terça-feira, 19 de novembro de 2019

SER SOLITÁRIO

Foi talvez no início de 1980 a única vez que vi José Mário Branco atuar ao vivo. Foi no Teatro Aberto, numa tarde de domingo. Falava-se na altura do espetáculo Ser solidário. Devo ter lido alguma crítica no semanário Se7e, cuja leitura não dispensava, por essa altura. O disco foi editado, coisa impensável nos nossos dias, com a participação dos espetadores que quiseram contribuir. E que, claro, tiveram depois direito a um exemplar.

Tenho, curiosamente, imagens muito vivas desse espetáculo, apesar de terem passado quase 40 anos. Recordo-me de José Mário Branco ter cantado a marcha "Qual é a tua, ó meu?", que tinha sido chumbada num concurso promovido pela Câmara Municipal de Lisboa, na altura dirigida pelo Eng. Krus Abecasis. A marcha tinha como estrofes coisas como:

Com tanta Ladra no mundo 

O teu Rato andava à caça 
de Sapadores 
Quanto mais a dor Dafundo 
Menos a gente acha Graça 
Aos ditadores 

ou


Não é possível meter 

Águas Livres numa Bica, 
Como tu queres 
Quem pensa assim, podes crer, 
Campo Grande onde Benfica 
É nos Prazeres

O refrão era:

Qual é a tua, ó meu? 
Andares a dizer "quem manda aqui sou eu"? 
Qual é a tua, ó meu? 
Nesse peditório o pessoal já deu.

Quando acabou de cantar, José Mário Branco fez um ar (falsamente) compungido e disse baixinho: "não sei porque é que não gostaram da minha marchinha...".


Vi-o, algum tempo depois, como ator de uma peça intitulada Cogumelos, no desaparecido Teatro Vasco Santana. Era uma colagem de textos, encenada por Jorge Listopad, em que, às tantas havia uma rábula sobre a conquista de Lisboa, na qual um cabide se transformava em cruz e havia uma procissão. Uma farsa inolvidável.

E agora? Agora, vamos ouvir José Mário Branco. Que foi solidário, solitário e um digno outsider.

O PAVÃO

É uma peça de cerâmica - parte dela, na verdade -, recolhida há quase 40 anos no Castelo de Moura. Sempre que a vejo, com aquelas penas em tons de amarelo e de verde penso em pavões. Acho que é uma invulgar taça-pavão a que nos coube em sortes. Gabriela Mistral também teve um pavão assim, fugidio como o nosso.

Que sopló el viento y se llevó las nubes 
y que en las nubes iba un pavo real, 
que el pavo real era para mi mano 
y que la mano se me va a secar, 
y que la mano le di esta mañana 
al rey que vino para desposar. 
¡Ay que el cielo, ay que el viento, y la nube 
que se van con el pavo real!

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

NUNCA SE FAZ A FOTOGRAFIA QUE SE QUER...

Não sei de quem é a frase, mas é verdadeira. Com uma única exceção - na Síria, em 2003, em que me apercebi do que iria acontecer -, as imagens ficaram melhor ou pior do que esperaria naquele preciso momento. Ao recolher hoje sete rolos, feitos ao longo de 2019, constatei isso mesmo, uma vez mais. Há coisas que vão direitinhas para o lixo, outras que ficarão à espera do que virá a seguir. Não fazendo eu a mínima ideia do que virá a seguir. Como não há a veleidade de "fazer obra", isso dá uma não-pressa e  uma invulgar tranquilidade e segurança.

domingo, 17 de novembro de 2019

PASSAPORTE MOURENSE

Foi um grande fotógrafo. Teve uma carreira de décadas e foi bastante prolífico. Chamava-se António Passaporte (1901-1983), e nasceu em Évora. A sua obra é de uma extraordinária utilidade para nos dar uma imagem viva do que foi o nosso século XX. Muitas das suas fotografias estavam à venda, sob a forma de postal ilustrado. Eram fotografias a preto e branco, de grande recorte e luminosidade. Como esta, que nos mostra o interior do Castelo de Moura. Foi assim que conheci o sítio, em finais dos anos 60. Foi assim que ele se manteve, até 2002/2003. Por isso mesmo a obra de António Passaporte nos é essencial para uma reconstrução da imagem dos sítios.

