quarta-feira, 23 de agosto de 2017

AS HORAS PELA ALAMEDA

As horas pela alameda

As horas pela alameda
Arrastam vestes de seda,

Vestes de seda sonhada
Pela alameda alongada

Sob o azular do luar...
E ouve-se no ar a expirar —


A expirar mas nunca expira —
Uma flauta que delira,

Que é mais a idéia de ouvi-la
Que ouvi-la quase tranqüila

Pelo ar a ondear e a ir... 
Silêncio a tremeluzir...


Dias de pausa incomum aqui no blogue. Talvez este universo particular retome o seu ritmo, num dos próximos dias... Agora, entre festas religiosas e campanha eleitoral, é Fernando Pessoa que me dá a mão, que "as horas pela alameda / arrastam vestes de seda"...

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

CAMPO PEQUENO - 125 ANOS


O edifício é deslumbrante, na sua traça revivalista neo-árabe. Projeto de José Dias da Silva foi, em tempos recentes, objeto de uma feliz modernização. Que, sem arrebiques nem vaidades, veio dar nova vida ao Campo Pequeno. Hoje comemoram-se os 125 anos do Campo Pequeno. Uma cartel à altura das tradições. Longa vida ao Campo Pequeno e à tradição tauromáquica.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

PONTE DO CORONHEIRO? LISTEN VERY CAREFULLY, I SHALL SAY ZIZ ONLY ONCE!

A obra da ponte tem dado origem a um nutrido conjunto de desinformações. Não perco, por norma, tempo em disputas nas redes sociais. Em relação a esta obra importa clarificar o seguinte ou como diria a imortal Michelle Dubois listen very carefully, I shall say ziz only once:

1. A obra é realizada pela Câmara Municipal e conta com financiamento comunitário;
2. Faz parte de um conjunto de intervenções que, em boa hora, preparámos e lançámos;
3. A responsabilidade da intervenção é camarária porque a ponte está dentro do perímetro urbano;
4. A "desclassificação" de troços de estradas nacionais no interior do perímetro urbano de Moura teve lugar em 1994.

Tenho lido, aqui e além, informações, desconexas ou fruto da mais descabelada ignorância. A liberdade de expressão tem estas vantagens. O que se escreve qualifica os autores...

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

BOLETIM MUNICIPAL: MANDATO AUTÁRQUICO EM BALANÇO

A meio do mandato fez-se um balanço preliminar, surge agora outro. São 64 páginas onde se dá conta do que foram estes anos, da continuidade que houve e do trabalho que se projeta para o futuro. Muitas coisas tiveram de ficar de fora. Em todo o caso, este número especial do Boletim Municipal espelha bem quatro anos intensos. No final do próximo ano editarei outro balanço, esse estritamente pessoal.

Agosto de 2017

Aqui fica o editorial que tive o prazer de redigir:

