terça-feira, 31 de outubro de 2017

FIGURANTE

Há uma coisa que NUNCA, mas NUNCA mesmo, se deve fazer na vida política. É fazer de figurante da agenda de outros. NUNCA, em caso algum...

QUANTO CUSTOU O PROJETO DO BAIRRO DO CARMO?

A pergunta foi-me feita, anonimamente, há dias: quanto custou o projeto de recuperação do bairro?

Eis a resposta: 12.054 €.

BALANÇO DO MANDATO 2013/2017 - ENTREVISTA EM "A PLANÍCIE"

Assumindo, com orgulho, o trabalho de quatro anos.



Qual o balanço que faz dos anos como autarca e dos últimos quatro à frente da Câmara de Moura?

Auto-avaliação arrisca-se sempre a ser auto-elogio... Que quer que lhe diga? Naturalmente que faço uma avaliação positiva do trabalho da equipa. Num momento de grande dificuldade, sem grandes financiamentos externos (recorde-se que o mandato se passa “entre” dois quadros comunitários (o 2007/2013 que fechava, o de 2014/2020 que só agora dá sinais de vida), com uma Assembleia Municipal que hostilizou o trabalho da Câmara (chumbo de orçamentos, chumbo de empréstimos, chumbos na área do pessoal), com a necessidade de dar mais disciplina à política financeira da Câmara, isto foi tudo menos fácil. Foi ainda assim um mandato de algumas grandes realizações (obras como as dos Quartéis, do Matadouro, do Pavilhão das Cancelinhas, da Ribeira da Perna Seca, do Parque de Leilão de Gado, nas quais me envolvera intensamente como vereador, foram terminadas entre 2014 e 2017), entre as quais inclui a renovação do Campo Maria Vitória e a instalação de uma grande superfície comercial. E que preparou o caminho do futuro. Diminuimos os pagamentos em atraso (de 967.000 para menos de 90.000 euros), aumentámos o investimento no parque de viaturas do município (de 79.000 para mais de 800.000 euros), baixámos a dívida de curto prazo (é neste momento de 1.450.000 euros), lançámos projetos para o novo quadro comunitário e tenho a certeza de termos prestigiado o Município. Os vários prémios nacionais que recebemos são disso testemunho.



Nos anos de presidência, na Câmara de Municipal de Moura, qual foi o momento que o mais marcou?

O da conclusão das obras da Ribeira da Perna Seca, no dia 18 de dezembro de 2016. Tinha sido um projeto em que me envolvera a fundo desde 2005. A obra tinha um caráter simbólico evidente (os deputados do PS na Assembleia da República tiveram uma deplorável atitude. Votaram a favor e contra o financiamento desta obra pelo Poder Central, consoante o PS estava na oposição ou no poder... gente assim toma estas decisões sobre as nossas vidas e não tem vergonha)­. Por outro lado, a intervenção era absolutamente indispensável. A população da aldeia não podia continuar a ser fustigada por cheias que tantos prejuízos causaram. Foi obra do Município e isso registo com prazer.

O dia da inauguração foi um momento complicado. Mal tinha começado a ler o discurso que preparara, começa-me a falhar a voz. Emocionei-me muito mais do que esperava. Um amigo sobralense que assistiu à cerimónia disse-me “você estava mesmo aflito, nunca o tinha visto assim!”. De voz embargada e sem ser capaz de resistir à alegria do momento, acabei o discurso com dificuldade.

Não sei se sabe, mas há sempre quem (em todos os quadrantes políticos) insista em fazer uma divisão grandes obras / pequenas obras e que dizem (ouço muitas vezes este disparate) “a Câmara fez grandes obras e devia ter feito pequenas obras, que são aquelas que as pessoas precisam”. As obras não são grandes ou pequenas, são necessárias ou o não são... Continuo a pensar que a regeneração urbana é um tópico essencial na vida de um concelho como o nosso. Mas isso será matéria para outro debate no futuro.

Marcaram-me também as relações fortes que estabeleci por todo o concelho (em especial nas aldeias), tal como não esqueço o momento fortíssimo que foi a ida à Suiça e a receção quente que tivémos. Nada na face da Terra paga coisas assim.



