domingo, 31 de julho de 2016

É SEMPRE NATAL NO PARAÍSO...

RECECIONISTA: Happy Christmas!
DEBBIE: Oh, is it Christmas today?
RECECIONISTA: Of course, madam. It's Christmas every day in Heaven.

É assim que começa a última cena do filme "O sentido da vida", dos Monty Python. Graham Chapman aparece disfarçado à Freddy Breck, à Tony Bennett ou à Engelbert Humperdinck, algo assim. Cito o diálogo amiúde, referindo a um velho amigo que há pessoas que estão sempre nesta onda, para elas "é sempre natal no paraíso". Gostava de ter essa nonchalance, mas aos 53 anos já lá não vou. Aproveito assim os momentos livres fotografando (menos do que gostaria), lendo (menos do que deveria), estudando (muito menos do que seria obrigatório), blogando etc.

Aqui fica o filme da semana, dedicado a todos aqueles para quem é sempre natal no paraíso.


sábado, 30 de julho de 2016

VALSANDO AO SOM DA ÁGUA

É hoje, ao fim da tarde. A Câmara Municipal de Moura edita um CD com uma valsa composta por Alfredo Keil. A peça deverá ter sido composta por volta de 1905. A "Valsa da Água Castello" foi interpretada pelo Prof. Mauro Dilema. A capa do CD, na mais pura Arte Nova reproduz, com fidelidade, a partitura original.

Recuperar músicas esquecidas, ainda que de um romantismo um tanto fora de moda, faz parte daquilo que é a missão de uma autarquia.

Marquemos encontro às 19 horas, nas instalações de Moura do Conservatório Regional do Baixo Alentejo (antigo Café Cantinho). A peça será interpretada ao vivo pelo Prof. José de Souza.

A Água Castello estará presente.


sexta-feira, 29 de julho de 2016

UMA PROCISSÃO FÚNEBRE EM MOURA, NO DIA 29 DE JULHO DE 1816

Relato de uma procissão fúnebre, em julho de 1816, faz hoje exatamente 200 anos.

No livro de atas da vereação de 1816 da Câmara de Moura encontra-se esta descrição (fols. 61-61v.):

“No dia 29 de julho de presente anno de 1816 se ajuntarão nas casas da Camara desta villa todos os officiaes de justiças, misteres, e todos os pautados em procuradores da Camara, e em veriadores, que para esse fim tinhão sido avisados no dia antecedente. Sahio das ditas casas a porcição funebre, formada em duas allas, puchadas pelo cavalheiro José Mathias de São Paio Lobo, que levava o estandarte real de lutto, hindo adiante delle huma escolta de cavalaria do regimento numero 5, que emtão se achava de quartel nesta mesma villa. Atras do estandarte seguião-se todos os officiaes de justiça, depois destes os misteres, logo os pautados em procuradores da camara, depois deles os pautados em veriadores, e procurador da camara autual, e na sua retaguarda a companhia de milicianos, que há nesta villa, comandada pelo tenente della Bentto Maria Segurado. Caminhou a porcição pela Praça em direitura à Rua do Morgadinho, dahi à Rua de Serpa, aonde quebrou o primeiro escudo o veriador mais velho o capittão mor desta villa Francisco de Paula Limpo Quaresma. Seguio a porcição athe a Rua de Santo Agostinho, e fazendo volta o Rocio da Gloria, ahi quebrou o segundo o veriador segundo Marianno Bestel Vinha. Continuou a porcição pela Rua de Gonçalgaracia [sic], e emcaminhado-se a Rua da Assaboeira de frente do passo della quebrou outro escudo o terceiro veriador Sebastião Casqueiro Viera [sic] Gago. Daqui seguiu a porcição pela Rua Longa em direitura a Igreja Matriz de São João Baptista, e fora do adro della se repetio huma piquena oração.”

