sexta-feira, 30 de agosto de 2013

A ESTRELA DA MANHÃ

Eu quero a estrela da manhã
Onde está a estrela da manhã?
Meus amigos meus inimigos
Procurem a estrela da manhã

Ela desapareceu ia nua
Desapareceu com quem?
Procurem por toda a parte

Digam que sou um homem sem orgulho
Um homem que aceita tudo
Que me importa? Eu quero a estrela da manhã

Três dias e três noites
Fui assassino e suicida
Ladrão, pulha, falsário

Virgem mal-sexuada
Atribuladora dos aflitos
Girafa de duas cabeças
Pecai por todos pecai com todos

Pecai com os malandros
Pecai com os sargentos
Pecai com os fuzileiros navais
Pecai de todas as maneiras

Com os gregos e com os troianos
Com o padre e com o sacristão
Com o leproso de Pouso Alto

Depois comigo

Te esperarei com mafuás novenas cavalhadas
comerei terra e direi coisas de uma ternura tão simples
Que tu desfalecerás
Procurem por toda parte
Pura ou degradada até a última baixeza
eu quero a estrela da manhã

Manuel Bandeira tinha 50 anos quando escreveu este poema, todo ele sugestões. Lembrei-me dele ao olhar o desenho desta magnífica peça da Mouraria de Moura. Um prato da segunda metade de século XIV, importado de uma oficina algures no leste ibérico. Uma estrela intemporal.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

OS MENINOS DA ALDEIA


Jogavam no Jogo o jogo das escondidas
e atiravam bolegadas aos bardos dos quintais.
Roubavam a cana do caiado e apanhavam morcegos,
ao cair da tarde 
e levavam porrada com o que da cana sobrava.
Na boca da noite faziam procissões
e o padre até cantava.
Os meninos eram sacristão, tamborileiro
guiões e foguetes.
Com sapatos inventados no pó
e o dedo grosso atado da topada
tocavam clarinetes,
bombos e gaitas de todas as orquestras.
Quando chegavam a casa comiam feijões de azeite
porque era dia de festa.
À mingua de luz faziam a cópia e liam a lição
A BEM DA NAÇÃO
Faziam contas de dividir: o pão, os gomos da laranja,
as azeitonas.
Dava sempre resto zero.
Dormiam depois consolados de amanhãs
com sopinhas de café
às vezes.
No adro da Escola eram heróis de guerra
e desenhavam vidas.
Umas aqui outras abaladas.

Juntam-se agora nos largos vazios da aldeia
e entornam copos de vinho:
a marca é saudade
porque a lembrança,
a lembrança
é sempre o que fica atado na ponta do lenço...


Cartier-Bresson para um poema de Antónia Baião. Ou ao contrário.

CIRCO PORTUGAL

No Jornal de Negócios:

O Governo atribui ao FMI a responsabilidade pela publicação de informação parcial sobre os cortes salariais que ocorreram em Portugal em 2012. E garante que, depois de terem saído os gráficos no memorando da sétima avaliação, enviou informação já completa ao FMI. Esses dados davam conta de que 27% dos trabalhadores por conta de outrem sofreram cortes salariais entre 2011 e 2012. Um valor substancialmente acima dos 7% que foram oficialmente publicados, tal como o Negócios avançou ontem. 


Numa reacção geral à notícia avançada esta quarta-feira pelo Negócios, o ministério liderado por Pedro Mota Soares defendeu-se dizendo que não escamoteou informação: o FMI recebeu exactamente aquilo que pediu e sabia o que tinha entre mãos. Mas continua a não explicar porque é que enviou dados incompletos ao Fundo para a sétima avaliação, que permitiram dar lastro à tese de que em Portugal os salários não se ajustam à crise como deviam.



Um circo. Estes indivíduos fazem da governação, e do nosso País, um circo.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

ÁZZ PIRAMIDIZZ DUSS AÇÔRIZZ


Leia-se o título com sotaque brasileiro, sff. No mesmo tom enfático da locução dos "complementos" que, há muitos anos, antecediam nos cinemas, e ainda que se chamassem complementos, os filmes que, de facto queriamos ver. Os complementos, na realidade documentários de média metragem, versavam sempre temas de natureza de regiões remotas. Ouviamos coisas como tôduzz uzz anuzz milháris e milháris dji antilupizz átrávesamm azz sávánazz du Kénia!

