domingo, 31 de março de 2019

TABERNA E TABERNÁCULO

Viramos à direita? Viramos à direita. Não politicamente, claro está. Virámos à direita e fomos terminar o dia, depois da conferência em Aracena, na taberna do Jorge. Que é taberna e tabernáculo. Aí chegados, e por entre as libações do fim do dia, reivindiquei a publicação que o Jorge promoveu há meses. É uma taberna única. Tem alma, bebe-se vinho, petisca-se, contam-se histórias e fazem-se edições. Cultura é, também, isto. O Jorge tinha-me pedido um texto curto para essa publicação. Aqui está ele.

MAIS QUE UMA TABERNA

Més que un club, dizem os adeptos do Barcelona da sua agremiação. Os que, ao longo de muitos anos, temos vindo a passar pelo Liberato podemos proclamar, com convicção “mais que uma taberna”. Bebemos copos? Sim. E ouvimos e contamos histórias? Claro, nem outra coisa seria de esperar. Sobretudo, temos a presença da Alice e do Jorge. Nos últimos tempos, uma nova faceta se veio juntar às muitas outras da Taberna do Liberato. Nasceram as Tertúlias dos Templários. À animação habitual, à música ocasional, à permanente boa disposição veio juntar-se a História. Num registo descontraído, mas nem por isso menos rigoroso. A Taberna do Liberato é uma taberna? É, e é muito mais que uma taberna. É um sítio com alma.

Santiago Macias
Historiador e amigo da taberna

REVIVENDO O PASSADO, EM ALMONASTER LA REAL

Ir a Paymogo era uma aventura. Hoje, são cerca de 70 quilómetros entre Moura e Paymogo. Em 1973, não era assim... Do Rosal ia-se até Cortegana, depois a Almonaster la Real, depois, serra dentro, até Valdelamusa. De seguida Cabezas Rubias, em direção a Puebla de Guzmán (onde o carocha amarelo fez, uma vez, sensação, comentavam uns miúdos "mira qué coche tan bonito...", que os VW eram uma raridade na Espanha franquista). Chegava-se a Paymogo depois de uns longos, lentos e penosos 170 quilómetros.

Ontem, a caminho de Aracena, decidi-me por um desvio a Almonaster. Há muito tempo que não visitava a mesquita. Resolvi fotografar o mihrab, para um livro em fase final de produção. Já tenho fotografias de sobra, "pero nunca se sabe..."

De Almonaster tenho sempre presentes as recordações das árvores ao longo da estrada, do ar fresck da serra, do castillo e da placa toponímica. Que teve, até final da década de 70, o símbolo da falange, bem visível à entrada "del pueblo".

Aracena continua bonita, Almonaster está no seu sossego serrano. A falange é, deo gratias, uma recordação mais que arqueológica.


sexta-feira, 29 de março de 2019

NÃO TARDA NADA PASSA A PÓS-GRADUAÇÃO...

Aprendi a andar de bicicleta no jardim de Moura. Numa bicicleta emprestada. Houve esfoladelas à mistura. Tal como nas subidas às árvores. Fiz a passagem da pena da águia (esta é para mourenses 50+). Fiz o que todos fazíamos, incluindo colher citrinos (dito assim, soa melhor) numa certa e determinada horta. Umas coisas com mais arte, a maior parte delas desastradamente. Frustração maior: nunca soube fazer balões com a pastilha elástica.

Quando leio no "Público" que aprender a pedalar vai fazer parte do currículo, penso "está tudo lixado...". Subi a Travessa das Inglesinhas lendo o artigo e tentando não dar muito estrilho. Foi assim um pouco à Zach Galifianakis...


quinta-feira, 28 de março de 2019

ENTRE MODENA E ANGRA DO HEROÍSMO

Ainda ontem mencionei o edifício de cima. A filial de Angra da CGD - projeto de Carlos Crespo - tem um quase parentesco formal (imagino que voluntário...) com as fenestrações do columbário de San Cataldo (projeto de Aldo Rossi e de Gianni Braghieri). Boa arquitetura, em qualquer dos casos. Felizmente.


