Mostrar mensagens com a etiqueta crónica dos dias que passam. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta crónica dos dias que passam. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 31 de agosto de 2020

E TERMINA AGOSTO...

 ... assim, sem glória. Não houve escavações arqueológicas no Castelo de Moura. Não houve festas. Nem romarias. Não fui ao meu concelho como gostaria. Em setembro não haverá feira, nem as aulas começarão na terceira semana. Tempos estranhos.

Foi um mês de trabalho de terreno. De propostas e de apostas futuras. De continuação de recolhas e de registos. Alea jacta est, já lá dizia o outro senhor.

quarta-feira, 26 de agosto de 2020

NOVO ÉS, VELHO SERÁS

Fotografia - Robert Mapplethorpe
 

Um texto importante, o de Carmen Garcia, no "Público". Na primeira pessoa e sem sentimentalismos fáceis. Direto ao tema.

Era uma vez um lar

Como aluna de Enfermagem, ainda com insuficiente sentido crítico, fiz o melhor que consegui. Num esforço hercúleo para não fugir, franzi o sobrolho em concentração, coloquei um bocadinho de creme perfumado debaixo do nariz, tal como a minha orientadora tinha feito, e uma máscara. E depois passámos horas a fazer pensos.

A Fundação Maria Inácia Vogado Perdigão Silva, em Reguengos de Monsaraz, foi o primeiro lar onde entrei na vida, era ainda aluna de Enfermagem. Lembro-me dos tectos altos do edifício, da simpatia da funcionária que nos recebeu, vestida com uma bata azul e branca aos quadradinhos, e de uma sala de convívio que me pareceu gigante. Infelizmente as recordações boas terminam aqui. E começa o cenário dantesco.

Como aluna de Enfermagem, ainda com insuficiente sentido crítico, fiz o melhor que consegui. Num esforço hercúleo para não fugir, franzi o sobrolho em concentração, coloquei um bocadinho de creme perfumado debaixo do nariz, tal como a minha orientadora tinha feito, e uma máscara. E depois passámos horas a fazer pensos.

Tudo isto que vos conto aconteceu em 2009 e suponho que, ao longo destes 11 anos, muita coisa tenha mudado. Só que aparentemente não mudou o suficiente. E sabem qual é o verdadeiro problema, muito maior que qualquer trica política? É que este lar está longe de ser caso único.

Contei há dias, na minha página pessoal de Facebook, que no início da minha carreira comecei a fazer umas horas num lar de onde acabei por me despedir após ser repreendida aos gritos porque, num dia quente de Agosto, coloquei protector 50+ no rosto de um idoso de 80 anos que andava a trabalhar na horta. Aparentemente e segundo me gritaram, o protector era demasiado caro para ser utilizado assim. Ainda estou para perceber o que raio seria este “assim”, mas nesse dia percebi que, nestes casos, não pode existir um “se não os podes vencer, junta-te a eles”. A única solução, quando não conseguimos mudar as más práticas, é vir embora e denunciar. Mesmo que as denúncias caiam quase sempre em saco roto.


Sei que é importante que no caso de Reguengos se apurem responsabilidades. Também sei as coisas terríveis que os meus colegas lá viram e viveram. Sei do cheiro a urina, dos idosos só de fralda, do calor abrasador e da falta de condições. Mas também sei que é ainda mais importante que nos façamos ouvir agora, enquanto sociedade, para mudar de uma vez por todas o paradigma de muitos lares deste país.


Não vou cair no caminho fácil do “se fossem cães estava toda a gente indignada”, porque, além de ser um argumento vazio, me parece falacioso. Eu também me preocupo com os cães. E isso não quer dizer que não me preocupe com os idosos. Ou com as crianças. Preocupo-me com todos aqueles que, sendo frágeis, temos obrigação de proteger. E preocupo-me ainda mais quando percebo que falhamos.


