domingo, 2 de outubro de 2022

A COR DA ARQUEOLOGIA, DE NOVO

"Voltei", diz Paul Newman na derradeira sequência de A cor do dinheiro. Um antigo profissional de bilhar terminava aí a sua travessia do deserto e voltava a jogar. Dá uma tacada, as bolas rolam e o filme acaba.

"Voltei", disse eu também no passado dia 18 de Agosto, retomando um filme cortado em Julho de 1990. O recomeço das escavações arqueológicas no Castelo de Moura parecia-me, há uns anos atrás, uma miragem improvável, uma daquelas coisas para nunca mais. Tinha já passado demasiado tempo, a vida tomara outro rumo e há coisas que, no nosso percurso, estão condenadas ao abandono. A escavação do Castelo de Moura estava catalogada nesse sector.

Afinal não. Como no velho jogo do Monopólio regressa-se à casa de partida e recomeça-se tudo. De momento, não se pode dizer que a arqueologia tenha muita cor, nem muito glamour (o glamour da arqueologia é só nos filmes do Indiana Jones, sempre rodeado de miúdas giras e a frequentar ambientes sofisticados), com o pó a asaltar por todos os lados e aquela expectativa que sempre acompanha os primeiros momentos de uma escavação arqueológica: vamos encontrar o quê? que estruturas e que pavimentos irão contar a história do castelo? os velhos desenhos do século XVI (medidos em varas) corresponderão à realidade? como se concluirá um dia este projecto?

A verdade é esta: dar início (ou recomeçar) um projecto como o do Castelo de Moura é, também, um compromisso moral e ético com as pessoas que vivem no nosso concelho. Não pode o projecto ser abandonado por simples capricho ou porque a informação não é, do ponto de vista científico, aquela que eventualmente se espera ou gostaria de ter. Se o financiamento não faltar, uma escavação é um casamento à moda antiga, sem direito a divórcio, para ser continuada até que a morte nos separe. Os trabalhos arqueológicos em grandes sítios, como Pompeia ou Conímbriga, já têm centenas de anos; noutros, menos importantes, como Mértola, ou mesmo como Moura, há menos décadas de investigação e, felizmente, não tenho esperança de algum dia ver esses trabalhos concluídos. Os arqueólogos sucedem-se, até os seus nomes passarem a ser notas de rodapé em publicações obscuras. Mas escavação é assim mesmo, trabalho de artesanato, uma manta em permanente tecelagem e quem as começa não pode ter mais esperança que a de construir à volta dos sítios ideias e teorias que um dia irão ser corrigidas, refeitas e reconstruídas por outros. Nem toda a gente aceita essas leis da vida e prefere construir cortes bizantinas à sua volta. Não creio que vala a pena escrever nomes ou reproduzir episódios.

Para já, voltei e é quase como se o tempo não tivesse passado, que afinal é de ilusões dessas que se alimenta a vida. São também essas coisas que dão cor à aridez da arqueologia. Para já, só isso, o recomeço, o pensar "agora é que é", as ilusões e as expectativas me interessam.






























Este artigo foi publicado na Planície em Setembro de 2003. Foi republicado, aqui no blogue, em junho de 2010. Continua tudo atual, desde o interesse científico das coisas ao foco na investigação, aos livros em escrita, à Moura que está em fundo. É bom ter um sítio (afortunadamente tenho dois, Mértola e Moura).

Sem comentários: