sábado, 25 de novembro de 2017

ÁGUA NOSSA

As páginas 2 a 4 do "Público" sobre as roturas e os consumos não cobrados nas redes municipais sublinharam algumas convicções que fui sedimentando ao longo dos últimos anos:

* Continuar a dizer-se que a recuperação das redes pode ser feita com o contributo das tarifas ou do seu aumento não faz sentido (ou, então, quem diz estas coisas vive num País que não é o nosso);

* A situação em muitas redes em baixa é má e vai piorar;

* Os Municípios não têm capacidade financeira para fazer face a problemas desta magnitude recorrendo apenas ao seu orçamento;

* A descapitalização, financeira e humana, a que o texto alude, vai aumentar.

Daqui por uns meses poderemos também confrontar as promessas que muitos fizeram ao longo de 2017 com a realidade das coisas. Em especial neste setor, onde se dizia que tudo era fácil...

Punch-line e cito do "Público" de ontem: nem é o número de pessoas a contratar que pode constituir um obstáculo, na sua opinião [Orlando Borges, presidente da ERSAR], dando exemplos como o da câmara que responde a essa necessidade "com apenas dois trabalhadores qualificados". Fico, sinceramente, com curiosidade em saber onde é esse milagre.

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

O PÁTIO DOS ROLINS NO RIJKSMUSEUM



Quem fazia mosaicos hidráulicos assim às cores era o sr. Reganha. Ia muitas vezes espreitar a fabriqueta dele. Gostava de ver os mosaico tomarem forma. Não terá sido tanto isso a despertar, muitos anos mais tarde, o meu interesse pelas pinturas de Vermeer. Mas alguma coisa deve ter ficado... Pelo menos, alguma curiosidade pela construção pictórica dos interiores.

Vermeer, tal como Pieter de Hooch (1629–1684), interessaram-se justamente pelos jogos de luz nos interiores. É deste último a Mulher com criança numa despensa, que terá sido pintado em 1658. Podia ser o Pátio dos Rolins a ter sido retratado e a estar hoje no Rijksmuseum, em Amesterdão.

O Rijksmuseum é uma excecional pinacoteca. Ver - https://www.rijksmuseum.nl/

TORRE DO RELÓGIO - O ARRANQUE

Arrancou a obra de reabilitação da Torre do Relógio, em Amareleja. É daquelas notícias que me deixa verdadeiramente feliz. Foi uma intervenção pela qual muito se batalhou. O projeto foi terminado, a obra tem um financiamento comunitário de 85% e o caminho é em frente.

Oxalá as coisas corram bem, em termos de execução. Muitas vezes, há coisas que escapam ao dono da obra. O Pavilhão das Cancelinhas correu bem. Fico a torcer que aqui aconteça o mesmo. Tenho pressa em ir à inauguração.

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

33

Quantos instrumentos legais são necessários para rever um plano de urbanização? Lancei a pergunta a uma amiga que, timidamente, arriscou "cinco?". Ri desalmadamente. São 33, incluindo um "projeto". Isso, 33 como na farinha.

A saber:
Carta de Zonas Inundáveis.
Plano Nacional de Política de Ordenamento do Território.
Plano Sectorial Rede Natura 2000.
Regime Jurídico da Reserva Agrícola Nacional.
Regime Jurídico da Reserva Ecológica Nacional.
Regime Florestal.
Regime Jurídico da Urbanização e Edificação.
Regime Jurídico de Empreendimentos de Turismo de Natureza.
Regime Jurídico de Parques e Depósitos de Sucata.
Regime Jurídico do Domínio Hídrico.
Regime Jurídico do Ordenamento do Território, Urbanismo e Instrumentos
de Gestão Territorial.

