sábado, 30 de junho de 2012

DE ELVAS A TOMBUCTU


Mais para sul, já não há muros brancos do catálogo típico das ruas do mar do meio. São cidades onde não chegaram os ecos do mundo antigo e não há arqueologia para ver, nem monumentos de um passado remoto para visitar. Entre as águas do Níger e a terra de tom pardacento ficam os ecos do Mediterrâneo, que um dia chegaram até Gao e até Tombuctu. Por lá ficaram presos aos muros das mesquitas e à placidez dos que não cuidam do passado porque também lhes foge o futuro.
.
As maravilhas de Tombuctu pereceram por entre o peso da decadência, e as cúpulas douradas de que falavam os viajantes parecem um delírio saído das raízes do sonho. Os relatos dos aventureiros são a nossa máquina do tempo.
(excerto do livrinho intitulado Mar do meio, editado pela Câmara de Mértola, em 2009)

Hoje, as excecionais fortificações de Elvas passaram a integrar a lista de Património da Humanidade. Uma decisão que se saúda. Hoje, a cidade de Tombuctu é ameaçada pela barbárie da al-Qaeda.  O raciocínio dos radicais é linear e básico: se é isto que o Ocidente gosta e classifica é isto que nós rejeitamos. Já o tinham feito com os budas de Bamiyan. A tragédia repete-se agora com os mausoléus da cidade do ouro.


Desenho de René Caillié, o primeiro europeu a regressar vivo de Tombuctu, em 1828

PATRÍCIA MAMONA

Patrícia Mamona

Do site do Partido Nacional Renovador:
Somos europeus e partilhamos com os demais povos da Europa os mesmos laços de sangue, de cultura, de civilização e a mesma matriz. (...)
A desvalorização total daquilo que é nosso e nos identifica, face ao que vem de fora e nos descaracteriza, é vergonhosa. (...) Com sinal contrário a esta ordem estabelecida, defendemos vigorosamente a preservação e valorização da nossa unidade étnico-cultural.

Faz sentido citar o site de um partido neo-fascista e racista no momento em que uma compatriota se distingue nos campeonatos europeus? A meu ver faz. Não tanto porque a medalha de Patrícia Mamona vem no seguimento de feitos desportivos de outros portugueses com origens fora da Europa (Naide Gomes, Francis Obikwelu, Nuno Delgado, Nelson Évora, Carla Sacramento etc.). Mas sobretudo porque me parece  importante sublinhar, a cada momento, o caráter plural da nossa sociedade. É um tópico que ainda não está na ordem do dia, mas virá a estar, no futuro. E as "boas almas" que não se fiem nos nossos brandos costumes. É um mito, que vai a par do da nossa tolerância.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

O OVO DE COLOMBO

Arte no Centro Comercial Colombo, numa iniciativa promovida pelo Museu Nacional de Arte Antiga. E não é uma arte qualquer, mas sim algumas das peças mais significativas do Portugal Medieval. Conheço bem duas delas, que selecionámos para a exposição "Portugal Islâmico: últimos sinais do Mediterrâneo" (Museu Nacional de Arqueologia - 1998).

Pode considerar-se discutível a ideia de levar peças desta dimensão para um centro comercial. O que não se pode questionar é o número de pessoas que nunca tinham tido contacto com elas e que as viram pela primeira vez. Tenho a certeza que uma parte desses visitantes ocasionais vai, mais dia menos dia, passar pelas Janelas Verdes.

Já lá vai o tempo em que isto dos museus era um mundo fechado, apenas disponível para a aristocracia europeia.

A Arte está no Colombro até 1 de julho.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

NATUREZA MORTA Nº 10

Encerra-se esta série de naturezas mortas com um bodegón de Juan van der Hamen y Gómez de León (1596-1631).

As razões da escolha são puramente arqueológicas e este post vai direitinho para os meus colegas da escavação de Moura. Há, no quadro, uma peça que é uma fotocópia de uma que encontrámos na alcáçova (campanha de 2004, salvo erro).

Juan van der Hamen y Gómez de León foi um reputado pintor de naturezas mortas, tendo trabalhado junto da corte filipina. Ou de Habsburgo, como preferirem.



CERÂMICA

Os cacos da vida, colados, formam uma estranha xícara.
Sem uso,
ela nos espia do aparador.

