sábado, 29 de junho de 2019

TELEVENDAS NO PALÁCIO DO PLANALTO

Pensei que fosse uma brincadeira, uma montagem ou algo assim. Não é. "Aquilo" é mesmo verdade. O discurso alucinado de Jair Bolsonaro sobre o nióbio, e sobre as vantagens da sua extração, é a demonstração inequívoca do estado de absoluta indigência a que chegou o modelo democrático. Televendas ao jeito Melga e Mike. O problema não é só brasileiro. Trump alinha pelo mesmo estilo. Salvini é a face negra desta escola. Farage encarna a inconsciência chique. O modelo está difundido um pouco por toda a parte. Em Portugal também o temos. As autarquias são, a esse nível, uma mina...

Para quem estiver interessa no filme todo - ver aqui.

LAS CANCIONES DE SU PADRE

É um disco de cabeceira. Desde há 30 anos. Foi-me oferecido por uma amiga chamada Deolinda. Linda Ronstadt foi buscar as origens e cantou em espanhol. Dando um cunho muito especial às canciones do México, que não eram exatamente do seu pai, mas de antepassados lá mais para trás.

O som é tão colorido como a capa. Tenho-o retomado nestes dias, enchendo o gabinete na Rua da Boavista de som ranchero. Estes dias de quase verão, com os santos à porta, são bons para isso.

sexta-feira, 28 de junho de 2019

CLEOPATRA

Foi lançado há 56 anos. O espalhafato da produção abafou o resto. Ainda assim, o talento da escrita de Joseph Manckiewicz surge, a espaços. Mas ficou muito distante de Júlio Cesar, rodado uma década antes. Várias vezes tenho visto este filme, com a sensação de que um desastre anunciado. E com a convicção que tem sido subavaliado.

Manckiewicz entrou no ocaso. Mas ainda realizou, em 1967, um glamoroso The honey pot. Um filme de fantasia e ludíbrio, que a televisão deveria voltar a mostrar. Leio na net que o título em português era O perfume do dinheiro. Curiosamente, não tenho disso ideia.

Esta cena de Cleopatra tem é também uma viagem no tempo. A rainha passa por baixo de um arco que só foi construído uns bons 200 anos depois dela ter morrido...

CRÓNICAS OLISIPONENSES - XXXIII

A vinda de alguém para Lisboa, nos anos 70, era acompanhada da imprescindível compra do Guia das Ruas de Lisboa. Ao fim de poucos meses, a cidade estava memorizada. Entretive-me, desde os tempos do liceu, a andar pela cidade e a conhecer ruas e becos. Faz-me por isso, impressão que os taxistas e os ubers e os kaptens se guiem, quase só, pelo GPS. Ou seja, não conhecem a cidade. Ontem à noite, calhou-me em sorte um senhor que, para ir de Belém à Buraca, deu mais voltas que um sino. Eu assistia, divertido, às curvas e piruetas para ir direito a um sítio bem fácil de encontrar... Ele bem que olhava para o GPS.

Voltando ao guia, a Livraria Progresso Editora tinha morada em Lisboa - 2. Para quem seja mais novo, antes de haver códigos postais, a cidade de Lisboa estava dividida em seis zonas. Tanto quanto me recordo:

Lisboa - 1 (zona do Marquês e mais para norte)
Lisboa - 2 (Baixa)
Lisboa - 3 (Belém, Alcântara...)
Lisboa - 4 (Benfica)
Lisboa - 5 (Alvalade)
Lisboa - 6 (zona oriental). Seria assim?

quinta-feira, 27 de junho de 2019

BIBLIOGRAFIA MOURENSE - UM REGISTO PESSOAL: 2/13

É o catálogo de uma exposição feita há 30 anos. A minha primeira experiência a sério. Com os entusiasmos e os erros inerentes aos primeiros trabalhos. Uma grata recordação e o privilégio muito especial de ter tido um projeto de Rogério Ribeiro. Foi inaugurada em 1988 e o catálogo só saiu dois anos mais tarde. A parte final foi tudo menos fácil, e só a presença de universitários de Coimbra facilitou a edição. Surgiu como o primeiro número dos cadernos o Museu. Uma ideia que não teve continuidade.

Continuam a ser trabalhos (exposição e livro) que me deixam contente.

