sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

O IMPÉRIO BIZANTINO NÃO É UMA POTÊNCIA REGIONAL

Escrevi num textinho, no passado mês de junho:

Putin não é comunista, nem socialista, clarifique-se. Nem é, à luz da nossa lógica, particularmente recomendável. É o herdeiro de Bizâncio e representa uma mentalidade imperial. A Rússia é isso. Não é preciso estudar ciência política ou qualquer outro ramo do ocultismo. Eisenstein e um par de livros dão uma ajuda.

Leitura simplista? Seguramente. Mas, segundo creio, não menos verdadeira. Tal como me dizia, há muitos anos, um então conhecido professor universitário de direita, hoje caído no esquecimento: "sabe, ainda bem que há União Soviética, caso contrário os americanos varreriam tudo... bom, mesmo, é que a União Soviética fique lá longe, que faça esse papel, mas não se aproxime de nós". Ainda hoje, quando vejo as entradas de Putin no Kremlin, entre o vermelho e o ouro de Bizâncio, me lembro dele.

REGRESSO AO MUSEU NACIONAL DE ARQUEOLOGIA

Não entrava nas reservas do Museu Nacional de Arqueologia há alguns tempo. Cinco anos, seis anos, não consigo precisar. O regresso teve lugar há dias, para verificar detalhes de um bocal de poço de Loulé. Uma peça interessante, ainda que muito fragmentada, e cuja datação andará em torno da segunda metade do século XIV. Temos (um colega e eu) um livro mesmo, mesmo a ser ultimado e quis fazer uma última verificação em torno desta peça, que conheço há muito, mas para a qual nunca olhara assim com tanta atenção. A pasta parece algarvia, e tem estampilhas que já vi noutros sítios e que Zeinab Shawky Sayed assinala em bocais mudéjares espanhóis. O sul ainda era só um, no século XIV.

Acabei por deambular por ali um pouco. Há muito tempo que não estava com a Luísa, com o Luís, com o Salvador, com a Ana Isabel, com o António... Em 1997/98, quase fiz do Museu a minha segunda casa. Foram momentos breves e compensadores, os da passada quarta-feira. Ao subir a escada interior - à qual o público não tem acesso - deparei com uma fotografia de Mértola, que ocupava o centro da exposição Portugal Islâmico. Não foi para a lixo, como imaginara. Não resisti à ideia do recuerdo.


quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

PEDRO SANTANA LOPES TEM UM VOLKSWAGEN GOLF...

Ovelhas não são para mato, diz-se na minha terra. O dr. Pedro Santana Lopes não deveria tentar escrever sobre cinema. Ao ver o hilariante texto que publicou atribuindo um filme a quem o não realizou, lembrei-me de um (bom) anúncio do VW Golf, do ano de 1984. Parafraseando:

Este é o homem que acha que Chopin compôs concertos para violino;

Este é o homem que pensa que Machado de Assis viveu até aos 164 anos;

Este é o homem que gosta de um filme que Scorsese não realizou.

Ele deve ter um Volkswagen...




ILUMINAÇÕES DE NATAL

7.000.000 de euros é o volume de despesa das autarquias de Portugal em iluminações de natal. Nunca considerei essa matéria como relevante ou prioritária. Posição que mantenho, respeitando, bem entendido, quem tenha entendimento diferente.

Defendi/defendo princípio de contenção. E uma outra lógica de trabalho. Ou seja soluções de fundo vs. festejos momentâneos / apostar no essencial vs. as coisas que passam. Em épocas em que se fala de solidariedade, de fraternidade, de dádiva, tenho dificuldade em "encaixar" este tipo de despesas, às quais muitas autarquias se associam, à custa de todos, e às quais acrescentam N "animações" e festas e festarolas com "artistas de primeiro plano".

Alternativas? Árvores da partilha, concertos pelos grupos corais de cada terra ou pelos alunos das escolas, presépios feitos por artistas locais ou pelos trabalhadores camarários (tenho excelentes recordações dos de Moura), cantes ao Menino,  iniciativas que impliquem dádiva e solidariedade. É pouco espaventoso? É. Mas é mais adequado e mais equilibrado, na minha opinião.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

RACISMO NATALÍCIO

Feliz Natal e um próspero ano de 2020, diz o VOX. Um cristianismo monocromático. Com um Baltasar à Michael Jackson.

