sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

O BRILHO DAS CIDADES

A exposição encerrou há dias, e só a visitei no penúltimo dia. Não é, por isso, por maldade que aqui a recordo ou para fazer pirraça. É que a beleza do percurso pelo brilho das cidades ficará, durante muitos anos, na minha memória.

Festejem-se o azul, o azulejo e o brilho da luz.


O Meu Olhar Azul como o CéuO meu olhar azul como o céu 
É calmo como a água ao sol. 
É assim, azul e calmo, 
Porque não interroga nem se espanta ... 
Se eu interrogasse e me espantasse 
Não nasciam flores novas nos prados 
Nem mudaria qualquer cousa no sol de modo a ele ficar mais belo... 
(Mesmo se nascessem flores novas no prado 
E se o sol mudasse para mais belo, 
Eu sentiria menos flores no prado 
E achava mais feio o sol ... 
Porque tudo é como é e assim é que é, 
E eu aceito, e nem agradeço, 
Para não parecer que penso nisso...) 

Alberto Caeiro (O Guardador de Rebanhos - Poema XXIII)


quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

SEAN O'CASEY NO PREC

Uma das coisas engraçadas daquele período foi a necessidade, imperiosa, absoluta, obrigatória, de levar a Cultura ao Povo. A bem ou a mal. Generosamente, mas nem sempre com os melhores resultados.

Foi o que aconteceu na Amareleja, no verão de 1975. Levava-se à cena O dispensário (Hall of healing), de Sean O'Casey. Iria jurar que Sean O'Casey não é a melhor opção como entrada… Mas a peça era essa.

O melhor momento foi quando o António entrou em cena, de cachecol e sobretudo. E proclamou, de seguida "que frio que está! gela-se lá fora!". O público desatou às gargalhadas, coisa pouco própria numa cena dramática. O proóprio António não percebeu que se passava, até olhar para os pés. A roupa invernal estava perfeita, mas contrastava, com violência, com as sapatilhas de enfiar no dedo, que ele se esquecera, no nervosismo do momento, de trocar pelas botas...

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

AGORA QUE SE VOLTA A FALAR EM PRAXES...

aqui tive oportunidade, em outubro de 2011, de exprimir o meu ódio por aquele ritual cretino a que alguns chamam "praxes académicas".

Volto ao tema, agora que tanto nelas se fala por motivos trágicos, para (me) repetir: detesto aquele estendal de estupidez fascizante, tal como abomino todos os pequenos tiques que acentuam as diferenças entre o mundo dos doutores e o mundo dos não-doutores.

Valha-nos a inteligência de homens como Mariano Gago, que tão bem soube colocar a questão!

Não é uma "praxe académica", mas podia ser...

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

GLORIOSO BALUPU

Este filme, Balupu, conheceu um razoável sucesso na Índia. Nunca tinha ouvido falar no realizador (Gopichand Malineni), nem no produtor (Prasad Vara Potluri) nem nos atores (Ravi Teja, Shruti Haasan e Anjali) nem no autor da música (S. Thaman). E então? Apesar de uma certa sugestão hípica da coreografia (que mil gangnam styles floresçam), o que importa mesmo é a aparição das camisolas do glorioso SLB ao minuto 3:45.

E assim Balupu se torna em referência do blogue, passando a ser a escolha cinematográfica desta semana.

Obrigado, André!


domingo, 26 de janeiro de 2014

PERCURSO POLÍTICO - PRIMEIRO DIA

Fui encontrar no facebook esta "raridade", que interessará, se a alguém interessar, aos que andaram nestas lides no Liceu Nacional de Queluz em 1979/80. Portanto, para os "gauleses" (private joke) aqui vão algumas notas:

* Os folhetos datam da primavera de 1980. Havia eleições para a Associação de Estudantes e a lista unitária de esquerda (esta) perdeu fragorosamente;
* Tecnicamente falando, levámos uma abada...
* Lembro-me de alguns colegas, em especial dos que foram para História e de quem fui colega na Faculdade de Letras (a Leonor Muralha, o Luís Santos, o Fernando Matos); mas também do Chico Sérgio, do Zé Afonso, do Pedro Faria, do Gennaro di Francesco e do Raul Esteves, então líder da UEC (hoje é juiz na Relação do Porto e há muito que abandonou esta "praia");
* Foi a primeira aprendizagem dos comunicados, das colagens, dos jornais de campanha e também de alguns confrontos verbais.

