Mostrar mensagens com a etiqueta crónicas - planície. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta crónicas - planície. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

ÁGUA – PATRIMÓNIO DE MOURA (CINCO ANOS DEPOIS)

Tenho, ao longo dos anos, somado experiências, no âmbito das exposições, que considero particularmente gratificantes. Desde “Moura na época romana” até às que estão “em fase de montagem” (o covid é quem mais ordena...), contam-se quase 20 projetos, ao longo de 30 anos, e com passagens por terras africanas e americanas.

É-me difícil dizer qual foi o que mais me agradou ou o mais completo. Ou aquele em que colhi mais ensinamentos. Talvez o de maior impacto público tenha sido “Portugal Islâmico” (1998), por ter sido a primeira síntese arqueológica daquele período. Ou o que mais me tenha impressionado tenha sido “Lusa: a matriz portuguesa” (2007), no Rio de Janeiro, por ter ultrapassado a inimaginável fasquia dos 750.000 visitantes.

Feito o balanço, e agora com três exposições em fase de preparação, a aguardar luz verde dos melhores dias que virão, talvez a experiência mais marcante tenha sido “Água – património de Moura”. Em primeiro lugar, pelo desafio de conceber um guião e de o pôr em prática, ao mesmo tempo que desempenhava outras tarefas, bem mais complexas, de resto. Depois, pela especificidade e caráter volátil do tema. Houve uma opção de base, que mantenho e continuo a considerar válida. Do ponto de vista conceptual, creio que muitos museus locais têm muito a ganhar com abordagens "não-diacrónicas" das coleções ou do património local. Daí que a água fosse vista na sua intemporalidade, explicando-se a importância decisiva que o aquífero Moura-Ficalho tem em todo este território.

O edifício tinha dificuldades logísticas, e de percurso, que foram superadas, com esforço e numa permanente procura de soluções. Resolvemos aproveitar os espaços circundantes, apesar do seu ar precário e inacabado. Assumiu-se aí um certo estilo “arte povera”, que tão bem resultou nas sucessivas exposições (uma sobre aquedutos, outra com fotografias de José Manuel Rodrigues) que ali se montaram. Tal como foi gratificante receber no local João Neto, Pedro Inácio, Jorge Calado, Alexandre Pomar, entre muitos outros, em sucessivos debates. Programas de animação vocacionadas para o público infantil completaram o leque da programação.

Durante dois anos, “Água - património de Moura” esteve patente ao público. O local foi visitado por colegas autarcas de Portugal, Espanha, Cabo Verde, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe. Claro que cabe aqui especial menção a visita do Presidente da República Portuguesa. Tal como cabe destaque para os vários prémios com que a exposição foi distinguida.

Faço questão de assinalar a data. E de recordar os nomes dos que estiveram com o projeto: Marisa Bacalhau, Vanessa Gaspar, Patrícia Novo, Francisco Mota Veiga e a Terraculta, Jorge Silva, António Viana, Vítor Vajão, Jorge Murteira, Manuel Passinhas da Palma, José Finha, a equipa de arqueologia (Mário Romero, Luísa Almeida, Marta Coeho) e vários etc. 

Um lustro passou. Aquele projeto deixou marcas fundas. A minha vida profissional tomaria outro caminho. Faço questão de recordar aquela exposição. Em especial numa altura em que leio tantas declarações de amor ao tema "museus". Com alguma frequência, vindas de quem não tem a mais remota ideia do que está a dizer.


Crónica em "A Planície"

sexta-feira, 3 de julho de 2020

PARA ONDE FORAM TODOS?

 O colorido mapa que o “Jornal de Negócios” apresentou no passado dia 20 de junho diz bem da desgraça em que o interior do País se tornou. Entre 2011 e 2019 a população diminuiu em 86% dos concelhos de Portugal. Todos os concelhos do Alentejo perderam gente. Moura baixou em 8,58% o número de habitantes. Somos hoje menos de 14.000. O concelho mais interior que ganha população é Vila Nova da Barquinha (Santarém), que está a 60 quilómetros da costa. Para dentro, é a desolação.
É espantoso como um país com cerca de 200 quilómetros de largura conseguiu criar a ideia de “interior”. Pior, foi fazer com que sítios como Vila de Rei (a 150 quilómetros da capital) ou Sousel (à mesma distância) pareçam locais remotos, num sertão longínquo.
Um trabalho em curso tem-me feito percorrer todo a raia. Comecei em Mourão, passei depois para o limite norte do Alentejo, depois a Cova da Beira, de seguida a encosta oriental da Serra da Estrela, agora o planalto mirandês. À medida que percorro as estradas, dia após dia, num registo interessante, mas cansativo, vou-me perguntando “para onde foram todos?...”. Passo por aldeias perdidas e sem gente, por sedes de concelho onde, a espaços, vejo um ou outro jovem. O mais extraordinário é constatar, sem esforço, nem favor, que este interior nada tem a ver com a raia miserável dos anos 50 e 60. Que há infraestruturas de qualidade e prontas a funcionar. Sítios como Trancoso, Redondo, Celorico da Beira, Nisa, Sabugal, Penamacor estão bem arranjados e são muito agradáveis. Assim vazios, parecem um salão de festas à espera que os convidados apareçam. Para onde foi toda a gente?, pergunto-me, temendo saber a resposta.
As estradas que percorro são as da angústia. Não há gente, porque o Poder Central abandonou vastas faixas do território à sua sorte. Quando vêm inaugurar feiras – este ano, nem isso... – lá vem a revoada de banalidades elogiosas aos autarcas, ao esforço das populações, à autenticidade do país real. “It kills me”, como dizia o personagem de “Catcher in the rye”, quando elogiam a autenticidade. Parece que estão em visita a uma reserva de criaturas exóticas.
Há 20 anos prometiam-se benesses a quem fosse viver para o tal interior. Não deu em nada. Duas décadas volvidas criou-se uma fantasia, simpática e inofensiva, chamada “Unidade de Missão para a Valorização do Interior”. Não deu em nada, nem dará em nada. Por uma razão simples. Lisboa e Porto elegem 98 deputados. Beja, Évora, Portalegre, Guarda e Viseu elegem, em conjunto, 19 deputados. Somos uma aposta curta. Temos o Património e o Turismo. E isso é pouco.
Entretanto, fecham escolas, postos de correios, quartéis da GNR, num desinvestimento global e programado. De forma discreta, vai-se passando a mensagem que a batalha está perdida. Não está, assim nós queiramos fazer o contrário. Para baralhar, há presidentes de câmara que nos querem convencer que a devolução da taxa variável do IRS, ou a simpatias para com os recém-nascidos, são um estímulo à atração da população. Não atraem coisa nenhuma.
Falta-nos e falha-nos o Estado. Agora mais que nunca. “¡Pobre México, tan lejos de Dios y tan cerca de Estados Unidos!”, dizia o presidente Porfirio Díaz (1830-1915). Penso muitas vezes nestas palavras. Estamos perto de Lisboa, cada vez mais perto. As viagens são cada vez mais curtas. O resto, todo o resto, é um abismo que cresce.

