quinta-feira, 30 de abril de 2015

VANITAS VANITATUM ET OMNIA VANITAS

Fui há dias confrontado com um convite profissional, vindo de um organismo do Estado. Quase estranhei que (ainda) se tivessem lembrado de mim. Aceitei, porque o convite é interessante e porque pretendo manter, sempre, a ligação à minha área profissional.

Cedi, por segundos, à vaidade. Até me lembrar de Alfred Tennyson (1809-1892)... All things must dye. Mesmo o Narciso de Caravaggio desaparecerá um dia...




Clearly the blue river chimes in its flowing

Under my eye;
Warmly and broadly the south winds are blowing

Over the sky.

One after another the white clouds are fleeting;
Every heart this May morning in joyance is beating

Full merrily;
Yet all things must die.

The stream will cease to flow;
The wind will cease to blow;
The clouds will cease to fleet;
The heart will cease to beat;
 For all things must die.

All things must die.

Spring will come never more.

O, vanity!
Death waits at the door.

See! our friends are all forsaking
The wine and the merrymaking.

We are call'd—we must go.

Laid low, very low,
In the dark we must lie.

The merry glees are still;
The voice of the bird
Shall no more be heard,
Nor the wind on the hill.

O, misery!
Hark! death is calling
While I speak to ye,
The jaw is falling,
The red cheek paling,
The strong limbs failing;
Ice with the warm blood mixing;
The eyeballs fixing.

Nine times goes the passing bell:
Ye merry souls, farewell.

The old earth
Had a birth,
As all men know,
Long ago.

And the old earth must die.

So let the warm winds range,
And the blue wave beat the shore;
For even and morn
Ye will never see
Thro' eternity.

All things were born.

Ye will come never more,
For all things must die.

KU KLUX KLAN

A blogosfera está cheia de citações do blogue de Pedro Cosme Costa Vieira. O tom anda entre o paternalismo de Tintim no Congo e o "pensamento" do Ku Klux Klan. A argumentação é básica e não ultrapassa em muito a filosofia da esquina da rua. Cito:

Para aumentar o número de contribuintes é preciso desviar os barcos com pretalhada que atravessam o Mediterraneo para o Algarve.
Para diminuir o número de pensionistas é preciso matá-las.
Isto é que seriam medidas não era dizer o resultado que queríamos que acontecesse.

O uso da língua portuguesa é de uma pobreza confrangedora. Pior é sabermos a atividade profissional do autor de tais barbaridades e de tão abjeto racismo. Cito, de mesmo blogue: "Pedro Cosme Costa Vieira é professor na Faculdade de Economia da Universidade do Porto". A este ponto chegou a universidade, em Portugal?

quarta-feira, 29 de abril de 2015

DE 24 PARA 25 PARA 26

Revisão da matéria dada. Dias cheios, cumpridos com convicção e prazer.

Ora vejamos:
1. Espetáculo musical com talentos da nossa terra.
2. Cerimónia no dia 25 de manhã.
3. Arruada nas ruas de Santo Amador.
4. Homenagem aos autarcas de Santo Amador, no cemitério da aldeia.
5. Torneio de malha, seguido de almoço, organização da UFMSA.
6. Exposição sobre o 25 de abril, na Casa do Povo de Safara.
7. Inauguração do espaço multiusos de Safara, iniciativa da UFSSA.
8. Convívio com os grupos corais, em Amareleja, organização do GC da Casa do Povo.
9. Inauguração da casa do fogueteiro, em Santo Aleixo, iniciativa da UFSSA.
10. Almoço no mercado do Sobral, iniciativa da Junta de Freguesia.
11. Fotografia com a equipa da Junta de Freguesia.
12. 63º aniversário do Moura Desportos Clube.
13. Entrega dos diplomas dos Padrinhos de Leitura, com a feira do livro in fine.

Não tenho, infelizmente, registo do jantar-convívio com as Brisas e do espetáculo, um pouco tardio, na Casa do Povo do Sobral. O fotógrafo não esteve lá...













SAFARA E AMARELEJA: DO CÉU PARA A TERRA


Cumprindo programa político, mais que cumprindo promessas.

Depois da conclusão do Parque de Vale de Juncos, chegou a vez de se dar seguimento ao processo de reabilitação da linha de água. Um troço importante da ribeira irá ser coberto, uma vez que a Câmara Municipal já dispõe da respetiva licença. Ultima-se agora o projeto, e uma vez que esta obra tem caráter prioritário.

