terça-feira, 31 de março de 2015

QUANDO DUARTE DARMAS PASSOU POR MOURA: 4/10 - PHOTOSHOP QUINHENTISTA

Havia computadores no século XVI? Claro que não havia. Só fazer a pergunta já é um disparate... Mas os desenhadores faziam batota. Duarte Darmas foi nisso useiro e vezeiro. O que é que ele fazia? Destacava, em cada localidade, monumentos ou sítios chave, colocando, em muitos deles, uma legenda identificadora. O resto era uma mancha de habitações, seguindo modelos idênticos. Um verdadeiro copy-paste, até se encher a mancha do povoado. Uma técnica eficaz, que permitia dar uma imagem aproximada dos aglomerados urbanos.

Aqui fica mais um pouco de Moura. Não temos ruas, mas fica-nos um registo expressivo das habitações daquele período. Notem, no desenho de cima, a quase ausência de chaminés.

Para quem se interessar pelo tema deixo aqui o nome, creio que não muito conhecido fora dos meios académicos, de um excelente historiador que tem tratado do tema da habitação neste período: Manuel Sílvio Alves Conde. Sem esquecer a magnífica (e inédita, aqui que consultável em várias bibliotecas) tese de licenciatura de V. Pavão dos Santos, A casa no sul de Portugal na transição do séc. XV para o séc. XVI, defendida em 1964.



segunda-feira, 30 de março de 2015

E O GRANDE VENCEDOR FOI UM ARQUEÓLOGO!

Só o Diário de Notícias foi acompanhando os resultados. A restante comunicação social nacional relegou para segundo (ou terceiro...) plano as eleições na Madeira. Colonialismo não há, mas sobranceria sim. A elite provinciana de Lisboa é assim.

Vejamos o que se passou, neste período de transição:

PSD - de 48,5% para 44,3% (24 eleitos). Perde 1 deputado e fica com 24. Uma vitória importante, ainda assim.

CDS/PP - de 17,6% para 13,7% (7 eleitos). Perde 2 deputados.

PS and friends - de 23,4% para 11,4% (6 eleitos). Os quatro partidos desta insólita coligação perdem 5 deputados. A banhada da noite. Um certo alívio por se constatar que não vale tudo, em política...

JPP (Juntos Pelo Povo) - Este novo movimento é, de certa forma, o grande vencedor da noite. Apresenta-se pela primeira vez a votos, conquista 10,3% e 5 eleitos. Figura de proa? Élvio Sousa, autor de uma brilhante tese de doutoramento em... Arqueologia. Não sei se para além da arqueologia também já trabalhou em museus, mas é coisa que irei perguntar no mail de parabéns a enviar daqui a pouco.

CDU - sobe de 3,8% para 5,5%. Passa de 1 para 2 deputados. Um justo prémio pelo sentido ético e de combate.

BE - de 1,7% para 3,8%. Outro resultado francamente bom. 1 eleito em 2007, nenhum em 2011, 2 agora.

PND - desde de 3,3% para 2,1%. Mantém o lugar que tinha.

A Madeira é a Madeira, a globalidade do País é outra realidade. Mas há aqui indicadores interessantes.


Formas de pão-de-açúcar, um objeto relativamente comum na arqueologia medieval e moderna

domingo, 29 de março de 2015

SOB O SIGNO DE CRONOS - DE POST MERIDIEM A ANTE MERIDIEM

Hoje, vou ter um tudo nada mais de tempo. Não por causa dos 60 minutos suplementares, que me vão deixar de melhor catadura, porque detesto a luz curta do final de tarde no inverno. Mas porque terei outros tempos, algures entre a leitura académica e a montagem cinematográfica. Um tempo curto para umas horas sem atividade autárquica (bom, quase, desde as 11h. já tive três telefonemas "camarários"...).

Aqui ficam, em momento de relativa placidez e sob o signo do tempo, duas figuras do meu panteão privado: Robert Frost e Paul Cézanne.

