quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

O OPUS DEI NÃO GOSTA DE "A REVOLUÇÃO DE 1383"


Proibir costuma ser uma ótima propaganda. Com frequência, é também uma distinção. No início da semana, o DN publicou um trabalho sobre os livros proibidos pelo OPUS DEI. Nos vinte portugueses castigados com a punição máxima (C3: a obra é incompatível com a doutrina católica) havia apenas um ensaio. Qual? "A Revolução de 1383", de António Borges Coelho. Não resisti a telefonar ao Borges Coelho. Que me atendeu com um par de gargalhadas e me confessou sentir-se honradíssimo. Pessoas como ele têm a característica única de nunca perderem a calma nem a bonomia. Sempre conheci o Borges Coelho assim, paciente e com insuperável classe.

O Opus Dei não gosta do livro sobre a revolução? É porque os censores não leram as poucas-vergonhas que há nas páginas sobre a Inquisição de Évora. Teriam de arranjar uma categoria extra...

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

TALASSOTERAPIA - 5/10


L’Homme et la Mer
Homme libre, toujours tu chériras la mer!
La mer est ton miroir; tu contemples ton âme
Dans le déroulement infini de sa lame,
Et ton esprit n’est pas un gouffre moins amer.

Tu te plais à plonger au sein de ton image;
Tu l’embrasses des yeux et des bras, et ton coeur
Se distrait quelquefois de sa propre rumeur
Au bruit de cette plainte indomptable et sauvage.
Vous êtes tous les deux ténébreux et discrets:

Homme, nul n’a sondé le fond de tes abîmes,
O mer, nul ne connaît tes richesses intimes,
Tant vous êtes jaloux de garder vos secrets!

Et cependant voilà des siècles innombrables
Que vous vous combattez sans pitié ni remords,
Tellement vous aimez le carnage et la mort,
O lutteurs éternels, ô frères implacables!

Por terras de França, e ainda a partir da exposição As idades do mar, uma tela de Courbet e um poema de Baudelaire.  Numa e noutro se evidenciam a impenetrabilidade do que se esconde além da superfície. O realismo de Courbet é, aqui, menos comprometido socialmente, mas não é por isso que o drama tem menos dramatismo.

A talassoterapia já terminou, na Gulbenkian. Prosseguirá aqui, no blogue, até dia 21 de março.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

REVISITAR O PASSADO NO CABEÇO REDONDO

Fui ontem surpreendido pela visita de um jovem colega, Rui Manuel Gusmão Monge Soares, que me veio entregar um exemplar da sua dissertação de mestrado (O Cabeço Redondo - um edifício da Idade do Ferro pós-orientalizante na Herdade do Metum - Moura), recentemente defendida, com brilhantismo, na Faculdade de Letras de Lisboa. O tema está algo distante dos meus interesses cronológicos, mas o sítio de Cabeço Redondo está ligado a uma parte do meu percurso na Câmara de Moura. Visitei o local, em 1990, depois da sua destruição e poucos meses antes de rumar a Mértola. Na altura recolheu-se o que foi possível. Recordo, em particular, um elevado número de ânforas púnicas. Grande parte da informação perdeu-se, mais tarde, por razões que nunca consegui clarificar. O tema do Cabeço Redondo foi retomado, muitos anos depois, pelo Rui. Que o tomou como study case. Um estudo exemplar e de grande rigor metodológico, que é mais uma peça a sublinhar a extraordinária importância patrimonial do concelho de Moura. O Rui Monge Soares irá abalançar-se, decerto, para o doutoramento. O caminho está aberto. Em todos os sentidos.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

ASSIM UM BOCADINHO DE PATERNALISMOZINHO...


“Daqui a pouco vêm aí outra vez os três reis magos, um do Banco Central Europeu [Rasmus Rüffer], outra da Comissão Europeia [Jürgen Kröeger] e o mais escurinho, o do FMI [Abebe Selassie], e já se fala em mais medidas de austeridade”, afirmou o líder da CGTP, Arménio Carlos.

O mais escurinho? Ó diabo, camarada... Não foi propriamente um grande momento de oratória, pois não?

ESTÁDIO DAS SALÉSIAS - 85 ANOS


A mítica final da Taça de Portugal de 1939, ganha pela Académica ao Benfica (4-3), foi lá. O Estádio das Salésias (1928-1956) ocupou, durante quase 30 anos, um lugar central no futebol português. Foi inaugurado há exatamente 85 anos. Quando o fotografei era mais um ervado que um relvado. Hoje está pior ainda (v. aqui).

Torna-se difícil entender porque se investe tanto em equipamentos de raíz nas periferias quando há espaço com potencial em zonas centrais. Torna-se difícil aceitar esta portuguesíssima tendência para esquecer e eliminar a memória dos sítios.

domingo, 27 de janeiro de 2013

A FRONTEIRA, NOUDAR E BARRANCOS

Não é meu hábito falar do que não conheço. A exceção é, contudo, mais que justificada. Refiro-me à dissertação de mestrado em História Moderna, do meu colega João Ramos. Foi defendida, na passada sexta-feira, na Universidade de Évora e obteve a classificação de 18 valores (veja-se o blog de Zélia Parreira). Título do trabalho de investigação? Fronteira e relações do poder. Noudar e Barrancos no Antigo Regime. Fico a aguardar a possibilidade de uma leitura.

Parabéns, João Ramos!

sábado, 26 de janeiro de 2013

AS CORES DO ISLÃO


Há o negro dos abássidas, tal como há o verde dos omeias. Mas a cor da arte islâmica vai muito além disso. Pude constatá-lo esta tarde. Nas peças mais inesperadas e da forma mais surpreendente. A arte do Islão é a arte de cada território, num processo que vai buscar raízes ao passado e se projeta no tempo. A formulação, bem mais complexa do que aqui se diz, é de Oleg Grabar. Continua atual, apesar do tempo que passou.

As artes do Islão, numa renovada ala do Louvre, são uma festa de cor. Ou isso me pareceu. Ou isso senti. O tom de coral de uma taça iznik, os mosaicos de Damasco, a cerâmica e a tapeçaria do Irão. Mais os prolongamentos pelo mundo indiano. Não encontrei vestígios da arte islâmica africana (não me refiro ao Maghreb, mas ao Islão negro). Curioso e significativo, num momento em que os fanáticos se movimentam nesse espaço. Deixemo-nos, ainda assim, guiar pelas muitas cores do Islão.

Ver: http://www.louvre.fr/departments/arts-de-lislam

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

GRAND HOPPER

Há na manhã de Hydra uma claridade que é tua
Há nas coisas de Hydra uma concisão visual que é tua
Há nas coisas de Hydra a nitidez que penetra aquilo que é olhado por um deus
Aquilo que o olhar de um deus tornou impetuosamente presente -

Na manhã de Hydra
No café da praça em frente ao cais vi sobre as mesas
Uma disponibilidade transparente e nua
Que te pertence

O teu destino deveria ter passado neste porto
Onde tudo se torna impessoal e livre
Onde tudo é divino como convém ao real

Hydra, Julho de 1970



A recordação de Hydra trouxe-me ao poema de Sophia, que li, há anos, naquele mesmo café. Mais se tornou importante em frente às telas de Hopper, que andam à volta da luz e das várias tonalidades da luz. Autores como Hopper são uma ajuda decisiva para os amadores de fotografia, como eu. A sua luz é cinema e teatro ao mesmo tempo. A desolação urbana remete para uma dramatização que é familiar aos planos de tantos filmes. Não é por acaso que a exposição abre com uma fotografia de Wim Wenders. E que perto do fim há uma importante sequência de imagens de Philip-Lorca di Corcia. Que já por aqui passou.

Este quadro, Sun in an empty room, é do ano em que nasci. Escolhi-o porque uma amiga minha diz, sempre, que só fotografo sombras. Ao menos, estou bem acompanhado.

Hopper está no Grand Palais, em Paris, até 3 de fevereiro.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

PRIMEIRAS LEITURAS: A AVENTURA NO BARCO

Mais uma memória dos 9/10 anos. Os livros da série "aventura", de Enid Blyton (1897-1968). Aventuras em família, mas de grande fôlego. A série foi escrita entre 1944 e 1955. O meu volume preferido é este, A aventura no barco. A história inclui o Mediterrâneo, uma fuga numa semi-desértica ilha grega, um labirinto e um tesouro dado como perdido. Há salteadores de sítios arqueológicos pelo meio. Deve ter sido o exotismo que me arrastou para este livro. E talvez para algo mais. Lembrei-me dele, muitos anos depois, na ilha de Hydra, durante um longo passeio até um mosteiro esquecido numa montanha.

