domingo, 30 de setembro de 2012

ARTE ISLÂMICA - 3/10

Não é que seja exatamente uma peça de "arte islâmica". Mas aqui joga, claramente, um papel o insólito da descoberta.

Esta lápide funerária provém da necrópole de Sané, em Gao (Mali). Poderá datar do século XII ou XIII d.C. O facto espantoso é ter sido importada da região de Almeria, no sul de Espanha. Que fica a 2300 km. Que a classe superior de Gao mandasse esculpir essas lápides a tal distância diz bem do prestígio dos ateliês andaluzes e diz bem da pujança do comércio entre o Mediterrâneo e as regiões sub-saarianas.

Nos anos 50 foram descobertas, na necrópole de Sané, numerosas peças, que entretanto foram dispersadas um pouco por todo o mundo.


A lápide está em exposição no Musée National du Mali, em Bamako. Foi publicada no respetivo catálogo.

sábado, 29 de setembro de 2012

TERREIRO DO POVO


Foi um dia diferente e com coisas um bocadinho engraçadas. Notas estritamente pessoais:

1. Logo às 9 da manhã, João Proença dizia que não ía participar na manifestação porque não tinha sido convidado. "Ó diabo", pensei, "será que posso ir?". No fundo, ninguém me tinha convidado. Habituado ao sindicalismo em slalom de João Proença, não estranhei. Ainda há dois dias o vi subscrever um documento - o do Impulso Jovem -, no qual não acredita. Ora porra, então se não acredita porque o subscreve?

2. O Terreiro do Paço estava cheio, mesmo cheio, e as ruas em volta também. Largos minutos depois de Arménio Carlos ter concluído a sua intervenção a cauda da manif ainda vinha na Rua do Ouro.

3. Para os que se preocupam com aqueles cálculos marados do 3-pessoas-por-m2, 5-pessoas-por-m2, posso garantir que o sítio mais concorrido era o da bicha das imperiais. Uma massa compacta.

4. O discurso de Arménio Carlos foi um bocadinho peixe-espada. Menos uns 15/20 minutos e teria sido ótimo. Ainda assim, teve um momento de animação, quando disse que estava contra isto e conta aquilo e "contra a CGTP". Eu reparei e um senhor que estava atrás de mim, de chapelinho branco, óculos escuros e toque à gangster dos anos 30, também.

5. Cantei o "Grândola, vila morena" e a "Internacional" sem me enganar.

6. À saída cruzei-me com a inacreditável Ana Benavente e resisti a dar-lhe um calduço.

7. Valeu a pena esta jornada em Lisboa. A CGTP marcou pontos, a Esquerda mostrou que está presente. Tirar ilações é fácil e é bom que quem está nos tapetes fofos das chancelarias perceba uma coisa óbvia: as pessoas estão fartas e já não aguentam mais. Por mais que os super-especialistas, como António Borges, insistam que é o sol que gira em volta da Terra.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

OUTONAL PRIMAVERA

Merkel ía à Tunísia ver a primavera. Teve de adiar a visita, por razões de segurança. Na Líbia, os americanos decidiram reduzir a representação diplomática. Provavelmente, antes que os radicais líbios o façam. O Iraque e o Afeganistão (que não é árabe) são banhos de sangue diários. A Síria está em guerra e não terá paz por muitos anos.

Está em gestação um problema muito sério. Chama-se Irão. Mossadegh deve estar em cima de uma nuvem, a rir de tudo isto.

Não sei porquê, mas os teóricos primaveris andam, nos últimos tempos, muito sossegados.

PORT-SOUDAN

Agora que inicio a escrita de um livrinho sobre uma esquecida cidade tropical é o momento de regressar a um livro já com uns anos. Port-Soudan, de Olivier Rolin, não é um clássico livro de viagens. Mas as situações descritas e as evocações que surgem são difíceis de aceitar noutros ambientes. Ou não? Ao ler "J'échouai à Port-Soudan, où une succession de hasards me fit d'abord remplir l'office de harbour master. Lorsque le port eut pour ainsi dire disparu, comme englouti dnas le naufrage générale du pays, je cumulai ces fonctions désormais symboliques - et que d'ailleurs me déniaient des bandes de pittoresques assassins, promptes à razzier les batteaux que le hasard ou l'inattention jetaient dans la passe - avec celles, guère plus encombrantes, de consul honoraire de la République malgaxe".