Conseguiu como presidente do município levar a cabo todos os objectivos que tinha planeado para os quatro anos?

Qual quê! Nunca se consegue. Até porque, com uma realidade dinâmica, novos desafios, novas ideias e novos problemas surgem a cada momento. O que posso dizer é que lutei em cada momento para alcançar objetivos.

Fizémos questão de obter financiamentos, de deixar projetos terminados e financiados. E obras já em curso. Não venha agora o novo executivo com o argumento “isto está mau e isto está muito pior do que se imaginava” porque não é verdade...

 A saúde financeira do Município não é brilhante? Não é. Mas o futuro não está comprometido. Isto para voltar atrás e para dizer que para além dos projetos com financiamento garantido, há muitos outros já terminados que podem arrancar. Assim haja dinheiro para estes outros. E há um objetivo que só tomou forma no último ano: o do aproveitamento do Convento do Carmo. Esse é daqueles que não pode falhar. Fomos o primeiro Município a integrar o programa. Qualquer falhanço não terá perdão.

Objetivos a concretizar e para os quais não tivemos dinheiro? A Zona Industrial da Amareleja (1ª fase: 500.000 euros), a renovação da rede de águas de Amareleja (4 milhões de euros), a conclusão da renovação da rede de águas de Moura (2,7 milhões de euros). E tantos outros.



Fale-nos um pouco de como vê o futuro do concelho de Moura?

Com preocupação e com ceticismo. Muitas vezes tenho dito que o nosso grande problema é demográfico. Ou seja, perdemos população e a que temos envelhece a olhos vistos. Pensar que atraímos população diminuindo a taxa variável do IRS e devolvendo umas dezenas ou centenas de euros a alguns habitantes (foi uma descoberta da maioria PS no último mandato da Assembleia Municipal) daria vontade de rir se não fosse trágico. Continuar a ignorar, como tem sido feito pelos sucessivos governos, que o problema é estrutural e não de conjuntura, não nos trará soluções...

Não é com a política da caridadezinha (kits bebé e 500 euros em produtos para os recém-nsacidos), e com uma área social marcada pelo assistencialismo (pagamento de consultas, pagamento de medicamentos) que criaremos soluções. Até porque há áreas que são da responabilidade do Estado e é um erro as autarquias assumirem essas responsabilidades.



Como viu a derrota da CDU para o PS, nestas autárquicas, no concelho de Moura?

Com preocupação, pelo que acima disse. Foram feitas inúmeras promessas, muitas das quais vão ser levadas pelo vento. O PS embarcou no populismo – diz-se às pessoas o que elas querem ouvir -, sem se avaliar o que estava a prometer. Prometer o Paraíso qualquer um pode, chegar lá é mais dificilzinho...

O PS capitalizou alguma vontade de mudança, que teve no regresso do meu camarada José Maria Pós-de-Mina um ponto fulcral. A candidatura do José Maria foi vista, injustamente e erradamente, como um regresso ao passado. E isso foi decisivo.

Como várias vezes, tenho dito tenho grandes reservas quanto ao tipo de política que se pretende pôr em prática neste mandato. Oxalá me engane, porque os anos que se avizinham serão marcados por desafios de grande complexidade.

Há financiamentos grantidos e obras em condições de arrancar que não podem parar. Seria criminoso abdicar de intervenções como a do Bairro do Carmo, a da recuperação do antigo grémio, a obra do novo cemitério. Espero que não se cometa esse erro…



Qual foi o motivo que o levou a não se recandidatar à presidência da Câmara de Municipal de Moura?

Houve vários motivos, não apenas um. Não foi o cansaço, apesar do cargo ser desgastante. Cansaço devem ter os reformados que recebem pensões de 270 euros e gastam o dinheiro em medicamentos...

Enviei uma carta ao meu partido onde expliquei todas essas razões. Entendo não dever divulgar o conteúdo dessa carta. Depois disso, surgiram vários boatos, todos eles sem pés nem cabeça: para uns eu teria sido afastado, para outros teria tentado impôr condições nas listas, para outros ainda quis um nº 2 rejeitado pelo partido. O que vale é que dizer disparates não paga imposto…

É um facto que o meu estilo de liderança nem sempre gerou consenso, e falo mesmo a nível interno. Havia medidas drásticas a tomar e foram tomadas. Tenho um estilo e uma forma de trabalhar diretos e frontais. Isso nem sempre é muito apreciado. Admito que possa não ter razão na forma de atuar, mas as metas do mandato e o modo de as atingir foram apontadas logo no início. E, na verdade, o mandato deu resultados palpáveis. Houve muitas obras e muita presença junto dos munícipes. E uma boa recuperação financeira.

