sexta-feira, 31 de agosto de 2012

REGENERAÇÃO URBANA: MOURARIA

E agora, a Mouraria. Um dos bairros mais extraordinários da cidade. Tem três ruas (Primeira, Segunda e Treceira, assim mesmo, e um Largo). É um conjunto classificado como "de interesse público", mas tão interessante como a arquitetura é o ambiente da Mouraria.

O bairro remonta ao século XIII, quando a população muçulmana foi expulsa do castelo e forçada a instalar-se numa área parcialmente ocupada pela antiga maqbara. Em meados do século XVII, parte do bairro, que se estendia até à zona da atual Rua de Santo António, foi sacrificado, uma vez que se tornou imprescindível construir as novas muralhas.

A Mouraria foi incluída nas Parcerias para a Regeneração Urbana, o vasto plano de intervenções que a Câmara Municipal de Moura tem em concretização. O valor total da empreitada ronda os 420.000 euros. A obra deverá estar concluída no início de 2013.

É um passo, mais um, e bem importante, na valorização da cidade e do concelho.


quinta-feira, 30 de agosto de 2012

ARTE ISLÂMICA - 1/10

Inicia-se aqui um novo percurso. Mais dez passos. Chega a vez da arte islâmica. Entendida aqui no sentido da arte islâmica do Mediterrâneo.

Por onde começar? Quando me pedem um exemplo extraordinário da arte islâmica ocorre-me, sempre, citar em primeiro lugar o chamado "quarto de Alepo". O quarto está protegido por um vidro. Pude uma vez lá entrar, quando estava a ser desenvolvido o projeto Discover Islamic Art.

O "quarto" é, na realidade, um conjunto de painéis pintados, que forravam as paredes da sala de entrada de um rico mercador cristão da cidade de Alepo. As representações são um exemplo acabado da melhor arte otomana (os painéis datam de inícios do século XVII), numa conjugação de motivos geométricos e florais. Há temas cristãos que se misturam com outros, oriundos da tradição persa. A única palavra que me ocorre para classificar o quarto de Alepo é "luxuriante".

O quarto foi comprado, em 1912, pelo alemão Friedrich Sarre para o Museu de Arte Islâmica, de Berlim, onde hoje se encontra.


quarta-feira, 29 de agosto de 2012

AINDA A EXPOSIÇÃO "DO GHARB AO ALGARVE"

Post quase "criptado" (e destinado, antes de mais, aos arqueólogos que, no ARCHPORT, acompanharam uma polémica sobre a exposição acima referida).

Foi afirmado, e a propósito do meu trabalho como comissário científico da exposição, que eu teria desconsiderado e ignorado uma colega, tendo o autor do mail (Mário Varela Gomes) afirmado "se R[osa]. V[arela]. Gomes foi convidada para algo referente à exposição, cabe a S[antiago]. M[acias]. demonstrá-lo."

Muito bem. Aqui ficam cópias do ofício de convite e da resposta dada por Rosa Varela Gomes, de aceitação ao mesmo.

O assunto está, em definitivo, encerrado. Não serão publicados quaisquer comentários sobre este tema.






WHISTLER & BORJA & DR. BEAN


Hello, I'm Dr. Bean. Apparently. And my job is to sit and look at paintings. So, what have I learned that I can say about this painting? Well, firstly, it's quite big, which is excellent. If it were very small, microscopic, then hardly anyone would be able to see it. Which would be a shame. Secondly, and I'm getting quite near the end of this... analysis, secondly, why was it worth this man spending fifty million of your American dollars? And the answer to that is, that it's a picture of Whistler's mother. And as I've learned, staying with my best friend David Langley and his family, families are very important. Even though Mr. Whistler was obviously aware that his mother was a hideous old bat who looked like she'd had a cactus lodged up her backside, he stuck with her, and even took the time to paint this amazing picture of her. And that's marvellous. It's not just a painting. It's a picture of a mad old cow who he thought the world of. Well that's what I think.

É esta a "análise" que Mr. Bean faz do quadro Composição em Cinzento e Negro nº 1, mais conhecido como A mãe de Whistler. A obra data de 1871, quando Anna McNeill Whistler tinha 67 anos. James Whistler (1834-1903), apesar da sua aclamada obra, tornou-se mundialmente conhecido pelo suposto restauro que Mr. Bean fez desta sua obra. O filme tem sido citado, de forma recorrente, nos últimos dias.

Esclarecimento final: o quadro não está nos Estados Unidos, mas sim no Musée d'Orsay, em Paris. Vale a pena ver a "explicação":

terça-feira, 28 de agosto de 2012

PESCADOR DA BARCA BELA

Ia, no outro dia, descendo a rua quando ouvi, 20 metros mais abaixo, alguém que cantava no rio uma belíssima moda. Era uma daquelas vozes melancólicas e cheia de uns trinados que, mesmo no cante alentejano, vão sendo cada vez mais raros.

A voz do pescador enchia o anfiteatro natural que Mértola é, para meu encanto e para espanto de um grupo de turistas alemães  que assistia, fascinado, àquela magnífica exibição.