O falecimento da rainha, D. Maria I, ocorrera quatro meses antes, no Rio de Janeiro, mas só em finais de julho as forças vivas da vila de Moura organizavam o cortejo fúnebre. Os aspetos organizativos são curiosos, com a presença de uma tradição antiga, a da quebra dos escudos representativos da rainha falecida. Mas os aspetos mais interessantes reportam-se ao percurso da procissão, que é o mesmo da que ainda hoje se cumpre na Festa de Nossa Senhora do Carmo. Mudaram os nomes de todas as ruas, mas os locais de passagem do cortejo não sofreram alterações: da praça passa-se à Rua do Morgadinho (Miguel Bombarda), depois à Rua de Serpa (Serpa Pinto), em direção à Rua de Santo Agostinho (9 de abril). A partir desse ponto inicia(va)-se o regresso. Primeiro pelo Rocio da Glória (Largo Gago Coutinho), depois pela Rua de Gonçalo Garcia (5 de outubro), infletindo para a Rua da Assaboeira (Dr. Garcia Peres), antes de chegar à Praça pela Rua Longa (Santana e Costa). Como alterações dignas de registo refira-se o facto de hoje a grande procissão de julho alternar entre as ruas de Santana e Costa e de Arouche. E de não terminar, como é evidente, em S. João mas sim no Carmo.

Memórias da Moura oitocentista. Uma prova de que os gestos do quotidiano são também, uma construção no tempo. Uma evidência de que tudo aquilo que fazemos, nas nossas terras, não é fruto do acaso.


CORES DE VERÃO: CASAS

Última cor desta parte do verão.

As casas, em sítios assim (Capri), viram as costas ao mar, por causa do vento. Talvez seja isso, não sei porque nunca fui a Capri. Podia ser uma imagem do Algarve ou do Magrebe. Ao fim e ao cabo, é um pouco de tudo isso. O génio de Henrique Pousão durou pouco, levado pela tuberculose (1859-1884). Esta tela data de 1882. Ruy Belo (1933-1978) foi outra pessoa que nos deixou antes do tempo.  E este é um dos poemas dele de que mais gosto. O mar está em fundo...

O lugar onde o coração se esconde
é onde o vento norte corta luas brancas no azul do mar
e o poeta solitário escolhe igreja pra casar
O lugar onde o coração se esconde
é em dezembro o sol cortado pelo frio
e à noite as luzes a alinhar o rio
O lugar onde o coração se esconde
é onde contra a casa soa o sino
e dia a dia o homem soma o seu destino
O lugar onde o coração se esconde
é sobretudo agosto vento música raparigas em cabelo
feira das sextas-feiras gado pó e povo
é onde se consente que nasça de novo
àquele que foi jovem e foi belo
mas o tempo a pouco e pouco arrefeceu
O lugar onde o coração se esconde
é o novo passado a ida pra o liceu
Mas onde fica e como é que se chama
a terra do crepúsculo de algodão em rama
das muitas procissões dos contra-luz no bar
da surpresa violenta desse sempre renovado mar?
O lugar onde o coração se esconde
e a mulher eterna tem a luz na fronte
fica no norte e é vila do conde

quinta-feira, 28 de julho de 2016

CORES DE VERÃO: BARCOS

O vendedor de frutas está dentro de um barco. O cenário é tropical e quase idílico. Foi assim que Tarsila do Amaral (1886-1973) imaginou esta cena, em 1925. Na Praia da Rocha não há vendedores de frutas - a ASAE não deve deixar, imagino eu - , mas sobram os de bolas de berlim. Na Praia da Rocha também não há os barcos de outrora, mas sobram as propostas de passeios típicos. Mergulhemos, pois, na leitura, em Tarsila do Amaral  e num poema de Fernando Pessoa, que passou pelo blogue em 17.11.2010 (nessa altura com uma fotografia de Werner Bischof).


A minha vida é um barco abandonado
Infiel, no ermo porto, ao seu destino.
Por que não ergue ferro e segue o atino
De navegar, casado com o seu fado?

Ah! falta quem o lance ao mar, e alado
Torne seu vulto em velas; peregrino
Frescor de afastamento, no divino
Amplexo da manhã, puro e salgado.

Morto corpo da ação sem vontade
Que o viva, vulto estéril de viver,
Boiando à tona inútil da saudade.

Os limos esverdeiam tua quilha,
O vento embala-te sem te mover,
E é para além do mar a ansiada Ilha.

Fernando Pessoa - "Cancioneiro"

quarta-feira, 27 de julho de 2016

CORES DE VERÃO: SEREIAS

Estas sereias, de Di Cavalcanti (1897-1976), sambam em terra firme. A tela data de 1925. Onde há mar e praia há sereias - já lá dizia Dick Farney "sempre sorrindo, sempre sorrindo" - e essa é uma caraterística de todos os mares e de todas as praias. A ironia fica por conta de William Butler Yeats (1865–1939).

