quarta-feira, 28 de outubro de 2020

OS PRIVADOS OS PRIVADOS OS PRIVADOS OS PRIVADOS OS PRIVADOS OS PRIVADOS

O disco riscado de sempre. A beatitude dos privados face ao satanismo do que é público. Ao fim de todos estes anos, ainda não engoliram o Serviço Nacional de Saúde, nem o 25 de abril. De acordo com o Prof. Doutor José Gomes Ferreira estamos a caminho de ser a Venezuela da Europa, seja lá isso o que fôr.

O Estado é uma coisa péssima? A questão nunca foi essa. O Estado é uma coisa excelente quando o que é de todos fica ao serviço de alguns (cf. infra). Uma velha tradição das classes dominantes. Os condes e os duques deram lugar às empresas multinacionais, esse outro lugar de beatitude.

Como o jornalismo é, hoje, maioritariamente, uma central de propaganda, a mensagem vai passando. Tal como a obrigação cívica de resistir deve continuar.

Quem escreve estas linhas está, orgulhosa e convictamente, ao serviço da República há 33 anos, 1 mês e 3 dias. 





terça-feira, 27 de outubro de 2020

MOURARIA DE MOURA - LANÇAMENTO DO LIVRO (DIA 31.10 - 17 HORAS)

No passado mês de julho resolvemos (o José Gonçalo, o José Finha e eu) avançar com a apresentação do nosso livrinho sobre a Mouraria de Moura. Deveria ter sido no dia 5 de julho.

Entretanto, a situação da pandemia melhorou um pouco e chegámos a pensar que seria possível uma sessão ao vivo. Com grande pena nossa, vemos agora que não há condições para lançamentos "ao vivo".

A sessão terá lugar, de vez, no próximo sábado, 31 às 17:00. Serão intervenientes o Prof. Doutor André Teixeira (Faculdade de Ciências Sociais e Humanas / Universidade Nova de Lisboa), que apresentará o livro, e os autores. Será uma sessão curta, entre 20 a 30 minutos. E que marcará o fim da quase-saga que este livro foi.

Dois agradecimentos muito especiais: a Jaime Coll Conesa, Diretor do Museo Nacional de Cerámica (Espanha) e a Isabel Cristina Ferreira Fernandes. Foram autores do prefácio e do posfácio, respetivamente.

Vamos ter livro em dois tempos:
1. Esta apresentação virtual, via zoom;
2. O lançamento, real e ao vivo, na Taberna do Liberato, logo que possível. Esperemos que o mais depressa possível.

LINK DE ACESSO:



segunda-feira, 26 de outubro de 2020

DIA DE S. ANACRONISMO

Jorge Jesus:

Um capitão de equipa não é só escolhido por ter anos de clube. Isso era no tempo do Dom Afonso Henriques.

As entrevistas de J.J. são um manancial. Esta é quase tão boa como a de Eça de Queirós.



domingo, 25 de outubro de 2020

DEPOIS DE CALIGRAFIAS, VIRÁ BOLAMA

Faz hoje dois anos que a exposição "Caligrafias" foi inaugurada, em Évora. Andou depois por cinco outros locais. Regressou a casa, na passada sexta-feira.

2018 (out.) - Évora (Direção Regional de Cultura)

2019 (fev.) - Alvito (Centro Cultural)

2019 (mai.) - Cuba (Biblioteca Municipal)

2019 (jun.) - Mértola (Castelo)

2019 (out.) - Moura (S.F.U.M. Os Amarelos)

2020 (fev.) - Silves (Torre de Menagem)

Nas "Caligrafias" havia três imagens de Bolama. Com o financiamento já assegurada para a impressão (através uma entidade privada), o livrinho "Bolama" é o próximo da série iniciada em 2005, com "Síria".



sábado, 24 de outubro de 2020

MIN NADRA ILA SHIRBA

Tarde de trabalho em além-Guadiana. Não mando em mim... O sr. Duarte Darmas obriga-me a usar os minutos livres fotografando e lendo.

Há um par de anos que não ia a Noudar. O sítio tem o esplendor de sempre, um lugar de vigilância que há muito deixou de ter essa função. Noudar vem do verbo árabe NADARA (olhar, ver), tal como o Cerro da Nodre, em Almodôvar. Final de tarde fotografando as antigas portas de Serpa. A velha Shirba não perdeu nada do seu encanto.

Duarte Darmas avança, com toda a confiança.





sexta-feira, 23 de outubro de 2020

MOITA MACEDO - DIÁLOGO NA SÉ

"Moita Macedo - diálogo na Sé" é o título da exposição que pode ser vista na Sé de Lisboa, entre 27 de outubro e 29 de janeiro de 2021.

O projeto, que arrancou em 2013 ou em 2014 (foi anunciado aqui no blogue como "recente" em 22 de março de 2015). Não é que seja complicado, do ponto de vista técnico. É um projeto bem fácil, diga-se de passagem... O pior foi lidar com o Sr. Cronos. E, ultimamente, com a Pandemia. E com outras limitações. Mas o projeto está terminado, haverá exposição e catálogo. A partir de dia 27 de outubro, na sala do tesouro da Sé Patriarcal.

O catálogo, que também coordenei, tem textos de D. Manuel Clemente, do Pe. Vítor Melícias e do autor do blogue. As fotografias, de grande qualidade, são de Fábio Moreira, que fez impossíveis, tendo em conta as difíceis condições de trabalho.







Do meu texto para o catálogo:

Os tons nacarados do algumas das suas obras parecem ter sido pensados para o ambiente operático do tesouro da Sé Patriarcal. Vermelhos cardinalícios, ouro e prata estão perto da cor das pinturas de Moita Macedo. Tal como Cristo Crucificado pertence a este sítio. Foi esse jogo, de temas, de cores, de evocações, de palavras que ecoam na Catedral, que quisemos criar e dele fazer diálogo. 

