quarta-feira, 31 de agosto de 2011

CAMPO DE BAEZA, A LA LUNA CLARA

I
Desde mi ventana,
¡campo de Baeza,
a la luna clara !
¡Montes de Cazorla,
Aznaitín y Mágina!
¡De luna y de piedra
también los cachorros
de Sierra Morena!

II
Sobre el olivar,
se vio la lechuza
volar y volar.
Campo, campo, campo.
Entre los olivos,
los cortijos blancos.
Y la encina negra,
a medio camino
de Úbeda a Baeza.

III
Por un ventanal,
entró la lechuza
en la catedral.
San Cristobalón
la quiso espantar,
al ver que bebía
del velón de aceite
de Santa María.
La Virgen habló:
Déjala que beba,
San Cristobalón.

IV
Sobre el olivar,
se vio la lechuza
volar y volar.
A Santa María
un ramito verde
volando traía.
¡Campo de Baeza,
soñaré contigo
cuando no te vea!

V
Dondequiera vaya,
José de Mairena
lleva su guitarra.
Su guitarra lleva,
cuando va a caballo,
a la bandolera.
Y lleva el caballo
con la rienda corta,
la cerviz en alto.

VI
¡Pardos borriquillos
de ramón cargados,
entre los olivos!

VII
¡Tus sendas de cabras
y tus madroñeras,
Córdoba serrana!

VIII
¡La del romancero,
Córdoba la llana!...
Guadalquivir hace vega,
el campo relincha y brama.

IX
Los olivos grises,
los caminos blancos.
El sol ha sorbido
la calor del campo;
y hasta tu recuerdo
me lo va secando
este alma de polvo
de los días malos.



Um certo sentimento de rejeição vai a par com as cidades de estilo senhorial. É o caso de Cáceres. É também, ainda que menos o caso de Baeza. O motivo secreto desta vinda é Antonio Machado, que aqui viveu durante sete anos e a quem a cidade dedica uma verdadeira devoção.


Quilómetros percorridos: 550

MIGUEL HERNÁNDEZ E IGNACIO SÁNCHEZ MEJÍAS E UM POEMA

Um post de ontem causou involuntária confusão. Na realidade o texto não era dedicado a Ignacio Sánchez Mejías. Também não era La nana de la cebolla, mas sim uma elegia escrita em memória de Ramón Sijé. Aqui fica, de novo, o poema, com um desenho de Picasso.






Yo quiero ser llorando el hortelano
de la tierra que ocupas y estercolas,

compañero del alma, tan temprano.



Alimentando lluvias, caracoles

Y órganos mi dolor sin instrumento,

a las desalentadas amapolas



daré tu corazón por alimento.

Tanto dolor se agrupa en mi costado,

que por doler me duele hasta el aliento.



Un manotazo duro, un golpe helado,

un hachazo invisible y homicida,

un empujón brutal te ha derribado.



No hay extensión más grande que mi herida,

lloro mi desventura y sus conjuntos

y siento más tu muerte que mi vida.



Ando sobre rastrojos de difuntos,

y sin calor de nadie y sin consuelo

voy de mi corazón a mis asuntos.



Temprano levantó la muerte el vuelo,
temprano madrugó la madrugada,

temprano estás rodando por el suelo.



No perdono a la muerte enamorada,
no perdono a la vida desatenta,

no perdono a la tierra ni a la nada.



En mis manos levanto una tormenta
de piedras, rayos y hachas estridentes

sedienta de catástrofe y hambrienta



Quiero escarbar la tierra con los dientes,
quiero apartar la tierra parte

a parte a dentelladas secas y calientes.



Quiero minar la tierra hasta encontrarte

y besarte la noble calavera

y desamordazarte y regresarte



Volverás a mi huerto y a mi higuera:

por los altos andamios de mis flores

pajareará tu alma colmenera



de angelicales ceras y labores.

Volverás al arrullo de las rejas

de los enamorados labradores.



Alegrarás la sombra de mis cejas,

y tu sangre se irá a cada lado

disputando tu novia y las abejas.



Tu corazón, ya terciopelo ajado,

llama a un campo de almendras espumosas

mi avariciosa voz de enamorado.