O ambiente pesado e cinzento da minha cidade, o seu porto decrépito, a presença de figuras sinistras arrancadas a tempos idos fizeram-me sentir muito perto de Port-Soudan. As latitudes não se afastam demasiado: 19º a norte para Porto Sudão, 11º a norte para a minha cidade.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

O DESTINO MARCA A HORA

É o momento kitsch da semana. Mas o filme é tão mau, os diálogos tão impossíveis e a direção de atores tão inexistente que esta história de amores desencontrados se torna hilariante. Há um arremedo de beijo aos 2.10, mas o melhor é a cena erótica (entre os 2:55 e os 4:30). Os olhos de carneiro mal-morto de Isabel de Castro (como é que é possível pôr a representar tão mal uma pessoa tão talentosa?), a roupa pelo chão a sugerir poucas-vergonhas e, sobretudo, aquele inesquecível "a água está a ferver" são um monumento ao pirismo. Era assim o cinema português, em 1970. O destino marca a hora, realizado por Henrique Campos, e com o galã Tony de Matos, não está disponível em DVD. E, isso sim, é pena.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

O DESTINO É UM RIO


Perguntara-me já vezes sem fim
se os deuses decidiam o meu destino
ou se era eu, com menos ou mais tino,
que livre escolhia entre não e sim.

Esse vento ora doce ora ruim
que me assoprava assim tão sibilino
tornava turvo o que era claro e fino,
fado estranho com que me desavim.

Devo remar então contra a corrente
ou, vencido, deixar-me ir rio abaixo?
Pergunto-lhes sem que nenhum sinal

me traga luz assim suficiente.
Sozinho, e entre altivo e cabisbaixo,
continuo meu caminho sem igual.



O Bagdad Café não é só o do filme. Há outro, no deserto da Síria, na estrada que leva ao oásis de Palmyra. O post do dia teve como inspiração a ideia do destino, a partir de um soneto de Francisco Caramelo. Que é especialista no Oriente Antigo e tem projetos de investigação na Síria. Isto anda tudo ligado.

Tendo em conta a minha incapacidade em escrever poesia, fiquei verde de inveja quando o Francisco, no meio da aridez das avaliações da FCT, me disse que gostava de escrever sonetos. Muito bonitos, refira-se. Podem procurá-los no facebook escrevendo "o mito é o nada que é tudo".

terça-feira, 25 de setembro de 2012

MAIS UM "GRANDE MOMENTO" DA POLÍTICA LOCAL

Aquilo que fazemos nas autarquias, tem, por vezes, leituras bizarras. Que, noutras ocasiões, roçam o caricato.

Na Assembleia Municipal de ontem, em Moura, o Presidente da Junta de Freguesia do Sobral da Adiça, João Dinis, instou a Câmara a fazer junto da PT e da ANACOM, e para as freguesias rurais, as mesmas diligências que já tinha feito para a sede do concelho, quanto ao funcionamento da TDT.

Ora bem, quem reuniu com as administrações da PT e da ANACOM foi o autor deste blogue. Que, naturalmente, entregou um dossiê, com um levantamento da situação referente a todas as localidades do concelho. Os trabalhos e os contactos continuam. Por qualquer motivo, João Dinis "decidiu" que eu tinha tratado apenas de resolver os problemas verificados em Moura. "Imaginar" coisas destas revela: 1) desconhecimento dos problemas; 2) impreparação.

ANÁBASE

Para alguém que se dedica à História, os compromissos diários deixam pouca margem de manobra para o regresso (ou a descoberta) dos clássicos. Consegui arranjar tempo, nos últimos dois dias, para a leitura de Anábase, de Xenofonte. Que se revelou mais importante do que supunha. Não tanto pela marcha para o interior da Babilónia, mas sobretudo pela encruzilhada em que os gregos ficam, depois de perdido o seu líder. Isolados em terra estranha, a milhares de quilómetros de casa, são obrigados a empreender um longo e penoso regresso.

Em que momento se toma a decisão errada, que vai depois desencadear outras? Como somos o resultado de hesitações e como nos deixamos condicionar? As questões que Xenofonte me suscitou ou evocou foram mais impressivas que a narrativa dos factos ou a descrição dos ambientes daquela época.

Xenofonte escreveu Anábase entre 390 e 370 a.C.


Mapa do percurso

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

OS SENHORES QUE SE SEGUEM...

Aparentemente, Lance Armstrong vai ficar sem os seus 7-títulos-7 do Tour de France.

"Confused? You won't be, after this week's episode of...Soap."

Quem são os novos vencedores? Em princípio, os segundos desses anos. E quem são os senhores?

1999 – Alex Zülle, que esteve envolvido no affair Festina e que também se dopou.
2000/1/3 – Jan Ullrich, que foi apanhado na Operación Puerto.
2002 – Joseba Beloki.
2004 - Andreas Klöden, que em 2006 seria acusado de estar envolvido no caso das transfusões de sangue na Universidade de Freiburgo.
2005 – Ivan Basso, que também esteve envolvido em balbúrdias de doping. Nesse ano o 3º foi Jan Ullrich, mais tarde desqualificado nesse Tour por causa do doping.

Just in case, os últimos classificados desses anos foram:

1999 – Jacky Durand
2000 – Olivier Perraudeau
2001 – Jimmy Casper
2002 – Igor Flores
2003 – Hans De Clercq
2004 – Jimmy Casper
2005 – Iker Flores

Bem vistas as coisas, Jimmy Casper ainda pode ser bi-campeão.