A que propósito vêm aqui ázz piramidizz duss Açôrizz? É que voltaram a "descobrir" vestígios pré-portugueses. Civilizações antigas, ligações aos Maias, mais um passinho e estamos na Atlântida... É um fenómeno cíclico, alimentado por jornalistas pouco informados que, com toda a probabilidade, leram na juventude as obras de Louis Pauwels, Jacques Bergier e Erich von Daniken. Um must da astropsicovigarice, que conheceu grande sucesso na década de 1970. O ponto alto foi o filme Eram os deuses astronautas?, que motivou animados debates em frente ao pavilhão 1 do Liceu de Queluz. As teses mais divertidas eram as da malta do MRPP, que sustentavam que aqueles filmes eram manobras capitalistas para alienar as massas.

Andam os espíritos inflamados por causa das pirâmides dos Açores. Haja calma. Sempre são mais inofensivas que as outras, as do Ponzi. E do ponto de vista arqueológico bem melhores que outras coisas que ainda hoje me traumatizam. Como a escavação da alcáçova de Moura, em 2003, em que levámos três dias a tirar do terreno caca de cão...

Longa vida, pois, ázz piramidizz duss Açôrizz.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

OS CONHECIDOS CABOS DE FACA EM OSSO...


Ao terminar hoje as revisões do 2º volume da publicação sobre as escavações arqueológicas no castelo de Moura (por razões de ordem técnica o 2º volume ficou concluído antes do 1º...) não pude deixar de reparar numa peça do período almóada, muito semelhante à da imagem.

Trata-se de uma torre de roca, usada nas atividades de fiação. Durante muitos anos estes objetos foram classificados como cabos de faca. Uma nova proposta de uso foi formulada, por Cláudio Torres, em 1985, no Congresso de Huesca. Não pude deixar de sorrir ao recordar-me do título por ele dado ao texto: “Uma proposta de interpretação funcional para os conhecidos cabos de faca em osso já com longa história na arqueologia ibérica”. Uf! Palavras: 20. Caracteres: 125. Se não é recorde mundial, num texto de Arqueologia, deve andar lá perto.

Vão poder ver a nossa torre de roca na página 122 do 2º volume. Tem o número V_63.

O REFORÇO DO APOIO

Na proposta 2 do programa eleitoral do Partido Socialista para o concelho de Moura lê-se:

Reforçar o apoio ao Ensino Profissional, vocacionado, ministrado pela COMOIPREL e pela ADC Moura.

E vão duas. Depois de proporem a alteração de um regulamento que não existe (v. aqui), avançam agora para o reforço a uma atividade (ensino profissional) que a ADC Moura não tem. Não está mal...


A aula de desenho, de Jan Steen. É um pintura da segunda metade do século XVII. Ação de formação profissional ou ensino profissional, nunca saberemos o que retratou este holandês. O quadro está no Getty Museum. Que está tão longe de nós quanto propostas destas andam longe da realidade...

domingo, 25 de agosto de 2013

FADO DO ESTUDANTE

É um marco do cinema português. 80 (oitenta) anos depois da sua rodagem continua a ser visto e apreciado. Toda a gente, de todas as gerações, conhece diálogos deste filme de Cottinelli Telmo (1897-1948), o talentoso arquiteto que dirigiu "A canção de Lisboa".

Vasco Leitão, o Vasquinho da anatomia, era uma consumado borguista. O meu percurso académico, em Portugal e em França, foi bem mais contido... Este fado é um dos pontos altos do filme. Aqui fica a escolha cinéfila da semana, com um abraço para o José Caeiro.

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

DE SOMBRA, SOL Y MUERTE

Admito que este é um post um pouco preguiçoso, mas há muito que andava para publicar esta belíssima fotografia do matador António Barrera, na Maestranza de Sevilha. Não sei o seu autor. O poema que se segue é de Rafael Alberti.

As imagens e as palavras estão de acordo com estes dias de verão.


De sombra, sol y muerte, volandera
grana zumbando, el ruedo gira herido
por un clarín de sangre azul torera.