Depois tive três anos de sossego. Até ao segundo ano da Faculdade. Aí, voltei "às lides", pelas mãos do hoje socratista Luís Santos. Parece que foi quase ontem, a primavera de 1980.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

O ÚLTIMO MONUMENTO FASCISTA DO MUNDO?

O obelisco está à entrada do porto de Bolama, na Guiné-Bissau. Sugere as asas de um avião, aludindo à queda de dois aparelhos, em 8 de janeiro de 1931. A dedicatória diz "Mussolini ai caduti di Bolama". À esquerda lê-se A. IX E. F. Ou seja, ano 9 da era fascista. Um hábito daquele tempo, presente também em muitas edições académicas.

O monumento de Bolama passou incólume pela descolonização, por um regime marxista e por várias revoluções. Até hoje.

Pergunto(-me) "haverá mais algum exemplo destes?".

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

MARROCOS-PORTUGAL: PORTAS DO MEDITERRÂNEO, 15 ANOS DEPOIS

Post nostálgico. E muito, por sinal.

Faz agora 15 anos que começou um dos projetos mais bonitos em que estive envolvido. Um dos mais inesquecíveis, também. Durante o ano de 1999 foram incontáveis as deslocações feitas a Tânger, para preparar uma exposição, que só ganhou nome em março ou abril. A primeira viagem, de automóvel, teve lugar em finais de janeiro.

Os meses seguintes foram de intenso trabalho, entre o traçar de uma linha para o projeto - o desenho coube ao arq. José Alberto Alegria - até se chegar ao desembarque num voo "clandestino" no aeroporto de Tânger, nos inícios de setembro.

Se hoje ocupo umas linhas do blogue é porque esses meses de trabalho foram de grande aprendizagem, com a extraordinária equipa da Comissão dos Descobrimentos. O maior "ganho" esteve nos amigos que então fiz. Permito-me referir um que, em plena pista do aeroporto, ainda perguntava a outro colega "eh pá, tenho mesmo de aturar os dois comunas [Cláudio Torres e eu] durante estes dias todos? ganda merda…". Ficámos amigos a sério.

Um pormenor "topográfico": a ideia das "Portas do Mediterrâneo" surgiu à saída da Casa Pepe, em Arzila e resultou de uma conversa com a Conceição Amaral.

Conceição Amaral fotografando a maqueta, que o autor do blogue segurava

A maqueta, com as várias áreas da exposição

Fase da montagem, na companhia de Luís Campos

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

O MANUEL PINHO DE SILICON VALLEY

A saga continua. De vez em quando há um que vem anunciar o fim da crise, o fim da pobreza etc.  Há meses foi o Presidente Hollande. Agora, está de serviço Bill Gates. São os "amanhãs que cantam", em versão burguesa.

A CLASSE DOMINANTE DE MARCELO REBELO DE SOUSA

O título do texto não tem a ver com a classe social a que Marcelo Rebelo de Sousa pertence. Remete, antes, para o filme de Peter Medak. Em "A classe dominante", um louco conde julga-se Jesus Cristo. A primeira parte da película é delirante e divertida. Na segunda parte, o conde Gurney começa a sua recuperação (bom, mais ou menos, na verdade...) e a história torna-se menos divertida.

Durante muito tempo, Marcelo Rebelo de Sousa fez do seu espaço de análise televisivo um momento de diversão pessoal. Superiormente inteligente, e particularmente divertido, Marcelo chacinou vários políticos, incluindo muitos do seu próprio partido. Em diversas ocasiões, o prazer que isso lhe dava era mais que visível, pouco lhe faltando para desatar às gargalhadas… Agora, que Marcelo é pré-candidato a Presidente da República, os seus comentários ganharam distância e comedimento. Tornaram-se calmos, reflexivos e analíticos. Foi-se a espontaneidade. Acabou o sentido lúdico da palavra. Caiu o pano sobre os esgares teatrais.

O PSD escolherá outro candidato, mas essa é outra história.