Mais um livro "esquecido". Já não se encontram nas bibliotecas, creio eu. Oxalá esteja enganado.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

GILDA

Um filme para sempre. Uma mulher inesquecível. Que tinha na cena em que descalçava a luva algo que era tido, à época (1946), como a quinta essência do erotismo. Lá isso não sei, mas que a simples aparição de Rita Hayworth é uma explosão de sensualidade, lá isso é. Ela tinha nessa altura 28 anos. Gilda é um filme quente e de emoções fortes. Não há sopa morna. Não há molezas. Não há "consensos". Ou seja, as coisas são como devem ser. Tudo ou nada.

O que aqui deixo não é bem um excerto do filme, mas sim uma colagem de cenas. O espalhafato é evidente e mostra um pouco do que Gilda é. Realizador? Charles Vidor (1900-1959).

A música é um samba de 1933. O original é de Carmen Miranda. Gosto muito desta versão é dos Pink Martini.

Nota à parte: uma vez usei músicas dos Pink Martini numa campanha da CDU. Nunca mais me deixaram trabalhar nesse setor das campanhas...

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

E É CATÓLICO, IMAGINEM SE NÃO FOSSE...


Tendo em conta que mais de 30 milhões de votantes têm mais de 60 anos (ele próprio é um jovem de 72 primaveras) só podemos concluir que Taro Aso optou por um hara-kiri oral.

TALASSOTERAPIA - 4/10


Joaquín Sorolla (1863-1923) está presente na exposição As idades do mar, mas não com este quadro. Em todo o caso, as velas pintadas pelo naturalista valenciano dão-nos sugestões de um verão que ainda vem demasiado longe. Recupere-se essa imagem e recuperem-se, também, as palavras de Cecília Meireles. Um pouco mais de luz e um pouco mais de calor.


Pescaria

Cesto de peixes no chão.
Cheio de peixes, o mar.
Cheiro de peixe pelo ar.
E peixes no chão.

Chora a espuma pela areia,
na maré cheia.

As mãos do mar vê e vão,
as mão do mar pela areia
onde os peixes estão.

As mãos do mar vêm e vão,
em vão.
Não chegarão
aos peixes do chão.

Por isso chora, na areia
a espuma da maré cheia.

O TAMANHO É IMPORTANTE?

A pergunta pertence ao domínio dos "clássicos sem resposta". Veja-se a imprensa de hoje, e para que o dia seja menos cinzento:

Hannover, Alemanha 22 jan (Lusa) - O treinador do clube de futebol alemão Hannover, Mirco Slomka, admitiu hoje a sua surpresa ao constatar que o novo reforço da equipa, o médio brasileiro França, é nove centímetros mais baixo do que o anunciado.
Slomka esperava um médio defensivo de 21 anos, que era descrito como imponente nos seus 1,90 metros e 88 quilos, mas afinal, quando França chegou ao clube alemão é que foi descoberto que havia uma clara discrepância nas medidas anunciadas.
"O que é que posso dizer. Fui surpreendido. O único critério foi ter atenção ao tamanho do jogador", avançou Slomka ao jornal alemão Bild, depois de uma fita métrica ter confirmado que França tinha "perdido" nove centímetros.


segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

COMUNIDADE 2

Mais facilidade no acesso à informação. Mais Democracia, portanto. É nesse esforço de partilha que estão envolvidas várias entidades do concelho de Mértola, que criaram na net o portal da Rede de Bibliotecas do concelho. Integram essa rede a biblioteca municipal, as do agrupamento de escolas, a do Campo Arqueológico e o Centro de Recursos em Conhecimento da ADPM.

A apresentação teve lugar hoje, às 14.30. A comunidade de leitores agradece.

Ver: http://www.rbmertola.pt/index.php

COMUNIDADE 1

Começou hoje e vai até dia 27. Refiro-me à Semana da Comunidade Educativa. São 78 (setenta e oito !) iniciativas diferentes neste âmbito. Uma das formas de manter vivo o interior passa por este caminho. A aposta na Educação é decisiva. E fica muito distante das pequenas contabilidades, que têm de ser combatidas. É que podemos não ter, um dia, deficit. Mas arriscamo-nos a ter não mais nada.

A organização é da Câmara Municipal de Moura. E envolve mais de duas dezenas de entidades, públicas e privadas.