Abanicos de aplausos, en bandadas,
descienden, giradores, del tendido,
la ronda a coronar de los espadas.

Se hace añicos el aire, y violento,
un mar por media luna gris mandado
prende fuego a un farol que apaga el viento.

¡Buen caballito de los toros, vuela,
sin más jinete de oro y plata, al prado
de tu gloria de azúcar y canela!

Cinco picas al monte, y cinco olas
sus lomos empinados convirtiendo
en verbena de sangre y banderolas.

Carrusel de claveles y mantillas
de luna macarena y sol, bebiendo,
de naranja y limón, las banderillas.

Blonda negra, partida por dos bandas,
de amor injerto en oro la cintura,
presidenta del cielo y las barandas,

rosa en el palco de la muerte aún viva,
libre y por fuera sanguinaria y dura,
pero de corza el corazón, cautiva.

Brindis, cristiana mora, a ti, volando,
cuervo mudo y sin ojos, la montera
del áureo espada que en el sol lidiando

y en la sombra, vendido, de puntillas,
da su junco a la media luna fiera,
y a la muerte su gracia, de rodillas.

Veloz, rayo de plata en campo de oro
nacido de la arena y suspendido,
por un estambre, de la gloria, al toro,

mar sangriento de picas coronado,
en Dolorosa grana convertido,
centrar el ruedo manda, traspasado.

Feria de cascabel y percalina,
muerta la media luna gladiadora,
de limón y naranja, remolina

de la muerte, girando, y los toreros,
bajo una alegoría voladora
de palmas, abanicos y sombreros.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

FINANÇAS DESTRUIRAM PAPÉIS ESSENCIAIS PARA AVALIAR SWAPS

No Público de hoje:

A Inspecção-Geral de Finanças destruiu documentação que produziu em 2008 relativa aos contratos swap e que seria essencial para avaliar o controlo feito à subscrição destes produtos pelas empresas públicas. Na auditoria que a ministra das Finanças solicitou e a que o PÚBLICO teve acesso, revela-se que, dos oito dossiers necessários para analisar a actuação do organismo em relação à celebração destes derivados, apenas dois não foram eliminados.


O ARQUIVO

A DESTRUIÇÃO DE DOCUMENTOS

Visto de fora, Portugal deve parecer um sítio engraçadíssimo.

AS RECEITAS REVERTEM A FAVOR DO LAR DE NOSSA SENHORA DAS NECESSIDADES

É isso que lemos no cartaz e foi também isso que nos levou a apoiar, financeira e logisticamente, esta iniciativa do Real Grupo de Forcados Amadores de Moura e da Junta de Freguesia de Santo Aleixo da Restauração.

Amanhã à noite lá estaremos, apoiando a iniciativa, apoiando as Festas e Santo Aleixo e apoiando os nossos valores culturais.

Sexta, sábado e domingo iremos santoaleixar.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

DA EMPRESA PARA OS EMPRESÁRIOS

Correria entre a igreja do Convento do Espírito Santo, o restaurante Celeiro (passe a publicidade) e o bar Moment's (passe a publicidade, bis).

O colóquio de apresentação ao público do trabalho de restauro da igreja contou com mais de quarenta pessoas. Houve gente que veio, para meu espanto e satisfação, de muito longe.

Da empresa de restauro de uma igreja se passou para um encontro, noutro local, com empresários do concelho. Iniciativa de campanha, para uma conversa com pessoas de vários quadrantes políticos. Mais de quarenta presenças. Um ambiente descontraído e que proporcionou uma agradável troca de impressões. Deixou-nos, ainda mais, a certeza que a dinâmica do concelho de Moura passa, e muito, pela energia dos mourenses.

A noite terminaria com uma incursão pelo Moment's, o único sítio que conheço, num raio de muitos quilómetros, onde há kir royal.



SCOOP SEXAGENÁRIO

A CIA vem admitir, 60 anos depois, que esteve envolvida no golpe de estado que derrubou o líder iraniano Mosaddeq.

Sério? Tss, tss, que surpresa. Nunca ninguém imaginou ou insinuou tal coisa...

terça-feira, 20 de agosto de 2013

UMA CASA EM RUÍNAS

Uma única porta
No último muro de uma casa em ruínas.
Cuidado
Quem atravessar essa porta, à noite,
Pode ficar para sempre no Outro Mundo!