Por outro lado, gosto imenso do meu trabalho e da minha área profissional. Quero regressar ao meu outro mundo, o das exposições, da produção cultural, da investigação… Gosto de fotografar e de escrever. Vou retomar isso.

Foi tudo junto, portanto.



Pensa continuar no activo na política ou vai-se dedicar a outros projetos?

Na política estarei sempre, enquanto cidadão. Manterei a minha intervenção e tomarei posições sempre que entender. Se me pergunta se penso manter atividade partidária, direi que muito pouco. Se a questão se reporta a futuras candidaturas em eleições, a resposta é, claramente, NÃO. Muito menos numa altura em que a legislação tende a tornar os autarcas algo parecido a delegados locais do Poder central.

Outros projetos, de cariz científico, na área da investigação, no domínio da Cultura, sempre tive, mesmo enquanto autarca. Vou continuar o meu trabalho. Na área da arqueologia talvez um pouco menos que no passado... Na área dos museus e da conceção de conteúdos para exposições seguramente. Na escrita, de certeza.



Como líder da autarquia nos últimos quatro anos, qual a mensagem que gostava de deixar, principalmente aos munícipes de Moura?

A de que é imprescindível continuarmos a lutar pelo nosso futuro. A de que é necessário termos confiança no futuro. A de que o nosso concelho não está nem estará atrás de outros. A de não podemos nem devemos esperar benesses do Poder Central. Que não podemos fazer vénias aos supostamente poderosos.

Do ponto de vista pessoal, cá estarei. Esta é a minha terra e este é o povo a que pertenço.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

(QUASE) TODA UMA VIDA

In http://anabelamotaribeiro.pt:

Cláudio Torres, o arqueólogo de Mértola: a associação tem tanta força que a descrição da tarefa e do lugar parecem um cognome ou qualquer coisa que poderia ser ligada com hífen.

Instalou-se na antiga cidade portuária em 1985, deu-nos, não só, uma nova visão do sul de Portugal, mas também da nossa relação com o Mediterrâneo. Deu e dá, porque o trabalho de escavar é um trabalho sem fundo, que traz algumas respostas e levanta muitas novas questões. É também um trabalho que faz do tempo uma massa elástica: onde estamos exactamente quando encontramos um artefacto com séculos de existência?

E como é que isso nos ensina a estar preparados para o futuro? Ler os signos, a matéria, as ruínas, o que não se vê e existe, é aquilo a que tem dedicado boa parte da sua vida.

Mas há um antes de Mértola. Nasceu em Tondela, esteve exilado, foi professor universitário. E há um país que se desenha na história de vida deste arqueólogo, nascido em 1939.


Na impossibilidade (minha) de estar no CCB no próximo sábado, dia 4, às 17 horas, aqui fica a publicidade. A sala deve ser pequena...

domingo, 29 de outubro de 2017

PADRINHOS DE LEITURA

A fotografia retrata o momento em que José António Oliveira, responsável pela Biblioteca Municipal de Moura, recebe a menção honrosa no Prémio Boas Práticas em Bibliotecas Públicas Municipais 2016. Houve apenas três bibliotecas distinguidas a nível nacional: Ílhavo, Sever do Vouga e Moura.

O que se distinguiu, no caso de Moura? O projeto PADRINHOS DE LEITURA. Um programa de promoção da leitura que envolve entidades públicas e privadas e as escolas do primeiro ciclo. O projeto (lançado por Zélia Parreira e continuado por José António Oliveira) tem sido um estrondoso sucesso de envolvimento das mais variadas entidades com a Biblioteca Municipal.

Cultura é coisa chata? Não me parece...