Ver: http://portal.cm-moura.maiseducacao.pt/Paginas/Home.aspx

domingo, 20 de janeiro de 2013

AMÍLCAR CABRAL (1924-1973)

Faz hoje 40 anos que Amílcar Cabral foi assassinado pela PIDE. Já não viu o dia de uma independência inevitável e que ele sabia estar prestes a chegar. José Medeiros Ferreira tem um interessante comentário no seu "Córtex Frontal": Quando tantos têm nostalgia dos «grandes líderes» convém recordar como alguns acabaram. E às mãos de quem. (v. aqui).


REGRESSO

Mamãe Velha, venha ouvir comigo
O bater da chuva lá no seu portão.
É um bater de amigo
Que vibra dentro do meu coração

A chuva amiga, Mamãe Velha, a chuva,
Que há tanto tempo não batia assim...
Ouvi dizer que a Cidade-Velha
– a ilha toda –
Em poucos dias já virou jardim...

Dizem que o campo se cobriu de verde
Da cor mais bela porque é a cor da esp’rança
Que a terra, agora, é mesmo Cabo Verde.
– É a tempestade que virou bonança...

Venha comigo, Mamãe Velha, venha
Recobre a força e chegue-se ao portão
A chuva amiga já falou mantenha
E bate dentro do meu coração!

Amílcar Cabral

SÃO SEBASTIÃO


Hoje foi dia de S. Sebastião. Não pude estar presente numa festa popular. Mas lembrei-me do dia. Como se prova. Este é o S. Sebastião mais invulgar que conheço: um auto-retrato do fotógrafo camaronês Samuel Fosso (n. 1962).

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

TIPO

É a palavra da moda entre os adolescentes. Tipo serve para tudo. Antes só se usava de forma corrente nas lojas: queijo tipo serra ou sapato (singular, ok?) tipo italiano. Agora pode dizer-se "o teste foi tipo difícil" ou "eu e a Carolina vamos tipo sair". Pode dar coisas engraçadas. Ou formulações quase poéticas. Nos meus tempos de liceu também se usavam palavras estranhas como "camandro". Que não deixaram, vá lá, grandes sequelas.

Aqui fica o post do dia, assim tipo parabéns, para uma amiga minha. Com a música de um conjunto que venceu o concurso do tipo "The shadows".

Querem ouvir O timpanas com um som tipo Shadows? Ou um vira da Nazaré? Então vejam/ouçam aqui. E aqui. Era o pop lusitano dos anos 60. Assim tipo kitsch.


Comunicado no Diário Popular de 6.10.1963. No blogue http://guedelhudos.blogspot.pt/

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

IGREJA DA ESTRELA

Há histórias complicadas? Há. Nas autarquias há sempre.

Esta é mais uma. Em tempos, a EDIA promoveu trabalhos de reabilitação da igreja da Estrela. Fazia parte dos compromissos da empresa para com a aldeia. A obra ficou por terminar. Os estrelenses recusaram-se a usar a igreja. Contactos sucessivos com a EDIA não deram em nada. A determinada altura entra em cena a Câmara Municipal. Que se vê na obrigação de assumir o custo da obra que ainda falta fazer. Depois de um atribulado processo eis que hoje, pelas 11 horas foi, finalmente, assinado entre o Pároco, a Comissão Fabriqueira e a Monumenta, o contrato para a obra em falta. A Câmara Municipal de Moura deu apoio técnico e administrativo. Agora dará apoio financeiro. Dentre de meses, o processo estará concluído. De vez e sem EDIA.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

DE CATEMBE AO PALÁCIO FOZ


Por esta altura, está a passar na Cinemateca o filme Catembe, de Faria de Almeida. Obra mítica, rodada em 1964, nunca foi vista na íntegra. Passa por ser um dos filmes mais censurados da História do Cinema, com 103 cortes. Segundo ouvi em tempos, muitos deles tinham a ver com o uso da palavra Portugal quando a referência deveria ser à Metrópole. As imagens que vi, em tempos, na tv aguçaram-me o interesse no filme, que me pareceu de grande interesse, ainda que de uma marcada ingenuidade. A recuperação da memória do primeira e última obra de Faria de Almeida está a ser levada a cabo pela jornalista Maria do Carmo Piçarra, uma reputada especialista em cinematografia. Que tem, diga-se, raízes em Moura.

A exibição ocorre a poucas centenas de metros do Palácio Foz, sítio emblemático da propaganda do Estado Novo. Um local apropriadamente escolhido pelas elites para discutirem, ontem e no meio de dourados versalhianos, o futuro da Pátria. Em segredo e longe do suor da populaça.

Viver de costas para a realidade e longe da realidade nunca dá bom resultado. Por mais censura que se use.