Logo hoje, em que poderemos ver, na igreja do Espírito Santo, o que outrora foi uma ruína, me fui lembrar deste curto poema de Mário Quintana. A fotografia tem um toque de mistério, como convém. É do francês François-Xavier Gbre (n. 1978) e foi mostrada nos célebres Recontres de Bamako

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

MUSEU DE MOURA - SITE

Está online o site do Museu de Moura.

Uma forma de chegar aos museus só com a ponta do dedo. Um modo mais rápido de ter informação pertinente sobre o nosso Património.

E antes que os mesmos de sempre atirem mais umas opiniões, por norma sem qualificação, sobre a minha atividade enquanto autarca ("é só museus blabla é só arqueologia blablabla"), devo esclarecer que o referido site é da inteira responsabilidade do Museu Municipal, área de que não sou responsável. Ou seja, sou alheio, do ponto de vista técnico, ao projeto e aos seus conteúdos. Embora, evidentemente, fique satisfeito por o site existir. 


O COMPLIQUÊS DO POLITIQUÊS, DITO EM PORTUGUÊS

Passos Coelho, no Pontal, referindo-se ao que foi enviado para o Tribunal Constitucional e que visa a Função Pública:

Ora, se algumas destas medidas tiverem contingências constitucionais que se venham a materializar não será fácil ultrapassar esta situação. (...) não posso garantir que não haja, do ponto de vista constitucional, riscos que não se possam materializar.

Perceberam? Querem uma explicação, por um politólogo? Mandamos chamar o inesquecível Manuel Machado?

ATENAS, POR ANGELOPOULOS

Athina, epistrofi stin Akropoli, qualquer coisa como Atenas, regresso à Acrópole (com a ajuda de google, que não sei grego). É um dos filmes que procuro, de forma incessante, há muitos anos. Cheguei a contactar o produtor, que me respondeu dizendo estar para breve uma edição em DVD. Nada de nada. Encontrei agora esta versão original, no youtube. Os textos que acompanham o filme são poéticos e filosóficos.

Vi este documentário na RTP. É um trabalho de Theo Angelopoulos (1935-2012) sobre a sua cidade. O filme resultou de uma encomenda destinada a divulgar as capitais culturais da Europa. Neste caso, poesia e turismo entram um pouco em contradição. Há gente que se deve ter arrepelado de arrependimento, mas o filme de Angelopoulos é muito bonito. 40 minutos de declaração de amor a uma cidade.

sábado, 17 de agosto de 2013

DO DIA PARA A NOITE

O Mediterrâneo é o mundo da luz. Mas a verdade é que as noites são a outra face das nossas vidas. E, portanto, vive-se tanto noite dentro como pelo dia fora. Em sítios onde as pessoas têm um certo sentido festivo da vida (v.g., o concelho de Moura) as noites são, desde há semanas, de animação ininterrupta. Festas de todo o tipo e com todos os enquadramentos possíveis. Moura, Safara, Santo Amador, Amareleja têm feito parte desse percurso recente. Hoje é a vez do Sobral. Na próxima semana será Santo Aleixo. Depois haverá a feira. E por aí adiante, até o outono lançar um pouco de frescura no corpo e no espírito.

A visão lírica da noite de Cesare Pavese dá-nos um bom contraponto para tanta agitação.

Nas fotografias (de cima para baixo): a noite de poesia na sede de campanha da CDU, a Festa do Emigrante, em Moura, e uma rua da Amareleja, esta madrugada.




Ma la notte ventosa, la limpida notte
che il ricordo sfiorava soltanto, è remota,
è un ricordo.
Perdura una calma stupita
fatta anch'essa di foglie e di nulla. Non resta,
di quel tempo di là dai ricordi, che un vago
ricordare.

Talvolta ritorna nel giorno
nell'immobile luce del giorno d'estate,
quel remoto stupore.


Per la vuota finestra
il bambino guardava la notte sui colli
freschi e neri, e stupiva di trovarli ammassati;
vaga e limpida immobilità. Fra le foglie
che stormivano al buio, apparivano i colli
dove tutte le cose del giorno, le coste
e le piante, e le vigne, eran nitide e morte
e la vita era un'altra, di vento,di cielo,
e di foglie e di nulla.