Moura na época romana:
Autores: Teresa Júdice Gamito, Jorge de Alarcão, José d'Encarnação, Maria da Conceição Lopes e o autor do blogue
Formato - 24 x 15
Nº de páginas - 92
Ano de edição - 1990
Classificação CDU - 904(469.521)

Ficha técnica da exposição:
http://santiagomacias.org/albuns/59888aac92e6c-MOURA%20NA//docs/Fichatecnica.pdf



quarta-feira, 26 de junho de 2019

BRANDOS E BRANCOS COSTUMES

Cocaína na comitiva presidencial brasileira.

Entretanto, em Sesimbra...

PRÉMIO MARIA TEREZA E VASCO VILALVA - 2.7.2019

A cerimónia de entrega é na próxima terça-feira, em Coimbra. Uma justa distinção para um projeto marcado pela qualidade e pela persistência.

Ida e vinda, em passo rápido, à cidade do Mondego.


terça-feira, 25 de junho de 2019

PLANO NACIONAL DAS ARTES

Para lá do mérito do Programa e de quem nele trabalhou, aqui vão as perguntas comezinhas e básicas:

Quais são os meios financeiros?
Qual a calendarização desses meios?
Quem paga?

segunda-feira, 24 de junho de 2019

LIBERDADE

Não foste à inauguração? Não, não fui.
Vais assistir ao colóquio? Não, não vou.
Foste à apresentação do livro? Estava lá gente de peso! E eu com isso...
Estás inscrito com alguma comunicação no congresso? Não, nem lá irei.


Escondo-me detrás da lente da minha M6. Escrevo livros (desde há dois anos: dois publicados, um em curso de impressão, outro a ser terminado) e programo trabalho. Leio, menos do que devia e gostaria. Ganho a minha liberdade. Como quero e com quem quero. E preparo os dias que virão.


Ai que prazer 
Não cumprir um dever, 
Ter um livro para ler 
E não fazer! 
Ler é maçada, 
Estudar é nada. 
Sol doira 
Sem literatura 
O rio corre, bem ou mal, 
Sem edição original. 
E a brisa, essa, 
De tão naturalmente matinal, 
Como o tempo não tem pressa... 

Livros são papéis pintados com tinta. 
Estudar é uma coisa em que está indistinta 
A distinção entre nada e coisa nenhuma. 

Quanto é melhor, quanto há bruma, 
Esperar por D.Sebastião, 
Quer venha ou não! 

Grande é a poesia, a bondade e as danças... 
Mas o melhor do mundo são as crianças, 

Flores, música, o luar, e o sol, que peca 
Só quando, em vez de criar, seca. 

Mais que isto 
É Jesus Cristo, 
Que não sabia nada de finanças 
Nem consta que tivesse biblioteca... 

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro

domingo, 23 de junho de 2019

MOURARIA - O HASHTAG DO DIA

A esse poderia juntar outros. Um estudo em curso - parece que "está quase", essa misteriosa e lusitaníssima forma de adiar - "atirou-me" para o antigo arrabalde de Moura. Outras palavras em alta: Castillejo de los Guajares / Sevilha / Patrice Cressier / López Torres / Alcoutim / Helena Catarino / Lisboa / Santarém / Isabel Cristina Fernandes / Almada / século XIV and so on...

O mais interessante é a repetição de soluções decorativas. Que encontramos em cerâmicas da Idade do Ferro, da escavação de Mesas do Castelinho, e num bocal de poço de meados do século XIV, de Moura. Uma vez, o prof. Victor Gonçalves referiu-me a "memória genética" ao olhar estes desenhos. E mostrou-me uma peça feita em 1990, no Alto Alentejo. E que tinha um desenho exatamente igual.


sábado, 22 de junho de 2019

CALIGRAFIAS NO VERÃO MERTOLENSE

A abertura foi ontem. E dura todo o verão. Até 21 de setembro tenho as Caligrafias na bonita galeria do Castelo de Mértola. É um permanente retorno a casa. Depois das fotografias terem estado em Évora, Alvito e Cuba.

Devo um agradecimento muito especial à Câmara Municipal de Mértola. Que é a minha.



sexta-feira, 21 de junho de 2019

E JÁ QUE FALAMOS NO FORUM DE BEJA...

Não resisto a recordar este excerto do filme Guardie e ladri. Passou na televisão, há muitos anos. Estes filmes eram exibidos à quarta-feira, no programa Noite de cinema. Isso foi antes das majors de Hollywood tomarem conta de tudo, com a complacência de diretores de programação semi-analfabetos, e encherem a televisão de trampa. Guardie e ladri é uma típica comédia do pós-guerra. Foi realizado em 1951 por Mario Monicelli e por Steno. Esta cena tem lugar no fórum de Roma. Vale a pena ver as explicações "técnicas" dadas por um genial Totò (1898-1967), suposto guia turístico. Em especial a destruição do fórum - tutto sinistrato... -, por culpa de um terramoto, e a presença no local do túmulo de Colombo:

QUE FAZER COM ESTE FORUM?