Regime Jurídico do Saneamento Básico.
Regime Jurídico dos Centros Radioelétricos .
Regime Jurídico dos Marcos Geodésicos.
Regime Jurídico dos Procedimentos de Avaliação de Impacto na
Segurança Rodoviária.
Regulamento de Licenças para Instalações Elétricas.
Reserva Florestal de Recreio.
Lei de Bases da Política Pública de Solos, de Ordenamento do Território
e de Urbanismo.
Regime Jurídico dos Instrumentos de Gestão Territorial (RJIGT).
Estatuto das Estradas da Rede Rodoviária Nacional (EERRN).
Regulamento Técnico de Segurança contra Incêndio em Edifícios
(SCIE).
Plano Municipal de Defesa da Floresta Contra Incêndios (PMDFCI).
Plano Regional de Ordenamento Florestal do Baixo Alentejo.
Plano Regional do Ordenamento do Território do Alentejo.
Regime Jurídico dos Planos de Ordenamento, Gestão e de Intervenção
de Âmbito Florestal.

Plano Regional de Ordenamento Florestal do
Baixo Alentejo (PROFBA).
Plano de Bacia Hidrográfica do Guadiana.
Plano de Ordenamento do Parque Natural do Vale do Guadiana.
Regime das Zonas de Proteção e Elaboração do Plano de Pormenor
de Salvaguarda do Património Imóvel.
Plano de Salvaguarda e Valorização do Centro Histórico.

Plano Diretor Municipal.
Projeto de Mobilidade Sustentável.

Plano de Gestão da Região Hidrográfica do Guadiana.


Não posso deixar de nutrir um certo carinho por coisas como o Regime Jurídico dos Marcos Geodésicos. Tal como olho com ternura o prazer onanista com que alguns técnicos apresentam esquemas e fluxogramas. Depois pouco ou nada se faz de objetivo, de concreto e de prático.

Isto passa-se no País da simplificação e do simplex, da desburocratização e do "não vale a pena complicar". Um tal de Sebastião José de Carvalho e Melo deve dar estar a rir-se, algures...

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

BALBÚRDIA NO OESTE - CENA FINAL

A cena estava a começar. Parecia tudo correr bem. A coreografia estava mais ou menos ensaiada. Nesse momento, entram os cóbóis. Instala-se a confusão. Adeus, musical. Adeus, coreografia. Adeus, organização.

É a cena final do genial "Balbúrdia no oeste", de Mel Brooks. Ao melhor estilo slapstick. Sem regras, nem rei nem roque. O único resultado garantido é a gargalhada. "Balbúrdia no oeste" é a escolha cinéfila da semana. 


AMIGO

No livro O cinema contemporâneo, decisivo nos meus tempos de juventude, Penelope Houston tem uma série de tiradas argutas e notáveis. Uma delas é sobre os filmes de François Truffaut. Diz algo como "Truffaut, tal como Renoir, seu reputado mestre, faz filmes sobre a amizade" (cito de memória). O livro é, salvo erro, de 1963. Renoir sempre me pareceu ser mais lírico que Truffaut. O qual, indiscutivelmente, fez filmes sobre a amizade e a proximidade entre as pessoas.

Nenhum outro sentimento me toca tanto como esse. O telefonema de há pouco, com um amigo de há 40 anos, confirmou-o. Há amizades provavelmente eternas. Outras são circunstanciais. 


Dois amigos na Mina de S. Domingos há quase 20 anos.
Ele trabalha na Câmara de Mértola. Ela também.

Amigo


Mal nos conhecemos
Inaugurámos a palavra «amigo».

«Amigo» é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo,
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece,
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!

«Amigo» (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
«Amigo» é o contrário de inimigo!

«Amigo» é o erro corrigido,
Não o erro perseguido, explorado,
É a verdade partilhada, praticada.

«Amigo» é a solidão derrotada!

«Amigo» é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
«Amigo» vai ser, é já uma grande festa!

Alexandre O'Neill

terça-feira, 21 de novembro de 2017

TORRE INVISÍVEL

A torre do rio, em Mértola, teve em tempos, um projeto de valorização, que passava pela instalação de pontos de luz que permitisse iluminar a toda estrutura. A torre do rio é uma construção do século V ou do século VI e que se destinava a controlar a entrada na vila.

Razões de ordem técnica acabaram por inviabilizar o projeto. Estive, contudo, presente, na noite em que fizeram os testes de luz. Acabei por fotografar este cenário operático em condições que não se voltaram a repetir. Esta torre tornou-se, por assim dizer, invisível.