Talvolta ritorna
nell'immobile calma del giorno il ricordo
di quel vivere assorto, nella luce stupita.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

ENTRE O NORTE ALENTEJANO E MOURA, COM PASSAGEM POR ESTREMOZ



Dia agitado. À procura de respostas para vários temas. À procura de caminhos para o futuro.


Manhã e início de tarde em Campo Maior, nas Jornadas Técnicas de Olivicultura. O meio da tarde, e antes de rumar ao Sobral e à Amareleja, em Estremoz, olhando os Quartéis, com datação próxima dos de Moura. O edifício não está ainda reabilitado, mas é de um extraordinário interesse. Mais acima fica a cadeia medieval, cujo uso pode servir de padrão de qualidade para os bares que ficarão nos Quartéis de Moura.

Os usos e as rentabilizações do património construído estão em pano de fundo.

Ver, sobre a cadeia de Estremoz: http://www.cadeiaquinhentista.com/


FORCADOS AMADORES DA AMARELEJA - 10 ANOS

Final de tarde na Amareleja. Comemoração do 10º aniversário do Grupo de Forcados Amadores de Amareleja, em iniciativa promovida pela Câmara Municipal de Moura. Estiveram presentes antigos e atuais membros do grupo. Intervieram Milton Raimundo, cabo fundador, António Quadrado, o atual cabo, o Presidente da Câmara e Maria José Honrado, madrinha do grupo.

Uma cerimónia simples e apropriada. Uma forma de assinalar com dignidade a data que se celebra.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

O OCASO DA PRIMAVERA


Repito, e a propósito da guerra civil no Egito, parte de um texto aqui publicado em 20 de junho de 2012:

No meio de entusiásticos fora, de tanto debate e de tantas declarações de amor ao Mediterrâneo há detalhes que ainda não mereceram grande atenção aos analistas e aos politólogos. E que eu gostava de entender. Que medidas concretas foram tomadas para o combate à pobreza? O que se passa com a juventude desses países? Como estão os direitos das mulheres? O que é feito das minorias cristãs? O que vai ser da minoria cristã na Síria, já agora? Que desenvolvimento teve o dossiê palestiniano, o mais sensível e mais doloroso de todos os assuntos? Haverá primaveras sem pão?

HASSAN II E JENS STOLTENBERG

O senhor da fotografia é Hassan II (1929-1999), rei de Marrocos. Conta-se que tinha o hábito de sair do Palácio Real disfarçado para deambular sozinho pelos mercados e pelos bairros populares de Rabat, para ouvir o que as pessoas diziam. Que comentários faziam, que opiniões tinham sobre a sua governação. Avisadamente, preferia esse esporádico contacto direto às análises dos politólogos, aos conselhos dos conselheiros e à ditadura dos técnicos de marketing.

A penosa história de Jens Stoltenberg e do seu cinema-verité de contacto com as massas dentro de um táxi é apenas uma confirmação. Governar, ou querer governar, com espalhafato mediático não dura muito. A verdade acaba sempre por vingar. E passos em falso, como o de Jens Stoltenberg, tornam mais evidentes os aprendizes de feiticeiros.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

OLIVEIRA DA FIGUEIRA

Post de homenagem a uma figura dos livros do Tintim, pela qual tenho especial apreço: o sr. Oliveira da Figueira. É, salvo erro, o único português que aparece naquelas aventuras.

O sr. Oliveira da Figueira é um "artista", capaz de vender gelo no Polo Norte. Da sua mala saem todos os artefactos, todas as ofertas e todas as promessas. Dificuldades? Essa palavra não existe no léxico fácil do sr. Oliveira da Figueira...

O que é engraçado é que, mais cedo ou mais tarde nas nossas vidas, acabamos por conhecer alguém assim. 

MANUEL ACIÉN ALMANSA

"O Acién já cá não está", dizia a SMS recebida há pouca. A certeza foi-me dada quando, poucos segundos depois liguei ao Fernando Branco Correia. Um aneurisma levou, subitamente, Manuel Acién Almansa, historiador e arqueólogo brilhante. Acima de tudo, um ser humano extraordinário.