Construímos o futuro

O tempo passa depressa e o mandato autárquico está quase cumprido. Foram anos intensos e marcados, como sempre acontece na vida, por dificuldades. Foram também tempos de muita atividade e de resultados de que nos podemos orgulhar.
Importa tanto recordar o tempo que passou, como lançar pontes para o futuro. Os dias que virão alicerçam-se nos que já passaram.
Houve muitas obras? Houve e não é possível, porque o espaço nos falta, enumerá-las neste editorial. Consideramos que a criação, renovação e manutenção de infraestruturas é um dos tópicos essenciais para a manutenção das nossas terras. Daí que tenhamos investido em obras nas escolas, na criação de parques urbanos, na reabilitação de espaços desportivos, em obras de saneamento, no reequipamento do parque de máquinas municipal, na aposta continuada na recuperação e uso do nosso património. Os programas de apoio à habitação contribuíram, de forma discreta, para a melhoria da qualidade de vida de pessoas sem recursos. Não há ação social sem esse domínio básico estar resolvido. É um apoio, que soma, entre obras concretizadas e lançadas, cerca de 800.000 euros.
Prémios nacionais – do Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana e da Associação Portuguesa de Museologia – e regionais – da Entidade Regional de Turismo e da revista “Mais Alentejo” – vieram dar visibilidade ao nosso concelho. A esse reconhecimento externo correspondeu outro, a nível interno? Acreditamos sinceramente que sim.
As iniciativas políticas que se desenvolveram, em torno da Saúde, da Agricultura, do Emprego, da Educação, reforçaram a nossa identidade e aumentaram a nossa capacidade de intervenção. O concelho captou investimentos e foi o terceiro que, a nível nacional, mais aumentou as exportações. Pusemos em marcha o Centro de Acolhimento a Microempresas de Moura, permitindo a instalação de empresas no local. Ao mesmo tempo, mantivemos uma rigorosa defesa dos nossos princípios. Cabe aí destaque para o acompanhamento e apoio à luta dos rendeiros dos Machados. Bem como para a posição crítica que sempre tivemos quanto às limitações ao desenvolvimento na agricultura do concelho, bem expressas na Rede Natura 2000.
Houve um trabalho de reforço da proximidade aos cidadãos. A valorização do nosso potencial (através do Mouralumni), a participação dos jovens na atividade política (com o programa “Um dia na presidência”), a organização de uma dezena de “Câmaras Abertas”, a realização de reuniões da câmara municipal fora de portas tornou a ação política mais presente no quotidiano do concelho.
As bolsas de estudo, o apoio à Educação, a aposta na nossa realidade cultural (bem traduzida nas feiras, no Festival do Peixe do Rio e do Pão, no apoio às realizações culturais que têm lugar em todo o concelho) foram e serão imagens de marca da nossa forma de atuar. Ludoteca, Museu e Biblioteca foram pilares decisivos nessa atuação.
O orgulho naquilo que somos afirmou-se de várias formas, com energia e com entusiasmo, no apoio fundamental ao movimento associativo e na presença junto dos naturais do concelho que estão longe (as deslocações à Suíça e a Lisboa foram momentos fortes neste mandato). As festividades pagãs e religiosas que são marca decisiva da nossa identidade tiveram a presença e o apoio constantes da Câmara Municipal.
Não estamos sós? Decerto que não. Incrementámos laços de amizade e de cooperação com outras câmaras, convidando autarcas do distrito a visitarem-nos. Estendemos esses laços para lá das fronteiras, mantendo relacionamento de proximidade com colegas de Espanha, da Guiné-Bissau, de Cabo Verde e de S. Tomé e Príncipe.
Que fazer e como perspetivar o futuro? A Câmara Municipal de Moura continua a ter projetos em carteira e a avançar. Com todas as dificuldades e com todas as limitações, prepara-se o lançamento de intervenções que totalizam mais de 6.000.000 €. Não se trata de intenções, ideias ou simples projetos, mas de obras que irão avançar. Onde e como? Na recuperação do Bairro do Carmo (500.000€) na construção da 1.ª fase do Cemitério Municipal (1.500.000€), na reabilitação do antigo grémio da lavoura para Centro Documental da Oliveira (2.770.000€), na recuperação das muralhas modernas (380.000€), na construção do terminal rodoviário (500.000€), na recuperação e adaptação da Torre do Relógio, em Amareleja (500.000€).
A aposta na concretização de projetos e na sua preparação deu frutos. Estamos, e queremos continuar a estar, na linha da frente. Há mais projetos? Há, muitos mais. Assim os financiamentos comunitários e o cumprimento da Lei das Finanças Locais permitam a sua concretização. O nosso concelho merece isso. Nós tivemos e teremos essa capacidade. As necessidades e as exigências são constantes e o desafio permanente é a sua superação. Para isso contámos, e contaremos, com os nossos munícipes. E, numa primeiríssima linha, com os trabalhadores da Câmara Municipal de Moura.
Estamos, e estaremos sempre, a construir o futuro.