CENAS DA VIDA QUOTIDIANA EM ARLIT

A reportagem em si não era grande coisa. Mas a ligação entre dois temas - a crescente insurreição no norte do Mali e a presença francesa nas minas de Arlit, no Níger - merece bem uma reflexão. Que a França tenha decidido intervir no Mali, em apoio ao governo de Bamako e para sacudir a pressão de fanáticos perigosos, não merecerá a contestação de ninguém com bom senso. Que essa ação visa proteger os interesses gauleses no Níger (Gao está a 800 km. de Arlit), também não merecerá dúvidas. Nem é esse o tema que me interessa, neste momento.

A minha dúvida é outra: que benefícios tiram os nigerinos da exploração que a AREVA faz em Arlit? Na reportagem pressentia-se que a resposta será "quase nada". Com o solo e o ar envenenados, que vida têm os habitantes e os seus descendentes? Quanto investiu a AREVA em educação, em saúde, em abastecimento de água, ao longo destes anos? São, bem sei, perguntas ingénuas. Mas estou certo, no meio da minha ingenuidade, que a crescente influência de radicais no Sahel tem a ver com esse tipo de questões.

ARTE ISLÂMICA - 10/10

Momento final em mais um capítulo do blogue.

É uma das minhas peças preferidas da arte islâmica. Falo do célebre Alcorão Azul. Foi escrito na Tunísia em finais do século IX ou nos inícios do século X d.C. Pergaminho tintado com indigo e preenchido com um cúfico muito bonito. As folhas foram separadas durante o período otomano, pelo que há fragmentos deste Alcorão em diversos locais. Designadamente no Museu de Raqqada ou no Metropolitan, em Nova Iorque.

Ouro e azul combinam-se, desde há milénios. Na arte egípcia, nos mosaicos bizantinos, nos tetos das catedrais medievais. A palavra de Deus só pode ser escrita em letras douradas, terá pensado quem encomendou esta preciosidade. Nothing gold can stay? Talvez não seja bem assim.



Nothing Gold Can Stay

Nature's first green is gold, 
Her hardest hue to hold. 
Her early leaf's a flower; 
But only so an hour. 
Then leaf subsides to leaf. 
So Eden sank to grief, 
So dawn goes down to day. 
Nothing gold can stay.

Robert Frost (1874-1963)

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

CARLOS PINHÃO - 20 ANOS DEPOIS

Naquela tarde de 19 de novembro de 1978 houve festa na Luz. O Benfica goleou o Sporting por 5 a 0 (resultado feito na primeira parte). O Presidente da República assistiu ao jogo. Nessa mesma tarde, a APU quebrava um impasse político na Câmara de Évora e conquistava a maioria absoluta numa eleição intercalar. Título de A Bola no dia seguinte: Tarde Vermelha com Eanes a assistir. Autor da "brincadeira": o jornalista Carlos Pinhão.

Comentei o facto a Carlos Pinhão quando o conheci, em 1982 ou 1983. Ficou surpreendido e agradado por me recordar do título, passado tanto tempo. A minha missão era simples. Indicar, a pedido do Rafael Rodrigues, o caminho para Moura a Carlos Pinhão e a Batista-Bastos, e acompanhá-los ao longo desses dias. Cheguei cedo à casa de Carlos Pinhão. Fui surpreendido, depois de o cumprimentar formalmente, com a exigência de nos tratarmos por tu. O que me deixou muito pouco à vontade. Depois, mais espantado fiquei quando me perguntou, com ar preocupado, "achas que o Batista-Bastos conduz bem?". Nunca tinha visto o Batista-Bastos na vida e não fazia a mínima ideia, mas achei piada ao tom juvenil da pergunta. Para quebrar o gelo, resolvi elogiar um livro de Carlos Pinhão. Ele ouviu e depois disse "acho bem que gostes desse livro, mas não é meu, é do Castrim". Corei até ao tom púrpura, mas ele resolveu o assunto com um "deixa lá, já dei barracas piores".

Foi o começo de um fim de semana absolutamente inesquecível. Que só fez para aumentar a enorme admiração que tinha pelo trabalho jornalístico de Carlos Pinhão e pela verticalidade da sua postura cívica. Contou imensas histórias - sobre os problemas da Bola no PREC, sobre as visitas à URSS, sobre a forma de trabalhar na redação -, com elegância, graça e calma. O que me pareceu decisivo nesse contacto com Carlos Pinhão foi o seu domínio do métier (nessa altura eu ainda queria ser jornalista), a sua enorme cultura e a sua capacidade em ouvir e em registar. O que ía a par com um modéstia e uma simplicidade verdadeiramente tocantes.

