quinta-feira, 29 de novembro de 2012

PALESTINA

A Palestina foi hoje admitida como Estado observador não membro na ONU. Portugal votou a favor. Foi um dos 138 estados a fazê-lo. Houve 41 abstenções e 9 votos contra (para memória futura: Israel, Canadá, Estados Unidos, República Checa, Ilhas Marshall, Micronésia, Nauru, Palau e Panamá).

Tive o prazer de participar, ao fim da tarde, numa sessão de solidariedade com o povo da Palestina - numa altura em que o resultado da votação ainda não era conhecido -, juntamente com Muffed Shami (embaixador da Palestina), Adel Sidarus (Universidade de Évora), Silas Cerqueira (Conselho Português para a Paz e a Cooperação) e Carlos José Almeida (IICT). A iniciativa foi promovida pelo Movimento pelos Direitos do Povo Palestino e pela Paz no Médio Oriente.

Ver: http://www.mppm-palestina.org/

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

FERNANDO CABRAL


Para alguém que não liga por aí além à roupa (eu), e que apenas cuida de comprar vistosas camisas de verão, gasto algum tempo a seguir as novidades da moda. Por isso, o nome de Fernando Cabral não me era estranho. Este jovem modelo português, de origem guineense, tem feito uma destacada carreira internacional, tendo sido escolhido por Kate Moss para com ela contracenar.

O nome de Fernando Cabral surge agora envolto em polémica. Não consta de uma lista de nomeados para um prémio nacional de moda. A notícia correu rapidamente pelas redes sociais e foi objeto de uma crónica assinada por Kalaf Ângelo. Quando li a crónica não pude deixar de pensar "isto vai dar barraca". Claro que deu.

Qual o fundo da questão? O racismo. Fernando Cabral não foi nomeado por seu negro? A organização veio dizer que não, nem pensar, há um júri idóneo e muito profissional blablabla. Pois... O pior disto tudo é que fico com a sensação que a não nomeação de Fernando Cabral nem foi um ato deliberado. É que não se terão sequer lembrado que ele existe. O que é a pior das discriminações e o mais terrível dos racismos.

AÇORES - NOVO DIRETOR REGIONAL DE CULTURA

É a minha surpresa do dia. Tive há pouco conhecimento da nomeação do arq. Nuno Ribeiro Lopes como Diretor Regional de Cultura dos Açores. Fui colega do Nuno nao Departamento de Arquitetura da Universidade de Évora e sou amigo dele há já uns anitos.

O Nuno foi uma das pessoas a quem pedi colaboração, quando me vi com o "menino" do Urbanismo nos braços, na Câmara de Moura. Foi a ele que se ficou a dever uma utilíssima alteração ao Plano de Salvaguarda, que muitas dores de cabeça me viria a poupar. Poder contar com a ajuda do Nuno, profissional de vasto currículo (v. apontamento aqui) foi uma mais-valia inestimável, embora não falte quem, do alto de um homérico desconhecimento, pregue a possibilidade de fazer a maior parte dos projetos internamente. O tempo demonstrou o contrário. Felizmente para Moura.

Boa sorte!

A MARTINE O QUE É DE MARTINE

Um leitor do blogue, que assina wilson, teve a gentileza de enviar um comentário, informando-me de um erro que cometi ao "atribuir" uma fotografia, que aqui volto a reproduzir, a Cartier-Bresson, quando a autora da mesma é Martine Franck (1938-2012). Aqui fica a correção.



A poesia é um gozo

um uso sabido
do uso errado



A poesia é um gozo
e se o não é
a culpa é do vizinho do lado



A poesia é um gozo
de palavras paralelas
daquelas
que não há



A poesia é um gozo
como um osso
encravado



A poesia é um gozo
o leitor
deve sentir-se gozado



E. M. de Melo e Castro


Poderíamos substituir a palavra poesia por fotografia...

terça-feira, 27 de novembro de 2012

BATALHA NAVAL

Naquele jogo que ocupava os nossos dias de juventude, os submarinos eram sempre os mais difíceis de encontrar. Hoje também.

O punch-line desta história triste da compra dos submarinos (bem pode Paulo Portas esbracejar que os submarinos emergem ou submergem consoante as conveniências...) veio hoje na imprensa. A menos que se trate de mais um exemplo de desinformação ou de mais uma falsa notícia. Em que ponto estamos?

Diz o DN:
1. Há 490 milhões de euros em dívida de contrapartidas não executadas (Miguel Horta e Costa afirma que houve contrapartidas fictícias);
2. O governo aceita substituir os tais 490 milhões por um investimento de 150 milhões num hotel de luxo, deixando cair 19 investimentos na área industrial em troca deste empreendimento turístico;

Acrescenta o Correio da Manhã:
3. Dos 600 milhões em dívida (mau Maria, 490 ou 600?) 150 serão liquidados pela construção do hotel e "os restantes 450 milhões resultarão dos negócios gerados pelo avanço desse projecto".

Esperando que os cálculos de viabilidade do hotel não tenham sido elaborados pela empresa que fez os do aeroporto de Beja, só me resta ter uma remota esperança: que isto tudo não seja mesmo verdade.

E só mais uma coisinha: paguem o selo do carro com atraso, como eu fiz em 2008, e recebem em 2012 um papel das finanças a dizer que têm de pagar mais 15 euros a título de imposto de amnésia. Ou os 15 euros ou o cadafalso... Bem vistas as coisas, é melhor ficar a dever 490 milhões (ou 600, tanto dá).