Reguengos pode servir como bode expiatório, mas está longe de ser caso único. Pensem nos lares que conhecem, pensem em quantos deles têm quartos individuais, em quantos respeitam a sabedoria dos idosos, em vez de os infantilizar, pensem naquelas salas de estar que parecem antecâmaras da morte… E as imobilizações? Já pensaram sobre isso? Todos os estudos apontam que as imobilizações não reduzem de forma significativa o número de acidentes, mas, ainda assim, continuamos a ver em todo o lado idosos presos a camas, cadeirões e cadeiras de rodas.


Parece-me que é altura, enquanto sociedade, de levantarmos a voz e de exigirmos respeito e dignidade para com aqueles que nos deram a vida. É altura de não nos calarmos, de denunciarmos, de não deixarmos passar, de pressionarmos a Segurança Social para que faça inspecções surpresa e para que não feche mais os olhos.


A minha avó, que felizmente esteve sempre em casa connosco, dizia muitas vezes: “Filho és, pai serás, como fizeres assim encontrarás.” E eu acho que podemos adaptar esta frase para um “novo és, velho serás”.

sexta-feira, 21 de agosto de 2020

SQUIDS E GRILLED LIZARDS, NUM CERTO RESTAURANTE

Os romanos acreditavam no espírito do lugar. O genius loci. Aquele restaurante tinha um. Em tempos, o dono resolvia tirar, ao vivo, as dúvidas sobre tradução dos pratos em língua inglesa usando os parcos conhecimentos do autor do blogue. Ante um casal de séniores da pérfida Albion resolveu tirar dúvidas:

- Santiago, como é que se diz lulas?

- Squids.

Ato contínuo, virava-se para os ingleses e anunciava, cerimonioso:

- We have squids.

E depois, para mim:

- Então, e bacalhau?

- Codfish.

- We have codfish.

Eu ria até às lágrimas. Então, o proprietário, sempre sorridente e cerimonioso, apontou na minha direção e anunciou:

- He, mayor.

Só me lembrei do "Me, Tarzan, you, Jane" e ía tendo uma apoplexia, ante o olhar atónito dos bifes, que deviam pensar "pois, o Mediterrâneo é esta farra e esta desgraça".

Tempos depois, o restaurante mudou de gerência. Ia a entrar no estabelecimento, quando o novo dono, um jovem simpático e jovial, me mostrou a ementa: "já viu? traduzi para inglês!". Olhei o menu à porta, com atenção. Estaquei num ponto. Havia grilled lizards. Havia o quê? Lagartos grelhados... Supostamente, o meu amigo queria anunciar aquela parte do porco a que chamamos "lagartos". Publicitava, contudo, algo de completamente diferente. Ou seja lagartos, dos verdes mesmos, na grelha. Aconselhei-o "tira isso daí, antes que tenhas aqueles ingleses, que acham que somos todos uns bárbaros, à perna". Tirou e passou anunciar uma mais banal grilled meat, ou algo assim.

Foi há um par de anos. É por estas e por outras que uma certa terra da margem esquerda do Guadiana me dá cabo do sentido.



terça-feira, 18 de agosto de 2020

E ENQUANTO TRUDEAU SE MASCARAVA DE ALADINO...

... eu andava pelo matadouro de Bissau.

Este homem dançava à minha frente, interpondo-se, de tempos a tempos, entre a minha objetiva, os jagudis, as paredes e as vacas. Era uma dança lenta, que quase fazia lembrar os gestos do laamb dos lutadores senegaleses. No final, fez esta pose, um pouco à Travolta, e fiz-lhe uma fotografia. Ato contínuo, virou-se para mim, de braço e dedos esticados e gritou: "BRANCO! ÉS MALUCO!". As pessoas em volta riram. Eu também, não podendo deixar de pensar "pois, ele deve mesmo pensar que há centenas de coisas mais interessantes para fotografar em Bissau do que aves de rapina e paredes sujas de sangue...".

A polémica pífia à volta de disfarces carnavalescos desapareceu. A minha memória da África Ocidental permanece, bem vincada. 