sábado, 16 de novembro de 2019

POULIDOR

O que é ser segundo? O que quer dizer não ganhar? Muitas vezes me fiz esta pergunta. Muitas vezes me lembrei de Poulidor, desaparecido há dias. Poulidor não só não ganhou a Volta a França, como nunca vestiu a camisola amarela. Foi três vezes segundo no Tour e cinco vezes terceiro. Mas tinha uma imensa popularidade. Vencedores do Tour como Lucien Aimar ou Roger Pingeon estão a léguas do patamar de Raymond Poulidor. Muitas vezes me lembrei de Poulidor a propósito de uma célebre tirada do produtor cinematográfico Louis Mayer, que citava o filme Ninotchka, como tendo ganho os prémios, enquanto os filmes de Andy Hardy é que tinham sucesso. Porque estes ganhavam o coração do público. Decididamente, Poulidor, sempre segundo, era o Andy Hardy e não a Ninotchka das bicicletas.

Anquetil (à esquerda) e Poulidor (à direita)

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

CRÓNICAS OLISIPONENSES - XXXVIII

Lisboa é uma cidade gélida. Linda de morrer, mas gélida. É muito melhor nas margens que no centro. Ainda hoje, no 13 e na linha de Sintra, demonstrei isso, coloridamente, a uma velha amiga.

Há momentos de exceção. Há umas noites atrás, vi o autocarro ao longe e pensei "não chego lá, nem pensar". E a seguir também pensei "****-**, *******, *****". Ia ter de esperar 25 minutos pelo seguinte. Comecei a correr (tenham a bondade de considerar como correr o trote desengonçado de um cinquentão, tentando segurar a pasta com uma mão e o borsalino com a outra, como o da fotografia, mas a léguas dele) e o autocarro começou a abrandar. Depois, parou na paragem deserta. A porta ficou aberta longos segundos, enquanto continuava o meu trote, cada vez desengonçado. Atirei-me para dentro do 54. Olhei o motorista. Era um dos habituais das horas finais daquela carreira. Reconhecera-me, somos sempre os mesmos aquela hora. E ficara à espera. Balbuciei um "obrigado", enquanto tentava não desmaiar. Fiquei depois a pensar que uma cidade assim, gélida e distante, tem momentos de calor. Nos sítios por onde passa o povo. Como as barulhentas e alegres conversas, hoje no 13, bem nos mostraram.

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

DE QUE LADO SE ESTÁ

Ter estudado História é, neste caso e assim suponho, uma vantagem. Porque nos remete para o passado e nos dá uma leitura mais abrangente das coisas. A história recente da América Latina é um longo estendal de ingerências americanas e uma longa luta entre liberdade e opressão. E onde há fome, não há democracia e não há liberdade. Há, em tudo isto, um sim e um não.

É por isso que estou com Lula da Silva e com João Goulart e não com Jair Bolsonaro ou com Costa e Silva. Que sim com Fidel Castro e que não com Fulgencio Batista. Que sim, mil vezes sim, com Chávez e jamais com Pérez Jiménez (cujos esbirros acabaram como acabaram...) ou com Andrés Pérez. Sim, com Salvador Allende e nunca com Augusto Pinochet. Sempre com Juan José Torres e com Evo Morales e nunca com Hugo Banzer ou com esta coisa que agora se autoproclamou presidente. Sempre com Rafael Correa e nunca com Lenin Moreno. Sim a Velasco Alvarado e não a Morales-Bermúdez. Sim a Ortega, não a Somoza. A história da América do Sul não termina hoje, isso é certo. Tal como não acaba aqui a luta contra a opressão.


quarta-feira, 13 de novembro de 2019

O BRASIL AINDA É UMA COLÓNIA?

O Brasil ainda será uma colónia portuguesa? O Bloco de Esquerda parece pensar que sim. Lê-se no site bloquista:

O grupo parlamentar do Bloco exige ao governo português uma posição firme de salvaguarda dos legítimos direitos das comunidades indígenas, sublinhando que, caso o aval seja dado à construção, por parte do grupo Vila Galé, será destruída uma das maiores fontes de sustento da comunidade nativa Tupinambá.