A parte triste neste prémio: o projeto PADRINHOS DE LEITURA não foi apoiado em 2016 e em 2017 pelo presidente da União de Freguesias de Moura e Santo Amador, Álvaro Azedo. Ou seja, o atual presidente da Câmara não pode, por razões financeiras (estamos a falar de 100 euros), apoiar um projeto de promoção da leitura. Ou seja, portas abertas, mas não para os livros...

Ver - http://dglab.gov.pt/premio-boas-praticas-bibliotecas-publicas-municipais-2016/

DE QUINTOS À SALVADA

Horas usadas na recuperação da memória. Há mais de dez anos que não percorria estas estrdas com vagar e em luz plena. Parte da paisagem foi tomada pelos olivais. Fotografias e perspetivas que, tinha a certeza!, poderia repetir um dia, desapareceram para todo o sempre.

Há um poema de Wislawa Szymborska que começa:
Nothing can ever happen twice.
In consequence, the sorry fact is
that we arrive here improvised
and leave without the chance to practice. 
É mais ou menos isso.
Entre Quintos e a Salvada há um pequeno troço intocado. Repeti-o, sem muita fé... Luz muito baixa, rolo 152 ASA, 1/250 e 8 de abertura. Deve ficar uma boa porcaria...
Surpresa na Salvada, uma terra que enriqueceu depressa e bem. Obras públicas no século XX e um espaventoso Cine Monumental. Coisas de outros tempos.

sábado, 28 de outubro de 2017

SLOW TRAIN COMING, LÁ DIRIA BOB DYLAN...

Isto, se não dá um filme anda lá perto...

Até 2011 havia o INTERCIDADES, que ligava Beja a Lisboa. Um comboio direto, que dava imenso jeito e que usei vezes sem conta.

No dia 14 de janeiro de 2011, o Grupo Parlamentar do PCP apresentou na Assembleia da República, um Projecto de Resolução sobre a manutenção do serviço intercidades Beja-Lisboa-Beja. O documento foi rejeitado pelos votos contra do PS e as abstenções do PSD e CDS/PP. Os deputados Pita Ameixa e Conceição Casanova estavam no grupo que votou contra. Em fevereiro, o mesmo Pita Ameixa diria que "tem de haver um claro compromisso com a qualidade do serviço, com a qualidade dos equipamentos e com a modernização e electrificação da infraestrutura ferroviária que, directamente, serve e tem de continuar a servir Beja".

O compromisso ficou pelas palavras e o INTERCIDADES direto acabou mesmo. Entraram em cena automotoras de qualidade mais que discutível.

Em 2014, o presidente da  presidente da concelhia de Beja do PS, Paulo Arsénio, pedia à REFER que insistisse "na electrificação do troço de 64 quilómetros de via entre Casa Branca e Beja, dotando assim a capital do Baixo Alentejo de condições iguais a outras capitais de distrito",  assim como uma melhoria substancial da qualidade do material circulante entre Beja e Casa Branca. E concluía, "o PS aguarda, a partir de agora, resposta das empresas em questão, na expectativa que, num curto espaço de tempo, os utentes da Linha do Alentejo possam retirar algum benéfico das diligências que concretizámos".

Na passada semana, tornou-se prática corrente a substituição das automotoras por autocarros. Ou seja, os comboios tornaram-se rodoviários. Estamos em 2017. O PS está no poder. Pita Ameixa é presidente da Câmara de Ferreira do Alentejo, Paulo Arsénio é presidente da Câmara de Beja. Não há nem intercidades diretos nem sequer automotoras. Aguardo, ansioso, pelo próximo murro na mesa.

E a Unidade de Missão para a Valorização do Interior serve exatamente para quê?...

Fotografia de Ogle Winston Link (1914–2001)

COR E NÃO-COR EM SINES

Princípio de tarde demasiado quente em Sines. Estamos em final de outubro e a temperatura andava pelos 30º. Um exagero, que vai trazer consequências nefastas a outros níveis. Deambulação entre o Museu, o Centro de Artes e a baía. Demasiada luz para o rolo de 400 ASA. Luz e não-luz, cor e não-cor. Retorno ao grande pintor Emmerico Nunes (1888-1968) e aos seus tons hooperianos. O estio numa pintura não datada dos arredores de Lisboa. O contraste com a frieza urbana das salas do Centro das Artes de Sines. Prepara-se a próxima exposição. Tiveram a gentileza de me deixar entrar e de me poder passear pelas salas vazias.