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

UM PRÍNCIPE EM SÃO BARTOLOMEU DE MESSINES

No facebook de um velho amigo fui dar com esta preciosidade, que presumo ser autêntica:

Ou seja, um cidadão português convidava o Prof. Leite de Vasconcelos a deslocar-se a S. Bartolomeu de Messines, para contactar com seres de outros planetas. E logo em duas noites, 19 e 20 de dezembro de 1921 ("mais uma vez (...) pela recepção de signais demosntrativos").

Lembrei-me, de forma irresistível, de um diálogo do filme "Um príncipe me Nova Iorque"...

sexta-feira, 14 de agosto de 2020

AO JEITO CAMPOMAIORENSE

Desce-se uma rua, depois sobe-se outra, depois outra ainda. Depois, contorna-se o castelo. As certezas tremem e desaparecem. Afinal, parte do que o sr. Duarte Darmas desenhou mantém-se, sim. Outra parte foi levada pelos baluartes modernos.

O castelo tem quartéis, do mesmo género dos que tem Moura, mas menos espaventosos. Não menos bonitos, por certo. Quem mora no castelo é a comunidade cigana. No calor das 13 horas, um homem de fato claro, gravata, pasta castanha numa mão, um dossiê com desenhos na outra, deve parecer estranho. Um cão não gostou de mim. Uma pequenita, dos seus 10/12 anos, intrigada, não resiste e pergunta "você é dos Jeovás?". Mesmo junto ao castelo fica a Rua Direita. A placa toponímica dá-lhe outro nome, bem mais divertido.

terça-feira, 11 de agosto de 2020

SPUTNIK

Um professor do Técnico ficou célebre, no final dos anos 50 do século XX, por demonstrar, com abundantes argumentos técnicos, que era impossível os russos terem posto um satélite em órbita. Puseram mesmo, e o professor foi alvo de chacota generalizada.

Agora, é anunciada, pelos russos, uma vacina contra o covid. Sintomaticamente, deu-se-lhe o nome de SPUTNIK. O primeiro a dar sinal de vida foi José Milhazes. Aquilo é tudo propaganda, diz ele. Milhazes arrisca-se a ser o Varela desta história.

Aguardo, com natural interesse, o desenrolar dos acontecimentos. Oxalá a vacina resulte. A bem de todos nós. E, também, para ver a cara de José Milhazes.


sábado, 8 de agosto de 2020

SÍNDROME RONNIE ALLEN

Ronnie Allen (1929-2001) foi treinador do Sporting em 1972/73. Tinha um estilo algo exuberante, esbracejava e gritava ordens. Dizia que queria homens e não meninos dentro do campo. Os adeptos, a princípio, acharam que sim. Com o Ronnie Allen é que era. A época foi péssima. Em abril de 1973, o Sporting era 5º. Ronnie Allen foi despedido. O episódio Ronnie Allen ficou-me na memória porque os amigos do meu pai, maioritariamente sportinguistas, no início da época achavam que "sim senhor, assim é que é". Afinal não era, era só espalhafato a fingir capacidade de liderança.

Lembro-me muitas vezes deste género de treinadores. Que aliam o espalhafato à incompetência. Tantas vezes que me lembro disto. Por causa do futebol, mas não só do futebol.

Na fotografia não está Ronnie Allen, clarifico

segunda-feira, 3 de agosto de 2020

REGRESSO

Foi tudo mandado para casa em meados de março. Passaram quatro meses e meio. O tal de teletrabalho levou-me a mergulhar no trabalho muito mais que 7 horas por dia. Regressei à base, brevemente, em meados de junho, para recolher materiais e preparar trabalho de campo. Retorno amanhã - o cartão de acesso caducou, a palavra-passe do computador idem... -, para tentar preparar as próximas semanas e os próximos meses.

E agora?

Como vai ser com os projetos em suspenso? Com os livros maquetados e por imprimir? E agora, como vai ser com as aulas, com a tenebrosa perspetiva de ser tudo outra vez à distância? Como vai ser com a família? Como vai ser no local de trabalho, entre o confinamento e o conforto do gabinete e a necessidade de resolver coisas?