OBJETIVAMENTE FALANDO...

O nosso futebol vai estar representado (a quatro, em princípio) na Taça das Cidades com Feira. Objetivamente falando, o nosso campeonato é de segundo plano. O resto é conversa. Para quem tem menos de 50 anos, este texto é absurdo. Tal como o será a frase "para o ano, jogas na taça das barracas", dirigido a quem não ganhava o campeonato.

Com um pouco de sorte, alguém chegará aos quartos. Mais que isso, é motivo para peregrinação a Fátima.

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

PORTUGAL - TAX FREE

Vamos todos para Portugal! diz o anúncio. Todos não serão, mas o número de franceses em idade de reforma em Lisboa tem vindo a aumentar de forma notória. Como e porquê? A razão é simples: a um reformado francês que esteja em Bordéus, basta que esteja menos de 6 meses em França e só paga 10% de impostos. Em Portugal não paga impostos, bem entendido. Um esquema legal e que tem dado origem a desequilíbrios e protestos (os tais gilets jaunes não são de geração espontânea...).

Veja-se este texto publicado no Le Figaro: https://immobilier.lefigaro.fr/article/reforme-des-retraites-les-francais-incites-a-s-installer-au-portugal_0d1aa65e-173a-11ea-b4f3-0880a125cabd/?fbclid=IwAR1U3fu13SpAmcAR08HrNce4m1nE3ahfwPeCqpTP83z1RUh-xYpOKG9hznw.

A referência aos camaradas (e o piscar de olho) não será inocente, tendo em conta a batalha que a CGT lidera contra a reforma das reformas.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

BRAVE NEW CAMBRIDGE

Um grupo de estudantes de Cambridge exigiu que fosse retirada da parede de uma das cantinas uma natureza-morta. Que aquilo é chocante e eles são vegetarianos ou vegan ou qualquer coisa do estilo. A pintura foi retirada e vai ser vista futuramente numa exposição. Imagino que regresse depois ao seu museu de origem. A uma sala só para adultos, suponho.

Isto, tudo isto, se parece cada vez mais com o ambiente de um filme de ação, Demolition man, de Marco Brambilla. Na altura, achei-o um banal filme de pancadaria. Provavelmente merece uma releitura... O mundo utópico que retrata, sem palavrões, sem contacto sexual, tudo de entediante uma paz e harmonia, está nas entrelinhas do que nos querem impor estes grupos de fanáticos. Estes, mais o da "cultural appropriation" e outros que tais.

Ver mais no El Pais e no Washington Post.

The fowl market, de Frans Snyders.

DE JOÃO DE BARROS A OLIVEIRA DA FIGUEIRA

Creio ter sido João de Barros a escrever "tudo é mercadoria". Nos livros do Tintim, encontramos o fala-barato Oliveira da Figueira, que tudo vende, em toda a parte. Deve ser uma imagem da Pátria. E oliveiras da figueira há cada vez mais.

domingo, 8 de dezembro de 2019

ROGÉRIO LANTRES DE CARVALHO (1922-2019)

Era um daqueles sábados à tarde, com nada para fazer e numa Lisboa muito diferente e sem a diversidade de coisas que há hoje. Não sei precisar o ano, mas foi seguramente em 1981 ou 1982. Fui ao Estádio da Luz, só para passar o tempo. Havia um jogo de veteranos e entrava em campo o Sport Lisboa e Saudade, nome bem kitsch, diga-se de passagem.

Às tantas houve um bruááá nas bancadas. Eusébio ía entrar em campo. Já reformado, não se livrou de levar duas sarrafadas, amuou, saiu do campo, voltou a entrar, marcou um golo, outro bruááá. Estava a começar a achar uma certa graça aquele folclore, quando entra no terreno um senhor já idoso, baixo e magrinho, com o cabelo todo branco. Corria pouco mas, de cada vez que tocava na bola, saía um drible elegante e um passe certeiro. Uma vez, duas vezes, n vezes, nos poucos minutos que esteve em campo não falhou uma. Às tantas, pergunto ao meu pai "quem é este velhinho extraordinário?". Resposta rápida: "Rogério Lantres de Carvalho, já ouviste falar?". Já tinha ouvido falar nele, claro. Tinha deixado de jogar muito antes de eu ter nascido.