HINO A APOLO



Deus do áureo arco, auriarqueiro,
Com áureos cachos e áurea lira,
Senhor das Musas no áureo outeiro,
Das áureas chamas na áurea pira,
Cavaleiro
Do ano inteiro,
Onde dormia a tua ira
Quando tolo abusei da minha sorte
Vestindo-me na glória
Da láurea de tua história
Ou mereci o descaso até da morte?
Ó Délfico Apolo!

Troava o troante, troava,
Fremia o troante, fremia,
O dorso da águia se encrespava,
Calado em fúria – e mal se via
O trovão
Vindo ao chão,
Retido pela melodia.
Por que poupaste semelhante verme,
Tocando um alaúde
Até a quietude?
Por que não me esmagaste, um reles germe?
Ó Délfico Apolo!

As plêiades, vígeis no polo,
Ouviam a muda monção.
Sementes, raízes no solo
Cresciam no ardor de verão.
O oceano em
Velho plano
Labutava quando quem não
Ousou cingir, herege, em torno à fronte
Teu louro, insanamente,
Achando-se imponente,
E agora vem curvar-se a ti defronte?
Ó Délfico Apolo!

John Keats (1795-1821)

Preferi usar esta tradução, de um professor de literatura (Leonardo Antuness), ao original, que não é de leitura fácil.  Traduttore, traditore? Talvez, mas esta solução pareceu-me preferível. O poema é muito melhor que a fotografia, em todo o caso. Fui recuperá-la em mais um CD esquecido... A arqueologia da vida recente prossegue.

Estátuas no Pergamonmuseum, em Berlim. A fotografia deve datar de 2004.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

2013/2016: DIMINUIÇÃO DO DESEMPREGO NO CONCELHO DE MOURA

Os dados são de um estudo do Observatório Nacional de Administração Pública do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas.

E que dizem?

Duas coisas importantes:

O concelho de Moura foi o 8º de todo o interior do País onde o desemprego mais diminuiu.

O concelho de Moura foi o 2º do Alentejo onde o desemprego mais diminuiu.

A que anos se reportam os dados? Aos de 2013/2016. Há uma responsabilidade direta da ação do Município na diminuição do desemprego? Direi que há responsabilidade do Município nessa matéria. Não há investimento com uma Câmara Municipal inimiga dos investidores. Esse foi um dos maiores embustes que se lançou para o ar em relação ao mandato autárquico pelo qual fui o principal responsável. E que, parcialmente pegou...

Não vou tecer considerandos sobre o mandato passado. Isso fica para daqui a uns tempos.

Deixo aqui o link para o estudo:

http://capp.iscsp.ulisboa.pt/images/stories/ONAP/ONAP_Relatorio_Emprego_2013-16-v2.pdf

QUANDO O ARDILA SECOU

Estas espantosas imagens datam de 9 de outubro de 2005. Havia eleições autárquicas nesse dia e eu tinha a firme a convicção que iriamos perder por causa da falta de água. O Ardila secara. Secara à maneira dos rios norte-africanos. Que, de algum modo, o Ardila também é. Secara mesmo, de todo. Nem uma gota de água no leito da ribeira. Que era o ponto de abastecimento para o consumo humano de cerca de 40% dos habitantes do concelho de Moura.  Boa parte da população continuava, a despeito de contínuos e angustiados apelos, a consumir alegremente, como se nada se passasse.

As crises são cíclicas. O nosso padrão de consumo é que se alterou radicalmente no decurso das últimas décadas. Felizmente, a nossa atenção aumentou. No início dos anos 80, no meio de uma seca preocupante, a imprensa estrangeira falava desse problema em Portugal. Dentro de portas, a Pátria divertia-se com um boato que corria sobre uma suposto ato sexual envolvendo um futebolista de origem guineense e uma cantora... Hoje, o tema não interessaria ninguém.

É dia 20 de novembro e continua sem chover.

Um Dia de Chuva

Um dia de chuva é tão belo como um dia de sol.
Ambos existem; cada um como é.

Alberto Caeiro - "Poemas Inconjuntos"

STARDUST MEMORIES Nº 16: 36 ANOS MAIS TARDE...