quarta-feira, 27 de março de 2019

AVIS - COM ORDEM, CALOR E COR

No meio de um trabalho sobre arquitetura do século XX, várias vezes me interroguei "qual o melhor edifício que a Caixa Geral de Depósitos construiu?". Não é fácil responder. Sobretudo a seguir ao 25 de abril, deixou de haver um estilo mais ou menos formal. Embora na arquitetura do Estado Novo nem tudo seja mau e fascista e tal (muito longe disso), são melhores as obras mais recentes. Dois edifícios me deixaram marcas mais fundas. Angra do Heroísmo e Avis. Em especial este último. É um edifício relativamente pequeno, ousado e marcante, no seu tijolo vermelho. Alguém chamou a Raúl Hestnes Ferreira (1931-2018) arquiteto americano. Pelo menos, há aqui influência claras da obra de Louis Kahn, com quem Hestnes Ferreira colaborou e que muito o marcou. A agência de Avis aproxima-se de um edifício de Louis Kahn, no Gujarat. O vermelho de Avis marcou-me, sim...



El rojo sol de un sueño en el Oriente asoma. 
Luz en sueños. ¿No tiemblas, andante peregrino? 
Pasado el llano verde, en la florida loma, 
acaso está el cercano final de tu camino. 
Tú no verás del trigo la espiga sazonada 
y de macizas pomas cargado el manzanar, 
ni de la vid rugosa la uva aurirrosada 
ha de exprimir su alegre licor en tu lagar. 
Cuando el primer aroma exhalen los jazmines 
y cuando más palpiten las rosas del amor, 
una mañana de oro que alumbre los jardines, 
¿no huirá, como una nube dispersa, el sueño en flor? 
Campo recién florido y verde, ¡quién pudiera soñar aún 
largo tiempo en esas pequeñitas 
corolas azuladas que manchan la pradera, 
y en esas diminutas primeras margaritas!


(Antonio Machado)

CRÓNICAS OLISIPONENSES - XXVII

Não valendo a pena insistir muito na lenda de Martim Moniz, uma história bem portuguesa afinal (eh pá, bora lá que os gajos deixaram a porta aberta...), tive hoje um vislumbre da conquista de Lisboa. A porta do 28 abriu e fechou, deixando-me em pose Martim Moniz. Ó amigo, desculpe lá, berrou, lusitanamente, o condutor. Para gáudio de uma jovem que ia na parte de trás e para espanto do turistame. Deu-me vontade de lhes dizer sou um ator contratado e isto está incluído no bilhete. Limitei-me a sair, rindo também, e a subir a rua, em direção ao Quelhas.


O trabalho escultórico de José João Brito (1997) reproduz, com humor, o célebre episódio. Está na estação de metro do Martim Moniz.
Sobre a Arte que as estações do Metro têm, ver: https://www.metrolisboa.pt/viver/arte-nas-estacoes/

terça-feira, 26 de março de 2019

BOLSONARANDO

Foi um dos grandes entusiastas da campanha de Bolsonaro.
É doutorando nesse ramo das ciências ocultas que dá pelo nome de Ciência Política.
Não tarda, passa a profissional do proselitismo...
É autor de textos divertidíssimos no Observador.
Um excerto do mais recente:

FINALMENTE SOROLLA

Sorolla, quase a acabar. Um Sorolla de cores quase pós-modernas. Não em todas as telas, bem entendido. Mas, de forma muito marcante, num punhado delas.

A exposição foi um enorme sucesso de público. Mesmo sendo Sorolla um pintor datado. António Filipe Pimentel soube criar uma máquina de promoção que deu um novo fôlego a Arte Antiga. Isso viu-se bem na bicha que, domingo de manhã, esperava a vez de comprar bilhete.

Aqui fica a Pont del Real, em Valência, na pintura, ontem e hoje.



segunda-feira, 25 de março de 2019

ARACENA, DAQUI A DIAS

Não é bem um três-em-um, mas é quase. O convite partiu do Eduardo Romero e pareceu-me interessante fazer um ponto de situação da investigações em torno do Castelo de Moura. Bem como sobre o papel que as minas da Adiça tiveram. Mais as movimentações dos Banu Tutaliqi, na segunda metade do século IX. Quando chega a Reconquista, esses episódios fazem parte de um passado já remoto.