Ao escutá-lo não pude deixar de me lembrar de Michel Giacometti, que me contou que tinha em tempos ouvido as mesmas melodias, os mesmos cantos de trabalho, em Marrocos e em Portugal, prova provada que o mundo de cá e o mundo de lá são criação recente das polícias e das alfândegas. Não pude deixar de pensar naqueles que melhor representam as músicas de tradição mediterrânica. Na Ti Chitas, pastora de Penha Garcia, na "Senhora do Almortão", nos adufes de Idanha e em alguns grupos corais do Alentejo. Recordei-me das vozes únicas de Pepe Marchena e de El Cabrero, ainda que seja difícil convencer muitos portugueses que os fandangos de Huelva estão entre as mais belas sonoridades do mundo. Vieram-me também à memória os nomes de Manuel Bento, Perpétua Maria e Francisco António, os artesãos daquela estranha e magnífica arte do cante e do toque campaniço.

A arte do cante do Mediterrâneo português definha. É com amargura que se ouve cantar cada vez pior, por entre grupos de música etnopimba e por entre supostas, e mais que discutíveis, modernizações. A voz daquele pastor de meia-idade representa o que vai resistindo de uma cultura milenar. Há muitas centenas de anos que as margens do Guadiana, e os esplendorosos cerros à sua volta, ouvem pescadores cantar a mesma musicalidade, dita umas vezes em latim, outras em árabe, outras enfim em português. A quem terá ele escutado aqueles sons? Terá ensinado algum neto a cantar como ele? Ou, no dia em que ficar demasiado velho, ninguém tomará o seu lugar naquele barco do Guadiana?

Ao ritmo lento da remada, o pescador continuou a cantar. No fim, os turistas romperam em aplausos e aos "bravos!", como se estivessem em plena Ópera de Berlim. O pescador retomou as cantigas. Fui-o seguindo, até o perder na curva do rio.


José Domínguez Muñoz, El Cabrero (n. 1944)

Dois motivos me levaram a republicar este texto, uma crónica do "Diário do Alentejo" de 29.1.1999: ter ouvido, há dias, este pescador, cantando entre o Guadiana e o Oeiras; ter estado no almoço de aniversário do Grupo Coral da Casa do Povo de Santo Amador. O mesmo grupo que gravou uma moda sobre as oliveiras, que ilustrava, como som de fundo, uma exposição no Rio de Janeiro. Tudo o que vale a pena se conjuga.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

QUAL PLANO ESTRATÉGICO, QUAL HISTÓRIA...

Andamos nós nas autarquias em grandes debates e em profundas elocubrações para promovermos os nossos concelhos e as nossas regiões. Andamos nós inventando eventos e organizando feiras. Andamos nós debatendo os planos integrados e os planos estratégico e o ordenamento... Andamos nós atrás dessa palavra mágica que é o "turismo".

E depois, chega uma velhota doidivanas, esborrata uma pintura mediana de um autor obscuro e torna-se um fenómeno mundial, com referências em tudo o que é comunicação social. Multiplicam-se as piadas e as cópias na net. A igreja de Borja (Zaragoza) tornou-se, de um dia para o outro, uma atração turística. Corrigir o "restauro"? Eu não corrigia coisíssima nenhuma.



É POR ESTAS COISAS QUE GOSTO DE PORTUGAL - 2


O que me agrada aqui é a singeleza e simplicidade do nome: Grupo de Trabalho Para a Definição do Conceito de Serviço Público de Comunicação Social. Estas coisas são, em Portugal, de uma austeridade bizantina.

Em todo o caso, e depois das investidas dos últimos dias, vale a pena ler o relatório do grupo de trabalho:



É POR ESTAS COISAS QUE GOSTO DE PORTUGAL - 1

A GNR garante que desenvolve esforços "na tentativa de redução de duas das principais causas de sinistralidade rodoviária - excesso de velocidade e velocidade excessiva". Estas subtilezas dão cabo de mim. Mas até aqui ainda aguento.

O que tenho pena é que tenhamos perdido a bonita tradição dos nomes portugueses nas operações da corporação. A última chamou-se "Speed Enforcement". Ora bolas. Se a moda pega ainda vamos ter saudades do "Natal Sobre Rodas", da "Páscoa Feliz", do "Carnaval Risonho", do "Ano Novo Seguro" e de tantos outros, que encheram de poesia os nossos corações.

Que será feito do Capitão Quesada, porta-voz de tantas e tantas operações?


domingo, 26 de agosto de 2012

O OVO DE MONTENEGRO

Fechar a RTP2, vender a RTP1 e tudo o resto é o ovo de colombo a que temos direito. Cada País tem os montenegros que merece...

Sem dúvida que esta ideia é o nacional-relvismo no seu melhor. E a Antena 2 que se cuide. Nas mãos de um bazarista fecha ao fim de uma semana.



SANTO ALEIXO, ENTRE O SACRO E O PROFANO


As festas no sul têm destas coisas. Aliás, as festas no sul são isto mesmo. A mistura do sacro e do profano e a transfiguração de uma coisa noutra. Há párocos que não percebem isso, e por isso não se entendem com as suas comunidades, fazem discursos penosos e passam ao lado da vida.

Ontem foi dia de festa em Santo Aleixo. A solenidade da procissão, onde se destaca o andor andaluz de Nossa Senhora, rapidamente deu lugar a outra celebração. E a magnífica banda da Amareleja depressa passou de músicas sérias para outros tons. Veja-se a curta gravação, feita em frente ao "Tijolo", onde, ao som do Paquito e com a ajuda coreográfica da minha amiga Isabel Balancho (a senhora vestida de escuro no lado esquerdo das imagens), a rua se tornou em borga.