"These questions—and many others—will be answered in the next episode of...Soap."

38º NORTE 9º OESTE



Lisboa com suas casas 
De várias cores, 
Lisboa com suas casas 
De várias cores, 
Lisboa com suas casas 
De várias cores... 
À força de diferente, isto é monótono. 
Como à força de sentir, fico só a pensar. 

Se, de noite, deitado mas desperto, 
Na lucidez inútil de não poder dormir, 
Quero imaginar qualquer coisa 
E surge sempre outra (porque há sono, 
E, porque há sono, um bocado de sonho), 
Quero alongar a vista com que imagino 
Por grandes palmares fantásticos, 
Mas não vejo mais, 
Contra uma espécie de lado de dentro de pálpebras, 
Que Lisboa com suas casas 
De várias cores. 

Sorrio, porque, aqui, deitado, é outra coisa. 
A força de monótono, é diferente. 
E, à força de ser eu, durmo e esqueço que existo. 

Fica só, sem mim, que esqueci porque durmo, 
Lisboa com suas casas 
De várias cores.



Lisboa, com suas casas de várias cores, por Álvaro de Campos, por Tomás de Mello (Tom) e por Gimba. A cidade que fica 38º a norte e 9º a oeste. Uma cidade alegre e triste. Agora que a primavera está quase a chegar. Juro que está.

domingo, 23 de setembro de 2012

A CHUVA, PISSARO, SULLY PRUDHOMME E A CHUVA


Pluie

Il pleut. J'entends le bruit égal des eaux ;
Le feuillage, humble et que nul vent ne berce,
Se penche et brille en pleurant sous l'averse ;
Le deuil de l'air afflige les oiseaux.

La bourbe monte et trouble la fontaine,
Et le sentier montre à nu ses cailloux.
Le sable fume, embaume et devient roux ;
L'onde à grands flots le sillonne et l'entraîne.

Tout l'horizon n'est qu'un blême rideau ;
La vitre tinte et ruisselle de gouttes ;
Sur le pavé sonore et bleu des routes
Il saute et luit des étincelles d'eau.

Le long d'un mur, un chien morne à leur piste,
Trottent, mouillés, de grands boeufs en retard ;
La terre est boue et le ciel est brouillard ;
L'homme s'ennuie : oh ! que la pluie est triste !

René-François SULLY PRUDHOMME   (1839-1907)


Não é que chova em francês, aqui no blogue. Mas o poema e o quadro de Camille Pissaro (1830-1903) vão a par deste domingo, ora chuvoso, ora não. A pintura, de 1898, retrata a Avenue de l'Opéra.

A PRIMEIRA CHUVA DO OUTONO


O Guadiana, perto da confluência com o Oeiras e visto a partir da minha sala no Campo Arqueológico, às 11.55 de hoje.

TAURUS E TAURO - VEJA AS DIFERENÇAS


Post raiano, dedicado aos amigos de Moura, Serpa, Cortegana etc., e motivado por um equívoco de uma amiga, no facebook.

Taurus eram aquelas varinhas mágicas baratuchas que a malta ia comprar à Casa Mário, ao Rosal de la Frontera. E depois havia sempre chatices na Alfândega, com os carros a serem passados a pente fino, à procura dos pirexs e das garrafas de Fundador (blagh!).

Tauro era o nome de um grupo de baile luso-espanhol - os lusos na fotografia são o António José Caeiro, o Apolo e o Quim, nos extremos esquerdo e direito e ao centro -, que marcava presença em todos os bailes da margem esquerda do Guadiana. Um dos grandes sucessos do grupo, na secção slows, era a balada Gavilán o paloma, de Pablo Abraira. Às vezes era tão slow, tão slow, que era mesmo stopped.

(post corrigido graças a uma observação feita pelo Mário Catarrunas)

Foto promocional, no castelo de Moura

A TSU, PASSOS COELHO E MICHAEL JACKSON - pequeno ensaio de análise política

O moonwalking é aquela cena em que se vai a andar para trás dando a ilusão que se está a andar para a frente. Está explicada a história da TSU.

Escusam de agradecer.

PASSES DE MULETA - 3: CAMBIADO

Mais toureio. Mais espetáculo.

Causa sempre sensação, quando se cita a longa distância (Sebastian Castella é exímio a fazê-lo).  O toureiro oscila a muleta e coloca-a detrás das costas, de modo a que o touro passe por detrás, mantendo-se o matador imóvel e perpendicular ao animal. Sebastian Castella e Miguel Ángel Perera são dois dos mais renomados "utilizadores" do cambiado pelas costas. Há uma variante designada como pêndulo, criada por Carlos Arruza em 1953, que é ainda mais eletrizante.


Na imagem: Tulio Salguero

sábado, 22 de setembro de 2012

A CAMINHO DE ÁFRICA


Não sou eu. É o País. Ou, melhor dizendo, é África que vem em nossa direção. A ave da fotografia é o grifo pedrês (Gyps rueppellii). Diz na net, acreditemos na net, que é frequente em África, incluindo o Sudão, a Tanzânia e a Etiópia. Abutres já cá temos um par deles... Mas esta "aparição" é especialmente interessante.