A BOLÍVIA NÃO EXISTE

Teve grande impacto, há meses, a imagem de Patricia Arce, uma autarca boliviana arrastada pelas ruas pelos apoiantes dos golpistas anti-Morales. Houve de tudo, nos jornais desses dias. A cobertura aos acontecimentos foi generosa. A simpatia da imprensa portuguesa por Evo Morales era/é escassa.

Um ano depois, os seus apoiantes ganharam as eleições. Patricia Arce foi eleita senadora. Na imprensa portuguesa, os acontecimentos recentes na Bolívia mereceram escassa atenção. O que não é uma surpresa. Há notícias assim, que não existem.



quinta-feira, 22 de outubro de 2020

67 MESES VOLVIDOS

No dia 22 de março de 2015 escrevi isto, aqui no blogue:

Castelo de Moura - escavações arqueológicas. Deve ser um dos raros casos em que o segundo volume foi impresso antes do primeiro. Este, por seu turno, já está redigido e em correções. Dois ou três meses mais? Deve ser mais ou menos isso... Para um livro longamente prometido, tem que se lhe diga.


Água. Exposição com que o espaço do antigo matadouro municipal abrirá ao público. O projeto é interno (arq. Patrícia Novo). Assumi a direção da exposição, em conjunto com as colegas Vanessa Gaspar e Marisa Bacalhau. Entreguei a ideia base para o guião, a partir do qual será desenvolvido o projeto final. Inauguração? Final de 2015/início de 2016.

Os amarelejenses. Depois de um começo atribulado, começa a tomar forma este projeto, a desenvolver por José Manuel Rodrigues, nome prestigiado da fotografia em Portugal. O trabalho de campo, na Amareleja, terá lugar entre meados de 2015 e meados de 2016. O livro sairá no final desse ano.

Bolama. Semi-escrito e maquetado. Não gosto da primeira versão do texto e este livrinho sobre uma esquecida cidade africana terá de esperar. Em todo o caso, ainda faltam fundos disponíveis (os meus) para a tradução e a impressão. Está suspenso e sem data de saída.

Os Cristos de Moita Macedo. Desafio recente para comissariar uma exposição na Sé de Lisboa. O trabalho é pouco complicado e resolve-se em muito pouco tempo. Haverá exposição quando for indicado o local disponível.

Chegar a casa. Curta-metragem produzida para o Festival Islâmico de Mértola. Rodagem em dois dias (7 e 8 de fevereiro), montagem noutro (15 de março). Um certo ritmo R.W. Fassbinder na organização do trabalho. Está quase, graças à enorme generosidade de um amigo. Apresentação pública no dia 22 de maio.

Era uma espécie de "to do", como agora se diz. Projetos extra-autarquia então em curso, no meio da vertigem quotidiana. Ao fechar agora este ciclo, fica o balanço:

Chegar a casa: filme estreado em maio de 2015.
Água - património de Moura: exposição inaugurada em julho de 2015.
Castelo de Moura - escavações arqueológicas: livro lançado em abril de 2016.
Amareleja: livro lançado em setembro de 2017.
Bolama: concluído em março de 2020, aguardando impressão pós-pandémica.
Moita Macedo - diálogo na Sé: abre ao público no próximo dia 27.

Durante esse tempo e depois desse tempo, outras coisas se foram fazendo. A exposição do próximo mês, no M.N.A.A., termina um ciclo profissional. Está na altura de pensar no que se vai passar a seguir.



quarta-feira, 21 de outubro de 2020

UM DIA INESQUECÍVEL: 20.10.2017

No dia 21 de outubro de 2017 escrevi isto: 

Fui ontem surpreendido por esta prenda da rapaziada do Gabinete de Informação. Das muitas imagens recolhidas ao longo de quatro anos escolheram esta sequência do outro lado da presidência. Um registo menos formal, em contraponto às horas de gabinete...

Ao mostrar isto a um amigo de longa data, comentou "não achas que vão dizer que andaste o tempo todo a divertir-te?". Respondi que a extensa lista de obras, de iniciativas, de projetos, de foros, de financiamentos, de encontros, de apoios etc. clarificam o que, de facto, se fez. Depois, porque tentei realmente tirar partido dos momentos de descontração. Depois, porque sempre desconfiei dos políticos, dos artistas, dos investigadores etc. que estão sempre em pose e com ar de compungido sofrimento. E depois, na verdade, porque me estou nas tintas para o que pensem ou deixem de pensar os bem pensantes...

Hoje, pela manhãzinha, fui surpreendido pela mensagem de uma jovem safarense recordando-me a data. É engraçado, mas estava convencido que a prenda tinha sido no início do mês, não por esta altura.

Dos anos passados em Moura tenho recordações impressivas deles os três. Perdi a conta ao número de vezes que, em sessões públicas, elas passavam por detrás de mim, murmurando "tem a gravata torta" (um clássico pessoal), "a gola do casaco está dobrada" (outro clássico pessoal), "está todo despenteado" (outro ainda) ou "está ali uma pessoa que já olhou várias vezes para si; deve querer cumprimentá-lo e está com vergonha". Ele esbracejava ao longe, para eu me colocar no sítio certo para fotografar, garantindo, ante a minha eterna dúvida com "aquilo" do autofocus, que a imagem estava focada, com a luz e a velocidade nos sítios certos. Tinha sempre razão.

É mais que evidente que tenho saudades deles os três. E da extraordinária qualidade de trabalho que produziam. Boas fotografias e textos em bom português, sem erros ortográficos ou de sintaxe. Uma tradição que se perdeu.



POST GIFOCRIPTOPOLÍTICO

Terminar catálogos de exposições fora de horas tem destas coisas...



terça-feira, 20 de outubro de 2020

TERRORISMO E ASPIRINAS

O Sudão vai pagar uma compensação (mais de 300 milhões de dólares) às vítimas e aos familiares das vítimas do terrorismo. O Sudão estava na mira do governo americano.

