quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

TALASSOTERAPIA - 8/10




O pontilhista Paul Signac viu o mar num dia de frio e cinzento, assim como o de hoje. Com o mar coalhado, com a neblina e com o frio. E talvez nevasse na praia. No mar do Norte deve nevar na praia todo o ano. Portrieux fica na Bretanha.

O mar da Bretanha, o frio e a neve evocaram-me um poema, popularíssimo e que cruzou quase todas as gerações do século XX. Devia continuar a ser obrigatório. Estava no meu livro de leitura da Escola Primária. O poema não é muito bom, mas a gente gostava muito dele. Havia na turma quem o declamasse bem. Mas não era eu.

A balada da neve foi escrita por Augusto Gil (1873-1929) e publicada, em 1909, no livro Luar de janeiro. Paul Signac pintou este Portrieux. La jetée, temps gris em 1888. O quadro está no no Kröller-Müller Museum.


Balada da neve 
 
Batem leve, levemente, 
como quem chama por mim. 
Será chuva? Será gente? 
Gente não é, certamente 
e a chuva não bate assim.

É talvez a ventania: 
mas há pouco, há poucochinho, 
nem uma agulha bulia 
na quieta melancolia 
dos pinheiros do caminho...

Quem bate, assim, levemente, 
com tão estranha leveza, 
que mal se ouve, mal se sente? 
Não é chuva, nem é gente, 
nem é vento com certeza.

Fui ver. A neve caía 
do azul cinzento do céu, 
branca e leve, branca e fria... 
- Há quanto tempo a não via! 
E que saudades, Deus meu!

Olho-a através da vidraça. 
Pôs tudo da cor do linho. 
Passa gente e, quando passa, 
os passos imprime e traça 
na brancura do caminho...

Fico olhando esses sinais 
da pobre gente que avança, 
e noto, por entre os mais, 
os traços miniaturais 
duns pezitos de criança...

E descalcinhos, doridos... 
a neve deixa inda vê-los, 
primeiro, bem definidos, 
depois, em sulcos compridos, 
porque não podia erguê-los!...

Que quem já é pecador 
sofra tormentos, enfim! 
Mas as crianças, Senhor, 
porque lhes dais tanta dor?!... 
Porque padecem assim?!...

E uma infinita tristeza, 
uma funda turbação 
entra em mim, fica em mim presa. 
Cai neve na Natureza 
- e cai no meu coração.

Augusto Gil, Luar de Janeiro

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

JOAQUÍN SOROLLA - 150 ANOS


"Se Almeida Garrett fosse vivo faria hoje 200 anos". Ouvi esta frase espantosa e inesquecível na rádio portuguesa, no dia 4 de fevereiro de 1999. Vinha a conduzir para Mértola. São estas coisas que causam acidentes de viação.

Não sei se a Rádio Nacional de Espanha começou assim o noticiário, a propósito dos 150 anos do nascimento de Joaquín Sorolla. Espero bem que não...

Em todo o caso, em homenagem a Sorolla, à sua mujer desnuda e à poesia de Maria Teresa Horta, aqui vai...

As nádegas 

Porque das nádegas
a curva
sempre oferece
a fenda
o rio
o fundo do buraco

Para esconso uso do corpo
nunca o fraco
poder do corpo em torno desse vaso

Ambiguo modo
de ser usado
e visto

De todo o corpo
aquele
menos dado

preso que está já
do próprio vicio
e mais não é que o limiar de um acto

MAR DO MEIO - UM POUCO MAIS A SUL

Há coisas simpáticas. Um amigo tunisino, Houssem Eddine Chachia, referiu, e transcreveu na íntegra, no blogue Los moriscos de Túnez, a versão em língua árabe do meu livrinho Mar do meio. Foi editado, em 2009, por ocasião do Festival Islâmico, em Mértola. Um ano de boas recordações. Pudesse, às vezes, o tempo recuar. Só um pouco.


terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

CAFÉ IN


Aquela minha amiga, uma das mais queridas e mais ausentes, jura que o café não tem nome. Já lhe disse que isso não é possível, mas ela insiste que nunca viu nenhuma pancarta em lado algum. Quando lhe perguntei como o identificava disse que era apenas o Café In. "Como café in?", surpreendi-me. A minha amiga explicou "é um sítio tão chique, tão chique, que as senhoras tratam os cães por você".

Sou capaz de jurar que Elliott Erwitt não trata os cães por você...

CAMILO LOURENÇO à la manière de Eça

Passei há pouco pelo blogue Tim Tim no Tibet. Não resisto a reproduzir...


QUEIROZIANAS

Não consegue aprender História
Um tal Camilo Lourenço.
Não lhe entra na memória
Um acervo tão imenso!

O Gouvarinho dizia

Ao Maia com contrição
Que a História do Mundo lia
Sem guardar recordação.


Há mesmo cada cabeça

Que só já lida no Eça!

http://timtimnotibet.blogspot.pt/



Um camilo lourenço procurando o interesse da História.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

CAMILO LOURENÇO E OS HISTORIADORES


Foi hoje, pela manhã. Camilo Lourenço, que é economista, veio dizer que "se eu tiver licenciado pessoas em História ou pessoas para serem professores, qual é a utilidade para a Economia? Então se nós não precisamos deles... eu tenho de ter pessoas formadas nas áreas onde a Economia precisar deles" (v. aqui).

Num País que tem sido governado, com reconhecido sucesso que hoje constatamos, pelos mais reputados economistas, fica por entender até onde vai o retrógrado "pensamento" lourenciano. São só os historiadores os visados? Ou há mais gente de que a Economia não precisa? Que terá a Economia a dizer aos bailarinos? Aos pintores? Aos músicos? Aos filófosos, Deus meu, esses perigosos especuladores? Aos encenadores? Aos linguistas? A Economia precisará de linguistas?

Não se riam, por favor. O estilo Camilo Lourenço faz escola. Os custos serão pagos pelas próximas gerações. Os ideólogos de tal selvajaria já cá não estarão.