Excerto de um diálogo de "A classe dominante":

Lady Claire Gurney: How do you know you're God?
Jack Arnold Alexander Tancred Gurney, 14th Earl of Gurney: Simple. When I pray to Him, I find I am talking to myself.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

JOSÉ LEITE DE VASCONCELOS - UM HOMEM E O SEU MUSEU

Poucos portugueses atingiram a craveira de José Leite de Vasconcelos (1858-1941). Figura maior dos séculos XIX  e XX, foi linguista, arqueólogo, etnólogo, apesar de se ter formado em Medicina… Fundou o Museu Nacional de Arqueologia (então com o nome de Museu Etnográfico Português) em 1893, aos 35 anos. Doutorou-se em Filologia, em 1901. A sua bibliografia é de cortar o fôlego a qualquer pessoa.

Nos 120 anos de criação do Museu foi desenvolvido um programa de iniciativas onde coube uma exposição, patente ao público no átrio do Palácio de S. Bento até dia 18 de março. E ainda um ciclo de painéis sobre vários aspetos da obra de Leite de Vasconcelos. Tiveram a simpatia de me convidar para a sessão de dia 25 de fevereiro, onde terei como colega o meu amigo Carlos Fabião, da Faculdade de Letras de Lisboa.

Julgava ter suspendido a minha atividade profissional no passado dia 2 de dezembro... Fui, nessa data, à Academia das Ciências de Lisboa falar sobre o património islâmico em Portugal. Não consegui recusar agora este convite. Há uma razão adicional: Leite de Vasconcelos orientou vários trabalhos do Dr. José Fragoso de Lima e teve ligação, ainda que breve, a investigações desenvolvidas em Moura.

Ver: http://www.parlamento.pt/Paginas/XIIL3S_ExposicaoJoseLeiteVasconcelos_VidaObra.aspx

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

LUTA DE CLASSES - NOVOS EPISÓDIOS


Não sei se o nome deste senhor de barbas vos veio ao sentido (como aqui se diz). A mim veio...

AS LARANJAS DE SÃO SEBASTIÃO

Ontem à tarde andei por Safara, assistindo à passagem da procissão em honra de S. Sebastião. Surpreenderam-me as laranjas que paramentavam o mártir, sinais de uma salutar manifestação popular que ainda perdura, quando outras maneiras mais informais de sentir a Fé se esbatem ou são reprimidas.

Estava uma tarde luminosa e fria, em Safara. No regresso a Moura, lembrei-me de outros fins de tarde, assim luminosos e frios, noutros sítios e noutros tempos. Era capaz de jurar que na Plaza de San Mateo havia laranjeiras como as do poema de António Machado.


La plaza y los naranjos encendidos 
con sus frutas redondas y risueñas.


Tumulto de pequeños colegiales 
que, al salir en desorden de la escuela, 
llenan el aire de la plaza en sombra 
con la algazara de sus voces nuevas.


¡Alegría infantil en los rincones 
de las ciudades muertas!


¡Y algo nuestro de ayer, que todavía 
vemos vagar por estas calles viejas!

domingo, 19 de janeiro de 2014

FERAL

A minha escolha cinéfila da semana é um filme que não vi. De um género, o de animação, que não me faz tanger a corda sensível. As razões são, por isso, laterais. O filme, Feral, foi nomeado para os óscares, na categoria de "melhor curta-metragem de animação". Vai daí descobriu-se que o seu autor (melhor dizendo, são dois) é um português, chamado Daniel Sousa.

Alguns pormenores (lá estás tu com as tuas coisas, dirão os amigos próximos):
1. Daniel Sousa nasceu em Cabo Verde, em 1974;
2. Viveu em Portugal até 1986, altura em que a sua família emigrou para os Estados Unidos;
3. Estudou por lá e dá hoje aulas na prestigiada Rhode Island School of Design.

Não imagino o que teria acontecido ao jovem Daniel Sousa se por cá tivesse ficado. Não querendo ser pessimista, admito que se tivesse formado e que tivesse emigrado para os Estados Unidos, à procura de um caminho.

Do seu trabalho diz Daniel Sousa que é "um filme de atmosfera portuguesa". Há gajos generosos, porra...

sábado, 18 de janeiro de 2014

ESTA VIDA DE BOLSEIRO

As coisas já não estavam famosas, quando António Pires de Lima veio lançar um pouco de gasolina sobre o fogo. Disse não ser possível "alimentar um modelo que permita à investigação e à ciência viverem no conforto de estar longe das empresas e da vida real". O raciocínio é perigoso, pela sua estreita lógica utilitarista. Refere ainda que "uma boa parte da investigação é financiada por dinheiros públicos". Valeria a pena perguntar quanto é que as empresas investem em apoio à investigação. E qual o sentido da palavra "mecenato" para tais empresas...