Meeting and passing 

As I went down the hill along the wall
There was a gate I had leaned at for the view
And had just turned from when I first saw you
As you came up the hill. We met. But all
We did that day was mingle great and small
Footprints in summer dust as if we drew
The figure of our being less than two
But more than one as yet. Your parasol
Pointed the decimal off with one deep thrust.
And all the time we talked you seemed to see
Something down there to smile at in the dust.
(Oh, it was without prejudice to me!) 
Afterward I went past what you had passed
Before we met and you what I had passed.


L'horloge de marbre noir (c. 1870), obra de Paul Cézanne (1839-1906)

SOB O SIGNO DE CRONOS - DE ANTE MERIDIEM A POST MERIDIEM

Na véspera da mudança da hora, foi sob o signo do tempo que andei. A toque de caixa.

Cronologia de um dia entre o litoral e o interior.

Do hotel para o ferry, do ferry para o congresso da Associação de Municípios (com uma curta intervenção pelas 11:45, a tempo de desancar uma "coisa" chamada CAPACITAR), do congresso para a Câmara de Moura (a tempo de escrever um ofício de protesto junto do Ministério da Saúde, porque uma avaria num posto transformador deixou o Centro de Saúde seis horas sem luz...), da Câmara para o original evento da Comissão de Festas de Nossa Senhora do Carmo, onde fui a tempo de descobrir inesperados talentos de entertainer num antigo colaborador das escavações arqueológicas...

Saí pelas 2:45 da Sheherazade, no tempo certo.

sábado, 28 de março de 2015

A CASA

Casas e filmes sobre casas. Aqui fica um excerto do filme "A casa", do lituano Sharunas Bartas (n. 1964), tido como esotérico. Os seus filmes apresentam uma clara opção estética. A poesia nas imagens vem primeiro. Só depois uma narrativa com sequência e "história". É, com toda a reputação de cinema "difícil", a escolha cinéfila da semana.

TARDE NO SADO

O poema reporta-se à manhã, mas era já meio da tarde. O porto palafítico da Carrasqueira é uma lição de História, de Antropologia, de Arquitetura Popular, tudo ao mesmo tempo. Deitei contas à vida e concluí que estivera na Carrasqueira em 1997 ou 1998. A meio da tarde havia gente a trabalhar, alguns visitantes e havia calor. Passou por nós o som da poesia de Sebastião da Gama. Que foi a melhor forma de combater a palavrosa aridez do dia.

 
 

Manhã no Sado
Brancas, as velas
eram sonhos que o rio sonhava alto....

Meninas debruçadas em janelas,
viam-se, à flor azul das águas, as gaivotas.
E a Manhã quieta (sorrindo, linda, vinha vindo a Primavera…)
punha os pés melindrosos entre as conchas.
Derivavam jardins imponderáveis
dos seus passos de ninfa
e tremiam as conchas
de súbitas carícias.

Longe era tudo: o medo dos naufrágios,
as angústias dos homens, o desgosto,
os esgares das tragédias e comédias
de cada um, os lutos, as derrotas.
Longe a paz verdadeira das crianças
e a teimosia heróica dos que esperam.

Ali, à beira-rio,
de olhos só para o rio, de ouvidos surdos
ao que não é a música das águas,
um sossego alegórico persiste.
Nem o arfar das velas o perturba.
Nem o rumor dos seios capitosos
da Manhã, que nas águas desabrocham
e flutuam, doentes de perfume.
Nem a presença humana do Poeta
- sombra que a pouco e pouco se ilumina
e se dilui, anónima, na aragem…

Sebastião da Gama

quinta-feira, 26 de março de 2015

DIPLOMACIA AUTÁRQUICA

Em todo o terreno. Não em 4x4, mas atuando em todas as áreas, porque todos os domínios são fundamentais na vida do Município. É uma certa forma de diplomacia, através da valorização dos contactos com o "exterior" que devem estar na linha da frente das nossas preocupações. Saúde, política autárquica, proteção civil, administração e apoio aos cidadãos, turismo, numa expressão básica e corriqueira "vamos a todas". Em breve teremos o terceiro fórum 21 (reabilitação urbana em cima da mesa), a primeira sessão do projeto MOURALUMNI, mais a Feira do Livro. Há obras em execução e outras em fase de lançamento. Preparo, para daqui a uns meses, uma balanço aprofundado do que tem sido o trabalho desta equipa. E que se resume numa luta pelo futuro do nosso concelho. Foi, é, será tão simples quanto isso.