Bendita festa.

video

Fotografia: Alberto Frias

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

ALMEIDA: O QUARTEL DAS ESQUADRAS


Um quase blitz, salvo seja, a norte, para desembarcar em Almeida. O arq. João Campos convidou-me para vir apresentar as fortificações de Moura. E para falar um pouco do futuro dos Quartéis. Até aqui tudo bem. Nada de novo. O que eu não esperava era que os colegas de Almeida ficassem surpreendidos por haver em Moura uma estrutura muito semelhante ao Quartel das Esquadras. Melhor dizendo, este último é que é semelhante ao nosso. É que o de Moura é mais antigo cerca de três décadas. Mais um elemento de valorização para o nosso património. E para o de Almeida. Mais contactos se seguirão em breve.

A fortaleza de Almeida é aquele esplendor que se vê na fotografia de cima. O Quartel das Esquadras, em baixo, é um siamês do nosso.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

O MÉTODO, A ORDEM, A DISCIPLINA, OS ALEMÃES E OS CABIDES

Ora aqui vai um post silly season:

Um dos mais usados chavões é o da disciplina alemã (às vezes usa-se a palavra prussiana). Podia ser só um mito, mas com o passar do tempo convenci-me que não é assim. E há pequenos detalhes que dizem muito. Ou quase tudo. Como o detalhe dos cabides.

Uma vez, nos meus tempos de estudante, fui consultar livros ao Instituto Arqueológico Alemão (cuja biblioteca ficava num 7º andar da Av. da Liberdade, com os mais velhos se recordarão). Sentei-me e pendurei o casaco nas costas da cadeira. Menos de um minuto depois, a arqueóloga alemã responsável pelo serviço, arrancou o casaco da cadeira repreendendo-me "temoshh cábidéshh". Abriu um armário e pendurou o casaco num cabide. Estava visivelmente chateada com a minha nonchalance. Anos mais tarde, a cena repetiu-se, na biblioteca do IAA, em Madrid. Aí em versão cinema mudo. Uma mulher imensa, que fazia recordar um Jean Claude van Damme de saias, estendeu-me um cabide, sem dizer palavra. Tive medo dela e obedeci, rapidamente. Terceiro episódio, no Museu de Arte Islâmica de Berlim. A reunião começa e é interrompida menos de um minuto depois. O Dr. Kröger tinha identificado um casaco na parte de trás da minha cadeira. Levantou-se, com um ar resignado, para aparecer, uns segundos mais tarde, com um cabide.

Agora já não tenho dúvidas: ou a questão dos cabides é mania dos arqueólogos alemães ou é mesmo um problema civilizacional.

CÂMARA MUNICIPAL APOIOU FESTAS NA AMARELEJA

Não me refiro, bem entendido, à presença dos eleitos na festa.  Como sempre, e com prazer, estivémos e estaremos presentes. Importa sublinhar o apoio técnico e logístico a diversos eventos. Tal como hoje informámos em reunião de câmara foi cedido, sem encargos para a organização, o gerador que é habitualmente utilizado pelo Grupo Desportivo Amarelejense.

Uma nota final para referir o trabalho incansável da Cidália Guerreiro nestas Festas da Amareleja. Quando se pensa que há impossíveis e que a logística é uma tarefa inultrapassável, há sempre alguém que dá sequência e solidez ao que é preciso fazer.



A fotografia está na página do facebook Turismo Amareleja

terça-feira, 21 de agosto de 2012

ESTE ANO A FEIRA DE MOURA É NOUTRO FIM DE SEMANA?

De vez em quando, surge a pergunta: este ano a feira de Moura mudou de data? Seguem-se explicações e sugestões, mais ou menos cabalísticas, para o "facto".

As feiras de setembro não migram, nem mudam de fim de semana. Há mais de 20 anos que o texto do regulamento é o mesmo, dizendo expressamente que as feiras de maio e de setembro se realizam no segundo fim de semana, contado pela segunda sexta-feira de cada um daqueles meses. Repito: há mais de 20 anos que é assim.

Ou seja, se o regulamento não sofrer alterações são estas as datas dos próximos anos:

12 a 15 de setembro de 2013
11 a 14 de setembro de 2014
10 a 13 de setembro de 2015
8 a 11 de setembro de 2016
7 a 10 de setembro de 2017
13 a 16 de setembro de 2018

PASSES DE MULETA - 2: NATURAL

Muitas vezes considerado O passe de muleta (v. aqui). É executado com a mão esquerda, sem a ajuda do estoque. O remate faz-se sempre por baixo. O passe natural ou ao natural costuma ser rematado por um passe de peito. É um exercício de alto risco, em que a palavra lentidão se torna sinónimo de dificuldade.

Julián López, El Juli

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

O SENTIDO PERDE-SE NA TRADUÇÃO


Um dos meus "passatempos" preferidos é ver onde andam os meus colegas de liceu e de faculdade. O que será feito daquele puto atinado que estava sempre na primeira fila, a beber os ensinamentos do prof? Onde parará aquele vândalo que só tinha ideias desatinadas e que passava metade da semana a caminho do diretivo? Que carreira terá feito a graxista-mor, que dava pontapés na gramática, mas era exímia na sabujice?

Tenho de tudo no passado escolar, embora as memórias mais vivas sejam as da Faculdade: historiadores, músicos, professores, bibliotecários, museógrafos, arquitetos, paisagistas, funcionários judiciais, jornalistas, um designer de moda, inspetores da PJ, radialistas, apresentadores de TV, um ministro (!) etc.