Trabalho do fotógrafo Pinto Moreira, na Herdade da Contenda, em Moura. Ver mais trabalhos deste meu conterrâneo e amigo, com especial incidência nas aves, em http://www.flickr.com

AGORA QUE O VERÃO ACABA - Ω

... desaparecem algumas imagens.

Vão-se os cinemas de ar livre, um dos verdadeiros ícones do sul. Restam muito poucos - restará, de facto, algum em permanência? - mas a tradição permanece. Aqui e além vão sendo montadas estruturas provisórias, que dão luz e som durante as noites de verão. Agora, com o outono e as primeiras chuvas são, também, essas luzes que se apagam. Até ao próximo verão.

A Esplanada Mercedes, sítio de recordações vivas para muitos amarelejenses

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Α - AGORA QUE O VERÃO ACABA...

... some-se também o som.


Que som? O das festas. Cujos "espetáculos de variedades", tenho saudades de ler isto nos programas, têm PA cada vez mais potentes e ensurdecedores. O cúmulo do ridículo são aqueles conjuntos de baile absolutamente banais, que insistem em fazer check-sounds, que se prolongam, horas a fio. Uma das últimas cenas que assisti, no concelho de Moura, tornou-se hilariante, de tão irreal. A "banda" tinha um repertório especializado no setor pimba. O que nos obrigou, durante mais de uma hora a ouvir/ver o ensaio. Repetiam e tornavam a repetir, como se fossem uma coisa assim tipo Rolling Stones. Não havia nada a melhorar, mas eles levavam-se muito a sério.

É uma das vantagens do outono. A par de uma certa melancolia, as nossas terras cobrem-se de silêncio.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

BOA SORTE, LURDES!

De vez em quando, há notícias simpáticas. Uma jovem mourense, Lurdes Chagas, acaba de ganhar, em conjunto com Elsa Barrelas, um prémio nacional destinado a jovens finalistas de arquitetura. Vencer a concorrência não foi, decerto fácil. Até porque estamos a falar do Prémio Secil Universidades, o mais prestigiado galardão nacional nesse domínio.

O projeto que apresentaram denomina-se Casa Vertical - design for Aging. Algo me diz que o tema se me torna cada vez mais pertinente. Ver mais informação no site da AICEP (v. aqui). A notícia foi dada, em primeira mão, pela Rádio Planície (v. aqui).

Os meus parabéns e os maiores votos de felicidades para a Lurdes e para a Elsa. Este momento é só o começo.

O desenho não é da Lurdes nem da Elsa. É de Andrea Palladio.
Alguém que lhes foi essencial no percurso de aprendizagem.

OUTRA VEZ O RAIO DAS PRAXES...

video

Pátio da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (UNL)

É uma pequena mania minha, que quem me conhece sabe que vem desde o 1º ano da faculdade. Mas a verdade é que ODEIO as praxes, que considero uma das mais sublimes manifestações da imbecilidade humana.

OK, já desabafei, que isto de ter blogue é mais barato que a psicanálise.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

O SÉTIMO SELO

Depois de eros, thanatos. É uma das mais célebres cenas da História do Cinema. A Morte vem buscar o Cavaleiro, que tenta protelar a sua hora, propondo um jogo de xadrez. A Morte vence, claro. Porque vence sempre. E porque a morte vai trocando as voltas ao cavaleiro, ao longo do filme.

O sétimo selo (1957), de Ingmar Bergman, é um filme sublime, belissimamente fotografado. Aqui fica um excerto do seu início, como escolha da semana.

Os "Monty Python" parodiaram o final de O sétimo selo na obra O sentido da vida. Todos se recordam, decerto, de efeito letal da mousse de salmão.

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ARTE ISLÂMICA - 2/10


É uma das mais invulgares peças de arte islâmica. Não é só pela figuração, mas pelo facto das representações conterem temas eróticos. Esta braseira provém do palácio de al-Fudayn e encontra-se hoje no Museu Arqueológico de Amã. Data do século VIII. Uma época em que os califas dedicavam boa parte do tempo entregues aos prazeres da vida. São conhecidos os hábitos de libertinagem de al-Walid II, que tinha uma piscina cheia de vinho. Não recordo agora se era este califa o que mergulhava na piscina completamente nu, convidando depois os músicos e as dançarinas que tinham estado a atuar a juntarem-se-lhe. Daí que a braseira deva ser entendida no contexto da sociedade em que foi usada.

Ver mais informação em:
http://www.discoverislamicart.org/database_item.php?id=object;ISL;jo;Mus01;6;en


A minha alma adora-te mesmo se a torturas
e uma alegria a excita para ir ao teu encontro.

É estranho que a nossa ligação se torne impossível
quando os nossos desejos concordavam.