ESCRITA EFÉMERA

Foi notícia, há uns anos, o incidente ocorrido num museu de arte contemporânea. A senhora da limpeza, ao chegar de manhã cedo, deparou com um cenário estranho no átrio de entrada: vidros partidos, areia e fragmentos de moldura, em madeira. Pegou nos apetrechos de trabalho e enfiou tudo aquilo no caixote do lixo. O problema veio depois... Aquilo era uma "instalação". Não sei como o artista terá reagido mas, no lugar dele, teria considerado o gesto da senhora como parte integrante do ato criativo. O conceito de pathos parece-me adequado.

Lembrei-me do que aconteceu, há semanas, durante uma reunião na Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas. Numa das paredes estava um quadro, daqueles de sala de aula, assinado por muitos escritores. Ao lado, figurava o aviso: "Atenção!! Este quadro é um original. Por favor, não limpar". Para que a escrita, já de si ato efémero, não se torne ainda mais efémera.

SÁBADO, NA SHEHERAZADE


Durante a minha intervenção. E no final da sessão, já com os participantes a caminho da saída. Primeiro registo de muitos outros, que virão a seguir.

Fotografias: Pinto Moreira (a de cima); Rui Bebiano (a de baixo)

domingo, 24 de fevereiro de 2013

CANDIDATURA À CÂMARA DE MOURA - O INÍCIO DA CAMINHADA

De momento, são estas as imagens disponíveis, no youtube, pela mão do amigo Cardão Pinto. O Pinto Moreira trabalha no mesmo sentido. Palavras gentis andaram pelos blogues de Zélia Parreira e de Luís Filipe Maçarico.

Balanço breve: mais de 400 pessoas passaram ontem pelo Espaço Sheherazade. Calor e entusiasmo. Descontração e empenho. No final, uma pequena homenagem a um músico e maestro da cidade. O apego às nossas coisas e a afirmação da nossa identidade vão estar na primeira linha. A candidatura da CDU à Câmara de Moura arranca muito bem.

Agradeço publicamente a todos, em especial aos amigos que montaram e dinamizaram, das mais diversas formas, o evento.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

PREVISÕES ECONÓMICAS



The only function of economic forecasting is to make astrology look respectable.
John Kenneth Galbraith (1908-2006)

AL DOLCE GUIDAMI CASTEL NATIO

Já uma vez aqui referi esta ária da ópera Anna Bolena. Na altura, em outubro de 2011, as palavras Al dolce guidami castel natio, / ai verdi platani, al quello rio, soaram-me como uma estranha premonição. Leva-me para o querido castelo onde nasci, cantava Anna Netrebko, numa interpretação absolutamente arrepiante.

Hoje é dia de recordar tudo isso. E de, em Moura, reafirmar o futuro.

Al dolce guidami ouve-se a partir do minuto 5:50. Mas o melhor é ouvir tudo.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

FIM DE TARDE EM ENTRADAS

O fim da tarde de ontem foi passado em Entradas, no Museu da Ruralidade, a convite do meu amigo Miguel Rego. O tema: alimentação na Idade Média. Na verdade, há muito que deixei este objeto de investigação. Ainda assim, a alimentação no período islâmico "persegue-me".

Valeu a pena ir a Entradas. Um público diferente, fora dos circuitos habituais. Alguns velhos amigos pelo meio. Três mourenses, que foram a surpresa da tarde. E um ambiente mais que informal. No fim houve petiscos, que isto da investigação só por si... Primum vivere deinde philosophari!, já aqui o disse.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

SOB O SIGNO DE HOPPER - II: MATHEW BRADY



Mathew Brady (ca. 1822 – 1896) foi um dos que estiveram na origem dos temas e dos enquadramentos de E. Hopper. Que, em vez de fazer à maneira de, se apropriou deles e os fez viver de outra forma. Como aconteceu com os trabalhos do retratista Mathew Brady, nome maior da fotografia do século XIX.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

TALASSOTERAPIA - 7/10


43 
Fiquemos sentados um pouco mais
nesta pedra ao alto
da falésia; sentados pois não podemos
ser pedra sob a luz que do céu
perfumada cai
como se fosse um vinho macerado
pelo vento. A tua mão
sem palavras sem pensamentos
acaricia-me o joelho
sob a luz que do céu
fatigada
cai.


Mais mar. Mais poemas. Neste caso, as palavras são de Casimiro de Brito. Não sei se a falésia de que ele fala tem mar. Parto do princípio que sim. Uma falésia sem mar não faz muito sentido, pois não?

A tela de Carl Friedrich Blechen (1798-1840), Gruta no Golfo de Nápoles, foi pintada em 1829 e esteve na Fundação Gulbenkian. Pertence a uma fundação alemã.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

APRESENTAÇÃO DO CANDIDATO DA CDU À PRESIDÊNCIA DA CÂMARA DE MOURA - DIA 23, às 18h


Local - Espaço Sheherazade

Dia - 23 (sábado)

Hora - 18

O candidato é o autor deste blogue.

CULTURA CASTRENSE


A reunião com uma alta patente estava atrasada. Deambulava pelo átrio do Ministério da Defesa quando houve uma súbita agitação. Vieram colocar bandeiras no átrio, a de Portugal e a de outro país, e houve uma atitude de expetativa. Batedores, veículos do corpo diplomático, um carro da segurança. Entram um senhor alto, uma senhora mais baixa, os dois em passo decidido, seguidos por um batalhão de gente.

"Visita VIP", comentei para o veterano general, com quem combinara encontrar-me à porta do edifício. "O embaixador ou o adido militar", sugeri.

"O adido militar", decidiu ele.

"Como sabe?", reagi, surpreso

"Tem o cabelo bem aparado, mas está muito mal vestido" esclareceu, com ar matreiro.