HETERODÒXIES

Sexta-feira heterodoxa.

1. Não fiz greve porque não percebi o sentido da greve e porque "afino" com as greves à segunda e à sexta. Soam-me sempre a "bora lá fazer um fim de semana prolongado, pipal".

2. Não percebi, ainda, o entusiasmo, que me parece um tanto juvenil e cheio de acne, de uma certa esquerda a propósito da chamada independência da Catalunha. Um tema seríissimo e que tenho, amiúde, visto tratado ao nível da opção clubística e do "eu cá acho que...".


A realidade desmultiplica-se. Como o mostra este Homem a andar (1890/91), de Étienne-Jules Marey.

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

BEIRA MAR

Sou moradora das areias,
de altas espumas: os navios
passam pelas minhas janelas
como o sangue nas minhas veias,
como os peixinhos nos rios...

Não têm velas e têm velas;
e o mar tem e não tem sereias;
e eu navego e estou parada,
vejo mundos e estou cega,
porque isto é mal de família,
ser de areia, de água, de ilha...
E até sem barco navega
quem para omar foi fadada.

Deus te proteja, Cecília,
que tudo é mar - e mais nada.



Foi como se o barco tivesse passado e tivesse deixado as velas em terra... beira mar ou beira terra? Cecília Meireles e uma imagem de uma rua de Mértola, depois do Festival Islâmico.

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

SINES - ENTRE VELHAS E NOVAS ROTINAS

Regresso a outra vida. No sábado, retomo um tema que me é caro, o da vida quotidiana em época islâmica. Nos últimos dias, reli textos que já quase esquecera: Ibn Abdun e a Sevilha do século XII, al-Himiary  e o seu Al-Rawd Al Mi'tar (O Livro do Jardim Perfumado), o Muqtabis V de Ibn Hayyan, a Crónica Moçárabe de 754.

O prazer de outras coisas, de outros ritmos que já quase esquecera.

Vejo-me como o ciclista que descolou do pelotão e que agora tem de voltar a colar... Três noites (sem pedidos internos, sem despacho de correspondência, sem projetos, sem fundos disponíveis, sem telefonemas, sem...) deram-me tempo para estruturar e para tentar construir um primeiro corpo de texto para uma publicação sobre a Mouraria, a sair em 2018.

Próxima paragem: Sines.



quarta-feira, 25 de outubro de 2017

REVIVE: O DIABO COMEÇA NOS DETALHES E ACABA NA VENDA DA ALMA

Importante artigo do meu amigo Luís Raposo, presidente do ICOM EUROPA, no "Público" de hoje:

Noticiava o PÚBLICO recentemente (13 de Outubro) a realização de um seminário internacional sobre “Descentralização da Gestão Patrimonial”, em Amarante, durante a primeira Bienal Ibérica de Património Cultural, promovida por agentes empresariais do sector. Aí estive, com muito gosto, porque constitui sempre um prazer trocar ideias com pessoas inteligentes, mais ainda quando tendemos a discordar em quase tudo... menos naquilo que nos faz sermos portugueses: a defesa dos valores identitários legados por todos os que nos precederam — algo a que chamamos patriotismo, palavra de que nunca tive nem tenho medo.

Dito isto, claro que pelo meu lado não confundo descentralização e até regionalização, que defendo, com privatização, de que discordo fora do quadro de políticas públicas de cultura bem definidas. Tenho plena consciência de que nunca o Estado poderá (nem nunca deveria, mesmo podendo) zelar por todo o património cultural nacional, mesmo que fosse somente o classificado (de que, aliás, é proprietário de somente cerca de 10%). É fundamental a participação dos movimentos de cidadãos, mobilizados por finalidades cívicas, e há também amplo lugar para os privados, inclusive para os investidores que visem o lucro. Mas tal terá sempre de ser suportado em políticas .públicas de cultura abrangentes e consistentes. Ora, são estas que não existem. Na aflição em que se encontram após anos e anos de penúria (política sobretudo, antes de ser também financeira), as políticas públicas de cultura desceram talvez abaixo do plano mínimo que continua a justificar existir um ministério. Este limita-se por isso a dançar as músicas que lhe põem no gira-discos. Há excepções, é certo, sobretudo a nível local e regional (por exemplo, a magnífica Rota do Românico). Mas o panorama geral, e sobretudo o de maior responsabilidade governativa, é desolador.