Fiquei com curiosidade em relação a um ponto. Quem irá indemnizar o Sudão por tropelias como o bombardeamento de uma fábrica de aspirinas?

Ler:
https://www.theguardian.com/world/2001/oct/02/afghanistan.terrorism3



segunda-feira, 19 de outubro de 2020

CEMITÉRIOS DO PERÍODO ISLÂMICO - DIA 22, EM BEJA

Mais que um tema de trabalho é uma quase "fixação". Trabalhei sobre estas necrópoles há quase 30 anos. Depois, fui pegando e largando, sem objetivo fixo, ainda que por várias vezes tenha pensado em escrever um trabalho monográfico sobre o tema.

Dia 22 retomo, uma vez mais. Irei participar num ciclo de conferências, organizado pela Câmara Municipal de Beja, pela EDIA e pela Direção Regional de Cultura do Alentejo.

Quinta, às 21.30, lá estarei, num regresso a Pax Iulia.

domingo, 18 de outubro de 2020

BROWN UNIVERSITY - MOMENTO MONTY PYTHON

Abriu-se a Caixa de Pandora. Aconteceu há algum tempo, mas "isto" vai em crescendo. Agora, os alunos (não sei se todos, se muitos, se a maioria) da Brown University resolveram promover a remoção de estátuas de imperadores romanos.
Num documento promovido por alunos lemos coisas como:

We strongly oppose this proposal and urge the Public Art Committee—and any community members or donors who are invested in the role of public art at Brown—to replace both the statue of Augustus and the statue of Marcus Aurelius (currently on Ruth Simmons Quad) with new works of art commissioned from local Black and Indigenous artists.

These monuments [estátuas de Augusto e Marco Aurélio] were brought to our campus with the goal of upholding the ideals of the “perfect” white form, white civilization, white supremacy, and colonialism—ideas that we believe are incompatible with Brown today. Consequently, removing and replacing these statues is a crucial step in confronting such legacies. We see this as a moment of immense opportunity for transformation and reflection, and we hope that the broader campus community, the Public Art Committee, and potential donors will, too.

We recognize that the removal of these statues alone does not constitute decolonization at Brown. Instead, this is one step in a broader project of decolonization by confronting Brown’s institutional and ideological legacies of colonialism and white supremacy. Our focus on monuments is a recognition that these kinds of statues physically and metaphorically occupy our imaginations and understandings of what has passed and what is possible.

Quem difunde coisas deste calibre diz também que

"O que os alunos fizeram, e estão a fazer, é questionar a presença de determinadas estátuas num campus universitário e a propor a sua remoção. 

Espero que sirva de estímulo aos estudantes que, em Portugal, ainda têm de lidar todos os dias com a cenografia estadonovista nos espaços universitários."

Convivi com essa cenografia - a começar pela arquitetónica - durante 4 anos, na Faculdade de Letras. Foi-me muito útil, para a rejeitar. A sua presença, mais que a sua ausência, fez-me pensar todos os dias "isto é aquilo que eu não quero". O discurso anicónico, sob a capa de uma lixívia purificadora, é uma desgraça completa. Vamos acabar como no filme "A vida de Brian".

Matias: Escute. Tive um belo jantar e só disse à minha mulher "este linguado é digno de Jeová".

Multidão: Oooooohhhh!

Oficial: Blasfémia! Disse-a outra vez!

MOLDANDO O PASSADO, NO ALANDROAL

Moldando é maneira de dizer, eu não moldo nada, que sou uma total nulidade em bricolages e afins. Na impossibilidade de contarmos com três peças ao vivo na exposição em preparação para o Museu Nacional de Arte Antiga, decidimos que seria importante tê-las sob a forma de réplica. Uma delas é uma inscrição existente no castelo do Alandroal (século XIV). É uma das mais extraordinárias peças de epigrafia existentes em Portugal. Foi pormenorizadamente estudada por Mário Barroca na sua tese. O que tem de tão invulgar? É que o mestre construtor, o Mouro Galvo, teve o atrevimento, a ousadia, o descaramento etc. de iniciar a lápide com a fórmula usada no reino de Granada invocando Allāh, "wa lāgāliba illā-llāh", vertida em caracteres latinos:

LEGALI BI IL ILLALLA DEUS /

E E DEUS SERA POR QUEN EL /

FOR ESE VENCERA EU MOURO G

ALVO FO I MAESTRE DE FAZER EST /

E CASTELO DO ALANDROAL


É uma inscrição pouco conhecida fora "do meio", até pelo local, de difícil visibilidade, onde se encontra.


Irão, as três, poder ser vistas de perto, graças ao talento de Manuel Passinhas da Palma, que as está a preparar com o rigor que lhe é habitual. Aqui fica o negativo da lápide do Alandroal, em jeito de teaser:


sábado, 17 de outubro de 2020

SE ELES ACHAM MAL, É PORQUE A IDEIA É BOA

"Isto" vai piorar, sem dúvida. À boa maneira portuguesa, passámos do 80 ao 8. Da perfeição e do exemplo à quase-catástrofe. Uma maneira muito nossa de viver a vida. Olho a situação com prudência e com cuidado. Com preocupação e, enquanto cidadão, com determinação e com a confiança possível.

Mais do que nunca, vamos precisar do Serviço Nacional de Saúde. De um serviço público e ao serviço de todos.

Há tempos, um amigo meu sofreu uma lesão grave. A intervenção, num hospital público, custou zero. Nos Estados Unidos, ou tinha um seguro se saúde que cobrisse os 50.000 euros que a intervenção custa ou ficava à porta do hospital.