Mas o meu preferido é um colega de História da Arte da Faculdade de Letras que, num momento de aperto, se dedicou à tradução de filmes. Bom, mais ou menos... Foi contratado para traduzir um filme porno, que tinha o título, discreto e nada óbvio, de Os bacamartes da Mauritânia. Quando lhe disse que aquilo não devia ter nada para traduzir pôs um ar falsamente ofendido e ripostou: "é mais difícil do que pensas; são argumentos muito elaborados; o sentido-se vai-se todo na tradução".

Cruzei-me com ele há uns meses. Não falámos no assunto. Mas não está nas traduções de filmes desde há muito.

domingo, 19 de agosto de 2012

VA POR USTED, SENHOR PRESIDENTE!

O ex-presidente da Câmara Municipal de Viana do Castelo não gosta de corridas de touros. O atual Presidente também não. O futuro Presidente não sabemos.

Eles não gostam e querem que nós não gostemos. Como diz o meu amigo Ricardo Lemos, de Safara, isto é o fascismo com cara de alface. Ameaçam agora criar na Associação Nacional de Municípios Portugueses uma secção de municípios que não gostam de corridas de touros. Se a moda pega vai ser giro: Secção de Municípios Que Não Gostam de Música Pimba, Secção de Municípios Que Acham o Ronaldo Melhor Que o Messi, Secção de Municípios Cujos Presidentes Tratam o PM por TU etc etc.

Gostava de ser Presidente da Câmara em Viana do Castelo. Com este nível de preocupações, dá a ideia de ser um sítio menos stressante que ser autarca em Moura.

Hoje há corrida em Viana do Castelo. Ainda bem que há.

sábado, 18 de agosto de 2012

MIDNIGHT IN PARIS

A quadragésima segunda longa-metragem de Woody Allen é um conto de fadas. Uma cinderela parisiense, com viagens a momentos fulcrais da história da cidade nos séculos XIX e XX. O filme tem uma aura de encanto, para a qual concorrem o inspirado argumento, a música de Sidney Bechet e o ambiente da própria cidade. E o trabalho do iraniano Darius Khondji, que empresta a cada cena os tons apropriados, dominado as cores quentes e os tons suaves. O arranque de Midnight in Paris (v. aqui) é prodigioso, como o fade-out de cor à medida que se entra na noite. Escolhi, neste filme da semana a cena em que Gil, aturdido, se dá conta de estar ante o próprio Cole Porter, que apresentava numa sessão para amigos o seu Let's do it. O ar de Gil não escapa a uma jovem que lhe diz, como num bom conto de fadas, you look lost.

Uma muito jovem amiga minha ficou em pulgas quando lhe contei que um pequeno restaurante que aparece no filme (Le polidor) não é cenário e que, além de ser acessível, ainda é mais encantador do que parece na película. Acabou por ir lá, meses depois. Nunca mais se esqueceu (nem esquecerá) do episódio.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

PERMANÊNCIA





Agora me lembra um, antes me lembrava outro.

Dia virá em que nenhum será lembrado.

Então no mesmo esquecimento se fundirão.
Mais uma vez a carne unida, e as bodas
cumprindo-se em si mesma, como ontem e sempre.

Pois eterno é o amor que une e separa, e eterno o fim
(já começara, antes de ser), e somos eternos,
frágeis, nebulosos, tartamudos, frustados: eternos.
E o esquecimento ainda é memória, e lagoas de sono
selam em seu negrume o que amamos e fomos um dia,
ou nunca fomos, e contudo arde em nós
à maneira da chama que dorme nos paus de lenha jogados no galpão.

Faz hoje 25 anos que morreu Carlos Drummond de Andrade, de quem se reproduz Permanência. O poeta faleceu 12 dias depois de ver partir a sua única filha. Queria acompanhar um dos seus poemas por uma pintura. Ocorreu-me Arnold Böcklin e este Villa al mare, pintado entre 1871 e 1874, com aquela silhueta misteriosa que contempla o mar e que tanto evoca a mais completa solidão.

MA FEMME DE MÉNAGE AUSSI

Em França é frequente colar-se a Portugal uma imagem de arcaísmo. Uma Eusropa do sul, com sol e melancolia, mulheres morenas e pouco atraentes. Um país atrasado, mas deliciosamente simpático. Il y a, bien sûr, Amáliá Ródriguéss et le fádô. Et Pessôá.

Vem isto a propósito dos chavões que (se) nos colam e a que o embaixador de Portugal em França faz alusão (v. aqui). Já fui disso "vítima", uma vez, quando faleceu Amália Rodigues. Um jornalista da LCI (La Chaine Info, nada a ver com a Liga Comunista Internacionalista) telefonou-me e fez-me três ou quatro perguntas para colocar depois em fundo enquanto se mostravam imagens do funeral. Uma das questões foi, espantosamente, se o país tinha parado por completo...

Há melhor, contudo, numa mistura de condescendência e sobranceria. Uma das minhas histórias favoritas passou-se com uma amiga, radicada em Paris há mais de 20 anos. Nem o facto de viver no exclusivo seizième lhe vale. Um belo dia, uma senhora do seu meio perguntou-lhe qual o nome de família. Ao ouvir a resposta comentou, em tom casual, "ma femme de ménage aussi...".

É assim. Continua a ser, apesar de tudo, assim.
 
Fotografia: Henri Cartier-Bresson (1955)

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

NEM SALAZAR...