Ri com gosto. Aprende-se sempre qualquer coisa no contacto com generais veteranos.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

PARA EVITAR OS ENGARRAFAMENTOS NA LISBOA DO SÉCULO XVII


A placa data de 1686 e fica na Rua do Salvador, no bairro lisboeta de Alfama. É o sinal de trânsito mais antigo que se conhece, em Portugal. Tem andado pela blogosfera e acho-o um curiosidade interessante. Daí que o partilhe.

O que está escrito na placa?

ANNO DE 1686
SVA MAGESTADE ORDE
NA Q OS COCHES SE
GES E LITRAS Q VIE
REM DA PORTARIA DO
SALVADRO RECVEM PA
A MESMA PARTE

Ou seja,
Ano de 1686 - Sua Magestade ordena que os coches, seges e liteiras que vierem da portaria do Salvador recuem para a mesma parte

Que se passava? A rua era muito usada, sendo comuns os problemas entre os coches que desciam e os que subiam, uma vez que só podia passar um de cada vez. Chegava-se, com frequência, a vias de facto. Assim, determinou D. Pedro II que o coche que viesse de cima perdia prioridade em relação ao que vinha de baixo. Ao contrário do que determina hoje, em termos gerais, o Código da Estrada. Veja-se o Título II, Capítulo I, Secção IV, Subsecção III, Artigo 33º, nº 2, Alínea d (é, também, por estas coisas que Portugal se torna divertido e diferente):
2 – Se for necessário efectuar uma manobra de marcha atrás, deve recuar o condutor do veículo que estiver mais próximo do local em que o cruzamento seja possível ou, se as distâncias forem idênticas, os condutores:
d) Perante veículos da mesma categoria, aquele que for a subir, salvo se for manifestamente mais fácil a manobra para o condutor do veículo que desce.

Em caso de dúvida, vejam: http://www.segurancarodoviaria.pt/

domingo, 17 de fevereiro de 2013

MEMÓRIA TELEVISIVA: DEBAIXO DA CAPA, ESTÁ O SEGREDO

Não é a ociosidade domingueira mas antes, admito-o, uma certa nostalgia que me leva a reproduzir esta anúncio televisivo - na altura dizia-se reclame -, muito popular na RTP de final dos anos 60. Não encontrei a versão portuguesa. Os anúncios eram longuíssimos. Havia um da TORRALTA que se prolongava, minutos a fio. Pode ser que um dia destes mostre mais alguns, incluindo o das alcatifas Robillon, que metia ao barulho um combóio e um casal que dançava. O punch-line era algo como "em sua casa não passa um combóio"...

sábado, 16 de fevereiro de 2013

ARQUEOLOGIA - DE LEICESTER A MÉRTOLA

For in that sleep of death what dreams may come
When we have shuffled off this mortal coil,

A(s) arqueologia(s). A que merece referências nos orgãos de comunicação social de todo o mundo. E a outra, de uma escala mais pequena. Na primeira está o crânio de Ricardo III, uma das mais espetaculares descobertas dos últimos tempos. Mais do que o crânio em si, o que se sublinha é a carga mítica do achado e o seu caráter mais ou menos inesperado. Os restos mortais do rei são agora disputados por vários sítios. Não é só por cá que estas coisas acontecem.

Menos barulhenta foi a chegada ao Museu de Mértola de uma cupa, proveniente dos Corvos e recolhida em data incerta nas imediações da localidade. Mais uma peça para enriquecer o património mertolense. Está, desde quinta-feira, no átrio dos Paços do Concelho.

Em baixo: Sandra Gonçalves (vereadora da cultura da Câmara Municipal de Mértola) e Vírgilio Lopes (investigador do Campo Arqueológico de Mértola), no momento da chegada da peça às instalações camarárias, e a peça no local onde agora se encontra.

MULHERES DE CARNE E OSSO

Não são modelos. Não são conhecidas. Muitas não são novas. Não têm corpos "perfeitos". Mas aceitaram posar para o fotógrafo Matt Blum. Sem roupa e nas suas casas. Têm todas um ar de boa disposição. Trabalho notável o deste fotógrafo, conseguir mostrar mulheres autênticas, sem artifícios nem plásticas, em boas fotografias, e conseguir descontraí-las.


Soneto do corifeu

São demais os perigos desta vida
Para quem tem paixão, principalmente
Quando uma lua surge de repente
E se deixa no céu, como esquecida.

E se ao luar que atua desvairado
Vem se unir uma música qualquer
Aí então é preciso ter cuidado
Porque deve andar perto uma mulher.

Deve andar perto uma mulher que é feita
De música, luar e sentimento
E que a vida não quer, de tão perfeita.

Uma mulher que é como a própria Lua:
Tão linda que só espalha sofrimento
Tão cheia de pudor que vive nua.

Soneto de Vinicius de Moraes
Site do projeto de Matt Blum: http://thenuproject.com/

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

SIM

(...) caminante, no hay camino, se hace camino al andar. (...), dizia o poeta António Machado. Acabo de aceitar o desafio que me foi lançado, no sentido de encabeçar a lista da CDU para as próximas autárquicas, em Moura. A intenção é continuar a caminhada. Dando mais passos pelo progresso do concelho de Moura.