É esse longo processo que se irá evocar, no próximo sábado. Ordeno, com a ordem possível..., as investigações futuras. Moura será uma delas. Retomando um tema que anda, desde uma já remota juventude, em para-arranca. Como na letra do blues de Stuart Gorrell Moura on my mind...


domingo, 24 de março de 2019

ROYAL FLUSH TELEVISIVO

Quis, há pouco, ver televisão. Um momento raro, porque vejo pouquíssima televisão. Que ver, então?

Ora bem, o panorama era este:

RTP 1 - Famílias frente a frente - desafio na cozinha
RTP 2 - Prémios Sophia 2019
SIC - Quem quer casar com o agricultor?
TVI - Começar do zero
SIC Notícias -  Play-off
RTP 3 - Trio d'ataque
TVI 24 - Livre e direto
CMTV - Golos
TVI Reality - Secret Story

Balanço de nove: quatro realitycoisos, quatro futebóis e uma gala à óliude. Um royal flush... Não vi nada.

EM PALMA DE BAIXO

Palma de Baixa era sinónimo de Universidade Católica e do Palmense. Nunca tinha ido ao bairro. Fui ontem. Pela primeira vez. É uma ilha no meio da cidade, com uma pequena comunidade em torno da qual se desenvolveu um projeto de animação social e cultural. Histórias e memórias num trabalho que envolveu gente empenhada.

Lê-se no site da Junta de Freguesia de S. Domingos de Benfica:
As histórias de vida estão retratadas na instalação “Portal de Palma”, uma peça em arco pelo coletivo Warehouse, feita de bancos com fotografias antigas cedidas pelos moradores. Os bancos que compõem a instalação terão uma nova vida nos restaurantes e cafés do bairro.
A artista britânica Camilla Watson apresentou a sua exposição “Memória pelos pés” com fotografias cedidas pela população e impressas sobre a própria calçada da Praça Rossio de Palma. Foram recolhidas mais de 150 fotografias que vão agora integrar o Arquivo Municipal.
Esta última componente revelou-se como sensorial e bastante emotiva. Numa mesa estavam restos do trabalho executado. Que é o mesmo que dizer que estavam fragmentos das memórias dos moradores. Aqui deixo as minhas felicitações à colega Edite Guimarães, ao Marco Guerra (meu antigo aluno na Nova) e todos os que se emprenharam neste projeto.



sábado, 23 de março de 2019

GULBENKIAN

Nasceu na Turquia. Fez fortuna no Médio Oriente. Instalou-se em Portugal. A Fundação Calouste Gulbenkian tem o seu nome e o seu legado. A Fundação é obra do fundador e de um grupo de homens de génio que a construiu depois dele. E Portugal nunca mais foi o mesmo. A verdade é essa e não vale a pena tentar refazer essa verdade.

Calouste Gulbenkian nasceu em Üsküdar, faz hoje 150 anos.

sexta-feira, 22 de março de 2019

AD SANCTOS

O tema foi aflorado ontem, no encontro que decorreu no Convento do Carmo, em Lisboa. Os enterramentos ad sanctos foram prática corrente na Antiguidade Tardia. Procurava-se, expressamente, a proximidade dos túmulos dos santos, como forma de proteção na vida eterna. Trabalhei bastante essa área, em tempos. Retorno a ela, com regularidade. Um dos aspetos que mais me interessou, e interessa, é o dos paralelos entre o Cristianismo e o Islamismo. A prática dos enterramentos junto aos homens santos não se praticou apenas entre os cristãos. O mausoléu de Side Boumedienne, em Tlemcen, tem o solo cheio de sepulturas. Tal como o mausoléu de Sidi Ahmed Ben Mansour, em Arzila.

Em Portugal, julgo ter identificado prática idêntica. A anormal concentração de sepulturas (com sobreposições que chegam a cinco níveis) num setor da necrópole islâmica do Rossio do Carmo, em Mértola, parece-me justificada pela santificação de um ustrinum (zona de incineração) de um cemitério mais antigo.

