domingo, 30 de junho de 2013

VERDE


Verde que te quiero verde.
Verde viento. Verdes ramas.
El barco sobre la mar
y el caballo en la montaña.
Con la sombra en la cintura
ella sueña en su baranda,
verde carne, pelo verde,
con ojos de fría plata.
Verde que te quiero verde.
Bajo la luna gitana,
las cosas le están mirando
y ella no puede mirarlas.
              *
Verde que te quiero verde.
Grandes estrellas de escarcha,
vienen con el pez de sombra
que abre el camino del alba.
La higuera frota su viento
con la lija de sus ramas,
y el monte, gato garduño,
eriza sus pitas agrias.
¿Pero quién vendrá? ¿Y por dónde...?
Ella sigue en su baranda,
verde carne, pelo verde,
soñando en la mar amarga.
              *
Compadre, quiero cambiar
mi caballo por su casa,
mi montura por su espejo,
mi cuchillo por su manta.
Compadre, vengo sangrando,
desde los montes de Cabra.
Si yo pudiera, mocito,
ese trato se cerraba.
Pero yo ya no soy yo,
ni mi casa es ya mi casa.
Compadre, quiero morir
decentemente en mi cama.
De acero, si puede ser,
con las sábanas de holanda.
¿No ves la herida que tengo
desde el pecho a la garganta?
Trescientas rosas morenas
lleva tu pechera blanca.
Tu sangre rezuma y huele
alrededor de tu faja.
Pero yo ya no soy yo,
ni mi casa es ya mi casa.
Dejadme subir al menos
hasta las altas barandas,
dejadme subir, dejadme,
hasta las verdes barandas.
Barandales de la luna
por donde retumba el agua.
              *
Ya suben los dos compadres
hacia las altas barandas.
Dejando un rastro de sangre.
Dejando un rastro de lágrimas.
Temblaban en los tejados
farolillos de hojalata.
Mil panderos de cristal,
herían la madrugada.
              *
Verde que te quiero verde,
verde viento, verdes ramas.
Los dos compadres subieron.
El largo viento, dejaba
en la boca un raro gusto
de hiel, de menta y de albahaca.
¡Compadre! ¿Dónde está, dime?
¿Dónde está mi niña amarga?
¡Cuántas veces te esperó!
¡Cuántas veces te esperara,
cara fresca, negro pelo,
en esta verde baranda!
              *
Sobre el rostro del aljibe
se mecía la gitana.
Verde carne, pelo verde,
con ojos de fría plata.
Un carámbano de luna
la sostiene sobre el agua.
La noche su puso íntima
como una pequeña plaza.
Guardias civiles borrachos,
en la puerta golpeaban.
Verde que te quiero verde.
Verde viento. Verdes ramas.
El barco sobre la mar.
Y el caballo en la montaña.

Termina-se o mês em tons de verde. Verde de esparança, sobretudo. Com Brigitte Bardot, com Andy Warhol, com García Lorca e o seu Romance sonámbulo. Cinquenta anos (1924-1974) separam as palavras das imagens. Quase nada, afinal.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

MOURA - DO PÁTIO DOS ROLINS À MOURARIA

Do arrabalde novo à Mouraria, passando pelo castelo. A abertura oficial do novo posto de turismo teve lugar no feriado municipal, dia 24 de junho. Sem espavento nem alarido. E com a presença de 40 resistentes à canícula.

Começou-se pelo Pátio dos Rolins. Que se mantém como posto de informações, mas que ganhou nova vida com o espaço internet. Num edifício do século XVI vivem agora as novas tecnologias. Daí se passou ao recinto do castelo. De vergonha da cidade, nos anos 90, passou, sem luxos nem gastos faraónicos, a ser uma área aprazível. Onde convivem edifícios de diferentes épocas e onde a arqueologia contribuiu, de forma efetiva, para a reabilitação urbana.

Desceu-se depois à renovada Mouraria. O passeio terminou no largo, onde Os sons da campina animaram o final de tarde.

Hoje à tarde houve uma prova de vinhos, que contou com a colaboração de Jorge Liberato e com uma participação musical que não estava no programa. Estiveram presentes empresários do concelho, do setor vitivinícola, com destaque para Amareleja e Moura. Uma boa estreia para um espaço que se quer dinâmico e aos serviço da economia do concelho.