Voltei a encontrá-lo mais umas duas ou três vezes. Sempre simpático e descontraído. Sempre a escrever com leveza e humor. À despedida dizia sempre "vê lá se apareces lá em casa; tens o número, é só telefonares". Ficava envergonhadíssimo, dizia que sim e, claro, nunca telefonei. Continuei apenas a lê-lo, regularmente e com uma admiração crescente.

Carlos Pinhão partiu cedo demais, faz hoje vinte anos. É uma daquelas pessoas que, por uma razão ou por outra, recordo com regularidade.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

PEPA XAVIER

O fenómeno Pepa Xavier é uma daquelas coisas tipicamente nossas. E, nesse sentido, incompreensíveis.

Uma senhora disse que "adorava ter uma mala clássica da Chanel" e esse era um dos seus desejos (ou o seu desejo, pouco importa) para 2013. aijazusoquetufostesdezer... Caiu-lhe meio mundo em cima. Ou, à esquerda, o mundo todo. Insensível, queque, parvalhona, inconsciente etc. etc.

Acho isto tudo um bocadinho extraordinário.

Pepa Xavier tem o direito de querer uma mala clássica da Chanel para 2013? Claro que tem. É evidente que isso é um escândalo (sobretudo para quem não tem muito que fazer). Se Pepa Xavier tivesse formulado como desejo o salvamento dos linces da Serra da Malcata ou a declaração do pastel de nata como Património da Humanidade isso seria normal. Querer uma mala da Chanel é que não.

Querer uma mala da Chanel é crime? Não é, embora formular isso como desejo me pareça curto no mundo em que vivemos. Pepa Xavier é tonta? Parece-me bem que sim. Mas isso não chega para ser crucificada. Sobretudo, não percebo que importância o assunto tem, para tanto e tão beato escândalo.

Mala clássica da Chanel (coisa cuja existência eu ignorava)

Se eu fosse trabalhasse na Chanel contratava Pepa Xavier. Cem vistas as coisas, nunca se falou tanto na marca como nestes dias.

O CHEIRO DO NAPALM PELA MANHÃ

I love the smell of napalm in the morning. (...) The smell, you know that gasoline smell, the whole hill. Smelled like... victory.

O cheiro a napalm saltou hoje das páginas do Público, num artigo assinado pelo tenente-coronel na reserva João J. Brandão Ferreira. O texto é uma vaga justificação de massacres cometidos durante a Guerra Colonial. A "análise histórica" é a de quem não sabe ler a História. O estilo ultramontano é confrangedor e fora do tempo. E ao pé dele, o seu colega William "Bill" Kilgore é um mariquinhas-pé-de-salsa.

IMPORTÂNCIA DA CULTURA PARA O PODER LOCAL

O título do post é, também, o título do artigo de José Jorge Letria no Público. Assina o texto como "escritor, jornalista e presidente da Sociedade Portuguesa de Autores". O texto é um aflitivo alinhamento dos mais banais lugares comuns sobre a Cultura e o papel da Cultura e mais a importância da Cultura.

Transcreva-se o primeiro parágrafo:

As autarquias portuguesas (principalmente as câmaras municipais), apesar dos constrangimentos orçamentais com que se debatem, têm sido os suportes mais activos da vida cultural portuguesa, sobretudo a partir da rede de bibliotecas de leitura pública que são, na maior parte dos casos, verdadeiros centros culturais polivalentes que recebem desde exposições a colóquios, passando por concertos, debates, apresentações de livros e outras actividades capazes de mobilizar o interesse das populações.

A ladainha vai por aí fora, sempre com grandes encómios ao papel das Câmaras e com vários alertas aos executivos que surgirão a partir de outubro.

Uma perguntinha, que eu gosto de estar informado:

Quanto é que uma câmara municipal tem de gastar para ter a presença do escritor José Jorge Letria numa atividade capaz de mobilizar o interesse da população?

Não é por nada, é só curiosidade minha...


José Jorge Letria, na altura em que a sua aflitiva falta de voz era tida como "estilo"

domingo, 13 de janeiro de 2013

UMA MENTE BRILHANTE...