CARO NOME

Não é uma Gilda, mas duas. A outra, a do filme, também tinha uma luva assim. E tirava-a com um estilo que incendiava os ecrãs. Aquele striptease da luva é muito melhor que dezenas de soraias que por aí andam. Um dia destes colo aqui no blogue a célebre cena do filme de Charles Vidor.

Esta Gilda é a que se apaixona pelo pérfido Duque de Mântua. Caro nome é uma das mais célebres árias do Rigoletto (primeiro ato). Neste caso, a interpretação é de Diana Damrau.

Porquê ópera? Porque a Pátria segue o seu caminho num trágico registo operático. Não só por isso, mas também.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

A ESCAVAÇÃO DO CASTELO DE MOURA, AO JEITO MINOXIDIL


Antes (em cima) e depois (em baixo)


Catorze meses separam as duas imagens. Duas longas campanhas volvidas, grande parte do trabalho, nesta área da escavação, está terminado. Centenas de metros cúbicos de terra foram removidos, num trabalho denso e que envolveu cerca de duas dezenas de colaboradores. O projeto, realizado a partir da Câmara Municipal de Moura, teve o apoio de entidades como a Universidade de Coimbra (através do CEAUCP), a Junta de Freguesia de S. João Batista, o Campo Arqueológico de Mértola e o Instituto Tecnológico e Nuclear. Os resultados da investigação estão a ser ultimados para uma monografia, cuja edição foi várias vezes adiada e que agora toma, de vez, forma.

As ocupações humanas vão, na área à vista, de meados do século XII ao século XX. Tão significativo como o conhecimento ou a compreensão da história da nossa cidade é o facto de ter sido possível fazer a integração das estruturas arqueológicas no perímetro do futuro posto de turismo, obra que agora se conclui.

Direção das escavações: José Gonçalo Valente, Vanessa Gaspar e o autor do blogue.
Equipa técnica de apoio: Marta Coelho, Luísa Almeida e Mário Romero.

Pequena picardia local: sei que estas coisas doem um tanto a alguns papagaios de serviço. Paciência. Ou, como dizia o outro, "habituem-se".

domingo, 25 de novembro de 2012

ANTENA ZERO

O País é todo igual? Claro que não é. E se há duas ou três décadas se pensou que era possível inverter tendências de macrocefalia hoje é mais que evidente que isso não está nos planos de quem governa. Elites pífias e mal preparadas traçam rotas e tomam decisões. A reorganização administrativa é mais um passo na liquidação do interior de Portugal.

Sítios como Mértola ou como Alcoutim resistirão uma ou duas décadas.  Não mais que isso. Outros concelhos, mesmo os de maior dimensão, irão pelo mesmo caminho.

Tenho, todas as semanas, várias vezes por semana, um pequeno símbolo dessa situação. Não é importante, nem decisivo, mas é ilustrativo. Quando faço o percurso de Moura para Mértola "perco" a Antena Um ao entrar na Serra de Serpa. Quando passo à Mina de S. Domingos só ouço a Cadena Ser, a Radio Nacional de España, o Canal Fiesta etc. Recupero as estações nacionais mais importantes ao chegar às curvas de Mértola. Há um Portugal invisível que inexiste nos grandes centros. Começa na serra algarvia e vai até ao país transmontano. É assim desde há muito. E não vejo do Poder Central uma única iniciativa para que seja de outra maneira.

Jovens num areal. Não é na Mina nem estão a ouvir a Antena Um.

VIRIDIANA

É um filme invisível, na medida em que os excertos presentes no youtube não podem ser copiados. Algo que, ironicamente, assenta bem a Viridiana (1960), de Luis Buñuel. Na verdade, o filme esteve invisível em Espanha até 1977.

A história da preparação do filme até começou bem, com o governo franquista a sugerir um cachimbo de paz a Buñuel, exilado há 25 anos. O cineasta bem se vingou, pintando a manta e fazendo desta história uma paródia de contornos blasfemos. Vejam-se as cenas da oração e da última ceia. Fica assim mais claro porque Franco não gostou do filme e tentou, por todos os meios, impedir que fosse exibido em Cannes. Sem sucesso.

O filme ganhou a Palma de Ouro em Cannes.
Luis Buñuel foi banido, de vez, até ao final do franquismo.

Viridiana é, sem qualquer imagem ao vivo, o filme desta semana.

sábado, 24 de novembro de 2012

RECONSTRUINDO O PASSADO


Faz e desfaz ao estilo Penélope. Cola e descola, uma, duas, muitas vezes. Os métodos convencionais não resolviam o problema. Vai daí, o Manuel Passinhas da Palma (o Penélope de serviço nesta história) criou uma solução original, cintando a peça de cerâmica com fitinhas de plástico e fazendo consolidações provisórias, que depois serão devidamente completadas. Um trabalho de minúcia e de paciência. Podia passar por uma instalação de arte contemporânea, mas não é. A isto chama-se engenho e talento.

Um pote medieval (sécs. XIV-XV) ganha assim nova vida. Mais uma peça para a reconstituição do passado de Moura. Mais uma obra de arte originalíssima.