O apoio à investigação é uma decisão política. Como o prova o trabalho de José Mariano Gago. Foi ele quem promoveu a verdadeira revolução que o nosso panorama científico conheceu durante o período em que dirigiu a JNICT (1986-1989) e durante o tempo em que esteve à frente do Ministério da Ciência (1995~2002 e 2005-2011).

Conheço, de perto, esta realidade. Fui bolseiro de curta duração em diversas ocasiões e pertenci, durante seis anos, aos painéis de avaliação de bolsas de doutoramento e pós-doutoramento da FCT. Fui docente universitário e continuo a pertencer, embora sem atividade de momento, a um centro de investigação, sedeado na Universidade de Coimbra. Pude constatar os avanços muito significativos que a nossa investigação conheceu ao longo das últimas décadas na área em que trabalho. O retrocesso que agora se vive tem muito mais a ver com perspetivas culturais e civilizacionais que com questões orçamentais. Que têm as costas largas e tudo justificam. Como podemos constatar pelas declarações do ministro Pires de Lima.

O ÓPIO DOS PRESIDENTES

Refiro-me, bem entendido, aos moradores do Eliseu, onde a animação não parece faltar. Uma tradição antiga, e que teve em Félix Faure (1841-1899) o mais clamoroso, e trágico, exemplo.

A tirada mais curiosa sobre o affaire Hollande foi publicada, hoje, no "Expresso", a propósito das querelas sobre o Panteão. O francês, não o nosso. Escreve Maria Filomena Mónica: "Por mim não tenho dúvidas. São elas [as merecedoras do Panteão] três: Ségolène Royal, Valérie Trierweiller e Julie Gayet. O facto de terem suportado na cama um homem com cara de periquito faz delas umas heroínas".

A frase é divertida, mas ganha mais consistência se lida à luz de "Bilhete de Identidade", a rather bubbling autobiografia de Maria Filomena Mónica.

Opium: Sophie Dahl (neta do grande Roald Dahl) no extraodinário
anúncio que Tom Ford concebeu para Yves Saint-Laurent

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

DUAS OU TRÊS COISAS SOBRE O MUSEU REGIONAL DE BEJA


Santiago Macias, que preside ao município de Moura, foi recentemente empossado presidente da Assembleia Distrital de Beja (ADB). Uma entidade que o próprio considera “anacrónica” e “sem sentido” face ao seu atual enquadramento e que apenas serve como “palco de luta política”. Macias viu esta terça-feira, 14, aprovado por unanimidade o orçamento da ADB para 2014. São 372 700 euros, mas destes ape- nas menos de um por cento são despesas de capital: “A ARB consome o orçamento sem uma perspetiva de investimento”. Isto, numa altura em que as câmaras associadas devem perto de 120 mil euros em transferências atrasadas. O património e os custos operacionais da ADB, instituição que quase se esgota na gestão do Museu Regional de Beja, deve, segundo Santiago Macias, passar de forma faseada ao longo dos próximos oito anos, para a posse da Câmara Municipal de Beja. Uma vez que as restantes autarquias olham para a instituição como “um fardo e uma chatice”. Esta ideia será debatida e votada em próxima reunião magna daADB, mas conta já com a oposição de Manuel Narra, presidente da Câmara Municipal de Vidigueira. 



Ainda faz sentido existir a Assembleia Distrital de Beja?
Sinceramente, acho a assembleia distrital um tanto anacrónica. Não faz sentido existir com o enquadramento que atualmente tem. É uma instituição que respondeu, em tempos, a necessidades concretas, que se pensava que iriam ser substituídas pelo processo de regionalização. Aliás, sem órgãos regionais, não é formalmente possível extinguir as assembleias distritais. Como esse processo encravou, temos assembleias que vão existindo, sem futuro à vista. São um palco de luta política, com efeitos práticos limitados. À boa maneira portuguesa “vamos indo…”.

O anterior presidente da mesa da ADB, António Sebastião, chegou a afirmar que esta entidade não servia para nada, a não ser para gerir o Museu Regional de Beja. Concorda?
No essencial, sim. Assembleia e museu confundem-se. Que a assembleia distrital exista para gerir um museu não é, em si, um problema. Desde que a assembleia queira assumir essa tarefa de alma e cora- ção. Ora, na verdade, nunca dei por isso. A legislação vai ser alterada. Não sabemos ainda os contornos precisos, até porque a realidade das assembleias distritais difere muito de região para região. Mas, em recente reunião tida com o secretário de Estado da Administração Local, senti abertura quanto à procura de soluções práticas e realistas. Há, contudo, que ter em conta que estas assembleias são expressa- mente mencionadas na Constituição, pelo que a sua extinção, pura e simples, não é possível...

E como se pode gerir o museu se parte dos membros da ADB, os municípios do Baixo Alentejo, não pagam as dotações a que es- tão obrigados?
Peço desculpa, mas os municípios fazem os possíveis por pagar essas dotações. Há apenas dois casos mais complicados, mas mesmo esses estão a ser ultrapassados. A gestão do museu é feita com imensas dificuldades. Com entraves e sufocos. Sobretudo, sem uma perspetiva segura de futuro. No fundo, muita gente olha para a assembleia e para o museu e pergunta: “Mas afinal, para que raio é que aquilo serve?”. O que quer dizer que o próprio museu vai ter de trilhar novos caminhos.

Qual é o valor da dívida dos municípios à ADB e quais são as câmaras devedoras?
A dívida é na ordem dos 120 mil euros. Não vou especificar quem deve, nem o que deve. Até porque há planos de pagamento em curso. Prefiro sublinhar a boa vontade generalizada em resolver os problemas existentes. Noto, da parte dos meus colegas, uma sincera preocupação em ultrapassar todo o tipo de constrangimentos.


No dia 14 foi apresentado e votado o orçamento da ADB. Estamos a falar em verbas de que ordem?
Estamos a falar de um orçamento de 372 700 euros. O mais preocupante é você olhar para o orçamento e constatar que desse montante apenas 3 300 euros (0,88 por cento) são despesas de capital. Ou seja, a as-sembleia consome o seu orçamento sem ter uma perspetiva, ou uma possibilidade, de investimento. 


No seu blogue pessoal desabafou que es- tava perante uma “situação lixada”. O que quis dizer concretamente?
Claro que é uma situação lixada. Imagine que, de um dia para o outro, lhe cai em cima a responsabilidade de ter de trabalhar para encontrar soluções para esta situação. Ser presidente da assembleia distrital não é um mero exercício burocrático. Não o é para mim, como não o foi para quem me antecedeu. Assumi esta tarefa com empenho e com a convicção de que poderei dar algum contributo no delinear de uma solução para o futuro do museu.


A grande prioridade desta nova mesa, já o afirmou, passa por assegurar o funcionamento do museu e o seu financiamento. Que estratégia pensa seguir para atingir estes objetivos?
Só há dois caminhos: o museu é assumido pela Cimbal (Comunidade Intermunicipal do Baixo Alentejo) ou pela Câmara Municipal de Beja. Pessoalmente, vejo a passagem para a Cimbal como “mais do mesmo”. Não creio que a solução seja suficientemente flexível para dar capacidade de manobra ao museu regional.

Também referiu que a ADB estava numa espécie de “limbo administrativo”... Concorda com a corrente, de alguma forma generalizada, que defende a passagem do museu regional para a tutela direta da Câmara Municipal de Beja?
Essa é, na minha opinião, a solução ideal. O museu está em Beja, é uma marca importante da cidade, tem um enorme potencial e deve ser colocado ao serviço de uma estratégia de promoção da região. Isso só pode ser conseguido seguindo, administrativamente, duas vias: primeiro, o património da assembleia distrital teria de passar para a Câmara de Beja, por não me parecer lógico nem justo que uma entidade arcasse com custos sem ter benefícios; segundo: defendo uma diluição de custos, nomeadamente os de pessoal, no tempo. Ou seja, a Câmara de Beja não deveria arcar com as despesas de uma vez só, mas sim de forma gradual, num horizonte de oito anos. Passando dos 60 por cento atuais para 100 por cento. Isso implica encontrar um quadro legal que o possibilite. Mas se houver vontade política, as soluções aparecem.