A imagem tem uns 5 anos. Nessa altura, os passos que dava (no Mali, não muito longe da fronteira com o Burkina Faso) estavam muito longe da minha cidade. O texto que aqui vos deixo é o final do solilóquio de Molly Bloom, de James Joyce. Tal como ela, também eu digo SIM. Só que com menos arte. Uma velha amiga achou o texto despropositado e sem relação com o momento em si. Não tem nada a ver com o momento em si, de facto. Mas este final é belíssimo e o ponto crucial está na repetição da palavra SIM.

the sun shines for you he said the day we were lying among the rhododendrons on Howth head in the grey tweed suit and his straw hat the day I got him to propose to me yes first I gave him the bit of seedcake out of my mouth and it was leapyear like now yes 16 years ago my God after that long kiss I near lost my breath yes he said I was a flower of the mountain yes so we are flowers all a womans body yes that was one true thing he said in his life and the sun shines for you today yes that was why I liked him because I saw he understood or felt what a woman is and I knew I could always get round him and I gave him all the pleasure I could leading him on till he asked me to say yes and I wouldnt answer first only looked out over the sea and the sky I was thinking of so many things he didnt know of Mulvey and Mr Stanhope and Hester and father and old captain Groves and the sailors playing all birds fly and I say stoop and washing up dishes they called it on the pier and the sentry in front of the governors house with the thing round his white helmet poor devil half roasted and the Spanish girls laughing in their shawls and their tall combs and the auctions in the morning the Greeks and the jews and the Arabs and the devil knows who else from all the ends of Europe and Duke street and the fowl market all clucking outside Larby Sharons and the poor donkeys slipping half asleep and the vague fellows in the cloaks asleep in the shade on the steps and the big wheels of the carts of the bulls and the old castle thousands of years old yes and those handsome Moors all in white and turbans like kings asking you to sit down in their little bit of a shop and Ronda with the old windows of the posadas glancing eyes a lattice hid for her lover to kiss the iron and the wineshops half open at night and the castanets and the night we missed the boat at Algeciras the watchman going about serene with his lamp and O that awful deepdown torrent O and the sea the sea crimson sometimes like fire and the glorious sunsets and the figtrees in the Alameda gardens yes and all the queer little streets and pink and blue and yellow houses and the rosegardens and the jessamine and geraniums and cactuses and Gibraltar as a girl where I was a Flower of the mountain yes when I put the rose in my hair like the Andalusian girls used or shall I wear a red yes and how he kissed me under the Moorish wall and I thought well as well him as another and then I asked him with my eyes to ask again yes and then he asked me would I yes to say yes my mountain flower and first I put my arms around him yes and drew him down to me so he could feel my breasts all perfume yes and his heart was going like mad and yes I said yes I will Yes.

NB: não serão publicados comentários anónimos a este post.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

O CHATO

Do filme talvez não reze a história, mas este O chato, realizado por Édouard Molinaro há quarenta anos, tem uma das cenas rodoviárias mais divertidas de que me recordo. O filme anda à volta da história de um assassino (Lino Ventura), contratado para eliminar uma testemunha. Não consegue levar a tarefa a bom termo, devido às constantes interferências de um chato (Jacques Brel).

Neste louco, e curto, percurso o melhor é a tirada filosófica do condutor: "y en a, faudrait leur faire sauter le permis".

Espaço de publicidade também para o Renault 12 Gordini, um modelo mítico saído das oficinas de Billancourt.

Visto no Cinema Berna, em 1974, é a minha escolha da semana. Porque os próximos dias vão ser de prego a fundo.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

CANONIZE-SE O TELEFONE!

"Sexta-feira, enquanto visitava Mário Soares na sua casa, Seguro fez um telefonema para Alegre - com quem, aliás, tinha acabado de almoçar - e... reestabeleceu a comunicação entre os dois. O seu Blackberry ganhou um lugar na história do PS." (Expresso)

Um lugar na história do PS para o Blackberry parece-me curto, para tão importante ação ideológica do auto-proclamado líder da oposição. A canonização do telefone é mais adequada.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

A SUA CARA NÃO ME É ESTRANHA...

Ainda a propósito de confusões e de identidades...

A Fátima ouviu falar português. Nada de estranho no metro de Paris. Mas, ao voltar-se, deu de caras com alguém que conhecia. Cumprimentou animadamente o senhor justamente por isso, porque o conhecia. Vai daí tentou perceber de onde, num animado e curto diálogo. Nada batia certo. A Fátima estudara numa escola, o senhor lecionara noutra. Ela trabalhara numas empresas, ele noutras. Nada batia certo, mesmo nada, embora o senhor, gentilíssimo e discreto, se esforçasse por encontrar pontos de contacto. Chegou-se a um beco sem saída. Às tantas, o senhor tentou uma saída: "bem, eu fui Ministro da Educação, chamo-me Roberto Carneiro...". Foi então que a Fátima se deu conta do equívoco, ficando embaraçada, mas não muito, que não é moça para isso. Eu teria gaguejado trinta vezes, mas ela não. De certeza que não.

"Doctor Livingstone, I presume", disse Stanley. Mas não foi no metropolitano.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

NIGÉRIA CAMPEÃ

A Nigéria acaba de ganhar a Taça Africana das Nações, ao bater o Burkina Faso por 1-0. Tive dificuldade em encontrar informações sobre a competição na imprensa escrita. Os jornais remeteram, se tanto, o assunto para as breves. Muitas vezes, nem a hora dos jogos aparecia.

O comentador da Eurosport dizia "vai ser grande a festa em Lagos, capital da Nigéria". A capital é Abuja... Veio-me à memória um jornalista da RTP que, durante o Mundial de 1994, chamou, durante a primeira parte de um jogo, africanos aos sauditas. É que os jogadores eram todos negros...

África não existe, para uma Europa que, muitas vezes, ainda não olha para lá dos seus limites. E que, muitas vezes, quando olha melhor seria que não olhasse.

Rashid Yekini (1963-2012), campeão africano em 1994.
Jogou em Portugal, no Vitória de Setúbal.

TALASSOTERAPIA - 6/10

Os barcos estarão em movimento, mas não parece assim muito. Talvez um Domingo de Carnaval merecesse um pouco de cor, mas os dias estão frios. Não muito tristes, mas o sol que lhes dá cor não os torna exatamente festivos. O poema de Antonio Machado fala em chumbo, em aço e, três vezes, em cinzento. Não pode ter visto a obra de Klee. Mas é como se tivesse visto.


El mar triste

Palpita un mar de acero de olas grises
dentro los toscos murallones roídos
del puerto viejo. Sopla el viento norte
y riza el mar. El triste mar arrulla
una ilusión amarga con sus olas grises.