QUASE NO FIM DA FEIRA DO LIVRO

Quase no fim da Feira do Livro de Mértola teve lugar a apresentação das mais recentes publicações do Campo Arqueológico de Mértola. Numa sessão quase familiar, foi dado conhecimento do trabalho que a equipa de bibliotecários lá da casa tem vindo a construir. Acervos patrimoniais é resultado do empenho da Armanda Salgado, do Bruno Almeida, da Filipa Medeiros e da Paula Rosa. A próxima apresentação terá lugar em Lisboa, no dia 6 de dezembro, e nela estarão, decerto, presentes os outros autores que deram corpo ao encontro que, há uns meses, teve lugar em Mértola.

Num segundo momento, a Susana Gómez e eu falámos, de forma breve, do nº 12 da Arqueologia Medieval. A revista acaba de cumprir 20 anos. Ninguém diria, no início, que o título iria durar tanto tempo. Muito boa gente apostou o contrário...

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

NA AMARELEJA

A Amareleja é a terra do sol e de bom vinho. Mas este noturno do blogue http://amareleja40grausasombra.blogspot.pt é bonito e sugestivo e por isso o escolhi.

O final do dia de ontem foi passado na Amareleja, entre a apresentação de um projeto que visa concluir a intervenção no Largo do Regato e a Assembleia Municipal.

A Assembleia Municipal teve dois pontos fortes, falando na perspetiva local:

1. A aprovação do lançamento do concurso da 1ª fase da UP 4 (zona industrial).
2. A aprovação do lançamento do concurso da 1ª fase do Pavilhão das Cancelinhas.

São dois processos em que estive/estou direta e pessoalmente envolvido e que vejo/vemos agora terem um avanço importante. E tranquilizem-se as "almas sensíveis". Sendo intervenções complexas, e que não se fazem de um dia para o outro, não poderão ser inauguradas antes das próximas autárquicas. Haja calma, ok?

Reafirmo o que tenho dito:

- Em relação à zona industrial só é agora é possível lançar esta fase a concurso. O projeto, de grande qualidade, foi elaborado por um ateliê de jovens e talentosos arquitetos.

- Quanto ao Pavilhão das Cancelinhas, cujo custo total era superior a 2,5 milhões de euros, teve de ser reconfigurado para se avançar, para já, com o pavilhão propriamente dito. Afirmar, como alguém insiste em fazer, que era possível mudar aquele projeto para outro sítio só pode ser visto como um exemplo da mais acabada e crassa ignorância.

E se há ideias para se avançar com um projeto para uma piscina e mais um museu e mais um pavilhão na Esplanada Mercedes fico a aguardar, com impaciência e curiosidade, os resultados de tal iniciativa.


Equipa autora do projeto da zona industrial - http://ateliermob.com/
Equipa autora do Pavilhão das Cancelinhas - http://www.vmsa-arquitectos.com/

É assim. O resto é conversa. Pouco interessante e ainda menos proveitosa.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

QUÍMICA MEDIEVAL?

À saída do Colégio de S. Jerónimo, estava ainda tão mergulhado nas cidades medievais que, olhando distraidamente para a parede do Centro de Imunologia, li (juro que li!) Licenciatura em Química Medieval. E, sem perder "balanço", dei comigo a pensar "raio de ideia para uma licenciatura...". Passados dois segundos de "delírio", olhei de novo para o painel e dei comigo a rir sozinho no meio da Praça Dom Dinis. Nas universidades tudo é possível, pelo que ninguém estranhou a minha atitude.

Por vezes, a realidade resulta daquilo que nela imaginamos. Mas só às vezes.

MORFOLOGIA E ARQUEOLOGIA

O encontro tem um daqueles nomes extensos: Ciclo Plurianual de formação em Arqueogeografia e Arqueologia do espaço — Cidade, espaço urbano: morfologia e Arqueologia. A minha participação não estava prevista, de início. Depois a Conceição achou que seria interessante apresentar as últimas novidades de Moura.

Assim se passou a manhã de ontem, no Colégio de S. Jerónimo, casa-mãe do CEAUCP em Coimbra, entre imagens da escavação e várias propostas sobre a ocupação medieval do castelo de Moura. Curiosa foi/continua a ser, para mim, aquela dicotomia entre o papel social do arqueólogo, no sentido mais direto da expressão, e o papel que a investigação tem enquanto forma de intervenção social. Quem está no terreno, como eu, tende a valorizar mais a primeira. Quem está a 100% na Academia enfatiza o papel da segunda. A troca de impressões, durante o seminário, com o meu colega Ricardo González Villaescusa, deixou-me ainda mais clara a diferença de perspetivas.


A igreja de Santiago, em voo picado (prefiro não dizer como fiz a fotografia...)

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

NO REMATE DA MALHA URBANA CONSOLIDADA

Foi um dos momentos mais traumáticos do meu percurso de autarca. A apresentação de um determinado plano numa localidade do concelho de Moura ficou liquidada com aquela resposta. Um dos autores do trabalho, depois de embrulhar o discurso num powerpoint esotérico sobre unidades de execução e cronogramas, resolveu tirar as dúvidas a um munícipe, a propósito da localização de um determinado terreno proferindo esta frase hieroglífica: "esse terreno situa-se no remate da malha urbana consolidada". O ar esgazeado do meu amigo B., assim como dos outros habitantes, não me deixou a mais pequena dúvida. Ninguém mais iria colocar perguntas.


