quarta-feira, 23 de setembro de 2020

UM ABEL FERRARA LUSITANO

Estou à espera que a nuvem passe, empoleirado num banco de pedra. Ao meu lado, um carro de transporte de valores faz uma lenta, e ilegal, marcha-atrás. Um clio velhíssimo tem de parar, por causa da manobra. Detrás do meu banco sai disparada uma jovem de ar desleixado, que resolve cumprimentar a dona do clio dando um pontapé no carro. Erra no local e exagera na força. O farolim do clio voa, em pedaços. A nuvem passou, mas com tanto carro tenho de esperar mais um pouco. Os ânimos exaltam-se. A jovem "oh, c******, lá f*** a merda do farolim". A dona do carro cruza os braços, gelada. Depois diz "agora pagas essa merda". Depois, tira a cabeça de fora e interpela-me "já que está fazendo fotografias, bem pode fotografar isto". Faço que sim, por fazer. A dona do clio vai estacionar o chaço. A jovem continua um chorrilho de palavrões, f***-se, c******, p*** que pariu, enquanto se senta numa esplanada e telefona, num tom que se deve ouvir em Figueiró dos Vinhos, a um mecânico "olha lá, quanto é que custa uma merda de um farolim?". A dona do clio chega entretanto. Ficam as duas na mesma mesa, rindo loucamente. Mas loucamente mesmo, não é loucamente assim-assim. Por prudência, abrevio a sessão, meto-me no carro e zarpo para a Lousã. Telefono a uma velha amiga "quando isto acabar, escrevo um livro". Ao longo de oito semanas, vinca-se-me a velha convicção que há um Portugal paralelo e muito pouco falado ou conhecido.


terça-feira, 22 de setembro de 2020

UM POUCO DE ARQUEOLOGIA MUSICAL

Ando arredado das novidades há décadas. Diga-se de passagem que a minha onda nunca foi muito pop. Nem o rock metálico. Era muito mais o punk 😊, mais o ska e o reggae. Por isso dei um salto no carro - ia na A23, a caminho da tal terra que mudou de nome - ao ouvir estes FONTAINES D.C.. Nesta altura arrisco sempre o número do velho jarreta, mas não faz mal... Gostei MESMO de Televised mind, que tem um som muito pós-punk:


ENA!

MARCO DO CORREIO

Por detrás do marco do correio está um edifício projetado por António Reis Camelo e, depois, muito alterado por Cândido Palma de Melo. Fica em Tomar, na esquina da Rua de S. João com a Rua Infantaria 15. À frente do edifício fica a majestade da igreja de S. João Batista e, um pouco mais ao fundo, a Câmara Municipal.

Enquanto resmungava baixinho "contra" a luz cinza da tarde ("400 ASA, a 125 e abertura de 11, deve ficar lindo...") e esperava que não houvesse ninguém em frente do edifício, apareceu o carro dos CTT. Vinha recolher o correio. O funcionário abriu o marco e recolheu 1 (uma) carta. Longe vão os tempos em que o sr. Ludgero abria o marco em frente ao tribunal de Moura e quase enchia aqueles fantásticos sacos em couro que os carteiros então (então é igual a 1972 ou 1973) usavam.

Tentei recordar há quanto tempo não escrevo uma carta e não consegui lembrar-me. Não cabem aqui as cartas para o Departamento da Faculdade, para as Finanças etc. Mas uma carta mesmo, daquelas "nós por cá todos bem", não sei há quanto tempo não mando. Quase me passou um sentimento de culpa ante o ar resignado do carteiro. Eram 16:05.

Resmunguei mais um pouco, antes de rumar a Constância. Pelo caminho dei comigo a lembrar-me de uma velha canção de Alberto Ribeiro. Um grande cantor, tão esquecido como as cartas e como, em breve, os marcos do correio.













segunda-feira, 21 de setembro de 2020

RESTAURO DA IGREJA DE SANTA ISABEL, EM LISBOA, VENCE PRÉMIO VILALVA

A notícia foi hoje divulgada. O Prémio Vilalva é atribuído ao restauro de um igreja em Lisboa.












O júri salientou ainda: 

A espetacularidade e requinte estético do projeto de pintura de Michael Biberstein (na foto), que cobre a totalidade da abóbada. Trata-se de uma das mais notáveis intervenções da arte contemporânea numa arquitetura clássica, concretizada depois da morte do pintor com o acompanhamento do artista Julião Sarmento e do curador Delfim Sardo;

A pluridisciplinaridade e elevadíssimo nível de qualificação da equipa (coordenada pelo Padre J.M. Pereira de Almeida e pelo Arq. João Appleton) que tem procedido aos trabalhos, potenciando saberes da engenharia, da conservação e restauro, da história da arte, do design de equipamentos e da arte contemporânea;

A metodologia de intervenção em faseamentos sucessivos que, em 2020, se concentram na valorização do altar inicial da Igreja e na criação de novo mobiliário litúrgico. 

O júri decidiu ainda atribuir uma  menção honrosa ao projeto de reconversão e reabilitação do Prédio na Rua da Boavista, 69, também em Lisboa. A decisão, de acordo com o júri, justifica-se pela qualidade do projeto de reconversão e reabilitação de um prédio que será de fundação fino-setecentista e pelo empenho dos arquitetos Filipa Pedro e Paulo Pedro na recuperação e recriação de diversos elementos construtivos e decorativos do edifício inicial ou das sucessivas fases da sua historicidade. 

Ver - https://gulbenkian.pt/noticias/restauro-da-igreja-de-santa-isabel-em-lisboa-vence-premio-vilalva/

domingo, 20 de setembro de 2020

DESCUBRA AS DIFERENÇAS E GANHE UM MAGNÍFICO APARTAMENTO

Nas férias do verão (1971, 1972, por aí), o Diário Popular lançava um concurso. Publicava diariamente dois desenhos com diferenças (umas seis ou sete, se não me falha a memória). Quem queria concorrer tinha de juntar todas as publicações feitas ao longo do verão e remetê-las ao jornal. Era, depois, sorteado um apartamento entre os que acertavam tudo.