A área é considerável e põe problemas que não são fáceis de resolver. São cerca de 2000 metros quadrados no coração da cidade de Beja. É parte do fórum, ou seja, do antigo coração cívico da cidade, o local de encontro dos cidadãos. São 2000 anos de História, sobrepostos e cruzados, como se de um “mikado” se tratasse. Os trabalhos arrancaram em 1997. Esperava eu, e acompanhei o processo desde o início, que Beja conseguisse vencer os espíritos negativos que, há muito, acompanham a arqueologia na cidade. Não será demais recordar que Abel Viana, a grande figura da arqueologia da região no século XX, nunca conseguiu realizar uma campanha arqueológica sistemática em Beja. E que o sítio do Sembrano passou por um longo e muito processo tormentoso processo, para ficar resolvido com a atual solução.
No momento em que as escavações arrancam, a Maria da Conceição Lopes está muito perto do final da sua tese de doutoramento. A qual partia de Beja, para se lançar numa interpretação do território, que continua hoje a ser a grande referência para a leitura da região nas épocas romana e pós-romana. Com relativa surpresa, constatou que o coração da velha Pax Iulia estava melhor preservado do que os esquiços feitos por Abel Viana na década de 40 deixavam antever. A arqueóloga acabou por escavar dois templos Ou seja, a construção do depósito de água não viera destrui-los, situando-se antes numa zona limítrofe. À complexidade dos vestígios romanos, da Antiguidade Tardia, do período islâmico, veio juntar-se a raridade de uma casa da moeda, que a cidade albergou no final da Idade Média. A cidade conheceu, ao longo de pouco mais de 20 anos, cinco presidentes de câmara. A escavação foi avançando, não sem sobressaltos. Nos últimos tempos avançou um projeto de reabilitação do sítio. O processo entra num impasse e surgem, na imprensa, referências a um “templo” transformado em campo de papoilas. Começa a polémica e surgem números e mais números. Quanto se gastou em projetos, quanto custaram as escavações, quem fez e quem deixou de fazer. Torna-se aflitivo ver como as coisas se repetem e como os espíritos negativos voltam a pairar sobre a arqueologia da cidade.
O conflito de pouco nos serve… Sem entrar na polémica em torno do projeto de arquitetura e do futuro das estruturas arqueológicas, gostaria de deixar aqui alguns tópicos para reflexão:
  1. A leitura de espaços como o dos templos de Beja só consegue ser feito através da sua “verticalização”. Muitos teatros romanos, muitos arcos do triunfo foram refeitos e reerguidos. O processo é conhecido pelo nome de anastilose, um “palavrão” que se refere à (re)construção a partir de elementos previamente existentes.
  2. Não me parece disparatado que, nesse processo, se incorporem no forum elementos arquitetónicos de grandes dimensões – designadamente, capitéis – que hoje se encontram na galeria do Museu Regional.
  3. Ou seja, que estabeleça uma ligação próxima entre estes vestígios, absolutamente notáveis, o Museu, que dispõe também de outros materiais de grande qualidade, o o sítio arqueológico de Pisões e o núcleo da Rua do Sembrano.
  4. É crucial criar condições para que as escavações arqueológicas se concluam, prevendo-se um programa de edições destinado a uma ampla divulgação dos resultados e das conclusões a que se chegou. Incluo aqui a Casa da Moeda, peça crucial no processo de investigação que Maria da Conceição Lopes tem em curso.
  5. Não creio que seja possível pôr em funcionamento todo este complexo de sítios – por vezes a razoável distância, como Pisões –, com o habitual e rígido programa: cada sítio com o seu núcleo de exposições, com horário fixo e quadro de pessoal próprio. Ou há um plano em rede, com partilha de recursos, e com intervenções concretas e realistas ou daqui a 10 anos estaremos na mesma. Ou pior, discutindo a privatização ou a alienação de sítios.

A tomada de decisões sobre o património, na perspetiva da sua reabilitação, nem sempre é “simpática”. Nem imediata. É mais fácil “feirizar” a História, criar “eventos” e complementá-los com iniciativas folclóricas. Dá muito menos trabalho e rende mais, no curto prazo. Ora, como bem sabemos, e tendo em conta o que nos resta do fórum, o Património é matéria para o longo prazo.