... mas com lapsos iguazinhos aos do resto da Humanidade. E com gaffes tão comuns como as que todos nós cometemos. Pedir ao Ministro da Educação, em plena cerimónia, "pode-me confirmar o seu nome" é insólito. É a prova que até mesmo os melhores neurónios estão sujeitos a falhas (v. aqui ao minuto 10:55). É, também, a evidência de que a classe política não deve andar a correr atrás de celebridades. Porque se arrisca a que estas não lhes passem cartão.


OS MARGINAIS

O filme tem trinta anos. Estreou em 1983 e foi a décima segunda obra dirigida por Francis Ford Coppola, na altura ainda a recuperar do trauma de One from the heart. A história anda à volta de um grupo de jovens irrequietos (um pouco mais que isso, mesmo). O herói da fita é Ponyboy Curtis, que recita um conhecido poema de Robert Frost neste excerto. Mais de que Robert Frost, ao qual voltarei dentro de dias, o que me marcou em Os marginais, e aquilo que sempre recordo, é o tratamento de cor do filme. Os inesquecíveis tons dourados que sublinham bem o "stay gold, Ponyboy, stay gold".

LOTARIA


De acordo com o relatório divulgado na quarta-feira, uma das sugestões do FMI para os cortes na função pública passa por uma migração em massa de trabalhadores do Estado para o sistema de mobilidade especial.

Porém, o FMI reconhece as “dificuldades” que o “constrangedor” sistema de avaliação tradicional coloca na passagem de trabalhadores da função pública para o sistema de mobilidade especial e, assim sendo, sugere que o Estado evite estes obstáculos através de “um sistema de exames nacionais online” capaz de “gerar critérios objectivos” que decidam que funcionários é que devem ser dispensados. (no Público online)

Mais uma ideia criativa. Mais uma inovação. Quem avalia quem? Como se avalia? Com que critérios? Quem os define? Os tecnoburocratas da lei, da portaria, do despacho e dos gráficos? Avalia-se com base no que se diz que se sabe ou naquilo que efetivamente se produz?

Entretanto, em Portugal:
Perdas nos swaps de taxas de juro da dívida agravaram-se em 500 milhõesde euros. O IGCP está a tentar renegociar os contratos, cujas prejuízos estão principalmente nas empresas do metropolitano de Lisboa e Porto.

Os contratos de derivados de taxa de juro adquiridos pelas empresas públicas estarão a perder neste momento cerca de €3000 milhões. (no Expresso online)

A estes, quem os avalia por esta aposta na lotaria?

sábado, 12 de janeiro de 2013

CONTAGEM DECRESCENTE

No meio de um sábado de silenciosa placidez - se é que levar grande parte do dia a rever textos e a escolher fotografias entra no domínio da placidez... - passei pela Biblioteca Municipal de Mértola para folhear os jornais.

Eis a primeira página do Record:


Jorge Jesus criativo?
Jorge Jesus surpreendente?
Ó meu Deus!

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

REGENERAÇÃO URBANA: AO FUNDO DA MOURARIA

Mais uma obra em curso. Mais um passo na regeneração urbana de Moura. Uma zona outrora um pouco marginal da cidade ganhará, em breve, nova vida. Primeiro, porque estão quase concluídas as obras na Mouraria, bairro que foi, em tempos, o limite noroeste da cidade. Depois, porque está a avançar a reabilitação do Matadouro, em zona que confina com aquela zona classificada. Finalmente, porque está em curso a concretização do arranjo da área envolvente do edifício.

Importará, dentro de pouco, fazer-se um balanço e uma reflexão sobre o sentido destas intervenções e sobre a sua importância na vida futura da cidade. Regressei a Moura há quase oito anos. Aqui me mantenho. Coube-me, enquanto vereador,  parte deste trabalho de coordenação na concretização de projetos e do seu financiamento e efetivação. Defendo, de forma taxativa, o que tem vindo a ser feito. Durante este lapso de tempo não foi apresentada, do ponto de vista político qualquer proposta alternativa de intervenção/renovação para a área urbana. É um facto que faço questão de sublinhar e de, a cada momento, recordar.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

TALASSOTERAPIA - 3/10


El mar

El mar. La mar.
El mar. ¡Sólo la mar!
¿Por qué me trajiste, padre, 
a la ciudad?
¿Por qué me desenterraste 
del mar?
En sueños la marejada 
me tira del corazón; 
se lo quisiera llevar.
Padre, ¿por qué me trajiste 
acá? Gimiendo por ver el mar, 
un marinerito en tierra 
iza al aire este lamento: 
¡Ay mi blusa marinera; 
siempre me la inflaba el viento
al divisar la escollera!