Assinatura de protocolo com a Liga Portuguesa Contra o Cancro

Receção ao Presidente da Câmara Municipal de Serpa



Visita de trabalho do Presidente da Autoridade Nacional de Proteção Civil

Assinatura de protocolo - Secretaria de Estado da Modernização Administrativa

Reunião com o Presidente da Entidade Regional de Turismo do Alentejo


Por brincadeira, chamei a este post "diplomacia autárquica". Memória de 1993/94, quando concorri à carreira diplomática. Uma pessoa que, nessa altura, ocupava um posto no estrangeiro estranhou "queres mesmo vir para isto? é que se concorreres, tens francas hipóteses de entrar". Ante a minha pergunta de volta confirmou "és fluente em francês e inglês, tens capacidade de trabalho e low-profile, conheces História Política e sabes Língua Portuguesa; numa das últimas provas houve uma razia à conta disto...". Por razões conhecidas da família e amigos, acabei por não me apresentar a concurso. Provavelmente não teria o perfil adequado ou a competência necessária e ficaria de fora. Fiquei sempre com a dúvida, irresolúvel, se terei feito bem em não concorrer. Curiosidade: teriam sido meus avaliadores Francisco Seixas da Costa e Vítor Gaspar.

quarta-feira, 25 de março de 2015

TODA A POESIA QUE UMA AUTARQUIA TEM - REUNIÃO DE CÂMARA DE 25.3.2015

Retomo um hábito antigo. Em tempos (1998-2001) terminava as assembleias municipais lendo poemas. A partir de agora, as reuniões de câmara abrirão deste modo. Hoje foi com À espera dos bárbaros, de  Konstandinos Kavafis.

Na fotografia: Miguel de Unamuno sendo expulso da Universidade pelos fascistas, em 12 de outubro de 1936.


À ESPERA DOS BÁRBAROS

O que esperamos na ágora reunidos?

É que os bárbaros chegam hoje.

Por que tanta apatia no senado?
Os senadores não legislam mais?

É que os bárbaros chegam hoje.
Que leis hão de fazer os senadores?
Os bárbaros que chegam as farão.

Por que o imperador se ergueu tão cedo
e de coroa solene se assentou
em seu trono, à porta magna da cidade?

É que os bárbaros chegam hoje.
O nosso imperador conta saudar
o chefe deles. Tem pronto para dar-lhe
um pergaminho no qual estão escritos
muitos nomes e títulos.

Por que hoje os dois cônsules e os pretores
usam togas de púrpura, bordadas,
e pulseiras com grandes ametistas
e anéis com tais brilhantes e esmeraldas?
Por que hoje empunham bastões tão preciosos
de ouro e prata finamente cravejados?

É que os bárbaros chegam hoje,
tais coisas os deslumbram.

Por que não vêm os dignos oradores
derramar o seu verbo como sempre?

É que os bárbaros chegam hoje
e aborrecem arengas, eloqüências.

Por que subitamente esta inquietude?
(Que seriedade nas fisionomias!)
Por que tão rápido as ruas se esvaziam
e todos voltam para casa preocupados?

Porque é já noite, os bárbaros não vêm
e gente recém-chegada das fronteiras
diz que não há mais bárbaros.

Sem bárbaros o que será de nós?

Ah! eles eram uma solução.

SELMA

Esta pintura de Robert Indiana (n. 1928) faz a sua segunda aparição aqui no blogue. O motivo é o mesmo: Selma, a cidade do Alabama, que se celebrizou pelas ações de luta pelos direitos civis da população negra. A mensagem de Indiana é cáustica e torna claro de que lado da barreira o artista se encontra(va).