E chegou também o momento de nos ocuparmos da Igreja Paroquial de Safara, monumento classificado. Numa altura em que o Poder Central se demite destas funções, tem de ser a Câmara Municipal a assumir esta tarefa. Vamos avançar com um pedido de empréstimo, no montante de 175.000 euros, para dar seguimento à obra de reforço estrutural do edifício.

Tem sido assim, é assim, continuará a ser assim.

terça-feira, 28 de abril de 2015

À SOMBRA DA ÁGUA

O título devia ser este. Escolhi À sombra da água. Como só quatro pessoas gostaram sinceramente do nome, desisti. Adotou-se um mais neutro Água - Património de Moura. Vai ser esse o título da exposição que será inaugurada em Moura, no próximo verão. Tema? A água. Um grande recurso desta terra.

Equipa do projeto? O autor do blogue (na qualidade de alcaide/comissário científico), Marisa Bacalhau e Vanessa Gaspar (comissárias executivas), Patrícia Novo (autora do projeto de arquitetura da exposição) e José Martinho (responsável pela coordenação técnica das infraestruturas).

A produção de Água - Património de Moura estará a cargo da empresa TerraCulta. Por aí estamos descansados. Francisco Motta Veiga é alguém que tem uma larga  e competente experiência na produção de conteúdos culturais. O projeto dá passos firmes.

Há outros contactos que estão a ser desenvolvidos. Empresas e entidades públicas participarão neste projeto. O verão e o outono serão de alguma agitação.



Onde fui buscar o título À sombra da água? A uma célebre peça da arte etrusca, l'ombra della sera (v. aqui). Manias e arqueologia e museus e tal...

segunda-feira, 27 de abril de 2015

MA È OVERO CA STÒ CCÁ?

Três nomes maiores das Artes, todos já desaparecidos há muito. O close-up de Bill Brandt (1904-1983), o vermelho visionário de Mark Rothko (1903-1970), as palavras melancólicas de Gabriele d'Annunzio (1863-1938).



STRINGITI A ME

Stringiti a me, 
abbandonati a me, 
sicura. 
Io non ti mancherò 
e tu non mi mancherai. 
Troveremo,
troveremo la verità segreta 
su cui il nostro amore 
potrà riposare per sempre, 
immutabile. 
Non ti chiudere a me, 
non soffrire sola, 
non nascondermi il tuo tormento! 
Parlami, 
quando il cuore 
ti si gonfia di pena. 
Lasciami sperare 
che io potrei consolarti. 
Nulla sia taciuto fra noi 
e nulla sia celato. 
Oso ricordarti un patto 
che tu medesima hai posto. 
Parlami 
e ti risponderò 
sempre senza mentire. 
Lascia che io ti aiuti, 
poiché da te 
mi viene tanto bene!


Gabriele D'Annunzio

domingo, 26 de abril de 2015

ENTREVISTA AO DIÁRIO DO ALENTEJO


Na última edição do Diário do Alentejo, com texto Paulo Barriga e fotos de José Ferrolho.

“Há mais vida para lá do orçamento”, afirma Santiago Macias, que está a governar a autarquia de Moura sem provisão orçamental aprovada em Assembleia Municipal. A curta margem de votos que elegeu o executivo CDU nas últimas Autárquicas está a causar alguma “crispação” política na cidade de Salúquia, ao ponto de o autarca acusar a oposição de praticar “uma política de terra queimada”. Palavras fortes numa entrevista onde se aborda igualmente a questão da regeneração urbana de um concelho com uma dinâmica social e empresarial muito própria, onde o “orgulho” marca a diferença, mas que se sente “marginalizado” em relação às potencialidades turísticas e agrícolas de Alqueva. 


A câmara está a trabalhar com o orçamento idêntico ao de 2014, uma vez que a Assembleia Municipal reprovou o documento orçamental para 2015. Que constrangimentos é que esta situação está a causar ao exercício municipal?
Na realidade, é o orçamento de 2014 com o aditamento que foi feito em fevereiro que, nesta altura, está em vigor e que nos permite fazer aqui algumas intervenções. Costuma dizer-se, e é verdade, que há mais vida para além do orçamento. Mas não o ter, constrange-nos e limita-nos um pouco.

Como é que a oposição se posiciona quando há necessidade de fazer alterações pontuais ao orçamento?
Nesses momentos, cada um que assuma as suas responsabilidades. Se entendermos que é necessário um determinado investimento, avançamos nesse sentido. Se a oposição nos cria dificuldades, como é natural, informaremos a população em conformidade. As coisas têm de ser muito claras a nível de informação. Se a oposição está apostada em criar-nos problemas de forma sistemática e continuada, nós, pelo contrário, estamos apostados em ter um discurso claro e um discurso direto junto da população do concelho.