Os momentos de magia foram curtos. Aquela tarde ficou-me gravada na memória. O tempo sublinhou uma certeza. Quem sabe, nunca desaprende. Pode saber de outra forma, ou ter de se adaptar. Mas não deixa de saber. Quem não sabe ou não quer aprender, vê pouco e vê curto. Facto que constato todos os dias. 

AVENIDA DA SALÚQUIA, 34 - 11 ANOS

Este blogue faz hoje 11 anos de atividade ininterrupta. São cerca de 5.700 textos. O ponto de partida foi Moura. Este quase diário da atividade autárquica, até 2017, foi-me utilíssimo quando se tratou de compilar dados e rever temas.

Número de visualizações? Quase 1.750.000. Média de leituras por dia? Acima de 400. Nada mau para este tipo de registo, marcadamente pessoal.

Até quando levarei o blogue? Não faço ideia... Até agora, ainda não me cansei.

TOP 3

1. REAL MADRID OU A MÁQUINA TRITURADORA (23.05.2010) 10015

2. BOLSA DE ESTUDOS DR. ALBERTO FERNANDES (29.03.2018) 8619

3. TODA A POESIA DE UMA CARTA ANÓNIMA (6.05.2017) 7367


sábado, 7 de dezembro de 2019

UNITED WORLD COLLEGES - UMA OPORTUNIDADE A NÃO PERDER

Não tenho o hábito de "promover" iniciativas a que não esteja diretamente ligado. No entanto, a exceção vale a pena. Até porque conheço isto de perto.

Com estas candidaturas, abre-se a jovens do ensino secundário a possibilidade de estudarem dois anos no estrangeiro. Com muita frequência, as bolsas são integrais. Ou seja, a família do aluno paga apenas as viagens.

Não se espera que os candidatos sejam génios ou marrões. Têm de ter bom desempenho escolar, ao qual devem acrescentar disponibilidade para trabalho voluntário, empenhamento comunitário, interesse em causas sociais etc.

Como escreveu uma velha amiga "em 2013 fui atrás da curiosidade. Agora posso dizer que valeu (muito) a pena. Uma experiência extraordinária de descoberta do mundo e uma formação de excelência para os jovens envolvidos. Não deixem de se informar, a oportunidade justifica-o".

Sessão de esclarecimento - Instituto Britânico, em Lisboa (dia 14, às 17:15)

Site - https://www.pt.uwc.org

DUAS OU TRÊS COISAS SOBRE A CONTENDA

Teve lugar, ontem, a abertura da Feira da Vinha e do Vinho. Não fui à Amareleja, mas uma amiga relatou no facebook um momento da intervenção de Ceia da Silva, responsável do turismo da região sobre a Contenda. Terá afirmado algo como "parabéns pela aposta na Contenda, que esteve décadas ao abandono e foi recuperada nestes dois últimos anos". Conheço-o há uns bons anos, aprecio muito o trabalho que tem feito pelo turismo alentejano e não o tenho como pessoa ligeira, desonesta ou de má fé. Ao ler esta espantosa afirmação concluí "foi deliberadamente mal informado e convenceram-no que tinha havido mesmo um abandono e que houve um milagre das rosas nos dois últimos anos". Há quem, não produzindo trabalho, inventa factos. Recordo rapidamente duas ou três coisas recentes:

1. Se houve abandono, não foi por parte da Câmara Municipal de Moura, mas sim das entidades que geriram a Contenda décadas a fio;

2. A Câmara de Moura está à frente dos destinos da Contenda há cerca de 10 nos e foi com os executivos autárquicos da CDU que um lento trabalho de recuperação da Contenda começou. Recordo a fantástica afirmação de Pita Ameixa em janeiro de 2009: "A questão da Contenda não é uma questão dramática, antes pelo contrário, abre-se aqui uma janela de oportunidades para o concelho de Moura (...)". Em causa estava o futuro de 11 trabalhadores, que ficavam "pendurados". E que a Câmara de Moura decidiu, e bem, integrar. Ou seja, primeiríssima questão, não abandonámos os trabalhadores. Que foram e são uma mais-valia para a Contenda. Sem eles, e sem a colaboração de outros trabalhadores da Câmara, muitas coisas teriam ficado pelo caminho.

3. Era necessário tirar da Contenda uma problemática vacada. Havia um efetivo com animais doentes, que não pertencia à Câmara de Moura e que era permanente fonte de problemas. O enredo sobre "a quem pertence a vacada?" já me deu para várias folhas de narrativa. A vacada saiu em 2016. Foi um problema cuja resolução não abandonámos.