Vem isto a propósito de mais uma proposta, elaborada em 1928 e não concretizada, concebida para o remate da malha urbana consolidada da zona oriental de Moura. Uma área que, pelos vistos, espicaçou a curiosidade e o interesse de vários autores. Esta planta de Jorge Segurado, que devo ao José Francisco Finha, mostra-nos a abertura de uma arrojada Avenida de Salúquia, que iria unir a zona da estação dos caminhos de ferro à Rua Dr. Garcia Peres, passando por uma Praça da República. A avenida romperia parte do bairro da Porta Nova, o Fojo e o Curralinho. Interessante é a criação de uma Rua João de Morais, mestre construtor ativo em Moura no século XVII. Uma forma indireta de homenagear a sua profissão de arquiteto.


Jorge Segurado (1898-1990) foi um grande arquiteto e historiador da arquitetura. Foi ele o autor da bela monografia sobre a Igreja de S. João, editada em 1929. Do seu talento saiu também um dos mais notáveis projetos do modernismo: a Casa da Moeda, em Lisboa.


terça-feira, 20 de novembro de 2012

OMONIA

Aquele início de 2006 foi tudo menos pacífico. Foi, na verdade, um autêntico caos pessoal. Por isso, a preparação da viagem à Grécia sofreu inúmeros percalços e a escolha de sítios e percursos fazia lembrar vagamente uma prova de ski alpino. Quando se tratou de marcar o hotel em Atenas optei pela zona de Omonia. Por ser central. Só no combóio entre o aeroporto e a cidade abri o guia da Lonely Planet. Tive um calafrio ao ler:

Chic is not a word that springs readily to mind when describing the district of Omonia, north of Syntagma. Once one of the city´s smarter areas, Omonia has gone to the dogs in recent years and is better known for its pickpockets and prostitutes than its architecture.

Não tive margem para desapontamentos. À saída do metro estava um mocetona nua (repito, nua), com uma espécie de rede de pesca a "tapá-la" e um triângulo de tecido a cobrir a zona púbica. O chulo, um negro imenso, de cabeça rapada e longo rabo de cavalo, discutia com ela. O queixo do Manuel, então com 12 anos, descaiu. A Luísa, com 9, perguntou "porque é que a senhora está despida?". Depois de uns momentos difíceis com a família, tudo estabilizou. O bairro era tranquilo e as trabalhadoras e os clientes ignoraram-nos. Havia menos turistas que noutras zonas da cidade, claro. No essencial, era uma zona residencial, tranquila e sem nada de mais.

Não se se algum dia voltarei a Atenas. Se voltar, escolherei de novo Omonia. Estes bairros têm sempre mais graça que os outros.

A Praça Omonia, nos dias de glória

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

SQUARE KILOMETRE ARRAY - UM PROJETO INTERNACIONAL QUE PASSA POR MOURA

A Zélia escreveu, lapidarmente (v. aqui):

Depois da maior central fotovoltaica do mundo, Moura vai receber uma das 10 estações de antenas que vão servir de base de ensaios ao Square Kilometre Array Telescope (SKA).

Isto deve ser só um golpe de sorte. A chatice é que a sorte dá muito trabalho... muito mesmo. Tanto que há sempre quem prefira  ficar de papo para o ar e depois destilar o veneno nas esplanadas ou no facebook. São os corajosos desta vida. Ou talvez simplesmente não tenham competência para mais.

A Zélia tem, obviamente, razão. A notícia da instalação deste equipamento, que vai ficar na Herdade da Contenda, saiu na passada semana na Exame Informática e é motivo de satisafação para todos (ou quase todos) os mourenses. E claro está que estas coisas não nascem de um dia para o outro nem surgem com um estalar de dedos. A apresentação do projeto ocorreu há mais de dois anos, conforme então dei conta (v. aqui). Moura está no centro do Universo? De certo modo, até podemos dizer que está.

Já gostava do outro SKA, agora gosto também deste. 

Depois da maior central fotovoltaica do mundo, Moura vai receber uma das 10 estações de antenas que vão servir de base de ensaios ao Square Kilometre Array Telescope (SKA).

Isto deve ser só um golpe de sorte. A chatice é que a sorte dá muito trabalho... muito mesmo. Tanto que há sempre quem prefira  ficar de papo para o ar e depois destilar o veneno nas esplanadas ou no facebook. São os corajosos desta vida. Ou talvez simplesmente não tenham competência para mais.

Read more: http://acucaramarelo.blogspot.com/#ixzz2CccyUVLN
Depois da maior central fotovoltaica do mundo, Moura vai receber uma das 10 estações de antenas que vão servir de base de ensaios ao Square Kilometre Array Telescope (SKA).

Isto deve ser só um golpe de sorte. A chatice é que a sorte dá muito trabalho... muito mesmo. Tanto que há sempre quem prefira  ficar de papo para o ar e depois destilar o veneno nas esplanadas ou no facebook. São os corajosos desta vida. Ou talvez simplesmente não tenham competência para mais.

Read more: http://acucaramarelo.blogspot.com/#ixzz2CccyUVLN
Depois da maior central fotovoltaica do mundo, Moura vai receber uma das 10 estações de antenas que vão servir de base de ensaios ao Square Kilometre Array Telescope (SKA).