El viento norte riza el mar, y el mar azota
el murallón del puerto.
Cierra la tarde el horizonte
anubarrado. Sobre el mar de acero
hay un cielo de plomo.

El rojo bergantín es un fantasma
sangriento, sobre el mar, que el mar sacude...
Lúgubre zumba el viento norte y silba triste
en la agria lira de las jarcias recias.

El rojo bergantín es un fantasma
que el viento agita y mece el mar rizado,
el tosco mar rizado de olas grises.

O quadro, Barcos em movimento, é de Paul Klee (1879-1940) e foi pintada muito perto do seu desaparecimento. Pertence ao  Zentrum Paul Klee, em Berna. O poema é do andaluz Antonio Machado.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

EU NÃO SOU EU. EU SOU OUTRA PESSOA.

Bem sei que o meu nome, que devo a origens sevilhanas, não é vulgar, em Portugal. Em Espanha e na América Latina há tantos santiagos macias como manuéis silva por estas bandas. Mas por aqui não.

Isso deu, durante anos, azo a inúmeros equívocos. Recebi, no Campo Arqueológico de Mértola, cartas dirigidas a Santiago Matias, Santiago Faria, Maciel Macias, Santiago Maciel, Paulo Santiago, Sebastião Maias, Santos Macias, Sebastião Garcia, Santiago Marias, Santiago Marques, Sampaio, Pedro Macias, Sebastião Matias, Salvador, Santiago Cacias, Santiago Mazias, Santiago Assis, Santiago Maciar e Santiago Messias. Um fartote, para gáudio do setor administrativo da casa.

O equívoco ganhou "dimensão internacional" quando uma prima minha comentou, com arqueólogas espanholas, a minha profissão. Disse-lhes depois o nome e ficou muito surpreendida quando as moças disseram que eu era muito conhecido em Espanha. Desfiz o equívoco num jantar de família. O Santiago Macias a que as arqueólogas se referiam é um colega galego que tem vindo a desenvolver um extraordinário trabalho, nos domínios científico e político. Tem escavado, publicado e denunciado os massacres cometidos pelo franquismo.

A confusão não acaba aí. Recebi, há semanas, um mail do António Rosa Mendes, alertando-me para a página na wikipedia do outro Santiago Macias. Na qual surgem referências bibliográficas a diversos trabalhos que ele teria publicado sobre Mértola... Não me dei ao trabalho de desfazer o divertido equívoco.

Santiago Macias Pérez e eu temos uma motivação em comum: a política. Ele é vereador do PSOE em Ponferrada (Castilla y León), eu do CDU, em Moura.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

SOB O SIGNO DE HOPPER - I: EMMERICO NUNES

A luz e os tons de Edward Hopper justificam bem uma nova série no blogue. Duas coisas me marcaram na recente exposição sobre a obra do pintor: uma, foi perceber como o seu percurso, iluminado por várias influências, cresceu e se autonomizou de forma pessoalíssima; a segunda, foi ver como influenciou o modo de olhar de tantos artistas plásticos. O alentejano Emmerico Nunes foi um deles.

À margem, não resisto a reproduzir a pergunta que a Júlia me fez: "ele não gostava de mulheres? têm todas um ar tão masculino...". As mulheres têm cada uma...

Brooklyn N.Y., 1939

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

LEITURA DO DIA

fotografia - António Cunha

Que o português médio conhece mal a sua terra - inclusive aquela que habita e tem por sua em sentido próprio - é um facto que releva de um mais genérico comportamento nacional, o de viver mais a sua existência do que compreendê-la. Descaso de consequências inumeráveis ou desprendimento sublime, herança contemplativa ou simples reflexo de uma urgência vital que nunca deixou muita margem para teoria, esse comportamento é o responsável pelo penoso e já antigo sentimento que no século XIX foi quase o lugar-comum dos homens mais ilustres, de que estamos ausentes da nossa própria realidade.

Caiu-me em cima, literalmente e no decurso de um dos habituais desmoronamentos que ocorrem no escritório lá em casa, o livro O labirinto da saudade, de Eduardo Lourenço, uma edição de 1978. Aqui vos deixo o início do ensaio Repensar Portugal. O endeusamento de Eduardo Lourenço é, hoje, um fenómeno ligeiramente irritante. Mas os livros não são menos interessantes por causa disso nem o seu autor tem disso culpa.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

VERGONHA


Não é só por cá. As dispensas arbitrárias de gente qualificada e cuja único defeito é ter mérito também acontece noutras paragens. A Junta de Andalucía resolveu destituir Antonio Vallejo Triano do cargo de diretor do Conjunto Arqueológico de Madinat al-Zahra. As justificações (v. aqui) são pobres, tristes e esfarrapadas, tendo em conta que Antonio Vallejo fez das ruínas e do trabalho de reabilitação patrimonial um marco no mundo da Arqueologia e da Museologia.

Há um abaixo-assinado a circular. Vi lá muitos amigos e colegas de várias paragens. Estranhei algumas ausências. Espero que sejam colmatadas nos próximos dias. Até porque à hora de almoço eram 75 os subscritores, agora são 210.

http://defensamadinatal-zahra2013.org/

DRESS CODE I: o jantar de gala


O convite era claro e direto: era um jantar de gala. Tomei o assunto a sério. Embora não fosse ao extremo de me apresentar de smoking (graças a Deus não fiz tal coisa, até porque não tenho nenhum smoking) escolhi um fato, mais um papillon, não demasiado formal, e mais uns sapatos pretos reluzentes.

A ideia revelou-se tristíssima. Quando cheguei ao jantar, supostamente de gala e de consagração de desportistas, mais ninguém estava vestido como eu. Havia homenageados em calções e havaianas. Campeavam as t-shirts. Eu, que nunca fui muito formal, mas levo estas coisas a sério, amaldiçoei a minha sorte. Achei-me carnavalesco e despropositado. Percebi o que sentiu aquele convidado de Errol Flynn quando saiu da undressing room e entrou, como Deus o mandou ao mundo, numa sala de jantar onde toda a gente estava vestida... A meio do jantar tirei discretamente o papillon preto de pintas brancas à Churchill.