Reconstituição proposta por Maria da Conceição Lopes

Artigo publicado hoje, no "Diário do Alentejo"

quinta-feira, 20 de junho de 2019

CASTELO À VISTA!

De 1989 a 2019 vão 30 anos. Nem todos os anos pude realizar trabalhos arqueológicos no Castelo de Moura. No ano passado retomámos os trabalhos. Num ritmo lento, que se repetirá este ano, com equipa muito reduzida. Uma campanha curta (3 a 11 de julho), destinada a sondagens, ao alargamento da área de escavação, a registos e à preparação de um recomeço no duro, a partir de 2020.

Já saíram dois livros: um catálogo de materiais, em 2012, um volume de textos, em 2016. É uma memória de escavação que dá interpretações e que levanta problemas. Há dias perguntaram-me quando penso terminar estes trabalhos. Tendo em conta que retomo agora linhas de investigação, a data mais provável, se a saúde o permitir, será dentro de uns 15 anos...

BIBLIOGRAFIA MOURENSE - UM REGISTO PESSOAL: 1/13

Ao longo de mais de 30 anos de carreira fui, regularmente, publicando trabalhos com o meu concelho como tema. Somei, até à data, 13 títulos, alguns em co-autoria. Deixo de lado os artigos publicados em revistas de História ou em atas de congressos. Ficam também para outro registo as edições que promovi ou incentivei, sem ser autor.

O primeiro livro, de 1988, traz-me boas recordações. Moura - anos 30 destinou-se a celebrar a elevação de Moura à categoria de cidade. Selecionou-se um conjunto de imagens que, em muitos casos, recuperavam uma cidade que já não "existia". A edição esgotou rapidamente. O fotógrafo, Zambrano Gomes (1883-1953), nunca foi objeto de um estudo monográfico completo. E valia bem a pena que fosse feito, tendo em conta o interesse das suas imagens, a sua diversidade geográfica e o tipo de registo, muitas vezes de cariz etnográfico, a que se dedicou.

Moura - anos 30:
Formato - 21 x 29 (ao baixo)
Nº de páginas - 60
Ano de edição - 1988
Edição patrocinada pela Sociedade Portuguesa de Seguros.
Classificação CDU - 77(469.521)"193"


terça-feira, 18 de junho de 2019

BIBLIOTECA NACIONAL - UMA VIAGEM NO TEMPO

Por qualquer injustificada razão, era considerado por alguns colegas de licenciatura como um maníaco das bibliotecas. Um pacífico louco furioso, capaz de ficar horas a fio fazendo fichas e coligindo apontamentos. Ou transcrevendo manuscritos na Torre do Tombo. É verdade que gostava de frequentar bibliotecas e arquivos. O resto é invenção de almas mal intencionadas.

Recuei hoje mais de 30 anos, ao visitar a interessante exposição que a Biblioteca Nacional tem patente. Temos mesmo de visitar a exposição, porque durante a hora do almoço os depósitos estão fechados e as requisições de livros ficam em lista de espera. Que tinha a exposição de interessante? A memória da antiga biblioteca, no Chiado. Os desenhos de António Pardal Monteiro e de Jorge Chaves, bem mais orgânicos (e por isso foram chumbados) que a solução final de Porfírio Pardal Monteiro. O mobiliário de Daciano da Costa, sempre à frente do tempo e sempre com soluções intemporais. Deste autor eram os ficheiros em madeira, que enchiam em tempos a sala de referência. Perdi o conto às vezes que abri e fechei essas gavetas e dei volta aos blocos de mobiliário.

Recordo com clareza (esta é para os amigos que me acusam de maníaco) o primeiro livro que requisitei na Biblioteca Nacional, nos primeiros dias de 1982: ÉTUDES SUR LES COLONIES MARCHANDES MÉRIDIONALES À ANVERS DE 1488 À 1567 : PORTUGAIS, ESPAGNOLS, ITALIENS. Um estudo de Jan-Albert Goris (1899-1984), publicado em Lovaina em 1925. O meu primeiro trabalho na Faculdade foi sobre a feitoria portuguesa de Antuérpia. A leitura, no mesmo ano, de capitalismo monárquico português, do académico paulista Manuel Nunes Dias, começou a desenhar-me uma dúvida, depois transformada em certeza: não temos emenda nem cura...


segunda-feira, 17 de junho de 2019

JUDEUS - A ARQUEOLOGIA DOS ESQUECIDOS

Amanhã vou ter uma manhã um pouco diferente. E fico contente por isso. Não pelo facto de ser diferente, em si.

