quinta-feira, 30 de junho de 2016

FÉLIX MULA

O moçambicano Félix Mula (n. 1979) ganhou o NOVO BANCO PHOTO deste ano. Tenho a certeza que muita gente se recorda o interesse do BES na fotografia. Mas isso agora interessa pouco.

Não conhecia o trabalho de Félix Mula. Mas gosto do ar de desolação dos sítios (alguns amigos meus insistem que tenho uma fixação pelo tema de decadência), das casas coloniais abandonadas, do seu adormecimento e, sobretudo, da mudança de uso a que a incompreensão dos espaços leva.

As imagens são fortes e a ida ao CCB é inevitável.

Casa Abandonada

Deixem a casa velha! Que os pedreiros
não lhe tirem as rugas nem as gelhas.
Que não limpem de urtigas os canteiros,
que lhe deixem ficar as velhas telhas.

Deixem a casa velha! Que a não sujem
com óleos e com tintas os pintores.
Que lhe deixem as nódoas de ferrugem,
os velhos musgos, as cansadas flores.


Que não fiquem debaixo do cimento
mais de cem anos de alegria e dor.
Não lhe pintem a chuva, o sol, o vento,
que a cor do tempo é assim: vaga e incolor.


Que tudo fique assim, parado e absorto,
no tempo sem limites, sempre igual.
Ah, não, por Deus! Como se faz a um morto,
não a sepultem sob terra e cal!


Não fechem as janelas mal fechadas,
ouçam da brisa o tímido lamento,
deixem que a vida e a morte, de mãos dadas,
vão com seu passo reflectido e lento.


Não endireitem as paredes tortas
nem desatem, da aranha, os finos laços.
Abram ao vento as desmanchadas portas,
ouçam do tempo os invisíveis passos.


Deixem que durma, quieta, ao sol do Outono,
velada pela flor, o vento, a asa.
Será talvez o derradeiro sono…
Que importa? Morra em paz a velha casa.


Fernanda de Castro (1900-1994), in «Asa no Espaço», 1955

quarta-feira, 29 de junho de 2016

A ARTE DE SER MOURENSE


NUM ANO DE TRANSIÇÃO, ENTRE A INCERTEZA E A CONFIANÇA

Cheguei a temer, em dado momento, que a Festa em honra de Nossa Senhora do Carmo de 2016 se ficasse pela expressão mínima. A anterior comissão terminara as suas funções e, legitimamente, considerava que cumprira a missão a que se propusera. O sucesso das festas tinha sido evidente, mas era necessário que outra equipa avançasse. Passaram semanas e meses e nada sucedia. A situação tornava-se preocupante e urgia atuar. Foi esse o campo de trabalho da Câmara Municipal: a procura de soluções, a promoção de sucessivas reuniões, a realização de inúmeros contactos.

No final do inverno, estava encontrada uma solução. Constituiu-se um grupo de antigos festeiros, que não foi formalmente designado de Comissão, o qual tomou a seu cargo a realização das Festas de 2016. E se à partida se decidiu que não iriam ter a dimensão da de outros anos, o espírito positivo e de desafio com que se avançou deixou-me emocionado e com certezas.

A primeira certeza é que o “espírito do lugar”, de que os romanos tanto falavam, é marcado nesta nossa terra por um inquebrantável orgulho, que se repete de geração e que se transmite sem cessar. É esse o nosso espírito.

A segunda certeza é a de que Moura fica em dívida para com este grupo de antigos festeiros que optou por se sacrificar em prol de todos. Se não lhes pagamos doutra forma que o façamos com gratidão.

A terceira certeza é que, a despeito de todas as dificuldades e de todas as limitações, as Festas de 2016 terão o brilho de sempre. Com a presença massiva da nossa gente, com o calor do nosso povo, com a capacidade de iniciativa que se reconhece aos mourenses.

A Câmara Municipal associa-se, como sempre, às nossas festas. Apoiando-as, de todas as formas que podemos. E, tal como em 2015, engalanando os Paços do Concelho para assistir à passagem da procissão.

Tenhamos confiança no futuro. Empenhada e convictamente, nesta região que nunca parece ter sido prioridade para ninguém. A não ser para nós. O difícil processo de construção da Festa de 2016 vem dar razão à esperança. A Comissão que irá garantir a Festa em 2017 se encarregará de dar continuidade a esta tradição de que tanto nos orgulhamos. São eles os guardiões da alma de todos nós. São eles quem ajudará a perpetuar o “espírito do lugar”.


Texto publicado no programa das festas. Fotografia de António Cunha.

terça-feira, 28 de junho de 2016

A PROPÓSITO DO FESTIVAL DA JUVENTUDE (AMARELEJA)

Para os devidos efeitos se esclarece que a Câmara Municipal não recebeu qualquer pedido de utilização do espaço da Torre do Relógio, em Amareleja, para a realização do Festival da Juventude.
A decisão de montar o evento noutro local é alheia à Câmara Municipal de Moura.