A apresentação do REVIVE feita no supra-referido seminário por um dos subdirectores-gerais da ainda subsistente DGPC espelha eloquentemente o que fica dito. Evitei até hoje pronunciar-me sobre este programa, porque penso que poderia ter aspectos positivos, dado o enquadramento político e social mais vasto a que aludi acima. Sei bem o que significa a aflição de ter monumentos a cair e não saber como lhes acudir, podendo os Revives desta terra serem encarados, sobretudo pelas administrações locais, como bóias de salvação face à ineficácia do Governo. Mas houve na apresentação feita em Amarante uma tal entusiasmo e uma tal sinceridade que, embora humanamente compreensíveis, me dão pena pelo que testemunham do “estado a que isto chegou” (expressão que por certo na actual maioria parlamentar haverá quem recorde quando foi proferida). Percebemos ali todos que a Cultura (e não apenas a DGPC, insisto) deixou definitivamente de poder contribuir para qualquer política decente de Património Cultural. Tudo se resume nisto: como não podemos fazer nada, é melhor entregar os monumentos a quem os possa manter de pé, em lugar de os deixar cair em ruínas. A DGPC remete-se para a condição de fiscal de obras (enquanto quem manda a quiser aturar, claro) e deixa-se as “forças do mercado” actuarem, melhor, deixa-se os grandes tubarões cilindrarem os pequenos. Política patrimonial cidadã? Balelas. Precisamos é de quem tome conta dos empecilhos, e ponha dinheiro, mesmo que através de linhas de financiamento (portuguesas e europeias) fortemente bonificadas pelo recurso aos impostos que todos pagamos.

Convém dizer que não atiro pedras a quem assim se resigna, por força dos cargos que ocupa. Admito que se tivesse feito a mesma escolha (cargos de chefia são escolhas e não imposições), e a quisesse manter navegando à bolina, poderia talvez ter chegado aos mesmos becos, escusos e escuros. Concordo em que quase tudo é preferível à ruína. Mas, caramba, não penso que seja necessário ser-se escutista militante na defesa da venda da alma ao diabo. Dos 30 monumentos incluídos no REVIVE, quantos não virão a ser hotéis e restaurantes? Quantos serão aquilo que piedosamente se diz também poderem ser, centros de arte ou residências de estudantes, por exemplo? Para já, os únicos três contratados são hotéis. E tudo parece resumir-se a negócios do Grupo Pestana. A demissão da Cultura quanto ao uso cidadão do Património Cultural conduz também à exclusão das pequenas empresas e das associações ligadas ao sector, porque nenhuma terá condições de concorrer — no que melhor se percebe como se justifica a plataforma patriótica que, afinal, em quase nove séculos de história, constitui a base do nosso contrato nacional.

Dos trinta miraculados “redivivos” (desculpe lá Herculano, onde estiver, roubar-lhe o termo do combate nos seus “monumentos pátrios” contra a fúria do camartelo), tomemos um caso apenas, pelo que encerra de paradigmático: a Quinta Real de Caxias. Ao longo de anos, a Câmara Municipal de Oeiras investiu no local um acumulado de cerca de três milhões de euros. Fê-lo sobretudo na cascata e no jardim, porque no palácio lhe estava vedado intervir, por ser propriedade militar. De repente, o golpe de mágica: o palácio já pode ser entregue a exploração de privados, por pelo menos três décadas. Ora, fumos de venalidade à parte, estou certo que nem neste nem em nenhum outro caso foram feitos os estudos económicos que considerem o investimento público, directo ou indirecto, local ou de contexto, e regulem no detalhe as condições contratuais de tal modo que o capital privado e as taxas da sua remuneração sejam aceitáveis e tudo não se converta em mais exemplos das PPPs de tão má memória. Isto sem falar no principal: aceitar que espaços de tanta carga emotiva memorialista possam ser, no todo ou na parte (beneficiando, aliás, esta do todo), subtraídos ao seu uso cidadão.