Um post em que retomo um poema e uma imagem que já por aqui passaram. Só porque sim.

Recordação do Alto da Ajuda, em 1981. Um grupo mourense: José Francisco Moita, Tarugo (de óculos à Elton John), o autor de blogue (disfarçado de Tutankhamon), José Ramos (de boné amarelo), Francisco Emiliano, Maria da Luz Baleizão, Rui Bebiano, a nossa querida Antónia, uma prima do Fernando Pinto (é de Elvas e não me consigo recordar do nome da moça), o Rafael Rodrigues, o Fernando Pinto (na altura em que ia à Festa do Avante!) e a Isabel Baleizão.


se um dia a juventude voltasse 
na pele das serpentes atravessaria toda a memória 
com a língua em teus cabelos dormiria no sossego 
da noite transformada em pássaro de lume cortante 
como a navalha de vidro que nos sinaliza a vida 

sulcaria com as unhas o medo de te perder... eu 
veleiro sem madrugadas nem promessas nem riqueza 
apenas um vazio sem dimensão nas algibeiras 
porque só aquele que nada possui e tudo partilhou 
pode devassar a noite doutros corpos inocentes 
sem se ferir no esplendor breve do amor 

depois... mudaria de nome de casa de cidade de rio 
de noite visitaria amigos que pouco dormem e têm gatos 
mas aconteça o que tem de acontecer 
não estou triste não tenho projectos nem ambições 
guardo a fera que segrega a insónia e solta os ventos 
espalho a saliva das visões pela demorada noite 
onde deambula a melancolia lunar do corpo 

mas se a juventude viesse novamente do fundo de mim 
com suas raízes de escamas em forma de coração 
e me chegasse à boca a sombra do rosto esquecido 
pegaria sem hesitações no leme do frágil barco... eu 
humilde e cansado piloto 
que só de te sonhar me morro de aflição

Poema de Al Berto (1948-1997). 

domingo, 19 de novembro de 2017

TODO O OURO DA ADIÇA

Está em curso um projeto de exposição intitulado De Totalica à Adiça: 5000 anos de mineração. Deveria ter sido concluído no verão passado mas, sinceramente, não consegui. Encerrei o processo em início de outubro e entreguei-o, em meados do mesmo mês, à entidade competente. Aguardo agora resposta.

Que se pretende? Mostrar toda a riqueza mineira do concelho de Moura e cruzá-la com a produção artística (nas suas vertentes eruditas e populares, que se iluminam mutuamente e se complementam) e com a vida quotidiana. Importa trazer à luz do dia o tesouro do Álamo, mais o thymiaterion de Safara (que pode ser ou não de Safara, mas isso é o que menos importa). É crucial mostrar (pela primeira vez) as pouco conhecidas, e hoje desaparecidas, tábuas da Adiça, assim como é importante mostrar os obeloi do Castro da Azougada. Luz e sombra em volta dos metais. Enquadrem-se os metais no texto de Hesíodo (sécs. VIII-VII a.C.), na sua Teogonia, onde se fala nos Jardim das Hespérides (o sul da Península Ibérica, provavelmente) e das árvores de pomos de ouro. Alberto Gordillo e Francisco Hermenegildo darão cor e brilho à exposição. Espero poder contar com a luz das fotografias de Jorge Campaniço.

Outras imagens (as pinturas de Alexandre Charles Guillemot, François Boucher, Johann Georg Platzer, Anthony van Dick, as fotografias de Uwe Niggemeier) entrarão em diálogo com o ambiente de uma forja. Os brinquedos tradicionais farão outro apelo à memória de todos nós. O poder do deus Hefestos estará sempre presente.

O projeto encerra com a recriação do ambiente de uma mina. Voltamos ao início e ao Génesis: "e havia trevas sobre a face do abismo; e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas. / E Deus disse: Haja luz; e houve luz".

No final, sai-se para a luz.

Imagens poesia, luz e ambiente. Tradição e modernidade, passado, presente e futuro, eis a ideia central de De Totalica à Adiça: 5000 anos de mineração. Eis outra forma de afirmar o orgulho do/no nosso território. Com custos financeiros irrisórios.