Que desejaria pois meu coração
quando te procurou sem poder obter-te
quando os meus olhos te quiseram e te viram?

Como eu desejo que não esteja presente o raquib
quando nos encontrarmos
e assim obterei o favor de me dessedentar
na deliciosa fonte dos teus lábios purpurinos.

O poema intitula-se À cantora Tarab e foi escrito por Ibn Ammar no século XI. O raquib era o dono da cantora. A versão que aqui se apresenta é a de António Borges Coelho em "Portugal na Espanha Árabe".

terça-feira, 18 de setembro de 2012

ZERO

Tinha o hábito, mais que discutível, de não dar classificações inferiores a 6. Achava uma terrível e dispensável humilhação um aluno chegar à pauta e ver lá escarrapachado um 2 ou um 3.

Tudo mudou no belo dia em que me entregaram um trabalho de final de ano. Comecei a ler o texto e achei a informação interessante e bem alicerçada (talvez demais, até...). O pior era o português. As frases eram complicadas e pareciam escritas às arrecuas. Ao fim de meia página, as dúvidas dissiparam-se: o texto era uma versão feita a partir de um tradutor automático. Peguei numa frase, escrevi-a em inglês e meti-a no google. Bingo! Fui parar a um texto de um conhecido autor, que escrevera sobre aquela matéria. O trabalho que me fora apresentado era um plágio desse texto, traduzido às três pancadas. Quando o diretor do curso viu a pauta veio ter comigo, com ar preocupado: "É a primeira vez que se atribui um zero. Que é que aconteceu com aqueles dois alunos?". Expliquei o caso em poucas frase e entreguei-lhe o trabalho, acompanhado de uma cópia do texto original. Mantive o zero e fiquei (ainda) mais alerta, a partir daí.

O ano letivo começa agora. São tempos decisivos para muitos milhares de jovens. Que não relvem o futuro é a prece que faço.



FEIRA - DOIS DIAS DEPOIS


A feira, entre os tempos idos e os dias de hoje. O calendário foi cumprido, a animação fez-se sentir, os mourenses fizeram a sua feira. Quatro dias prego a fundo, no Parque Municipal de Feiras e Exposições. Quatro dias de iniciativas. Quatro dias na companhia do cante alentejano, tema da exposição de entrada na feira. No final, um pouco de polémica, que estas coisas sempre dão um certo tempero: o concurso de petiscos forneceu um pódio pouco habitual. Em primeiro lugar ficou o Núcleo Sportinguista de Moura, em segundo o Clube H2O, em terceiro a Associação de Reformados. A Casa do Benfica em Moura teve direito a uma menção honrosa.

A Feira Empresarial de maio de 2013 começa a ser organizada na próxima semana.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

A TROIKA, A NOBREZA E O POVO

As manifs foram assim. Colossais. Não participei na de dia 15, mas dia 29 lá estarei. Muita gente nunca tinha desfilado, tenho disso a certeza. As medidas postas em prática não estão a funcionar e as pessoas estão desorientadas e com medo. Daí ao aparecimento de propostas redentoras e caudilhistas vai um pequeno e perigoso passo.

O país está a ser alvo de experimentações? Pois, sem dúvida. Já aqui o disse, sem ter exatamente descoberto a pólvora...

No meio da troika e do povo aparece a nobreza. Foi quase divertida a entrevista de Alexandre Soares dos Santos à TVI. Sobranceria e vaidade. Veio explicar às massas ignorantes que mais importante que a manifestação foi uma coisa que ele organizou no CCB sobre o futuro de Portugal. O convidado de honra foi um futurólogo americano, Andrew Zolli, que veio debitar um chorrilho de banalidades (pelo menos foi o que ouvi/vi na TV, a menos que me tenha calhado a parte má...) sobre o futuro que temos à frente. Alexandre Soares dos Santos também aconselhou o "pirem-se daqui". É sempre bom sabermos quem são as "elites" que nos aparecem pela frente. E a forma como olham o País. E constatarmos que, obviamente, não conhecem Portugal.

A CAMINHO DA SUCATA

Que farei com estes artefactos pré-históricos? Primeiro foi a Kodak, agora é a Fuji. Deixaram de fabricar películas. Descontinuaram a produção, como agora se diz. Um dia destes vou ter de descontinuar o uso das minhas relíquias: uma Nikon FM2 (comprada nova em 1982), uma Leica R7 (1998) e uma Leica M6 (1999).

Quando comprei a M6 fui mostrá-la, todo orgulhoso, a um especialista. Que me disse, logo, "oh pá fizeste mau negócio, é que vai sair a M7". Adoro os especialistas, que estão sempre um passo à frente, e que estão sempre prontos a desmoralizar o próximo ("compraste o novo pc XPV4? grande barrete, acaba de sair o XPV5"; "vais de férias para o Faial? chiii, asneira, a Terceira é muito mais interessante" etc.).