O principal argumento dos deputados municipais socialistas face ao chumbo do orçamento prende-se com a ausência de integração nas grandes opções do plano de propostas do PS. É assim tão difícil chegar a consensos em Moura?
Percebe-se claramente pelas propostas que foram feitas na altura, e que impediam qualquer consenso, que havia uma posição perfeitamente concertada e articulada entre o PS e o PSD, um facto novo na vida política local e que nós registamos e que naturalmente as pessoas não deixarão de avaliar em devido tempo. Havia aqui uma tentativa de gerir a câmara municipal sem que se tivesse a maioria. 

Em tempos classificou a oposição de praticar uma “política de terra queimada” em relação ao executivo CDU. Mantém essa ideia?
Há uma política de terra queimada na medida em que se chumba um orçamento sem que se apresente uma justificação cabal e devidamente fundamentada. Há essa nova realidade no concelho, creio eu, fruto da discrepância que houve nas eleições de 2013 em termos de composição de maioria da CDU na câmara municipal, com minoria na assembleia municipal. E, por outro lado, a curta margem em termos de votação que ocorreu criou, digamos assim, uma crispação ainda maior por parte do Partido Socialista. Mas devo dizer que essas questões, para mim, são de segundo plano, aquilo que efetivamente me interessa é o cumprimento do programa eleitoral, é a manutenção de uma relação de lealdade e de frontalidade com as pessoas deste concelho e a consciência de que estamos a fazer o possível e o impossível para levar isto para a frente. 

Está a seguir à risca aquilo a que se propôs quando se candidatou à Câmara de Moura?
Honestamente, sim! O programa eleitoral deve-nos servir como guia fundamental, é a nossa pequena bíblia. Mas para além daquilo que está no programa eleitoral, há outra dinâmica que é a da realidade do concelho que nos leva, muitas vezes, para não dizer todos os dias, atrás de outro tipo de iniciativas ou de circunstâncias que vamos construindo e criando. Acho que, no essencial, vamos no bom caminho, no sentido da concretização e no sentido da afirmação do nosso projeto político. Esse é o aspeto essencial.

E qual é esse projeto político?
Há um conjunto de projetos que queremos concretizar. Em termos globais, continuamos a apostar naquilo que é a reabilitação urbana. Não há promoção económica, não há promoção turística de um concelho sem a requalificação dos seus espaços público e sem a recuperação de edifícios e monumentos. As freguesias vão também ser abrangidas por iniciativas deste género. Ainda ligado à área da reabilitação urbana, há um aspeto que temos vindo a dar uma importância acrescida que é um gabinete de habitação. Funciona no âmbito de um projeto social mais vasto chamado “Ágora Social”. Temos cinco técnicos a trabalhar em permanência fazendo projetos para pessoas que não tem qualquer tipo de capacidade financeira e que têm, às vezes, outras dificuldades do ponto de vista pessoal que as impedem de resolver os problemas que têm nas suas casas. 

A custo zero?
A custo zero, porque as pessoas não têm meios. Estamos a falar de pessoas muito carenciadas. Quem faz essa avaliação é a nossa área de apoio social. O executivo não interfere, é um processo técnico que tem a ver com as carências que são detetadas. É uma área particularmente sensível porque é muito difícil fazermos investimentos na requalificação dos espaços públicos, nos monumentos, no que quer que seja, e depois deixarmos as habitações das pessoas que não têm outros meios num estado de ruína. Entregamos estas pequenas obras à iniciativa privada local à medida que os projetos vão sendo implementados, vão sendo postos em prática, vão sendo concretizados, nós vamos avançando mais e mais…


Quer dizer que Moura não é apenas museus e arqueologia?

Infelizmente arqueologia não fazemos há dois anos, e museus teremos o do Matadouro, quando a obra estiver terminada. A parte da reabilitação, da regeneração, de dar uma nova cara à cidade, que não é só maquilhagem, envolve trabalhos de estrutura e de infraestrutura. Quando mexemos na Mouraria, mexemos nas infraestruturas de saneamento, para além de dar uma nova alma a um dos bairros mais característicos da nossa cidade. Quando mexemos nos Quartéis, não fizemos manicura, foi converter aquele espaço que estavam ao abandono e em estado de pré-ruína… Isso tem a ver com aquilo que é o espírito dos sítios, a alma dos sítios e até a sua capacidade de renovação a todos os títulos, nomeadamente, o turístico. Uma segunda área que para nós é importante tem a ver com a dinamização económica. Estamos numa terra que tem uma particular dinâmica do ponto de vista económico, embora as pessoas aqui por vezes não o valorizem suficientemente e não se deem conta daquilo que é a realidade das empresas. A dinâmica comercial de Moura é muito superior à das outras terras aqui em volta, muito, muito superior… 