Os dias seguem, coloridos e pouco tranquilos para aquilo que, por norma, se designa como "férias".


A drunken man's praise of sobriety


Come swish around, my pretty punk,
And keep me dancing still
That I may stay a sober man
Although I drink my fill.

Sobriety is a jewel
That I do much adore;
And therefore keep me dancing
Though drunkards lie and snore.

O mind your feet, O mind your feet,
Keep dancing like a wave,
And under every dancer
A dead man in his grave.

No ups and downs, my pretty,
A mermaid, not a punk;
A drunkard is a dead man,
And all dead men are drunk.

terça-feira, 26 de julho de 2016

CORES DE VERÃO: ROCHAS

Quarto dia.

Foi já na fase final da sua vida que John Graz (1891-1980) pintou esta vista do Atlântico com rochas. E não foi no seu Brasil de adoção, mas sim em Rhode Island, bem mais a norte. Dominam o azul do céu e o azul do mar sobre as rochas cinzentas.  As rochas algarvias são mais douradas que cinzentas, é verdade, mas o naturalismo português não parece ter dado muita atenção a este território.

A Luz que Vem das Pedras

A luz que vem das pedras, do íntimo da pedra, 
tu a colhes, mulher, a distribuis 
tão generosa e à janela do mundo. 
O sal do mar percorre a tua língua; 
não são de mais em ti as coisas mais. 
Melhor que tudo, o voo dos insectos, 
o ritmo nocturno do girar dos bichos, 
a chave do momento em que começa o canto 
da ave ou da cigarra 
— a mão que tal comanda no mesmo gesto fere 
a corda do que em ti faz acordar 
os olhos densos de cada dia um só. 
Quem está salvando nesta respiração 
boca a boca real com o universo? 

Pedro Tamen - "Agora, Estar" 


segunda-feira, 25 de julho de 2016

CORES DE VERÃO: MAR

Anita Malfatti (1889-1964), pintora brasileira, deixou-nos este farol, datado de 1915  Não há faróis sem mar. Por isso escolhi esta imagem, com nítidas evocações expressionistas. Na Praia da Rocha não há nenhum farol. Restam-me aqueles de que fala Álvaro de Campos. 


Faróis

Faróis distantes, 
De luz subitamente tão acesa, 
De noite e ausência tão rapidamente volvida, 
Na noite, no convés, que conseqüências aflitas! 
Mágoa última dos despedidos, 
Ficção de pensar... 

Faróis distantes... 
Incerteza da vida... 
Voltou crescendo a luz acesa avançadamente, 
No acaso do olhar perdido... 

Faróis distantes... 
A vida de nada serve... 
Pensar na vida de nada serve... 
Pensar de pensar na vida de nada serve... 

Vamos para longe e a luz que vem grande vem menos grande. 
Faróis distantes ... 

Álvaro de Campos - "Poemas" 


domingo, 24 de julho de 2016

CORES DE VERÃO: AREIA

Voo em pouso é o título desta tela do modernista brasileiro José Pancetti (1902-1958). A areia é o segundo tópico destas dias. Sal e areia e areia e sal. As praias são uma maçada, por causa disso. Mas, ao que parece, não há alternativa. O sal de Robert Graves (1895-1985) não é bem este, mas isso não é relevante. Até porque o poeta tem lugar cativo aqui no blogue e, isso sim me importa.



A pinch of salt

When a dream is born in you
With a sudden clamorous pain,
When you know the dream is true
And lovely, with no flaw nor stain,
O then, be careful, or with sudden clutch
You'll hurt the delicate thing you prize so much.

Dreams are like a bird that mocks,
Flirting the feathers of his tail.
When you seize at the salt-box,
Over the hedge you'll see him sail.
Old birds are neither caught with salt nor chaff:
They watch you from the apple bough and laugh.

Poet, never chase the dream.
Laugh yourself, and turn away.
Mask your hunger; let it seem
Small matter if he come or stay;
But when he nestles in your hand at last,
Close up your fingers tight and hold him fast.

sábado, 23 de julho de 2016

CORES DE VERÃO: SAL

Começam os dias de pausa, que o ano já passou do meio para a frente. O blogue não tem direito a férias, mas vai cingir-se a um binómio pintura-poesia. Assim será até ao próximo sábado. Entre o naturalismo e o modernismo andaremos, pelo menos no que às imagens diz respeito.