São problemas menores, disso me convenço. Com o desemprego a alastrar, com a economia a afundar-se, com nuvens negras no horizonte, não tenho, na minha relativa segurança, o direito ao mais pequeno lamento.

Lisboa é uma cidade bonita? Sim, das mais belas entre as que conheço. Hoje mesmo constatei isso, sentado no silêncio do Largo da Academia Nacional de Belas-Artes. A 175 kms da casa de Mértola, a 160 kms. da casa da Salúquia. Está na altura de, na melhor companhia, aproveitar estes dias de regresso. Numa cidade com menos gente e num agosto que vai ser ainda mais sossegado.

domingo, 2 de agosto de 2020

HÁ 26...

Recentemente, percorri todo o Entre Douro e Minho, em trabalho, Quase nunca andei fora de auto-estradas. Não havia vila ou pequena cidade que não tivesse uma auto-estrada a curta distância. Um exagero? Não sei dizer. Notei apenas que muitas delas tinham pouquíssima circulação.

A litoralização do país acentua-se e leva o chamado "interior" a pique. A anedota da A26 é um exemplo claro da arrogância Lisboa-Porto face ao resto. Ontem, enfiei pela A26. Queria saber que colossal distância motivara aquela novela. São 12 (doze) quilómetros, senhores. É preciso dizer mais?

sábado, 1 de agosto de 2020

SOZINHO NA RUA, NO DIA 1 DE AGOSTO DE 1970

Andava brincando no Jardim da Porta Nova, quando chegou a noite. Os dias de verão eram todos uns iguais aos outros. Felizes, tranquilos e iguais. Voltei para casa. Bati à porta. Nada. Nem um som dentro de casa. O postigo fechado, coisa rara. Rumei a casa dos meus tios, a escassos 50 metros. Nada também. Ninguém em casa. Já era noite cerrada. Fui à Sociedade dos Azeites, onde o meu avô era porteiro. Nada também. A porta da casa estava fechada, coisas que nunca acontecera. Intrigado e sem saber que fazer (aos 7 anos não temos grande experiência de vida...), regressei ao jardim. Pacatamente, sentei-me num banco. Fiquei à espera, não sei bem de quê. "Onde terão ido todos, assim ao mesmo tempo?". Nem a minha irmã, que só falava espanhol na altura (o que me dava sempre jeito, para a atazanar, mas naquele momento até eu falaria na língua da família de lá com ela), dava sinais de vida. Passou uma hora, depois outra. Eu sempre pacato e silencioso, no banco do jardim. Nem Manoel de Oliveira se lembraria de uma coisa assim.

Já seriam umas onze da noite, quando apareceram todos de roldão no jardim. Em passo apressado, que na altura ninguém tinha carro. Nascera o meu primo Pedro e tinham ido todos para o Hospital de Moura, ver a criança. Deixar de ter protagonismo e passar a ser ator secundário é isto.

Foi no dia 1 de agosto de 1970. Faz hoje 50 anos.

Parabéns, Pedro!

terça-feira, 28 de julho de 2020

ERA UMA VEZ UM PAI DE FAMÍLIA

Que foi passear a um jardim e não voltou a casa.
Que foi morto com 4 tiros, com uma arma ilegal.
Que era português e era ator.
Que tinha três filhos (o mais velho tem 7 anos).
Que vivia num país de brandos e brancos costumes.
Que foi mandado para a terra dele, sendo aqui nascido e criado.
Chamava-se Bruno Candé Marques.

O racismo existe. O resto é argumentação para entreter papalvos.

Um responsável da PSP já veio dizer (com a investigação a decorrer!) que as testemunhas não referiram insultos racistas antes do crime. O asqueroso líder de um partido fascista já veio dizer que não houve racismo. Adoro coincidências.

sábado, 25 de julho de 2020

OREGOS, UMA COISA POPULAR

Era um professor baixinho e sempre de fato cinzento. Lecionava aquela cadeira há mais de 20 anos e fazia-o sempre da mesma maneira. Era um professor à antiga, previsível e imensamente monótono. Nunca ria e tinha o hábito de nos tratar por senhor ou senhora. Eu tinha decidido fazer aquela opção complementar (consta no currículo mas não "entrava" na média). Fui aluno mediano, nada mais.