A reabilitação da cidade tem passado por aqui. Com intervenções concretas e com provas dadas. Os últimos anos foram de ritmo intenso. Num caminho difícil e cheio de escolhos. Talvez por isso nos dê mais prazer chegar a este ponto.

Pátio dos Rolins - espaço internet

Posto de receção aos turistas - prova de vinhos


Largo da Mouraria

quinta-feira, 27 de junho de 2013

ALGUNS DIAS DEPOIS DO SOLSTÍCIO

A Júlia ligou-me do frio parisiense. Ficou desconsolada quando lhe relatei a agitação que varria Moura. O Festival do Rio e do Pão foi um merecido sucesso para quem o organizou, com a equipa da COMOIPREL à frente. Mas a isso juntou-se o movimento do S. João. Houve de tudo um pouco: uma igreja de S. João, onde o sagrado deu as mãos ao profano; fontes de água decoradas; mastros (quase dezena e meia em todo o concelho, sem contar com as decorações promovidas por alguns bares); marchas populares. E ainda a música pelas ruas (esta no âmbito do Festival acima referido).

O verão começou. E começou bem.





video

Atuação dos Caprichosos, à porta da Taberna do Liberato.


Há um poema de António Machado sobre as noites de verão. O poema é bonito, mas solidão rima pouco com o S. João.

Es una hermosa noche de verano.
Tienen las altas casas
abiertos los balcones
del viejo pueblo a la anchurosa plaza.
En el amplio rectángulo desierto,
bancos de piedra, evónimos y acacias
simétricos dibujan
sus negras sombras en la arena blanca.
En el cénit, la luna, y en la torre,
la esfera del reloj iluminada.
Yo en este viejo pueblo paseando
solo, como un fantasma.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

TORRE DE MENAGEM – NOVOS DADOS E NOVAS HIPÓTESES

Fomos, desgraçadamente, um País pouco dado ao registo escrito. As razões são de vária ordem e dariam para muitas páginas. Deixemos isso para outra altura. Interessa agora fazer uma breve reflexão sobre a torre de menagem do castelo de Moura, sobre a qual persistem, ainda, muitas dúvidas. Quando foi construída? Quem a mandou construir? Que remodelações sofreu? 

O que se sabe? Apenas que, em 1320, D. Dinis manda proceder a uma recolha de fundos para financiar o refazimento do alcácer de Moura. Daí para a frente, o silêncio é completo. Quando Duarte Darmas desenha a então vila de Moura, nos inícios do século XVI, a torre já lá está. Ou seja, temos quase 200 anos para situar o monumento. Um lapso de tempo demasiado grande.

Se olharmos a forma de organização do espaço interno da sala da torre verificamos que a mesma apresenta algumas semelhanças com o piso inferior da torre de menagem do castelo de Beja:

·      Fenestração rasgada em três muros, com um acesso à janela que se vai progressivamente estreitando;
·      Arranque da escada helicoidal a partir de um muro traçado de forma oblíqua em relação à linha exterior do edifício;
·      Desenho quandrangular da estrutura, dentro da qual se inscreve um octógono (mais evidente em Moura que em Beja)

Ou seja, parece admissível que a conclusão da torre de menagem tenha tido lugar em finais do século XIV, cronologia atribuída à torre do castelo de Beja. Até do ponto de vista político esta hipótese faz algum sentido, uma vez que o final de Trezentos foi marcado pela consolidação do poder régio e pela ascensão aos círculos do poder de uma nova nobreza, que herda os bens da nobreza rural ou que os obtém do monarca à custa da sua fidelização.

Esta hipótese foi, recentemente, reforçada pela descoberta de uma inscrição, datável da segunda metade do séc. XIV, numa coluna onde, segundo o meu colega Saul Gomes, da Universidade de Coimbra, se lê: COMCELHO DE MOURA. A inscrição ganha mais força, se tida em consideração no contexto acima referido.

