quarta-feira, 26 de outubro de 2011

A PROPÓSITO DA ARQUEOLOGIA NO CASTELO DE MOURA

É pouco vulgar que um comentário, neste caso anónimo, seja motivo para um texto. Há, no entanto, considerandos muito interessantes que o(a) autor(a) fez e que são merecedores de alguma reflexão e de clarificação detalhada. O comentário foi este:

Nesse trabalho de arqueologia visto de cima e para o comum dos mortais,os vestígios postos a descoberto, podem não passar de "pedras mortas". Quer-me parecer que não é dado a conhecer à comunidade e, passo a passo,as descobertas que vão sendo realizadas. Tudo permanece no segredo dos "deuses". O portal da autarquia deveria divulgar constantemente aquilo que é descoberto. O interesse da sociedade seria crescente. Afinal, trata-se de um valioso património público que não se destina primordialmente a servir de tema a teses universitárias. A propósito, recordo o saudoso Dr. Fragoso Lima que nos inícios da década de 1970, pegou numa turma e conduziu-nos ao recinto do castelo onde nos deu uma lição viva e de vida sobre aquele local e o seu passado histórico.

Então vamos a isto, e dirijo-me diretamente a quem escreveu:

1. A divulgação de um trabalho de arqueologia é tarefa que não se compadece com precipitações nem com a rapidez. Acredite em mim, que tenho razoável experiência na matéria. A afirmação que fez "quer-me parecer que não é dado a conhecer à comunidade e, passo a passo,as descobertas que vão sendo realizadas" ouvi-a, durante muitos anos, em Mértola, num projeto que tem uma dimensão, e que teve meios, incomparavelmente maiores. Deixo-lhe estes dados, que são importantes: 1) 1978: início das escavações arqueológicas; 2) 1988: abertura do museu romano; 3) 2001: abertura do museu islâmico; 4) 1993: edição do primeiro catálogo referente aos vestígios patrimoniais; 5) 2004: primeira tese de doutoramento sobre a arqueologia de Mértola; 2008: abertura ao público das escavações. É fácil constatar o lapso de tempo decorrido. E muitas vezes em Mértola fomos criticados por isso. O tempo deu-nos razão.

2. Bem entendido, não será necessário esperar 30 anos para se ter acesso à alcáçova do castelo de Moura... Com a conclusão das obras em curso, em 2012 teremos circuito de visita.

3. Não há qualquer "segredo dos deuses". Os materiais têm sido apresentados em congressos de arqueologia. Localmente foram promovidas várias visitas ao castelo (com limitadíssimo sucesso) e apresentámos publicamente, em 2007, os resultados das seis primeiras campanhas. Tivémos umas 10 pessoas na Adega da Mantana. Não foi muito motivador, mas espero voltar em breve à carga. Pode ser que tenha mais sorte.

4. Também sei que aquilo que fazemos (ainda para mais sendo eu vereador) está sempre sujeito a críticas, comentários e discordâncias. As coisas são assim mesmo. Estou sempre atento ao que me dizem. Cruzo isso com os muitos anos de trabalho e com a multiplicidade de experiências, próprias e alheias. E adapto tudo isso ao plano de trabalhos. Não duvide de uma coisa: sei para onde vou e como vou lá chegar. É assim que tenho feito nos últimos 25 anos. E sei, também, que o trabalho feito no castelo de Moura é o mais adequado. Conforme se verá mais tarde.

5. Os materiais arqueológicos não são primordialmente para teses universitárias? É (quase) verdade, mas se forem utilizados nesse âmbito tanto melhor. Há um conjunto de dissertações sobre o concelho de Moura, que são uma importante valorização do seu património, até pelo facto de duas delas estarem publicadas. E há, também, obras de divulgação sobre o património de Moura.

6. Não sei se a visita do Dr. Fragoso de Lima o/a motivou a trabalhar nesta área. Ou a interessar-se por ela, ainda que do ponto de vista não profissional. A si ou a qualquer outro colega dos tempos da EICM. Oxalá que sim, até porque, de facto, a componente pedagógica é fundamental.

7. Há um facto intrigante na minha carreira, deixe-me que lhe confesse: tenho sido solicitado para me deslocar a imensos sítios, em quatro continentes, no âmbito da minha atividade profissional. Isso abrange tanto instituições universitárias como escolas básicas. O que me tem proporcionado experiências muito interessantes, esperando eu que essas colaborações tenham sido úteis para quem me convidou. Sabe onde, e apesar da minha total disponbilidade, nunca me pediram qualquer tipo de colaboração (falo genericamente e não apenas na componente de visita às escavações)? Nas escolas secundárias de Mértola e de Moura.

Moura nos inícios do século XVI (desenho de Duarte Darmas)

9 comentários:

Anónimo disse...

O Santiago, tão bem como eu, devia aber que em Moura, (mais ainda do que em qualquer outro sítio que eu conheça) "santos da casa não fazem milagres"... Só fazem, quero dizer, só se dá valor a alguém daqui se:
a)Já tiver morrido ou, na melhor das hipóteses, for muito velhinho...
b) Se estiver lá longe, quanto mais longe melhor... No mínimo, vá lá, em Lisboa - e é preciso que não apareça muito por cá.
Olha o Santiago, que ingénuo...

Anónimo disse...