Poema de 1967. Autor: Carlos Drummond de Andrade. Terá havido tema sobre o qual Drummond de Andrade não tenha escrito? Haverá tema sobre o qual não tenha escrito bem?

quarta-feira, 27 de junho de 2012

VITÓRIA

Gostava que a vitória tivesse sido, também, a outra.

Mas esta vitória é a de Santo Amador, no concelho de Moura. A Escola Primária já não fecha. Os miúdos podem continuar na sua aldeia. Uma vitória da Junta de Freguesia, da Câmara de Moura mas, sobretudo, dos santo-amadorenses. E do bom senso.

VLADIMIR HERZOG

Momento de evocar o combatente da liberdade Vladimir Herzog, que faria hoje 75 anos. Nasceu em Osijek, na atual Croácia, mas foi no Brasil que sempre viveu. Militante do Partido Comunista Brasileiro foi assassinado pelos militares durante um interrogatório, tendo sido depois encenado um suicídio.

Vladimir Herzog é o nome dado a um prémio jornalístico de amnistia e direitos humanos. Ver mais em http://www.vladimirherzog.org/

TRIP MUSEOGRÁFICA

Recordei, há semanas, o estilo um pouco Haight-Ashbury das casas de subúrbio nos anos 70. Ao visitar, há semanas, um conhecido museu dei com esta paleta nas paredes: escarlate, azul ferrete e verde água. Uma verdadeira trip.

terça-feira, 26 de junho de 2012

1 %

Fim de tarde no Largo Gen. Humberto Delgado, em Moura. Ação de apoio ao manifesto em defesa da cultura, do qual sou um dos subscritores. Intervieram Jorge Feliciano (encenador e autor), Joaquim Simões (professor de música), Pedro Penilo (artista plástico), José Valente (arqueólogo) e o autor do blogue. A apresentação coube a Vítor Alegria. Diversidade de perspetivas na convergência de preocupações em torno do financiamento das atividades culturais.

O público? Entre 25 e 30 pessoas, francamente bom para um final de tarde de calor forte.

ANTONIN PANENKA

A imagem é quase banal. Guarda-redes para um lado, bola para outro. Nesta, em concreto, o grande Sepp Maier já está sentada no chão e a bola vai entrar. Pretexto para evocar Panenka, agora que tanto se fala dele, depois de Pirlo ter feito o que fez.

Parece tudo normal, mas este momento pertence à História do Futebol.  Foi perto das 23 horas do dia 20 de junho de 1976. Checoslováquia e RFA tinham empatado na final do Campeonato da Europa. O prolongamento não deu nada e já se ía na segunda série de grandes penalidades. Se Antonin Panenka, médio do Bohemians de Praga, marcasse a Checoslováquia seria campeã europeia.

E a verdade é que Panenka fez tudo menos o que se esperaria. Arrancou para a bola e quando se pensava que ía chutar forte deu um toque leve no esférico, fazendo-o descrever uma parábola e entrar no centro da baliza, devagarinho. Uma verdadeira insolência (v. o filme aqui).

Panenka deu o nome a este toque habilidoso e de desplante, tal como Dick Fosbury o deu ao salto. Mas um panenka tem mais mérito e implica risco e coragem. E um pouco de poesia, também. Um panenka é algo que está quase à altura de uma chicuelina ou de uma manoletina.


GOL
Ferreira Gullar

A esfera desce
do espaço
veloz
ele a apara
no peito
e a para
no ar
depois
como o joelho
a dispõe à meia altura
onde
iluminada
a esfera
espera
o chute que
num relâmpago
a dispara
na direção
do nosso
coração.

O golo de Ferreira Gullar não é, pela descrição, um panenka. É um bonito gol, em todo o caso. A verdade é que, que eu saiba, só os poetas brasileiros têm a desinibição de poetar sobre futebol. Na Europa isso não se faz. Parece mal.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

O TEMPO NÃO VOLTA PARA TRÁS

Post mourense.

 

Foi aberto ao público o núcleo de armaria da torre de menagem do castelo de Moura. Concluiu-se um processo com 24 anos. Passou também a poder visitar-se a alcáçova do castelo, até ontem vedada ao público.
  