Estamos, pois, no REVIVE perante um caso típico de alienação da função primordial dos monumentos, curiosamente promovido por um Governo suportado na maioria parlamentar mais à esquerda que tivemos em décadas. Mas quero ser frontal: não são tanto os Revives, os pequenos-grandes dirigentes da administração pública ou os políticos de discurso fácil em favor da cultura que estão em causa neste processo, onde até autarcas comunistas colaboraram. Somos nós, cidadãos, na facilidade com que nos deixamos desapropriar daquilo que nos deveria ser mais caro, a nossa memória colectiva.


O Luís não deixa, em termos gerais, de ter razão. No entanto, o que aconteceu em sítios como o Convento do Carmo não deixam à nossa terra outra alternativa a não ser participar no REVIVE. Ou seja, o primeiro erro esteve na "relocalização" do Centro de Saúde. O abandono de edifícios em vez da sua refuncionalização é opção que se torna, a médio prazo, caríssima. A quem cabe hoje a responsabilidade de conduzir a reabilitação do Convento do Carmo? À Câmara de Moura... Quem, no início dos anos 90, assumiu estas opções não tem de pagar por elas.

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

HEIMATEN


Não o único sítio da minha vida, mas um dos sítios decisivos da minha vida. Pensei nisso intensamente, na luz da manhã de hoje, enquanto descia a rua em direção ao trabalho. Com o prazer de ir sendo saudado pela rua fora, como se tivesse regressado do Hades.

Um dos problemas que não resolverei nunca é o ser geograficamente volúvel. Mas Mértola, tal como Moura, não se vão. Tive essa certeza ao longo do dia e quando o dia se apagou e um amigo de Moura me perguntou onde andava...

Aguarela de um amigo, Leonel Borrela, infelizmente já desaparecido.

domingo, 22 de outubro de 2017

STARDUST MEMORIES Nº 14: ARQUEOLOGIA EM MOURA / 1990

Arrumações num escritório pouco usado nos últimos anos. O caos é total. A preparação, que agora inicio, de ensaios sobre o período medieval não ajudam muito a melhorar o panorama.

No meio da bagunça, caiu-me em cima (literalmente) o relatório das escavações arqueológicas no Castelo de Moura realizadas entre 6 de junho e 13 de julho de 1990... Quem colaborou naquela campanha? Entre outros amigos, Helena Pato (uma talentosa desenhadora, hoje funcionária do Centro de Saúde), Carlos Rico, Eduardo Moreira, Fernando Monteiro, Luísa Abade e Lino Pinto (trabalhadores da Câmara Municipal de Moura), Nuno Santinha (professor e que na altura tinha apenas 15 anos!) e Luís Jacob (à época futebolista profissional e hoje presidente do Moura Atlético Clube).


O Passado é o Presente na Lembrança

Se recordo quem fui, outrem me vejo,
E o passado é o presente na lembrança.
Quem fui é alguém que amo
Porém somente em sonho.
E a saudade que me aflige a mente
Não é de mim nem do passado visto,
Senão de quem habito
Por trás dos olhos cegos.
Nada, senão o instante, me conhece.
Minha mesma lembrança é nada, e sinto
Que quem sou e quem fui
São sonhos diferentes.

Ricardo Reis - "Odes" 

4 ANOS, 23 HORAS E 42 MINUTOS MAIS TARDE...


Intervenção de despedida, ontem à tarde:

Exmo. Senhor Presidente da Assembleia Municipal
Exmo. Senhor Presidente da Câmara Municipal
Exmos. Senhores eleitos nos órgãos municipais
Exmos. Senhores Convidados

As primeiras palavras são de felicitação, e de votos de sucesso, para com aqueles que, dentro de minutos, irão tomar posse. Em especial, para quem me sucede neste cargo, que tanto honra quem o ocupa e ao qual temos de dar o melhor de nós.

Agradeço a todos os que comigo lealmente colaboraram ao longo deste percurso de 12 anos. Em especial aos bons trabalhadores da Câmara Municipal. Ajudaram-me / ajudaram-nos e, com isso, fizeram deste concelho um concelho melhor. Agradeço também aos que criaram obstáculos e dificuldades, porque nos levaram a esforços de superação. Fomos assim mais longe. Obrigado a todos.