Houve motins e gente morreu. Alguns direitos básicos (votar, por ex...) foram conquistados. Muitos outros faltavam e faltam, ainda. Os acontecimentos em Selma foram há 50 anos.

Um dado lateral: 80% da população da cidade é negra.

Site do Município de Selma: http://www.selma-al.gov


CROSS
My old man's a white old man
And my old mother's black.
If ever I cursed my white old man
I take my curses back.
If ever I cursed my black old mother
And wished she were in hell,
I'm sorry for that evil wish
And now I wish her well
My old man died in a fine big house.
My ma died in a shack.
I wonder where I'm going to die,
Being neither white nor black?
Langston Hughes (1902–1967)

terça-feira, 24 de março de 2015

QUANDO DUARTE DARMAS PASSOU POR MOURA: 3/10 - SANTO AGOSTINHO

Terceiro capítulo sobre Moura, na perspetiva de Duarte Darmas. Aqui não há muito a dizer... O desenhador registou, no limite do casario, uma pequena igreja. Pelo menos, assim parece, porque a sua escala não se destaca da volumetria circundante. Seria essa capela, ou outra semelhante, a que foi refeita na segunda metade do século XVII. Duarte Darmas é "económico" na representação do templo. Fica, ainda assim, este insubstituível testemunho do como era a nossa cidade há 500 anos.


segunda-feira, 23 de março de 2015

Y EN PAYMOGO GANÓ EL PSOE

É uma velha tradição da aldeia dos meus antepassados, na província de Huelva. Ganha sempre o PSOE. O meu primo António Macias foi alcaide socialista nos anos 80/90, com resultados que chegaram aos 90%...

No resto, um bom resultado para o PSOE (acima do que muitos previam), queda na vertical do PP e a Izquierda Unida a pagar a fatura de ter sido muleta dos socialistas. Ah, e não esqueçamos o aparecimento em cena do corso carnavalesco do Podemos. Veremos o Podemos e os "Cidadões" e esses todos. Esperemos.

Nota à margem: concorreram 24 forças partidárias...

domingo, 22 de março de 2015

A OUTRA VIDA

A fotografia, colocada em tempos no facebook, encheu de fúria uma velha amiga. Trata-se do meu gabinete, em Mértola, em plena "energia redatorial". Este mesmo gabinete está hoje arrumadíssimo, o que é mau sinal.

Depois da recente publicação de Entre Roma e o Islão estou numa quase paragem, ditada pela atividade autárquica. A minha outra vida imobilizou-se, ou quase. Deitando contas aos próximos tempos, é muito pouco o que tenho pela frente, não contando o trabalho intenso a que a Câmara de Moura me obriga. Apenas duas coisas (a azul) são extra-Moura. O livro sobre Bolama está suspenso. O resto é de cá. E tem, também, a ver com o meu conceito da função de Presidente da Câmara. Ora deixa cá ver, assim a modos de balanço:

Castelo de Moura - escavações arqueológicas. Deve ser um dos raros casos em que o segundo volume foi impresso antes do primeiro. Este, por seu turno, já está redigido e em correções. Dois ou três meses mais? Deve ser mais ou menos isso... Para um livro longamente prometido, tem que se lhe diga.

Água. Exposição com que o espaço do antigo matadouro municipal abrirá ao público. O projeto é interno (arq. Patrícia Novo). Assumi a direção da exposição, em conjunto com as colegas Vanessa Gaspar e Marisa Bacalhau. Entreguei a ideia base para o guião, a partir do qual será desenvolvido o projeto final. Inauguração? Final de 2015/início de 2016.

Os amarelejenses. Depois de um começo atribulado, começa a tomar forma este projeto, a desenvolver por José Manuel Rodrigues, nome prestigiado da fotografia em Portugal. O trabalho de campo, na Amareleja, terá lugar entre meados de 2015 e meados de 2016. O livro sairá no final desse ano.