Escuta, escuta: tenho ainda
uma coisa a dizer.
Não é importante, eu sei, não vai
salvar o mundo, não mudará
a vida de ninguém - mas quem
é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido
da vida de alguém?
Escuta-me, não te demoro.
É coisa pouca, como a chuvinha
que vem vindo devagar.
São três, quatro palavras, pouco
mais. Palavras que te quero confiar,
para que não se extinga o seu lume,
o seu lume breve.
Palavras que muito amei,
que talvez ame ainda.
Elas são a casa, o sal da língua.

Poema de Eugénio de Andrade (1923-2005)

Salinas, obra de 1946, de Cândido Teles (1921-1999), pintor de Ílhavo

sexta-feira, 22 de julho de 2016

O RIO DE ANDREAS GURSKY

Diverti-me, há uns anos (final de 2009), a fazer uma listagem das dez fotografias mais caras de sempre. Num mundo volátil, estas coisas mudam rapidamente. Dei-me conta, há dias, que um certo gosto "historicista" entrou em declínio e que há novos valores, ligados ao mercado da Arte, às galerias e aos leilões que tomou o lugar de imagens antigas.

Se recorrermos à wikipedia (mea culpa, mea maxima culpa...) constatamos que no top 25 há oito de Andreas Gursky (n. 1955) e sete de Cindy Sherman (n. 1954). Há fatores de promoção que se sobrepõem a todos os outros.

Qual a fotografia que lidera? Rhein II, feita em 1999 e vendida em 2011 pela bonita soma de 4.300.000 dólares. Ao contrário do outrora, a manipulação não só é feita como explicada. Andreas Gursky eliminou pessoas que passeavam cães e uma fábrica, que perturbava o enquadramento. A fotografia não é só registo, é composição e correção da composição. Adeus Cartier-Bresson...

E Andreas Gursky gostará de Mark Rothko?


quinta-feira, 21 de julho de 2016

O MAR - LEITÃO DE BARROS TOUCH

Ainda me arrisco a ser defenestrado, mas Leitão de Barros (1896-1967) é um cineasta maior do século XX. Ala-Arriba é uma obra com importantes referências visuais estéticas. Esqueçamos, por favor, o texto subjacente (tenho um amigo que fazia questão em se sentar de costas sempre que a televisão passava obras de Leitão de Barros). Subtileza e sensualidade no tratamento das figuras humanas (os homens em particular) e evocações de Eisenstein fazem deste autor um cineasta interessante. Com outro enquadramento e outros produtores poderia ter ido muito além do que logrou...

Leitão de Barros é a minha referência cinéfila destes dias.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

JOGGING COM ABS E DIREÇÃO ASSISTIDA

Cena verídica, ocorrida há poucos minutos.

Estou a jantar com uma amiga, bate à porta outra amiga, que diz à amiga com quem estou a jantar "bora fazer uma caminhada?". A resposta foi "vou já". Abalaram as duas num Volvo XC90. Aquele velho preconceito que tenho acerca da prática desportiva ser uma chatice sofreu um seríssimo abalo.

TRAGÉDIAS NAS REDES SOCIAIS: DOS VERBOS REFLEXOS A LESLIE JONES

Não são as confissões inconfessáveis, nem os sítios de férias exóticas, nem as declarações de amor aos filhos. Nada disso. Há tragédias no facebook e no twitter: os verbos reflexos e a conjugação do verbo haver. Muito pior: há um sórdido racismo, sempre cobarde e à distância.

Ler coisas como "ontem há noite fui..." ou "haverão" ou "esse é um modelo de carro que já não á" são confrangedoras. Tal como o são constar as confusões entre "lembraste" e "lembras-te", "chamas-te" e "chamaste" etc.

Muito pior é ter de aturar a toda a hora bojardas racistas. A última revoada teve por alvo a comediante americana Leslie Jones. O cerne da questão está no seu aspeto "pouco convencional" (tenho a certeza que no meio de uma comunidade esquimó sou pouco convencional...), que motivou os mais horríveis insultos e a comparação com animais do zoo. Surpreendido não fico. Há uns anos, ao mostrar uma fotografia feita por mim em Bissau a uma mulher muito bonita, tive como resposta do meu interlocutor alentejano uma gargalhada "bonito? issooo?". Remeti-me ao silêncio e arrependi-me de ter mostrado a fotografia à pessoa em questão. A mulher guineense era, realmente, de uma beleza sem par, tal como Leslie Jones é uma muito bela mulher. A começar pelo esfuziante sorriso. E a continuar no resto...