Isto deve ser só um golpe de sorte. A chatice é que a sorte dá muito trabalho... muito mesmo. Tanto que há sempre quem prefira  ficar de papo para o ar e depois destilar o veneno nas esplanadas ou no facebook. São os corajosos desta vida. Ou talvez simplesmente não tenham competência para mais.

Read more: http://acucaramarelo.blogspot.com/#ixzz2CccyUVLN
Depois da maior central fotovoltaica do mundo, Moura vai receber uma das 10 estações de antenas que vão servir de base de ensaios ao Square Kilometre Array Telescope (SKA).

Isto deve ser só um golpe de sorte. A chatice é que a sorte dá muito trabalho... muito mesmo. Tanto que há sempre quem prefira  ficar de papo para o ar e depois destilar o veneno nas esplanadas ou no facebook. São os corajosos desta vida. Ou talvez simplesmente não tenham competência para mais.

Read more: http://acucaramarelo.blogspot.com/#ixzz2CccyUVLN

PRIMEIRAS LEITURAS: FANTÔMETTE

Na realidade, não foram bem primeiras leituras. Mas li com muito prazer, aí pelos 10/11 anos, as inocentes aventuras de Fantômette, uma adolescente heroína francesa de identidade secreta. As histórias eram engraçadas, ainda que improváveis. Uma jovem que sai da casa, pela calada da noite, para combater malfeitores é coisa ainda menos realista do que um ser voador vindo de Krypton.

Recordo apenas uma passagem de um livro, aquela em que Fantômette é salva de morrer trespassada por uma seta porque levava junto ao peito, dentro do fato, uma obra de Victor Hugo. São as vantagens de se gostar de literatura.

Georges Chaulet (1931-2012) morreu há pouco mais de um mês. Escreveu mais de 50 livros com histórias da minha heroína. As quais eram destinadas, em princípio, ao público feminino entre os 8 e os 12 anos (!). É o que diz a wikipédia, mas a wikipédia é a treta que se sabe.

Tive uma professora de Físico-Química no Liceu de Queluz que tinha uns óculos copiados da mascarilha de Fantômette... Mas interessava-me muito menos que a jovem de Framboisy, que foi a minha primeira paixão platónica.

domingo, 18 de novembro de 2012

CHAMA-SE "NUMERUS CLASUS", MR. CARVALHO

Chama-se Alberto M. Carvalho e é o responsável pela educação em Miami. É um self-made man, que tem o estilo (até no penteado) do político americano. É português e saiu da Pátria há 30 anos. Deu uma interessante entrevista ao Expresso. E há muitas coisas que disse com que estou de acordo.

A páginas tantas, Alberto Carvalho comete um erro curioso. Que me parece resultar mais da imagem que Portugal projeta para fora do que de um lapso de memória. Diz, a propósito das razões da sua saída: "quando acabei o 12º ano em Portugal, tinha de se conhecer alguém para entrar na universidade, ou então pagar muito dinheiro para ir para uma faculdade privada". A segunda parte era verdade, mas diga-se que hoje estudar no ensino público ou no privado de qualidade já tem pouco a ver com o valor das propinas. É que na altura em que Alberto Carvalho terminou o 12º ano, o valor das propinas no ensino superior público era de 6 (seis) euros/ano. A primeira parte é um erro flagrante. O sistema de admissão era feito por notas, e respeitando o limite de vagas por curso. Eu que o diga, que pus como primeira opção História da Arte, desejando febrilmente que a nota não desse, para poder ir para Comunicação Social...

Somos o país do esquema e da desvalorização do mérito? Somos. Era seguramente isso que Alberto Carvalho tinha em mente. Usou, contudo, um exemplo falso.

THERE IS ALWAYS ANOTHER STORY

Um filme sobre histórias escondidas. Um filme sobre realidades cruzadas. Um pouco como em "A noite americana", de Truffaut, em que a vida (supostamente) real e o filme se cruzam. Há duas histórias de amor, uma no filme, outra dentro do filme. O conselho para o ver veio do Dr. John Ladhams, meu professor no Instituto Britânico. Tinha grande admiração pela obra de Karel Reisz (1926-2002). Não fiquei tão entusiasta, mas gostei muito de "A amante do tenente francês" (1981). Gostei sobretudo dos diálogos, escritos por Harold Pinter. Curiosamente, em inglês o título é "The french lieutenant's woman", bem mais subtil. É a escolha cinéfila de hoje:


Behind the corpse in the reservoir,
behind the ghost on the links,
behind the lady who dances
and the man who madly drinks,
under the look of fatigue
the attack of migraine and the sigh
there is always another story,
there is more than meets the eye.

Lembrei-me daquela remota e solitária ida, ao S. Jorge, ao ver Bellamy, de Claude Chabrol, há umas semanas. O filme não é excecional, mas tem motivos de interesse, com um argumento bem urdido, cheio de pontos de interrogação e de histórias paralelas. No final de tantas dúvidas o filme encerra um um poema de W.H. Auden (1907-1973). Aquele final, com a frase "there is always another story / there is more than meets the eye", causou-me mais impacto que o resto do filme.

sábado, 17 de novembro de 2012

NÃO TARDA NADA ESTAMOS EM MAIO...

Exagero? Um pouco.