Retomo velhos temas. Uma vez e outra.


quinta-feira, 21 de março de 2019

MOÇAMBIQUE

Tenho assistido, atónito, ao evoluir da situação em Moçambique. Um acontecimento destes tem hoje impacto à escola mundial. Há 60 ou 70 anos, passaria à margem de quase tudo.

Entram em cena a Cruz Vermelha e mais a ajuda humanitária. O socorro é lento. Não se tem a perceção de como as coisas correm.

O cidadão comum (eu) fica com a ideia que é mais fácil decidir uma operação militar em grande escala contra um país do Terceiro Mundo que colocar no terreno este auxílio.

Por cá, pela Europa, não há velas nas janelas nem campanhas EU SOU MOÇAMBIQUE.

quarta-feira, 20 de março de 2019

O ORIENTE AQUI AO LADO

Ao jeito de uma ante-estreia:

Continuam em confronto, duas teses sobre os primórdios da islamização. Por um lado, perfilam-se os argumentos da escola tradicionalista espanhola, que postula a "hispanização" dos invasores árabes. Ou seja, embora admitindo a existência de uma conquista em inícios do século VIII, afirmava-se que os estrangeiros chegados à Península se teriam progressivamente integrado, não restando alguns séculos depois mais do que vestígios muito ténues da presença desses orientais. A velha imagem da anilina, de Francisco Codera, ganha agora contornos políticos precisos, no quadro da ascensão de partidos como o VOX.

É este o ponto de arranque para a conferência de amanhã, no encontro da Associação dos Arqueólogos Portugueses, no Largo do Carmo. Há pontos de confluência, entre Oriente e Ocidente? Há. E tantos eles são. A imagem de baixo é emblemática: o mausoléu de S. João Batista, na mesquita de Damasco, é local de oração de cristãos e de muçulmanos.

terça-feira, 19 de março de 2019

STARDUST MEMORIES Nº 25: BOLSA DE TURISMO DE LISBOA

A imagem não é de agora. É da Bolsa de Turismo de Lisboa de 2017. Fazia-se, na altura, a promoção do Festival do Peixe do Rio e do Pão. Muita água passou debaixo das pontes, desde esse 17 de março, que foi a uma sexta-feira. O Festival do Peixe do Rio e do Pão de 2017 foi um extraordinário sucesso, refira-se.

A fotografia é curiosa e emblemática.


segunda-feira, 18 de março de 2019

INVESTIGAÇÃO - ANTES E DEPOIS

A via sacra da investigação. Processos para ver, processos vistos. As mesas antes e depois da tarefa, como nos testes anti-caspa...  As benditas fichas A5. Envelopes para os materiais selecionados. Na reunião do final da tarde apontei uma possibilidade "o livro deverá andar pelas 340/350 páginas, em grande formato". A grande arquitetura do século XX no centro do que interessa à equipa.

Levantamento concluído até meados de abril, livro a lançar dentro de um ano.

Al andar se hace el camino,
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.



domingo, 17 de março de 2019

HISTÓRIA, GEOGRAFIA...

Agora são a História e a Geografia que começam a ser menorizadas por causa de uma nova palhaçada que dá pelo singular nome de Cidadania e Desenvolvimento. Explica o Ministério: "na componente do currículo de Cidadania e Desenvolvimento (CD), os professores têm como missão preparar os alunos para a vida, para serem cidadãos democráticos, participativos e humanistas, numa época de diversidade social e cultural crescente, no sentido de promover a tolerância e a não discriminação, bem como de suprimir os radicalismos violentos".


Devo ser um troglodita sem cura, mas tenho por firme convicção que este percurso se faz com a presença das disciplinas formais e tradicionais como a História, a Matemática, a Geografia, a Língua Portuguesa, a Física etc. Ensinar os alunos a viver por via escolar vai acabar mal. Estes proselitismos acabam sempre mal.

sábado, 16 de março de 2019

TRANQUILIDADE - SOPA DE LETRAS EM VERSÃO PANTONE

Quando vi "aquilo" numa fachada ainda pensei que se tratasse de um expediente de um mediador com falta de tempo. Cada vez mais habituado a coisas disruptivas fui verificar. "Aquilo" é mesmo o novo logo da Tranquilidade. E já tem algum tempo... Fui ao site da empresa que fez o rebranding. Não está lá este logo...