A las aladas almas de las rosas...

de almendro de nata te requiero,:

que tenemos que hablar de muchas cosas,

compañero del alma, compañero


terça-feira, 30 de agosto de 2011

A CIDADE DAS FLORES

Não é ao livro de Augusto Abelaira a que me refiro. Podia ser, porque foi um dos meus livros da adolescência.


De resto, a tradução de Madinat al-Zahra até é, em rigor, cidade brilhante. De brilho falamos quando se evoca a cidade palatina mandada fazer por Abd al-Rahman III no século X. De brilho voltamos a falar quando visitamos o museu construído a dois quilómetros do sítio arqueológico - abençoados sejam os que resistem à tentação de edificar museus que se sobrepõem às ruínas - e nos damos conta da inteligência do projeto e do didatismo de que tudo se reveste. Brilhante aplica-se assim ao sítio e aos que o valorizaram.


O projeto é do ateliê Nieto Sobejano. Foi galardoado, e bem, com o Prémio Aga Khan de Arquitetura em 2010.


Madinat al-Zahra fica à saída de Córdova, na direção de Palma del Rio. A entrada é livre para os cidadãos da União Europeia.


Ver: http://www.nietosobejano.com/


Sobre o prémio: http://www.akdn.org/architecture/


Continuação do périplo andaluz. Quilómetros percorridos: 390


segunda-feira, 29 de agosto de 2011

PUERTA DE CÓRBOBA

O sítio já não é assim, mas isso pouco importa. A puerta de Córdoba, na cidade de Carmona, continua a ser um dos mais espetaculares monumentos andaluzes. As torres romanas foram, por diversas vezes, refeitas, retomadas e reconstruídas. A parte central, dos séculos XVII e XVIII, não só não anula os monumentos mais antigos como lhes dá uma maior imponência.

Deve haver mais coisas para ver em Carmona. Mas, para além desta porta e da Sevilha, uma e outra no limite do cardo máximo, pouco mais me interessa neste dia. Ou melhor, interessam-me estas portas e la velocidad de un caballo parado.

Início de um curto périplo andaluz. Quilómetros percorridos: 244.


JOÃO PENALVA

ELA NÃO TINHA A MENOR IDEIA

O Maeda-san, o Ito-san e a Itazu-san trabalham para empresas diferentes no mesmo edifício em Jinbocho, junto à via rápida nº 5. O Maeda-san no último andar, o Ito-san no quarto e a Itazu-san no terceiro. A Itazu-san acha que os dois homens gostam dela. Ela sabe que o Maeda-san está a divorciar-se mas ainda é casado, e que o Ito-san é solteiro, mas demasiado tímido para dar um passo. A verdade é que o Maeda-san teve interesse por ela mas só até ao dia em que se convenceu que ela tinha uma relação com um homem que ele viu com ela no metro, quando, de facto, o homem era um perfeito estranho. O Ito-san está apaixonado por uma antiga vizinha que agora vive em Osaka. Quem está efectivamente apaixonado por ela é um homem que trabalha mesmo atrás dela, mas ela não faz a mais pequena ideia disso.


A RAPARIGA DE READING, 2008

O Shigeo é estudante de composição musical na Universidade, no Parque de Ueno, e trabalha à noite como bagageiro no City Terminal do Aeroporto de Tóquio. Ele ainda gosta de uma bonita rapariga inglesa que trabalha no terminal, mas as coisas não correram bem quando uma vez tentou meter conversa. Perguntou-lhe se conhecia o rio Curlew, na sua Inglaterra natal, mas ela não conhecia, e foi tudo. A culpa era toda de Benjamin Britten. Para ir trabalhar, ele apanha a Linha de Hibiya em Ueno, na direcção de Suitengu-mae. No seu percurso de três minutos do metro para as traseiras do terminal, debaixo das ensurdecedoras circulares n.os 6 e 9, pensa muitas vezes em Britten. É que o rio Sumida está mesmo ali, e a antiga peça nô Sumidagawa, que lhe deu o nome, inspirou Britten, em 64, a compor Curlew River. Falou deste desastre a um colega de faculdade que se riu dele e lhe chamou parvo. O rio Curlew é uma ficção, disse ele, e que, para ter sucesso com as raparigas, não há nada como cingir-se a factos.