Conheci o Mane em 1991, num congresso em Rabat. Ele era já um historiador prestigiado. Isso não impedia de nos vir perguntar, aos putos, "acham que correu bem? é que eu estava nervosíssimo". Achava imensa graça aquela quase ingenuidade. Que estava de acordo com a sua timidez e com uma simpatia a que não dava descanso.

Os momentos de convívio - quase sempre nas horas mortas dos congressos - confirmaram a certeza de estar ante um académico excecional. Uma visita ao castelo de Mula confirmaria, em definitivo, essa ideia. O seu sentido lúdico das coisas prolongou-se, nessa noite, quando nos arrastou para um bar perdido de Murcia. A incursão a "Los Embajadores" (el bar de los noctámbulos de la ciudad, dir-me-ia, com divertida convicção) foi um dos muitos momentos de descontração.

Sempre me surpreendeu, no Mane, essa capacidade de se divertir, de uma forma discreta, tímida mesmo, que tinha contraponto no rigor intelectual que o levava a escrever obras como Entre El Feudalismo Y El Islam : Omar Ibn Hafsun en los historiadores. A sua extensa bibliografia é um exemplo de rigor, inteligência e capacidade de análise. Nos últimos anos encontrei-o menos vezes. Mas não esquecerei, nunca, os seus comentários certeiros e a sua sabedoria pouco ostentatória. E aquela bondosa simplicidade que tanta falta nos fará.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

IGREJA DO ESPÍRITO SANTO - REABILITAÇÃO E GESTÃO DE EDIFÍCIOS HISTÓRICOS

Pode um armazém de madeiras ser transformado em galeria de arte? Não só pode, como deve. Tratando-se de uma igreja no centro histórico de Moura é quase uma obrigação.

Quanto é que esta intervenção custou aos cofres do Município? 52.500 €. O resto foi garantido por fundos comunitários, aos quais a Câmara Municipal concorreu.

A igreja do Espírito Santo esteve, durante muitos anos, num estado de degradação extrema. Foi, há algum tempo, adquirida pela Câmara Municipal e vai agora ganhar nova vida. A obra está concluída. O edifício não será inaugurado antes de final de setembro.

Está, contudo, na altura de se mostrar o trabalho de reabilitação e os frescos que foram postos a descobertos e devidamente tratados por técnicos de restauro. Está, sobretudo, na altura, de se discutir o futuro. É esse o objetivo do colóquio sobre Reabilitação e Gestão de Edifícios Históricos, que terá lugar, na própria igreja, no próximo dia 20, pelas 18.30.

Participantes:
Ana Paula Amendoeira * presidente da comissão nacional do ICOMOS.
António Prates * galerista e CEO do Centro Português de Serigrafia.
António Vasques * técnico da EMPRIPAR.
Joaquim Caetano * historiador de arte.
Santiago Macias * vereador da Câmara Municipal de Moura.
Vítor Mestre * arquiteto e co-autor do projecto de reabilitação da vmsa arquitectos.





PAVILHÃO DAS CANCELINHAS EM CONCURSO

Uf, foi desta. Um processo longo e difícil. As razões serão explicadas no local  e no momento próprios. Está a decorrer o prazo de entrega de propostas para este equipamento, a construir na Amareleja. Uma parte do logradouro da Escola das Cancelinhas será utilizada como pavilhão multiusos. Feira da Vinha e do Vinho? Sim. Mas também servirá para apoio à prática desportiva, bem como para a organização de eventos culturais. Um projeto arrojado e inteligente de Victor Mestre e Sofia Aleixo.

O prazo de entrega de propostas vai até 23 de agosto. Data de inauguração (para quem se preocupa com estas coisas)? Na primavera de 2015, se contarmos com todas as burocracias e procedimentos. 