Lembrei-me hoje deste concurso ao ver, no facebook de um amigo, um "discurso" que faz lembrar ISTO:


O MAR ALI AO LADO

São três quilómetros em linha reta, até ao oceano. Antes não era assim. O mar chegava até Atouguia da Baleia. Um canal que vinha ao longo do vale, onde hoje vemos terras de cultivo, fazia desta pequena localidade um porto importante. O mar escapou-se e o esplendor de Atouguia ficou gravado nas pedras, na pintura e na escultura da igreja de S. Leonardo. Um gótico que quase parece deslocado, no meio da paisagem e numa localidade que perdeu a importância de outrora.

A igreja conserva uma Natividade pouco comum. Foi o motivo primeiro da visita desta manhã. Com tempo para recordar a primeira visita a Atouguia, em 29.1.1983...










sábado, 19 de setembro de 2020

NO FORTE

É uma visita que não nos deixa indiferentes. Felizmente, há muita gente a visitar o Forte de Peniche, numa tarde de sábado que mais parece de outono avançado. Ao menos, ali não acontecerá a vergonha nacional que foi a transformação da sede da PIDE em condomínio de luxo.

Encontro, por toda a parte, memórias da repressão. Vejo, por várias vezes, referências a um amigo que ali esteve preso durante 6 anos. Não resisto a telefonar-lhe. A conversa prolonga-se por muitos minutos, por entre recordações de um passado já distante. Fica com a esperança que aquele espaço sirva de exemplo. Também tenho essa expectativa. O futuro museu é uma obra necessária.

Uma nota curiosa. Os funcionários (não me refiro ao cordial segurança de uma empresa privada) são de uma rudeza difícil de descrever. Fico na quase dúvida se aquele comportamento malcriado e "parapidesco" é uma forma de nos introduzirem no ambiente do forte...




quinta-feira, 17 de setembro de 2020

QUASÍMODO BEIRÃO

Início de manhã e meio de tarde à volta de S. Pedro do Sul. Com idas e vindas entre Viseu, Tondela, Santa Comba Dão e Tábua. Mais de 30 minutos no alto de um escadote para fotografar um edifício de Jorge Ferreira Chaves. Ora aparecia o sol quando não devia, ora alguém estacionava onde não poderia, ora isto, ora aquilo, oscilando entre o automático e o manual da máquina. Mais de meia hora nisto ante o gáudio - espanto - as perguntas de quem passava. Depois de fechado o "dossiê São Pedro do Sul" e a caminho do carro dou com isto. Mas isto é possível? Estava exausto, pior fiquei.




quarta-feira, 16 de setembro de 2020

A NOVA DIREITA É ISTO??? ESTAMOS TRAMADOS...

"Não teremos extrema-direita enquanto Paulo Portas fizer o pleno da demagogia e se apropriar dos temas caros a essa faixa do eleitorado". Escrevi isto num artigo para o jornal "A Planície" de 1 de junho de 2014. Infelizmente, não me enganei. Desaparecido Portas da cena política, sem ninguém com punch naquela área, rapidamente apareceu um neo-fascista, com todos os predicados para um reality-show: boçal, ordinário e com arte para explorar a raiva do público de Howard Beale.

Surgiu, há dias, este vídeo nas redes sociais. É um ato de "não-comunicação". Mais de treze minutos de arrazoado teórico suscetíveis de entusiasmar uma multidão de pinguins.

Momentos para Ricardo Araújo Pereira morrer de inveja:

1. O "boa noite" inicial. Supostamente, porque os recetores da mensagem a verão à noite. Como a minha prima Feliciana, que ditava cartas para o marido perguntando "então cá chove muito?". E depois explicava à minha mãe: "sim, porque lá é cá para ele". Uma lógica imbatível.

2. A referência ao "esforço herculano" (ao minuto 13:13). O que será um esforço herculano?

3. O moço silencioso por detrás do "presidente". Ao menos podia ter sido convidado a despedir-se, como fazia António Lopes Ribeiro com o maestro António Melo, no programa "Museu do Cinema": "diga boa noite aos telespetadores, maestro". E o músico, que acompanhava os filmes ao piano, lá disparava um tímido "boa noite".

Com jovens destes, bem pode o outro esfregar as mãos...


terça-feira, 15 de setembro de 2020

A SIC QUE VALE A PENA

Depois de ouvir os comentários rasteiros de Ana Gomes - que tem tempo de antena à borla - sobre o candidato João Ferreira fiquei sem dúvidas sobre o tom do que aí vem. E há amigos meus que se indignam quando uso a expressão "circo".

Tendo em conta o que a SIC TV é, deixo aqui uma imagem da outra SIC (Sociedade de Instrução Coruchense). A que vale a pena. É centenária e tem banda de música.

A fotografia foi feita pouco antes de rever e registar um muito adulterado projeto do arq. José Gomes Bastos.



segunda-feira, 14 de setembro de 2020

JOÃO FERREIRA À PRESIDÊNCIA

Irei votar em João Ferreira nas eleições para a Presidência da República. Por ser do meu Partido, mas muito mais do que isso. Por ser um jovem quadro, com um elevado nível de preparação técnica e política.

A escolha surpreendeu-me, pela positiva. Essa foi a nota que mais me agradou, logo de início.

Claro que a campanha anti-João Ferreira já começou. Ontem, num divertido programa da Rádio Renascença, vários comentadores da mesma área política - um deles, Nuno Botelho, foi especialmente divertido, acusando a Festa do Avante! de ser irrelevante, por não criar empregos 😀😀😀 - ignoraram completamente João Ferreira. Já sabemos o que o/nos espera. Como dizia um "algum defeito lhe hão-de encontrar...".

Vamos em frente, João!