Apesar da má compra, a M6 tem sido uma companheira fiel e que nunca falhou. Só falhará quando os rolos a preto e branco forem varridos da face do planeta. Já não faltará muito.

domingo, 16 de setembro de 2012

PHOTOSHOP NO SÉCULO XVIII

Nas exposições reparamos, por vezes, em coisas que estão à margem e que se convertem, subitamente, no elemento decisivo. Foi um pouco isso o que me aconteceu, ao ver a exposição sobre a obra de Machado de Castro. A peça nº 61 é um desenho de António da Rocha, com o seguinte texto «Chegada da estatua equestre de sua Magestade Fidelissima el Rey D. José ao Terreiro do Paço na zôrra que a conduziu da Fundição no glorioso dia 25 de Maio de 1775 com grande concurso do povo contando sua Magestade 60 annos de hidade. António da Rocha o fez do naturale».

A zorra era uma carro de quatro rodas, para transporte de objetos pesados. Aquilo que modernamente designamos de "transporte especial".

O que mais me chamou a atenção foi o facto de António da Rocha ter decidido destacar a zôrra pintando-a de vermelho. Um verdadeiro trabalho de photoshop, que foca a nossa atenção tanto no meio de transporte como na própria estátua.



sexta-feira, 14 de setembro de 2012

MOURARIA - DA RUA DO CAPELÃO À RUA DO BENFORMOSO


Às voltas na Mouraria, entre uma reunião e outra. A Mouraria é um dos mais extraordinários sítios de Lisboa. Em tempos prolongava-se mais um pouco para norte. Recorde-se que a Rua do Forno de Tijolo se chamava, no século XIX, Calçada do Almocavar (ou seja, do calçada do cemitério muçulmano). Na mouraria moraram, até ao final do século XV, os muçulmanos de Lisboa, confinados a um ghetto. É um bairro popular e de povos. Nos últimos tempos, foi "tomado de assalto" por indianos, paquistaneses, senegaleses, guineenses etc. Bairro à margem da cidade, antes e depois.

Passei em frente à casa onde morou Fernando Maurício. Virei depois em direção à Rua dos Cavaleiros. Na esquina, um choque entre tradição e modernidade. Chega uma viatura do INEM, sirene a apitar e luzes por todo o lado. Trava a fundo e pergunta o condutor "onde é o Largo das Olarias?" (estranha pergunta para quem vai de urgência e nem um raio de uma planta da cidade tem). Salta uma matrona de negro, gorducha e redonda "ó querido, tens de virar ali à direita". O carro arranca e toma o caminho errado. Estão quatro pintas encostados a um chaveco; grita um de forma a ouvir-se no Rossio "não é por aí pá; éxtúpidocumócaralho". O carro corrige a rota. Rio baixinho e sigo para a Rua do Benformoso. Há casas à venda. Da EPUL. A 200.000 euros, no meio da populaça. Não sei quem irá ali viver. Mas não será nenhum artesão indiano, nem a matrona de seios melancia, nem o mangas da esquina da Rua dos Cavaleiros. A reabilitação torna-se anchluss. A burguesia anexa os espaços do povo. Que há-de ir viver para a periferia. Criando aí novas mourarias. E assim sucessivamente.

O VIRTUOSO MACHADO DE CASTRO


Admiti ao Anísio que "isto deve ser da idade...". Gostei da exposição sobre Machado de Castro - "é o melhor que temos e não é grande coisa", dizia-me, há tempos, um historiador de arte que acha a produção pátria uma coisa da segunda divisão -, alicerçada em textos do próprio e de grande clareza didática. E digo que deve ser da idade porque há uns bons trinta anos abominava tudo o que tivesse a ver com a arte barroca. Efeitos secundários das aulas de arte bizantina, nas quais éramos metodicamente instruídos a detestar tudo o que viesse a seguir ao século XV e até ao advento do Realismo. Ainda hoje me divirto a recordar a teatralização sobre a inutilidade dos jardins renascentistas. Com um especial carinho pelo Jardim da Manga, em Coimbra...

É, sobretudo, uma virtuosa exposição, onde sopra o vento do barroco. O processo de construção da arte, aspeto para mim decisivo nesta mostra, está presente nos textos de Machado de Castro, na extensa lista dos seus colaboradores, nos esquiços e projetos que nos deixou, algumas vezes sem terem sido concretizados. O Anísio gostou que eu tivesse gostado. E prometeu que visitaria Mértola em breve. Coisa que faz há mais de vinte. Refiro-me à promessa, não à ida.

O Virtuoso Criador. Joaquim Machado de Castro (1731-1822)


Comissários científicos: Ana Duarte Rodrigues e Anísio Franco
Até 30 de setembro

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

A SÍRIA NA PLANÍCIE MEDITERRÂNICA

Amanhã arranca a Planície Mediterrânica, em Castro Verde. É o Festival Sete Sóis Sete Luas, que já vai na vigésima edição.