PAVÕES

O tema foi-me sugerido esta noite. Os pavões são também conhecidos como aves do paraíso. Da sugestão dos pavões aos mosaicos da Antiguidade foi um passinho. Daí à poesia de Yeats foi outro, ainda mais curto. Eis a prova de como a mais completa sandice comporta algo de poético e pode ser inspiradora e divertida. Foi o que aconteceu.


What's riches to him
That has made a great peacock
With the pride of his eye?
The wind-beaten, stone-grey,
And desolate Three Rock
Would nourish his whim.

Live he or die
Amid wet rocks and heather,
His ghost will be gay
Adding feather to feather
For the pride of his eye.

Poema de William Butler Yeats  (1865-1939). Mosaico romano de Colónia (Colonia Claudia Ara Agrippinensium).

segunda-feira, 27 de junho de 2016

TODO O SÃO JOÃO DESTA TERRA

Dias intensos e passados dentro dos limites do concelho. Breve revisão do diário de um autarca da província.


Dia 23
Noite de mastros: APPACDM (1), Quartéis e Casa do Benfica. Neste último, degustei uma inovação gastronómica, a inovadora sardinha sushi.

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Dia 24
O dia 24 começou cedo, com a distribuição de manjericos (2). O resto foi em ritmo demasiado stressante para um feriado: passeio pelas ruas das janelas floridas (3), almoço com eleitos autárquicos e com trabalhadores das autarquias (4), apresentação do livro do meu amigo José António Correia (5), inauguração da exposição de António Vasconcelos Lapa (6) e marchas populares na Praça de Touros (9). Ainda bem que nesta terra não acontece nada... Pelo meio, houve fotografias com Vasconcelos Lapa e a nossa equipa na Câmara (7) e um momento para ensaiar a pose Usain Bolt com o meu amigo Rodrigo (8).

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Dia 25
O sábado foi marcado pela corrida de touros. Atribuição do Prémio Melhor Pega pelo Município de Moura. O júri decidiu distinguir Fábio Madeira (5ª pega da noite), do Grupo de Forcados Amadores da Póvoa de S. Miguel (10 e 11). A noite prolongou-se numa animada ceia, para a qual tiveram a simpatia de me convidar.

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Dia 26
Último dia de comemorações. Night and day... Na Manhã dos Campeões distinguiram-se os praticantes de atividades desportivas que se destacaram na época 2016/2016 (12). A diversidade do nosso concelho bem patente num momento importante, e que decorreu sob o signo da descontração. Fim de festa no Campo das Cancelinhas (13). Segunda volta das marchas, desta vez em Amareleja.

O desassossego segue dentro de dias.

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domingo, 26 de junho de 2016

RICARDO QUARESMA

Não sou fã do jogador, nem aprecio particularmente o seu estilo de atuação. A irregularidade das atuações fizeram com que a sua carreira tenha estado sempre no "quase".

Foi Ricardo Quaresma quem marcou o golo da vitória frente à Croácia. Esse simples facto motivou todo o tipo de bojardas racistas a propósito das origens do futebolista. A ironia é estarmos sempre a falar na "tolerância" dos portugueses. Vê-se! E lê-se!

A LUZ QUE MORRE

A fotografia foi feita há dias, casualmente, com um telemóvel. O local é bem conhecido de muitos mourenses e não é difícil de identificar. Gosto de efeitos de luz e das sombras que se criam. Alguém me disse um dia "só fotografas sombras". Vemos nas coisas aquilo que queremos. Na verdade, procuro a luz. Essa mesma luz que tantas sombras lança. "Do not go gentle into that good night. / Rage, rage against the dying of the light".

Dylan Thomas (1914–1953) é, decerto, merecedor de melhor fotógrafo.



Do not go gentle into that good night,
Old age should burn and rave at close of day;
Rage, rage against the dying of the light.

Though wise men at their end know dark is right,
Because their words had forked no lightning they
Do not go gentle into that good night.

Good men, the last wave by, crying how bright
Their frail deeds might have danced in a green bay,
Rage, rage against the dying of the light.

Wild men who caught and sang the sun in flight,
And learn, too late, they grieved it on its way,
Do not go gentle into that good night.

Grave men, near death, who see with blinding sight
Blind eyes could blaze like meteors and be gay,
Rage, rage against the dying of the light.

And you, my father, there on that sad height,
Curse, bless, me now with your fierce tears, I pray.
Do not go gentle into that good night.
Rage, rage against the dying of the light.

sábado, 25 de junho de 2016

BREXIT

Sempre que o resultado de um referendo desagrada aos poderes instituídos, marca-se um segundo referendo. Até "dar". No caso do referendo britânico, já se fala numa segunda consulta. Será, certamente, ingenuidade minha, mas nunca me revi neste "modelo" de trabalho. Que, no essencial, descredibiliza a democracia representativa e mina a confiança que os eleitores têm (e cada vez têm menos) nas instituições que elegem.