A exposição retrospetiva de João Penalva (n. 1949) vai estar patente ao público até dia 9 de outubro no Centro de Arte Moderna da Gulbenkian. Interessaram-se os seus textos curtos - não sei bem porquê mas fizeram-me vir à memória a escrita de Robert Walser -, e as fotografias, em especial a obra Arcade, com a sua obsessiva imagem do tempo.

Ver: http://www.cam.gulbenkian.pt/index.php?article=71202&visual=2

domingo, 28 de agosto de 2011

MÉRTOLA: 2001-2011

Terminou, na passada sexta-feira, a campanha de escavações arqueológicas na alcáçova de Mértola. Refiro o facto por duas razões:


1. Desde 2001 que não participava em trabalhos arqueológicos naquele local;

2. Há muitos anos que não se abria uma nova e significativa frente de trabalho naquele local.


A razão 1 e a razão 2 estão intimamente ligadas. Desde sempre que sustento que os trabalhos na alcáçova são uma das razões de ser do projeto arqueológico na vila e que, independentemente de outras iniciativas, as escavações no antigo bairro islâmico são cruciais para o Campo Arqueológico.


Criado um percurso de visita e aberto o espaço ao público não havia razão válida para protelar o retomar deste processo. Entre meados de julho e dia 26 de agosto realizaram-se escavações na área a sul da casa nº 10. Apesar do ritmo da intervenção ter sido condicionado pela presença da necrópole cristã, a identificação de elementos do urbanismo e do habitat (de 15 casas passámos para 18) da Mértola almóada cria grandes expetativas para a campanha do 2012.


Participaram na escavação alunos da ALSUD e das Universidades de Coimbra, do Porto e do Algarve.


Os trabalhos contaram com um imprescindível e empenhado apoio da Câmara Municipal de Mértola. A forma fácil como tudo se articulou reforçou uma convicção que os anos vão sedimentando: não são, em situações como esta, as questões financeiras que dificultam a realização de iniciativas, mas sim a falta de diálogo e de boa-vontade.



IZNOGOUD

O falecimento de Jean Tabary (1930-2011) ocorreu há alguns dias, mas só agora me dei conta do facto. Desenhador de grande talento, o trabalho de Tabary tem um lugar muito especial no meu coração. Desenvolveu, em conjunto com René Goscinny, as figuras do califa de Bagdade Haroun El Poussah (Harun al Sindar, em Portugal) e do seu "fiel" grão-vizir Iznogoud (literalmente, "não presta"). O lema deste era "je veux être calife à la place du calife" ("quero ser califa no lugar do califa").

Os 12 álbuns da dupla fizeram as minhas delícias nos tempos do liceu e da faculdade. A divertida figura de Iznogoud, que sempre falhava nos seus intentos de derrubar o califa, é uma das minhas preferidas da BD.

Iznogoud era um nome muito citado, em tempos, no Campo Arqueológico de Mértola - private joke para os veteranos (uns que por aqui andam, outros há muito que lhes perdi as coordenadas) lá da casa.


PEDIMOS DESCULPA...

POR ESTA INTERRUPÇÃO. O PROGRAMA SEGUE DENTRO DE MOMENTOS.

E os televisores, a preto e branco, ficavam minutos a fio com a legenda e esta imagem, a mira técnica da RTP desses tempos longínquos. Uma situação impensável nos dias de hoje, mas que nos anos 60 e 70 era mais que frequente. As causas eram misteriosas, mas tinham a ver com problemas na antena de Monsanto, ou no retransmissor do Mendro ou coisa que o valha. Na altura, o autor do blogue ficava desconfiadíssimo que "aquilo" era provocado por algum inimigo dos desenhos animados, uma vez que os cortes ocorriam, quase sempre, na melhor parte do Speedy González...

Vem isto a propósito de um silêncio de dois dias do blogue, causado por um agitado percurso rodoviário e por um vendaval de compromissos entre Moura, Mértola e Lisboa.


quinta-feira, 25 de agosto de 2011

TOMINA 2011

E sem delongas nem muitas palavras lancemo-nos a caminho de Santo Aleixo, onde a partir de amanhã há Festa. Só acaba no dia 30. Ou 31. Ou mesmo 32.




quarta-feira, 24 de agosto de 2011

ROGÉRIO RIBEIRO

O ROGÉRIO

No outro dia o Rogério Ribeiro partiu e eu já não o via há uns meses. Estava já escuro, e a noite de Lisboa começava a pôr-se bonita, quando nos fomos despedir dele, no meio da família, dos amigos e de muitos, muitos cravos vermelhos.