Thymiaterion - usado em cerimónias rituais


Obeloi - espetos

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

IDA ÀS SORTES

Foi um dos grandes génios da comédia do século XX. O seu humor tem tem típica matriz cultural judaica, muitas vezes tida como "americana"... Por isso também nos identificamos tanto com ela. Jerry Lewis (1926–2017) tem aqui um dos seus muitos pontos altos da sua carreira. No filme Sailor beware, de 1952, há um exame médico. Em dado momento, é necessária uma amostra de sangue. A partir do minuto 3:20 o delírio é total. A comédia em antecipação dos próximos dias.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

MÉRTOLA - FEIRA DO LIVRO

Post "publicitário". Para anunciar a Feira do Livro de Mértola e o respetivo programa. Sem espavento nem muito barulho, eis uma bela feira com uma interessantíssima programação. Aqui, na vila à beira do Guadiana, entre 19 e 25 de novembro.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

QUANDO O NOVO ALCAIDE TOMOU POSSE DO CASTELO

Luis D'Antas tomou posse do castelo de Noudar no dia 3 de junho (raio de coincidência...) de 1516. O cerimonial de entrega e o inventário que o novo alcaide fez são bem conhecidos dos historiadores e estão transcritos no texto "Auto d'uma posse do Castello de Noudar e inventário do que lá exisitia no século XVI", de Pedro de Azevedo. O texto foi publicado no vol. V de "O archeólogo portuguêz", de 1900.

Que relata Luís D'Antas?

Que "a casa que está em cima da dita torre [de menagem] está derribada e no chão, e toda a água que nela cai cala a torre e vai abaixo".
Que há um portado "com duas portas com duas armelas e sem ferrolho nem fechadura e uma delas tem a couceira quebrada".
Que há "sete armaduras de cabeças muuito antigas e quebradas".
Que há "uma faldra e gossete de malha grossa muito ferrugenta e quase podre"
Que há "seis bocetes da mesma sorte e ferrugentos".
Que há "uma alpartaz (?) de malha muito ferrugenta e podre".
Que "na primeira casa que serve da câmara [há] duas janelas com suas portas sem aldrabas (...) e esta casa [está] mal reparada do telhado". E "na dita casa [há] uma tripeça de pau da Guiné quebrada de um cabo e dois bancos velhos e um taipal velho".

E mais:
"todas as outras casas do dito castelo todas derrubadas e sem telhados" [com exceção de uma, que servia de estrebaria...].
"em todas as portas da vila não há nenhumas portas, senão uma só quebrada, que jaz no chão".

etc. etc.

Ou seja, o novo alcaide fazia um relato catastrófico do que o antecessor lhe legara. Ou seja, o novo alcaide acautelava a vidinha.

Quaisquer paralelos com a realidade atual não são coincidência. É um clássico da política do truquezito. Primeiro, fazem-se promessas irrealistas. Depois, já no Poder, age-se à Luís D'Antas: afinal não pode ser, porque isto estava tudo espatifado. E precisamos de auditorias, porque é preciso sabermos tudo... E embrulha-se tudo na suspeita, que é sempre a melhor solução quando não se tem solução concreta para os problemas.

Portanto, e no que a Moura diz respeito:

1) Que a auditoria comece o mais depressa possível;
2) A Câmara de Moura teve recentemente uma longa e aprofundada inspeção feita pela Inspeção-Geral de Finanças, prática habitual em todas as autarquias;
3) Os discursos da suspeição não lançam apenas dúvidas sobre o anterior presidente da Câmara de Moura, mas também sobre toda a gente que intervem neste domínio (técnicos da autarquia, consultor financeiro, chefe de divisão, revisor oficial de contas etc...). É uma atitude que registo e que merecerá a minha atenção futura.
 

terça-feira, 14 de novembro de 2017

A SALA DO TRONO

Ontem à noite, não sei bem porquê, lembrei-me desta passagem do relato de Liuteprando de Cremona, quando foi recebido pelo imperador bizantino Constantino Porfirogeneta, o qual se sentava num espetacular trono:

À frente do trono do imperador estava uma árvore em ferro dourado, em cujos ramos estavam pássaros de vários tipos, também feitos em ferro dourado, que cantavam de diferentes maneiras. O trono em si era tão habilmente construído que ora parecia baixo ora se elevava a grande altura. Era guardado dos dois lados por enormes leões de ferro ou madeira dourada que batiam com as caudas no chão e rugiam alto, com as bocas abertas e as línguas que se moviam.