O Serviço Nacional de Saúde não é nenhuma perfeição. Mas, por vontade da direita, nem sequer teria existido. Nos Estados Unidos, as famílias arruinam-se para enviarem os filhos estudar nas universidades (privadas), onde as propinas andam na ordem dos 65.000 dólares por ano. Ou seja, a "reversão" é feita, mas para os bancos. Em Porugal formam-se médicos de topo, a expensas do erário público, por menos de 900 euros por ano. Deve impor-se uma "fixação" ao Estado? De forma irrefletida, nem pensar. Mas deveria haver uma contratualização e uma obrigação social por parte dos jovens estudantes? A meu ver, sim. Nesse e em todos os cursos. Ou o Estado só serve para formações de qualidade com custos que só pesam na bolsa dos mais desfavorecidos?

Que Rui Ramos, cada vez mais radical e fanatizado, ataque a ideia é bom sinal. Alguma virtude a ideia deve ter.


sexta-feira, 16 de outubro de 2020

QUANDO A DERROTA TEM UMA CARA

Várias vezes, ao longo da vida, assisti a isto. Pessoas de grande capacidade intelectual darem-se conta que falharam e que perderam. Ou seja, que o grande fim (seja lá isso o que fôr...) a que se destinaram não aconteceu. Foi, por isso, quase penoso assistir à entrevista a António Barreto. Teve momentos nostálgicos, um pouco comoventes, quando falou dos irmãos e da vida em Vila Real. Quase todo o resto foi difícil. O ódio incontrolado ao PCP (bem coadjuvado por FCF, ao ponto daquilo parecer um Dupond e Dupont), a relação com Mário Soares (já há por aí um vendaval de críticas ao que Barreto disse), a desnecessidade de quase tudo aquilo...

Não perceber, e nem juízo de valor aqui faço, porque aconteceu a Reforma Agrária revela um total alheamento do que era o Alentejo e de como as pessoas viviam. O mais espantoso é, pois, Barreto não ter percebido Portugal. O País passa-lhe ao lado. Nem chego a perceber se gosta disto.

Um programa doloroso. Só me custou engolir que tenha usado Brassens e a Mauvaise réputation para ilustrar tamanho conformismo.



quinta-feira, 15 de outubro de 2020

DISTANCIAMENTO E MAIS DISTANCIAMENTO

Ontem "estive" na Universidade Aberta como arguente de uma distinta dissertação de doutoramento. O candidato era o mourense Paulo Jorge dos Reis Godinho. A tarde foi mais intensa e longa do que esperaria, embora este modelo do zoom me desagrade mais do que possa dizer. O tema em discussão - a obra de Apríngio - poderá, caso o novo Doutor assim o entenda, ser o ponto de arranque para novas e mais aprofundadas investigações. O caminho ficou aberto.

Aqui fica a "foto de família" que foi possível fazer...

Da esquerda para a direita, e de cima para baixo:

1. Paulo Godinho; o autor do blogue (Univ. Nova de Lisboa); Ana Jorge (Univ. Católica)

2. João Luís Cardoso (Pres. júri - Univ. Aberta); Sónia Fonseca (técnica - Univ. Aberta); Nuno Simões Rodrigues (Univ. Lisboa)

3. Adelaide Millán da Costa (Univ. Aberta); Maria Filomena Andrade (Univ. Aberta)



quarta-feira, 14 de outubro de 2020

INVESTIGAÇÃO ARQUEOLÓGICA E TURISMO

Razões de ordem profissional/académica impedem-me de ir até ao Aljube cumprimentar com amizade a Vanessa Gaspar e o Nuno Colaço e assistir à intervenção que irão fazer no âmbito do encontro "Investigação arqueológica e turismo". Sigo sempre estes temas com o natural interesse de quem está no meio.

Os materiais que irão ser apresentados foram recolhidos na campanha de escavações de 2004 (já lá vão 16 anos, caramba...), na unidade estratigráfica 69 ou 70, algo assim. Cito de memória e elas são umas centenas. Recordo a forma jubilosa como tudo aquilo foi escavado, a surpresa de encontrarmos centenas de fragmentos de garrafas e uma intacta. Que teve lugar de destaque na exposição "Água - património de Moura", já lá vão também uns anitos.

Sempre defendi, continuarei a defender, princípios básicos nestas coisas da arqueologia, do património e dos museus:

1. Que é preciso trabalho continuado e consequente;

2. Que é preciso conhecimento e aprofundamento do conhecimento;

3. Que é preciso divulgar, e que essa divulgação deve, em primeira instância, seguir modelos formais (exposições, catálogos), que não devem excluir as modernas plataformas de informação.

Nada disto é compatível com amadorismos, com a ignorância militante e fofinha de que fazem uso alguns autarcas sem preparação,  com atitudes babacas e com o uso do Património na lógica do "ó-patego-olhó-balão".

A intervenção de hoje, num encontro marcado pela qualidade, é de saudar. Pelo que daqui vai um abraço virtual, mas real apesar dos distanciamentos, para a Vanessa e para o Nuno.

Moura on my mind, como no blues? Sempre. Depois de fechar o ciclo das exposições lisboetas (na Sé dentro de dias, no Museu Nacional de Arte Antiga no próximo mês, volto a atacar Moura. Salvo seja 😊.


terça-feira, 13 de outubro de 2020

IGREJA DE SANTA ISABEL - O CÉU QUE NOS PROTEGE

Ontem à tarde foi tempo para rumar à Igreja de Santa Isabel, em Campo de Ourique. A escassos 150 metros da escola onde fiz os meus exames do 12º. ano...