Conheci-o há muitos anos, já ele dobrara a casa dos 50 e eu dava os primeiros passos em Moura. Na realidade já conhecia o trabalho do Rogério, como grande pintor que é, e também pela sua colaboração no Museu Gulbenkian. Durante muitos meses, em 1985, passei à frente da sede do PCP na Avenida da Liberdade, cuja fachada estava coberta por um esplendoroso desenho do Rogério, celebrando uma revolta popular ocorrida seis séculos antes.

Há horas de sorte. A directora do GAT de Moura era, em 1987, a Teresa, filha do Rogério e minha querida amiga. Foi graças a ambos que pude pôr de pé o projecto Moura na época romana e foi o primeiro momento bom da minha carreira profissional. O projecto em si era simples mas tornou-se, para um puto acabado de sair da Faculdade, um intenso estágio de aprendizagem. O Rogério chegou a Moura, ouviu em silêncio o que eu pensava fazer, foi comentando aqui e ali e depois quis ver o sítio da exposição. Olhou, viu, mediu e depois limitou-se a dizer “ok, vamos a isto”. Nos meses seguintes, houve tantas coisas que aquele senhor de ar calmo e não muitas palavras me ensinou sem nunca o dizer. Recordo algumas, sem preocupações de hierarquia.


A primeira lição foi a do profissionalismo. Todos os projectos são importantes e devem ser tratados com a maior atenção. Guardo e guardarei o projecto de design que o Rogério traçou para aquele espaço, desenhos e mais desenhos, perspectivas, cortes e muitos detalhes da museografia do local. Ao olhar para o calhamaço pela primeira vez pensei “mas que raio vamos ali fazer?”, para depois perceber que o rigor é a primeira e a melhor forma do nosso trabalho ser aceite. Apesar da simplicidade do projecto, o Rogério não deu tréguas e criou para a Casa do Rato uma mão cheia de soluções originais, preocupando-se com os detalhes como se estivesse a trabalhar para o Guggenheim.

A segunda é que o nosso envolvimento nos projectos se mede em função do prazer que eles nos dão e da utilidade que eles possam ter para os outros e não em função de exigências contratuais ou de honorários. Os do Rogério foram uma ridicularia e ainda se dispôs a fazer o cartaz da exposição e a pintar o desenho, em formato gigante, de um capitel. O desenho em si era melhor que muitos dos materiais expostos…


A terceira é a de que o carreirismo e a procura do sucesso a qualquer preço dão, a longo prazo, mau resultado. Várias vezes o ouvi comentar, furioso, o percurso da antigos alunos dele nas Belas-Artes, “raios o partam, um miúdo com tanto talento e olha o que anda a fazer na vida…”. Não tinha, por isso, pachorra para petulantes, vaidosos e arrivistas.

A quarta é uma coisa cada vez mais rara chamada solidariedade. À distância de mais de 20 anos chega a ser emocionante a forma como um consagrado – o Rogério era isso mesmo, embora se tente agora limitar a sua obra à de “ilustrador dos livros de Álvaro Cunhal” (que o foi e excelente) – se entregou ao trabalho, aceitando ter como colega um puto de vinte e poucos anos, que queria fazer coisas e a quem ele achava que tinha que ajudar. Muito mais importante que esse detalhe foi a forma como, com a maior generosidade, sempre esteve disposto a ajudar as pequenas autarquias ou os seus camaradas, com exposições, com projectos, com iniciativas de todo o género. A ele, ao homem ocupado, ao professor, ao autor de projectos nos quatro cantos do mundo, ao pintor que nunca se acantonou no neo-realismo, ao dinamizador de projectos, nunca o ouvi dizer não.


No Verão passado em Beja estive com o Rogério pela última vez. Ultimava, solidariamente, com todo o entusiasmo e apesar de muito debilitado, um painel de azulejos que foi inaugurado dois dias antes da sua partida. Não o voltei a ver depois disso. Na realidade, ao todo estivera com o Rogério umas 20 ou 30 vezes, talvez nem tanto. Razão de sobra para, cada vez mais, estar convencido que coisas na aparência simples como a leitura de um livro, uma aula ou uma conversa podem ser decisivos para o resto da vida. Pelo menos, comigo assim foi.