Uma curiosidade à margem deste tema é a do erro que o desenho de Duarte Darmas apresenta. Ou seja, a torre que está reproduzida no célebre “Livro das Fortalezas” não é a de Moura…

Veja-se o desenho:

·      A torre representada no desenho apresenta um conjunto de janelas em todas os muros, estando essas janelas organizadas de forma escalonada, ficando-se com a ideia que haveria uma escada a acompanhar a caixa murária, numa organização semelhante à da torre de menagem do castelo de Mértola. Nem a torre atual tem aquelas janelas, nem a escada acompanha os muros.
·      A porta de acesso à torre de menagem situava-se, na planta da alcáçova, perto do seu vértice noroeste, e em local oposto ao atual.

Dados novos, em suma: a torre deve ter sido concluída apenas no reinado de D. João I, em finais do século XIV ou em inícios do XV; a torre representada por Duarte Darmas está errada, facto que não é inédito nas representações do conhecido desenhador. Novos dados e novas hipóteses numa História em permanente reconstrução.


Crónica publicada em "A Planície" de 15.6.2013

terça-feira, 25 de junho de 2013

QUASE NA PRAIA DA ROCHA

Este ano as férias calham na primeira semana de julho. Na Praia da Rocha, cenário para mim pouco habitual.

Nunca me passeei assim na praia. Juro que não. Mas esta cena de L'aventure c'est l'aventure (1972), de Claude Lelouch é inesquecível. Como engatar miúdas andando à malandro... Destacam-se, pelo estilo, Aldo Maccione e Lino Ventura.

Esta velha comédia é o meu filme da semana.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

MAIS CDU - INICIATIVA POLÍTICA EM MOURA


Na sexta-feira foi assim. 400 (quatrocentas) pessoas encheram um dos pavilhões da feira para mais uma iniciativa da CDU. As intervenções estiveram a cargo de Maria José Silva (candidata à presidência da união das freguesias de Moura e Santo Amador), José Maria Pós-de-Mina (candidato à presidência da Assembleia Municipal), do autor do blogue (candidato à presidência da Câmara Municipal) e de Jerónimo de Sousa (secretário-geral do PCP).

Um ambiente quente, comentava-me um amigo de longa data. Estava mesmo. Entusiasmo e juventude. Confraternização e amizade.

Isto vai.


Na fotografia de cima (da esquerda para a direita): Ana Farinho, Luís Rico, Carlos Campaniço, João Ramos, José Maria Pós-de-Mina, Jerónimo de Sousa, João Dias Coelho, Carolina Medeiros, o autor do blogue e Miguel Madeira. A Maria José Silva está detrás de mim.

A de baixo está no facebook de António José Martins.

sábado, 22 de junho de 2013

UNIVERSIDADE DE COIMBRA - PATRIMÓNIO DA HUMANIDADE

A notícia tem poucas horas. A Universidade de Coimbra é Património da Humanidade. Um processo longo e conduzido de forma exemplarmente profissional.

Nada tive a ver com este projeto. Mas como investigador da Faculdade de Letras e membro da unidade de investigação sedeada no Instituto de Arqueologia não posso deixar de manifestar o meu contentamento pela classificação.

Nestas alturas, não falta gente a reclamar mérito pelo feito. Pudera... Como dizia um amigo, que esteve durante muito tempo ligado ao processo, e com quem falei há pouco, "pais vão ser mais de trezentos".

Aqui fica o meu abraço de parabéns a duas pessoas essenciais no processo de classificação: o arq. Nuno Ribeiro Lopes e o Prof. José António Raimundo Mendes da Silva.

DAME WITH THE GOAT'S FOOT AND OTHER STORIES


The last feed é uma obra recente de Paula Rego. A imagem começou a circular pela blogosfera há pouco mais de uma semana. Um palhaço a mamar nos seios de uma mulher? Um palhaço a mamar nos seios de uma mulher enquanto se coça despudoradamente? O universo de Paula Rego não é muito dado a subtilezas. Conheço uma pessoa que o classifica de "boçal". Embora a palavra boçalidade cubra um lote de equívocas designações.

Até aí, vá que não vá. Mas então não é que o palhaço que mama nos seios e se coça se parece com o... Parece, não parece? É mesmo a cara do...

Uma pintora zangada e com um ácido sentido de humor é uma coisa terrível...

sexta-feira, 21 de junho de 2013

DO MAR AO RIO - DE MOURA A CACHEU


Arranca amanhã, em Moura, o Festival do Peixe do Rio e do Pão. A mola propulsora do evento está na COMOIPREL, que organiza o evento em parceria com a Câmara Municipal. Por estes dias não tenho visto a Antónia Baião... O projeto é desenvolvido em parceria com inúmeras entidades. De entre as quais se destacam os comerciantes do Centro Histórico. Se bem conheço a minha terra animação é coisa que não vai faltar.