4. Era necessário criar condições de trabalho para que a empresa municipal laborasse em pleno. Adaptou-se uma antiga escola primária, em Santo Aleixo da Restauração, e aí se instalou a sede da empresa, em 2014. Também aqui não houve abandono de coisa alguma.

5. Era necessário requalificar a zona de caça da Contenda. Fomos buscar gente qualificada e foram dadas indicações claras sobre o que se pretendia: qualidade, prestígio, diálogo com entidades nacionais e internacionais. Em setembro de 2017 fui, em nome da Contenda, receber um prémio do Clube Português de Monteiros, atribuído à melhor mancha mista do ano. Se tivesse havido abandono, esse reconhecimento não teria existido.

Não sei, portanto, que coisas disseram ao meu amigo Ceia da Silva. Apostámos, entre 2009 e 2017, na Contenda. Resolvemos e inovámos. É preciso e é possível fazer mais e melhor? É possível fazer diferente? Ótimo, faça-se. Em vez de dizer e de anunciar, dia sim dia não, faça-se.


sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

ÁRVORE DA PARTILHA

Não era, de início, tema que especialmente me motivasse. Um óbvio erro meu, que rapidamente corrigi. O projeto ganhou o meu respeito, admiração e empenho. Aguardava, com curiosidade e expectativa, as criações que iriam surgir, e que tinham na Paula Ventinhas e na Magda Candeias as suas principais "ideólogas". E que tinham, na Maria José Silva, uma acérrima defensora (ai de quem se atrevesse a tocar na árvore da partilha...).

Sem mais comentários, aqui deixo várias árvores da partilha. Entre 2011 e 2019.

2019

2016

2015

2014

2013

2012

2011

JORGE DE SENA

O centenário que passou à margem de Portugal.

Beirut, por Koudelka


OS PARAÍSOS ARTIFICIAIS


Na minha terra, não há terra, há ruas;
mesmo as colinas são de prédios altos
com renda muito mais alta.

Na minha terra, não há árvores nem flores.
As flores, tão escassas, dos jardins mudam ao mês,
e a Câmara tem máquinas especialíssimas para desenraizar as árvores.

Os cânticos das aves - não há cânticos,
mas só canários de 3º andar e papagaios de 5º.
E a música do vento é frio nos pardieiros.

Na minha terra, porém, não há pardieiros,
que são todos na Pérsia ou na China,
ou em países inefáveis.

A minha terra não é inefável.
A vida da minha terra é que é inefável.
Inefável é o que não pode ser dito.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

MOURA NO SÉCULO XVI, ANTES DA TELEVISÃO A CORES

Na verdade, trata-se de uma aguarela de 1642, de Brás Pereira. Está na Biblioteca Nacional, em Lisboa. Retoma o célebre  "Livro das Fortalezas», de Duarte Darmas, de inícios do século XVI. Só nos chegou esta perspetiva, não se sabendo se a outra chegou a ser feita. Do ponto de vista da identificação do urbanismo ou dos edifícios de Moura, Brás Pereira não acrescenta nada ao desenho anterior. Mas é verdade que esta representação é um pouco mais flashy, com os telhados em verde...

Reparem num detalhe no escudo: a Lenda da Moura Salúquia já era conhecida no século XVII.

ENTRETANTO, NUM PAÍS PERTO DE SI...

História verídica.

Chega um chefe de divisão, de uma câmara do sul, ao seu local de trabalho e diz-lhe a secretária "senhor doutor, ligue para as oficinas quando puder; estão a montar o presépio e querem saber de que lado fica o São José". Ele teve de vir à net e eu faria o mesmo, devo dizer.