O pintor Rogério Ribeiro (1930-2008) foi uma das pessoas mais marcantes e extraordinárias que conheci. Este singelo e sentido texto de homenagem foi publicado em A Planície de 1 de abril de 2008.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

ANTÓNIO BARRERA PARA VIANA DO CASTELO, JÁ!

António Barrera protagonizou um emotivo momento ao lidar na Monumental de Barcelona com a senyera, em protesto com a futura proibição da festa dos touros na Catalunha. Saiu em ombros. Esta manoletina com os joelhos no solo diz bem do arrojo da lide.

Que falta nos faz o matador sevilhano? Muita. Para combater a desgraçada demagogia anti-taurina. A começar por Viana do Castelo, que o pobre do Dr. Defensor de Moura promoveu como a "primeira cidade antitouradas do País".

Dizia o "Público" de ontem:
Três anos depois de ter sido adquirida pela Câmara de Viana do Castelo, a antiga praça de touros está abandonada e a degradar-se, convertendo-se num problema para o município, que, em 2009, fez história ao transformar-se na primeira "cidade antitouradas" de Portugal. (...) O presidente da Câmara de Viana, José Maria Costa, reconhece que, nesta altura, "não há uma ideia clara" para o espaço.

Digo eu:
São fáceis os gestos de demagogia do bem parecer e do politicamente correto. O pior é o resto.

Queremos António Barrera a tourear em Viana. Já!

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

DECEPCIÓN EN EL PUERTO

Transcrevo o título da crónica assinada por Emilio Trigo, no Mundotoro. O tom é de crítica violenta para a qualidade dos touros. Mas os toureiros não saem incólumes nesta história, a julgar pela opinião de outros críticos. António Lorca, escrevia, na edição de ontem do El Pais, a propósito da corrida da véspera em Málaga: "Nunca se sabrá si fue casualidad, pero en el cartel figuraba un torero de postín, por nombre Enrique Ponce, muy querido por estos lares, que pasó desapercibido a causa de la manifiesta falta de fuerzas de su lote. Pero fueron evidentes su lamento y pesar por las condiciones de sus toros; como si él no supiera antes del comienzo de qué cojeaba la corrida elegida por su equipo. Ese es, una vez más, el problema: que las figuras exigen el toro tonto de remate, el bobo, el lisiado, y, después, pretenden engañar con gestos de supuesta reprobación." O tema dos touros e toureiros volta hoje às páginas do matutino, em crónica ácida de José Luis Merino, sobre a corrida de Bilbao: "las corridas llamadas duras, tal la de Miura de ayer, las figuras del toreo, incluidos los Armani, no quieren verlas ni siquiera en vídeo. De ahí que las tengan que lidiar los toreros modestos, jóvenes -y no tan jóvenes- con su punto compulsivo de desesperación que salen a jugarse la vida cada tarde. A pesar de todo, incluida la Junta Administrativa, ellos son los que mantienen la poca y, a la vez, gran verdad de esta gran mentira en que han convertido los taurinos de pan y melón del espectáculo taurómaco". Escreve quem sabe e leio para aprender. Já agora, a piada ao "toureiro armani" refere-se a Cayetano Rivera.

Sobre a corrida de ontem:
Plaza de toros de El Puerto. Corrida goyesca. Tres cuartos de plaza. Toros de Albarreal, el quinto como sobrero. Bien presentados, pero de nulo juego. Enrique Ponce, ovación y palmas; Sebastián Castella, ovación y ovación y Alejandro Talavante, ovación y palmas.


O paseíllo de ontem, em El Puerto,
talvez o melhor momento da tarde...

RADIOLÉ

"Soy un pirata que ha robado tus caricias", cantava Pablo Alborán. O tom era espeluznante e espeluznante aplica-se bem tanto à canção como à Radiolé. Os meus amigos espanhóis espantam-se por eu ouvir a Radiolé, que classificam como "cutre" e "hortera" e outras coisas assim pouco simpáticas. Deve ser mais uma das minhas contradições, mas aquela sucessão de tons rumbistas (que hoje incluiu uma versão em espanhol do Hey Jude com muitos ole-ole-ole à mistura e outra do Killing me softly que não lhe ficou atrás em espalhafato) agrada-me. A minha companheira de viagem desesperou-se um pouco, mas acabou por ser rir com o Hey Jude ole-ole-ole.