SPELLBOUND VISEENSE

Chato mesmo é chegar ao hotel depois da uma da manhã, todo partido, e ver que o chão é uma alcatifa de olhos. Levei a noite toda sonhando com uma cena de um filme de Hitchcock, rodado há 75 anos.

Não tarda muito, estou como a senhora que era perseguida pelas torres do Técnico...









domingo, 13 de setembro de 2020

E VÃO 15

Já contei isto mais que uma vez, mas vale sempre a pena a repetição. Quando a revista "Arqueologia Medieval" saiu à rua, em 1992, foi-lhe augurada curta duração. Que o modelo de financiamento estava errado blablabla que aquilo não critério científico blablabla que era mais uma "astracanada" dos folclóricos de Mértola etc. Pois bem, ontem foi feita a apresentação do número 15. A revista dura há 28 anos. Não é anual? E daí? O importante é que saia, e que prossiga. Como tem acontecido.



sábado, 12 de setembro de 2020

CONCEIÇÃO SILVA TORREJANO E SOLENE

É um projeto de juventude de Francisco Conceição Silva (1922-1982). Tem o ar formal e solene de todos os desenhos do Estado, naquela época. Curiosamente, o edifício parece-me ter resistido bem ao tempo. Não está "velho" nem "ultrapassado". O que é sinónimo de qualidade.

A carreira, feliz até determinada altura, conturbada depois de 1974, ganharia outro alento nos anos 60 e 70. Conceição Silva criou projetos marcantes e construiu um ateliê que marcou muitos jovens arquitetos. O seu nome está hoje, e fora do circuito da arquitetura, completamente esquecido.

Quantas pessoas, em Torres Novas, saberão o nome do autor deste bonito edifício?




sexta-feira, 11 de setembro de 2020

STARDUST MEMORIES Nº. 41: ESTRADAS DE PARALELOS

Estava mais que convencido que os paralelepípedos em granito estavam já só reservados a arranjos nas áreas urbanas. Ao sair da Golegã, em direção a Santarém, fui "acordado" pelo som inconfundível dos pneus a trepidar nos "paralelos". Ao longo de umas centenas de metros na Nacional 365 regressei a um passado já razoavelmente distante. Quando muitas estradas no nosso país eram assim. Haverá, seguramente, mais troços.

As estradas tornavam as viagens ruidosas - entre Reguengos e Évora era quase impossível falar - e o meu pai reclamava que aquilo dava cabo da suspensão do carro. Mas que me soube bem aquele regresso ao passado, por entre o calor da tarde e a perspetiva de uma jornada ainda longe de terminar, lá isso soube.





E AGORA... TINO DE RANS

Alguns amigos discordaram do uso da palavra circo a propósito das presidenciais. O candidato fascista não me merecerá mais referências. A candidata Ana Gomes, mais o sue espalhafato "fraturante" e folclórico, também. Marisa Matias diz que quer combater o medo - no 1º de maio, o seu Bloco propôs celebrações simbólicas e virtuais - e eis que surge Tino de Rans. Está que tudo dito...



quarta-feira, 9 de setembro de 2020

REAL DE MOURA: DE 49 PARA 50

Várias vezes o tenho dito, com contentamento e uma ponta de "angústia". Assisti à primeira atuação do grupo no dia 9.9.1971. Tinha 8 anos e o meu pai levava-me, com regularidade, às corridas. Ainda bem que o fez.

Depois dessa data, muita água correu debaixo das pontes. Muitos triunfos mas, sobretudo, a construção de uma reputação que põe os Forcados de Moura entre os melhores. O resto é conversa.

Já lá vão 49 anos. No ano que vem, isto vai ser uma coisa séria. Tenho a certeza que vai!



terça-feira, 8 de setembro de 2020

CIRCO À VISTA

A antiga militante do MRPP já veio dizer que é candidata. Prevê-se uma animada gritaria. O candidato fascista já veio bolçar insultos a despropósito. Continua a ser diligentemente promovido por uma imprensa acéfala. Hoje, já esquecida a Festa do Avante!, uma publicação online dizia que a criatura chegou e venceu. Não se percebo o quê, e o texto deixa-nos na mesma.

Logo pela manhã, um daqueles inefáveis comentadores da Antena 1 referia as ideias dos candidatos e o debate que aí vem. Quais ideias? Qual debate?

Pão e circo. Sobretudo, muito circo.




segunda-feira, 7 de setembro de 2020

BAILE DE MÁSCARAS

Quando, na passada semana, aproveitei uns minutos de espera para poder fotografar – agora, é o sol que manda no meu trabalho, o que dá aos dias um toque poético... -, passei pelo Centro de Trabalho do PCP de Vila Franca de Xira. Ao comprar a entrada, a senhora que me atendeu perguntou “o camarada é aqui de Vila Franca?”. A pergunta deixou-me contente. Ou seja, os militantes são muitos e ela não os conhece a todos. Esclareci que não. Ato contínuo informou “não se esqueça que, se quiser ir ao comício, tem de reservar lugar”. A recomendação deixou-me tranquilo. A “Festa do Avante!” será marcada pela disciplina, pela organização e pelo sentido de responsabilidade.

Sou contra a realização da “Festa do Avante!”?

Nem por sombras, claro. Irei, com a mesma contenção com que tenho ido a outros eventos públicos. Já fui a corridas de touros, magnificamente organizadas e onde o rigor imperou; fui a uma ópera ao ar livre, onde o padrão de disciplina foi o mesmo. Tenho ido a festas de amigos onde o distanciamento, com uma ou outra exceção, tem sido a regra.

Não faltam os que querem mascarar a tentativa de impedir uma festa política de preocupação sanitária. Que não tem sido válida para outras iniciativas, do mais variado tipo. E com muito menos profissionalismo, rigor e eficácia do que, estou certo, irá acontecer na Atalaia. A Festa, com toda a convicção e alegria que pomos no terreno, será mais contida que em anos anteriores. Não se passa por uma situação destas ignorando-a e agindo de forma ligeira.