O professor raramente dava a mostrar emoções. Comigo, só se enervou uma vez. Falava-se de ervas aromáticas e eu disse a palavra "oregos". O senhor deu um salto, visivelmente irritado: "Oregos não, senhor Macias! Oregos, não! ORÉGÃOS! Quem diz oregos é povo. Oregos é popular". De facto, em casa eu sempre ouvira dizer oregos e nunca me passara pela cabeça que estaria a incorrer num "erro". Que, em rigor, o não é. Sorri (mentalmente, claro) e decidi que diria sempre oregos. O que, ainda hoje e já lá vão 34 anos, continuo a fazer.

Ao entrar em Évora, ontem de manhã, uma carrinha ostentava uma tortíssima mas claríssima pancarta onde se lia "FIGOS & OREGOS". O povo aqui ganhou, caro prof. CS, não pude deixar de pensar.

segunda-feira, 20 de julho de 2020

STARDUST MEMORIES Nº. 37: MATEUS ROSÉ

Neste caso, é uma memória alheia e tem a ver com uma historieta passada com um familiar, em Monte Gordo, em 1968. Ao lembrar-me hoje disso, em Moura, resolvi "arriscar". Aos 57 anos, 1 mês e 16 dias comprei, pela primeira vez, uma garrafa de Mateus Rosé. O facto de ser o vinho preferido de Saddam Hussein não augurava grande coisa... Há também uma fotografia em que se vê Jimmy Hendrix a beber uma garrafa, pela garrafa, o que também não é lá grande coisa.

Ensopado de borrego com Mateus Rosé? Sim, duas vezes: a primeira e a última.

quarta-feira, 8 de julho de 2020

O INCONTORNÁVEL TRINARANJUS MATINAL

Hoje, de manhã cedo, perguntaram-me se queria sumo de laranja. Perguntei se era natural. O senhor respondeu que sim, com ar quase ofendido. Tirando os hotéis do topo - que não frequento, e este não era "desses" - o hábito é darem-nos um copo de laranjada. Não bebo copos de laranjada artificial pela manhã pela simples razão que em casa também não tomo sumol ao pequeno-almoço.

O sumo era assim-assim. A manhã também esteve assim-assim. Depois, e indo para sul, o dia melhorou.


terça-feira, 7 de julho de 2020

ESCADOTE

Logo eu, que tanto DETESTO bricolage, passei a ter como companhia obrigatória um escadote. Várias vezes ao dia. Não é o mesmo, bem entendido. Em cada local a fotografar, peço sempre antecipadamente um escadote. O pedido tem causado estranheza, logo desfeita ante a simples explicação, que é preciso ganhar altura, porque melhora as perspetivas etc. etc..

Esta verdadeira Volta a Portugal em Escadote dá pano para mangas. Já os apanhei de todas as formas, pesos e feitios.

Um GNR, no Crato "eh pá, espere lá aí, que ainda me cai daí abaixo e tenho de tomar conta da ocorrência; eu seguro o escadote" (e segurou mesmo);
Em Loulé "se eu fosse ao meu amigo, não ficava aí em cima muito tempo; esse é mais falso que Judas";
Em Bragança, um agente da PSP, "quer que mande parar o trânsito agora, enquanto está aí em cima?" (e parou mesmo, vá lá que ninguém me conhece por aquelas bandas...)
Em Montalegre, escarninhamente, "que chegar ao chéu?";
Outro GNR, em Lousada, "se puder, tente não cair".