No centro ou no norte do Portugal, nunca tal dúvida surgiria. Mas o sul é, de facto, cultural e historicamente, outro País. O sul é mais descontraído e irresponsável. Por aqui passa um certo ambiente de "It's Christmas in Heaven". Com uma imitação de alguém que tanto pode ser Tony Bennett como Barry Manilow.




quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

EU, ASSIM TIPO A RIR-ME MUNTO

O texto é incisivo e não usa os verbos em voga no facebook e, também e desgraçadamente, em alguns títulos de jornais: chocar, arrasar etc. Mas, neste caso, até poderia deles fazer uso. O texto era sobre o ensino. Cito duas passagens, a propósito do PISA: "à segunda participação, tem [a China] os melhores resultados nos três domínios avaliados. O investimento do Estado é chave, mas há também uma cultura de disciplina, que ajuda a explicar". Mais adiante, sublinha-se que "as escolas chinesa apresentam uma 'cultura de trabalho e rigor' e uma disciplina 'muito rígida', conta Teresa Cid [diretora do Instituto Confúcio da Universidade de Lisboa]. É habitual ver alunos que; às 8 horas, antes mesmo do início das aulas, já estão na biblioteca a estudar". Vinha no "Público" de hoje (p. 5).

Disciplina, trabalho, rigor, bibliotecas. Tudo isto me soa a música celestial. Preparo-me agora para a já antiga e costumeira saraivada de pontapés dos meus amigos, para quem passo, desde os tempos da faculdade, por troglodita incurável.


Anúncio da LUSÓFONA, de 2011. Olhando o futuro.

CRUZANDO O ESTREITO

O livro é interessantíssimo e merece leitura atenta. O André Teixeira, que dirige escavações em Marrocos, teve a simpatia de me convidar a fazer a apresentação. Irei começar pelo facto da inveja não ser necessariamente um sentimento negativo. O outro livro será apresentado por João Paulo Oliveira e Costa, figura bem conhecida e prestigiada na Academia e fora dela.


Um sítio em particular - Alcácer Ceguer - sempre me ficou na memória, desde as já muito longínquas aulas de árabe de Pedro Cunha Serra. Era, para mim, insólito que um local tivesse 4 (quatro) nomes: al-Qasr as-Seghir (castelo pequeno), al-Qasr al-Majaz (castelo do caminho ou da passagem), al-Qasr al-Awwal (o primeiro castelo) ou al-Qasr Masmuda, em referência à tribo berbere da região.

Curiosamente, seria uma obra de Charles Redman sobre Alcácer Ceguer a servir-me de inspiração para outras formas de abordagem a um sítio arqueológico.


terça-feira, 3 de dezembro de 2019

CRÓNICAS OLISIPONENSES - XXXIX

Tive, há semanas, de visitar um edifício, em Lisboa. Andava à procura de um local para uma exposição que tem dado mais voltas que as curvas do Marão. O sítio tem prós e contras, como tudo na vida. Mas adequa-se, com adaptações que vão dar trabalho. Mas que, por isso mesmo, tornam o desafio ainda mais interessante. Percorri todas as instalações, incluindo as casas de banho que os visitantes poderão utilizar. Ao chegar a este local, estaquei com um "oh diabo!" mental. Olhos por cima da latrina? Deve dar a sensação de se estar a ser espiado. Ou estarei a exagerar? Em todo o caso, não vai ser por aquele big brother is watching you pintado que isto pára.


segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

CLÁUDIO TORRES - ARQUEOLOGIA DE UMA VIDA

Vi, com grande interesse e emoção, os três episódios deste "Cláudio Torres - arqueologia de uma vida". As reconstituições históricas são rigorosas e o ambiente de resistência dos jovens estudantes ao fascismo dá medida da generosidade com que esses tempos eram vividos. Foi, aliás, o primeiro episódio aquele de que mais gostei. Os outros pareceram-me uns furos abaixo.

Em termos de argumento, gostei em particular de ver Manuela Barros Ferreira ser projetada para o primeiro plano. E de ganhar individualidade e destaque. Não vale a pena detalhar aquilo de que não gostei. Mas Mértola, curiosamente, aparece muito menos do que esperaria. Porque Mértola e o Cláudio são, hoje e para o futuro, indissociáveis. Sem a sua presença marcante, o projeto, a imagem da vila, o próprio avanço dos estudos islâmicos, não seriam hoje o que são. Ponto. Percebo que a visão de uma vida com toques de romance (1961-1974) seja mais interessante como argumento. Mas fico com pena que o percurso mertolense seja visto em sfumato. Até porque, hoje, o Cláudio Torres é quase consensual. Há uns anos não era bem assim e as tentativas de denegrir o seu trabalho não faltaram. Sei bem do que falo. Vivi o/no projeto de Mértola, diariamente, entre 1991 e 2006.