Tem-se apresentado a Festa como um “ajuntamento”. Que não o será. Ou, pelo menos, sê-lo-á muito menos que a Feira do Livro, as celebrações religiosas na Cova de Iria ou a caótica chegada de turistas ao Algarve. E com muito melhor organização, por certo.


O que aqui está em causa é outra coisa, bem diferente. Toda esta “preocupação” esconde, ou pretende esconder, o mais primário anticomunismo. Agitam-se fantasmas e escolhem-se culpados. Uma comunicação social servil ajuda à festa, atacando o PCP às claras e promovendo, sem vergonha, um recém-criado partido fascista. As redes sociais, que são reflexo, mas não reflexão, ajudam e espalham a campanha anti-PCP.


Numa conhecida ópera de Verdi, o rei era assassinado por conspirados disfarçados, durante um baile de máscaras. Agora, em tempo de máscaras, já ninguém se disfarça para estas campanhas. Vale a pena citar as palavras recentes do jornalista Nuno Ramos de Almeida: “com os artigos sobre a festa do avante assiste-se a um ajuste de contas. Não apenas em relação ao PCP e a sua história, mas também com o próprio passado desses críticos. Estão a ajustar contas com aquilo que foram aos 20 anos, antes de renegarem a época em que acreditavam que não viviam no melhor dos mundos possíveis e aderirem à lista dos admiradores dos poderes deste mundo. "Os vencidos da vida quando se juntam é para comer", dizia alguém da geração de 1870. Os vendidos de hoje quando escrevem é para ajustar contas contra tudo o que lhes lembra que já acreditaram em qualquer coisa que não seja ajoelhar ao poder do momento”.


Crónica em "A Planície"












Um comício que não foi uma baile de máscaras... Uma Festa que veio mostrar o que são a organização e a competência.

domingo, 6 de setembro de 2020

IGREJA

Não é por ser domingo, mas apenas porque sim. O azul do céu e o dourado dos muros pintados por Alfred Sisley tem sido a minha visão de muitos dias. Nem sempre assim, quase sempre num tom bonito. Na solidão dos dias - horas a fio sem dizer uma palavra -, terra após terra, Portugal dentro.










Tijolo
areia
andaime
água
tijolo.
O canto dos homens trabalhando trabalhando
mais perto do céu
cada vez mais perto
mais
- a torre.

E nos domingos a litania dos perdões, o murmúrio das invocações.
O padre que fala do inferno
sem nunca ter ido lá.
Pernas de seda ajoelham mostrando geolhos.
Um sino canta a saudade de qualquer coisa sabida e já esquecida.
A manhã pintou-se de azul.
No adro ficou o ateu,
no alto fica Deus.
Domingo . . .
Bem bão! Bem bão!
Os serafins, no meio, entoam quirieleisão.

Carlos Drummond de Andrade

sábado, 5 de setembro de 2020

WHOOP WHOOP PULL UP! PULL UP!

Nunca tinha conduzido um carro com ESP. O tal programa eletrónico de estabilidade. Supostamente, aumenta a segurança. Não achei nada. Por várias vezes, o carro guinou sem aviso, por achar que eu não estava a ir bem. Ao passar as Serras de Aire e Candeeiros, senti um desvio brusco para a esquerda. Um pequeno susto depois da meia-noite...

Ao chegar ao destino, procurei o botão e tirei aquela porcaria do automático. Veio-me à memória a recente automatização feita em aviões, sem que a devida informação fosse fornecida aos pilotos. O resultado foi trágico. E os pilotos não iam sozinhos na A1, fora de horas.

Devo estar a ficar mais velho, mas a total automatização das coisas deixa-me reticente.



sexta-feira, 4 de setembro de 2020

TÁVORA RIBEIRINHO

Foi um dos melhores projetos que a Caixa Geral de Depósitos concretizou. A par dos de Gonçalo Byrne, Carrilho da Graça e Hestnes Ferreira. E é muito melhor "ao vivo" que visto em fotografia. Poderia esgotar aqui adjetivos elogiosos. Prefiro dizer que basta comparar este edifício com aquela coisa do Fórum - por uma questão de decência, omitirei outros adjetivos -, para se ver o que deve ou não ser feito.

Viva Fernando Távora.


TOPONÍMIA PENAFIDELENSE: O QUELHO E A AZINHAGA

Ser "de outro país" tem destas coisas. Não tenho memória de, a sul do Tejo, ter visto esta palavra numa placa toponímica. Mas o Quelho do Abade, em Penafiel, lá estava, bem visível. Como é que nós diríamos? Beco ou, melhor ainda, azinhaga. Aí sim, a diferença é total, com a memória da consoante solar do árabe ainda bem presente.

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

DUARTE DARMAS: O 18º. APOIO

Enquanto prossegue a "saga" da recolha de imagens (vamos em 85%) vão ainda chegando apoios ao projeto. Como este, que surge de forma inesperada. Uma parceria logística, que se revela importante para concretizar milhares de quilómetros em constantes idas e vindas:

Adolfo Teles Lda.
Av. de Badajoz
Posto BP de Elvas

Obrigado, em nome da MULTICULTI!

ESSE IMENSO RIO BOLI

Ao fotografar há dias, com bonita luz matinal, o edifício da direita, recordei-me (recordo-me sempre que ali passo, valha a verdade) de uma velha história ocorrida num organismo estatal, a propósito do teatro à esquerda. Foi há mais de 20 anos, que o tempo é tramado.

Estava a ser organizado um evento no Porto e era preciso certificar o local. O assessor daquela entidade, pouco habituado ao sotaque do Porto, ligou para a autarquia, falou com alguém e deixou depois uma nota: A SESSÃO VAI SER NO RIO BOLI. Uma história quase tão boa como a da senhora que dizia "bossa nova? nunca ouvi falar nesse conjunto..."



terça-feira, 1 de setembro de 2020

CAMINO VERDE

As sucessivas passagens pelo Minho (Alto e Baixo) evocam-me, sempre!, uma velha copla celebrizada por Antonio Molina. Por el camino verde, camino verde, que va a la ermita, é o que ouço, curva após curva, do Baião para Felgueiras, depois Penafiel, depois Gondomar. Sempre tudo verde.