E conclui-se, mais adiante:
Os bloquistas sinalizam que, caso o aval seja dado à construção do hotel de luxo por parte da rede hoteleira portuguesa Vila Galé, será destruída uma das maiores fontes de sustento da comunidade nativa Tupinambá, e manifestam a sua mais veemente condenação quanto a todo este caso, exigindo ao governo português uma posição firme de salvaguarda dos legítimos direitos da comunidade Tupinambá de Olivença.

Lê-se e não se acredita. Uma coisa é estar contra empreendimentos daquele género (eu estou, sem dúvida!) ou estar solidário com comunidades vítimas de um progresso desenfreado, desrespeitador e opressivo (eu também estou solidário, sem dúvida!). Outra coisa é exigir que o governo de um país tome posição e faça exigências sobre matérias de ordenamento de outro país.

De uma forma muita clara, não têm noção do que são matérias de Estado. Bem que queriam ir para o governo. Imagine-se a animação folclórica de uma governação destas. Em termos objetivos, "vivem disto", inventando causas e pseudo-causas.

O grito do Ipiranga, algo alheio ao Bloco de Esquerda (quadro de Pedro Américo,
pintado em 1888 e hoje no Museu Paulista - USP)

O GRANDE CINEMA ORIENTAL

Os nomes são-nos estranhos, difíceis de reter e de pronunciar. Para nós, claro: Bong Joon-ho, Hirokazu Koreeda, Zhang Yimou e o meu favorito, Wong Kar-Wai. Mas, há muitos anos, que o Oriente dá cartas, na escrita, na narrativa das imagens, no tratamento da cor. Vi, ontem, o desconcertante Parasitas. O final é tarantiniano, que o mundo é, cada vez mais, global. O argumento quebra e perde-se. O que é pena. A cor do interior da casa é uma grande trabalho pictórico e mereceu grandes elogios, mas o que mais gostei foi do caos visual de alguns exteriores. Porque, cada vez mais, me agrada ver o lado b das coisas.

terça-feira, 12 de novembro de 2019

O GLORIOSO REGRESSO DA UNITED FRUIT

A empresa já não existe, mas o espírito e o estilo norte-americano de intervenção sim. O episódio Evo Morales é o mais recente capítulo da saga. Não será, bem entendido, o último.


UMA QUESTÃO DE MÉTODO

De entre as muitas pequenas manias, há uma que tento não falhar. Deliberada e programaticamente. Refiro à necessidade de dar uso concreto a todas as imagens que se utilizam numa publicação. Ou seja, se a imagem lá está é por alguma razão. Das duas uma, ou é citada no texto ou tem ficha num anexo. Ficar "pendurada" é que nem pensar.

Qual o motivo do desabafo? Tenho passado dias negros à volta de publicações que colocam peças em estampas, que não as datam, que não as citam no texto, obrigando o leitor a andar páginapratráspáginapráfrente, ao melhor estilo barata tonta.

O que vale é que isto (este) acabou... Tenho usado e abusado do vernáculo. Versão científica.

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

JOACINE

Pensei que fosse uma fotomontagem de mau gosto. Cautelosamente, fui até ao twitter. Não era fotomontagem. Não é necessário fazer grandes comentários. Ou gritar indignações. A lógica de Joacine Katar-Moreira é simples e linear. Os que se acham elites pensam, de facto, assim. Olham o mundo do alto da sua arrogância.

O texto foi, entretanto, apagado do twitter. A maneira como Joacine Katar-Moreira vê o mundo não foi, decerto, apagada. Continuará messiânica, inteligente, indutora e conduta das massas. Cada geração tem o Arnaldo Matos que merece...

VOX POPULI

Eis a vingança póstuma de Blas Piñar (1918-2014). A Fuerza Nueva finou-se há muito. Conhecendo um pouco a realidade espanhola, nunca fiquei convencido com o enterro do franquismo. Ressuscitou ontem.