Mas a verdade é que 16 de novembro (ontem) era a data-limite para a apresentação de propostas por parte das entidades que integram a Comissão Organizadora. Em breve, haverá novo encontro para debate das ideias que foram avançadas. No início do ano de 2013, o programa estará quase fechado, no que às principais iniciativas diz respeito. As quais abrangem a Feira Empresarial, o Forum das Energias Renováveis e o Salão de Caça e Pesca.

Novidade em breve em http://www.feirasdemoura.pt/

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

CHIEN AU MEUNIER

Almas sensíveis, abstenham-se.

A história é verdadeira e foi-me relatada por um dos protagonistas. Passou-se na década de 80, durante a deslocação de uma representação de uma antiga colónia portuguesa à Coreia do Norte. Informado que um dos pratos do país era a carne de cão, um dos participantes virou-se para o outro e declarou "juro que não vou comer cão! dê por onde der". Assim foi, de facto, para enorme embaraço do seu companheiro de viagem. Insensível às amplas liberdades gastronómicas, arranjou uma forma expedita de não comer o que não queria. Apesar de não dizer uma palavra de coreano. Em cada refeição, oficial ou não, sempre que lhe punham o prato à frente, apontava o que lhe serviam e latia, bem alto, para o seu anfitrião: "au? au?". Os visados sorriam, orientalmente impávidos. E abanavam a cabeça, para sossego do homem.

Chien au meunier? Os da fotografia têm um ar assim mais croustillant, como os leitões. Mas confesso que a experiência não me tenta. Para já, basta-me um jantar de carne de macaco, ocorrido há dois anos e tal... 

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

ARTE ISLÂMICA - 6/10


Dos grandes museus do mundo para o quase anónimo mundo rural. Das lâmpadas mamelucas do Museu Gulbenkian para um vaso em cerâmica de Tavira. E, contudo, o vaso de Tavira é uma das mais notáveis peças da arte islâmica a nível mundial. Foi descoberto na cidade algarvia, durante a década de 90 do século passado, em escavações dirigidas por Maria Maia e por Manuel Maia. Inclui animais, um tocador de adufe, um guerreiro, mais um homem e uma mulher.

O significado preciso deste exemplar de arte popular do sudoeste continua envolto em controvérsia. A probabilidade mais consensual aponta para a representação de uma cerimónia nupcial. Veja-se O vaso de Tavira, trabalho de síntese de Maria Maia, editado este ano pela Câmara Municipal de Tavira.

A peça está em exposição no núcleo islâmico do museu da cidade. Ver:
http://www.cm-tavira.pt/site/content/camara-museu-tema/museu-municipal-de-tavira

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

UMA TERRA SEM AMOS


Foi com um ar de desgosto que o Christophe Picard me ouviu dizer, a meio do jantar, que tinha acabado de comprar um disco dos Motivés. Pior ainda, que gostava dos Motivés. Apontou a janela e disse uma coisa que eu não sabia: "São aqui de Toulouse e a sede deles é aqui na Rue de Metz, mesmo em frente da minha casa. Fazem a revolução a partir da meia-noite, com uns barulhos a que chamam música de protesto. Com frequência, isto mete polícia". Apesar de ter uma certa pena da falta de sossego do Christophe, continuei a gostar do estilo e do ritmo dos Motivés. Não é uma versão da Internacional, mas sim uma do Bandiera Rossa que podem ouvir aqui. "Uma terra sem amos" é um voto de todos os dias. Hoje, de forma muito especial.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

BIRMÂNIA À VISTA!

Acho sempre graça quando alguém chega ao blogue "vindo" de paragens remotas. Na maior parte das vezes deverá tratar-se, presumo, de algum equívoco ou de uma pesquisa de palavras que leva por caminhos inesperados. A menos que haja algum mourense lá para as bandas de Rangoon...

Os ziguezagues da estrada da Birmânia são-me familiares.

OLHAI OS PÁSSAROS DO CAMPO

Francisco Pinto Moreira, fotógrafo de Moura, ficou em primeiro lugar na categoria dedicada às rolas-bravas, no âmbito do concurso intitulado um olhar sobre as aves, promovido pela Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves. A imagem premiada é esta e é magnífica. Parabéns, Francisco!


A rola

O cheiro acre da penugem nova
da jovem rola fiel, solitária,
dos próximos pinheiros exilada,

entontecia os seres que a rodeavam
para escutar a paz do seu arrulho
- os seres tão diversos de três reinos,
o gato negro, a pedra e eu no mundo.

Poema de Fiama Hasse Pais Brandão

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

FLU X 4

Reportagem fotográfica, no Maracanã: Maria da Conceição Lopes

Deu Flu. Três jornadas antes do fim o Fluminense é campeão do Brasil. OK, já que os da casa ainda não me dão hipóteses de festejo, celebro com os de fora.

E AGORA, TAVIRA


Se outro mérito não tiver, há um que posso reclamar para esta exposição: tem provocado reações. Muito boas, más, assim-assim, simpáticas, desdenhosas, tem havido de tudo. Desde o "é uma síntese excecional sobre uma vila no período islâmico" até ao "é só isto? ganda treta...".