Está a falar de algum frenesim em termos comerciais, em termos empresariais, num concelho periférico…
Há uma coisa que marca a diferença em relação a outros concelhos, não estou a dizer que é melhor nem que é pior, o meu discurso nunca vai por aí, mas há uma coisa que marca a diferença e que é uma característica muito particular dos mourenses: o orgulho. Os habitantes da terra, os habitantes do concelho, têm particular orgulho neste sítio e fazem desse orgulho uma mola fundamental para a realização e para a concretização de coisas em todos os momentos e a todos os níveis.

E é esse “orgulho” que faz sobreviver Moura?
Não há outra justificação. É uma terra que tem agricultura infelizmente penalizada pelas normas que nos impõem da Comunidade Europeia. Mas os mourenses são gente industriosa, como se dizia antigamente, são pessoas laboriosas e que batalham bastante. Isso faz com que nunca nos conformemos, isso faz também com que as pessoas sejam particularmente reivindicativas em relação a tudo e mais alguma coisa e em particular à câmara municipal. O espírito de permanente exigência junto dos poderes instituídos parece--me que deve ser valorizado.

De que forma a agricultura em Moura é penalizada pelas normas europeias?
A Rede Natura 2000 é o principal obstáculo que temos. Continuamos a achar que é possível compatibilizar o que são as normas ambientais com o incremento de uma agricultura que permita o desenvolvimento do território, ponto final parágrafo. Depois, temos constrangimentos do ponto de vista do território que limitam o uso do solo em cerca de 66 por cento do concelho de Moura, o que faz com que a nossa capacidade de avançar com novos projetos seja diferente doutros locais. Vou referir, por exemplo, uma coisa que nos tem penalizado bastante, que é o perímetro de rega de Alqueva. Um projeto que toca tangencialmente o concelho de Moura, por um lado por causa da Rede Natura 2000, e, por outro lado, por causa do aquífero Moura/ /Ficalho, limitando a atividade agrícola. Ao mesmo tempo que é imprescindível respeitar as normas ambientais, é preciso criar condições para que os nossos agricultores desenvolvam o seu trabalho.

E isso não está a acontecer? Estou a olhar para o mapa que está à minha frente e vejo que Moura será dos concelhos com maior frente ribeirinha. O concelho não retira benefícios da utilização da água do Alqueva? 
Pode utilizar a água de forma marginal no regadio… e, depois, existem as dificuldades para a instalação de projetos de desenvolvimento turístico nas margens de Alqueva. O plano de ordenamento é de tal forma restritivo que nada aconteceu.

Nada aconteceu?
Não, nada aconteceu e com este plano nada acontecerá. Este plano vai começar a ser revisto agora.

A câmara vai ter um papel ativo nessa revisão?
A câmara não vai ter um papel ativo, a câmara tem tido sempre um papel ativo e tem tido sempre um papel de grande permanência em relação àquilo que é o plano de ordenamento. Não acreditamos num plano de ordenamento baseado numa lógica de resorts, ou em que os resorts tenham um papel importante. Hoje em dia não há capacidade financeira para isso. Queremos projetos de escala humana, projetos que sirvam o território, projetos que sirvam os investidores e os turistas e que sejam úteis para todos. Fazer megaprojetos só para vir cá a televisão, para cortarmos fitas, pormos a primeira pedra e depois não acontecer nada, não precisamos disso. Tem de haver aqui uma inversão de valores, tem de haver uma inversão de filosofia, e temos de pensar numa coisa que deve estar agora em pano de fundo, que é até onde vai a capacidade de criar novas camas no território. 

Há pouco falava das obras que o município tem em marcha, isso quer dizer que ainda existe algum poder de tesouraria neste momento?
Câmara Municipal de Moura beneficiou nos últimos anos do investimento que foi feito na central fotovoltaica. A nossa participação no negócio traduziu-se num encaixe financeiro bastante significativo e que permitiu  avançar com uma série de obras.

Estamos a falar em quanto?
Estamos a falar um pouco acima dos 15 milhões de euros, que é o valor da venda das ações da Amper. Isso permitiu financiar um conjunto de obras muito significativas e permitiu criar aqui uma folga.