Declaração inicial: Julian Assange não me suscita especial simpatia. O sistema de divulgação indiscriminada de informações importantes para a segurança dos Estados (que tanto gáudio causa à esquerda) não me merece entusiasmo. Embora, confesso também, a existência do wikileaks nos tenha proporcionado dados cruciais sobre a atuação de governos portugueses em tempos recentes.

Assisti, por isso, com a maior perplexidade, aos desenvolvimentos dos últimos dias. A história da agressão sexual a duas mulheres é bizarra e pouco clara. O desejo dos Estados Unidos consumarem a vingança derradeira sobre o aventureiro Assange é mais que óbvia - Bradley Manning faz parte da mesma trama...

Chegados a este ponto  - nem claro nem linear - temos que:

1. O cidadão australiano Julian Assange pediu asilo político à República do Ecuador;
2. O governo britânico, provavelmente convencido que o primeiro-ministro se chama William Gladstone, Robert Gascoyne-Cecil ou Benjamin Disraeli, resolve dar-se ares de império e avisa os equatorianos de que poderá vir a invadir a embaixada (não guardei, infelizmente, um cartoon publicado no New Statesman dos anos 80 em que se via Michael Heseltine a rebolar-se aos pés de Ronald Reagan, depois de fingir dureza com os americanos no tratamento de questões importantes);
3. O governo britânico diz agora que não deixará Assange sair, seja em que cisrcunstância fôr.

Muito bem. Isso faz-nos recuar a 1959, quando Henrique Galvão fugiu do Hospital de Santa Maria e se refugiou na embaixada argentina, à qual pediu asilo político (se bem recordo, Galvão  conta, no seu Assalto ao Santa Maria, que não confiava no governo de Juscelino Kubitschek). Depois de três meses de tensão Salazar permitiu que Galvão saísse do país. Fico na expetativa para ver o que se vai passar. A menos que Cameron esteja mesmo convencido que é primeiro-ministro da rainha Vitória...

AMARELEJA - FESTA REVISTA

Primeiro, foi o jantar de gala do Grupo Desportivo Amarelejense. Depois a corrida de touros. Finalmente, a procissão. Amareleja vezes três. E muitas mais vezes serão.

A minha família materna é da Amareleja. Nos últimos tempos tem-se multiplicado a pergunta: "você é Canastro, não é?".  Canastro é a alcunha da família, oriunda do Alto de Bombel.  Não há, na Amareleja, quem não tenha alcunha, e a da minha família está erradamente explicada num livro sobre o tema. Por vezes, segue-se a pergunta "você é meu primo, sabia?". Não, a maior parte das vezes não sabia. O que não deixa de ser sempre um pouco embaraçoso. E tenho de recorrer à memória viva da Júlia ou da Elisa para reconstituir percursos e genealogias "essa tua prima é neta de fulana, que era prima-irmã da tua avó".

Ontem, no meio de um animado e longuíssimo jantar, com mais de duas dezenas de amigos, a cena repetiu-se, por mais duas vezes, em pleno Largo do Regato. Quando pensamos que estamos longe dos sítios de origem, há sempre qualquer coisa que nos faz regressar. Um facto que tenho constatado, à medida que o tempo vai passando.
 
Fotografia: Zambrano Gomes (c. 1935)

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

A RELATIVA IMPORTÂNCIA DAS COISAS

O jogo é mais importante? Opções não se discutem, mas este anúncio da UMBRO gerou polémica. Oportunidade para retomar um tema, o da publicidade, que, a espaços, passa por aqui.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

PINACOTECA

In a Museum


I
Here's the mould of a musical bird long passed from light,
Which over the earth before man came was winging;
There's a contralto voice I heard last night,
That lodges with me still in its sweet singing.

II
Such a dream is Time that the coo of this ancient bird
Has perished not, but is blent, or will be blending
Mid visionless wilds of space with the voice that I heard,
In the full-fuged song of the universe unending.

Thomas Hardy (1840-1928)


A organização daquele setor do Städel Museum, ao jeito dos antigos gabinetes de pintura ou das galerias privadas dos aristocratas europeus, não deixa de ter uma certa graça. Apesar dos tons fortes das paredes. A imagem de cima reproduz um quadro de Willem van Haecht (1593-1637). Intitula-se A galeria de Cornelis van der Geest e foi pintado em 1628.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

A SÍRIA EM PERIGO

Em tempos que já lá vão, a rota de ouro do comércio mediterrânico começava em Sevilha, tocava os portos da Tunísia e ia terminar lá longe, em Alexandria ou em Antioquia. Era um percurso que todos os mercadores conheciam e que várias vezes ao longo do ano tinham que percorrer. À Península Ibérica vinham buscar a prata que faltava a Oriente. Para a Península Ibérica traziam os tecidos e os perfumes que iriam tocar o corpo das andaluzas mais belas. Ou das mais ricas.

Lá longe, para lá de Antioquia, existia ainda, até há meses, um pouco desse mundo. Fica fora das fronteiras da Europa, cada vez mais longe do Ocidente. Às portas do Levante, o ar do Mediterrâneo começa a dar lugar à aridez do deserto. É aí que começa a Síria, onde o Mediterrâneo acaba e até onde chegam as oliveiras. A algumas jornadas do mar fica o oásis de Palmyra e, mais para leste, a imensidão da Mesopotâmia.