Nesta sala, seguido por dois eunucos, fui levado à presença do imperador. À minha entrada, os leões rugiram e os pássaros cantaram, mas isso não me encheu de terror nem de admiração, porque já tinha sido avisado por outras pessoas que já tinham passado por essa experiência. Mas, depois, de me ter prostrado pela terceira vez, quando levantei a cabeça, vi o imperador, que antes estava sentado um pouco acima de mim, quase junto ao tecto da sala, vestido com outras roupas. Não sei como isto era feito.

É uma das minhas passagens preferidas sobre a corte bizantina, a par com alguns textos de Procópio de Cesareia (séc. VI). Os sofisticados mecanismos que Liuteprando relata perderam-se com o tempo, mas é interessante, em especial, a menção ao trono que se eleva aos céus. Este endeusamento do poder está bem presente até os nossos dias, com particular expressão nas áreas geográficas tocadas pelo império bizantino.
.
O ritual de prostração a que o embaixador foi obrigado chama-se proskynesis. Mergulha as suas raízes no mundo persa e chegou, também ele, até aos nossos dias, sendo hoje usado na ordenação de sacerdotes.


A sala do trono em Bizâncio é uma obra do orientalista francês Jean-Joseph Benjamin-Constant (1845–1902).

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

TERCEIRO FILME: O ELO PERDIDO

No meio de infindáveis arrumações, o passado salta a cada momento. Retoma-se um estudo antigo (105 páginas para um primeiro rascunho, tenho de tentar ser mais contido...) e prepara-se um projeto de investigação sobre o urbanismo tardo-medieval da região alentejana). Coisas que as prioridades autárquicas tinham deixado para trás.

Às tantas, e no meio de dossiês antiquíssimos, dou com duas pranchas, que serviram de base ao genérico de uma curta-metragem. Uma obra-prima do design gráfico... Já quase tinha esquecido o assunto.

Frequentei, em 1980, um curso de cinema ministrado num clube que existia na Av. Columbano Bordalo Pinheiro: o Clube Micro-Cine. Era um grupo de entusiastas, que usava películas em super-8 (um formato hoje do domínio pré-histórico). Havia ali gente talentosa. Um dos melhores cineastas era um jovem médico, Nuno Monteiro Pereira, hoje um nome de referência na área da urologia.

Éramos convidados a desenvolver um projeto. Sem máquina, "colei-me" a um senhor que morava em Queluz. O senhor Sérgio Soares que, salvo erro, era bancário e teve a paciência e a simpatia de deixar que um puto de 17 anos lhe sugerisse um argumento. Era algo bastante pueril sobre o avanço da cidade sobre a Natureza.

O final incluía o filho do sr. Sérgio, numa tirada bastante demagógica e primária sobre o futuro. Foi o mehor que consegui e eu não sou propriamente o Orson Welles... Anos mais tarde, fiquei bastante aliviado ao ver que Grigori Alexandrov fez uma patacoada do género na remontagem do "Que viva México!". Dei um par de gargalhadas numa sessão da Cinemateca e as pessoas que estavam perto ficaram a olhar para mim naquela do "este gajo deve ser anormal".

Com a máquina do tempo ontem a funcionar consegui lembrar-me que a banda sonora de "Quadros de uma cidade" incluía Carlos Paredes e Mike Olfield (sugestões de Paulo Amorim, consultor da película)... Os filmes erma gravados sem som, depois era colocada uma banda, onde se fazia depois uma pós-sonorização. Isto foi há 37 anos. Do filme, visionado uma vez não voltei a ter notícias. O sr. Sérgio Soares deverá andar pelos 70 ou um pouco mais. É pouco provável que ele saiba deste blogue ou se lembre de mim. Daqui lhe deixo um abraço de agradecimento, pela solidariedade e bonomia que teve para com um rapazola atrevido e assertivo.