O anterior executivo bejense, nomeadamente o ex-presidente Pulido Valente, por seu lado, pretendia a integração do Museu Regional na Cimbal. É uma solução com via- bilidade para ambas as entidades?
As posições de Jorge Pulido Valente a este propósito não deixam de ter a sua graça. Quando era presidente da Câmara de Mértola várias vezes o ouvi defender que deveria ser Beja a ter a responsabilidade do museu. Depois, enquanto presidente da Câmara de Beja passou a sustentar o con- trário. No fundo, nunca contribuiu para que se encontrasse solução alguma. Pelas razões que acima referi, a integração na Cimbal não me parece ter interesse. As autarquias continuarão a olhar para a instituição museu regional como um fardo... Se for essa a posição da maioria, acato-a. Mas não estou de acordo.

O que pretende transmitir quando declarou que a viabilidade do museu regional passa por encontrar “soluções marcadamente criativas”?
Um museu com o potencial do de Beja não pode trabalhar, apenas e só, a partir das comparticipações camarárias. Isso é prolongar a agonia. Há componentes científicas a promover (encontros, seminários etc.), mas há também um trabalho de promoção do museu a fazer. E isso abrange várias vertentes, incluindo uma marcadamente “comercial”. Defendo, no que diz respeito à parte científica ou de investigação, a abertura do museu à comunidade científica, através de um programa de curadorias em sistema rotativo, que traga ao museu propostas formuladas a partir do meio museológico, tendo as coleções de Beja como ponto de partida. Penso também que o museu terá de procurar, de forma mais intensa, contactos e ligações às empresas da região. Não tanto pelo mecenato em si (dizia Diogo Bernardes, no século XVI, que “de mecenas tanto temos como de brancos tem a Etiópia”), mas por uma necessidade de abertura que me parece imprescindível.

A atual fórmula de cálculo das comparticipações municipais à ADB, que imputa cerca de 50 por cento do orçamento à Câmara de Beja, está bem conseguida ou pode sofrer alterações?
Não são 50 por cento, é mais do que isso. Na linha do que acima afirmei, penso que a ges- tão deve ser assumida pela Câmara de Beja, ainda que de forma gradual. Parece-me também crucial que o museu regional se envolva ativamente em projetos financiados pelos fundos europeus. Há muito tempo que o ve- nho dizendo. Parece-me ser uma fórmula possível para avançar com novos projetos.

Em que estado se encontra o Museu Regional de Beja? 
Choca-me que o museu seja visto como um fardo e uma chatice. O que acima afirmei não representa qualquer tipo de censura, quanto ao tipo de orientação técnica seguida. Tenho grande estima e consideração pelo José Carlos Oliveira, pela sua equipa e por todos os trabalhadores que ali desenvolvem a sua atividade. Mas isso não me obriga a estar de acordo com tudo.

Enquanto arqueólogo e historiador consi- dera que o trabalho desenvolvido pela direção do museu, apesar das dificuldades orçamentais, tem sido o melhor ou devem ser implementados novos processos de trabalho e de valorização daquele espaço museológico?
De algum modo, já respondi antes. Independentemente do trabalho efetuado – conhece algum sítio com um núcleo da qualidade do Santo Amaro? – é sempre possível e desejável levarmos a cabo novos processos de trabalho. O esforço que nos leva a querer, sempre, melhorar, é salutar. No Museu de Beja há margem de manobra para crescer. E há, tem de haver, espaço para uma promoção mais agressiva. Mas para isso é também necessário um novo enquadramento político e administrativo.

Que importância tem, de facto, o Museu Regional de Beja?
Tem uma importância extraordinária, dos pontos de vista histórico e patrimonial. Sabe que, há meses, veio cá, de propósito, uma professora da Sorbonne, só para ver a janela da Soror Mariana? A coleção tem as- petos extraordinários, com grandes peças de época romana, com notabilíssimas pinturas do século XVI, com um núcleo visigótico a que já me referi, com azulejaria e com ourivesaria... Está instalado num edifício carregado de peso histórico e que encontramos em todos os guias turísticos. O museu regional faz lembrar uma bela adormecida no seu esquife.


Entrevista ao Diário do Alentejo de hoje.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

O AMOR E A MORTE, EROS E THANATOS, DE NOITE E DE DIA, ATÉ MESMO PELA MANHÃ



Soneto do amor e da morte


quando eu morrer murmura esta canção
que escrevo para ti. quando eu morrer
fica junto de mim, não queiras ver
as aves pardas do anoitecer
a revoar na minha solidão.

quando eu morrer segura a minha mão,
põe os olhos nos meus se puder ser,
se inda neles a luz esmorecer,
e diz do nosso amor como se não

tivesse de acabar, sempre a doer,
sempre a doer de tanta perfeição
que ao deixar de bater-me o coração
fique por nós o teu inda a bater,
quando eu morrer segura a minha mão.