Teve lugar, na própria igreja, a cerimónia de entrega do Prémio Vilalva, instituído pela Fundação Calouste Gulbenkian e cujo júri integro. A cerimónia foi presidida pelo Presidente da República, que fez uma bela intervenção sobre a aquele espaço e sobre o seu significado. Tiveram ainda papel de destaque, com palavras certeiras, a Dra. Isabel Mota (presidente da FCG), o Prof. António Lamas (presidente do júri), o Pe. José Manuel Pereira de Almeida (pároco de Santa Isabel) e o arq. João Appleton,(coordenador do projeto).

A reabilitação da Igreja de Santa Isabel, projeto de Carlos Mardel (nem mais, nem menos) é uma empresa digna de registo, a todos os níveis. Pelo rigor da obra, pela investigação aprofundada que a acompanha, pela inovação que foi introduzida na igreja. Não quebrando qualquer tipo de sigilo, o que me conquistou o coração foi a espantosa pintura de Michael Biberstein. Barroco assim, no século XXI, projetando o espaço interior em direção ao céu? Pode ser? Pode, claro que pode.

"No meio disto", ainda houve lugar a uma grata surpresa. Dois importantes membros da equipa do projeto têm ligações a Moura: o Prof. Vítor Serrão é co-autor de um livro sobre pintura religiosa da minha terra; o Eng. Vítor Vajão é autor dos projetos de iluminação da igreja de Santo Aleixo e do Edifício dos Quartéis. E foi o responsável pela iluminação da exposição "Água - património de Moura".

Um belo final de tarde, no calor tépido de Lisboa.









Fotografia - Paulo Catrica


segunda-feira, 12 de outubro de 2020

E JÁ HÁ PLANOS PARA 2021

Assim isto corra bem, claro. Começa na quarta-feira o curso online "Portugal, uma retrospectiva", que é resultado direto da coleção sobre História de Portugal dirigida por Rui Tavares. O projeto é uma parceria Público / Tinta da China / Instituto de História Contemporânea / NOVA FCSH / Fundação para a Ciência e a Tecnologia.

"Entramos em cena" (o Fernando Branco Correia e eu) no dia 17 de março de 2021. A propósito do ano de 929. O que leva ao califado, e o que acontece depois. Acho / achamos que vai correr bem.

Informações em: https://www.publico.pt/cursoportugalumaretrospectiva/programa



domingo, 11 de outubro de 2020

LE PAON SANS CRAVATTE









Em França dava um bom nome de restaurante, daqueles caros.

Em Portugal é um an-do-li-tá que diz muito sobre alguém. Quando não se consegue escolher entre o opressor e o oprimido. Cunhal não dá? OK. Então e Bento Gonçalves? E Catarina Eufémia? E Alex? E Dias Coelho? Assim já pode ser?

É só seguir o link...

https://twitter.com/arquivo_pt/status/1314536089743364098?s=20

sábado, 10 de outubro de 2020

NO CLAUSTRO DA SÉ

Visita, ontem, às escavações da Sé de Lisboa. Um percurso e uma explicação para os professores de Arqueologia das Faculdades de Letras (UL) e de Ciências Sociais e Humanas (UNL). Detalharam todo o processo João Carlos Santos (Subdiretor da DGPC) e as responsáveis pela escavação, Alexandra Gaspar e Ana Gomes.

Independentemente das questões interpretativas, das funções precisas de cada espaço, ou de afinações cronológicas, um dado se (nos/me) tornou evidente: o que foi posto à luz do dia é demasiado relevante para ser destruído ou removido. Repito o que já escrevi, e que causou algumas discordâncias: sendo impossível mostrar, é preferível manter, cobrindo e protegendo.

Assinei um compromisso no início da visita, segundo o qual não poderia tirar fotografias. Não tiraria, em qualquer dos casos. Aqui fica a única, bem protegido e fazendo publicidade à FERROVIAL.

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

CASTELO DE MOURA - FAÇA-SE LUZ!

E ao falar do Castelo de Moura, não é que me esqueci da iluminação? Ainda por cima, um projeto ao qual estive pessoalmente ligado. Um processo construído, pago e instalado e que, por razões que agora não são relevantes, não foi possível por em funcionamento em 2017. Em fevereiro de 2018 escrevi isto: Testes de luz, feitos há uns anos, no Castelo de Moura. Um trabalho brilhante, literalmente, de Maria João Pinto-Coelho. Este foi dos projetos que não tive oportunidade de terminar. Um dia será terminado, seguramente. Hoje, a iluminação do Castelo de Moura foi parcialmente ligada. Falta a Torre de Menagem, nas suas quatro faces. Se isso for feito, fico contente, claro. Gosto sempre de ver que são concluídos projetos nos quais trabalhei.












Registei a fachada do convento, transformada em cara. Ou em carranca, melhor dizendo. Os olhos cheios de luz, como escreveu Baudelaire. Les fleurs du mal, ainda e sempre.


Le flambeau vivant

Ils marchent devant moi, ces Yeux pleins de lumières,
Qu'un Ange très savant a sans doute aimantés ;
Ils marchent, ces divins frères qui sont mes frères,
Secouant dans mes yeux leurs feux diamantés.

Me sauvant de tout piège et de tout péché grave,
Ils conduisent mes pas dans la route du Beau ;
Ils sont mes serviteurs et je suis leur esclave ;
Tout mon être obéit à ce vivant flambeau.

Charmants Yeux, vous brillez de la clarté mystique
Qu'ont les cierges brûlant en plein jour ; le soleil
Rougit, mais n'éteint pas leur flamme fantastique ;

Ils célèbrent la Mort, vous chantez le Réveil ;
Vous marchez en chantant le réveil de mon âme,
Astres dont nul Soleil ne peut flétrir la flamme !

quinta-feira, 8 de outubro de 2020

O QUERIDO CASTELO ONDE NASCI...

Ontem foi Dia dos Castelos.