Ouvi falar do VOX, pela primeira vez, em agosto de 2014, no aeroporto de Barajas. O partido tinha poucos meses. O meu interlocutor era um advogado de Granada. De ar próspero e conservador. Sem rebuços disse "Es el VOX; vamos a cambiar las cosas". Fiquei desconfiado e atento. Os ventos sopram a favor dos populismos de extrema-direita. E em Espanha, o vírus franquista nunca foi aniquilado. Em 2015 tiveram 0,2% de votos (0 deputados). Em novembro de 2019 chegam a 52 deputados (15,1 % de votos). É certo que o bloco de direita (PP/C's/VOX) tem sensivelmente os mesmos deputados que tiveram em abril. Mas a extrema-direita deu um salto. Que é, para todos nós, um sobressalto.

A vitória em Ceuta é um alerta. Como o são os triunfos em Algeciras e em El Ejido (v. aqui).

O VOX cresceu. O CHEGA irá pelo mesmo caminho. A este, o que lhe falta em consistência política sobra em oportunismo e em falta de vergonha. A suivre...

domingo, 10 de novembro de 2019

E A TORRE DO RELÓGIO FOI INAUGURADA...

Passava das 20 horas de ontem quando, sem placa comemorativa nem qualquer intervenção (nesta vida política, há 1001 maneiras de desvalorizar o que está feito), se deu início ao espetáculo que assinalou a abertura da torre do relógio. Entrei no recinto, depois de uma agitada passagem pelo bar da Filarmónica, pela primeira vez depois de setembro de 2017. E pude pensar baixinho "tínhamos razão, quando por este caminho avançámos". Como me segredou uma velha amiga, o projeto, e o que dele resultou, resume-se em palavras como sobriedade e bom gosto. Um edifício esventrado e com uso precário deu lugar a uma sala digna, e que a Amareleja merece. Foi uma noite feliz, e que me deixou de alma cheia.

Foi pena ter estado tão pouca gente. Mas uma inauguração às 20 horas é quase um convite à não presença. Do ponto de vista pessoal, virei, sem disfarçar o orgulho, mais uma página. E com a sensação de ter, uma vez mais, "estado em casa".


sábado, 9 de novembro de 2019

A SOMBRA DE LULA

Por detrás de Lula, espreita um indivíduo que dá pelo nome de Sérgio Moro. Há várias coisas que a oligarquia branca do Brasil nunca perdoou a Lula. Em primeiro lugar, a luta pela dignidade humana de milhões de pessoas que estavam à margem de qualquer proteção. No meio de inúmeras contradições, tentações, erros e corrupções emergiu o FOME ZERO. O P.T. prosseguiu uma caminho de equívocos, tornando-se, muitas vezes, "como os outros". São, claro, leituras feitas à distância e cruzando muitas leituras, de vários quadrantes. Como legado, nunca antes de Lula, tal como nunca depois de Lula, o povo esteve no centro das preocupações.

Lula acabou evolvido numa trapalhada imobiliária, foi detido e esteve preso. Sabe-se agora que a investigação a Lula foi orquestrada à margem da lei. Um sistema mafioso de quem pretende ser mais que a lei e melhor que a lei. Detrás desse sistema está um indivíduo de perfil perturbador que dá pelo nome de Sérgio Moro. É ele a sombra de Lula. Personifica a oligarquia branca. E é a imagem da antidemocracia que assola os nossos dias.


sexta-feira, 8 de novembro de 2019

NATAÇÃO OBRIGATÓRIA

A Banda do Casaco cantava

Natação obrigatória
na introdução à instrução primária
natação obrigatória
para a salvação é condição necessária


E eu acho que é mesmo necessária, a natação. Luís de Camões que o diga. Devia ser um nadador fora de série. Zarolho e só com uma mão (na outra levava Os Lusíadas...) lá chegou à praia. Salvou-se e salvou o poema.

Com um toque menos épico, terminámos a redação de um livro às 00:35 de hoje. Já lá vão 155.000 caracteres, o que dará umas 120 páginas impressas. Para nos vingarmos, o título será em latim. Chique a valer, diria o outro.

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

REGRESSO AO GEAEM, 35 ANOS VOLVIDOS

Não foi bem um regresso. Precisava consultar plantas do século XVIII no Gabinete de Estudos Arqueológicos de Engenharia Militar. Uma fantástico arquivo, preservado com rigor castrense. Já não me lembro como lá cheguei, no início de 1984. Mas as plantas de Lippe, de Miguel Luiz Jacob e de outros foram-me utilíssimas nos estudos sobre urbanismo.