Agora, é a vez de Tavira. Depois de um périplo que já incluiu Lisboa (Castelo de S. Jorge e Fundação Millenniumbcp), Alcobaça (Armazém das Artes), Cascais (Centro Cultural), Silves (Museu Municipal de Arqueologia), Mértola (Casa Amarela), Évora (Grupo Pró-Évora), Santo Amador (Centro Cultural), Tlemcen (Palais de la Culture) e Argel (Musée National des Antiquités et des Arts Islamiques) é agora a vez de regressar ao Algarve. De 13 de novembro a 27 de abril de 2013, a minha exposição Mértola - o último porto do Mediterrâneo estará patente ao público no Museu Islâmico. A Câmara Muncipal de Tavira deu à iniciativa um simpático destaque. Devo/devemos esta oportunidade à generosidade da autarquia e ao empenho e solidariedade de duas colegas, Jaquelina Covaneiro e Sandra Cavaco.

Amanhã, às 11 horas, é tempo de estar em Tavira.

domingo, 11 de novembro de 2012

QUANDO A PRAÇA PARECIA MAIS RUA QUE PRAÇA

O desenho feito por Nicolau de Langres em 1657 é a mais antiga planta de Moura que se conhece. A configuração e o traçado das ruas que mostra corresponde, em grande parte, ao que hoje conhecemos, excluindo os bairros, muito mais recentes, da Salúquia e do Sete e Meio.

A Praça Sacadura Cabral, por exemplo, apresenta um desenho que é idêntico ao que hoje podemos ver. Na verdade, a nossa “praça” não é bem uma praça, mas antes um vasto terreiro, que circunda a sul o castelo, acompanhando o traçado das muralhas. Para que não restem dúvidas, estas localizavam-se onde estão os edifícios do mercado municipal, da Câmara e da biblioteca.

A linha recortada da praça, ou a pouca regularidade da sua planta, sempre me pareceu pouco lógica. Ou, pelo menos, sem uma explicação evidente. A leitura recente do segundo volume do Tombo da Vila de Moura veio lançar luz sobre um aspeto pouco conhecido do urbanismo da nossa terra. O documento, de 1575, é claro: “a praça da vila era tão estreita que parecia mais rua que praça”. Decidiu-se então que deveria ser alargada. Os métodos eram expeditos. Compraram-se casas para serem demolidas, estabelecendo-se um limite de 300.000 réis (1,5 €, na moeda dos nossos dias) para tais aquisições. Seriam nomeados dois avaliadores “sem sospeita”, sendo um deles designado pelos proprietários. Um terceiro faria o desempate, caso fosse necessário. A engenharia financeira era pouco complexa. As verbas viriam da renda de um baldio do concelho e de 50.000 réis que o Convento do Carmo desembolsara para compra de um terreno municipal. Determinava-se ainda que, quando a obra de alargamento estivesse terminada, “se mude pera ella a feira da ditta vila”.

Voltemos então à configuração da praça. Os documentos escritos são escassos, mas a malha urbana conta-nos, por vezes, a história dos sítios. As zonas mais espaçosas em frente à Câmara e ao Mercado devem ter correspondido às áreas demolidas. Ou seja, o quarteirão que termina nas esquinas das ruas Miguel Bombarda (outrora do Morgadinho) e Conselheiro Augusto de Castro (que já foi das Tendas) devia prolongar-se mais alguns metros, conforme se propõe na planta em anexo. De igual modo, deveria existir outro quarteirão na zona em frente dos Paços do Concelho. A falta de simetria que hoje constatamos aparece-nos, assim, corrigida, nesta hipótese de trabalho. O desenho é uma aproximação, sem possibilidade de verificação concreta. Algum dia a faremos? Talvez, embora me pareça pouco provável que os fundos documentais nos possam adiantar muito mais ou clarificar as zonas de penumbra. O futuro o dirá.



Nota: Tive a colaboração neste trabalho dos colegas Rafael Reis e Sérgio Delgado, que redesenharam a praça e a quem agradeço. Agradeço também ao André Linhas Roxas que, sugestivamente, comentou a minha proposta “tá muito bonito; parece a mascarilha do Lone Ranger”.

Esta (re)leitura do urbanismo de Moura foi publicada no jornal "A Planície" de dia 1 de novembro de 2012.

NÃO TE ATREVAS A CRITICAR O TEU PAÍS!

Amanhã vem cá a chanceler alemã. Vai dar confusão. Mas pequena. Vai dar um faduncho, à portuguesa.

Do fundo do coração, o que mais me chateia é a subserviência, o estilo lambe-botas de Passos Coelho. Aquele ar de caniche ante os poderosos - estou a portar-me bem, não estou?sou um bom menino, não sou? - vale todo um estilo e é todo um programa. Prefiro outro tipo de abordagem. Cito um texto de Miguel Esteves Cardoso: Também há 16 anos a PAC quis cortar-nos os tomates. O secretário de Estado para os assuntos europeus de então, Francisco Seixas da Costa, avisou logo que se tinha acabado essa história de sermos os "bons alunos" da Europa, com tudo o que isso "implicava de subordinação" (v. aqui).

Nestas alturas, recordo sempre uma conversa tida, em 1998 ou 1999, com a minha amiga Maria de Lurdes Rosa, no antigo bar da Biblioteca Nacional. Falávamos dos nossos percursos - ela inscrevera-se para fazer o doutoramento nos Hautes Études, eu em Lyon2 - e comentávamos as dificuldades da investigação, sobretudo se comparadas com as condições de trabalho dos nossos colegas gauleses. Nesse ponto a Lurdes disparou-me esta advertência, num tom seguro e sem direito a réplica: "não te passe pela cabeça queixares-te das dificuldades; haverá logo quem te olhe com displicência e paternalismo, dizendo-te pois é, vocês nesses países têm imensos problemas. Daí a olharem o teu trabalho com um complexo de superioridade vai um passinho". A Lurdes é mais nova do que eu, mas sempre teve um estilo assertivo. Achei imensa graça à conversa, que me ficou gravada, sobretudo porque ela tinha toda a razão. Não é que eu fosse lamuriar-me - não me está nos genes -, mas foi uma troca de impressões muito interessante.