O brexit cria problemas? Imensos. Mas, das duas uma: ou queremos sufrágios diretos ou não queremos. Prefiro-os, com todos os seus defeitos e limitações, a qualquer outra solução. Não vale a pena é tirar cartas da manga... A isso chama-se batota.


quinta-feira, 23 de junho de 2016

O PIREU, ESSE GRANDE PORTO DA TURQUIA

Hoje à tarde, um jornalista de uma estação de rádio anunciava que Marco Silva tinha rescindido com a equipa turca do Olympiakos.

Ioannis Kapodistrias deve ter dado algumas voltas na tumba.

E ao jornalista, ninguém lhe atirou o microfone para dentro de um lago?

MAIS INTERVENÇÃO SOCIAL - 5 A 8 DE JULHO

De 5 a 8 de julho vai haver mais uma Câmara Aberta. Título: Mais Intervenção Social. Habitação, lares, saúde, projetos, numa discussão ampla e de preparação do futuro. O programa sai dentro de dias. "Isto" é só um teaser...


POR UMA SARDINHA ÉPICA

Não sei se será o melhor mastro, mas o slogan é dos melhores que já li: "venha provar as sardinhas nunca antes grelhadas". Um toque épico, um laivo camoniano, Os Lusíadas satirizados, a certeza que isto é mesmo um sardónico país de poetas.

De 23 à noite até 26 à tarde vamos ter um prolongado solstício, aqui pela margem esquerda do Guadiana. No início da semana far-se-á um balanço fotográfico destas dias.

ié ié ié, o S. João em Moura é que é



As armas e os barões assinalados
Que da Ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca dantes navegados
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados
Mais do que prometia a força humana
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;

quarta-feira, 22 de junho de 2016

PORTUGAL E OS PORTUGUESES VISTOS POR DENTRO MAS DE FORA - II/X: NORMAN PARKINSON

Mais um pecadilho, mais um... OK, gosto de moda, de ver design de moda. E gosto muito desta fotografia de Norman Parkinson (1913-1990), feita em 1973 para a edição britânica da Vogue. É um Algarve pouco algarvio e pouco típico, com aquela mulher misteriosa em primeiro plano. Vestida por Yves Saint-Laurent.

Está tudo certo, irritantemente certo, no enquadramento. O que se vê ao fundo é o campanário da igreja de S. Clemente, em Loulé.

terça-feira, 21 de junho de 2016

CEDÊNCIA DE TERRENO / ATRIBUIÇÃO DE SUBSÍDIO / CONCLUSÃO DE PROJETO

Oxalá fosse um "três-em-um", mas não é. São realidades diferentes. Todas elas gratificantes. Em três localidades do concelho, e com objetivos muito distantes uns dos outros. Como traço comum, a preocupação com a vida em comunidade.

1. Cedência de terreno, para ampliação de instalações, à APPACDM, em Moura.

2. Acordo para financiamento de obras de reabilitação da cobertura da igreja de Santo Amador.
3. Apresentação do projeto do picadeiro para a Póvoa de S. Miguel, a que se seguiu a assinatura de acordo protocolar.

Continuaremos. Apesar dos obstáculos. Ou, até, por causa deles.





NOTA DO GABINETE DE COMUNICAÇÃO E RELAÇÕES PÚBLICAS
DA CÂMARA MUNICIPAL DE MOURA

A Câmara Municipal de Moura prossegue a sua política de apoio às instituições sociais do concelho e ao movimento associativo popular, apesar da redução de verbas que o Poder Local sofreu nos últimos anos e de outros constrangimentos impostos às autarquias.
Nas últimas duas semanas, o município mourense estabeleceu acordos com mais três entidades concelhias.
No dia 9, foi celebrado um acordo para a constituição do direito de superfície com a Associação Portuguesa de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental – Moura (APPACDM). O acordo inclui a cedência de um terreno, o Lote 47, na Quinta de Santa Justa, com cerca de quatro mil metros quadrados, para ampliação das instalações da associação.
No mesmo dia foi assinado um protocolo com a Comissão Fabriqueira de Santo Amador, referente à reabilitação da igreja paroquial. A Câmara Municipal de Moura vai apoiar obras de reabilitação no valor aproximado de 25 mil euros.
Por outro lado, a 13, foi assinado um protocolo com a Associação Equestre da Póvoa de S. Miguel referente à construção de um novo picadeiro. O projeto foi elaborado pela Câmara Municipal de Moura. A obra tem um valor aproximado de 375 mil euros e será candidatada a fundos comunitários.

MAE WEST NA MOAGEM

Não será bem Mae West numa moagem antiga de Moura, mas aquele quadro elétrico há muito desativado sugere bem uma antropomorfização (bolas, que custa a dizer...).  A visita, ontem de manhã, a um local que, há muitos anos, me foi familiar fez-me retornar ao passado. Ouvi, juro!, as máquinas a funcionar como em tempos que já lá vão.

A sugestão é, também, esta:

Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno! 
Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria! 
Em fúria fora e dentro de mim, 
Por todos os meus nervos dissecados fora, 
Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto! 
Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos, 
De vos ouvir demasiadamente de perto, 
E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso 
De expressão de todas as minhas sensações, 
Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas! 

In Ode Triunfal (Álvaro de Campos)

O original de Salvador Dalí pertence ao Art Institut of Chicago.