Tentando escrever, sem facebook nem iPad.

Site da artista: justleslie.com

É QUE SÃO SÓ OS RUSSOS, CLARO... MAININGUÉM!

O doping é um exclusivo da pátria de Putin. Só os russos se dopam. Alemães, americanos, ingleses, seguramente que não. É assim, não é?

terça-feira, 19 de julho de 2016

GUERRA CIVIL DE ESPANHA

Começou há 80 anos. Foi uma das tragédias maiores do século XX europeu. No final dos anos 60, na aldeia de Paymogo, eram ainda comentados por membros da família os horrores ocorridos trinta anos antes.

Muitas feridas permanecem em aberto. Muitas memórias nos assolam. Mesmo em Moura há histórias cruzadas dos prisioneiros, dos que por aqui passaram - conheci, há mais de 20 anos, um velho republicano que aqui esteve detido -, do infame tratamento dado em Moura a Miguel Hernández.


Recordemos essa guerra. E rendamos homenagem aos patriotas republicanos.



Guernica é, seguramente, a obra mais conhecida de Pablo Picasso. Foi dedicada à destruição da localidade basca com esse nome, ocorrida em 26 de abril de 1937.

ABRIL ABRIL

Democracia e pluralidade informativa. Disso nós precisamos num mundo subjugado à agenda das grandes corporações, num quadro do direito do mais forte à liberdade.

Abril Abril é um espaço necessário, uma outra forma de ler e de analisar os problemas. Num mundo formatado às quadraturas, aos eixos e a outras realidades do mesmo género, é bom que Abril nos chegue de novo.

http://www.abrilabril.pt

sábado, 16 de julho de 2016

CONCERTO

Um momento muito especial foi vivido esta tarde, na igreja de S. João Batista. O Grupo Coral e Etnográfico do Ateneu Mourense fez uma atuação em homenagem a Francisco António Félix Martins, um dos seus elementos, recentemente desaparecido. Foi interessante ver como em alguns dos principais momentos se deu destaque a elementos mais jovens. O futuro prepara-se assim, e agora que o Chico já cá não está, outros terão de o perpetuar, através do cante.

Uma emocionante tarde de Música.


HÁ ARTE NA FESTA

Há Arte na nossa Festa! Temos, em Moura, quatro exposições que podem ser vistas por quem nos visita: José Manuel Rodrigues (fotografia), Vasconcelos Lapa (cerâmica), António Galvão (pintura) e Alberto Pé-Curto e Alonso Fernandes (pintura). Esta última inaugurou ontem, no antigo Café Cantinho e foi o momento ideal, em plena Festa, para rever dois velhos amigos. Fui vizinho do Alonso - ele morava na Avenida da Salúquia, nº 36... - e o Alberto era aluno da Escola Industrial, o que quer dizer que, como tantos da sua geração, me conhece desde os dias em que a minha mãe ali trabalhava.

Cores fortes e uma pintura apaixonada. É esse o caminho. O Alberto usou uma fotografia de Zambrano Gomes como ponto de partida, o Alonso enveredou por caminhos que sugerem o expressionismo. Obrigado aos dois!





quinta-feira, 14 de julho de 2016

A FESTA

Começa hoje e vai até dia 19 de madrugada: 103 horas bem contadas.

Foi um caminho difícil o que a atual comissão teve de percorrer. Um caminho de grande mérito e de grande determinação. Esforço ao qual devemos estar reconhecidos.

Desde ontem que está designado um novo grupo. A Festa de 2017 já começa a ser preparada. Cá estarei/cá estaremos. Desde 1970, só "falhei" dois anos: 1993 e 1997. Só voltará a acontecer por motivos alheios à minha vontade.

Quim Barreiros fecha o programa. Ora aí está uma escolha à altura das nossa tradições.

Viva a Festa! Que é Nossa!

quarta-feira, 13 de julho de 2016

LIBERDADE


Deve existir nos homens um sentimento profundo que corresponde a essa palavra LIBERDADE, pois sobre ela se têm escrito poemas e hinos, a ela se têm levantado estátuas e monumentos, por ela se tem até morrido com alegria e felicidade.