Mais a sul, com menos recursos, mas não menos entusiasmo, há um Festival de Gastronomia. Em Cacheu, na margem meridional do rio com o mesmo nome. Um evento pouco comum, em terra de gente extraordinária. Duas passagens rápidas por Cacheu deixaram-me a certeza de um sítio onde a vontade tudo supera.

POLÍTICA E ELEGÂNCIA LITERÁRIA


Cartaz da campanha de Moita Flores à Câmara de Oeiras.

"Apostar mais nos miolos"? Quem terá tido tão elegante ideia?

quinta-feira, 20 de junho de 2013

AMARELO

1.
A terra lauta da Mata produz e exibem
um amarelo rico (se não o dos metais):
o amarelo do maracujá e os da manga,
o do oiti-da-praia, do caju e do cajá;
amarelo vegetal, alegre de sol livre,
beirando o estridente, de tão alegre,
e que o sol eleva de vegetal a mineral,
polindo-o, até um aceso metal de pele.
Só que fere a vista um amarelo outro,
e a fere embora baço (sol não o acende):
amarelo aquém do vegetal, e se animal,
de um animal cobre: pobre, podremente.

2.
Só que fere a vista um amarelo outro:
se animal, de homem: de corpo humano;
de corpo e vida; de tudo o que segrega
(sarro ou suor, bile íntima ou ranho),
ou sofre (o amarelo de sentir triste,
de ser analfabeto, de existir aguado):
amarelo que no homem dali se adiciona
o que há em ser pântano, ser-se fardo.
Embora comum ali, esse amarelo humano
ainda dá na vista (mais pelo prodígio):
pelo que tardam a secar, e ao sol dali,
tais poças de amarelo, de escarro vivo.


João Cabral de Melo Neto (1920-1999) e Milton Avery (1885-1965). Predomina o amarelo. Mas em diferentes modos. O amarelo de Avery, Interlude, sugere uma tranquilidade burguesa, algo entre o silêncio e a preguiça. O texto do poeta brasileiro poderá ser tudo. Plácido é que não, na violência das suas imagens e da sua franqueza.

CDU - MOURA: OS QUATRO PRIMEIROS DA LISTA DA CÂMARA

A decisão teve lugar há pouco. Aqui vão os quatro primeiros nomes de uma lista que tenho o enorme orgulho em encabeçar:


1. Santiago Macias
50 anos, historiador (Universidade de Coimbra)

2. José Gonçalo Valente
34 anos, arqueólogo (Câmara Municipal de Moura)


3. Maria do Céu Rato
53 anos, professora (Agrupamento de Escolas de Moura)

4. Joaquim Simões
36 anos, músico (Conservatório Regional do Baixo Alentejo)

terça-feira, 18 de junho de 2013

OLHANDO AS TÁGIDES E VENDO SAFARA, AMARELEJA E MOURA...


E vós, Tágides minhas, pois criado
Tendes em mim um novo engenho ardente,
Se sempre em verso humilde celebrado
Foi de mim vosso rio alegremente,
Dai-me agora um som alto e sublimado,
Um estilo grandíloquo e corrente,
Porque de vossas águas, Febo ordene
Que não tenham inveja às de Hipocrene.
 
 Dai-me uma fúria grande e sonorosa,
E não de agreste avena ou frauta ruda,
Mas de tuba canora e belicosa,
Que o peito acende e a cor ao gesto muda;
Dai-me igual canto aos feitos da famosa
Gente vossa, que a Marte tanto ajuda;
Que se espalhe e se cante no universo,
Se tão sublime preço cabe em verso.

Foi assim, embalado pelas Tágides, que no ambiente sedutor da Casa da Cerca me passeei pelo percurso de Victor Mestre, arquiteto e amigo de longa data. A exposição ao (per)correr (d)a vida é um longo périplo pelos projetos mas, sobretudo, pela construção do conhecimento do próprio Victor. O concelho de Moura está por lá: Biblioteca Municipal, Igreja do Convento do Espírito Santo, Pavilhão das Cancelinhas (Amareleja) e uma obra particular, em Safara (v. desenho em baixo).