Fui surpreendido por um telefonema do Carlos Pedro. Que sabia que havia fotografias minhas da Síria e que as queria expôr em conjunto com as do Rui Tremoceiro e do Pedro Barros. Por mim não havia problema, eu não sabia é se eles consentiam que as minha tentativas ficassem ao lado dos trabalhos deles. Eles consentiram. Vai daí tive de esvaziar as paredes do gabinete, na Câmara de Moura e mais algumas de casas de familiares (que foram, em tempos, flagelados com a oferta de fotografias). A Síria em três ollhares estará patente ao público durante o festival. Que vai de 14 a 16 de setembro. Mesmo em cima da feira de Moura, grande pontaria...

Programa completo da Planície Mediterrânica em:


De ocidente para oriente, e vice-versa. Da Síria para Santarém. Das palavras de Ibn Sara para Levante. A tradução é de um grande poeta, António Borges Coelho.

O zéfiro e a chuva

Se buscas remédio no sopro do vento
sabe que em suas baforadas há perfume e almíscar.
Vêm a ti carregadas de aromas como mensageiros
com saudações da amada.

O ar prova os trajes das nuvens, escolhe
um manto negro.

Uma nuvem carregada de chuva faz sinais
ao jardim saudando-o
e logo chora enquanto as flores riem.

A terra dá pressa à nuvem para que lhe acabe o manto
e a nuvem com uma das mãos tece os fios da chuva
enquanto com a outra borda flores de enfeitar.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

MOURA TAURINA

Quatro grupos de forcados, quatro praças de touros, duas ganadarias. É essa a realidade do concelho, neste domínio Em maio a Câmara Municipal classificou a tauromaquia como Património Cultural Imaterial de Interesse Municipal. Trata-se de defender e promover tradições ancestrais. As quais não são alheias aos tempos que vivemos.

Moura faz parte, juntamente com outros 39 municípios, da Secção de Municípios com Actividade Taurina da ANMP. O site Moura Taurina é mais uma forma de dar visibilidade a este importante setor de atividade. A apresentação terá lugar no dia 14 de setembro, pelas 18.30, no auditório da COMOIPREL, e contará com a intervenção do meu amigo José Chaparro, historiador e crítico tauromáquico.


Ver, a partir de sexta-feira ao fim do dia: www.cm-moura.pt/mourataurina

terça-feira, 11 de setembro de 2012

UM POUCO MENOS DE ARQUITETURA, POR FAVOR...

Quem não tiver fotografado a torre de menagem de Trancoso já não o poderá fazer. Pelo menos, de forma a que se veja a torre e não "a intervenção". O acesso que recentemente se criou oculta o monumento. Um arquiteto meu amigo - pessoa de grande talento, alicerçado num conhecimento dos materiais e das formas tradicionais - diz-me, amiúde, "naquele edifício não há muito a fazer em termos de projeto; já há ali arquitetura de sobra". O contrário é a arquitetura pinoca e vaidosa, a querer existir a todo o vapor. O arquiteto que concebeu aquele acesso é um homem talentoso? Não duvido. Mas o projeto que concebeu é excessivamente visível e oculta uma peça essencial do nosso património cultural. Ficámos a ganhar com esta recuperação? Não ficámos, por mais que se tente disfarçar a desgraça com profundas elocubrações e teóricas justificações. 

 

EL JARDÍN DE LOS SENDEROS QUE SE BIFURCAN

(...)
Llegué, así, a un alto portín herrumbrado. Entre las rejas descifré una alameda y una especie de pabellón. Comprendí, de pronto, dos cosas, la primera trivial, la segunda casi increíble: la música venía del pabellón, la música era china. Por eso, yo la había aceptado con plenitud, sin prestarle atención. No recuerdo si había una campana o un timbre o si llamé golpeando las manos. El chisporroteo de la música prosiguió.

Pero del fondo de la íntima casa un farol se acercaba: un farol que rayaban y a ratos anulaban los troncos, un farol de papel, que tenía la forma de los tambores y el color de la luna. Lo traía un hombre alto. No vi su rostro, porque me cegaba la luz. Abrió el portón y dijo lentamente en mi idioma:

—Veo que el piadoso Hsi P'êng se empeña en corregir mi soledad. ¿Usted sin duda querrá ver el jardín?

Reconocí el nombre de uno e nuestros cónsules y repetí desconcertado:

—¿El jardín?

—El jardín de los senderos que se bifurcan.
(...)


Talvez, como nenhum outro, este conto de Borges regressa aos meus dias, de forma persistente. Não creio que seja tanto pelo anti-climax, que Crónica de uma morte anunciada levaria à perfeição, mas pela impossibilidade de Yu Tsun lutar contra o seu destino. Os labirintos de Borges são, com frequência, legíveis e visionáveis. São, nesse sentido, particularmente (cinemato)gráficos. Não tenho dúvidas que o que neles me fascina é, também, isso. O outro tema, o que se esconde no jardim, quase se me torna secundário.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

FEIRA DE SETEMBRO 2012

Vem aí a feira. A de setembro, a anual.