Aqui fica um tema imortal (lembram-se o que "lhe fez" Herman José?), na interpretação de outro grande da música espanhola, Angelillo (1908-1973). Aqui no filme "Suspiros de Triana", de 1955. Não sei quem é vamp encostada ao piano, que faz lembrar vagamente Anna Magnani. A encenação é gira, a fazer lembrar o "foi você que pediu um Porto Ferreira?".

Hoje há mais camino verde.



segunda-feira, 31 de agosto de 2020

E TERMINA AGOSTO...

 ... assim, sem glória. Não houve escavações arqueológicas no Castelo de Moura. Não houve festas. Nem romarias. Não fui ao meu concelho como gostaria. Em setembro não haverá feira, nem as aulas começarão na terceira semana. Tempos estranhos.

Foi um mês de trabalho de terreno. De propostas e de apostas futuras. De continuação de recolhas e de registos. Alea jacta est, já lá dizia o outro senhor.

domingo, 30 de agosto de 2020

MUDEJAR CONIMBRICENSE

Uma parte do passado de Coimbra continua por valorizar, de forma global e assertiva. Cidade mediterrânica mais a norte, talvez uma certa vertente fradesca tenha contribuído para ocultar a presença do sul islâmico. Poucos conhecem a inscrição em língua árabe nos muros da Sé Velha, tal como é globalmente desconhecida a presença impactante dos azulejos sevilhanos no seu interior. O Museu Nacional de Machado de Castro tem, felizmente, um teto mudejar em exposição. O teto não pode ser deslocado do sítio. Mas há outros fragmentos, que serão vistos em Lisboa, que ilustram bem um período e uma arte.



sábado, 29 de agosto de 2020

PORFÍRIO PARDAL MONTEIRO, NA RUA PRIOR DO CRATO

Retomo a Volta a Portugal. Quarta paragem do primeiro dia: Rua do Prior do Crato. Com um nome grande da arquitetura portuguesa no século XX. Porfírio Pardal Monteiro começou a trabalhar, ainda muito jovem, na Caixa Geral de Depósitos. Desenhou quatro edifícios, que conheceram diferentes destinos:

Beja - é hoje uma capela da Igreja de Santa Maria.

Setúbal - demolido.

Alcântara - mantém-se em funções, muito modificado, mas com muitos traços originais, também.

Porto - mantém-se em funções.


sexta-feira, 28 de agosto de 2020

POESIA NA LOURINHÃ

Retomo o périplo arquitetónico. No meio dos projetos e das fachadas, há outro Portugal que surge. Mesmo a chegar à Lourinhã, encontro esta placa:










LENHA BATATA

PARA AGRIA E DOCE

LAREIRA


No verso lê-se:

BATATA LENHA

AGRIA E DOCE PARA

LAREIRA


Em tempos que já lá vão o Jornal de Letras publicava coisas assim. Os autores eram apresentados como novos valores da poesia.

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

SUDÃO ORIENTAL

Sudão - سُودَان [sûdân] é o plural de أَسْوَد [as-swad], que quer dizer negro. Antes designava toda uma parcela de África. Hoje é uma zona específica. De onde vem Nyanjam Malek. E não, a beleza não é "exótica". A beleza é.


Femme noire

Femme nue, femme noire
Vétue de ta couleur qui est vie, de ta forme qui est beauté
J'ai grandi à ton ombre ; la douceur de tes mains bandait mes yeux
Et voilà qu'au cœur de l'Eté et de Midi,
Je te découvre, Terre promise, du haut d'un haut col calciné
Et ta beauté me foudroie en plein cœur, comme l'éclair d'un aigle

Femme nue, femme obscure
Fruit mûr à la chair ferme, sombres extases du vin noir, bouche qui fais lyrique ma bouche
Savane aux horizons purs, savane qui frémis aux caresses ferventes du Vent d'Est
Tamtam sculpté, tamtam tendu qui gronde sous les doigts du vainqueur
Ta voix grave de contralto est le chant spirituel de l'Aimée

Femme noire, femme obscure
Huile que ne ride nul souffle, huile calme aux flancs de l'athlète, aux flancs des princes du Mali
Gazelle aux attaches célestes, les perles sont étoiles sur la nuit de ta peau.

Délices des jeux de l'Esprit, les reflets de l'or ronge ta peau qui se moire

A l'ombre de ta chevelure, s'éclaire mon angoisse aux soleils prochains de tes yeux.

Femme nue, femme noire
Je chante ta beauté qui passe, forme que je fixe dans l'Eternel
Avant que le destin jaloux ne te réduise en cendres pour nourrir les racines de la vie.

Léopold Sédar Senghor, Chants d'ombre


quarta-feira, 26 de agosto de 2020

NOVO ÉS, VELHO SERÁS

Fotografia - Robert Mapplethorpe
 

Um texto importante, o de Carmen Garcia, no "Público". Na primeira pessoa e sem sentimentalismos fáceis. Direto ao tema.

Era uma vez um lar

Como aluna de Enfermagem, ainda com insuficiente sentido crítico, fiz o melhor que consegui. Num esforço hercúleo para não fugir, franzi o sobrolho em concentração, coloquei um bocadinho de creme perfumado debaixo do nariz, tal como a minha orientadora tinha feito, e uma máscara. E depois passámos horas a fazer pensos.

A Fundação Maria Inácia Vogado Perdigão Silva, em Reguengos de Monsaraz, foi o primeiro lar onde entrei na vida, era ainda aluna de Enfermagem. Lembro-me dos tectos altos do edifício, da simpatia da funcionária que nos recebeu, vestida com uma bata azul e branca aos quadradinhos, e de uma sala de convívio que me pareceu gigante. Infelizmente as recordações boas terminam aqui. E começa o cenário dantesco.