Melhor que falar da exposição é visitá-la. Ainda não há catálogo, que sairá em breve.

As tágides estão em permanência na paisagem. A exposição pode ser visitada até 15 de setembro.

ver: http://www.m-almada.pt/portal/page/portal/CASA_CERCA

segunda-feira, 17 de junho de 2013

MAIS CDU - MOURA (21.6.2013)

Mais uma iniciativa política a abrir o verão. Na próxima sexta-feira, dia 21 (às 20 horas), há um jantar de apoiantes da CDU, em Moura. Será outra forma de dar ainda mais força a uma campanha que tem, até agora, privilegiado os contactos pessoais e com instituições. As primeiras saídas para o terreno, nomeadamente a da Amareleja, confirmam as melhores expetativas.

Na sexta-feira serão anunciados os candidatos à Câmara, à Assembleia e à união de freguesias de Moura e Santo Amador.

Estão previstas três intervenções:

José Maria Pós-de-Mina (candidato à presidência da Assembleia Municipal)
Santiago Macias (candidato à presidência da Câmara Municipal)
Jerónimo de Sousa (secretário-geral do PCP)

Local - Parque Municipal de Feiras e Exposições

sábado, 15 de junho de 2013

CIDADE BRANCA

Alain Tanner tinha, nessa altura (início dos anos 80), grande prestígio entre a intelectualidade europeia. Dele vi vários filmes. Recordo apenas, para ser sincero, os elípticos movimentos de câmara. Uma originalidade que Wim Wenders, por exemplo, retomaria anos mais tarde.

Tanner rodou, em 1983, um filme que tinha Lisboa como pano de fundo. Dessa obra tenho uma imagem mais precisa. Na cidade branca é uma Lisboa jazz. O realizador rejeitou os chavões habituais e concentrou-se na imagem de uma urbe que parece, tantas vezes, norte-africana. E que, de alguma modo, o é. Esta cena é uma deambulação pela Lisboa antiga. Que termina num bar do Cais do Sodré. A filmagem teve lugar no British Bar, um dos melhores sítios que já conheci.

É o relógio que anda às avessas ou o mundo, interrogam-se os personagens. Vá lá saber-se...

sexta-feira, 14 de junho de 2013

NO OBSCURO DESEJO

no obscuro desejo, 
no incerto silêncio, 
nos vagares repetidos, 
na súbita canção 

que nasce como a sombra 
do dia agonizante, 
quando empalidece 
o exterior das coisas, 

e quando não se sabe 
se por dentro adormecem 
ou vacilam, e quando 
se prefere não chegar 

a sabê-lo, a não ser, 
pressentindo-as, ainda 
um momento, na aresta 
indizível do lusco-fusco. 



Arte maior em vários tons. O poema é de Vasco Graça Moura. As imagens são um jogo de espelhos. Tal como as palavras. Entre a tela de Ary Scheffer e a fotografia de Nan Goldin. A inspiração no classicismo - ainda que Scheffer se inspire num tema do séc. XIII - é a fonte primeira da fotografia. Muitos fotógrafos andaram por estes caminhos. Mapplethorpe foi um dos melhores. Goldin não lhe fica atrás.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

DANÇAS SENSUAIS NO BRILHO FIXO DA LUZ...


IV
Que pandeiretas o silêncio deste quarto!...
As paredes estão na Andaluzia...
Há danças sensuais no brilho fixo da luz...
De repente todo o espaço pára....
Pára, escorrega, desembrulha-se...,
E num canto do tecto, muito mais longe do que ele está,
Abrem mãos brancas janelas secretas
E há ramos de violetas caindo
De haver uma noite de Primavera lá fora
Sobre o eu estar de olhos fechados...


A sugestão para este post foi-me dado por um texto de Manuel Barros Ferreira, no facebook. O texto, de Fernando Pessoa, tem sugestões orientalistas - pelo menos foi isso que a minha liberdade de leitor nele viu. Daí ao quadro foi um pequeno passo. A tela intitula-se Il ballo dell’ape nell’harem e é seu autor Vincenzo Marinelli (1820-1892). Foi pintada em 1862 e encontra-se hoje no Museo di Capodimonte, em Nápoles.