Rafael Alberti



Ainda a partir da exposição As idades do mar. Esta tela, A sereia (1893), de Giulio Aristide Sartorio (1860-1932), está lá. A melancolia do gesto não é menos melancólica que as palavras.

O quadro pertence à Fondazione Torino Musei.

Ver: http://www.fondazionetorinomusei.it/

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

O SOCIALISMO JÁ NÃO É O QUE ERA...

Um dos autores do relatório do FMI para Portugal (o tal que hoje está a dar brado) chama-se Carlos Mulas Granados. É um dos ideólogos do PSOE, partido para o qual concebeu o programa económico de Rodríguez Zapatero e do qual foi candidato nas últimas eleições.

Do PSOE, ok? Não do PP, nem do UMP, nem da CDU alemã...

Dentro do género humor negro estas coisas têm a sua graça.

Rubalcaba e Seguro

PRIMEIRAS LEITURAS: A FAMÍLIA CHERRY


Mais uma memória dos anos 70 do século passado (1972/75, seguramente).

No outro dia perguntei a uma amiga, bibliotecária, se ainda havia livros da Família Cherry nas prateleiras. Não há. Estas publicações passaram ao domínio dos alfarrabistas.

Foram 14 livros, publicados entre 1952 e 1965. Li-os todos. O autor era um escritor inglês, Will Scott (1893-1964). E não só me interessavam as histórias daquela família, que conseguia arranjar "acontecimentos" em toda a parte, como os mapas que acompanhavam as aventuras. Na imagem de baixo está uma vista de Market Cray, a vila ficcionada onde a família vivia. Íamos lendo e acompanhando os percursos visualmente. O sentido topográfico que as narrativas adquirem não mais me abandonou. As palavras são terra firme. Em todos os sentidos.

As aventuras da Família Cherry eram publicadas em Portugal pela Editorial Estúdios Cor.

Ver: http://www.misteriojuvenil.com/

MUDANÇAS INTELIGENTES?

O FMI diz que chegou a hora de fazer mudanças "inteligentes" para cortar na despesa. (no Jornal de Negócios de hoje)

Uma pequena "dúvida": do que é que raio estarão eles a falar?

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

UM POUCO MAIS DE SOL



Laboratório da Lógica EM, SA entra no mercado mundial de certificação de módulos fotovoltaicos

O IPAC, Instituto Português de Acreditação, concedeu no passado dia 28 de Dezembro, ao Laboratório Fotovoltaico da Lógica, Sociedade Gestora do Parque Tecnológico de Moura, EM SA,  a acreditação para todos os ensaios constantes das normas IEC/ISO EN NP 61215:2005 e IEC/ISO EN NP 61646:2008. Esta acreditação vem permitir ao Laboratório Fotovoltaico da Lógica a realização de ensaios de certificação de módulos fotovoltaicos nas tecnologias de silício cristalino e de filme fino, permitindo-lhe passar a operar no mercado mundial de certificação de módulos fotovoltaicos.
O Laboratório, instalado em Moura e equipado ao mais alto nível da tecnologia disponível para a realização de todo o tipo de ensaios no domínio do estudo da energia solar fotovoltaica, é o primeiro laboratório do país especializado no estudo desta forma de energia e o único laboratório português acreditado para o efeito.
(da nota de imprensa da Câmara Municipal de Moura)

Não é necessário acrescentar muito. A LÓGICA é uma peça essencial na estratégia do Município de Moura. Tal como a Escola Profissional, tal como a Herdade da Contenda. O poema de Mário de Sá-Carneiro diz um pouco mais de sol — eu era brasa. O poema intitula-se Quase. Este processo foi quase? Não. Foi mais que isso. Ficou-se aquém? Ao contrário. Foi-se além. No início ouviram-se muitos arautos da desgraça e muitos profetas da desventura. Felizmente estavam errados.


QUASE

Um pouco mais de sol — eu era brasa.
Um pouco mais de azul — eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num baixo mar enganador d'espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho — ó dor! — quase vivido...

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim — quase a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo... e tudo errou...
— Ai a dor de ser-quase, dor sem fim... —
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou...

Momentos de alma que desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...

Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol — vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...

Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...


Um pouco mais de sol — e fora brasa,
Um pouco mais de azul — e fora além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

(Paris, 13 de maio de 1913)