Ontem, enviei um mail pedido a disponibilização de um nutrido conjunto de plantas de várias fortificações, para uma investigação na fase V2, para usar o jargão aeronáutico. Esperava eu que me marcassem um dia para ir ao local, o Palácio Lavradio, no Campo de Santa Clara. Em tempos era assim, com o diretor, um coronel muito idoso (assim me parecia, mas devia ter pouco mais anos do que eu tenho agora) a atender-nos.

Não tive tempo sequer de apanhar o 12. Recebi um mail a dar duas opções: ou usava a imagem digitalizada que o site disponibiliza ou pedia, em formulário próprio (que me facultaram), as plantas com maior resolução. Aguardo agora o envio. Não devo chegar a apanhar o 12.

O outono corre assim, morno e manso. Como o outono e as codornizes de Sakai Hōitsu.

Para ver plantas de fortalezas:

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

IT'S GROUCHO MARX, STUPID!

Foi há dias, num seminário sobre assuntos internacionais. Alguém resolve citar um teórico alemão, dizendo "como disse Marx, it's the economy, stupid". Dei um salto e julguei ter ouvido mal. Ao lado, confirmaram "sim, ele disse Marx". O autor da extraordinária afirmação é uma estrela emergente da política nacional. Pouco maduro, mas é do centrão e não tarda nada está numa qualquer televisão, opinando. A expressão "the economy, stupid" (sem o it's) é muito recente. Data de 1992. E nada tem a ver com Karl Marx. A menos que o jovem estivesse a pensar no legado de Groucho Marx...

terça-feira, 5 de novembro de 2019

AGADEZ, DE NOVO

Há sítios assim, como Agadez, que se tornam estranhas obsessões. Como Tombuctu. Em 2008, estive lá perto e decidi não ir. Provavelmente fiz bem. Agadez voltou a cruzar-me o dia, há pouco, com uma fotografia de Philippe Joudiou (1922-2008). Foi tirada em 1950, ainda eu não era nascido. Agadez hoje já não é assim, seguramente. A irrecuperável imagem onírica é, contudo, a que me ficará.


Grandes São os Desertos, e Tudo é Deserto

Grandes são os desertos, e tudo é deserto. 
Não são algumas toneladas de pedras ou tijolos ao alto 
Que disfarçam o solo, o tal solo que é tudo. 
Grandes são os desertos e as almas desertas e grandes 
Desertas porque não passa por elas senão elas mesmas, 
Grandes porque de ali se vê tudo, e tudo morreu. 

Grandes são os desertos, minha alma! 
Grandes são os desertos. 

Não tirei bilhete para a vida, 
Errei a porta do sentimento, 
Não houve vontade ou ocasião que eu não perdesse. 
Hoje não me resta, em vésperas de viagem, 
Com a mala aberta esperando a arrumação adiada, 
Sentado na cadeira em companhia com as camisas que não cabem, 
Hoje não me resta (à parte o incômodo de estar assim sentado) 
Senão saber isto: 
Grandes são os desertos, e tudo é deserto. 
Grande é a vida, e não vale a pena haver vida, 

Arrumo melhor a mala com os olhos de pensar em arrumar 
Que com arrumação das mãos factícias (e creio que digo bem) 
Acendo o cigarro para adiar a viagem, 
Para adiar todas as viagens. 
Para adiar o universo inteiro. 

Volta amanhã, realidade! 
Basta por hoje, gentes! 
Adia-te, presente absoluto! 
Mais vale não ser que ser assim. 

Comprem chocolates à criança a quem sucedi por erro, 
E tirem a tabuleta porque amanhã é infinito. 

Mas tenho que arrumar mala, 
Tenho por força que arrumar a mala, 
A mala. 

Não posso levar as camisas na hipótese e a mala na razão. 
Sim, toda a vida tenho tido que arrumar a mala. 
Mas também, toda a vida, tenho ficado sentado sobre o canto das camisas empilhadas, 
A ruminar, como um boi que não chegou a Ápis, destino. 

Tenho que arrumar a mala de ser. 
Tenho que existir a arrumar malas. 
A cinza do cigarro cai sobre a camisa de cima do monte. 
Olho para o lado, verifico que estou a dormir. 
Sei só que tenho que arrumar a mala, 
E que os desertos são grandes e tudo é deserto, 
E qualquer parábola a respeito disto, mas dessa é que já me esqueci. 