Vasco Graça Moura, in "Antologia dos Sessenta Anos"


O quadro pertence ao Museu Regional de Beja, que hoje visitei, com os colegas Sara Romão e Marcelo Guerreiro. Com a sombra da Eternidade pairando algures.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

MOURA - FORUM 21

Arranca assim uma nova iniciativa no nosso concelho. O FORUM 21, que terá no próximo dia 1 de fevereiro a sua primeira sessão.

As sessões do forum serão organizadas em torno de temas concretos e com a participação de especialistas de reconhecido mérito, que permitam contribuir para a obtenção de soluções nos mais variados domínios.

Tal como nos fora da Antiguidade não haverá limites aos temas em discussão. As sessões, a realizar de dois em dois meses, durarão uma tarde ou uma noite e constarão do seguinte formato:

Introdução ao tema por um convidado;
Intervenções por um painel de especialistas (quatro a seis) na área em discussão;

Debate

O primeiro forum terá lugar em finais de janeiro e será subordinado ao tema
Moura - das fronteiras locais às fronteiras globais.

Serão intervenientes:
Cláudio Torres, arqueólogo, Diretor do Campo Arqueológico de Mértola
Francisco Seixas da Costa, embaixador
Jorge Macaísta Malheiros, geógrafo, professor na Universidade de Lisboa
José Maria Pós-de-Mina, gestor, Presidente do Conselho Fiscal da ANMP
Paulo Paixão, jornalista, "Expresso", que fará a introdução ao tema.

Dia, hora e local - 1.2.2014 (16 h.), no Museu Gordillo

E AGORA, A NOTA TÉCNICA...

Os da minha geração devem estar recordados dos campeonatos de patinagem artística, que ocupavam os fins de tarde da RTP. Sem direito a cores. Nos pares, nunca havia novidades: ganhavam sempre a Irina Rodnina e o Alexander Zaitsev. Fünf komma neun, fünf komma neun...

Lembrei-me deles esta noite, ao terminar a sessão extraordinária da Assembleia Distrital. A primeira que dirigi "a doer". Dei conta da reunião ontem tida com o Secretário de Estado da Administração Local e apresentei o esboço de uma proposta de solução para o futuro do Museu Regional de Beja. Uma ideia pouco ortodoxa e, admito-o, delineada com algum atrevimento. Acho que tive melhor nota artística que técnica. O difícil programa - que vai incluir axel duplos, loops, lutzs triplos - segue dentre de momentos. Na quinta-feira haverá visita ao Museu Regional.

Qual é a ideia avançada? Veja-se a edição da próxima sexta-feira do "Diário do Alentejo" (passe a publicidade).

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

LITERATURA INFANTIL

A senhora já passou os 70. Naquele tempo (1950 ou 1951) era uma simpática aluna da Escola Primária. Devia ser simpática, porque aindo hoje o é. A tarefa era simples e consistia em redigir um curto texto sobre o café. De forma expedita e concisa, a miúda escreveu: "O café. Eu gosto muito de café. De manhã, com uma torrada untada com toicinho até vai rabulindo". Não é exatamente Literatura, mas já tenho lido poemas bem mais conceptuais e bem menos interessantes.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

APRENDE A LER, ESCREVER E CONTAR E LIBERTA O CARNEIRO PACHECO QUE HÁ DENTRO DE TI

"o ensino primário elementar trairia a sua missão se continuasse a sobrepor um estéril enciclopedismo racionalista, fatal para a saúde moral e física da criança, ao ideal prático e cristão de ensinar bem a ler, escrever, contar, e a exercer as virtudes morais de um vivo amor a Portugal" (Decreto-lei n.º 27 279, de 24 de Novembro de 1936)




O dirigente da Juventude Popular, Miguel Pires da Silva, não tem dúvidas e pede a redução do 12.º ano para o 9.º, porque o prolongamento, em vigor desde 2012, "é um erro". Os cinco governantes consideram, na moção que apresentam neste fim de semana no 25.º Congresso do CDS, que "a liberdade de aprender" é um "direito fundamental de cada pessoa". (DN - 11/1/2014)

ÁGUA FAVORITA


No meio da procura de uma partitura, patrocinada, no início do séculoXX, pela Água Castello, informou-me o José Francisco Finha que a empresa era "presença" habitual no S. Carlos, em cujos programas inseria publicidade. Como neste caso. A contracapa de uma representação de "La favorita" é 100% mourense.