Uma última pergunta, como se vê no fato de liquidador da Assembleia Distrital de Beja, a que preside, e qual o caminho que o Museu Regional deve tomar?
Vejo a situação sempre com grande preocupação, porque houve falta de pragmatismo na resolução do problema. Entendo que a entidade ideal para receber o Museu Regional seria o município de Beja e isso teria de ser feito de uma forma negociada e escalonada no tempo. Não há câmara municipal nenhuma que tenha capacidade de absorver uma estrutura daquelas de um dia para o outro e num prazo de três anos, como o Partido Socialista propunha. Tem de ser um acordo de longo prazo e que podia e devia ter sido negociado ao longo do ano de 2014. Infelizmente, deixámos queimar os prazos e, pior do que isso, acabou este assunto por se converter numa disputa entre duas forças políticas. Isso preocupa-me, porque tem causado dificuldades na resolução prática do problema e preocupa-me porque se discute a questão de enquadramento do pessoal, mas em momento algum vi discutida a questão do desenvolvimento do projeto do Museu Regional de Beja que é para mim o tópico essencial. Que fique na Cimbal parece-me um mal menor. Mas se o mal menor for para garantir os salários e um modo de vida às pessoas que ali trabalham, adotemos então o mal menor, sempre numa perspetiva de transição que terá de ser a médio prazo.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

DA AULA NO SETE E MEIO À EXPOBARRANCOS



E foi assim, mais um dia sanduíche, entre a Escola do Sete e Meio e a ExpoBarrancos. A parte da manhã foi bem difícil, admito. Explicar partes da história de Moura a jovens estudantes é uma tarefa complicada, à partida. Não tendo eu experiência de contacto docente com rapaziada desta idade, mais complicada se torna a missão. Não correu mal, creio. Diverti-me imenso. Deu-me ideia que eles também não se aborreceram muito. Estavam alguns pais, docentes e funcionários da escola. Agradeço, pois, a simpatia do convite.

Do Sete e Meio para a fronteira, onde abriu a ExpoBarrancos. Havia muita gente presente, muitos amigos de todas as partes. Fiquei sensibilizado com a extraordinária simpatia do António Tereno, da Isabel Sabino e do António Durão. Nada que me tenha surpreendido, mas que é importante registar.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

UMA TABERNA EM AZAMOR

Seria incapaz de voltar a encontrar o sítio. Não só porque o episódio se passou em novembro de 1991, como porque toda aquela área da cidade deve ter sofrido profundas alterações.

Foi em Azamor (mantenha-se a grafia antiga, que é bonita), no trajeto para Mazagão. Parámos para ver as muralhas e vadiar um pouco por ali. A viagem, na Dyane da Mia, foi lenta e divertida. Era uma manhã de outono, de calor pesado. A dada altura, numa zona da cidade de ar lumpen vimos, ao longe, um bar, construção isolada numa área meio abandonada. Como a sede apertava entrámos, chegámos perto do balcão e pedimos um chá. Não havia chá. Então um sumo. Não havia sumo. Então água. Nada de água. Meio atordoado, perguntei que poderia beber. "Bière, il n'y a que de la bière". Pensei que fosse brincadeira. Só então olhei em volta. A penumbra escura do bar revelava agora vultos sentados em mesa. E posters nas paredes, de mulheres de seios generosos (aqueles que fazem parte da iconografia habitual das oficinas). Bebia-se cerveja, num ambiente pesado e num silêncio cerrado. Sempre gostei de ambientes com um toque de decadência, mas aquele passava das marcas. Saímos e aguentámos a sede até ao café seguinte.


Azamor no Civitates Orbis Terrarum, de 1572, de George Braunio (1541-1622).

quarta-feira, 22 de abril de 2015

QUANDO DUARTE DARMAS PASSOU POR MOURA: 7/10 - TORRE DE MENAGEM

A parte mais engraçada deste desenho é o facto de a torre estar "errada". Como e porquê? Duarte Darmas desenhou a torre de menagem baseado em apontamentos. Os esquiços rapidamente deram origem a trabalhos acabados. E a certezas. No termo de Duarte Darmas não havia crtl+z. A falha sedimentou-se. A que me refiro, afinal? Ao facto da torre nunca ter tido uma escada helicoidal. As escadas, em diferentes níveis, acompanhando a caixa murária, são uma invenção. A torre de menagem já existia? Decerto. Desde a segunda metade do século XIV. Mas não aquela...


terça-feira, 21 de abril de 2015

ESTUDOS MEDIEVAIS, O FACEBOOK, PROCÓPIO DE CESAREIA E JOSÉ VILHENA

Tenho participado, com regularidade, numa página do facebook, intitulada "Na Idade Média é que era bom". Não sei se o seu anónimo autor conhece a obra de José Vilhena, mas desconfio que sim. Várias pessoas me desaconselharam a manter estas intervenções: "um presidente de câmara colaborador de uma página satírica...". Continuo insensível a tais recomendações.