Alcáçova do castelo de Moura - 1993

Alcáçova do castelo de Moura -2012

Claro que uma ocasião destas deu origem a faits-divers. Tinha de dar, fatalmente. O mais significativo ocorreu durante a breve intervenção que fiz. Recordei a história do projeto e afirmei que um processo destes não iria parar nem voltaria para trás. Nem na parte de investigação ligada à arqueologia diz respeito nem no que se refere à reabilitação patrimonial. Isso bastou para que alguém soltasse a seguinte bojarda, ouvida por pessoa amiga, que ma relatou: "vamos ver se ele daqui a um ano e meio não volta para trás".

Há, como se pode ver, atitudes da mais crassa e absoluta estupidez. Mas não deixa de ser curioso que a 16 meses das eleições autárquicas já se preparem limpezas e se engendrem perseguições. Mesmo sem saberem quais os resultados eleitorais. Por isso, aqui ficam, desde já, três afirmações que são, também, desafios:

1. O tempo não volta para trás, por muito que se queira;

2. Se a pessoa em causa se referia ao projeto de reabilitação patrimonial do castelo considero de uma invulgar burrice o desejo ou a intenção de o fazer voltar para trás. Fica por perceber como. E, sobretudo, porquê. Repare-se nas fotografias...

3. Se a referência me era dirigida (eventualidade mais provável) é melhor que se desengane(m). Não abandonarei a direção do projeto de investigação arqueológica do castelo de Moura. É melhor não irem por aí...

MOÇÃO DE CENSURA

É hoje discutida e votada a moção de censura apresentada pelo PCP. O PS vai pela abstenção. Deve ser daquelas violentas, assim tipo-cara-de-mau. Porque neste momento, diz o PS, não precisamos de uma crise política. Perdão? Importam-se de repetir?

Entretanto, algures noutro sítio, o Presidente da República anda a especializar-se em apupos. Isto anda tudo ligado. Ou não?

Não sou deputado. Mas farei um ola pela moção de censura.

Jerónimo de Sousa (secretário-geral do PCP). Na fotografia vemos ainda
João Dias Coelho e José Maria Pós-de-Mina

domingo, 24 de junho de 2012

O PARQUE

Ainda o solstício, numa versão desencantada, a de Botho Strauss (n. 1944). A peça estreou em janeiro de 1985 e fomos, entusiasticamente, aconselhados a ir vê-la pelo nosso professor de Arte Contemporânea. O parque baseava-se em Shakespeare, mas aquela noite de verão "transforma a 'louca jornada' de Titânia e Oberon, deuses doutro tempo e da peça de Shakespeare, num crudelíssimo retrato do nosso tempo" (Luís Miguel Cintra). Eunice Muñoz e Gilberto Gonçalves deram corpo ao par. Uma noite sem esperança e marcada pela amargura e pelo desencanto. Botho Strauss falava do mundo contemporâneo e previa o futuro...

Foi, talvez, a mais extraodinária peça teatral a que assisti. E de que me lembro agora, nesta noite de S. João.


Sobre o Teatro da Cornucópia: http://www.teatro-cornucopia.pt/htmls/home.shtml

OUTRO MIDSUMMER

O amor a norte, por alturas do solstício de verão. Lembro-me de ter visto este Sorrisos de uma noite de verão há muitos anos (1982? 1983?), num ciclo de cinema na Faculdade de Letras de Lisboa. Na altura ainda não gostava muito de Bergman, mas achei que no filme havia poucos motivos para verdadeiros sorrisos. E, também, que os personagens tinham algo semelhante a um relógio no lugar do coração.

Moral, ludíbrio e atração neste curto excerto da escolha da semana. Que vem de encontro aos dias de solstício que vivemos.

sábado, 23 de junho de 2012

PAUL ALMASY


Ao visitar, há dias, o Museum für Moderne Kunst dei-me conta que parte substancial do espaço era ocupado com exposições de fotografia. Nada de mais, nada de mal. Não pude deixar de ficar meio preocupado quando reparei que o autor que mais me entusiasmou foi Paul Almasy (1906-2003), um fotógrafo de "outros tempos".

Sobre o MMK: http://www.mmk-frankfurt.de/en/home/

sexta-feira, 22 de junho de 2012

TORRE DE MENAGEM DO CASTELO DE MOURA: 24.6.2012 (18 horas)


É no próximo domingo. Dia de S. João e feriado municipal em Moura. Do ponto de vista pessoal, representa a conclusão de um processo com 24 anos (vinte e quatro, leram bem). Teve início em 1988, era eu um jovem chefe de divisão da Câmara Municipal de Moura, funções que acumulava com as responsável pelo Museu Municipal. Estavam, por essa altura, em fase de lançamento vários projetos nesta área. Para além da abertura ao público da exposição Moura na época romana (cujo catálogo contou com a participação de nomes de primeira linha da arqueologia portuguesa: Jorge Alarcão, José d'Encarnação, Maria da Conceição Lopes e Teresa Gamito), estava na calha a musealização da torre de menagem. Que ía a par do retomar das escavações arqueológicas e daquilo que deveria ser a reabilitação do castelo de Moura.