Diz-se que o homem nasceu livre, que a liberdade de cada um acaba onde começa a liberdade de outrem; que onde não há liberdade não há pátria; que a morte é preferível à falta de liberdade; que renunciar à liberdade é renunciar à própria condição humana; que a liberdade é o maior bem do mundo; que a liberdade é o oposto à fatalidade e à escravidão; nossos bisavós gritavam "Liberdade, Igualdade e Fraternidade! "; nossos avós cantaram: "Ou ficar a Pátria livre/ ou morrer pelo Brasil!"; nossos pais pediam: "Liberdade! Liberdade!/ abre as asas sobre nós", e nós recordamos todos os dias que "o sol da liberdade em raios fúlgidos/ brilhou no céu da Pátria..." em certo instante.


Somos, pois, criaturas nutridas de liberdade há muito tempo, com disposições de cantá-la, amá-la, combater e certamente morrer por ela.
Ser livre como diria o famoso conselheiro... é não ser escravo; é agir segundo a nossa cabeça e o nosso coração, mesmo tendo de partir esse coração e essa cabeça para encontrar um caminho... Enfim, ser livre é ser responsável, é repudiar a condição de autômato e de teleguiado é proclamar o triunfo luminoso do espírito. (Suponho que seja isso.)
Ser livre é ir mais além: é buscar outro espaço, outras dimensões, é ampliar a órbita da vida. É não estar acorrentado. É não viver obrigatoriamente entre quatro paredes.


Por isso, os meninos atiram pedras e soltam papagaios. A pedra inocentemente vai até onde o sonho das crianças deseja ir (As vezes, é certo, quebra alguma coisa, no seu percurso...)
Os papagaios vão pelos ares até onde os meninos de outrora (muito de outrora!...) não acreditavam que se pudesse chegar tão simplesmente, com um fio de linha e um pouco de vento! ... 


Acontece, porém, que um menino, para empinar um papagaio, esqueceu-se da fatalidade dos fios elétricos e perdeu a vida.
E os loucos que sonharam sair de seus pavilhões, usando a fórmula do incêndio para chegarem à liberdade, morreram queimados, com o mapa da Liberdade nas mãos! ...


São essas coisas tristes que contornam sombriamente aquele sentimento luminoso da LIBERDADE. Para alcançá-la estamos todos os dias expostos à morte. E os tímidos preferem ficar onde estão, preferem mesmo prender melhor suas correntes e não pensar em assunto tão ingrato.


Mas os sonhadores vão para a frente, soltando seus papagaios, morrendo nos seus incêndios, como as crianças e os loucos. E cantando aqueles hinos, que falam de asas, de raios fúlgidos linguagem de seus antepassados, estranha linguagem humana, nestes andaimes dos construtores de Babel...


O texto é de Cecília Meireles. Muitas vezes tenho pensado nele, e na liberdade pessoal, e no sentido de independência que são necessários. São princípios de que nunca abdicarei. Por isso agradeço a Cecília Meireles que, muitos anos depois, me fez chegar este texto.


A fotografia foi feita à 1:00:14 de dia 12 de julho (as máquinas são tramadas...), em frente ao Palácio da Justiça, em Moura.

terça-feira, 12 de julho de 2016

HERÓIS

Um C-130 da Força Aérea Portuguesa teve um acidente na Base Aérea do Montijo.

Uma informação acerca de um facto que se passara circulava ontem, mas só ao fim do dia surgiu a confirmação plena: "(...) os dois oficiais que se salvaram antes da explosão a bordo decidiram voltar atrás para resgatar do avião o tenente-coronel que o pilotava e que tinha ficado preso no cinto de segurança, no cockpit. Acabaram por morrer os três", lê-se no site do Diário de Notícias.

No meio de tanto cachecol, de tanto patriotismo e de tanta treta (e claro que celebrei exuberantemente a vitória da seleção) sobrou pouco espaço para os grandes heróis do dia: o capitão André Saramago e o sargento-ajudante Amândio Novais, que vendo as dificuldades por que passava o tenente-coronel Fernando Castro, entraram de novo no avião para o tentar resgatar. Pereceram os três, no meio das chamas.

Tenho pensado uma vez e outra no que se passou. Pesar e mágoa são palavras que me ocorrem. A par de uma certa perplexidade para com os principais representantes da Nação, mais preocupados com um dia de folclore do que com as Forças Armadas. Admito, contudo, que a falha seja minha...