Empreitada de construção de Pavilhão Solar na Escola das Cancelinhas (Amareleja)
D.R.: nº 140 (série II, de 23-07-2013)
Valor do preço base: 1.220.381,36 EUR
Prazo: 365 dias 

AUTÁRQUICAS 2013 - notas de campanha (nº 2)

1.
Nos últimos dias têm-se repetido as insinuações por parte de cabeças de lista do PS em Moura. Foram publicadas no jornal "A Planície" e no facebook. Em que consistem? Na acusação de que os mesmos de sempre andam a promover um clima de intimidação e ameaça para que as pessoas não votem PS. Mais ainda, que os mesmos de sempre andariam a dizer que, caso o PS ganhasse as eleições, seriam despedidas.
São acusações e insinuações às quais não é dada corpo. São feitas criando um clima de suspeição. O que é de uma extrema deselegância.

2.
Na passada quarta-feira os vereadores do PS votaram contra o contrato-programa a estabelecer entre a Câmara Municipal e a LÓGICA, empresa municipal.

A embirração do PS com o projeto da energia solar não é de hoje e assume contornos de obsessão.

Reconheça-se, contudo, alguma coerência ao Partido Socialista:
Votaram (dois vereadores) contra a constituição dos órgãos sociais da LÓGICA (26.09.2007).
Votaram contra a desanexação dos terrenos do baldio das Ferrarias (24.10.2007).

Abstiveram-se quando foi necessário tomar decisões sobre o zonamento da UP 11, onde hoje se encontra a fábrica de painéis solares (19.7.2006).
Abstiveram-se na venda de ações à ACCIONA (24.8.2006).
Abstiveram-se nas versões preliminar e final do contrato com a ACCIONA (3.1.2007 e 18.1.2007, respectivamente). 
Abstiveram-se no licenciamento da 1ª fase da central fotovoltaica (12.9.2007).
Abstiveram-se no licenciamento da 2ª fase da central fotovoltaica (16.1.2008).
Abstiveram-se na ratificação do Plano de Pormenor da central fotovoltaica (7.11.2007).

É caso para dizer que aqui é que não há mesmo mudanças. Continuam a ser os mesmos de sempre...


Porquê Andy Warhol e as suas sopas? Porque achei que a repetição da imagem colava bem com conversas que se repetem. Sempre na base do diz-que-diz. Sempre iguais. Sempre sem nada para dizer.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

BOCEJO



The black-haired girl
with the big
                          brown
                                          eyes
on the Queens train coming
                          in to work, so
opens her mouth so beautifully
                          wide
                                       in a ya-aawn, that
two stops after she has left the train
I have only to think of her            and I
                                                                   o-oh-aaaww-hm
                                                                      wow        !



Não sei quem é a rapariga que assim, tão nua, boceja. Quem a pintou foi Edvard Munch, que tinha 50 anos nesse ano de 1913. O poeta americano Paul Blackburn (1926-1971) também viu um bocejo. Também anónimo. E, que eu saiba, sem data.

O yawn de Blackburn está num livro. O da moça pode ser visto em Bergen. Está na Rolf Stenersen Collection.

BOLAMA: A COSTA É UMA MURALHA DE MANGUE

A costa é uma linha contínua. A costa é uma muralha de mangue. Três horas depois de uma navegação entre o mangue, o céu pardacento e o mar pardacento, o barco chega a Bolama. Do mar ainda não vemos a cidade. Vemos apenas o molhe, à nossa frente. 

O barco apita três vezes, como se de um filme se tratasse. A cidade é uma clareira na costa e no mangue. Está à nossa frente, atrás do mangue e dos poilões. Pressente-se, colina acima, mas não mais que isso. Quem olha a cidade, lá do alto, são os jagudis. Um voo preguiçoso, ao ritmo do barco e do calor. 

Do mar não vemos a cidade, nem vemos as ruínas. No calor da tarde, Bolama começa a tomar forma. Plantas antigas dão-lhe uma ordem, que agora desaparece, por entre os prédios em mau estado. As ruas coloniais são, agora, terreno lavrado pela chuva e pela incúria. O pavimento original desapareceu há muito. Passa um jipe, levantando nuvens de pó. Há silêncio e há pó, um pó vermelho, silencioso e perene, que tudo cobre. 

À direita do porto ergue-se um obelisco. Ai caduti di Bolama, homenageou Mussolini. O monumento existe desde o ano IX da Era Fascista. Mussolini acreditava governar para a eternidade. Falhou em toda a parte, menos em Bolama. Até hoje, a memória dos quatro aviadores que ali morreram permanece gravada na pedra. 

