato à sua maneira. O PS vai escudar-se detrás daquela inacreditável aldrabice do PEC IV e das maravilhas que nos aguardariam ao virar da esquina caso ele tivesse sido aprovado.

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O País está de pantanas. E os centros de decisão estão longe do nosso alcance. Magnatas anónimos jogam aos dados com as nossas vidas. É assim...

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Por tudo isso escolhi hoje uma passagem de Ivan, o Terrível, um filme sobre o poder. Uma obra a ver nos dias que passam.

Foi realizado em 1944 por um cineasta de exceção chamado Sergei Eisenstein (1898-1948). Alguém que nunca ganhou óscares, nem baftas, nem palmas, nem ursos nem leões. Fez filmes de génio. Aliás, só fez filmes de génio.

O czar é interpretado por Nikolay Cherkasov. A música é de Sergei Prokofiev.

LUTA POPULAR

A propósito de chavões e atitudes atípicas (v. aqui), ocorreu-me uma história, real, que ainda hoje me faz rir.
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Conheço um funcionário do Ministério da Justiça que findava as bem bebidas tarde de farra com um ritual insólito. Dirigia-se, sempre impecavelmente vestido, e de fato e gravata, à Estação do Rossio, onde procurava o vendedor do Luta Popular (orgão do PCTP-MRPP). A quem entregava uma nota de 20$00 (cerca de 0,10 €) para pagar os 2$50 que o jornal custava. Quando o militante maoísta de serviço lhe tentava dar o troco, respondia, convicto: "Nem penses! O resto é para o nosso partido, camarada!". Ao que o outro respondia, invariavelmente: "Viva o PCPT-MRPP!". O João devolvia, de punho cerrado, um sonoro "Viva!".
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Em 1975 toda a gente achava normais coisas assim.
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No partido em que o João vota (o PS) há alguns destacados ex-maoístas. No fundo, e sem o saber, ele tinha uma certa razão. Antes de tempo.
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Veja-se
http://www.pctpmrpp.org/index.php?option=com_content&task=section&id=5&Itemid=30

terça-feira, 5 de abril de 2011

AMBIENTASSONS

É uma sensação estranha, quando nos comunicam o desaparecimento de alguém que nos fazia companhia com regularidade. Mesmo sem haver um conhecimento pessoal. O DJ Nuno Miguel fazia-me companhia, todos os sábados, a partir das 7 da manhã com um programa original e inteligente. Os sons mais modernos combinavam-se com a música do Hawai, do Líbano ou do Brasil. Descobri o seu programa com entusiasmo, há cerca de um ano (v. aqui). Tornei-me ouvinte assíduo.
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Nuno Miguel partiu hoje, cedo demais.
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ARQUEOLOGIA MODERNA

Quando falei em arqueologia moderna a uma colega de um museu brasileiro ela pensou que se tratasse de um congresso sobre as modernas perspetivas do trabalho em arqueologia. Na realidade, a arqueologia do período moderno é, no outro lado do Atlântico, mais conhecida como arqueologia história (por contraposição à pré-histórica).
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Ora bem, é no Congresso Internacional de Arqueologia Moderna Novos e Velhos Mundos que irei estar a partir de 5ª feira. Para apresentar, no sábado, uma comunicação, em conjunto com Vanessa Gaspar sobre o Castelo de Moura: arqueologia de um espaço militar em época moderna. Será apresentada uma síntese destes anos de trabalho e uma proposta de explicação para o que sucedeu na alcáçova entre os séculos XVII e XX.
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Aqui fica o elenco da Comissão Organizadora, que fez trabalho de respeito:
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André Teixeira, coord. (CHAM | FCSH-UNL)
Élvio Sousa (C.M.Machico | CHAM)
Inês Pinto Coelho (CHAM)
Isabel Cristina Fernandes (C.M.Palmela)
José Bettencourt (CHAM)
Patrícia Carvalho (CHAM)
Paulo Dórdio Gomes (ACE Baixo Sabor | CITCEM)
Severino Rodrigues (C.M.Cascais)
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Site do congresso:
http://cham.fcsh.unl.pt/congressointernacionalarqueologiamoderna.html
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segunda-feira, 4 de abril de 2011