PORTUGAL E OS PORTUGUESES VISTOS POR DENTRO MAS DE FORA - III/X: CECIL BEATON

Um jovem Cecil Beaton (1904-1980) fotografou um igualmente jovem Marcello Caetano (1906-1980). A imagem data de 1942. Tendo em conta o formato, deve ter sido tomada com uma Rolleiflex, máquina que Beaton usava.

O cenário é teatral. Marcello Caetano era então comissário nacional da Mocidade Portuguesa, pelo que a estátua atrás dele pode muito bem pertencer a uma das muitas celebrações nacionalistas que então eram encenadas. Gosto do enquadramento, com o soldado a parecer um gigantesco guarda-costas, tal como gosto das tarjas de sombra. Há diagonais de sobra a dar dinâmica à imagem.

Naquele dia de sol, Marcello ainda estava em ascensão no regime. Depois de um ocaso (1958-1968), regressou à ribalta. Em 1942 esses dias ainda vinham longe.

segunda-feira, 11 de julho de 2016

VERÃO AZUL

O verão mourense segue, de vento em popa. Há ateliês até final de agosto, envolvendo centenas de crianças em todo o concelho. A biblioteca refresca-se e mergulha na piscina. A ludoteca e o museu e a arqueologia ganham, como todos os anos nesta altura, outra dimensão.

O verão é azul porque o céu é azul e porque era o título de uma série espanhola do início dos anos 80, muito popular entre os adolescentes, mas eu já tinha passado dessa idade. Só recordo a música do genérico, da autoria de Carmelo Alonso Bernaola (1929-2002), com aqueles assobios, a fazerem lembrar a Colonel Bogey March, em A ponte do rio Kwai.

Viva o Verão Azul dos ateliês e da piscina e de tudo isso!



LA GRANDEUR DE LA FRANCE

Tão grande, que muitas vezes é maior que ela própria é...

David contra Golias é uma imagem banal, mas adequada. A seleção em que não se acreditava (eu não acreditava) conseguiu o improvável. A vitória da seleção, sim, e dos nossos emigrantes em França (que não são só as concierges e os maçons tão troçados pela arrogância gaulesa), que são quem mais festeja hoje, tenho a certeza.


DOULEUR DE CORNE

Hoje não foi assim... Foi mesmo "dégueulasse" o que se passou.

O que estava de serviço ao interruptor deve ter metido folga. Se há coisa que me dá gozo é a falta de fair-play. Dá mesmo.

Emoção a sério senti quando pensei nos emigrantes. Não consigo pôr-me na pele deles, mas faço uma ideia, ainda que pequena, do que lhes vai na alma.

domingo, 10 de julho de 2016

ESCADAS

Fui hoje surpreendido, no facebook, com a fotografia de cima. Fê-la Artur Pastor nos anos 60, em Lisboa, numa estação do metropolitano. Não a conhecia, muito menos teria a possibilidade de a ter "citado", quando fiz a de baixo, em Palmyra (Síria), no outono de 2003.

Torna-se claro, nestes acasos, porque nos sentimos identificados com este ou aquele fotógrafo. Mesmo quando aquilo que fizeram é claramente superior ao que tentamos.

Torna-se também claro que o que encontramos é, muitas vezes, muito mais fruto do acaso do que do queremos ou imaginamos.


sábado, 9 de julho de 2016

MAIS INTERVENÇÃO SOCIAL - 995

Sexta Câmara Aberta, subordinada ao tema MAIS INTERVENÇÃO SOCIAL. Visitas a lares, a centros de apoio, à unidade de cuidados continuados, ao centro de saúde, à APPACDM, à Associação de Mulheres etc. Quatro dias com pouco tempo para respirar. Mais uma visita à obra do Pátio dos Rolins, que se aproxima do fim e que ganha agora um excelente aspeto.  O Contrato Local de Desenvolvimento Social em fase de arranque, a Carta Educativa a ser revista, reuniões do Conselho Local de Ação Social e do Conselho Municipal de Educação.

Estamos e estaremos presentes. Próxima intervenção de fundo? A reabilitação do Bairro do Carmo. Porque a intervenção social se faz com programas de estrutura.

O que significa o número "995"? São as pessoas que as instituições acima referidas tocam, entre utentes dos mais variados tipos aos que prestam colaboração nesta locais. Ou seja, 6,5% da população do concelho tem diretamente a ver com este tema. Um número sobre o qual deveremos refletir.