A história recente da torre de menagem dava um romance. 

O projeto avança em finais de 1988 com a participação de Mariano Piçarra, que então começava o que viria a ser uma carreira de grande nível (é hoje o designer responsável pelas principais exposições da Fundação Calouste Gulbenkian). O estudo prévio foi concluído em 1989. As eleições autárquicas desse ano determinaram uma mudança na força política que estava à frente da Câmara Municipal. A entrada em funções de uma vereação para quem o Património Cultural era uma chatice e um embaraço levou a uma imediata paragem deste processo. A minha iniciativa foi desqualificada e o trabalho do Mariano sumariamente ridicularizado por dois ou três técnicos do IPPAR.

Capítulos seguintes:

1. O mesmo projeto foi aprovado depois de assinado por um arquiteto, mas logo a seguir metido na gaveta;
2. Com o José Maria Pós-de-Mina como presidente retoma-se o "dossiê castelo": primeiro a zona envolvente do convento, depois o resto;
3. Em 2004, e na presença do Presidente Jorge Sampaio, o castelo é reaberto ao público;
4. No mandato seguinte, avançaram os projetos ainda em falta, entre os quais o de musealização da torre de menagem;
5. A necessidade de articular financiamentos e intervenções levou-nos a escolher esta altura para a conclusão do processo;
6. A partir de agora, novas frentes de trabalho têm continuidade: conclusão do edifício de receção ao turista; iluminação das muralhas; continuação dos trabalhos arqueológicos;
7. Aqueles que durante muitos anos diziam "este castelo é uma vergonha, só em Moura blablabla" são os mesmos que hoje dizem "só em Moura é que se gasta dinheiro em pedras blablabla". Estou, como é natural, sempre atento a (todos os) comentários. Mas nem todos têm resposta. E le mot de Cambronne é tentador, mas pouco aconselhável.

Tenho, desde 2005, responsabilidades executivas na Câmara Municipal. Tenho a firme convicção do caminho que tem vindo a ser percorrido. Neste e noutros domínios. Mas este, o da reabilitação, dá-me especial prazer. Teria vergonha em sair, um dia, da minha autarquia sem ter tocado em dossiês como:

Castelo, nas suas múltiplas e complexas componentes;
Quartéis;
Matadouro;
Igreja de S. Francisco;
Pátio dos Rolins;
Mouraria;
Museu Gordilho;

E noutros, que só A questão financeira não permite que avancem. Havia alternativas? Então que as apresentem sff, para podermos debatê-las. É que em sete anos que levo disto nunca tive uma proposta alternativa concreta. Uma só, para amostra.

A torre de menagem? É no próximo domingo. Dia de S. João e feriado municipal em Moura.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

UM MUSEU EM ALCARIA DOS JAVAZES


É uma história com mais de dez anos. Não vale a pena entrar em detalhes. Vamos ao essencial.

O Museu de Alcaria dos Javazes, no concelho de Mértola, foi construído a partir de uma coleção de peças, reunida ao longo de muitos anos por Orlando José, um mertolense que esteve radicado no norte do País e que um dia regressou às origens.

Um primeiro guião foi construído em 2004. O processo foi avançando e ganhando forma. Ao velho edifício juntou-se um novo. Às peças que existiam acrescentaram-se outras. Quase tinha esquecido este dossiê quando fui contactado, no ano passado, pela Câmara de Mértola, para saber se estava disponível para colaborar na conclusão do museu (v. aqui).

Ora bem, o Museu de Alcaria dos Javazes é inaugurado hoje, às 18 horas. Lá estaremos.