Outra vantagem, que não é menor: à boa maneira espanhola, os nomes, as coisas e os estilos são assumidos com orgulho. Quem gosta, gosta. Quem não gosta, paciência...


Sobre Pablo Alborán, o pirata que rouba carícias: www.pabloalboran.com
A Radiolé pode ser ouvida em direto: www.radiole.com

DE LA FRONTERA

O nome De la frontera repete-se. Em Arcos, em Chiclana, em Jerez, em Vejer, em Jimena, em Cortes, em Morón, em Castellar, em Conil... Não há dúvidas sobre a linha, mais ou menos fixa, que dividia cristãos e muçulmanos. Ou, melhor dizendo, entre os territórios de Sevilha e Granada. Os sítios onde este nome surge estão no limite das serranias que fizeram a vida difícil aos do norte e que aguentaram o reino de Granada até ao final do século XV. Os ecos da História chegam pelas ondas radiofónicas: as interferências são frequentes e nos aparelhos ouve-se, com regularidade, a língua árabe, que nos chega de Tânger.

A costa apresenta cicatrizes profundas causadas por um ritmo de urbanização ao nível do nosso Algarve. Deve ter sido, em tempos, uma região bonita. A imagem é de Fuente del Gallo, antes da devastação.

sábado, 20 de agosto de 2011

FATH AL-ANDALUS

É pelo sul que vamos. De Barbate ou de Tarifa vê-se, com toda a nitidez, o outro lado do mundo. Nós é que, para já, não damos por isso. A proximidade a essas paragens é bom pretexto para reler um livro antigo intitulado Fath al-Andalus (A conquista do al-Andalus). Foi, durante muitos anos, livro para mim inencontrável. A edição original data de 1889 e foi produzida por Joaquín de González a partir de um texto localizado em Argel. O manuscrito reporta-se, em grande parte, aos tempos iniciais da islamização (séc. VIII), ainda que possa ter sido redigido em época muito tardia.

O texto está cheio de passagens coloridas. Cito uma, a roçar uma interpretação marxista da sociedade de então:

Entre los politeístas muertos se reconocía a los nobles por los anillos de oro que llevaban en los dedos, a los de mediana categoría, por los anillos de plata, y a los siervos y gente semejante, por los anillos de latón.

Os "politeistas" (por causa da Santíssima Trindade) eram os Cristãos. O texto integral está, felizmente, disponível em versão castelhana graças ao labor de Mayte Penelas. A edição é do CSIC e data de 2002.

Ver: http://www.eea.csic.es/index.php?option=com_content&task=view&id=137&Itemid=42



sexta-feira, 19 de agosto de 2011

LA REINA MORA

Em antecipação a três dias meridionais aqui fica um excerto de um filme já antigo (rodado em 1954) e do qual não consegui saber grande coisa. O guião inclui rivalidades amorosas e a memória de uma reina mora. Do filme não reza a história. Mas vale a pena ouvir Pepe Marchena (1903-1976). Foi um artista controverso, de trinados barrocos e está hoje talvez um pouco esquecido. Tenho a sua Dispararon Contra Cai no topo das minhas preferências. Refiro-me a todas as músicas que ouvi em toda a minha vida. Canto a Córdoba não anda longe desse topo.




SOBRAL DA ADIÇA 2011

Alguém me comentou um dia em Mértola: "é espantoso, mas em Moura estão sempre em festa". O comentário, algo exagerado, referia-se ao concelho e não só à sua sede. Digamos que os habitantes deste concelho têm um sentido lúdico da vida. Ainda bem que assim é.


As Festas do Sobral trazem-me boas recordações. Foi ao Sobral que fiz a minha primeira escapada clandestina, em 1977 (se bem recordo as festas eram então em setembro). Péssimo dançarino, mas com a vantagem de não ser conhecido na aldeia, dancei toda a noite com uma moça da minha idade, cujos dotes estavam a par dos meus. Cheguei a Moura às 6 da manhã, ufano da aventura e no quase pânico do João descobrir a brincadeira...