Bolama. Semi-escrito e maquetado. Não gosto da primeira versão do texto e este livrinho sobre uma esquecida cidade africana terá de esperar. Em todo o caso, ainda faltam fundos disponíveis (os meus) para a tradução e a impressão. Está suspenso e sem data de saída.

Os Cristos de Moita Macedo. Desafio recente para comissariar uma exposição na Sé de Lisboa. O trabalho é pouco complicado e resolve-se em muito pouco tempo. Haverá exposição quando for indicado o local disponível.

Chegar a casa. Curta-metragem produzida para o Festival Islâmico de Mértola. Rodagem em dois dias (7 e 8 de fevereiro), montagem noutro (15 de março). Um certo ritmo R.W. Fassbinder na organização do trabalho. Está quase, graças à enorme generosidade de um amigo. Apresentação pública no dia 22 de maio.

VIA VERDE, assim sem parar

Dia de ontem agitado, entre uma passagem pela Festival do Cogumelo, em Santo Aleixo, e o desfile de moda, na Amareleja. No meio houve o jantar do 94º aniversário do PCP.

O que há de relevante em tudo isto? O sentido de combate, a persistência, o entusiasmo. Nas localidades do concelho organizam-se eventos e preparam-se, incessantemente, iniciativas. Muitas delas, como as de ontem, não são promovidas pela Câmara Municipal. É uma outra forma de dizer(mos) "estamos aqui, estamos vivos e queremos fazer deste território uma terra de futuro". É obrigação dos autarcas estarem presentes? É. Por isso fomos (o Joaquim Simões e eu), era quase 1 da manhã, até à Longa 2. Mais ainda, é daquelas obrigações que me dá prazer. O mundo mediterrânico é a Pátria da informalidade, do contacto e do espaço aberto. Coisas que os do norte da Europa não entendem, nem entenderão...
Foi assim o sábado. Um dia preenchido. Que correu bem.

sábado, 21 de março de 2015

AINDA A SORBONNE

Manifestei uma dúvida a propósito da eleição da vice-reitora da "Universidade de Sorbonne" (v. aqui). O esclarecimento publicado no "Expresso" desta semana veio dar razão à dúvida (v. aqui). Os meus amigos das reuniões de quinta à tarde escusam de me chamar picuinhas, ok?

sexta-feira, 20 de março de 2015

QUANDO VIER A PRIMAVERA

Quando vier a Primavera



Quando vier a Primavera, 

Se eu já estiver morto, 
As flores florirão da mesma maneira 
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada. 
A realidade não precisa de mim. 

Sinto uma alegria enorme 
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma 

Se soubesse que amanhã morria 
E a Primavera era depois de amanhã, 
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã. 
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo? 
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo; 
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse. 
Por isso, se morrer agora, morro contente, 
Porque tudo é real e tudo está certo. 

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem. 
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele. 
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências. 
O que for, quando for, é que será o que é. 

Alberto Caeiro, in Poemas Inconjuntos



A Primavera chega, tecnicamente falando, dentro de uma hora. A minha vai ser, assim o espero, menos soturna que o poema e mais colorida que a tela de Henrique Pousão. Duvido, contudo, que seja tão bela como um e outra.

quinta-feira, 19 de março de 2015

UMA CIDADE E O SEU MUSEU: 11/20 - BEJA

"Tenho esperança que, de acordo com os arreigados hábitos que são nossos, na 25ª hora se encontre o bom-senso e assim também a solução que o Museu Regional de Beja merece." Esta mensagem, de um veterano e qualificadíssimo quadro da Administração Central chegou-me às 10:58, de terça-feira, na sequência de um mail que eu próprio enviara a colegas da área dos museus.

Não houve 25ª hora. Entre as 22:38 e as 22:44 de ontem houve três votações, em que os eleitos do Partido Socialista reprovaram tudo o que havia a reprovar: as alterações às Grandes Opções do Plano e Orçamento, ao Mapa de Pessoal e ao Regulamento Interno dos Serviços.