Os nomes das cidades – Damasco, Alepo, Hama, Palmyra – estão nos compêndios de História e habituámo-nos a ver os monumentos alinhados em páginas. A Síria servia-nos como mostruário de volutas e de pâmpanos, como uma lição de Arte ao vivo. A Síria Antiga guarda-se nos museus de Damasco e de Alepo e nos das antigas capitais coloniais do Ocidente, que pilharam, com método e eficácia, um solo inesgotável.

Muito do passado de Síria está hoje escondido em bairros recônditos ou quase desapareceu. As cidades não são uma realidade imóvel e imutável. Menos ainda quando falamos de sítios como este, ocupados há milénios e abalados de tempos a tempos por convulsões, pelas dos homens e pelas que surgem das entranhas da terra. O correr dos anos, o simples martelar do sol e da chuva se encarregaram de fazer o resto.

Desde há semanas que a guerra desabou sobre o passado. Uma ameaça, real e sem remédio, pesa sobre o património da Síria. Que é, também, o património de todos nós. Os monumentos da Síria têm um longo convívio com a guerra. As destruições e reconstruções sucederam-se no tempo, numa região onde os conflitos são habituais. O armamento pesado, que se tornou cada vez mais comum, de mais fácil aquisição, de uso discriminado e com um crescente poder destrutivo é uma ameaça maior. O exemplo do Iraque, e o saque dos seus museus após a invasão americana, de pouco serviu. Com o intensificar do conflito na Síria é uma parte importante da nossa História comum que ameaça ruir. Sem retorno, porque a reconstrução de jóias como a cidadela de Alepo ou a mesquita de Damasco será uma tarefa impossível. E sem solução, porque a História da região é complexa e pouco linear e cada muro que se destrói são milhares de anos que se perdem. As paredes dos monumentos da Síria contam-nos essa História e poucos episódios o exemplificam tão bem como o da construção da mesquita dos omeias, em Damasco.

Onde está a mesquita, esteve, há muitos séculos, um templo romano dedicado a Júpiter, substituído mais tarde pela igreja de São João Batista. Que cedeu depois o lugar a uma mesquita. O próprio califa al-Walid terá descido, de archote, em punho, à cripta da igreja, aí tendo encontrado um cofre com a inscrição “contém a cabeça de João”. Talvez hoje achemos a descrição pueril, mas o califa não hesitou. A cabeça do santo ficou no local de origem, de tal modo que, durante muitos anos, a mesquita adotou o seu nome, Yahya b. Zakariya, João filho de Zacarias.

A memória de São João Batista representa, contudo, mais do que um simples nome. O mausoléu contendo as relíquias do santo ocupa um lugar de destaque em plena mesquita, e não é possível deixar de reparar no cortejo de pessoas que ali se deslocam, pedindo proteção, fazendo promessas, agradecendo benesses. São cristãos e muçulmanos, vindos por vezes de sítios longínquos, em busca de um auxílio que faltou algures.

Trata-se de um caso único? Nem por sombras. A grande mesquita de Alepo tem um passado semelhante: de agora passou a jardim da catedral de Santa Helena e depois a local de culto muçulmano. Tal como em Damasco, a mesquita alberga um mausoléu, neste caso o de S. Zacarias, pai de S. João Batista. A história no Oriente é uma matrioska, uma sucessão de factos e de épocas.

 Apesar das contradições, igrejas e mesquitas, minaretes e campanários, partilham as mesmas ruas, por vezes muito perto, por vezes mesmo lado a lado. Os cristãos continuaram nas principais cidades até aos nossos dias, mas o peso da sua comunidade foi-se esbatendo com o tempo. Em Damasco habitam num bairro no extremo oriental da cidade antiga, por entre uma profusão de igrejas (maronitas, gregas ortodoxas, católicas, arménias) e dedicam particular devoção à Virgem e a São Paulo. O nome do santo, que terá residido na Rua Direita, bem no coração de Damasco, persiste numa capela, junto à Bab Kaysan.

O coração de uma Síria intemporal vive em Alepo. Cerca de mil metros separam Bab Antakyah e a cidadela. Em mil metros mergulhamos na máquina do tempo, num souk que saiu das páginas de um texto antigo. O barulho, os pregões, a venda de tecidos repetem-se sem cessar há muitos anos. Os vendedores, que repartem o espaço com um rigor de geometra, têm centenas de anos. O tempo não passou por eles porque estão resguardados do sol e da luz do dia pela penumbra do souk. O que se vende é tão antigo como o souk, como os sabões de azeite e palma que fizeram a fama de Alepo. O risco de se perder esse mercado vai, por isso, muito além do valor dos muros que limitam as suas ruas. O bairro cristão de Alepo fica um pouco mais a norte, no limite da rua da Bab Antakyah. Talvez o elemento mais surpreendente tenha sido o contraste entre o caos e as ruas pouco tratadas à saída da cidade velha e a limpeza, a iluminação pública e a presença de lojas de conhecidas marcas europeias no bairro cristão.

Para lá dos dos monumentos e da História Antiga começa a outra Síria, não menos ameaçada pelo conflito em curso. A das montanhas do Kalaamoun, onde o aramaico que Jesus falou é ainda entendido em duas ou três aldeias. A das aldeias druzas, como Qalb Lozeh, a do jovem que veio ter comigo para me oferecer uma romã, à entrada do sítio de Aïn Dara, e se apresentou dizendo apenas “sou curdo”. Há uma outra Síria que não é dos monumentos nem dos mosaicos nem do castelos dos cruzados. É uma Síria marcada pela diversidade, pela diferença e pelo justificado orgulho das diferentes comunidades. É, e provavelmente, deixará de o ser, a Síria dos cristãos, como Margarita Curché, a anciã que me acompanhou pelas ruas do bairro cristão de Damasco, rematando, de punho fechado e em voz alta, “aqui somos todos cristãos!”. Margarita referia-se ao bairro, mas o seu bairro é o seu mundo, um mundo que fica junto a Bab Touma, no extremo nordeste da cidade antiga.