Highlights ou, como Lauro Dérmio, as luzes altas de um acontecimento que arranca no dia 13 à noite e vai até dia 16:

* A exposição sobre o cante alentejano e os desfiles de grupos corais;
* A mostra de aromas e sabores;
* O concurso de méis;
* O 3º forum da Escola Nacional de Caça, Pesca e Biodiversidade;
* O colóquio sobre apicultura;
* O concurso de petiscos;
* A apresentação do site mourataurina

Mais a feira tradicional, a animação musical e a presença massiva dos mourenses.


Ver: www.feirasdemoura.pt e www.mouraturismo.pt

domingo, 9 de setembro de 2012

MIGUEL BENTO

O senhor da fotografia chama-se Miguel da Conceição Bento e leciona no Instituto Politécnico de Beja. Conheço-o há 30 anos, desde os dias, já demasiado distantes, em que éramos colaboradores das escavações arqueológicas da alcáçova de Mértola. Às quais ele chegava, vindo de Alcaria Ruiva e sempre pontual, numa Casal ou numa V5 (engano-me sempre no modelo, por isso ponho os dois).

No outro dia contou-me que vai receber o "Prémio Cooperação e Solidariedade António Sérgio", atribuído pela CASES. Foi distinguido na categoria Estudos e Investigação com um trabalho intitulado Vida e morte numa mina do Alentejo. Pobreza, Mutualismo e Provisão Social – O caso de S. Domingos (Mértola) na primeira metade do séc. XX. Perguntei-lhe se se podia divulgar. Na altura ainda não. Agora já pode. A entrega é amanhã à tarde, na Fundação Calouste Gulbenkian.

Parabéns, Miguel!

Site do CASES: http://www.cases.pt/

sábado, 8 de setembro de 2012

COISAS QUE SE DIZEM NA NOSSA TERRA...

Post calêro.

A nossa terra (Moura) dá-me sempre motivos para descontrair, no meio da tensão diária.

Esta foi-me contada por fonte fidedigna e dá bem a medida como as coisas da política são, por vezes, lidas e percecionadas por quem está "por fora":

Um grupo de simpáticas reformadas discutia o futuro, numa conhecida pastelaria do centro da cidade. Uma delas garantiu, em tom enfático, que "o senhor vereador Messias está a tirar um curso no Algarve para concorrer a presidente da câmara". As outras senhoras aprovaram a ideia.

Apesar da improbabilidade da situação, o engraçado é o fenómeno de compressão dos factos e do tempo: o ter sido docente da Universidade do Algarve (em 2006/2007) e as eleições de 2013. Mas a ideia do curso tem o seu charme.

 
Nas margens do Ardila, em 1980.

No meio do grupo que o tio Zé designava sumariamente como os suspeitos do costume, muitos anos antes de ir estudar para o Algarve, para concorrer a presidente da câmara...

ALEXANDER MACKENDRICK - 8.9.1912

Alexander Mackendrick nasceu há exatamente cem anos. A sua carreira cinematográfica não foi particularmente prolífica (apenas nove longas-metragens) nem extensa (a última obra data de 1967, quando tinha 55 anos).

Talvez o seu filme mais conhecido seja O quinteto era de cordas (The ladykillers), uma brilhante comédia da fase dourada dos Estúdios Ealing. O argumento está cheio de boas ideias e tem um final à altura. Nunca mais se me apagou da memória Mrs. Louisa Wilberforce, a velhinha que não pára de dizer "Boccherini, Boccherini", cada vez que os supostos músicos ensaiam. Trata-se de um minueto, o terceiro andamento do célebre Quinteto para cordas em Mi maior, op. 11, nº 5, G 275. Garanto que é mais agradável de ouvir (aqui) do que de dizer. Podem ver o espetáculo de interpretação dado por Alec Guiness numa das cenas do filme (aqui).

O meu filme semanal é, ainda assim, outro. É um dos meus filmes favoritos de juventude e que, por isso mesmo, tenho reserva em rever. Os nossos olhos mudam e a poesia das coisas desaparece. Trata-se de uma obra que teve dois títulos - Sammy going south (na Grã-Bretanha) e A boy ten feet tall (nos Estados Unidos) - e cujo nome português desconheço. Conta a história de um rapaz cujos pais são mortos e cuja casa é destruída durante a crise do Suez. Sammy resolve por-se, sozinho, a caminho de Durban, a mais de 6500 kms., onde vive a sua tia. As peripécias são inúmeras e Sammy going south foi fustigado por várias razões. Em particular pelo seu "paternalismo" para com os africanos. O que me ficou gravado, até hoje, não foi o paternalismo ou a procura de uma abordagem realista por parte de Mackendrick. Mas sim, e quase só, a longa jornada solitária de Sammy em direção a sul. Aqui fica a única cena que encontrei, a recordar uma outra do filme Shane. É menos onírica que a ideia da viagem, mas tem nervo. Já não se fazem filmes assim. Agora quem manda são os computadores.