As cidades existem, isso é bem sabido, enquanto símbolos do poder. A arqueologia mostra-nos como as cidades e os seus edifícios mudam quando o poder desaparece ou se torna fraco. Quanto mais forte é o poder, mais visíveis são os sinais da sua decadência. Anfiteatros romanos que são ocupados por igrejas, teatros que se transformam em espaços de habitação, ruas que são cortadas ou privatizadas, de tudo um pouco as escavações nos contam, dando voz aos que tomaram a vez de quem mandava. Tal não aconteceu em Bolama. Quando os brancos saíram, e Bolama era deles e para eles, a cidade saiu de si própria. 

Uma cidade não costuma morrer de uma só vez. Uma cidade definha. Agora um muro cai, logo a seguir tomba um troço de telhado, depois outro. A morte de uma cidade é uma arqueologia às avessas, uma escavação feita da base para o topo. 

No princípio do fim tudo parece imutável. Os prédios são quase os mesmos, estão quase intactos. Estão feridos de morte, mas tal não é visível. Alguns anos depois começam a ser visíveis os sinais da doença. O processo é cada vez mais rápido, cada vez mais irreversível. Algumas décadas mais tarde, a história da cidade só é feita por velhos bilhetes-postais. As telhas misturam-se com a densidade das ervas e dos arbustos. Os canos de água, podres e inchados pela ferrugem, saem dos muros, sem préstimo. Primeiro é a água que se insinua nos muros, começando a atacar o ferro, que cresce e ganha volume. Depois, a argamassa salta e o processo acelera-se. Mais tarde, notam-se já com clareza as frestas e o interior dos muros. É o começo da ruína final. Bolama desmaia ma i ka murri, diz-se por lá, mas a realidade desafia a tradição. 

Bolama foi a capital da Guiné Portuguesa. Hoje, entre escombros, ferrugem e o esquecimento, é um cenário fantástico, entre Greene e Conrad. A cidade, lá nos trópicos, é fácil de encontrar (11º 20’ 0’’ N, 16º 5’ 0’’ W). Mas não é fácil de lá sair. Um dia mais tarde explicarei porquê.



Mais um passo no livrinho que há-de sair sobre Bolama. Mais uma tentativa de encontrar o caminho para esta extraordinária cidade tropical. O texto foi publicado em "A Planície" de 8 de agosto.

domingo, 11 de agosto de 2013

DAR A OUTRA FACE...

Mario Girotti? Carlo Pedersoli? Sim, claro, Terence Hill e Bud Spencer...

Mais filmes de humor pouco requintado e com muita pancada à mistura. Costumava vê-los no Cine-Teatro Caridade, onde, sempre que podia, ficava no lugar A-10 do 2º balcão (aka o galinheiro).

Na altura (1976?1977?), gostei muito deste Os dois missionários, que no original se intitulava Porgi l'altra guancia. Havia porrada de criar bicho, os bons e os maus, o calor das Caraíbas, interpretações muito peculiares do Evangelho e uma música a roçar o calypso. Aqui fica a minha escolha cinéfila da semana.

sábado, 10 de agosto de 2013

A CURVA DA POESIA

Soubesse eu declamar e oferecia-me para participar na iniciativa que um grupo de camaradas da CDU está a organizar. E que terá lugar em Moura, no próximo dia 13, em mais uma das noites na sede (v. aqui).


Para além da curva da estrada
Talvez haja um poço, e talvez um castelo,
E talvez apenas a continuação da estrada.
Não sei nem pergunto.
Enquanto vou na estrada antes da curva
Só olho para a estrada antes da curva,
Porque não posso ver senão a estrada antes da curva.
De nada me serviria estar olhando para outro lado
E para aquilo que não vejo.
Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos.
Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer.
Se há alguém para além da curva da estrada,
Esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada.
Essa é que é a estrada para eles.
Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos.
Por ora só sabemos que lá não estamos.
Aqui há só a estrada antes da curva, e antes da curva
Há a estrada sem curva nenhuma.


Não sei quem está para lá do vidro. Mas sei que a fotografia é de André Kertész (1894-1985). O poema é de Alberto Caeiro e já por aqui andou, em abril de 2012.