Agora, que a guerra devasta Alepo e Damasco – voltaremos a entrar no souk Hamadieh?, regressaremos à grande mesquita?, o que acontecerá ao bairro cristão de Jdeideh, em Alepo? – avolumam-se as perguntas e aumenta a preocupação de estarmos a perder, para sempre, monumentos e modos de vida.

Da Damasco onde viveu São Paulo só restam o arco romano na rua que vai para Bab Sharqi, a entrada oriental da cidade, a colunata à saída do souk Hamidieh e algumas das paredes da grande mesquita dos omeias. Esse património físico está em risco. O outro, que não é menos nosso, também.




A fotografia foi feita no pátio da grande mesquita, em Damasco. Um local de fé e, também, de sesta.

O texto que acima se transcreve foi publicado na edição de hoje do Público.

NA REPÚBLICA DO GENERAL TAPIOCA





Do JN online (sem comentários, porque não há nada a dizer, a não ser que estamos ao nível da República de S. Teodoro e que, obviamente, não haverá responsáveis):
 

Grande parte da documentação dos submarinos desapareceu do Ministério da Defesa. Sumiram, em particular, os registos das posições que a antiga equipa ministerial de Paulo Portas assumiu na negociação.

"Apesar de todos os esforços e diligências levadas a cabo pela equipa de investigação, o certo é que grande parte dos elementos referentes ao concurso público de aquisição dos submarinos não se encontra arquivada nos respetivos serviços [da Defesa], desconhecendo-se qual o destino dado à maioria da documentação", escreveu o procurador João Ramos, do Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP), em despacho de 4 de junho que arquivou o inquérito em que era visado apenas o arguido e advogado Bernardo Ayala (o processo principal continua em investigação).

Nos últimos anos, já tinha sido noticiado o desaparecimento de vários documentos do negócio concretizado, em 2004, quando Durão Barroso era primeiro-ministro e Paulo Portas ministro de Estado e da Defesa Nacional. Mas, agora, é o próprio Ministério Público não só a reconhecer o problema como a atribuir-lhe uma dimensão que vai para além dos casos pontuais já noticiados.

domingo, 12 de agosto de 2012

EL DRIMTIM

Pois é...

El Drim Tim fué otro y vaya susto han pillado los americanos...

O ALQUEVA E MAIS O TURISMO E MAIS O PNPOT E MAIS O PROT E MAIS O POAAP E MAIS O PROZEA E MAIS ESSA COISADA TODA

O recente e clamoroso falhaço do projeto Roquette para o aproveitamento turístico da barragem de Alqueva provocou um mar de opiniões, de reportagens, de declarações e de tomadas de posição (não faltou, por via do inefável Zorrinho, o habitual pedido de uma audição ao ministro da economia, à CGD e aos promotores do projeto).

Objetivamente falando, são péssimas notícias para a região e lançam sombras e dúvidas sobre projetos futuros. O Diário de Notícias recordava que, do que José Socrates anunciou, em 2008, nada passou do papel. Ou quase nada, se descontarmos um hotel concretizado em Montemor-o-Novo, que não é exatamente ao lado da barragem de Alqueva. Eram 1.800.000.000 euros. Eram, que não foram.

Na altura, fomos fustigados, na Câmara de Moura, com críticas, por causa das coisas maravilhosas que iam acontecer nos outros concelhos. Nada aconteceu, em parte alguma.

E dificilmente acontecerá o que quer que seja. Se persistir uma lógica de resort, se continuarmos a ancorar projetos em campos de golfe (golfe com temperaturas a roçar o negativo no inverno e a passar os 40º no verão?), se insistirmos nos mega-investimentos, se acharmos que o aeroporto de Beja vai alimentar esse turismo e que assim o turismo se tornará uma mola para a riqueza da região, a conclusão é simples: nada aconteceu e nada acontecerá.

Pior ainda: somos capazes de levar semanas infindáveis a discutir os termos de referência e mais uns meses largos a debater regulamentos, os quais se enchem de detalhes e subtilezas indecifráveis, a burilar artigos e a sopesar cartografias. E depois, o que acontece? Nada. Nada de nada. A frustração de quem, numa autarquia, queira, a este nível fazer coisas simples e práticas esbarra numa legislação (perfeitíssima, já se sabe...) que é um verdadeiro emaranhado filosófico.

Assim não vamos lá. E estes falhanços, por ocorrerem noutros concelhos, não me enchem de júbilo nem me fazem esboçar sorrisos de troça. Ao contrário, deixam-me preocupadíssimo.

 

sábado, 11 de agosto de 2012

PASSES DE MULETA - 1: ESTATUÁRIO

Segue a saga tauromáquica, maneira de deixar claro, aqui no blogue, quais as coisas de que gosto. Segue antes das corridas em Amareleja e no Sobral onde, decerto, não haverá estatuários.