O estilo da referida página, que usa iconografia medieval com relativa frequência é tributário, assim me parece, de livros como As misses, editado em 1972. A esse nível, a pintura bizantina e o trabalho dos orientalistas do século XIX são uma mina... A releitura de As misses levou-me, em linha reta, a uma obra do século VI, A história secreta, na qual Procópio conta o que deve e o que não deve sobre a mais que duvidosa moralidade da imperatriz Teodora. Quando estava a redigir a tese, li bastantes obras de Procópio, para me situar no ambiente histórico e cultural do mundo bizantino. As gargalhadas que dava durante a leitura desse livro, levavam uma amiga a exclamar "nunca pensei que as narrativas da Alta Idade Média fossem tão hilariantes...". Hilariantes e irreproduzíveis, por vezes.

É portanto aí que estou, nos poucos segundos que as tarefas autárquicas me deixam: entre a pintura, o espírito José Vilhena, a página "Na Idade Média é que era bom", e autores fantásticos, como Procópio de Cesareia.

Não vale a pena arruinarem-se comprando as edições da Loeb Classical Library, como eu fiz. A tradução, a partir do original em grego, está disponível, em inglês, na net.

História Secreta:
http://penelope.uchicago.edu/Thayer/E/Roman/Texts/Procopius/Anecdota/home.html

Ver também:
https://www.loebclassics.com



Em homenagem a José Vilhena, do seu livro As misses.

CASTELO DE MOURA, A PARTIR DA NECRÓPOLE ANTIGA

Vista do castelo de Moura, ao fim de uma tarde de luz, a partir do sítio onde outrora esteve a necrópole romana da cidade.


Perdi os Meus Fantásticos Castelos

Perdi meus fantásticos castelos 
Como névoa distante que se esfuma... 
Quis vencer, quis lutar, quis defendê-los: 
Quebrei as minhas lanças uma a uma! 

Perdi minhas galeras entre os gelos 
Que se afundaram sobre um mar de bruma... 
- Tantos escolhos! Quem podia vê-los? – 
Deitei-me ao mar e não salvei nenhuma! 

Perdi a minha taça, o meu anel, 
A minha cota de aço, o meu corcel, 
Perdi meu elmo de ouro e pedrarias... 

Sobem-me aos lábios súplicas estranhas... 
Sobre o meu coração pesam montanhas... 
Olho assombrada as minhas mãos vazias... 

Florbela Espanca
A Mensageira das Violetas

segunda-feira, 20 de abril de 2015

VÁRIOS AIRBUS CHEIOS - 700, 900, 1000 passageiros, ninguém tem a certeza

Ontem afundaram-se vários AIRBUS no Mediterrâneo. O impacto mediático será, em princípio, inferior ao do desastre da GERMANWINGS.

MOURENSE E NOVA-IORQUINO

That's it! O azeite Angélica teve há dias uma medalha de ouro no New York Olive Oil Competition.na categoria Robust Blend. Havia 700 azeites de 25 países. O produtor é fotógrafo profissional, é de Moura e chama-se Gonçalo Rosa da Silva. Há quem leve o tempo todo em lamúrias ou em rebuscados raciocínios sobre o desenvolvimento, sobre e estratégia, sobre o empreendedorismo, sobre os eixos estratégicos e sobre os eixos táticos etc. Pessoas como o Gonçalo fazem.

Um abraço de parabéns!

Ver: http://www.bestoliveoils.com/

A CASA ENCANTADA

É ao minuto 2:49. Está aí uma das mais marcantes imagens da minha juventude (e mesmo depois disso). Permanece inapagável. Há um beijo libertador. As portas abrem-se, como símbolo palpável da libertação. Não acho hoje grande interesse a este filme de Hitchcock, um dos mais datados e identificáveis no tempo. Não sou grande daliano e os cenários do catalão só servem para acentuar aquele ambiente de psicanálise contada às crianças e explicada ao povo. É interessante notar que o esforço feito por muitas criações para parecerem de vanguarda esbarrou no impiedoso fator tempo.

Que resta desta Casa Encantada, de 1945? A cena do beijo e das portas. Que se abrem e fecham. Ou não.

sábado, 18 de abril de 2015

CHEGAR A CASA - FALTAM 822 HORAS

Post especial para os amigos que sabem do meu particular gosto pelo cinema e da minha fixação com quantificações, por norma inúteis.