Ficha técnica

Propriedade - Câmara Municipal de Mértola

Coordenação geral - Divisão de Cultura, Desporto e Turismo
 
Coordenação técnica – Manuel Passinhas da Palma e Santiago Macias
Textos e seleção de materiais – Santiago Macias
Museografia -  Manuel Passinhas da Palma
Arquitetura - Sílvia Alexandre
Design de equipamento – Oficina de Museus
Design gráfico – Jorge Branco
Restauro - Orlando José
Fotografias – Jorge Branco e Orlando José
Apoio técnico - Lígia Rafael
Colaboração - Museu de Mértola
Secretariado - Eugénia Monteiro

O Museu de Alcaria dos Javazes resulta de um protocolo estabelecido entre a Câmara Municipal de Mértola e Orlando José, que cedeu à autarquia as peças expostas, bem como as que se encontram em reserva. 

O Museu de Alcaria dos Javazes agradece a todos os que colaboraram para o enriquecimento do núcleo através da cedência de peças.

 

 A equipa de montagem, fotografada esta manhã. Só falta o Orlando, que estava noutro sítio de Alcaria. Quem tem, diga-se, um rush-hour terrível...

Um museu em Alcaria dos Javazes
Os antigos acreditavam que tudo o que existia se construía a partir de quatro elementos: a água, o fogo, o ar e a terra. Olhando em volta da aldeia e para dentro desta área de exposição, temos esses elementos bem presentes. O ar que nos rodeia, a terra de que se fizeram as casas, a água e o fogo que nos alimentam. Foi, pois, a partir de quatro elementos que se fez o que nos rodeia. Foi também a partir deles que se começou a dar forma ao museu.
O museu da Alcaria dos Javazes é uma coleção de pequenas histórias, é uma soma de objetos que fizeram o quotidiano de muitas pessoas. Numa casa da aldeia, onde dantes morou gente, há agora peças, de diversas proveniências e que são fragmentos de vidas que desconhecemos. São memórias de tempos idos, marcados pela simplicidade e construídas num tempo em que as horas não eram tão contadas como hoje.
  À habitação antiga junta-se um novo espaço de exposição. Do xisto ao betão, das formas da arquitetura vernacular às linhas modernas há um percurso de séculos. A pequena casa, com pátio, poço e forno, ganha agora uma outra existência.

MIGUEL RELVAS FUMOU MAS NÃO INALOU

Da deliberação da ERC:

c) Do ponto de vista regulatório e do ponto de vista da legalidade, não se deu por provada a existência de pressões ilícitas da parte do ministro em relação ao Público e à jornalista Maria José Oliveira;
d) Sem prejuízo, reconhece-se que a atuação do ministro nos telefonemas trocados com os responsáveis editoriais, usando de um tom exaltado e ameaçando deixar de falar pessoalmente com o Público, poderá ser objeto de um juízo negativo no plano ético e institucional, o que aqui se assinala, ainda que não caiba à ERC pronunciar-se sobre tal juízo.

Ou seja, e se estou a ler bem, há juízos negativos, do ponto de vista ético e institucional, mas não houve pressões ilícitas. Então se não houve pressões ilícitas, o que é que há de eticamente reprovável?

Expliquem-me lá uma coisa: esta palhaçada da ERC quanto custa ao erário público? E serve exatamente para quê?

 

quarta-feira, 20 de junho de 2012

AGORA, QUANDO FENECE A PRIMAVERA...

Está na altura de chamar os teóricos do pensamento rápido. E os politólogos. Está na altura de perceber o que se passa. Por onde anda a Primavera? Não a que hoje termina, mas a outra. A Primavera Árabe. Agora que o Ocidente controla, ou julga controlar, o que antes lhe escapava, está na altura de reler a margem sul do Mediterrâneo.

Em Marrocos os islamistas ficaram à frente no voto popular; na Argélia há uma mal disfarçada tensão e depois de Bouteflika ninguém sabe como será; na Tunísia as eleições foram ganhas pelos islamistas; na Líbia mataram o ogre e ninguém sabe quem manda em quê; no Egito, o ogre está em coma, houve eleições mas se calhar não houve e os islamistas avançam; na Síria, e no meio de um embuste informativo generalizado, o Ocidente acha que o país está a ser libertado, com os islamistas em pano de fundo.

Ainda não percebi o significado desta Primavera. No meio de entusiásticos fora, de tanto debate e de tantas declarações de amor ao Mediterrâneo há detalhes que ainda não mereceram grande atenção aos analistas e aos politólogos. E que eu gostava de entender. Que medidas concretas foram tomadas para o combate à pobreza? O que se passa com a juventude desses países? Como estão os direitos das mulheres? O que é feito das minorias cristãs? O que vai ser da minoria cristã na Síria, já agora? Que desenvolvimentos teve o dossiê palestiniano, o mais sensível e mais doloroso de todos os assuntos? Haverá primaveras sem pão? Ou teremos de esperar umas décadas para a desclassificação de documentos nos explicar como se fomentaram estas primaveras?