Não nasci no Castelo de Moura, bem entendido. Mas parte da minha carreira profissional esteve/está ligada aquele sítio. De certo modo, "nasci ali". Conheço bem o castelo, do ponto de vista da História e da Arqueologia. E lá levarei os meus alunos do Mestrado em Património, da Universidade Nova de Lisboa, na próxima primavera. É sempre com inescapável emoção que ali vou. Assim será sempre.

Há peças das várias escavações realizadas em Moura que estarão, em breve, numa grande exposição, no Museu Nacional de Arte Antiga. Como comissário científico de "Guerreiros e Mártires" escolhi-as, sem bairrismo bacocos. A importância patrimonial do sítio justifica a seleção.

Em 1989 comecei as escavações arqueológicas no Castelo de Moura. Foi um trabalho que foi sendo (dês)continuado: 1990 / 2002 / 2003 / 2004 / 2005 / 2007 / 2008 / 2010 / 2011 / 2012 / 2013 / 2017 / 2018 / 2019. Primeiro a solo, depois com Vanessa Gaspar, mais tarde também com José Gonçalo Valente. Um processo longo e com resultados palpáveis. Foi publicada uma memória de escavação, disponível online. Em 2012 abriu ao público a Torre de Menagem. Um projeto iniciado em 1989 e cuja evolução dava um romance. Depois, em 2013, foi a vez do posto de turismo. As escavações continuaram. A investigação prossegue. A divulgação do sítio também.

Sigo sempre com grande interesse estes temas. Continuo a defender - isso mesmo digo aos alunos - o primado das infraestruturas e do trabalho aprofundado e consequente. Transformar o Património em animação folclórica dá fotografias e umas coisas bacocas no facebook. Mas não cria valor acrescentado.

No meio disto, vem-me sempre à memória a ária Al dolce guidami. Anna Netrebko canta-a de forma emotiva. Sinal dos tempos e do correr do tempo. Não me passaria pela cabeça, em 1989, dizer que gostava desta ópera. Agora sim. Mas já passaram 31 anos.

Dentro de dias será apresentado um livro sobre Moura. Há outros em preparação.



quarta-feira, 7 de outubro de 2020

UM DIA DESTES, ASSINO O "EXPRESSO"

Assim, começa a valer a pena. Primeiro, foi a fuga de informação a propósito de uma entrevista a António Costa, em que este dizia dos médicos o bom e o bonito. Depois, viram Jerónimo de Sousa num sítio onde ele não esteve (MILAGRE! MILAGRE!). Hoje, de manhã, dei com isto no telemóvel. O "Expresso" lançou uma notícia que não era verdadeira, com a nota (repetida) NÃO PUBLICAR. Como se costuma dizer "então, pá?".




MEMÓRIA DOS SÍTIOS E DOS NOMES

É um daqueles projetos que parece tudo menos provável. Nunca tal me tinha ocorrido antes de meados de 2018. A dada altura, achei importante fixar a memória dos edifícios de uma determinada instituição pública. Que, ao longo de quase 100 anos, tinha povoado todo o território português com as suas construções. A maior parte dos edifícios ainda está em uso, uns quantos foram vendidos, em dois ou três casos foram demolidos e deles temos apenas recordações em papel fotográfico.


Creio ser uma característica muito nossa, a do negligente ou deliberado esquecimento do passado. Queimamos arquivos com a maior descontração, derrubamos muralhas ou construções relevantes, apagamos os vestígios da nossa memória coletiva sem pestanejar, deixamos para trás obras escritas, ignoramos com a maior arrogância o património popular. Neste último caso, sem nos darmos conta da riqueza excecional que representa a diversidade dos modos de vida, das maneiras de falar, das ancestrais formas de construir. É, seguramente, um problema de educação e de cidadania. Ao qual não fomos capazes, até hoje de dar resposta. Sinto, naturalmente, responsabilidades profissionais neste domínio.


Voltando ao tema de início, pareceu-me importante registar as localizações, os desenhos e as autorias desses imóveis. Um trabalho que, creio, deveria ser levado a cabo noutras entidades. Não só ao nível académico (o de Joana Brites é de consulta obrigatória), mas com a finalidade de pública divulgação, de registo e de fixação da memória dos sítios e dos nomes.


Os 175 edifícios por onde fui passando têm uma memória desigual quanto ao seu estado de origem. Uns foram mais modificados que outros. Alguns estão espantosamente bem conservados e parecem de História recente. Os arquitetos da chamada Escola do Porto estão ausentes. Com exceção de um distinto projeto de Fernando Távora em Aveiro. Com uma ou duas exceções, os pós-modernos não aparecem. Ainda bem. Pelo País dentro, fui dando com uma verdadeira parada de estrelas. Há desenhos de Gonçalo Byrne, de Carrilho da Graça, de Hestnes Ferreira, de Nuno Teotónio Pereira, de Francisco Conceição Silva, de Porfírio Pardal Monteiro. Ou de outros menos conhecidos, como José Rafael Botelho ou como Chorão Ramalho. Ambos muito apreciados pelos da minha geração, refira-se. O Estado Novo deixou a sua marca de norte a sul. Cristino da Silva sobrevive em Castelo Branco. Dois nomes destacam-se neste panorama: António Reis Camelo e João Simões. Este último foi o autor do projeto do antigo Estádio da Luz, mas só o soube através de um amigo arquiteto. Um outro nome “perseguiu-me” meses a fio, sem qualquer pista, para além do nome em si, até descobrir que na secretária ao lado (!) trabalhava uma senhora com ligações à família. Trata-se do pouco conhecido e verdadeiramente talentoso Raul Martins, que na sua curta carreira (faleceu em 1934, aos 42 anos) desenhou o antigo Cinema Europa, o Jardim Cinema ou, para a Caixa Geral de Depósitos, os edifícios de Santarém, Póvoa de Varzim ou Angra do Heroísmo. Todos eles com profundas, e quase nunca boas alterações, feitas logo após o seu falecimento. Pode ser falha minha na pesquisa, mas não encontrei um só trabalho monográfico (tese de mestrado ou ensaio) sobre este arquiteto.