Ver: http://cir.campania.beniculturali.it/museodicapodimonte/

Fernando Pessoa nasceu em 13 de junho de 1888. Faz hoje 125 anos.

QUITE POR CHICUELINAS

Hélder Rosalino tá chateado.

Já não bastava a Hélder Rosalino a faena dos autarcas, como ter de assistir agora ao quite dos deputados. "O secretário de Estado da Administração Pública, Hélder Rosalino, acusou nesta quarta-feira os deputados de atrasarem a aprovação da proposta de lei que estabelece a forma como o subsídio de férias deve ser pago em 2013 para criarem um facto político.", lê-se no Público.

São as desvantagens da Democracia representativa, Hélder Rosalino. Em último caso, encomende-se um "estudo" e acabe-se com as autarquias e com o Parlamento. E crie-se uma União Nacional. Isso é que era, não era, Hélder Rosalino?

Va por usted, D. Rosalino!

quarta-feira, 12 de junho de 2013

CÂMARA DE MOURA PAGA SUBSÍDIO DE FÉRIAS


Quase 40 anos depois do 25 de abril há quem ainda não tenha percebido o que é a autonomia do Poder Local. Há quem, no "arco da governação", tente, a todo o custo transformar as Câmaras Municipais nas bisonhas repartições que eram antes do 25 de abril.

Eis o que aconteceu na Câmara de Moura:

1. A despesa com os subsídios de férias estava prevista em orçamento;
2. Havia disponibilidade de tesouraria;
3. Como a lei prevê o pagamento do subsídio de férias no mês de junho, a Câmara de Moura decidiu proceder a esse pagamento. Antecipando-o e cumprindo a lei.

Toda a gente foi abrangida. Toda? Não. De fora ficaram o presidente, os vereadores e os quadros de apoio (chefe de gabinete e secretários). Assim fica claro que não se estava a decidir em causa própria.

Em cima: plenário com os trabalhadores da Câmara Municipal, ontem à tarde.

terça-feira, 11 de junho de 2013

ELOGIO BARROCO DA BICICLETA

Redescubro, contigo, o pedalar eufórico
pelo caminho que a seu tempo se desdobra,
reolhando os beirais - eu que era um teórico
do ar livre - e revendo o passarame à obra.

Avivento, contigo, o coração, já lânguido
das quatro soníferas redondas almofadas
sobre as quais me etangui e bocejei, num trânsito
de corpos em corrida, mas de almas paradas.

Ó ágil e frágil bicicleta andarilha,
ó tubular engonço, ó vaca e andorinha,
ó menina travessa da escola fugida,
ó possuída brincadeira, ó querida filha,
dá-me as asas - trrim! trrim! - pra que eu possa traçar
no quotidiano asfalto um oito exemplar !


O título é do poema de O'Neill. Mas também se adapta a esta quase-instalação, que se encontra em Tacões (concelho de Mértola).

segunda-feira, 10 de junho de 2013

DILMANDO, NO DIA DE PORTUGAL

Dilma Rousseff, Presidenta do Brasil, está em Portugal. A imprensa brasileira on-line não diz uma palavrinha sobre o assunto. Uminha que seja... Na ótica brasileira, a vinda parece uma irrelevância. Provavelmente, é-o. Talvez por isso, Dilma iniciou a visita em Portugal de forma irrelevante, reunindo-se com António José Seguro.

domingo, 9 de junho de 2013

O MANUEL PINHO DOS CHAMPS-ELYSÉES

O presidente francês anunciou hoje, no Japão, que a crise na Europa acabou. Uma declaração idêntica à de Manuel Pinho, em outubro de 2006, que anunciou na altura o fim da crise em Portugal.

Haja otimismo. Ou, pelo menos, bom humor.

 

LARANJA

Depois do vermelho, o laranja. Percorrendo o arco-íris.


Laranjeira

São as laranjas brasas que mostram sobre os ramos
as suas cores vivas
ou rostos que assomam
entre as verdes cortinas dos palanquins?

São os ramos que se balouçam ou formas delicadas
por cujo amor sofro o que sofro?

Vejo a laranjeira que nos mostra os seus frutos:
parecm lágrimas coloridas de vermelho
pelos tormentos do amor.

Estão congeladas mas se fundissem seriam vinho.
Mãos mágicas moldaram a terra para as formar.