A sessão teve momentos lamentáveis, que quem lá esteve pode testemunhar. Infelizmente, éramos poucos, porque a sociedade civil e as "forças vivas" desta cidade vivem à margem do seu Património e do seu Museu. Ambos são extraordinários, mas parecem não ser uma prioridade...

E agora? Agora mais impasse. A única vontade que emerge é a de criar dificuldades à Câmara Municipal de Beja. Ou seja, os trabalhadores foram convertidos, pelo Partido Socialista, em peças de xadrez. Aconteceu o pior. Que era o que eu temia.

Sexta-feira haverá um plenário dos trabalhadores do Museu. Tiveram a gentileza de me convidar estar presente. Não faltarei.



JOSÉ

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, Joaquim?
e agora, você?
Você que é sem nome,
que zomba dos outros,
Você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio, - e agora?

Com a chave na mão 
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais!
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse,
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja do galope,
você marcha, José!
José, para onde?

Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, 18 de março de 2015

ALMAMINHA


Alma Minha Gentil, que te Partiste


Alma minha gentil, que te partiste 
Tão cedo desta vida descontente, 
Repousa lá no Céu eternamente, 
E viva eu cá na terra sempre triste. 

Se lá no assento Etéreo, onde subiste, 
Memória desta vida se consente, 
Não te esqueças daquele amor ardente, 
Que já nos olhos meus tão puro viste. 

E se vires que pode merecer-te 
Algũa cousa a dor que me ficou 
Da mágoa, sem remédio, de perder-te, 

Roga a Deus, que teus anos encurtou, 
Que tão cedo de cá me leve a ver-te, 
Quão cedo de meus olhos te levou.
 

Luís de Camões e E.M. Melo e Castro. A lírica e a poesia visual. O livro CARA LH AMAS - pemas eróticos e sarcásticos foi um dos meus preferidos, em tempos de juventude. A ironia despudorada e inteligente deixou-me marcas. A edição original (e presumo que única) é da Afrodite e data de 1975. Na altura, o livro deve ter sido classificado de burguês para baixo. Desconfio, mas sem ter qualquer tipo de certeza.

terça-feira, 17 de março de 2015

NÓS POR CÁ TODOS BEM

Emigrados uns para a França
Outros para a morte...


Vão e vêm, diz também Sérgio Godinho. O filme de Fernando Lopes (1935-2012) é uma obra muito pessoal, porque em tom de confissão. Não é uma obra-prima, este Nós por cá todos bem, rodado em 1978. Mas é um trabalho interessante, e com uma estrutura meio-documentário, meio-ficção, meio-autobiografia (e já lá vão três meios...).

Não sendo hábito colocar dois filmes na mesma semana, a verdade é que a música de Sérgio Godinho surge como contraponto perfeito ao espantoso anúncio de Pedro Lomba.

segunda-feira, 16 de março de 2015

QUANDO DUARTE DARMAS PASSOU POR MOURA: 2/10 - S. JOÃO BATISTA

Mais uma vista da nossa cidade, nos inícios do século XVI. Agora é a vez da Igreja de São João Batista. Duarte Darmas resolveu mal os problemas de perspetiva. Criou, então, duas visões da igreja, uma para a direita, outra para a esquerda, como se o edifício estivesse construído em V...

A configuração da igreja, a estar representada com algum rigor, mostra um edifício muito diferente do que hoje conhecemos, ainda que nos pareça inverosímil a torre sineira na capela-mor. Qualquer verificação mais precisa torna-se impossível, tendo em conta a derrocada ocorrida no início do século XVIII.

Obra de consulta indispensável: Jorge Segurado, A igreja de S. João de Moura. Da sua arquitectura e da sua história, Lisboa, Parceria A.M. Pereira, 1929. Veja-se também o Boletim da Direção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, nº 45 (1946).

Imóvel classificado como monumento nacional: Decreto n.º 21 355, Diário do Governo, I Série, n.º 136, de 13-06-1932