Quando terminar o périplo de oito semanas (no sábado, dia 3, que este artigo está a ser escrito no dia 30 de setembro) terei percorrido mais de 16.000 quilómetros de carro, mais uns 5.500 de avião, terei cruzado mais de 85 % dos concelhos do nosso País e feito cerca de 11.000 imagens. A missão estará cumprida quando o livro sair, em 2021. Ficará terminado este percurso, em nome da memória dos sítios, dos edifícios e dos nomes. Um domínio que tantas vezes negligenciamos, como se de uma ucronia se tratasse. E não é.


Texto publicado em "A Planície"



terça-feira, 6 de outubro de 2020

CHÃO NEGRO

Foi nas palavras de Urbano e de Adriano que pensei, ao olhar este pavimento, algures na Macaronésia. E nas malhas que o tempo tece, também.














Ó Alentejo dos pobres

Reino da desolação

Não sirvas quem te despreza
É tua a tua nação.
Não sirvas quem te despreza
É tua a tua nação.

Não vás a terras alheias
Lançar sementes de morte
É na terra do teu pão
Que se joga a tua sorte.
É na terra do teu pão
Que se joga a tua sorte.

Terra sangrenta de Serpa
Terra morena de Moura
Vilas d'angústia em botão
Dor cerrada em Baleizão.

Ó margem esquerda do verão
Mais quente de Portugal
Margem esquerda deste amor
Feito de fome e de sal.
Margem esquerda deste amor
Feito de fome e de sal.

A foice dos teus ceifeiros
Trago no peito gravado
Ó minha terra morena
Como bandeira sonhada.
Ó minha terra morena
Como bandeira sonhada.

Terra sangrenta de Serpa
Terra morena de Moura
Vilas d'angústia em botão
Dor cerrada em Baleizão.

MOMENT VOLTAIRE

L’univers m’embarrasse et je ne puis songer que cette horloge existe et n’ait pas d’horloger.

Não me perguntem porquê, mas sempre que olho para esta fotografia, penso que é isso que Marques Mendes está a dizer a Fidel Castro...



segunda-feira, 5 de outubro de 2020

JUAN ROMERO (1919-2020)

Faleceu Juan Romero, o último sobrevivente espanhol dos campos de concentração nazis. Nunca dele tinha ouvido falar e mais espantado fiquei ao saber que só há poucos meses, e quando já cumprira 101 anos, o governo do seu país de origem se lembrou de lhe agradecer o facto de ter lutado contra o franquismo e pela democracia.

É uma história absolutamente invulgar, e que pude ler ontem, no El Diário online:

https://www.eldiario.es/sociedad/adios-ultimo-superviviente-espanol-campos-concentracion-nazis_1_6267642.html



domingo, 4 de outubro de 2020

JOÃO LEMOS ESTEVES E WIZ KHALIFA

Mel Brooks tem 84 anos, Woody Allen vai cumprir 85, John Cleese faz 80 este mês. O mundo dos comediantes está a ficar bisonho. Eis que surge João Lemos Esteves. Os gags são pegados. O último é que a filha do presidente americano é conhecida em Portugal como Rainha Ivanka Trump. Cada um tem os "fetiches" que pode ou Le Portugal c'est moi, dirá JLE. Já agora, a tal de Ivanka é a do lado direito, na fotografia.

Prometo que não volto a falar da criatura até final do ano.

(não posso contar uma história que envolve príncipes e reis e uma Ivanka que não se chamava Ivanka, devido à moralidade vigente...)



COREOGRAFIA VASCAÍNA

Vasco da Gama está ali plantado, ao fim da Rua Direita. O google maps diz que é uma "atração turística". Lá isso é. Interrompi o telefonema que estava a fazer para fotografar este animado grupo de jovens, que resolveram imitar o passo em frente do navegador para fechar a noite. Arte sendo útil... 



sábado, 3 de outubro de 2020

AINDA A MESQUITA DE LISBOA - II

Os professores universitários na área da arqueologia entenderam, através do presente comunicado, tomar posição relativamente às notícias que têm vindo a lume relativamente a achados de época medieval islâmica surgidos no âmbito do projecto de valorização da Sé de Lisboa.

Por um lado, cumpre-nos sublinhar que os dados conhecidos até ao momento são inequívocos relativamente à excepcionalidade científica e patrimonial dos achados, tratando-se de estruturas associadas ao complexo da mesquita maior da cidade de Lisboa em época islâmica, singulares no contexto nacional e relativamente raros no panorama europeu. De resto, já há anos que se conheciam vestígios deste período no claustro da Sé, não tendo, contudo, à época sido possível interpretá-los cabalmente. As imagens divulgadas até ao momento mostram vários compartimentos de grande monumentalidade, ocupando uma área e com um grau de preservação assinaláveis, tornando imperiosa a sua conservação e desejável a sua valorização.

Por outro lado, é impensável que um projecto de valorização de um momento classificado da importância nacional como é a Sé de Lisboa destrua as suas preexistências. Em Portugal afirmou-se globalmente nos últimos anos o princípio da conservação pelo registo, em que se os achados arqueológicos são sistematicamente eliminados em operações de reabilitação urbana, de saneamento, ou da construção de equipamentos públicos, num equilíbrio sempre frágil entre a preservação do passado e as necessidades prementes do presente. No entanto, o caso presente é o de um projecto de valorização patrimonial, pelo que é paradoxal a eliminação de estruturas deste valor. É de rejeitar em absoluto a ideia de deslocalização dos vestígios, uma prática abandonada há muitas décadas pelas mais elementares normas internacionais. Não é igualmente sustentável que a preservação dos vestígios ponha em causa a integridade da Sé, tendo a engenharia mostrado, em vários pontos da Europa, as possibilidades de compatibilização em situações idênticas à presente. Em todo o caso, não sendo possível a valorização, é sempre viável o seu aterro, regressando-se à situação prévia à deste projecto garantindo, deste modo, a preservação destes achados singulares para gerações vindouras.