Foi um dia decisivo. A partir dessa altura, e em jantares de gala do género, passei a usar um discreto truque. Levo no bolso uma gravata com o nó feito (o four-in-hand é o mais simples), o que me permite, face à avaliação no terreno, tomar decisões rápidas. A idade tem destas coisas. Torna as pessoas menos espontâneas, mas mais precavidas...

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

MOURA - 25 ANOS DEPOIS


No dia 1 de fevereiro de 1988 Moura foi elevada à categoria de cidade. A designação é honorífica e não traz consigo recompensas adicionais. Depois de longos anos de “reivindicação” instalou-se a pergunta e a dúvida “o que se ganhou em ser cidade?”. A pergunta em si é um tanto deslocada, porque as localidades não ganham ou perdem com as qualificações que as leis lhes atribuem.

Importaria antes ver o que se passou em Moura nos últimos 25 anos e que diferenças substanciais a cidade conheceu. Moura é uma terra melhor e mais qualificada hoje do que era há 25 ou há 30 anos? Indiscutivelmente, é. A cidade tem hoje melhores infra-estruturas do que tinha então? Sem dúvida. Temos hoje mais movimento do que antes? Aí andaremos ela por ela.

Que balanço podemos fazer? Projetos importantes – e contra os quais tantos esbracejaram… - sedimentaram-se e deram visibilidade e trouxeram investimento para o concelho. Problemas sérios como a situação do Castelo e dos Quartéis ficaram resolvidos ou estão em vias de o ser. Renovações decisivas nas redes de águas e esgotos deram resposta a situações que causavam transtornos aos habitantes. Equipamentos culturais e desportivos conheceram uma nova vida. O investimento na Educação ganhou um novo impulso depois de 1997. É uma cidade melhor? Decididamente, sim. Curiosamente, os problemas maiores foram causados pelo desinvestimento do Poder Central que, desde há muito, deixou o interior de Portugal entregue a si mesmo.

25 anos depois é bom que olhemos para a cidade e para o concelho. Mas também, e sobretudo, para a realidade da zona raiana do nosso País. Para as desigualdades que se foram acentuando. Para a incapacidade de sucessivos governos em criarem condições que invertam um problema que tem décadas e que não parou de se agravar. Para a desertificação de freguesias e de concelhos. Que têm agora um futuro mais difícil, depois da aplicação de leis imbecis, que extinguem freguesias à tesourada, sem pensar nas implicações que isso virá a ter. É só o nosso concelho que vive estes problemas? Faça-se então um périplo por Alcoutim, por Idanha-a-Nova, por Almeida ou por Mirandela e pense-se depois em que raio de País vivemos e que gente é esta que nos olha a partir de Lisboa.

Duas notas finais: a primeira é que o ato de resistência em que se tornou a vida em concelhos como Mértola ou como Moura é para continuar. Falo, naturalmente, do ponto de vista pessoal, e fiel a um caminho iniciado há quase 30 anos. E que essa opção tem, terá sempre, reflexos naquilo que é um princípio de combate político e de afirmação de valores de cidadania.

A segunda é para notar que há quem, no meio de tantas dificuldades e de tantos problemas, se preocupe com ramos de árvores. É caso para dizer que se olha para a árvore sem ver a floresta. E isso pode ser trágico.



Texto publicado no jornal "A Planície" de dia 1.2.2013.

A fotografia, de Orlando Fialho, dá-nos testemunho de mais uma obra de reabilitação iniciada na cidade. Começaram os trabalhos de restauro da igreja do Convento do Espírito Santo. Vai ser galeria de exposições. Os andaimes refletem bem este princípio de um percurso em construção. Voltarei ao tema, dentro de semanas. 

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

"O PATRIMÓNIO É IMPORTANTE, MAS NÃO É MAIS IMPORTANTE QUE AS PESSOAS"


Ainda é cedo para avaliar o que um ano de guerra fez a cidades como Tombuctu ou Gao.
Agora que as tropas francesas e os soldados malianos tomaram Tombuctu, Gao e Kidal, praticamente sem que houvesse resistência das forças rebeldes, chegou a altura das autoridades fazerem as contas aos prejuízos na área do património, sobretudo nas duas primeiras cidades, inscritas na lista do património da humanidade (Tombuctu desde 1988, o Túmulo de Askia, em Gao, desde 2004).

Durante meses sucederam-se notícias de mesquitas destruídas e bibliotecas saqueadas. No início da semana, chegou mesmo a temer-se que grande parte da importante colecção de livros e documentos do Instituto Ahmed Baba, com dezenas de milhares de manuscritos, talvez os mais importantes do século XII e outros até pré-islâmicos, tivesse desaparecido num incêndio. Os piores receios não se confirmaram, mas há muito a fazer no terreno.


A guerra começou em Janeiro do ano passado e, quase em simultâneo, surgiram relatos de que os rebeldes, muitos de grupos extremistas com ligações à Al-Qaeda, estavam a arrasar túmulos com centenas de anos que consideravam idólatras, mesmo que consagrados a santos muçulmanos. Tombuctu é conhecida como a "cidade dos 333 santos", mas os islamistas que se revoltaram contra o Governo do Mali querem impor a sharia (lei islâmica) em todo o território e ela não permite que se venerem santos.


A cidade do Norte, que tem o título de "jóia africana" por ter sido um importante pólo de desenvolvimento económico - era paragem obrigatória para os negociantes de sal, ouro e gado - e protagonista de uma época de ouro na promoção da religião e cultura islâmicas no continente (sobretudo nos séculos XV e XVI), foi a mais afectada pelas acções contra o património, embora Gao, a mais populosa da região (60 mil habitantes), também tenha visto muitos dos seus túmulos profanados.