Não sei se alguma Lurdes se cruzou no caminho de Passos Coelho. Temo que não.


Uma coisa é o que vemos e aquilo que existe. Outra o seu reflexo, como na tela de António Carneiro. Passos Coelho surge, no olhar dos poderosos, assim refletido, difuso e desmaterializado.

sábado, 10 de novembro de 2012

O RIO

Não é um filme da Índia, nem feito por cineastas locais. Mas Jean Renoir resistiu, com todo o seu talento, à tentação de exótico ou ao paternalismo.

Bénard da Costa referia que era o único filme passado na Índia em que não aparecia o Taj Mahal. Ainda assim, não se me apaga da memória o calafrio que senti ao ver O rio, na Fundação Calouste Gulbenkian, há muitos anos. Numa das cenas locais, uma mulher declara, a propósito do seu amado, "ele era belo como o sol". Na imagem seguinte via-se o objeto da paixão e que era um homem indiano. A sala rompeu em gargalhadas. Esse calafrio, que me provocou a abjeta reação racista, foi compensado pela beleza do filme e pela história, um pouco triste, de amores desencontrados entre pessoas de diferentes meios e de diferentes origens geográficas.

Um filme muito grande, e que é a escolha desta semana.

ISABEL CORDEIRO

Foi com a estranha sensação de "o tempo passou" que li a notícia da nomeação de Isabel Cordeiro para Diretora-Geral do Património Cultural. À medida que antigos colegas e amigos vão tomando posse ou sendo eleitos para este ou aquele lugar vou-me dando conta que é a minha geração que está a chegar ao Poder.

A Isabel foi aluna do curso de História da Arte, em meados dos anos 80. Deverá ter entrado na Faculdade em 1983, se não me falham as contas. Tenho dela simpáticas recordações, que fui confirmando ao longo dos anos, nas poucas vezes em que a reencontrei. De ar discreto, quase tímida, dava-me sempre a sensação de estar a falar com uma imagem saída de um quadro de Filippo Lippi ou de Masaccio.

A sólida carreira nos museus, um estilo de atuação pouco dado ao espalhafato - os jornais viram-se aflitos para encontrar uma fotografia decente de Isabel Codeiro (recorreram à que estou a usar e que é, curiosamente, do Correio da Manhã...) - e o conhecimento que tem do meio geraram agora uma quase unanimidade. Fiquei surpreendido e agradado com esta escolha. E desejo à Isabel, do fundo do coração, a melhor sorte.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

A AUSTERIDADE, OS ECONOMISTAS E O ABDELATIF

Ir a qualquer lado com o Abdelatif em Granada era uma calvário. Marcava-se encontro com os amigos no bar xis. Eu não conhecia o sítio e perguntava ao Abdelatif "sabes onde é?". E ele "claro!". Começávamos a andar. Ao fim de largos minutos, o Abdelatif declarava "é nesta zona, viramos aqui". Virávamos. Depois esquerda, depois direita, depois esquerda. Não me atrevia a perguntar, mas concluia "está perdido". Claro que estava. Aí começávamos a perguntar aos transeuntes onde ficava o bar xis. Invariavelmente, estávamos a centenas de metros do local. Onde chegávamos mais que atrasados e entre as vaias da rapaziada.

O Abdelatif é, para mim e nos dias que correm, o exemplo acabado dos economistas que aconselham a Pátria e dos que gerem a Pátria. Primeiro o caminho era um e depois era outro. E era preciso austeridade. Daquela a sério. Depois o desemprego disparou. Depois o FMI veio dizer que se enganou nas contas. Agora declara, com solenidade, que a austeridade se pode tornar política e socialmente insustentável. Ou seja, não têm noção do que andam a fazer e abdelatifizaram a nossa vida.

A AUSTERIDADE E A GASOLINA MALIANA

Os gregos vão passar a poder consumir produtos fora de prazo. Por causa da crise e da austeridade. Os portugueses vão deixar de comer bifes todos os dias, diz a Dra. Isabel Jonet, o que causou gritos de fúria nas redes sociais e levou, decerto, muitos dietistas ao desespero.

É a vida em versão low-cost. Estes dados do nosso quotidiano levam-me a uma recordação precisa de Bamako. A cidade vive envolta no fumo dos escapes. Nada me causou recordações mais vivas que aquela permanente nuvem de fumo e o gosto acre do combustível que se metia nas roupas e deixava a garganta a arder.

Quando comentei o facto com um colega maliano tive uma explicação, surpreendente e plausível, "sabe, a gasolina que é vendida no Mali é um produto de inferior qualidade, que não passaria nos testes nos países europeus; é mais barata, mas isso tem estes custos...". Isso e os carburadores asmáticos davam uma poluição como nunca tinha visto. Nem voltei a ver.

Bamako fica a cinco horas de voo. A pé é mais perto ainda.