A academia está aliás, como sempre esteve, disponível para ajudar a encontrar as melhores soluções.

É este o texto que está a circular pela comunidade científica e do qual, juntamente com colegas da Universidade Nova de Lisboa (André Teixeira, Catarina Tente, José Carlos Quaresma, José Bettencourt e Rodrigo Banha da Silva), sou um dos primeiros subscritores. O apoio tem sido, de norte a sul, muito relevante. Continuo confiante num desenlace positivo.

Eis a lista completa de subscritores:

Amílcar Guerra (ULisboa), Ana Bettencourt (UMinho), Ana Catarina Sousa (ULisboa), Ana Margarida Arruda (ULisboa), André Carneiro (UÉvora), André Teixeira (UNovaLisboa), Andrea Martins (ULisboa), Andreia Arezes (UPorto), António Faustino Carvalho (UAlgarve), António Monge Soares (ULisboa), Armando Redentor (UCoimbra), Carlos Fabião (ULisboa), Carlos Rellán (UNovaLisboa), Catarina Tente (UNovaLisboa), Catarina Viegas (ULisboa), Elisa de Sousa

(ULisboa), Francisco Caramelo (UNovaLisboa), Helena Catarino (UCoimbra), Helena Paula Carvalho (UMinho), João Cascalheira (UAlgarve), João Luís Cardoso (UAberta), João Marreiros (UÉvora), João Muralha (UCoimbra), João Pedro Bernardes (UAlgarve), João Zilhão (ULisboa), Jorge Custódio (UNovaLisboa), Jorge de Alarcão (UCoimbra), Jorge de Oliveira (UÉvora), José Bettencourt (UNovaLisboa), José Carlos Quaresma (UNovaLisboa), José d'Encarnação

(UCoimbra), José Meireles (UMinho), Lara Bacelar (UCoimbra), Leonor Medeiros

(UNovaLisboa), Leonor Rocha (UÉvora), Luís Fontes (UMinho), Luiz Oosterbeek (IPTomar), Manuela Martins (UMinho), Maria da Conceição Lopes (UCoimbra), Maria de Jesus Sanches (UPorto), Maria João Valente (UAlgarve), Mariana Diniz (ULisboa), Mário Barroca (UPorto), Nuno Bicho (UAlgarve), Pedro C. Carvalho (UCoimbra), Raquel Vilaça (UCoimbra), Ricardo Costeira da Silva (UCoimbra), Rodrigo Banha da Silva (UNovaLisboa), Rui Centeno (UPorto), Rui Morais (UPorto), Santiago Macias (UNovaLisboa), Susana Gómez Martínez (UÉvora), Telmo Pereira (UAutLisboa), Vasco Gil Soares Mantas (UCoimbra), Victor S. Gonçalves (ULisboa)

AINDA A MESQUITA DE LISBOA - I

Sem mais comentários, aqui fica o brilhante texto que Hermenegildo Fernandes assinou no "Público" de ontem.  A contenção e a ponderação das palavras não as torna menos acutilantes.



sexta-feira, 2 de outubro de 2020

ALFARJE

Os exemplos são extraordinários. É preciso ir à Madeira ou à Beira Alta para os ver. Ou a Dois Portos. É um quase milagre que, no meio de tanta desgraça e de tanta incúria tenham chegado até nós. É uma normalidade nossa que estas obras-primas de raíz medieval permaneçam praticamente desconhecidas, em termos do chamado grande público. No dia em que aquelas vedetas das tardes da SIC e da TVI fizerem um Big Brother do Património, os tetos de alfanje vão ter momentos de glória. Aí é que vai ser.

Continua por publicar um texto decisivo de Victor Mestre sobre o tema.



quinta-feira, 1 de outubro de 2020

ENTRE O NOVO NORMAL E O VELHO NORMAL

À saida da Povoação e a caminho de Vila Franca do Campo, isto:








Digo ao taxista "não ultrapasse já, que isto merece ser fotografado". Revejo a cena de Ferreira do Zêzere. Só que aqui há passageiro ao vivo, que vai, calmamente, vendo o telemóvel. A fragonete vai aberta, que o dia está quente. Eis um novo e descontraído normal.

O velho normal? O facto de 9 em cada 10 vezes, em determinados sítios (balcões de check-in, rent-a-car, taxis de aeroportos, free shops) me saudarem com um "good evening, sir". A moça da HERTZ exclamou, ontem à tarde, "é que o senhor tem mesmo cara de estrangeiro...". Há coisas que já não devem mudar...

AMOR DA PÁTRIA

Não sendo grande entusiasta da obra de Norte Júnior (1878-1962) - tudo me parece demasiado parisiense... - gosto muito deste edifício art deco da Horta. É tudo invulgar ali. O nome, e as explicações ligadas ao nome. A fachada aberta ao exterior. O lustre no grande salão. A luz. O espírito de independência que por ali perpassa.

A visita foi de/uma surpresa. Ao subir a escadaria para fotografar de dentro para fora, abre-se uma porta e uma rapariga muito jovem (21 ou 22 anos) pergunta "gostava de visitar o edifício?". Não pensei que tal fosse possível, ainda para mais daquela maneira. Era, afinal, uma jovem licenciada de LLM da minha faculdade. Está a estagiar na Amor da Pátria. Foi um privilégio absoluto poder visitar o edifício e ter a prova física das ligações maçónicas da sociedade. O móvel que vi - e que decidi não fotografar - é um exemplo extraordinário de uma época. Não pensei que tal fosse possível, sob o fascismo e daquele modo.