Talvez por isso, o Sobral tem um lugar especial nas minhas memórias. Hoje às 18 horas lá estarei. O programa completo das festas aqui fica.



quinta-feira, 18 de agosto de 2011

O ÚLTIMO POÇO DA MORTE



Ao ler, ontem, o A CINCO TONS (v. texto de Carlos Júlio aqui), dando conta do anunciado desmantelamento do último poço da morte ainda existente em Portugal, senti enorme pena pelo fim de uma atração de feira que não voltará. Ainda que, por norma, não republique textos aqui fica o testemunho da minha memória de um espetáculo único. Foi na feira de setembro de 1971 ou 1972.



O GRANDE NELSON

“Há belhetes na belheteira” anunciava a lata pintada em frente ao poço da morte. O poço da morte foi a minha ruína e quando chegou o último dia de feira não sobrou um tostão dentro da carteira de plástico preto com o emblema do Benfica. Era linda a minha carteira de plástico preto com o emblema do Benfica e nunca percebi porque é que lá em casa só eu gostei dela. 12$50 (uns seis cêntimos) foi o investimento, logo no primeiro dia, embora me tivessem dito para não comprar nada no primeiro dia de feira, porque era o dia dos aldeanos.

Com o que sobrou comprei o primeiro de vários belhetes. Subia-se por uma escada exterior, do lado direito do poço da morte. Cada degrau era um passo mais no caminho da angústia. Mais um passo, mais ansiedade, e a expectativa de esperar que não fosse naquele dia o fim do Grande Nelson. Ingmar Bergman gostaria de conhecer o poço da morte e a angústia de Nelson, mas na Suécia de certeza que não há poço da morte.

O poço era uma parede vertical em madeira, com uma pequena inclinação junto à base. Do varandim, nós, os outros, podíamos ver o Grande Nelson desafiar a morte. Primeiro entravam os filhos de Nelson em bicicletas a pedais, pedalando furiosamente, primeiro inclinados, depois completamente na horizontal, desafiando a lei do outro nelson. À distância de mais de 30 anos impressiona a temeridade dos rapazes, que a certa altura se cruzavam num bailado arriscado. Talvez fossem temerários, mas nada superava o Grande Nelson. A moto fazia um barulho terrível, como se fosse explodir a cada aceleração. Era um bocadinho de espectáculo para dar mais uma justificação ao belhete, mas nós ficávamos ainda com mais respeito. Depois sim. O Grande Nelson arrancou. Parede acima, parede abaixo. Uma pirueta, depois outra. Nós angustiados, no varandim em volta do poço, o Grande Nelson de sorriso rasgado, a morte derrotada com tanta audácia, as leis da física esmagadas com tanta coragem. Mas o grande momento estava para vir. Quase no final da actuação o Grande Nelson puxou de uma bandeira nacional, tapou a face e abriu os braços. Ele e a moto continuaram, poço acima, poço abaixo. Depois parou a moto, tirou o capacete e os óculos à major Alvega. Olhou para nós, à matador. Aí o poço quase veio abaixo. A malta deu-lhe a ovação que ele, nesse altura já quase imortal, queria e merecia. Eu fiquei à beira das lágrimas, com tanta angústia, tanta emoção e tanto patriotismo. Desci as escadas do lado esquerdo do poço da morte jurando que todos os dias da feira iria prestar homenagem ao Grande Nelson. E fui.

No dia 10 a feira acabou. Nunca mais vi o Grande Nelson. Nem o poço da morte, nem a inesquecível lata que anunciava os belhetes e a belheteira.



Não consegui qualquer referência sobre o grande Nelson. A crónica foi publicada no jornal A Planície de 1 de Junho de 2006. A fotografia foi obtida aqui:

http://www.clubextportugal.com/t2124-poco-da-morte

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

AS DUAS FACES DE EVA

The naked and the nude


by Robert Graves



For me, the naked and the nude
(By lexicographers construed
As synonyms that should express
The same deficiency of dress
Or shelter) stand as wide apart
As love from lies, or truth from art.

Lovers without reproach will gaze
On bodies naked and ablaze;
The Hippocratic eye will see
In nakedness, anatomy;
And naked shines the Goddess when
She mounts her lion among men.

The nude are bold, the nude are sly
To hold each treasonable eye.
While draping by a showman's trick
Their dishabille in rhetoric,
They grin a mock-religious grin
Of scorn at those of naked skin.