Chegar a casa em fase de montagem. Suprindo-se agora as falhas que não resolvi na altura. Créditos, legendagens, acertos de som, amanhã vai ser uma dia dos tais...

Aqui fica, em especial para os que têm aturado a construção de tudo isto, uma fotografia de grupo dos jovens atores.


Da esquerda para a direita: Percida Camara, Azeneide Batista, Sana Contá e Joseline Cabral.

CORO NA MADRUGADA


É tão vazia a nossa vida,
é tão inútil a nossa vida
que a gente veste de escuro
como se andasse de luto.
Ao menos se alguém morresse
e esse alguém fosse um de nós
e esse um de nós fosse eu…


… O Sol andando lá fora,
fazendo lume nos vidros,
chegando carros ao largo
com gente que vem de fora
(quem será que vem de fora?)
e a gente pràqui fechados
na penumbra das paredes,
curvados pràs secretárias
fazendo letra bonita.

Fazendo letra bonita
e o vento andando lá fora,
rumorejando nas árvores,
levando nuvens pelo céu,
trazendo um grito da rua
(quem seria que gritou?)
e a gente pràqui fechados
na penumbra das paredes,
curvados pràs secretárias
fazendo letra bonita,
enchendo impressos, impressos,
livros, livros, folhas soltas,
carimbando, pondo selos,
bocejando, bocejando,
bocejando.

É já sábado, e ainda não bocejei. Acompanham-me Manuel da Fonseca (1911-1993) e Mario Sironi (1885-1961), pela noite fora. As dúvidas, noite fora, são as de todos e as de sempre.

sexta-feira, 17 de abril de 2015

JOSÉ MARIANO GAGO (1948-2015)

Fomos, há horas, surpreendidos pela notícia da morte de José Mariano Gago. O dirigente socialista Jorge Coelho definiu-o, justamente, como "um homem superior".

A sua passagem pelo Ministério da Ciência não foi consensual? Não foi. Estou, enquanto investigador, de acordo com as suas opções? Sim, mas nem sempre. José Mariano Gago era um visionário e tinha perspetivas de longo prazo? Sem dúvida. Disse-o em 2010, em 2012 e em 2014. Numa das idas do Prof. Mariano Gago a Mértola ouvi-o dizer, numa reunião com a nossa equipa, uma coisa extraordinária: "Sabem como é que recrutam professores para uma das melhores universidades americanas? Pedem três livros escritos por cada um dos candidatos e é com base nisso que fazem a seleção". Ou seja, nem peer reviews, nem dados coisométricos, nem citações, apenas a leitura e a análise de textos. Nesse descontraído almoço, José Mariano Gago parecia, de novo, o jovem extremista de outrora. Enquanto foi ministro, raramente apareceu nos media. Limitou-se a trabalhar e a construir uma realidade muitíssimo melhor do que aquela que herdou. São estas palavras de circunstância? Não são. Leiam-se os textos do meu blogue que acima citei. Portugal deve muito a este homem? Não deve muito, deve muitíssimo. Os detratores que façam, ou tentem fazer, melhor que ele.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

ENTRE LIVROS E PINTURA


Sábado é mais um daqueles dias de 110 atividades barreiras. Da Póvoa a Moura, do passeio da Associação Equestre à iniciativa da Comissão de Festas. Pelo meio estão a abertura da Feira do Livro e a exposição de pintura de António Galvão. Estava prevista há algum tempo e o Tói já não estará na abertura, porque o destino lhe trocou as voltas. Voltarei a este tema, de forma mais detalhada.

Todos à Feira do Livro!
Todos à Galeria do Espírito Santo!



A MORTE DE UM APICULTOR

No final de dezembro de 2010 trouxe este livro para o blogue. Dizendo isto:

No outro dia, ao telefone com uma colega ouvi isto: "Estou a ler um livro fantástico, que me foi oferecido por um lado. Tenho a certeza que nunca leste A morte de um apicultor". Não foi por maldade, mas respondi de imediato que esse livro de Lars Gustafsson (n. 1936) foi das melhores leituras dos últimos tempos. Foi um caso raro de pontaria, já que em anos recentes pouco tenho lido, para além das coisas profissionais.

Encontrei, numa releitura, pontos comuns com percursos recentes:

Estar tão perto de uma vida diferente, desenrolando-se noutro lugar, numa ambiente totalmente diferente, proporcionava-me como que uma vida dupla - e era talvez dessa vida dupla que eu sempre precisara sem o saber.

(Sempre suspeitei que todas as soluções se encontravam algures entre a minha vida e uma outra.)