O conflito armado ameaçava de tal forma Tombuctu que, no Verão, a UNESCO - Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura decidiu declará-la "em risco". Os especialistas malianos e internacionais - em particular os franceses e sul-africanos - temiam que, além dos edifícios únicos construídos em adobe (lama, palha e madeira), verdadeiras jóias da arquitectura em terra que valeram a Gao e Tombuctu o selo de património da humanidade, os islamistas dirigissem os seus ataques aos fundos documentais.



Manuscritos salvos

O presidente da Câmara de Tombuctu, Hallé Ousmane Cissé, chegou a dizer que as forças rebeldes tinham queimado praticamente todos os documentos históricos da cidade, naquilo que classificava como um "verdadeiro crime cultural". Mas, afinal, os islamistas destruíram apenas um dos dois edifícios do Instituto Ahmed Baba - o inaugurado em 2010, pago pela África do Sul, cuja Universidade da Cidade do Cabo é das organizações que mais têm investido na preservação dos documentos de Tombuctu. Nele só estavam guardadas cópias digitalizadas dos velhos manuscritos e originais menos relevantes.


"Uma grande maioria foi salva. Penso que mais de 90%", disse à AFP Shamil Jeppie, professor da Universidade do Cabo que dirige o projecto de catalogação e conservação dos manuscritos. "É claro que alguns sofreram desgaste, outros foram destruídos ou roubados, mas uma parcela muito mais pequena do que julgávamos à partida", admitiu, explicando que o dano não foi maior porque, receando os ataques ao instituto, arquivistas e conservadores transferiram os livros e documentos mais importantes para Bamaco e para outros lugares seguros nos primeiros meses da insurreição islamista.


Nos "cofres" do instituto há verdadeiras preciosidades em pergaminho pele de carneiro e até em omoplata de camelo. São livros, tratados e textos variados sobre astronomia, música, história, política, direito e matemática. Entre os mais importantes, diz Jeppie, citado pelo diário francês Le Monde, há muita poesia.


"Até há bem pouco tempo, dizia-se erradamente nos círculos ocidentais que a tradição cultural africana era em grande parte, ou por completo, oral", disse ao diário norte-americano Los Angeles Times o especialista em manuscritos árabes Amidu Sanni. Os manuscritos de Tombuctu contradizem essa visão.


Para Adel Sidarus, professor de Estudos Árabes e Islâmicos da Universidade de Évora, os manuscritos da cidade dos 333 santos são o reflexo do papel que este centro teve na África Ocidental durante centenas de anos, como pólo de trocas económicas e civilizacionais. "À falta de uma palavra melhor podemos dizer que Tombuctu tinha uma espécie de burguesia letrada. Havia tertúlias, era um centro de cultura e de conhecimento", diz ao PÚBLICO este académico cristão copta egípcio que e vive em Portugal há 35 anos.


Para Sidarus, que diz que os manuscritos precisam de ser mais conhecidos e estudados, é bem possível que os arquivos de Tombuctu, muito dispersos até pelas casas de particulares, guardem até surpresas sobre o Al-Andalus (que abrange a Península Ibérica).


"Esta nebulosa político-religiosa que hoje se vive no Mali não tem raízes nenhumas na sua história", explica. "Tombuctu, por exemplo, sempre foi uma cidade de grande tolerância religiosa, que a dada altura chegou a ter uma importantíssima comunidade de judeus, uns berberes, outros fugidos da Península Ibérica. Era também um centro para os sufis, místicos do Islão."



A destruição dos mausoléus sufis - as fontes ouvidas pelas agências falam por vezes em dezenas de túmulos arrasados, outras vezes em sete ou nove - é precisamente um dos grandes objectivos dos rebeldes, acrescenta o professor de Évora. "O fundamentalismo a que assistimos hoje no Norte do Mali faz uma interpretação retrógrada do Corão e é do tipo tribal, como no tempo do profeta Maomé."


Os primeiros relatos ocidentais sobre a cidade só foram feitos no século XIX, quando um francês arriscou a vida ao entrar disfarçado em Tombuctu (a visita era proibida a estrangeiros), lembrou ao PÚBLICO o arqueólogo Santiago Macias, especialista no estudo do Al-Andalus.


Macias tem acompanhado com preocupação o desenvolvimento da situação no Mali, e não está nada optimista. Acredita que o recuo dos rebeldes é temporário e que tudo farão para destruírem o que o Ocidente valoriza, como aconteceu com os budas de Bamiyan, no Afeganistão. "O problema na região é, como todos sabemos, económico e social. O que tem ganho a população de Tombuctu com tanto património da humanidade? Vive menos miseravelmente? E por que estão lá os franceses? Por causa do património ou por causa das minas de urânio?"


Macias diz que é ainda muito cedo para perceber o que se perdeu em termos patrimoniais, apesar de serem "graves" os relatos que foram chegando dos ataques às três grandes mesquitas de Djingareyber, Sankoré e Sidi Yahia, e aos mausoléus de Gao, cuja necrópole foi intensamente escavada pelos japoneses nos anos 1970. "O inventário de muito deste património é, seguramente, frágil. Muita coisa se perdeu ao longo dos séculos - não apenas agora. Se formos comparar a cidade de hoje com aquela que os documentos árabes descrevem nos séculos XIV e XV, com cúpulas douradas por toda a parte, vamos pensar que os autores de há 500 anos estavam a delirar."


Em declarações ao jornal Le Monde, Bruce Hall, professor da Universidade de Duke, nos EUA, foi também bastante crítico em relação à intervenção governamental nas cidades património do Mali e falou em corrupção. "Foram gastos milhões de dólares na digitalização e conservação de manuscritos nos últimos dez anos, pela UNESCO e por fundações americanas. Quase nada foi feito. O dinheiro desapareceu no Mali, mas também nas mão de pseudo-especialistas ocidentais que discutiram muito mas fizeram pouco."