Não se percebem a ideia nem o conceito. O logo antigo, o do T que parecia voar, dá-lhe 10-0.

Ao menos a divisão por sílabas está certa.




ACNE UPRISING

A Rua de S. Bento estava cortada ao trânsito. Quando a descia a pé, cruzo-me com um divertido António Pedro Ferreira. Vinha de fotografar a manifestação "oh pá, vai ver, que aquilo está giro". É dele a sugestiva fotografia que hoje está em destaque na capa do Expresso.

Não se cabia em frente ao Parlamento. A manifestação era deliciosamente caótica. Com tanto entusiasmo e tanto entrega, ficamos logo de acordo com os manifestantes. O que reclamam torna-se secundário. A espontaneidade e o entusiasmo põem o resto em segundo plano e levam tudo pela frente. Levo 15 minutos a furar entre a massa compacta. Uma, duas, três vezes ouço "deixem passar o senhor". Entra-me uma enorme vontade de rir. De cabelos brancos e cheio de rugas, devo parecer muito velhinho. Ainda estou a uma década da terceira idade mas, para eles, nos seus 15/16 anos, sou muito velhinho. Ponto.

Cruzei a D. Carlos I de alma cheia. Viva o uprising da juventude.

sexta-feira, 15 de março de 2019

MOPTI

Há sítios inspiradores. Mopti foi um desses sítios. Em pouco mais de duas horas, fiz algumas das fotografias de que mais gostei. Não necessariamente as melhores, nem sequer boas fotografias, com toda a probabilidade. Longe da dureza urbana de Bamako, e da poluição de Bamako, o que ficou de Mopti foi o rumor das vozes das pessoas, ao longo das ruas. E a mesquita. E os homens sentados ao longo dos muros da mesquita. À espera não se sabe bem de quê. Do sítio onde estou sentado à mesquita de Mopti, mesmo ao lado do Níger, são 2740 quilómetros. Neste preciso momento, é quase perto.

quinta-feira, 14 de março de 2019

MACAU

No compartimento ao lado da sala do pequeno-almoço estava esta pequena tela. A pintura parecia-me familiar. Mas representava um sítio que me era desconhecido. Seria uma cidade brasileira? Olinda não era e em Paraty nunca estive. Aproximando-me mais vi que estavam representados vários juncos. Do lado direito, quase no meio, via-se a fachada de uma igreja. Aproximei-me ainda mais. Era a igreja de S. Paulo. Macau, na tela estava uma representação de Macau. "As coisas em que tu reparas", exclamou, divertido, o meu anfitrião.

Continuei intrigado o resto da manhã. Porque raio me era familiar um sítio onde nunca estive? Subitamente, um "flash". Talvez não estivesse lá aquele quadro, quase de certeza que não. Mas estavam muitos outros do mesmo género, em especial um conjunto de delicadas aguarelas, na exposição Macau 400 anos de Oriente, de que tanto gostei. Foi na Gulbenkian, em 1979. E Macau não se apagou da minha memória.

quarta-feira, 13 de março de 2019

O TALENTO DE RAUL MARTINS

Morreu novo e está hoje quase esquecido. Não consegui encontrar nenhum trabalho de investigação monográfico sobre a obra de Raul Martins (1892-1934). Tenho vindo a encontrar, com regularidade, trabalhos seus.