Ergo-me de repente todos os Césares. 
Vou definitivamente arrumar a mala. 
Arre, hei de arrumá-la e fechá-la; 
Hei de vê-la levar de aqui, 
Hei de existir independentemente dela. 

Grandes são os desertos e tudo é deserto, 
Salvo erro, naturalmente. 
Pobre da alma humana com oásis só no deserto ao lado! 

Mais vale arrumar a mala. 
Fim. 

Álvaro de Campos, in "Poemas"

segunda-feira, 4 de novembro de 2019

O ANO DE 929 NA HISTÓRIA DE PORTUGAL (E MOURA PELO MEIO)

No mesmo dia em esta edição de “A Planície” sai para a rua, está o quotidiano “Público” a colocar à venda um livro intitulado “929”. O convite chegou-me, há meses, de forma um tanto surpreendente, pela mão do historiador Rui Tavares (sim, esse mesmo, o do “Livre”...). Tratava-se de apresentar, em poucas páginas, uma data importante para a história de Portugal. Deveriam perspetivar-se os factos anteriores e posteriores. Ou seja, o que levou a que essa data “acontecesse” e efeitos que ela teve. Uma lógica anglo-saxónica. O Rui não deve estar de acordo, mas acho mesmo que é isso.

Acabei por desafiar Fernando Branco Correia, velho colega e amigo, para esta tarefa. Optámos por uma data menos evidente dentro do período islâmico. A escolha óbvia seria 1147, data da conquista de Lisboa e de Santarém. Mas o menos conhecido ano de 929 era desafio mais estimulante. Que se passou em 929? Ocorreu a unificação do al-Andalus, sob o comando de Abd ar-Rahman III. Essa centralização do poder representou, no caso do ocidente peninsular, o esmagamento das antigas famílias de origem lusitana que, em grande medida, e ao longo dos séculos VIII e IX, continuaram a deter o poder sobre a região. Não era assim que nos “vendiam”, em tempos, o período islâmico na escola, mas a verdade é que as famílias poderosas do que viria a ser o Alentejo foram as mesmas, antes e depois da islamização. Até ao ano de 929.

E onde anda Moura, no meio de tudo isto? Está bem no centro da disputa. O território de Laqant é palco de vários conflitos, entre meados do século VIII e a segunda metade do século IX. A fortificação em si era pequena, não mais de dois hectares, ocupados por escassas centenas de habitantes. Mas o foco principal do território não estava no castelo. Era a prata de Totalica (as minas da Adiça) que suscitavam cobiça. O cronista ar-Razi fala da sua exploração em meados do século X. A importância das minas não escapava à atenção de Córdova. Tal como não escapará, em meados do século XI, ao emir Al-Mutadide.

A prata desapareceu, as minas da Adiça aguardam por um projeto de investigação que as “descodifique”, o estudo dos séculos iniciais do domínio islâmico dará ainda pano para mangas. Já não será ”no meu tempo”...

A redação do livro obrigou-nos a rever fichas, a reler livros, a construir uma lógica de apresentação. Foi útil para agora e, sobretudo, para “o outro” que virá a seguir. De momento está disponível este “929”. Que pode ser consultado nas bibliotecas públicas. Que, entre muitas outras coisas, servem para lermos, poupando dinheiro.

Crónica em "A Planície".

Orientalismo ao jeito peninsular - tela de Dionisio Baixeras Verdaguer (1862–1943), datada de 1885.

domingo, 3 de novembro de 2019

SOB A PROTEÇÃO DE SANTO HUBERTO

São do concelho de Moura e venceram o 17º. Campeonato Nacional de Santo Huberto. A prova teve lugar em terra de Bragança. Foi até melhor assim, para levarem mais longe o nome da terra. Um grande abraço aos três (João Alfaiate, Valdemar Costa e Domingos Carloto) e boa sorte para futuras competições.

Santo Huberto viveu nos séculos VII-VIII e é o patrono dos caçadores, matemáticos, oculistas e metalúrgicos. 