Que o seu percurso seja tema de três filmes diferentes é, ao mesmo, invulgar e merecido. Depois do filme de Pierre-Marie Goulet, tivemos agora esta mini-série. Já só falta o documentário de José Manuel Silva Lopes. A suivre...


domingo, 1 de dezembro de 2019

DO GANA, COM LUZ, CALOR E COR

Há quase um ano referi aqui os trabalhos do fotógrafo ganês Prince Gyasi Nyantakyi. "Descobri", há dias, outro artista de Acra que anda pela mesma onda de luz e de cor. Derrick Ofosu Boateng (não, não sei se é parente dos outros...) é um jovem fotógrafo que, com frequência, regista duas pessoas na mesma imagem. Algo semelhante a um "pas de deux" estático e cheio de cor.

A cor é manipulada? Sim, seguramente. A pergunta a fazer é outra. Quais são as imagens que hoje o não são?

Está no instagram e, em breve, haverá site:
https://derrickboateng340.wixsite.com/derrickofosuboatenga


VINHO

Numa recente entrevista ao “Diário de Notícias” dizia, textualmente, um desses super-críticos de vinhos “um problema é que Portugal também produz muito lixo. Os vinhos de 4 euros do supermercado, coisas dessas (...)”. A frase é de uma pedantaria sem limites. Lendo o resto da entrevista, com frases tão complexas como as descrições sobre aromas e tabacos que enchem os contra-rótulos de tantas garrafas, fiquei a pensar “ele saberá tudo sobre castas e evoluções, mas não sabe o que é o calor humano que há num simples copo de vinho”. Vinho tem a ver com amizade, com presença e com convívio. O mais espantoso copo que me ofereceram foi há muitos anos, numa aldeia nos confins de Mértola. Era um carrascão violento. A garrafa, de um agricultor já bastante idoso, foi aberta com gestos de preciosidade. O homem estava a dar-me o que era dele. E era tudo o que ele tinha para me dar. Para além da sua enorme generosidade. Beber vinho é isso, essa comovente proximidade, antes dos “aromas evoluídos” e das “sugestões de frutos silvestres”.

Lembro-me desse dia de há quase 30 anos, tal como me recordo dos passos dados com o Manuel Ramalho, num final de manhã, em dezembro de 2016. Era um sábado de feira do vinho e fomos Amareleja fora, numa peregrinação que foi incorporando jovens da aldeia. Os copos bebidos foram poucos, mas o ambiente de fraternidade foi muito grande. Um e outro completaram-se. Homero, na Odisseia, fala no “roxo ardente vinho”. O especialista dos vinhos caros não sabe o que isso é. Nunca foi ao Liberato, nem ao Tapas, nem ao Barriga Cheia, nem ao Vela. Johannes Vermeer parece ter estado no Vela e desenhado o chão, um dia, há muito tempo...

Na primavera deste ano, fui à adega de um senhor mais velho, de gestos suaves e de grande cordialidade. Uma pessoa "à antiga", se assim se pode dizer. Queria oferecer-me um par de garrafas da sua produção. Fiquei sensibilizado, mas, sobretudo, enormemente surpreendido. Afinal, o par de garrafas eram umas caixas... Vinho forte, denso, encorpado e saboroso, temperado pela amizade. Beber vinho sem amizade, ou a sós, é vício e tristeza. O meu vinho não é o das “harmonizações”, nem o do “fine dining”, em sítios com pessoas que não conheço nem voltarei a encontrar. Coisas como “tons de flores e especiarias frescas”, “notas de bergamota”, “fumado, salino, com as frutas pretas e do bosque por trás, há notas doces e tostadas da madeira, compotas” ou ainda “frutos do bosque, violetas, notas discretas de madeira de estágio” e “muito balsâmico, com notas de eucalipto e mentol” nada me dizem. São palavras abstratas e que não rimam com amizade, conversa, risos, cante e com aquele rumor de que são feitas as tabernas.


Dentro de dias é a feira da Amareleja. Lá estarei. Cada dia que passa me fazem mais sentido estas palavras, escritas há anos: “entre o céu e a terra se fez a Amareleja. Entre o céu e a terra se faz o vinho da Amareleja, que neste livro tantas vezes encontramos. E que tão presente está na imagem da aldeia. Partamos com o vinho em direção a um céu feérico. Não esqueçamos nunca o poder mágico da terra e do céu feérico sobre nós”.


Crónica em "A Planície"