Como aluna de Enfermagem, ainda com insuficiente sentido crítico, fiz o melhor que consegui. Num esforço hercúleo para não fugir, franzi o sobrolho em concentração, coloquei um bocadinho de creme perfumado debaixo do nariz, tal como a minha orientadora tinha feito, e uma máscara. E depois passámos horas a fazer pensos.

Tudo isto que vos conto aconteceu em 2009 e suponho que, ao longo destes 11 anos, muita coisa tenha mudado. Só que aparentemente não mudou o suficiente. E sabem qual é o verdadeiro problema, muito maior que qualquer trica política? É que este lar está longe de ser caso único.

Contei há dias, na minha página pessoal de Facebook, que no início da minha carreira comecei a fazer umas horas num lar de onde acabei por me despedir após ser repreendida aos gritos porque, num dia quente de Agosto, coloquei protector 50+ no rosto de um idoso de 80 anos que andava a trabalhar na horta. Aparentemente e segundo me gritaram, o protector era demasiado caro para ser utilizado assim. Ainda estou para perceber o que raio seria este “assim”, mas nesse dia percebi que, nestes casos, não pode existir um “se não os podes vencer, junta-te a eles”. A única solução, quando não conseguimos mudar as más práticas, é vir embora e denunciar. Mesmo que as denúncias caiam quase sempre em saco roto.


Sei que é importante que no caso de Reguengos se apurem responsabilidades. Também sei as coisas terríveis que os meus colegas lá viram e viveram. Sei do cheiro a urina, dos idosos só de fralda, do calor abrasador e da falta de condições. Mas também sei que é ainda mais importante que nos façamos ouvir agora, enquanto sociedade, para mudar de uma vez por todas o paradigma de muitos lares deste país.


Não vou cair no caminho fácil do “se fossem cães estava toda a gente indignada”, porque, além de ser um argumento vazio, me parece falacioso. Eu também me preocupo com os cães. E isso não quer dizer que não me preocupe com os idosos. Ou com as crianças. Preocupo-me com todos aqueles que, sendo frágeis, temos obrigação de proteger. E preocupo-me ainda mais quando percebo que falhamos.


Reguengos pode servir como bode expiatório, mas está longe de ser caso único. Pensem nos lares que conhecem, pensem em quantos deles têm quartos individuais, em quantos respeitam a sabedoria dos idosos, em vez de os infantilizar, pensem naquelas salas de estar que parecem antecâmaras da morte… E as imobilizações? Já pensaram sobre isso? Todos os estudos apontam que as imobilizações não reduzem de forma significativa o número de acidentes, mas, ainda assim, continuamos a ver em todo o lado idosos presos a camas, cadeirões e cadeiras de rodas.


Parece-me que é altura, enquanto sociedade, de levantarmos a voz e de exigirmos respeito e dignidade para com aqueles que nos deram a vida. É altura de não nos calarmos, de denunciarmos, de não deixarmos passar, de pressionarmos a Segurança Social para que faça inspecções surpresa e para que não feche mais os olhos.


A minha avó, que felizmente esteve sempre em casa connosco, dizia muitas vezes: “Filho és, pai serás, como fizeres assim encontrarás.” E eu acho que podemos adaptar esta frase para um “novo és, velho serás”.

A VINGANÇA DE SNOOP DOGG

Uma antiga embaixadora dos Estados Unidos nas Nações Unidas garante que Biden e os democratas querem transformar o país num estado socialista.

Socialista??? E depois o Snoop Dogg é marijuana a toda a hora, etc. e tal...


terça-feira, 25 de agosto de 2020

TOSCA SEXUAL

Não sou entendido em música, nem sequer melómano. Mas também sou exatamente surdo... E também não sou puritano. Mas a Tosca de ontem à noite, no esplendor do Museu Nacional de Arte Antiga, deixou-me muitas dúvidas. A encenação, em especial.

Sexo (e droga) a mais? Sem justificação? Parece-me bem que sim.

No final do primeiro ato, há uma orgia LGBH.

No início do segundo ato há umas linhas de coca, depois cenas de sexo pouco consensual entre Scarpia e Tosca. Depois, vem uma morte em pleno coito, ao jeito de "Instinto fatal".

O terceiro ato foi um pouco mais pacato, valha-nos isso.

Viva Cavaradossi / Xavier Moreno.




domingo, 23 de agosto de 2020

SUDÃO OCIDENTAL

Do Mali chegam notícias perturbadoras. Jacques Majorelle (1886-1962) retratou a placidez doutros tempos de Bamaco, neste quadro de meados da década de 40 do século passado.

E agora, como estará Bamaco?

Haverá acácias e belas mulheres à sua sombra, nos domingos de Bamaco? As águas do Níger trarão frescura aos domingos de Bamaco? Correrá um pouco do harmattan, o terrível vento do deserto, nas ruas dos domingos de Bamaco? Soprará esse vento sobre as águas do Níger, por entre as acácias e as belas mulheres? Que oásis haverá?

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sábado, 22 de agosto de 2020

STARDUST MEMORIES Nº. 40: CUADRO FLAMENCO

Levei anos até encontrar este trecho do disco En la cueva. O flamenco, o cante jondo em especial, os fandangos de Huelva estão entre os mais belos sons do Mediterrâneo. Isso é certo, para mim.

Martins Scorsese fez um aproveitamento, absolutamente genial, destes sons no filme "Nova Iorque fora de horas". O frenesim do filme é igual ao som frenético do Cuadro Flamenco. E à voz de Manolo Leiva (1924-2012). E ainda a Manitas de Plata (1921-2014), menos canónico mas, ainda assim interessante. Um 3 em 1 mais que perfeito.