São como bolas de cornalina em ramos de topázio
e na mão do zéfiro há martelos para as golpear.

Umas vezes beijamos os frutos
outras cheiramos o seu olor
e assim são alternadamente
rostos de donzela ou pomos de perfume.

O poema é do escalabitano Ibn Sara, aqui numa inspirada versão de António Borges Coelho. Nu aux oranges é uma litografia de Henri Matisse. Os traços mais simples são sempre os mais belos.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

MAIS CASAS DO SUL

O livro, Casas do Sul, foi editado pela Câmara Municipal de Mértola por ocasião do Festival Islâmico de 2013. Um trabalho a três: Manuel Passinhas, Miguel Rego e o autor do blogue. Aqui se partilha um pouco do resultado desse projeto, que nos deu enorme prazer. Viva Mértola! Viva o sul!

quinta-feira, 6 de junho de 2013

ANTECIPAÇÃO DO VERÃO

O meu verão será, decerto, pouco marítimo. Muito menos verei L'Estaque... A cor de Cézanne e a outra cor, de Alberto Caeiro, dão a esperança de um verão venturoso. Não deverei sair muito dos limites do concelho de Moura. Mas isso não é exatamente uma punição.

O verão começará com uma iniciativa política. Que marcará os dias seguintes. Dia 21 será feito o anúncio público dos candidatos da CDU à Câmara Municipal de Moura. Os nomes serão conhecidos dentro de dias. Antecipemos o verão.
 
No entardecer dos dias de Verão

No entardecer dos dias de Verão, às vezes,
Ainda que não haja brisa nenhuma, parece
Que passa, um momento, uma leve brisa...
Mas as árvores permanecem imóveis
Em todas as folhas das suas folhas
E os nossos sentidos tiveram uma ilusão,
Tiveram a ilusão do que lhes agradaria...

Ah!, os sentidos, os doentes que vêem e ouvem!
Fôssemos nós como devíamos ser
E não haveria em nós necessidade de ilusão...
Bastar-nos-ia sentir com clareza e vida
E nem repararmos para que há sentidos...

Mas Graças a Deus que há imperfeição no Mundo
Porque a imperfeição é uma coisa,
E haver gente que erra é original,
E haver gente doente torna o Mundo engraçado.
Se não houvesse imperfeição, havia uma coisa a menos,
E deve haver muita coisa
Para termos muito que ver e ouvir...

Alberto Caeiro ( Heterónimo de Fernando Pessoa )
in O Guardador de Rebanhos

terça-feira, 4 de junho de 2013

ANTÓNIO ROSA MENDES (1954-2013)

As mais gratas recordações da minha passagem pela docência na Universidade do Algarve centram-se na amizade fraterna com que fui envolvido por um grupo de colegas. Via o Francisco Teixeira apenas a espaços. Com mais frequência, cruzava-me com o Luís Filipe Oliveira, com o João Bernardes, com o Horta Correia e com o António Rosa Mendes. Este último, em especial, encarregava-se de animar os almoços e as horas mortas com histórias divertidas, que desafiavam o mais sisudo. Enchia o nosso gabinete com a sua generosidade e com o fumo das cigarrilhas, de que nunca se separava.

Historiador, poeta e editor, jurista, homem culto e professor de cultura, foi diretor do evento "Faro - capital da cultura" e desenvolveu intensa e profícua atividade cultural e académica. A ação política foi outra área a que António Rosa Mendes dedicou particular interesse. Começou pela extrema-esquerda (foi um dos responsáveis pelo jornal "Lutar no mar, Lutar em terra", numa época que recordava com humor e sem complexos), passando depois para os terrenos da social-democracia.

Fui-me cruzando com o António em júris de mestrado em Gambelas, em  atividades culturais em Safara, em Mértola, em Faro... Horas bem aproveitadas, com alguém que tinha da vida um sentido intenso e lúdico.

No próximo mês de julho, quando passar por Vila Real de Santo António, já não lhe telefonarei para um daqueles intermináveis jantares, que acabavam sempre em deambulações tardias pelos bares da cidade.

António Rosa Mendes faleceu há poucas horas, deixando desolados os que com ele privavam. É um daqueles amigos de quem vou ter saudades a sério. E que nunca esquecerei.