Começo pelo preciso ponto em que terminei a minha intervenção de há quatro anos. Com o final de um poema de Alberto Caeiro que diz “Aqui há só a estrada antes da curva, e antes da curva / Há a estrada sem curva nenhuma”. É de um caminho, difícil e sempre incerto, que se fala sempre que pensamos no percurso de um mandato. Não é hora de balanços definitivos (esses serão feitos lá mais para a frente), nem de projetar um futuro que agora começa.

Aproveito estes minutos de despedida para sublinhar rapidamente os temas que sempre estiveram no centro das nossas preocupações e da nossa atuação. O problema maior do nosso território é estrutural e para ele o esforço de uma Câmara Municipal não chega. Temos pela frente o despovoamento, agravado pelo envelhecimento da população. É um problema que não se resolve com medidas avulsas. Em 1999, talvez se recordem disso, o governo da nação quis incentivar trabalhadores da função pública a fixarem-se nas zonas mais carenciadas. Para tanto, estava prevista a atribuição de subsídios de valor variável, consoante a categoria do funcionário.

Significou isto que não se encontrou melhor forma de resolver o despovoamento do interior do que atirando umas missangas e engodando quadros, eventualmente aborrecidos com a vida na Grande Cidade, com promessas de subsídios de instalação e mais uns dinheiros para ajudar a pagar a renda da casa. Foi a versão adocicada dos “40 acres e uma mula” do seculo XIX norte-americano, a conquista do Oeste sem o tom épico de Hathaway e de John Ford.

Se bem se recordam também, o projeto não deu em nada. Rigorosamente em nada. Tal como me atrevo em dizer que em nada dará o esforço da Unidade de Missão para a Valorização do Interior. Quase 20 anos depois, o problema essencial continua a ser demográfico. E, ainda e sempre, continuamos dependentes da falta da capacidade de decisão do Terreiro do Paço.

“Pobre México, tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos!”, disse o presidente Porfirio Diaz há mais de 100 anos. Quando olhamos para o interior raiano, são frases assim que nos ocorrem. A distância não será tanto de Deus, como dos centros de decisão. O tráfego nas nossas ruinosas vias de comunicação é o reflexo direto de um País virado para o seu umbigo.

E se insisto neste tema é porque acredito que é nele que estão os nossos problemas centrais. E que o futuro passa pela ultrapassagem desses problemas. Tal como acredito no caráter decisivo que tem o investimento nas infraestrutras e nas várias formas de reabilitação urbana.

O problema principal, repito, passa pela perda de população e pela perda de quadros qualificados. Sem gente não há futuro e sem condições para aqui vivermos não há gente. O problema passa pelo abandono dos territórios periféricos. Pelo esquecimento do interior. Onde estava o Estado e qual o papel do Estado nas tragédias que ocorreram neste ano de 2017? Onde estava o Estado e qual o papel do Estado na resolução da Ribeira da Perna Seca, no Sobral da Adiça? Onde andaram os governantes do nosso País e aqueles que os apoiaram na Assembleia da República?  Onde está aquilo a que temos direito?


Termino com a citação de um texto. Ainda e sempre os caminhos. Sublinho, neste caso, decisões pessoais. De “A estrada que não foi seguida”, de Robert Frost: “Duas estradas separavam-se num bosque, e eu / Eu segui a menos percorrida / E isso fez toda a diferença.” Continuarei, com toda a convicção a seguir, solidário e solitário, a percorrer os caminhos em que acredito. Com esta minha terra e com esta minha gente sempre no meu espírito e sempre na minha memória.


Momento divertido da despedida: na sexta-feira, um amigo sugere-me, distraidamente, que entregue as chaves da Câmara ao novo presidente. Digo que nem pensar em tal, dou uma gargalhada e pergunto: "conheces o quadro La rendición de Breda, de Velázquez?". Não conhecia. É uma tela, pintada para a Coroa espanhola e hoje no Museu do Prado, e que retrata a entrega das chaves da cidade de Breda, por Justino de Nassau a Ambrosio de Spinola, depois do cerco da cidade. O quadro data de 1634/35, uma década depois dos acontecimentos a que se reporta.
Nem rendição, nem capitulação. Era só o que faltava.