 

LANCES DE CAPOTE - 4: REVOLERA


Lance muito vistoso, por norma utilizado como remate. O toureiro passa o capote de uma mão para a outra em redor do seu corpo, fazendo o capote girar em torno do seu corpo, no sentido da investida. Bailado puro, na verdade. Como podemos constatar pelo gesto de José Maria Manzanares.

terça-feira, 19 de junho de 2012

ENDLÖSUNG

O retomar das escavações arqueológicas em Moura não permitiu que me associasse, ontem, aos meus camaradas, no protesto que foi organizado em Mértola para reclamar contra o programado encerramento do tribunal da comarca.

Mas que raio de País é este?

Extinção de escolas.
Extinção de freguesias.
Extinção de correios.
Extinção de carreiras de autocarros.
Extinção de postos da GNR.
Extinção de repartições de finanças.
Extinção de tribunais.
Extinção de postos de saúde.
Extinção de serviços do Estado.
Extinção de postos de trabalho.

O melhor mesmo seria uma Solução Final. Assim acabaríamos com o deficit e com a despesa. Os mercados iriam gostar.
 
 

DE HARAM A HALAL

A delegação vinha de um país da África Ocidental. São muçulmanos, avisara-me o diretor. Havia um convite para almoçarem connosco. Tratei de ligar para o restaurante, para evitar gaffes. Não havia problema, tinham muitas alternativas no menu que não passavam pela carne de porco.

O diretor tinha um compromisso, pelo que me coube acompanhar a delegação. No caminho, um deles recordou-me o facto de serem muçulmanos, pelo que não poderiam comer carne de porco. Respondi que não haveria problema, já estava tudo previsto. Mal nos tínhamos sentado quando chegou o proprietário perguntando o que iríamos beber. "Vou beber vinho tinto [afinal eles é que eram muçulmanos, não eu]; para os senhores o que vai ser?", perguntei eu. Vinho tinto também, foi a resposta do mais graduado, para logo a seguir acrescentar "e um prato de presunto da região, para acompanhar, pode ser?". Claro que podia. O dono do restaurante perguntava-me, atarantado e chamando-me à parte, "tem a certeza que são muçulmanos?". Claro que tinha, mas ele ficou sempre a desconfiar que tudo aquilo era uma partida que eu lhe estava a pregar...


segunda-feira, 18 de junho de 2012

O JIMMY HAGAN DE MÉRTOLA

Não há nada como ver um jogo de futebol com quem não percebe nada de bola. Nada, mesmo nada. Aconteceu-me ontem, durante o Portugal-Holanda. Vi o jogo na companhia de uma amiga, que passou o tempo fazendo verdadeiros poemas surrealistas. Um dos melhores momentos ocorreu com a entrada em campo de Nelson Oliveira. Afirmou a minha amiga, assertiva: "só pode sair o Bruno Alves, que não está a jogar nada". Fazer sair um defesa para entrar um avançado quando se está a ganhar e é preciso segurar o resultado só mesmo se o treinador fosse Jimmy Hagan. Que era dado a múltiplas excentricidades.

Mais divertido, só o par de jarras da TVI, encarregue dos "comentários" ao jogo.