Mas por razões objetivas:
Pelo interesse do tema. A negação do passado judaico tornou-se mais feroz e violenta que a do passado muçulmano. Há um longo caminho a fazer neste domínio. Trabalhos como o de Pedro Mendes são passos decisivos num domínio pontuado por sombras densas;
Por voltar a encontrar o Luis Sebastian e o Adolfo Silveira Martins, que não vejo há anos (o percurso autárquico tornou-me "invisível" neste meio);
Pelo regresso à Nova, que já foi, em diferentes ocasiões "o meu sítio" (aluno do Mestrado de História Medieval entre 1990 e 1992 e, anos volvidos, professor convidado) e que voltará a sê-lo, dentro de meses. Com a curiosidade de, pela primeira vez, ir lecionar numa licenciatura.

domingo, 16 de junho de 2019

MOURA BRANCA

Ir a Moura.
Estar em Moura.
Voltar "à terra" por umas horas. Ouvir grupos musicais e "andar por ali".
E é sempre particularmente agradável ver como o espaço dos Quartéis foi incorporado no quotidiano de Moura.
Três momentos na Noite Branca:



sábado, 15 de junho de 2019

ELEMENTOS - AR 7

O ar no cinema? Sim, é uma recordação recorrente que tenho dos filmes de Fellini. O som do vento que surge, de forma obsessiva, em muitas das suas obras. Nesta cena de Roma, que até tem a ver com arqueologia, há a presença do som das máquinas e, depois, do vento que percorre as galerias. Na parte final da cena, os frescos são apagados. O que o ar fechado dos subterrâneos desaparece num ápice. A meditação sobre a passagem do tempo é outra "fixação" felliniana.

Com o ar se encerra uma série sobre os quatro elementos.

O filme Roma vi-o, pela primeira vez, no dia 21.6.1986. Na Cinemateca. 

sexta-feira, 14 de junho de 2019

QUARTÉIS: CINCO ANOS

Faz hoje cinco anos que, formalmente, foi assinalada a (re)entrada em funções do edifício dos Quartéis. Foi, seguramente, um momento decisivo na minha carreira profissional e política. Tinha dito a um amigo que, quando terminasse aquele projeto (a conversa teve lugar em 2006/2007) poderia dar a minha tarefa política por terminada. Não foi bem assim e muitas mais coisas aconteceram ao longo de 12 anos marcantes e decisivos.

O processo dos Quartéis foi dos mais compensadores, do ponto de vista cívico. Foi um momento especial e intenso, daqueles que deixam marcas. Arriscaria a dizer que estão no mesmo plano a Ribeira da Perna Seca, a Mouraria, o Matadouro,a igreja do Espirito Santo, o Pavilhão das Cancelinhas, o Parque de Leilão de Gado, o campo de futebol das Cancelinhas, a igreja de Safara, o Pátio dos Rolins, a Torre do Relógio e o Bairro do Carmo (estes com a obra ainda a decorrer).

2014 - fotografia Orlando Fialho

c. 1990

quinta-feira, 13 de junho de 2019

SOLIDUM OPUS - DE 1920 A 2004

Da solidez se verá depois. Mas a primeira, e mais dura, fase desta tarefa está terminada. Conclui-se o levantamento preliminar das obras mandadas fazer, em todo o País, por uma entidade pública.

São:
175 edifícios, construídos entre 1920 e 2004;
220 projetos (incluindo as remodelações dignas de registo);
145 arquitetos.

São dezenas de pastas com alçados, esquiços e pormenores de todo o género. Passa-se agora ao registo fotográfico de todos os imóveis ainda existentes. E à recolha iconográfica do que já desapareceu.

Haverá livro, em 2020. Prevejo entre 350 e 400 páginas. King size...


quarta-feira, 12 de junho de 2019

A CAMINHO DO MERCADO DO FORNO DO TIJOLO

O sítio é emblemático. A escolha não teve a ver com isso, mas a zona onde está este mercado correspondeu, até ao final do século XV, ao limite norte do cemitério muçulmano do arrabalde da Mouraria. O que vai acontecer no Mercado do Forno do Tijolo? A exposição Lisboa Islâmica, com abertura prevista para início de 2020. Há guião, há orçamento, há peças escolhidas e um roteiro definido. Há conteúdos audio-visuais em preparação e haverá catálogo (um pouco "desformatado", para o estilo habitual...).

É interessante casar este "acaso" da escolha com a Freguesia de Arroios, habitada por 92 nacionalidades. O mercado será, depois desta iniciativa, a Casa da Diversidade. Começa a sê-lo um pouco, com a abordagem que foi proposta.