Memórias de outros tempos, da infância à juventude.



sexta-feira, 21 de agosto de 2020

SQUIDS E GRILLED LIZARDS, NUM CERTO RESTAURANTE

Os romanos acreditavam no espírito do lugar. O genius loci. Aquele restaurante tinha um. Em tempos, o dono resolvia tirar, ao vivo, as dúvidas sobre tradução dos pratos em língua inglesa usando os parcos conhecimentos do autor do blogue. Ante um casal de séniores da pérfida Albion resolveu tirar dúvidas:

- Santiago, como é que se diz lulas?

- Squids.

Ato contínuo, virava-se para os ingleses e anunciava, cerimonioso:

- We have squids.

E depois, para mim:

- Então, e bacalhau?

- Codfish.

- We have codfish.

Eu ria até às lágrimas. Então, o proprietário, sempre sorridente e cerimonioso, apontou na minha direção e anunciou:

- He, mayor.

Só me lembrei do "Me, Tarzan, you, Jane" e ía tendo uma apoplexia, ante o olhar atónito dos bifes, que deviam pensar "pois, o Mediterrâneo é esta farra e esta desgraça".

Tempos depois, o restaurante mudou de gerência. Ia a entrar no estabelecimento, quando o novo dono, um jovem simpático e jovial, me mostrou a ementa: "já viu? traduzi para inglês!". Olhei o menu à porta, com atenção. Estaquei num ponto. Havia grilled lizards. Havia o quê? Lagartos grelhados... Supostamente, o meu amigo queria anunciar aquela parte do porco a que chamamos "lagartos". Publicitava, contudo, algo de completamente diferente. Ou seja lagartos, dos verdes mesmos, na grelha. Aconselhei-o "tira isso daí, antes que tenhas aqueles ingleses, que acham que somos todos uns bárbaros, à perna". Tirou e passou anunciar uma mais banal grilled meat, ou algo assim.

Foi há um par de anos. É por estas e por outras que uma certa terra da margem esquerda do Guadiana me dá cabo do sentido.



quinta-feira, 20 de agosto de 2020

A CRUZ E O MARTÍRIO

Um grupo de franciscanos foi martirizado em Marrocos, no início de 1220. Esse foi o ponto de partida para um projeto que devia ter sido de uma forma e depois foi de outra. Que foi, afortunadamente, acolhido no Museu Nacional de Arte Antiga, onde da ideia inicial se passou a outra, bem mais abrangente e interessante.

Por entre as oscilações que estes processos sempre conhecem, há uma peça firme. A cruz do próprio MNAA, assim descrita por Joaquim Caetano no site Discover Islamic Art

Cruz flordelisada, com intersecção da haste e dos braços em quadrado, nó esférico achatado e haste tubular de encaixe. A decoração do campo da cruz é formada por uma fita contínua que contorna o perímetro de toda a peça e forma no seu interior losangos e triângulos preenchidos por motivos geométricos e florais. Nos cantos do quadrado onde se inscreve o centro da cruz desenham-se quatro octifóleos. O reverso é igualmente delimitado por uma fita, sendo os braços e a haste, preenchidos por entrelaçados geométricos de inspiração vegetalista. No centro forma-se uma grande circunferência decorada com entrelaçados geométricos, bastante complexos, formando múltiplos centros, que constituem o mais típico elemento islâmico da decoração da cruz. Não só a decoração, como a forte probabilidade de o metal ter sido extraído de uma mina norte-africana, parecem documentar nesta peça um trabalho de artista das comunidades islâmicas peninsulares, cristianizado ou não, mas trabalhando obviamente para os reinos cristãos ibéricos.

Este tipo de cruzes tinha uma dupla função, servindo como cruz de alçar, utilizada em procissões e funerais, mas podia igualmente ser assente em bases e funcionar como elemento do aparelho litúrgico do altar.

Uma peça de primeira linha para um projeto bem assente no martírio.

quarta-feira, 19 de agosto de 2020

HYDRA

Na televisão, passa uma série filmada em Corfu. Creio que é em Corfu, mas não me dei ao trabalho de confirmar. Recuo 14 anos e desemboco em Hydra e no Mosteiro do Profeta Elias, perto da cidade em linha reta, mas lá bem no alto.

Essa é uma memória de Hydra. As outras:

Que éramos bem mais novos (nós 43, a Luísa tinha 9, o Manuel ainda não chegara aos 13);

O porto;

Uma ilha sem carros;

Uma cidade que não é branca de postal turístico;

A árvore no meio da praça;

O restaurante Manolis, cuja dona nos atendia e depois recuava sem nos virar as costas, parecendo que deslizava sobre rodas;

A trovoada medonha que se abateu sobre a ilha;

Um poema de Sophia.

Há na manhã de Hydra uma claridade que é tua
Há nas coisas de Hydra uma concisão visual que é tua
Há nas coisas de Hydra a nitidez que penetra aquilo que é olhado por um deus
Aquilo que o olhar de um deus tornou impetuosamente presente -

Na manhã de Hydra
No café da praça em frente ao cais vi sobre as mesas
Uma disponibilidade transparente e nua
Que te pertence

O teu destino deveria ter passado neste porto
Onde tudo se torna impessoal e livre
Onde tudo é divino como convém ao real


Hydra, Julho de 1970


terça-feira, 18 de agosto de 2020

E ENQUANTO TRUDEAU SE MASCARAVA DE ALADINO...

... eu andava pelo matadouro de Bissau.

Este homem dançava à minha frente, interpondo-se, de tempos a tempos, entre a minha objetiva, os jagudis, as paredes e as vacas. Era uma dança lenta, que quase fazia lembrar os gestos do laamb dos lutadores senegaleses. No final, fez esta pose, um pouco à Travolta, e fiz-lhe uma fotografia. Ato contínuo, virou-se para mim, de braço e dedos esticados e gritou: "BRANCO! ÉS MALUCO!". As pessoas em volta riram. Eu também, não podendo deixar de pensar "pois, ele deve mesmo pensar que há centenas de coisas mais interessantes para fotografar em Bissau do que aves de rapina e paredes sujas de sangue...".