Fotografia de Daniel Blaufuks

quarta-feira, 15 de abril de 2015

PEER REVIEW

A primeira vez que me pediram para fazer "arbitragem científica" achei graça à designação, ainda que já a conhecesse. Pedirem-me que fosse "árbitro" levou-me a imaginar num campo relvado, de apito na boca, correndo de um lado para o outro de livro na mão.

Era um artigo para uma publicação referente ao período medieval, ligada a uma universidade. Por várias vezes me têm sido solicitadas essas avaliações, sendo que a última, bastante embaraçosa, se referia a uma pessoa de reputação intocável. Pensei "mas quem sou para fazer esta avaliação?". O artigo era de elevada qualidade e limitei-me a um brevíssimo comentário de aprovação.

Confesso que participo, com prazer, nestes processos. Mas admito, algo envergonhado, que não pratico. A "Arqueologia Medieval", cujos 12 números publicados (1992-2012) coordenei, nunca teve peer review. Porquê? Por opção "política". Para sairmos de um sistema demasiado certinho e, num certo sentido, excessivamente rigoroso. Alguns dos artigos publicados na "Arqueologia Medieval" não passariam numa arbitragem científica feita com todos os requisitos. Alguns desses artigos nem sequer seriam considerados de arqueologia medieval, num sentido estrito. Outros tinham até falhas menores, em termos metodológicos. Mas também não passariam no crivo, ou no apito, de um árbitro mais atento. Porque os publicámos, então? Porque, por vezes, estávamos ante primeiras publicações de jovens licenciados ou porque eram artigos sobre outros domínios (arquitetura, linguística, antropologia) que davam sal à revista.

Em 1992 vaticinaram(-me) vida curta à revista. Era tudo inviável: o modo de pedido de artigos, a avaliação dos mesmos, o modelo de financiamento da publicação etc. Para não falar, bem entendido, na escassa qualificação do editor (eu), que aos 29 anos se atrevia a tomar decisões sobre estas matérias. Sempre sob a benevolente tutela do diretor da revista, Cláudio Torres.

Sempre gostei de projetos improváveis e "impossíveis". O da "Arqueologia Medieval" foi mais um deles.

ECONOMIA POLÍTICA - AULA Nº 1

Hoje, às 8:10, na Antena 1:

Repórter - "Quanto custam os cachecóis?"
Vendedor - "Os do Porto, 5 euros. Os do Bayern, 10".
Repórter - "O dobro?? Qual a justificação para a diferença?"
Vendedor - "Os alemães têm mais dinheiro que nós, muito maior poder de compra e, além disso, estão fartos de nos roubar".

Está percebido, ou é preciso chamar o Dr. Camilo Lourenço ou o Dr. Rui Ramos?

terça-feira, 14 de abril de 2015

QUANDO DUARTE DARMAS PASSOU POR MOURA: 6/10 - TORRE TRECENTISTA

Nesta perspetiva do desenho de Duarte Darmas é possível puxar por um detalhe, no torreão virado a noroeste. O autor viu ali uma peça invulgar, à qual deu destaque. Como fazer a sua datação?

1) O início das obras ("refazimento do alcácer") é decidido por volta de 1320;
2) Quando Duarte Darmas passa por Moura, em 1510, a torre está terminada.

Dois séculos é um lapso enorme, em arqueologia medieval. Pedi ajudas várias. Segundo um especialista (cf. infra), o brasão poderá ser um pouco posterior a meados do século XIV. Há ainda aspetos  de organização planimétrica que aproximam a torre de Moura da de Beja, de finais do mesmo século. 

Segundo o meu colega Miguel Metelo de Seixas:
"A pedra em questão é, de facto, interessante. A sua datação em meados do século XIV bate certo com o que se conhece de outras manifestações heráldicas coevas, quer em relação ao formato do escudo, quer à figuração das quinas e dos castelos. (...) O número e a disposição dos castelos são invulgares para exemplares líticos, porém comuns quando comparados com a numária, e talvez por aí se consiga aventar uma datação mais precisa, ainda que baseada apenas em termos estilísticos (o que é sempre limitativo). O enquadramento das armas naquela moldura rectangular também me parece típica do mesmo período."

Parece, portanto, plausível que as obras tenham sido iniciadas antes de meados do século XIV e se tenham prolongado por algumas décadas. Admitir uma cronologia fernandina para o seu término não me parece disparatado. Tal como também não se pode excluir a possibilidade de uma obra concretizada em várias fases. Mas sempre segundo um mesmo plano, conforme o prova a coerência de talhe dos silhares.