CASA BRANCA (mesmo branca), por BEN JENNINGS

No Guardian.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

AMARELEJA, ÚLTIMO DIA DA FESTA

AMARELEJA, ENTRE O CÉU E A TERRA

A terra é quente, as pedras escaldam. O calor molda o espírito e ajuda a afeiçoar o vinho. É assim o verão na Amareleja. Quando chegar o outono, o calor será um pouco menos. Haverá vindimas e depois virá o frio e depois haverá vinho novo. Por agora, o céu é quase sempre azul. Entre o céu e a terra se fez a Amareleja. A aldeia é terra de sentimentos fortes. É a paixão dos fortes feita rua e gente. Dos árabes ficou a al-kunya. A alcunha. E um certo sentido tribal.
O céu é imenso e dele cai, a pique, o sol. O solo é duro e cizento, duro e ingrato. Os dias de festa são, ao contrário, coloridos e cheios de som. Mas a terra continuará quente, as pedras escaldarão e o azul do céu não se apagará. A festa é feita de luz e de sombra, da noite e do dia, do som e do silêncio.
Os dias da festa são demasiado rápidos e neles se consome um ano de esforço de todos. A começar pela inesgotável energia e pelo entusiasmo da Comissão de Festas. Por vezes, como neste ano, há regressos. Voltam antigos, ainda que muito jovens, festeiros. Uma generosidade a dobrar, num momento em que outros estão ausentes. A solidariedade de uma aldeia está também mais viva neste momentos.
Associo-me, como Presidente da Câmara, a esta festa e a estes dias que vão correr. Com mais prazer ainda este ano, por se encerrar um ciclo pessoal e porque no próximo ano já não escreverei no programa das festas. Com mais prazer ainda por poder evocar a memória dos meus antepassados da aldeia, nascidos e criados no Alto de Bombel. A imagem mítica da Amareleja, tantas vezes evocada por meus avós, tornou-se real e forte nos últimos anos. Foi um privilégio raro, que não poderei esquecer.
Entre o céu e a terra se fez a Amareleja. São agora os dias da festa. Tiremos partido da festa. Partamos com o sol em direção a um céu feérico. Não esqueçamos nunca o poder mágico da terra e do céu feérico sobre nós.

Amareleja, 4 de julho de 2017
Santiago Augusto Ferreira Macias

Presidente da Câmara


Texto escrito para o livro da festa. Uso excertos do que escrevi para o álbum fotográfico que sairá dentro de um mês. Um jovem amigo amarelejense mandou mensagem, onde dizia "Gostei... foi sentido!". Foi, de facto, um texto muito sentido. Esse sentimento colocado no livro da festa é o mesmo que todos nós colocámos nas palavras que acompanham o trabalho de José Manuel Rodrigues. O comentário é um bom prenúncio.

LA STRADA

Regresso do cinema ao blogue. Motivado por uma conversa com a minha irmã Júlia, que me relatou um filme, garantindo ser "La strada". Não é, constatei há pouco. Em todo o caso, foi pretexto para rever esta história forte. Recordo de o ter visto, pela primeira vez, há pouco menos de 40 anos. E do filme me ter deixado imensamente angustiado. A ponto de dele não ter gostado... A opinião mudou, mas "La strada" deixa-me sempre uma angústia difícil de explicar.

Filme maior de Federico Fellini, datado de 1954.

domingo, 13 de agosto de 2017

MUITO MELHOR QUE A LIGA NOS...

... e com muito menos espaço nas tv's.

Inês Henriques

Nelson Évora

sábado, 12 de agosto de 2017

A PÓVOA EM LISBOA

Referência rápida, neste sábado de sol e de luz, à deslocação ao Campo Pequeno para presenciar a atuação do Grupo de Forcados Amadores da Póvoa de S. Miguel. Tal como repetidamente tenho dito, onde o concelho estiver também estarei.

Na quinta-feira passada pude/pudémos constatar o elevado nível do grupo. Com o Fábio Madeira a mostrar como se "manda". Uma noite agradável, com dois dos novilheiros a deixarem boas indicações para o futuro. A jovem amiga que me acompanhou só arriscou um pergunta "o que é uma verónica?". Seguiu o resto com interesse. Temos aficionada.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

MOURA - ANTES E DEPOIS

E, como se diz aqui na terra, isto é só o "pano da amostra".

E é com evidente prazer que vemos coisas destas. Por serem fruto de trabalho afincado. Revejo 12 anos da minha vida em muitas destas intervenções. Foi tempo bem empregue e que se traduziu em dezenas de projetos concretizados. Moura, antes e depois...


quarta-feira, 9 de agosto de 2017

UMA CAIXA POUCO QUADRADA

O autocarro ia à minha frente, na manhã de sábado. Eu a caminho do Alvito, o autocarro não. Um veículo já idoso, decorado em estilo fricópanque. Pelo menos isso me pareceu, do alto do meu preconceito da meia-idade. Aproximei-me o suficiente para ler qualquer coisa como la boîte carrée. Um projeto de cinema ao ar livre. "Olha que engraçado", pensou o homem de meia-idade. Tomei nota e segui. Vi depois que é um projeto alternativo de difusão do cinema. Numa visão universal. Filmes sem texto, em que a imagem é que conta.

Andam pelo sul de Portugal nesta altura. Quadrado é que o projeto não é...


Site:
https://www.laboitecarree.org

ELEMENTOS - ÁGUA 1

Nova série no blogue sobre os quatro elementos nas artes. A água e a escultura.  Começo pela quarta arte. Não é que esta Charybdis, de William Pye (n. 1938), seja verdadeiramente excecional, mas tem graça, enquanto artifício.