BIBLIOTECAS MUNICIPAIS - 25 ANOS DEPOIS

O blogue Açúcar Amarelo (v. aqui) veio hoje recordar-nos que passaram 25 anos desde o dia em que a Secretária de Estado da Cultura Teresa Patrício Gouveia fez publicar, no DR, um decreto "criando as condições necessárias para o estabelecimento de uma política nacional de Leitura Pública, através da implantação e funcionamento regular e eficaz de uma rede de bibliotecas municipais."
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No dia em que assumi a chefia da divisão cultural da Câmara de Moura (25.9.1986) já tinha preparado um plano de remodelação da Biblioteca Municipal. Passei dias a fio, nesses tempos bárbaros sem net nem telemóveis, até localizar a Dra. Maria José Moura, coordenadora do grupo de trabalho e então bibliotecária da reitoria da Universidade de Lisboa. Falar com ela foi o primeiro passo. Nos meses seguintes o programa de intervenção foi aprofundado, alicerçado no projeto de arquitetura de Maria Teresa Ribeiro. A nossa candidatura seria entregue em maio de 1987. Soubémos, algum tempo depois, que Moura integrava o primeiro grupo de sete municípios que, a sul, iria ter apoio.
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A inauguração da primeira fase da ampliação (primeira e última, uma vez que o projeto inicial nunca chegou a ser executado) teve lugar no dia 24 de junho de 1991.
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O sucesso da rede de bibliotecas municipais é, hoje, um dos maiores sucessos culturais do pós-25 de abril. Está solidamente ancorado numa rede de equipamentos onde a componente de recursos humanos joga um papel essencial. Curiosamente, e para que conste, a mais sólida aposta nesta rede partiu de um governo de direita (PSD). Quem menos nela tem apostado é este governo, crismado de socialista.
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Provavelmente, porque as bibliotecas encerram ao domingo. Um dia mais adequado, como sabeis, para se fazerem exames e se estudar inglês técnico.
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E não, esta não é a biblioteca de Moura. É o Real Gabinete Português de Leitura, no Rio de Janeiro. Uma das mais fantásticas bibliotecas onde entrei. A fotografia é de Cláudio Lara.

O LIXO, OS ECONOMISTAS E A ECONOMIA

Quando, depois das eleições autárquicas de 2005, tivémos uma reunião de distribuição de pelouros o José Maria informou-me (acho que foi isso, mais que um pedido de opinião): "ficas com o urbanismo, o gabinete de estudos e projetos, os fundos comunitários e o apoio ao desenvolvimento e as atividades económicas".
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Exatamente o que conviria a alguém que fez todos os graus académicos em História.
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Meses mais tarde, e à conversa com um conhecidíssimo jornalista português da área económica, confessei os meus receios, rematando com o desabafo não percebo nada de economia. O jornalista sorriu largamente e esclareceu-me deixe lá, os economistas também não...
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Já não é só a definição que me foi transmitida por um colega de liceu, hoje banqueiro: um economista é aquela pessoa que leva seis meses a elaborar um modelo e outros seis a explicar porque é que o modelo falhou. Não é só isso, não. Faltou perspetiva política e faltou coragem em muitos momentos recentes da nossa vida política.
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Que os centros de decisão não estão dentro de portas é mais que evidente (os mercados, a Fitch, a S&P etc etc) Que a AR se torna, a este nível, de uma aflitiva irrelevância é outra evidência. Que tantos e tão reputados economistas e gestores não tiveram a capacidade ou a corgaem política da decisão (e é aí que bate o ponto) é, ainda, outra evidência.
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Sinto-me tentado a dar razão ao jornalista. E, ao fim e ao cabo, creio que não me saí assim tão mal nas minhas funções. Seguindo um conselho básico do meu amigo banqueiro: antes de usares os manuais e as receitas, usa o bom-senso. Em 2013 terá lugar um balanço. E será publicado um livro com o título A minha aventura na República Autárquica.
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Os do rating dizem que estamos quase no lixo. O gráfico da nossa economia deve ser mais ou menos isto...