O Mercado do Forno do Tijolo é um projeto do arq. Eduardo dos Reis, do início dos anos 50. Gosto imenso da entrada, com aquela pérgola sinuosa.


terça-feira, 11 de junho de 2019

DA CASA DO ALENTEJO À FEIRA DO LIVRO

Da manhã para a tarde. Um feriado "atípico". O desafio para ser o orador convidado no 96º. aniversário da Casa do Alentejo deixou-me a certeza da passagem do tempo. Não costumam convidar juniores para a tarefa. Por outro lado, foi um enorme prazer estar, de novo, num sítio que diz tanto a tantos de nós. E dizer o que me ía/vai na alma sobre o futuro da nossa região. Acabei por ficar lá até meio da tarde, no meio de amigos e em convívio fraterno e ameno.

Mais acima, 1.700 metros a noroeste da Casa do Alentejo, esteve o meu sítio vespertino. Tinha lugar a apresentação da obra Portugal, uma retrospectiva. O auditório, na Feira do Livro, estava cheio e havia muita gente em pé. Um bom prenúncio. Não estava à espera que o Rui Tavares chamasse ao palco os autores presentes e, menos ainda, que nos convidasse a dar uma breve explicação do que tinha sido feito. Em todo o caso, creio ter sido útil aquela conjunto de pequenas intervenções.

Hoje, seguem outras "sagas". Um verão quente em perspetiva.


segunda-feira, 10 de junho de 2019

FAUVISMO MERTOLENSE

"O menino não tem jeito para o desenho". E eu olhava para a minha tentativa de fazer qualquer coisa parecida com um desenho como se fosse uma doença, "o menino tem um sopro no coração", "o menino é asmático". Só muitos anos mais tarde percebi que o jeito para o desenho, para a música, para a literatura, não é bem uma coisa inata. Assim como o Mozart, que tocava piano aos quatro anos e compunha peças musicais aos seis. Nunca desenhei, tal como nunca aprendi música. Mozart é uma raridade, difícil de explicar. Mas, também nunca tive uma professora como Nádia Torres. Hoje, dei com trabalhos de alunos seus na net. São miúdos de 13/14 anos. Algum deles virá a ser um pintor consagrado? Provavelmente não. Ou talvez sim. Mas o mais importante é que desenham com alma, com cor e com talento.

Ao ver, hoje, este "fauvismo" e uma exuberante celebração da cor fiquei a pensar "caramba, o que eu gostava de ter tido, em desenho, uma professora assim...".


SÍNDROME KILAS

Do filme de José Fonseca e Costa (1933-2015) "Kilas, o mau da fita" (1980):

Num instante cresci. Ganhei peso colocando à porta uma placa cheia de pintarola que dizia assim: Rui Ventura Tadeu import / export. Que era para que ninguém me viesse à mão com a história de eu não fazer nenhum e andar a chular a Rita.

Como diz um amigo meu, estas frases definem toda a arte de ser português. No fundo, não se produz grande coisa, anda-se a fingir e o importante é ficar bem na chapa. É assim há mais de 800 anos.

Hoje é Dia de Portugal.


domingo, 9 de junho de 2019

PORTUGAL, UMA RETROSPETIVA

Portugal, uma retrospectiva, em 24 volumes. Uma História a partir de datas, com o antes e o depois dessa data. O nosso volume (do Fernando Branco Correia e meu) será o 21º. a sair. E reporta-se ao ano 929. Porque a publicação se fará da frente para trás. Ainda não sei as datas (final de outubro, pelas minhas contas), mas a difusão será feita através do jornal Público.

Amanhã tem lugar a apresentação pública do projeto e o lançamento do primeiro volume. Não querem lá ver que ainda me fazer ir à Feira do Livro...

REENCONTRANDO O PROF. CARLOS CHAGAS

Já não o via, de perto, há bem mais de 30 anos. A última vez fora num elevador do Ministério da Educação. Muito mais velho que nesta imagem e muito longe do jovem professor garboso da Escola Preparatória. Mas não tive dúvidas, quando me aproximei. Abordei-o, sem grande hesitação, "boa tarde! o senhor é o professor Carlos Chagas, não é?". Olhou-me nos olhos, fixando-se depois no meu cabelo branco. Confirmou que era. Expliquei-lhe que tinha sido aluno dele, em Educação Física, em 1973/74 e 1974/75, em Massamá. Rematei dizendo, "fui, de certeza, um dos seus piores alunos, mas queria agradecer-lhe as aulas que me deu". De facto, nas nulas condições de então, o Prof. Carlos Chagas esforçava-se por nos dar ensinamentos, por nos incutir disciplina e por nos fazer avançar. Nunca me interessei pela Educação Física, mas o agradecimento desta tarde foi sentido e sincero. Ficámos breves minutos à conversa. Sabia do percurso dele no sindicalismo (foi responsável pelo SINDEP) e nas autarquias (eleito na Amadora e em Queluz pelo PSD), mas não o tinha voltado a encontrar. Nem ele se lembraria de mim, por certo. No final, estendi-lhe a mão. Puxou-me e deu um abraço apertado. Pela minha parte, fiquei feliz e com a sensação de ter ganho o dia. Acho que o prof. Carlos Chagas também ficou contente por aquela abordagem.