O edifício de cima, hoje muito adulterado e servindo de casa particular, foi a primeira agência da Caixa Geral de Depósitos em Anadia. O de baixo foi a obra que executou para a Póvoa de Varzim. Um desenho francamente melhor que o de João Simões, que modificou substancialmente a traça original. O mesmo despojamento quase fabril viríamos a encontrar na Caixa de Santarém. A modernidade andava por ali. E por outras obras de Raul Martins, a maior parte delas só "recuperáveis" em desenhos ou em fotografias.


terça-feira, 12 de março de 2019

PAISAGENS DO GHARB AL-ANDALUS

De manhã, um longo passeio pela Lisboa Islâmica, começando pelo castelo, indo depois aos ziguezagues, cidade abaixo. Não por capricho, mas por necessidade, cruzaram-se as principais portas da cidade antiga: a do Cemitério, a da Alfofa, a Grande, a de Alfama. O percurso terminou nas Alcaçarias, já fora de portas. A fotografia, com o chapéu à banda, mas foi só por acaso, foi tirada no interior do Palácio Azurara.

Ainda mal tivera tempo para respirar, e ala para Mértola. A Câmara Municipal promoveu uma conversa sobre estes anos de Festival Islâmico, agora que a 10ª edição se aproxima. Entre as 18 e as 20:30 foi disso que se falou. Estamos todos no Festival. E com o Festival.

Site- https://www.festivalislamicodemertola.com


segunda-feira, 11 de março de 2019

CRÓNICAS OLISIPONENSES - XXVI

"Alto lá", que este prédio não estava aqui ontem. Havia, às 10:09:55 (diz o telemóvel), no enfiamento da Rua da Alfândega, um novo arranha-céus. Não era. Era "apenas" o MSC BELLISSIMA na sua viagem inaugural. Dando uso ao novo terminal de cruzeiros e mostrando, com espavento, os seus 315 metros de comprimento. Capacidade? 4500 passageiros. Cabem lá dentro a Amareleja, Safara e Santo Aleixo. E ainda sobram uns lugarinhos.

Na ida para a Rua de S. João da Praça vi-o de relance. À vida, percorri com vagar o Terreiro do Trigo, lembrando-me de António Gedeão:

A catedral de Burgos tem trinta metros de altura
e as pupilas dos meus olhos dois milímetros de abertura.
Olha a catedral de Burgos com trinta metros de altura!


domingo, 10 de março de 2019

QUASE NA PRIMAVERA E EM DIA LENTO

Devia estar a escrever um texto circunspecto a esta hora, mas não me apetece nada fazê-lo. Devia estar a rever e a calcular o número de páginas de um livro já acabado (pedido de orçamento: capa chromocard 300 grs. 2/0, miolo 170 grs. semi-mate 4/4 blablabla) e não me apetece nada fazê-lo. Há um conjunto de deveres que se me vão, enquanto olho para nordeste (a janela está virada a nordeste). É melhor usar este dia lento doutro modo... Aproveitar para reler Alberto Caeiro. E a Carta a Osberto.


Quando tornar a vir a Primavera

Quando tornar a vir a Primavera
Talvez já não me encontre no mundo.
Gostava agora de poder julgar que a Primavera é gente
Para poder supor que ela choraria,
Vendo que perdera o seu único amigo.
Mas a Primavera nem sequer é uma coisa:
É uma maneira de dizer.
Nem mesmo as flores tornam, ou as folhas verdes.
Há novas flores, novas folhas verdes.
Há outros dias suaves.
Nada torna, nada se repete, porque tudo é real.
Fotografia - António Cunha

sábado, 9 de março de 2019

É MELHOR APRESSAREM-SE...

O Governo deverá aprovar nas "próximas semanas" um novo regime de fixação de funcionários públicos no interior, no âmbito da estratégia de coesão territorial, anunciou hoje o ministro Adjunto e da Economia, Pedro Siza Vieira. (no "Público" de 13 de fevereiro de 2019)

Em 1983, o Alentejo elegia 14 deputados em 250.
Em 2019, elegerá 8 em 230.

Entretanto, no Público de ontem:




Despovoamento, não desertificação, mas isso é um detalhe.

sexta-feira, 8 de março de 2019

PORQUE HOJE É SEXTA

Uma vez, mostrei esta fotografia a alguém, algures no Alentejo. Quem está na fotografia é uma jovem guineense, que acedeu a que a retratasse, em janeiro de 2010. Não falava português. Uma senhora que por ali passava fez as traduções. A moça vinha todos os dias de Safim para Bissau, para vender pequenas coisas na Praça do Império. E exclamei "olha só, que mulher tão linda", para esse alguém, algures numa vila alentejana. Arrependi-me de imediato de ter partilhado o que sentia. Respondeu-me o interpelado "isso? bonito?". E deu uma sonora gargalhada. Senti uma inexplicável e imensa tristeza.