É um passe ajudado de grande espetáculo, usado no início da faena. Causa sempre sensação no público, como já pude constatar em Badajoz e em Sevilha. O matador fica imóvel, e com os pés juntos, levantando a muleta, para permitir a passagem do touro. José Tomás usa bastante este passe. Com eficácia e um desprendimento que faz com que tudo o que faz pareça facílimo.

Manolete em Barcelona (maio de 1944)

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

ZITA SEABRA - NOME DE CÓDIGO: AGENTE XIS-BATATA

Zita Seabra resolveu fazer uma denúncia espetacular: o PCP espiava instituições do Estado Português, instalando microfones em aparelhos de ar condicionado montados pela FNAC, à época (anos 80) liderada pelo então militante comunista Alexandre Alves. Zita Seabra descobre uma tardia vocação de agente secreto. Uma coisa me preocupa. Das duas uma: ou os aparelhos de ar condicionado não tinham manutenção ou os tipos que faziam a dita era uns nabos do piorio, incapazes de identificarem um microfone.

Os delírios de Zita são frequentes e parecem ter-se agravado com a aproximação à Opus Dei. As suas intervenções merecem tudo, menos credibilidade e julgo que o PCP fez bem em dizer apenas "as afirmações dessa pessoa, nesta como noutras matérias, não merecem qualquer crédito ou comentário".


Zita Seabra num baile de debutantes. Na cabeça parece ter uma coroa. Nada garante, contudo, que não seja um sofisticado sistema de comunicações. Foi assim que tudo começou.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

CASTELO DE MOURA: ARQUEOLOGIA E RESPONSABILIDADE CIENTÍFICA

Ainda o castelo de Moura, e prometo não regressar ao tema nas próximas semanas:

Sou (em conjunto com a Vanessa Gaspar e o José Gonçalo Valente) responsável científico pelas escavações arqueológicas em curso;

Tenho, enquanto vereador da Câmara Municipal de Moura desde 2005 e em conjunto com os meus colegas, procurado soluções para aquele local;

Para o bem e para o mal, tenho sido identificado com o castelo;

Portanto, e antes que me venham perguntar, não sou responsável pelos conteúdos técnicos e científicos da Feira Medieval em curso.

IGREJA DE SANTIAGO: O MOMENTO KIM-IL-SUNG DE UMA CARREIRA

Quando a Lígia me enviou a sms com o texto “a moeda da ue 9 é um dinheiro de D. Afonso IV (1325-1357)” quase íamos (a Vanessa, o José Gonçalo e eu) tendo um badagaio com a emoção. Comecemos, contudo, pelo princípio. A Lígia Rafael é uma colega e amiga que se disponibilizou a fazer a limpeza e estabilização de uma moeda, encontrada junto a um muro de um vasto compartimento que estava a ser escavado no castelo de Moura. De repente tudo fazia sentido: os muros fortes, o pavimento argamassado, o pequeno quadrilátero junto à parede este, os enterramentos no exterior do edifício.

Se o conjunto de elementos parecia apontar para a presença de uma igreja associada a uma necrópole ainda nos custava a acreditar que pudéssemos estar em presença de um templo medieval. A moeda do séc. XIV no interior do altar ajudou a afastar dúvidas, os ceitis de D. Afonso V pertencentes aos enterramentos do exterior vieram dar solidez a uma hipótese que não sonharíamos à partida. Acabávamos de identificar a igreja de Santiago, referida na documentação medieval mas que estava, até à data, por localizar. É quase um milagre que, ante as sucessivas obras no castelo de Moura, concretizadas ao longo de vários séculos, tenha sobrevivido uma parte importante da cidade medieval.

A igreja é bonita? Nem por isso. É uma simples nave, bem pobrezinha, benza-a Deus. Nada de decoração, nada de elementos arquitetónicos elaborados. Uma nave e nada mais. Talvez mais interessante, do ponto de vista histórico, por isso mesmo. Até porque o ascetismo com que o espaço foi pensado vai a par com o austeridade dos dias que vivemos…

Verdade se diga que, apesar das referências escritas, várias vezes duvidámos da existência da igreja de Santiago, ao ponto de pensarmos ser a alusão ao templo fruto de um qualquer equívoco. A localização é, contudo, perfeita: dentro do perímetro fortificado e junto à porta da alcáçova. Estamos perto, muito perto, do local da antiga mesquita de Moura. As sacralizações destas são, por norma, feitas através do nome de Santa Maria, mas os exemplos de locais de culto muçulmanos convertidos em igrejas de S. João, do Espírito Santo ou, até, de Santiago não faltam. Encontrar uma mesquita no meio dos restos dos enterramentos cristãos e numa área muito refeita após meados do século XIII seria ter uma sorte pouco comum. Provavelmente, não teremos essa fortuna.

Como sugeriu uma amiga “ainda vão dizer que inventaste o nome da igreja, só para ser o teu”. É pouco provável que o digam, mas essa parte é aquela que ao José Gonçalo, à Vanessa e a mim menos interessa. A campanha está ganha e o modelo da ocupação medieval do castelo fica, a cada dia, mais claro. Esse é o dado essencial.




Crónica publicada no jornal "A Planície" de 6 de agosto de 2012

Pequena legenda da fotografia:
1 - À esquerda deste número identifica-se uma pequena estrutura quadrangular, que pensamos ter sido um altar;
2 - Local onde se encontrou a moeda da primeira metade do século XIV;
3 - Enterramento com moeda associada (ceitil de D. Afonso V);
4 - Enterramento com moeda associada (ceitil de D. Afonso V);