CASTELO DE MOURA: TORRE DE MENAGEM

O foral manuelino de Moura faz hoje 500 anos. O documento, outorgado pelo monarca no dia 1 de junho de 1512, é um extenso rol de normas, que constituiam a base de funcionamento do Município. O dia 1 de junho será, pois, o ponto de arranque para um conjunto de celebrações que têm este documento como tópico. Será também o retomar de iniciativas na área do Património Cultural. 
Ganha agora novo fôlego o programa de recuperação do castelo de Moura. É um projeto importante para Moura? Não é importante, é decisivo. É bom que algumas criaturas, dadas à opinião avulsa, entendam duas ou três coisas fundamentais: 
Quem não sabe cuidar do passado não sabe respeitar a memórias do seus antepassados e não sabe preparar o futuro; 
Quem não proteger os monumentos e os reabilitar vai ter, no futuro, custos acrescidos de reparação e de manutenção; 
Quem, tendo responsabilidades autárquicas, descurar a reabilitação dos principais edifícios do concelho, não conseguirá criar condições para o desenvolvimento económico e cultural das terras que têm obrigação de gerir.
Ora bem, o castelo de Moura encaixa aqui na perfeição. Recordo que, até abril de 2004, o sítio esteve fechado ao público. Nessa altura, e durante uma visita do Presidente Jorge Sampaio, o castelo foi reaberto. Era melhor ter-se feito a intervenção de uma vez só? Sem dúvida. Mas em municípios com poucos recursos e com muitas frentes de trabalho tal é impossível. Isso levou-nos a avançar por etapas: primeiro, o arranjo global do sítio; depois, a consolidação estrutural do convento; mais tarde, as obras de recuperação da torre do relógio, a musealização da torre de menagem e a abertura deste espaço ao público, o que ocorrerá durante o corrente mês. 
 Está terminado este processo? Não está, ainda não está. A partir de junho e até ao outono decorre a conclusão do edifício de receção ao turista e termina-se a obra de iluminação das muralhas. 
São percursos lentos, acompanhados por um projeto de escavações arqueológicas que segue, quase ao longe, o ritmo das obras. Troços da história da nossa cidade vêem, assim, a luz do dia. Casas islâmicas, canalizações quatrocentistas, casas quinhentistas, quartéis da Restauração, horas e dias de tempos idos são redescobertos, dando seguimento a um percurso que iniciei no já distante mês de junho de 1989. À medida que os anos passam as perspetivas tornam-se mais claras e as hipóteses outrora esboçadas são, de vez, confirmadas ou rejeitadas. A chegada da Vanessa, desde 2003, e do José Gonçalo, desde 2010, trouxe juventude ao projeto de investigação. Com a Marta, a Luísa e o Romero a equipa ganhou estabilidade. E mais segurança. E por mais irascível e perfecionista que me cataloguem (private joke para um membro da equipa) não alterarei um milímetro ao percurso.
E agora? Que se segue? Como será o futuro deste nosso monumento? Aqui está uma pergunta cuja resposta não pertence, em exclusivo, a quem quer que seja. O futuro do castelo de Moura será uma construção coletiva de arqueólogos, historiadores, arquitetos, fotógrafos, designers… Pertencerá, sobretudo, aos mourenses. A todos os mourenses. Com a óbvia exceção dos especialistas em opiniões avulsas.


 
 Texto publicado em A Planície de dia 1.6.2012

domingo, 17 de junho de 2012

ELEUTHERIA

Não sei se chegaram a votar, porque havia dúvidas quanto ao horário de chegada do avião, mas as opções eram claras: o voto do Kostas seria no Syriza, o da Eleutheria no Dimar. Um pequeno partido, "tal como o Pasok", disse-me, viperina. Falámos muito sobre política, durante a semana. A resignada preocupação era mais que evidente.

Afinal, aconteceu o que não se previa, à partida. O eleitorado votou "útil" e nos da frente. Sobem os dois partidos mais votados na 1ª volta, descem todos os outros. Respiram os beatíficos "mercados". A crise continua amanhã.

 

NATUREZA MORTA Nº 9

Penúltimo quadro desta série. Com uma citação a um género artístico que se designa como vanitas e que se encontra na Flandres e nos Países Baixos, nos inícios da Era Moderna. Neste caso, com uma obra de Pieter Claesz (c. 1597-1660). Por causa de uma obra de Peter Willbeeck, que vi há dias, de que gostei muito e da qual não encontro traços na net. E por causa da inútil vaidade.


O orgulho é a consciência (certa ou errada) do nosso próprio mérito, a vaidade, a consciência (certa ou errada) da evidência do nosso próprio mérito para os outros. (Fernando Pessoa)

sábado, 16 de junho de 2012

FRANKFURT - À NOITE

São uns dois quilómetros e meio, talvez um pouco mais, de Palmengartenstrasse até Kleyerstrasse. Decidi que regressaria a pé, depois do jantar no Instituto Arqueológico Alemão. O percurso foi totalmente solitário e silencioso. Ninguém nas ruas, nenhum carro a circular. Uma quietude feita do som  dos meus passos, apenas quebrada no cruzamento das avenidas principais. Uma sensação estranha, mas várias vezes repetida nas raras passagens por latitudes setentrionais.