O tempo passou. Continuo a achar que é uma mulher linda. O meu conterrâneo não deve ter mudado de opinião.


Um dia, vão ficar para trás as sombras e o frio. Nesse dia quando voltarmos a encontrar o caminho do sul, iremos em direcção a um inverno de sol. Onde haverá acácias e bonitas mulheres, cujas pulseiras rivalizam com a curva do Geba, antes deste se perder no coração das trevas.

quinta-feira, 7 de março de 2019

UMA FEIJOADA PARA MARTE

Um cozinheiro português participa num concurso em Espanha.
É um dos vencedores.
A entidade promotora é prima em quinto grau da NASA.
O cozinheiro chega cá e diz que ganhou um concurso da NASA. O que é verdade, ainda que em quinto grau.
E diz mais: "a NASA lançou um concurso a muitos chefs de cozinha pelo mundo de criar uma receita para enviar numa missão para Marte. Quem sabe teremos os nossos sabores portugueses em Marte, o bacalhau, o chouriço, a azeitona, a cebola, o alho." Também não era exatamente isso, mas imaginar azeitonas, cebolas e postas de bacalhau a caminho de Marte já tem o seu mérito criativo. Já para não falar no feijão.
Deixem lá o moço. Num mundo de fake-news e de pós-verdades, ele disse uma quase verdade. E ganhou publicidade à borla. Menos mal...

quarta-feira, 6 de março de 2019

CENAS DA GUERRA ÀS PORTAS DE LISBOA

Alguns cineastas tinham, noutros tempos, o hábito de vestir, nas cenas de reconstituições históricas toda a equipa técnica com roupas idênticas às dos atores. Era uma forma de criar ambiente e de conferir um pouco de autenticidade à ilusão que o cinema é.

Tenho passado as últimas semanas recolhendo elementos para uma exposição sobre Lisboa Islâmica. Ainda não foi necessário comprar um kaftan... Mas já tenho dado comigo às voltas na cidade antiga, olhando muros e relendo textos. Acima de tudo, relendo a Carta a Osberto. E tentando perceber como se teciam os laços entre sitiantes e sitiados, que a conquista de uma cidade não se faz sem negociação ou sem diálogo. Uma torre construída expressamente para o cerco da cidade desempenhou papel crucial na campanha que teve lugar no outono de 1147. Atente-se a este excerto da Carta:



Desmoronamento dum lanço da muralha; avança a torre móvel
Minada, pois, a muralha e atafulhada com lenha para arder, nessa mesma noite, ao cantar do galo, um pano das muralhas de cerca de trinta côvados ruiu por completo [seria na zona de Alfama, perto das Portas do Sol, e a muralha teria cerca de 60 metros de extensão].

Os mouros, pois, acorrem todos, cada de sua parte, a defender a brecha da muralha, tapando-a com uma barreira de cancelas. Foram então os colonienses e os flamengos e tentaram entrar, mas foram rechaçados. Efectivamente, embora a muralha tivesse ruído, à configuração do terreno impedia-lhes a entrada pelo simples aterro existente. No entanto, como não podiam atacá-los de perto, atormentavam-nos com o arremesso de setas incessantes e violentas, de tal forma que eles, para se defenderem e como que evitando não ficar feridos, ao manterem-se imobilizados, pareciam ouriços de espinhos.

Martins Barata (Carvão e aguarela s/ papel - Museu de Lisboa)

terça-feira, 5 de março de 2019

NOVO REGIME JURÍDICO DOS MUSEUS NA NET?