O balanço do que se perdeu nos últimos meses em termos patrimoniais pode muito bem nunca vir a ficar completo, acrescenta Santiago Macias. "A destruição vai continuar e o conflito não deve ficar por aqui. No Mali, como em todo o lado, o património é muito importante, mas não é mais importante do que as pessoas. Enquanto a pressão sobre as populações for enorme, não é de esperar que os extremistas deixem de ter no Mali terreno fértil."

Texto da jornalista Lucinda Canelas (Público de 3.2.2013)
Fotografia de Benoit Tessier

domingo, 3 de fevereiro de 2013

O BPN? QUAL BPN? O QUE DIABO É O BPN?

No jornal Público:
Esta ligação [de Franquelim Alves] ao BPN levou o PCP a afirmar que esperava que Cavaco recusasse empossar o novo secretário de Estado. A justificação? Franquelim Alves omitiu a sua passagem pelo grupo SLN/BPN e as imparidades no Banco Insular - no currículo oficial divulgado pelo Governo não consta qualquer referência a essas funções. O deputado comunista Honório Novo lembrou que Franquelim Alves foi administrador do grupo sob as lideranças de Oliveira e Costa e Abdul Vakil. "Durante a primeira comissão parlamentar de inquérito sobre o BPN, ficou patente que Franquelim Alves conhecia no princípio de 2008 tudo o que dizia respeito ao Banco Insular", até "um volume significativo de imparidades e de actos irregulares de gestão no grupo BPN/SLN", justificou Honório Novo citado pela Lusa. "Por isso, o PCP considera que uma pessoa desta natureza e com este currículo - que Franquelim Alves omite na sua folha oficial de apresentação do seu passado - dificilmente poderá ser indigitado como secretário de Estado de um Governo do nosso país", argumentou.


Fontes governamentais insistem que não senhor, que não há nada a dizer. Esta cena da nomeação de Franquelim Alves faz lembrar aquela tirada do velho militar corrupto do Astérix na Córsega. Que ao ser interpelado por um subalterno, que detetou uma situação estranha, responde: "Aquilo tudo, o quê? Chega um barco, três tipos saltam do barco, que fica deserto e explode. Outros tipos chegam a nado. Tudo isto é banal. Nem sequer há com que fazer um relatório".

BUENA VISTA SOCIAL CLUB

É um filme muito bonito. Com um toque de nostalgia, sem cair na pieguice; com um registo rigoroso sobre cada um dos intervenentes, sem se tornar intrusivo; filmando Cuba e conseguindo ficar à margem do banal registo do "pró" ou "contra". Wim Wenders não teria feito o filme sem o papel decisivo que nele teve Ry Cooder. A quem os músicos cubanos ficaram a dever um reconhecimento planetário, que os lançou numa segunda, e tardia, fase das suas carreiras musicais.

Há coisas tipidamente wenderianas no filme - como o recurso à motorizada com o side-car -,  num estilo de abordagem que oscila entre o flamboyant e o intimista. As cenas de Buena Vista Social Club (1999) não costumam estar disponíveis na net. Mostro esta, que é uma das minhas favoritas. O diálogo entre os músicos beneficia bastante daquele movimento de câmara em círculo, muito ao jeito de Alan Tanner. Ah, e outra coisa, os raccords são perfeitos.

A rodagem do filme teve um remate absolutamente estúpido e pidesco: Ry Cooder viria a ser condenado pelas Finanças americanas a pagar 25.000 dólares. Porquê? Por ter gasto dinheiro em Cuba sem a autorização daquele organismo. Ainda bem que Ry Cooder foi a Cuba. Vejam porquê:



Duerme en mi jardin
las blancas azucenas, los nardos y las rosas
mi alma, muy triste y pesarosa
a las flores quiere ocultar su amargo dolor

sábado, 2 de fevereiro de 2013

CHECKPOINT

O Conde d'Aguilar é um dos meus grandes mitos de infância. Vi-o atuar na Feira de Setembro, em Moura, em 1970 ou 1971. Fiquei fascinado com aquele aparato todo, a casaca, o chapéu alto, o ar distante. E os truques, todos eles inexplicáveis. O cartaz à porta do circo era exatamente este que aqui se reproduz.

A que propósito surge aqui o Conde d'Aguilar (nome artístico de Saúl Fernandes de Aguilar)? Por causa de uma recente viagem, que me obrigou a passar por um daqueles checkpoints num aeroporto. Para vergonha e desespero de quem me acompanhava tirei dos múltiplos bolsos do casaco: uma carteira, um porta-moedas com 6,77€ em moedas de todos os tamanhos, uma Leica M-6, um fotómetro Minolta, uma cartão de embarque mais um cartão do cidadão, uma pen de 4 giga, um rolo fotográfico HP-5, um rolo fotográfico FP-4, as chaves do carro, as chaves de casa, um lenço de assoar, uma embalagem de lenços de papel, um telemóvel, um carregador de telemóvel, três esferográficas (uma das quais não escrevia) e um moleskine. O comentário foi algo como "como é que consegues meter essa lixeira nos bolsos?". Fiquei triste. Achei que só o Conde d'Aguilar me compreenderia.

 



Homenagem ao Conde de Aguilar, ilusionista

conde da guarda
conde da foz
conde de foulques de maillé
conde da folgosa
conde de fijó
conde da ervideira
conde de castro marim
conde castro
conde de castelo mendo
conde de castelo melhor
conde de castelo branco
conde de casteja
conde de carnide
conde de caminha
conde de cabral
conde de botelho
conde da borralha
conde do bonfim
conde de bonfils
 conde de bobone
conde de belmonte
conde de barcelona
conde da barca
conde da bahia
conde da azarujinha
conde de avilez
conde de ávila e bolama
conde dos arcos
conda das antas
conde do ameal
conde de alvor
conde de alvellos
conde do alto-mearim
conde de almeida araújo
conde de almarjão
conde de almada
conde das alcáçovas
conde de albuquerque
)conde de aguilar(
conde de águeda

Alexandre O'Neill (1979)