The naked, therefore, who compete
Against the nude may know defeat;
Yet when they both together tread
The briary pastures of the dead,
By Gorgons with long whips pursued,
How naked go the sometime nude!







Robert Graves (1895-1985) foi novelista e poeta. A sua obra mais conhecida será, porventura, o romance histórico Eu, Cláudio. Escolhi este seu poema sobre a nudez para acompanhar as fotografias. A arqueologia leva à fotografia ou vice-versa. Na imagem de cima está a Vénus de Willendorf, feita há cerca de 25.000 anos e descoberta na Áustria em 1908 (integra hoje a coleção do Naturhistorisches Museum, em Viena). Esta extraordinária escultura, obra maior da História da Humanidade, fez-me recordar (ou terá sido ao contrário?), uma imagem bela e fortíssima do americano William Ingram, que esteve em tempos exposta numa galeria lisboeta. É uma outra Vénus, que sabemos chamar-se Ziebe e ser cantora gospel, no Gana. Nada mais.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

KEITH HARING NA AMARELEJA

Ao sair, esta noite da Amareleja, reparei na parede de uma das mais belas casas da vila. Estava a ser reparada e prestes a entrar em pinturas. Desenhos caprichosos cobriam todo o muro, a meio caminho entre os frescos do Tassili e as pinturas de Keith Haring.

E não culpeis o Deus Baco. A condução obrigou-me à Lei Seca...


Sobre Keith Haring (1958-1990): http://www.haring.com/

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

FIM DA VOLTA


Termina hoje a Volta a Portugal. Vai à frente Ricardo Mestre. Não sei quem é, porque a Volta já não me desperta o interesse de outrora. Um dos grandes momentos da história da prova (na parte que me recordo, bem entendido) foi o duelo Joaquim Agostinho-Fernando Mendes. Não era exatamente um duelo, na medida que que Agostinho ganhou todas as voltas em que teve Mendes como rival. Este venceu em 1974, mas sem concorrência à altura. O ciclista de Brejenjas não participou em 74, depois do escândalo Ritalin, ocorrido no ano anterior. Os que começam a ir para velhos, como eu, lembram-se bem disso.

A Volta deste ano, que já quase esquecera, entrou-me casa dentro, à hora do calor, com um programa televisivo. A pretexto do ciclismo mostra-se a nossa cultura. Ou o que a tv nos diz ser a nossa cultura. Representada por João Baião, seguido por um grupo de majorettes, todos dançando em estilo discoteca a Senhora do Almortão, uma das mais belas músicas do nosso cancioneiro, assim chacinada sem dó nem piedade. Um momento lamentável, a roçar a obscenidade. Desliguei o aparelho e desliguei da Volta. Talvez amanhã veja no jornal quem ganhou.


domingo, 14 de agosto de 2011

IGNACIO SÁNCHEZ MEJÍAS POR RAFAEL ALBERTI


Ainda a trágica morte de Ignacio Sánchez Mejías (v. aqui), agora nas palavras de Rafael Alberti. O poema, Verte y no verte, data de 1935.

Por el mar Negro un barco

va a Rumanía,

Por caminos sin agua

va tu agonía.

Verte y no verte.

Yo, lejos navegando;

tú por la muerte.

Verónicas, faroles,

velas y alas.

Yo en el mar, cuando el viento

los apagaba.

Yo, de viaje.

Tú, dándole a la muerte

tu último traje.

Mueve el aire en los barcos

que hay en Sevilla,

en lugar de banderas,

dos banderillas.

Llegando a Roma,

vi de banderillas

a las palomas.

Por pies con viento y alas,

por pies salía

de las tablas Ignacio

Sánchez Mejías,

¡Quién lo pensara

que por pies un torillo

lo entablara!


Una barca perdida

con un torero,

y un reloj que detiene

su minutero.

Vivas y mueras,

rotos bajo el estribo

de las barreras.

Verte y no verte,

Yo, lejos navegando

tú, por la muerte.




Rafael Alberti (1902-1999) nasceu e morreu em El Puerto de Santa María. Existe na cidade uma fundação dedicada à sua vida e obra: http://www.rafaelalberti.es/

A pintura, de Joan Miró (1893-1983), data de 1945 e está hoje no Centro Pompidou, em Paris.