A polémica pífia à volta de disfarces carnavalescos desapareceu. A minha memória da África Ocidental permanece, bem vincada. 

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

UM PRÍNCIPE EM SÃO BARTOLOMEU DE MESSINES

No facebook de um velho amigo fui dar com esta preciosidade, que presumo ser autêntica:

Ou seja, um cidadão português convidava o Prof. Leite de Vasconcelos a deslocar-se a S. Bartolomeu de Messines, para contactar com seres de outros planetas. E logo em duas noites, 19 e 20 de dezembro de 1921 ("mais uma vez (...) pela recepção de signais demosntrativos").

Lembrei-me, de forma irresistível, de um diálogo do filme "Um príncipe me Nova Iorque"...

domingo, 16 de agosto de 2020

OUTSIDERS

A principal competição de clubes do futebol europeu anda por Lisboa. Dos quatro semi-finalistas, três têm pouca história: o Lyon e o Leipzig nunca ganharam nada, o PSG tem, como coroa de glória, a defunta Taça das Taças, em 1996. São os improváveis protagonistas das semi-finais. Nesta disputa franco-alemã, estes três são os outsiders.

Fico a torcer por eles. Gosto de outsiders.

sábado, 15 de agosto de 2020

SEPPUKU

Como já não tivéssemos problemas de sobra, eis que o PSD, um partido importante e necessário, resolve abrir as portas à extrema-direita. Que já começou a engolir o CDS e se prepara agora para alargar o território. Temos vento nefasto pela frente. E um pobre coitado à frente do PSD.


sexta-feira, 14 de agosto de 2020

AO JEITO CAMPOMAIORENSE

Desce-se uma rua, depois sobe-se outra, depois outra ainda. Depois, contorna-se o castelo. As certezas tremem e desaparecem. Afinal, parte do que o sr. Duarte Darmas desenhou mantém-se, sim. Outra parte foi levada pelos baluartes modernos.

O castelo tem quartéis, do mesmo género dos que tem Moura, mas menos espaventosos. Não menos bonitos, por certo. Quem mora no castelo é a comunidade cigana. No calor das 13 horas, um homem de fato claro, gravata, pasta castanha numa mão, um dossiê com desenhos na outra, deve parecer estranho. Um cão não gostou de mim. Uma pequenita, dos seus 10/12 anos, intrigada, não resiste e pergunta "você é dos Jeovás?". Mesmo junto ao castelo fica a Rua Direita. A placa toponímica dá-lhe outro nome, bem mais divertido.

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

DUARTE DARMAS - O SITE E OS APOIOS


Aos poucos, o projeto (promovido pela MULTICULTI, e do qual sou autor) toma forma. O site agora tem o formato definido, com as cinco secções que o compõem. Dos 20 castelos, estão registados 13 (até final do mês de agosto essa tarefa estará terminada).

Para já, está aberta a secção onde se reproduzem as imagens desses 20 castelos, segundo foram vistas por Duarte Darmas, há cerca de 500 anos. Quais são os sítios abrangidos?

Alandroal
Alpalhão (Nisa)
Arronches
Assumar (Monforte)
Campo Maior
Castelo de Vide
Elvas
Juromenha (Alandroal)
Mértola
Monforte
Monsaraz (Reguengos de Monsaraz)
Montalvão (Nisa)
Moura
Mourão
Nisa
Noudar (Barrancos)
Olivença
Ouguela (Campo Maior)
Serpa
Terena (Alandroal)

O site tem também uma secção consagrada aos apoios. Ou seja, às entidades que tornaram possível este projeto e a quem é devido reconhecimento e agradecimento:

Apoios financeiros
Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Alentejo
Caixa Geral de Depósitos
Turismo de Portugal
Direção Regional de Cultura do Alentejo
Continente
Cafés Delta
Câmara Municipal de Barrancos
Câmara Municipal de Campo Maior
Câmara Municipal de Castelo de Vide
Câmara Municipal de Elvas
Câmara Municipal de Mértola
Câmara Municipal de Mourão
Câmara Municipal de Reguengos de Monsaraz
Câmara Municipal de Serpa

Parcerias institucionais
Arquivo Nacional da Torre do Tombo / DGLAB
Turismo do Alentejo / ERT
Resialentejo
  

quarta-feira, 12 de agosto de 2020

KID CREOLE: PARABÉNS SR. AUGUSTO!

O nome é mesmo Thomas August Darnell Browder, mas ficou conhecido como Kid Creole. Fez parte do meu panteão musical de juventude e foi fonte de inspiração para as minhas camisas. Aquela mescla de sons latinos, africanos e caribenhos tinha lugar cativo no meu espaço radiofónico na Associação de Estudantes de Letras. Um programa de escasso sucesso e de vida breve.  Fresh Fruit in Foreign Places (1981) e Tropical Gangsters (1982) ainda andam cá por casa. Hoje é dia de saírem à cena, para festejar os 70 anos do sr. August Darnell. Parabéns ao Kid Creole.

Não consegui encontrar um vídeo de jeito de "Musica americana", de Coati Mundi. Aqui fica o There's something wrong in paradise, com um som assim um bocadinho à Malcom McLaren.



terça-feira, 11 de agosto de 2020

SPUTNIK

Um professor do Técnico ficou célebre, no final dos anos 50 do século XX, por demonstrar, com abundantes argumentos técnicos, que era impossível os russos terem posto um satélite em órbita. Puseram mesmo, e o professor foi alvo de chacota generalizada.

Agora, é anunciada, pelos russos, uma vacina contra o covid. Sintomaticamente, deu-se-lhe o nome de SPUTNIK. O primeiro a dar sinal de vida foi José Milhazes. Aquilo é tudo propaganda, diz ele. Milhazes arrisca-se a ser o Varela desta história.

Aguardo, com natural interesse, o desenrolar dos acontecimentos. Oxalá a vacina resulte. A bem de todos nós. E, também, para ver a cara de José Milhazes.