(…)
O mal que se vê é aguilhão para o bem que se deseja; e quanto mais duro, quanto mais agressivo, se bate em peito de aço, tanto mais valioso auxiliar num caminho de progresso; o querer se apura, a visão do futuro nos surge mais intensa a cada golpe novo.
(…)
A grandeza da obra é quase sempre devida à dificuldade que se encontra nos meios a empregar, à indiferença que cerra os ouvidos do povo, e aos mil braços que logo se levantam para deter o arquitecto. Se cai em batalha, pobre dele, podemos lamentá-lo; não o chamara o Senhor para as grandes empresas; mas se pelo menos a voz se lhe erguer clara, firme, heróica no meio do turbilhão, não foram inúteis as dores e os esforços: algum dia um novo mundo se erguerá das brumas e o terá como profeta.
Quem ia a perturbar ficará perturbado, quem ia a matar ficará morto. Não é com os mesquinhos artifícios, nem com o desprezo, nem com a mentira, nem pelo cansaço, nem pela opressão, nem pela miséria que se vencem os que pensaram num futuro e, amorosamente, com cuidados de artista, continuamente, com firmeza de atleta, o vão erguendo pedra a pedra…
(…)
Citador

Anónimo disse...

"Os 10 da Adega da Mantana"
Pois é Dr.Santiago.!Há-de convir que afinal sempre nos assistia alguma razão.O produto final do trabalho de pesquisa arqueológica parece estar mais destinado aos congressos e teses na universidade.Depois não se queixe de ter apenas 10 pessoas a assistir nas apresentações dos resultados das campanhas.
A juventude não é motivada para estes temas.
Trata-se de um defeito profissional dos arqueológos ciosos das suas descobertas?Ou nesta matéria imperam puros interesses corporativos?Sejamos claros!Estamos perante valiosos bens públicos cuja gestão não poderá estar dependente de interesses menos claros ou com um forte pendor pessoal e em circuito fechado.Estamos em crer que a divulgação periódica dos resultados das pesquisas arqueológicas acompanhadas de uma interpretação provisória serviria melhor os interesses de toda a comunidade.No futuro, os "10 da Adega da Mantana",podem ser muitos mais.Por último, sempre se dirá que a componente turística que as novas descobertas geram, desde que devidamente publicitadas, é um património a não desperdiçar.A autarquia ao entregar o "ouro das descobertas arqueológicas" terá de pugnar por um legítimo retorno.Aqui, e perante a origem dos bens públicos, o património histórico da cidade,os eventuais "direitos de autor" podem e devem ceder para um justo equilíbrio.

Santiago Macias disse...

Brevemente:

Anónimo das 13.10 - não foi ingenuidade, nem pretensão de ironia, apenas uma constatação. Desapaixoanda.

Anónimo das 22.15 - Agostinho da Silva? (não conhecia as citações, claro, fui verificar ao "citador"...). Não me ocorreria. Mas é interessante.

Anónimo das 23.03 - Nada a dizer. Estamos em "comprimentos de onda" diferentes. Do ponto de vista profissional continuarei a fazer o que tenho feito e como tenho feito. Sempre atento a comentários.

Anónimo disse...

Santiago Macias disse:

"Não duvide de uma coisa: sei para onde vou e como vou lá chegar."

Quando um politico como o Santiago usa uma frase assim, é melhor saber a proveniencia: esta do sabemos quem somos e para onde vamos é do SALAZAR.

também disse:

"É assim que tenho feito nos últimos 25 anos."

Saiba que fazer-se uma coisa da mesma maneira durante 25 anos é sinal que não se evoluiu. Olhe, o político que se calhar sem querer imitou na sua expressão anterior, o Salazar, fez a "mesmas coisas" durante mais tempo ainda.

Também disse, em menos de tres linhas, "sei, sei" e "o tempo me dará razao". Isto de SABER que só o que nós fazemos é que está certo, também imita outro politico: mas desta vez é o Cavaco Silva. Esse tambem sabia tudo e raramente tinha duvidas.

O Santiago anda a copiar uns modelos lindos, e o mais grave é que nem dá por isso. Também não admira, afinal o Santiago é um politico como eles tambem eram e issso nos politicos, queira-se ou não se queira, acaba sempre por vir ao de cima.

Santiago Macias disse...

Falava/falo do ponto de vista profissional, bem entendido. Apenas e só. De política falaremos noutra altura.

Ai de mim se não soubesse o que ando a fazer no castelo de Moura e noutros projetos profissionais. E de como concretizar objetivos.

Portugalredecouvertes disse...

Boa noite!
visitei o seu blog e achei interessante esse trabalho de arqueologia
é um assunto que me apaixona, assim coloco um link do seu blog junto a outros que acompanho

melhores cumprimentos
Angela

Anónimo disse...

Dr. Santiago a confusão continua.Projectos profissionais a envolver o castelo de Moura?Seria melhor dizer projectos institucionais dada a natureza pública dos bens em causa.Enfim,quer-me parecer que nestas coisas da arqueologia e com todo o respeito pelo árduo e perseverante trabalho dos arqueólogos, se misturam, com frequência, puros interesses pessoais com interesses de natureza pública.Esperemos que em relação ao castelo e Moura tal não venha a suceder.Porém, o silêncio sobre as explorações em curso e os seus resultados provisórios poderá indiciar algo no sentido atrás referido.Volto a insistir na possibilidade de o portal da autarquia explanar, ainda que com explicações provisórias,o decurso dos trabalhos de arqueologia ali em curso.Só que tenho de reconhecer que quem pode manda.

Santiago Macias disse...

Ha ai, de facto, muita, muita confusao...

No dia 15 faremos anuncio de resultados. Atempadamente comunicaremos o local. Fica o convite, para tirar essas duvidas.

Se me enviar o seu mail e identificacao, poderei ate personalizar o convite.

(o teclado esta com uma avaria, dai o "estilo" de escrita...)