Aqui vos deixo um excerto do 1º ato desta ópra do prolífico Gaetano Donizetti (1797-1848). Cantam Alfredo Kraus e Fiorenza Cossotto. Recordo-me de a ter visto, no S. Carlos, numa "Anna Bolena" em que também atuou Mara Zampieri. Já lá vão trinta anos...



domingo, 12 de janeiro de 2014

PARTICIPAÇÃO VARIÁVEL NO IRS


Da declaração de voto da União de Freguesias de Moura e Santo Amador, na sessão da Assembleia Municipal de dia 27 de dezembro:
 
"A União de Freguesias de Moura (Santo Agostinho e S. João Batista) e Santo Amador não votou favoravelmente a Proposta, votando contra, na votação."

E mais:

"Sendo o entendimento do Executivo da UFMSM considerar que na procura de melhorar o nível de vida dos seus munícipes, o facilitar a atividade dos agentes económicos do concelho e procurando ainda atrair novos investimentos, esta proposta não permite o voto favorável por parte do Executivo da União de Freguesias de Moura (Santo Agostinho e S. João Batista) e Santo Amador."

A participação variável no IRS em pouco passa os 230.000 euros anuais. É essa a verba que, distribuída por todos, iria melhorar o nível de vida, facilitar a atividade dos agentes económicos e atrair novos investimentos. Assim, tudo ao mesmo tempo. A demagogia em todo o seu esplendor. Ainda por cima, devidamente embrulhada em pontapés na gramática.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

NANOOK

Mais um filme de outrora. Duplamente. De outrora porque Robert Flaherty (1884-1951) o rodou em 1922. De outrora porque o vi há uns bons 30 anos na Cinemateca.

Se fosse cineasta seria documentarista. Não é tanto por voyeurismo. Mas pelo interesse em olhar o que desconhecemos. E em aprender mais um pouco. É verdade que aprender a fazer um igloo é de discutível utilidade num Alentejo Mediterrânico… Mas estes sete minutos de Nanook são um poema silencioso.

Um documentário com 92 anos, eis a escolha cinéfila da semana.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

UM POUCO DE PATERNALISMO VESPERTINO

Aconteceu esta tarde. Na entrada do departamento governamental onde esperava a hora de início da reunião apareceram dois jovens negros. Andaram pelos vinte e poucos. Um deles veio ter comigo e perguntou-me "sabe se é aqui que se tira a nacionalidade?". Respondi que não fazia ideia, por ser também alheio à casa. Virei-me para o segurança detrás do balcão e pedi ajuda "estes senhores precisam de um esclarecimento". Um dos jovens repetiu a questão, dizendo que já tinha estado no SEF. Afinal, era a outro departamento do mesmo ministério que deveriam ir. Ato contínuo, o segurança explicou "estás a ver onde é a Fontes Pereira de Melo? então, agora sais daqui, viras à direita e o serviço xis fica a uns 100 metros, ok? não há problema que o sítio onde vais está bem assinalado". Os jovens agradeceram, despediram-se de mim e sairam.

Parto do princípio que o segurança não os conhecia de lado algum. Daí que o TU (há dois "tus", o de superioridade e o de igualdade) identificasse todo um estilo.

Lembrei-me de um funcionário da Faculdade de Letras de Lisboa, que vivera em Moçambique e me dizia sempre, em tom enfático, "eu tratava muito bem os meus pretos, estás a ouvir?". Claro que ouvia...

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

OS REIS, A ÁRVORE E O CANTE

Noite de Reis. Digressão dentro de Moura. Primeiro, visita à Fundação S. Barnabé, depois à APPACDM, depois à Santa Casa da Misericórdia. O Grupo Coral do Ateneu Mourense brindou as centenas de pessoas que estavam em frente ao mercado municipal com uma magnífica atuação. Foi o começo de uma noite que me levou a Santo Amador (mais cante com o Grupo Coral da Casa do Povo) e à Amareleja (uma longa jornada, vila fora, com o Grupo Coral da Sociedade Recreativa, que contou com a participação de músicos da Filarmónica).

A árvore da partilha, que iluminou as noites mourenses, pairou sobre nós.


Moura

Santo Amador

Amareleja