LE RADEAU DE CARLOS CORREIA

O incansável Prof. Jorge Gaspar continua a dinamizar, ano após ano, iniciativas no Alvito. Ora são as sessões dos Estudos Gerais, ora as exposições no Espaço Adães Bermudes. Ainda no passado sábado pude visitar uma extraordinária mostra do prematuramente desaparecido Carlos Correia. A escolha das obras foi feita por Ana Marin Gaspar, num percurso cuidado e coerente. Parte importante era dedicada às migrações. Com um regresso a La radeau de la méduse, de Théodore Géricault. Aqui revisto e retomado. Com tanta originalidade e brilhantismo como outra obra de Carlos Correia que, a partir de Veronese, retoma as As bodas de Canaã.

Quem mais se pode evocar? Cecília Meireles, bem entendido.


Pus o meu sonho num navio 
e o navio em cima do mar; 
- depois, abri o mar com as mãos, 
para o meu sonho naufragar 

Minhas mãos ainda estão molhadas 
do azul das ondas entreabertas, 
e a cor que escorre de meus dedos 
colore as areias desertas. 

O vento vem vindo de longe, 
a noite se curva de frio; 
debaixo da água vai morrendo 
meu sonho, dentro de um navio... 

Chorarei quanto for preciso, 
para fazer com que o mar cresça, 
e o meu navio chegue ao fundo 
e o meu sonho desapareça. 

Depois, tudo estará perfeito; 
praia lisa, águas ordenadas, 
meus olhos secos como pedras 
e as minhas duas mãos quebradas.

sábado, 2 de novembro de 2019

TORRE DO RELÓGIO - 09.11.2019

A inauguração vai ter lugar dentro de uma semana.

É um processo que conheço como a palma das minhas mãos. O projeto arrancou em 2015. Todos os trâmites foram cumpridos em bom ritmo. O contrato foi assinado na reta final do mandato 2013/17. Mias precisamente, no dia 6 de setembro de 2017. Apostava eu na altura que a obra estaria concluída, o mais tardar, no início de 2019. Foi um pouco mais que isso, mas esse dado não é relevante.

Prefiro recordar aqui a passagem da Bíblia que então citei. E que continua a fazer todo o sentido.

Melhor é o fim das coisas do que o princípio delas; melhor é o paciente de espírito do que o altivo de espírito.

Não te apresses no teu espírito a irar-te, porque a ira repousa no íntimo dos tolos.
Nunca digas: Por que foram os dias passados melhores do que estes? Porque não provém da sabedoria esta pergunta.

Eclesiastes, 7:8-10

Dois anos volvidos, tudo isto continua atual. Como atual se mantém um princípio essencial sempre que se requer ação: é possível fazer melhor e fazer diferente? Claro que sim. Então, faça-se!

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

PORTUGAL EM RETROSPECTIVA: 929

Saiu hoje. É uma edição conjunta Público / Tinta da China / Fundação Francisco Manuel dos Santos. Foi um prazer este trabalho em conjunto com o Fernando Branco Correia. Somos amigos há quase 40 anos e só tínhamos assinado um texto em conjunto. Agora foi bem mais a sério. E deu-nos "ideias" para outra coisa futura.

Dia 18 haverá jantar de autores do livro. Aposto num grand finale.

A FESTA, PÁ... redux

"Isto" tem uma pequena história. Por razões de ordem técnica, não pudemos terminar este ensaio em devido tempo. O que foi feito meses mais tarde, assumindo-se então a dupla autoria: Fábio Moreira e Bento Garcia (aka Santiago Macias).

A festa, pá... é um filme? Não. É um sampling. Foi divertido ter andado à volta das imagens, jogar com a montagem e tentar coisas. É um bom clip? Nem tal avaliação nos passou pela cabeça. O que nos interessava era juntar imagens e sons e ver como funcionavam. Ainda há pouco estivemos à conversa, falando sobre os próximos projetos. Essa é sempre a parte mais estimulante de tudo: olhar em frente e imaginar o futuro. Lethe será escrito e filmado um destes dias.

Aqui fica A festa, pá... em versão final e em dupla autoria. Do ponto de vista pessoal é a terceira incursão nestes domínios. A primeira teve apresentação na Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva, a segunda fez parte da seleção de dois festivais de cinema. Podia ser pior...