Apresentação do CLDS

Visita ao Lar de S. Francisco

Obras do Pátio dos Rolins

Ouvindo uma reclamação de uma munícipe

Visita à APPACDM

Revisão da Carta Educativa

sexta-feira, 8 de julho de 2016

TACHISTA

A expressão "tachista" era muito comum em Portugal, na época marcelista. Referia-se aos membros da oligarquia do regime, que acumulavam cargo sobre cargo. Havia nomes que surgiam sempre, quando se falava de tachistas. Recordo alguns, que não vale a pena reproduzir, por terem deixado este planeta há muito.

Hoje, surgiu a notícia do "next pan" de Durrão Barroso: presidente não-executivo da Goldman Sachs.

A falta de pudor tornou-se regra. Admirem-se depois com os discursos justicialistas e com as tentações extremistas de lei e de ordem.

Marine Le Pen esfrega as mãos de contente, um tal Norbert Hofer também...

Durão Barroso no tempo em que militava no MRPP e falava do ensino burguês e do proletariado e dos trabalhadores.

PAGOU, MAS NÃO DEVIA PAGAR

Desde quando é que um Presidente da República anda a reboque de pasquins ordinários (refiro-me ao "Correio da Manhã", embora o "Expresso" já tenha conhecido melhores dias...)? Desde quando é que um Presidente da República tem de justificar este tipo de deslocações, como se estivéssemos a falar de uma excursão a um bar de alterne?

O que Marcelo Rebelo de Sousa deveria ter feito era responder "fui, claro! e no domingo torno a ir".

Ao entrar neste jogo, o Presidente torna-se refém de jornalecos.


SOBRAL POP

Sobral da Adiça POP ART? Na Associação Sobralense de Apoio a Idosos há um quadro feito na APPACDM. Uma verdadeira obra de Arte. O fundo é cinza, na frente há um amarelo vivo a sugerir a arte psicadélica ao estilo dos anos 60 e o yellow submarine... Fiquei a admirar o quadro e pedi autorização para o fotografar. Vantagens adicionais da Câmara Aberta.

The Sun and Fog contested
The Government of Day —
The Sun took down his Yellow Whip
And drove the Fog away —

Emily Dickinson passou pela tarde do Sobral, justamente quando, ao contrário, o sol se foi e começou a chover.


quinta-feira, 7 de julho de 2016

LA FRANCE, BLEU FONCÉ

Patrick Evra, le sénégalais.
Dimitri Payet, le réunionnais.
Blaise Matuidi, l'angolais.
Paul Pogba, le guinéen.
Moussa Sissoko, le malien.
Bacary Sagna, le sénégalais.
Samuel Umtiti, le camerounais.
N'Golo Kanté, le malien.

Ah Marine, Marine... Ta France est devenue bleu foncé...

Et maintenant que vais-tu faire / De tout ce racisme que sera ta vie?

(A única coisa com graça é olharmos para o relvado e pensarmos que é uma seleção africana que está em campo. De algum modo, até é...)

FUTEPOEMA POR CRISTIANO DOS SANTOS AVEIRO


Que se foda!

Anda bater,
Anda bater,
Anda.
Tu bates bem.

Se perdermos que se foda.
Personalidade.
Vai.
Personalidade.
Tu bates bem.

Já tenho lido coisas piores no "Jornal de Letras".

MAGNIFICAT

O magnificat, de Álvaro de Campos, parece-me próximo desta peça de arquitetura, misteriosa e fechada, que temos em Moura. Silêncio e recolhimento, uma fachada teatral, um volume que parece lançado em consola mas não o é, ilusão sobre ilusão. É uma das melhores peças desenhadas na minha terra, mas parece-me que pouco se repara nela.

Projeto de Appleton & Domingos, arquitetos


Quando é que passará esta noite interna, o universo, 
E eu, a minha alma, terei o meu dia? 
Quando é que despertarei de estar acordado? 
Não sei. O sol brilha alto, 
Impossível de fitar. 
As estrelas pestanejam frio, 
Impossíveis de contar. 
O coração pulsa alheio, 
Impossível de escutar. 
Quando é que passará este drama sem teatro, 
Ou este teatro sem drama, 
E recolherei a casa? 
Onde? Como? Quando? 
Gato que me fitas com olhos de vida, que tens lá no fundo? 
É esse! É esse! 
Esse mandará como Josué parar o sol e eu acordarei; 
E então será dia. 
Sorri, dormindo, minha alma! 
Sorri, minha alma, será dia ! 

Álvaro de Campos, in "Poemas"