Foi ontem à tarde. Só muito depois de nos termos despedido é que me lembrei que não lhe tinha dito o meu nome. Mas isso foi a parte menos importante. Para os dois.

sábado, 8 de junho de 2019

CRÓNICAS OLISIPONENSES - XXXII

Quando colamos as práticas mediterrânicas ao mundo avançado, no que resulta? Em coisas como a app da Carris. Está tudo programado e tudo previsto. Pode fazer-se o download e podem planear-se as viagens. As informações não aparecem em tempo real ou irreal. Não aparecem muitas vezes. Ponto. Ou anunciam o transporte para daí a 15 minutos e ele aparece ao virar da esquina... Meia torrada, pensa a menina... Esperar o 27 depois das 5 da tarde, até dá para um bife com ovo a cavalo e meia de tinto.

Onde está o busílis da questão? É que os cleros e as nobrezas não andam nos transportes. Só anda o povo. Daí que o "desequilíbrio racial" seja patente em que todas as carreiras.

sexta-feira, 7 de junho de 2019

A NORMANDIA E O RESTO

As 10 fotografias (apenas 10!, soube hoje e eu pensava que eram muitas mais...) feitas por Robert Capa fizeram mais pela criação do Dia D que qualquer outra coisa. Eram essas imagens que Steven Spielberg tinha em mente no começo de um dos seus filmes. Comecei uma vez a ver o filme. Depois da sequência inicial, e sabendo a ideia global do argumento, parei. Os minutos de arranque eram demasiado bons. A seguir, viria uma típica xaropada spielberguiana.

Os soviéticos não tinham máquinas de propaganda a este nível. É por isso que conhecemos Robert Capa mas não Yevgeny Khaldei, citamos George Rodger, mas não o absolutamente genial Max Alpert. O general Patton teve um celebrado filme, mas pouco se sabe do seu congénere Zhukov.


A História é feita assim. Pelos vencedores e pelos escribas ao serviço dos vencedores. Recentes releituras de Ibn Hayyan, um cronista do século XI, vieram vincar essa ideia.


"Até parece que odeias os americanos", sopraram-me uma vez. Respondi, citando o controverso Pelham Wodehouse (1881–1975), “I do not hate in the plural”.


Aqui ficam dez minutos de bom cinema, um por cada fotografia de Capa:


quinta-feira, 6 de junho de 2019

UNIÃO SOVIÉTICA? QUAL UNIÃO SOVIÉTICA?

Comemoram-se os 75 anos do desembarque na Normandia. Que o bloco ocidental queira desvalorizar sagas como o cerco de S. Petersburgo ou a batalha de Volvogrado, é uma coisa. Que se opte por não convidar Putin para este Dia D é outra. Que se queira apagar o papel da União Soviética na derrota da Alemanha nazi é uma atitude penosa e à altura dos líderes que a Europa tem. Que se convide Merkel e se ponha na legenda da fotografia que é uma imagem dos representantes das Forças Aliadas dá imensa vontade de rir.

Putin não é comunista, nem socialista, clarifique-se. Nem, à luz da nossa lógica, particularmente recomendável. É o herdeiro de Bizâncio e representa uma mentalidade imperial. A Rússia é isso. Não é preciso estudar ciência política ou qualquer outro ramo do ocultismo. Eisenstein e um par de livros dão uma ajuda.


1757 DIAS E 18.236 KMS. EM TRIÂNGULO ISÓSCELES

Un port est un séjour charmant pour une âme fatiguée des luttes de la vie. L’ampleur du ciel, l’architecture mobile des nuages, les colorations changeantes de la mer, le scintillement des phares, sont un prisme merveilleusement propre à amuser les yeux sans jamais les lasser. Les formes élancées des navires, au gréement compliqué, auxquels la houle imprime des oscillations harmonieuses, servent à entretenir dans l’âme le goût du rythme et de la beauté. Et puis, surtout, il y a une sorte de plaisir mystérieux et aristocratique pour celui qui n’a plus ni curiosité ni ambition, à contempler, couché dans le belvédère ou accoudé sur le môle, tous ces mouvements de ceux qui partent et de ceux qui reviennent, de ceux qui ont encore la force de vouloir, le désir de voyager ou de s’enrichir.