Ao consultar há pouco documentação sobre museus encontrei, no Boletim do Trabalho e Emprego, o documento cujo link forneço:

https://fiscalidade.pt/wp-content/uploads/2019/02/sep4_2019.pdf

O boletim é de dia 15 de fevereiro de 2019, uma semana depois da aprovação do novo regime jurídico no Conselho de Ministros. O documento refere expressamente o Decreto-Lei n.o 22/2019, de 30 de janeiro. Foi feito, portanto, em data posterior a esse. A menos que se trate de um texto apócrifo, está na net, desde há dias, o secretíssimo decreto-lei...

BALANÇO CARNAVALESCO

2019 já está. A próxima etapa começa no dia 21 de fevereiro de 2020. De sábado até à passada madrugada foi uma correria. Uma estoiraria, para usar uma expressão muito em uso pelo povo caleiro. O costume, por aqueles lados. Bares abertos até de manhã, DJ por toda a parte, povo aos magotes no baile da Comissão de Festas. Foi assim e assim será no próximo ano.

Os momentos de fim de festa levam, direitinho, ao Epílogo, de Manoel Bandeira:

Epílogo 
Eu quis um dia, como Schumann, compor
Um carnaval todo subjetivo:
Um carnaval em que o só motivo
Fosse o meu próprio ser interior...

Quando o acabei - a diferença que havia!
O de Schumann é um poema cheio de amor,
E de frescura, e de mocidade...
O meu tinha a morta morta-cor
De senilidade e de amargura...
- O meu carnaval sem nenhuma alegria!






Aqui fica, entretanto, a abertura Carnaval Romano (1844), de Hector Berlioz (1803-18699. O nome tem a ver com uma cena de carnaval da ópera Benvenuto Cellini, na qual esta peça se inspira. Gosto do tom festivo da música. Vai bem com estes dias.



CARNAVAL COM DIETA MEDITERRÂNICA

O despacho n. º 1939/2019 do Diário da República n.º 41/2019, série II de 27.2.2019, criou o Conselho Dinamizador para a Salvaguarda e Promoção da Dieta Mediterrânica. São 35 entidades. Não tenho nada contra este género de iniciativas, muito sinceramente o digo. Nasci no mundo mediterrâneo e os hábitos alimentares, como outros do quotidiano, fazem parte do dia-a-dia.

Publiquei, em "A Planície" de 1.10.2014, um texto onde, entre outras coisas e a propósito de uma jovem amiga que fora estudar para longe, referia "aquela coisa do palato, que é por ele que começamos a sentir saudades de casa. E que é sempre pelo ponto onde regressamos à infância.

Quando em dezembro voltar à Pátria para as férias do Natal imagino reinvindicações meridionais. O pão, o tal de Monte Fialho, mais o paio e o presunto. E o queijo, aquele dos Cotéis ou o da Abelheira. E migas, claro, que é coisa que não se faz com pão de plástico. Neste entretanto, uma coisa a minha amiga já percebeu. Há, felizmente, patrimónios de infância que nunca nos deixam. Ela poderá ter saído de Mértola para sempre. Mas há sempre qualquer coisa de Mértola que nunca a deixará".

O Mediterrâneo estuda-se, promove-se e dinamiza-se? Claro que sim. Sobretudo, vive-se. Todos os dias e para sempre.

Aquilo a que poderemos chamar um grupo de trabalho informal da dieta mediterrânica, na Sociedade Monumental Sobralense, no Sobral da Adiça.

domingo, 3 de março de 2019

ELEMENTOS - AR 2

Se alguém me evoca o ar a ser pintado é o inglês Joseph Mallord William Turner (1775-1851). Não estava nas listas das minhas referências na minha juventude. Agora está. Toda a translucidez das suas telas e todo o tratamento vibrante da cor se me tornou essencial. A passagem do tempo é isto, creio eu.

Norham Castle, Sunrise, foi pintado cerca de 1845 e está hoje na Tate Gallery.

sábado, 2 de março de 2019

CARNAVAL COM JUÍZ

Processar humoristas é uma excelente ideia. Deu sempre bom resultado.

Entre outras coisas mais relevantes, dava jeito que mudasse de nome. Neto de Serpa ou de Neto de Portel, por exemplo. Neto de Moura chateia-me.

O Carnaval avança, com toda a confiança.