O meu mundo é outro. Senti-o hoje de manhã claramente, ao levar com um dilúvio de luz, na estação de Casa Branca.

  
Fotografia: Guy Jean Genevier

SALDOS NA CAPITAL DO IMPÉRIO

Deve ser moderno. E inovador. E desinibido. E fraturante e tal. Mas, por mais que tente, não consigo deixar de achar uma desgraça total as iniciativas comerciais do Dr. José Sá Fernandes, antigo compagnon de route do Bloco de Esquerda e hoje rendido a um lugar de vereador na capital. Primeiro foi aquela cena da Skoda, depois o arrendamento temporário de praças da capital a bazaristas.

Vale tudo.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

FRANKFURT - DE MANHÃ

O convite partiu do Instituto Arqueológico Alemão. Tratava-se de apresentar o projeto de Mértola nas suas implicações científicas e sociais. Contar 34 anos de histórias em 15 minutos não é tarefa simples, pelo que optei mais pelo enfoque político e muito menos na perspetiva académica. Com a óbvia exceção do passo importante que foi  o acordo com o Centro de Estudos Arqueológicos das Universidades de Coimbra e do Porto.

Resultou em pleno e houve bastantes perguntas. Não é difícil que resulte, sobretudo pelo "insólito" do projeto. Investigação, musealização e valorização patrimonial a partir de uma vila de 1400 habitantes? Onde antes disto ter início havia imensas carências culturais (falemos só dessas) e jamais se perspetivaria que um museu pudesse abrir. E muito menos que o nome de Mértola pudesse ser conhecido por essa via. Há muitos anos, em Itália, um professor de Roma perguntou-me se eu dava aulas na Universidade de Mértola. Tive de me conter para não responder "sim, numa delas".

Valeu a pena ter vindo aqui. Porque agora já sabem onde fica Mértola. E pelas conversas sobre política com os  colegas gregos e por se terem retomado os laços com o célebre projeto de St. Denis, que tão importante foi para nós, no início dos anos 80. A suivre...



ELOGIO FÚNEBRE

Pode um funeral converter-se num momento de music-hall? Pode. Nas mãos de um ator de génio (Alberto Sordi) e de um realizador que, em matéria de talento, não lhe fica atrás (Ettore Scola).

E outra pergunta. Poderia um argumentista alemão ter imaginado uma cena destas? Não. Nem por sombras. São, também, estas coisas que separam o norte do sul. Ainda bem que separam.

Os novos monstros (1977), de Ettore Scola, Dino Risi e Mario Monicelli é a minha escolha cinematográfica da semana.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

A MALTA CURTE É ESSA CENA DA MATEMÁTICA...

Já estamos na cena marada do costume: se a Dinamarca isto e a Holanda aquilo passamos. Matematicamente tudo é possível.

Matemáticos? Bento de Jesus Caraça? Aureliano Mira Fernandes? António Gião? Sebastião e Silva? Todos alentejanos. E que tal um alentejano para selecionador nacional de futebol?

 


FRANKFURT - À TARDE

Não fazia frio nem chovia. Mas o céu estava cinzento e havia pouca luz. E nas ruas havia pouca gente ("estão todos a trabalhar", comentou uma amiga minha, dando, insconscientemente, razão ao velho mito trabalho a norte/lassidão a sul). Podia ter visto o Städel - Städelsches Kunstinstitut und Städtische Galerie é o nome oficial... - depois da conferência, mas optei por fazê-lo durante a tarde. Que estava, não sei se já o disse, sem chuva e sem frio, mas muito cinzenta e pouco luminosa.

O Städel é um dos grandes museus da Alemanha. Ou, mesmo, do mundo. O que ver? Ou o que reter? Fiel a um velho hábito centrei-me num tema. Neste caso nos expressionistas, por causa de Max Beckmann e, sobretudo, de Ernst Ludwig Kirchner. Que tem, no Städel, uma nutrida representação. Os nazis esfregaram as mãos de contentes. "Arte degenerada" era coisa que ali não faltava...

Velhos filmes, e nunca esquecidos, como O gabinete do Dr. Caligari (1920), de Robert Wiene, e Varieté (1925), de Ewald André Dupont, são evocados em cada perspetiva e em cada pincelada. Também a esses o nazismo não perdoou.
 
Max Beckmann: A sinagoga

Site do Städel: http://www.staedelmuseum.de/sm/

A PROPÓSITO DE SOFÁS - 5/7