Le port, de Charles Baudelaire, para quem está de regresso.

quarta-feira, 5 de junho de 2019

EIS O NOVO REGIME JURÍDICO DE AUTONOMIA DOS MUSEUS, MONUMENTOS E PALÁCIOS

Finalmente. Já está. Saiu hoje o novo regime jurídico de autonomia de gestão dos museus, monumentos e palácios (v. aqui). É o decreto-lei 78/2019. Nesta altura, disso estou certo, está a ser afanosamente lido. Vai dar discussão, e alguma celeuma, por certo. 

ELEMENTOS - AR 5

Gostava que fosse Nijinsky, mas não há registos das suas levitações. Causou sensação em todo o mundo ocidental, antes de mergulhar na loucura. Fica esta gravação com Carlos Acosta. Quando o peso dos corpos desaparece e se flutua no ar. O ar não dança, mas sem ele não se dança. Mais um passo nos elementos, que têm passado aqui pelo blogue.


terça-feira, 4 de junho de 2019

A COR DO RACISMO

Não conhecia a fotografia e foi o primeiro impacto desta manhã. Department Store, Mobile, Alabama data de 1956. Gordon Parks (1912-2006) foi um grande fotógrafo americano. Pela sua passaram as imagens e as lutas pelos Direitos Civis. O insólito desta imagem está na arrogância da pancarta e no seu colorido. Para que não houvesse  dúvidas ou hesitações. Toda a violência do racismo num néon.

segunda-feira, 3 de junho de 2019

NÃO IR À FEIRA DO LIVRO

Tornou-se uma das minha práticas regulares, no decurso dos últimos anos. Não vou à Feira do Livro. Ou melhor, passo por lá rapidamente, à procura de uma ou outra edições, dadas à estampa por entidades universitárias com tanto de excelente qualidade como de nulo sentido de marketing. Este ano, fui convidado a fazer a apresentação de um livro de História, o que declinei, por razões particulares.

Porque não vou à Feira do Livro? Por rejeitar o modelo de supermercado que a LEYA e a PORTO EDITORA conseguiram impor. Lojas com torniquetes e uma lógica de grupo de editoras que dispensa o deambular de barraca em barraca. Os funcionários que deixam de ser necessários ou, quando estão, sabem tanto de livros quanto eu sei de carpintaria. Por razões de princípio, nem entro. De resto, ando por ali, encontrando amigos, conhecidos e colegas.

Hoje passarei pela feira, em ritmo de passeio. Comprarei um livro, há muito previsto. E nada mais.

domingo, 2 de junho de 2019

MEMÓRIA, RESISTÊNCIA E LUTA

É um livro importante para a preservação da memória. A sessão desta manhã, no Sobral da Adiça, veio sublinhar a importância de iniciativas como a do Museu Nacional da Resistência e Liberdade. Ou do Museu do Aljube. A memória é curta. E tem de ser estimulada. E, permanentemente, invocada. Que o regime democrático tenha permitido a transformação da sede da PIDE em condomínio de luxo é uma vergonha para todos nós. Como várias vezes ouvi dizer a António Borges Coelho "a atual classe no poder é dominada pelos filhos do anterior regime; filhos naturais e filhos espirituais".

sábado, 1 de junho de 2019

CRÓNICAS OLISIPONENSES - XXXI

Já me passou pela cabeça fazer um blogue só sobre o 28...

Dia 29.5 - 8:25. Há uma pequena bicha na paragem do Chiado. Cinco pessoas à minha frente. Depois, chega um nutrido grupo de orientais. Parecem-me ser chineses. Mas não posso garantir que não fossem coreanos... Entramos e ficamos empacotados. A partir desta altura do ano, o 28 torna-se impraticável. Quase não há autóctones. Ouço falar francês, inglês e italiano.

Duas jovens chinesas, acabadas de entrar, começam a pedir licença, "excuse me, excuse me" e saem no Calhariz. Menos de 300 metros depois de terem entrado. Foram cumprir uma tarefa e não ter o prazer de estar e de ver. Cada vez mais, a passagem pelas cidades e pelos sítios é uma check-list. E pouco mais. Um recente texto de Javier Marías explica isso melhor que eu. Leia-se aqui.