No site do escultor - http://www.williampye.com:
In Charybdis at Seaham Hall Hotel in Sunderland the circular movement of water inside a transparent acrylic cylinder forms an air-core vortex in the centre. Steps wrap around the cylinder and allow spectators to view the vortex from above.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

STARDUST MEMORIES Nº 10: MOURA NA ÉPOCA ROMANA

Em época de balanço, de "revisão da matéria dada" e de preparação de um site pessoal e profissional (misto de currículo, portfolio e de publicações para download), fui encontrar esta fotografia, feita na primavera de 1988. Foi a primeira exposição de que fui responsável. Moura na época romana contou com a generosidade de um grupo de amigos. Recordo a amizade de Jorge Alarcão, de Maria da Conceição Lopes, de Teresa Gamito, de José d'Encarnação, de António Cunha, de Cláudio Torres, de Teresa Ribeiro, de João Camacho, de Isabel Martins, de Manuel Bravo, de Susana Correia, de Luís Raposo, de António Galvão, de António Lamas de Oliveira, de João da Mouca e da equipa de trabalhadores da carpintaria e da serralharia da Câmara de Moura desses dias já distantes... Alguns já não estão entre nós, e aqui ficam o meu reconhecimento e a minha gratidão.

Sem a competência e amizade de Rogério Ribeiro nada teria sido possível. À distância de tantos anos, quase me surpreende que um designer "sénior" se dispusesse com tanto entusiasmo a trabalhar com um rapazola acabado de sair da faculdade.

A exposição (e catálogo, publicado em 1990) foram uma boa rampa de lançamento. Recordo com alguma nostalgia esses dias de arranque.


AMARELEJA, por José Manuel Rodrigues

Dentro de poucas semanas terá lugar a apresentação do livro AMARELEJA. Foi um trabalho que fizémos questão de levar a cabo. Depois de uma crónica da festa de Moura, editada em 2001, depois de um álbum fotográfico sobre Santo Aleixo, dado à estampa em 2010, achámos que era a vez da Amareleja. Cada livro tem um espírito proprio e uma vida própria. “Amareleja” não é uma monografía ou uma crónica. Não é um ensaio. São mais de 100 fotografias que dão conta de parte da vida de uma aldeia (adotou-se essa designação, por respeito ao espírito ancestral do sitio). Vão a par cinco textos (Jorge Calado, Jorge Gaspar, Norberto Franco, Francisco Ramos e o autor destas linhas). Um crítico de fotografía, um geógrafo, um jurista, um académico (autor de um notável trabalho sobre as alcunhas) e um historiador. O mais interessante foi constatar a diversidade de imagens que cada um de nós criou. Mais próximas sem dúvida as de quem ali viveu ou vive (Norberto Franco e Francisco Ramos). Mais distantes as de nós outros. Espantosamente, parece que José Manuel Rodrigues ali passou longos anos. Os espaços públicos e a intimidade dos sítios foram captados com proximidade e com ternura. Por razões que não vêm ao caso, o arranque do projeto foi quase penoso… O José não teve o trabalho facilitado. Preferiu ficar só e afirmou-se, contando apenas com dois ou três apoios locais.
O livro deveria ser sobre o vinho. Mas a aldeia é muito mais que isso. E, assim, os temas se alargaram e o livro cresceu. E melhorou, no que às imagens diz respeito. Segui a lógica das imagens e o espírito do lugar. O “genius loci” dos nossos antepassados romanos. Usei temas fortes, do modo que quis. O calor, o vinho, as tabernas, as mulheres, as casas, a paisagem da aldeia. A paixão dos fortes feita sítio. O texto que escrevi começa assim:
“A terra é quente, as pedras escaldam. O calor molda o espírito e ajuda
a afeiçoar o vinho. É assim o verão na Amareleja. Quando chegar o outono, o
calor será um pouco menos. Haverá vindimas e depois virá o frio e depois
haverá vinho novo. Por agora, o céu é quase sempre azul. Entre o céu e a
terra se fez a Amareleja. Entre o céu e a terra se faz o vinho da Amareleja.”
No final, fica um pouco a angústia “as pessoas irão gostar?”. Que as fotografias são um testemunho extraordinário, não tenho duvidas… Talvez não seja boa ideia antecipar o que vai acontecer. Tenho quase sempre esse hábito. Por impaciência ou por qualquer razão difícil de definir. O melhor é mesmo aguardar. E confiar.


Crónica publicada hoje, em "A Planície"