Quando o escadote não dá, uso da maior lata. Na Vidigueira, terreno conhecido, coloquei-me na sala de sessões da Câmara Municipal; em Cuba, numa habitação particular, com uma senhora idosa intrigada com todo aquele aparato e contentíssima por ajudar; em Chaves, subi ao primeiro andar da biblioteca municipal; em Vila Real, fiz alpinismo nas paletes dos materiais de uma obra . Mas o melhor foi em Amarante, onde me deixaram usar o quarto de um hostel ("vá lá, sim, não se preocupe, sim, sim, pode ir sozinho") para ter a perspetiva que não conseguia de outra forma.

Amanhã, nova corrida, nova viagem.

sábado, 4 de julho de 2020

UM TAKE-AWAY, NO PAÍS REAL

À saída daquela localidade, pareceu-me ver um cemitério, ao lado da estrada. Mas, sem muro nem nada?... Concentrado na condução, notei um estendal de campas e um anúncio. "Não pode ser...", pensei, enquanto seguia caminho. Uma exposição de campas, à beira da estrada?

Dias depois, dei-me ao trabalho de fazer uma pesquisa no google maps. Não há dúvidas. É mesmo um take-away funerário, algures no norte de Portugal. Bendito e prático país que nós temos.

quinta-feira, 2 de julho de 2020

2020, ODISSEIA EM VALENÇA

Tui está do outro lado do rio. O crepúsculo vai bonito. Mas o solitário jantar 
é soturno. Só se ouvem os meus talheres. Nem poderiam ouvir-se outros. Estou sozinho no restaurante. Sou o Dave desta história.

Antes, ao andar dentro da fortaleza, dei-me conta que não há bares ou restaurantes abertos. Um padrão que tenho vindo a constatar ao longo das últimas três semanas. Amanhã é a raia. De Melgaço a Mértola esperam-me 660 quilómetros. É logali.

quinta-feira, 18 de junho de 2020

ENIGMA TOPOGRÁFICO-POLÍTICO, EM OLHÃO

Ontem, a meio da tarde, precisei de uma indicação para encontrar um determinado edifício, em Olhão. Esquecera-me do telemóvel no carro e orientava-me só pelo faro. A rua estava quase deserta. Só um homem à vista. Cumprimentei e perguntei. Solícito, informou "é muito perto; segue em frente e, no cruzamento onde está a loja xis, vira à direita". E abanou, energicamente, a mão esquerda. Intrigado, sugeri "não será à esquerda?". Olhou-me, surpreso, "esta é a esquerda?". Confirmei. Respondeu "ok, então vira à esquerda". Consegui, com um esforço homérico, ficar sério como um cardeal.

O edifício era perto. Fotografei e voltei para o carro.

Fiquei na dúvida. Ou tinha encontrado o maluco oficial de Olhão (todas as terras pequenas têm um) ou dera de caras com mais um que daqueles que confunde, a todos os títulos, esquerda e direita.

segunda-feira, 15 de junho de 2020

ROAD ART - ENTRE ALVESS, JACKIE STEWART E JOHN CLEESE

À saída da primeira rotunda, ouvi um ploc surdo. À saída da segunda, outro. Estranhei, mas não vi nada. Acelerei e, à passagem pela Rádio Renascença, houve uma revoada de plocs. Vi, pelo retrovisor, livros esvoaçando. Parei e saí para apanhar os restos do disparate. Tal como John Cleese em "Um peixe chamado Wanda", pusera os livros em cima do tejadilho e esquecera-me deles. Depois, conduzira à Jackie Stewart, naquela coisa da Formula Finesse, com a bandeja em cima do carro, fazendo manobras sem que a bola saltasse. Só assim se explica que boa parte dos livros permanecesse, sossegadamente em cima do tejadilho, várias centenas de metros após o começo. Rua fora tinham ficado, irrecuperáveis, uns 10 exemplares do livro "Caligrafias". Que se lixe, pensei. Alvess mandava, na sua mail art, desenhos a desconhecidos, sorteados ao acaso na lista telefónica de Paris. Eu acabava de converter a mail art em road art, espalhando livros de fotografia Buraca fora. Com menos talento que Alvess, mas com convicção.

Isto foi só o começo. O resto do dia foi também caótico, muito obrigado.