Crónica em "A Planície"

quinta-feira, 4 de junho de 2020

UM POUCO MAIS DE SOL

As semanas tinham corrido um pouco mal. Não muito mal, na verdade. Tinham sido sofríveis. Dois meses e meio de peste, trabalhar de manhã à noite, concluir artigos e livros, dar aulas à distância, falar com muita gente ao telefone, alguma incerteza, mas não em coisas decisivas, em temos pessoais. E estava em casa, com a família, pela primeira vez em muitos anos.

Em volta, havia e há bem pior. Empresas que fecham, o lay-off que se torna lei em on, o desemprego que aumenta, investimentos que foram ao ar e futuros adiados. O País respondeu com calma e percebeu-se a importância do Estado. Até o fascista de turno, que queria privatizar Saúde e Educação, se calou e foi pregar outras demagogias. O pavão da Iniciativa Liberal meteu, por agora, a viola no saco e remeteu-se a um benfazejo silêncio.

Razões de reclamação pessoais não tenho, portanto. Mas o mundo em volta tornou-se bisonho e algo sombrio.

Estava eu, na sexta, dia 29, num resmungar lento e introvertido, quando o telefone tocou. Eram 18.36 e o dia tinha sido como no “king”, quando damos vazas para negativos. Do outro lado, ouço a voz do António. Um velho e querido amigo vinha dar-me notícias. Estava manifestamente satisfeito. Acabara de rever mais um livro. Uma tarefa normal num historiador, um pouco menos normal quando se tem 91 anos. Como é o caso do António. Sem me dar tempo a respirar, desfiou o conteúdo do livro. Falou de colegas, e narrou-me um episódio surpreendente passado com Jorge Borges de Macedo. Elogiou-o e estamos de acordo que “A situação económica no tempo de Pombal” continua a ser, com 70 anos, um livro genial. Falou do Partido e da velha amizade com Álvaro Cunhal. Discorreu sobre Leibniz, tema que me é desconhecido, mas que o apaixona há muito. A meio da conversa, a luz abriu-se um pouco. Dei comigo a pensar “que razões tens tu para lamúrias, quando dás com este otimismo fantástico aos 91 anos?”. Dos tempos na prisão, no Forte de Peniche, saltou para os Mártires de Marrocos. Falei-lhe desse projeto em curso. Comentou, rapidamente, “como bem sabe, os mártires são-me familiares, fizeram parte do meu percurso no seminário”.

A dada altura, a conversa trouxe-me à memória um conto de Mário Dionísio em que um homem, só por assobiar uma melodia, anima a carruagem do elétrico. O António fizera-me ganhar o dia. Sem que ele soubesse bem porquê, agradeci muito ter-me telefonado. Foram mais de 20 minutos de luz e calor. Foi um pouco mais de sol, no final da tarde.

Crónica publicada em "A Planície"

sexta-feira, 8 de maio de 2020

FORCADOS E CIDADANIA

No meio da enorme confusão das últimas semanas, entre tanta incerteza e dados contraditórios, houve muitos dados positivos e gestos de grande solidariedade. Uns de maior visibilidade, outros mais discretos e contidos. Fui, ao longo das semanas, tomando nota de coisas que iam acontecendo, e registando atitudes generosas, que passaram ao lado da maior parte da imprensa. E que não me recordo de ter visto na “grande comunicação social”. Há problemas e constrangimentos? Há gente e instituições em dificuldade? Há questões a resolver? Houve quem se chegasse à frente. Como os Forcados Amadores do Ramo Grande, na Terceira; como os Forcados Amadores de Alcochete; como os Forcados Amadores de Coimbra; como os Forcados Amadores de Monsaraz, como os de Coruche, como os do Montijo, como os Amadores do Aposento do Barrete Verde de Alcochete, como os de Lisboa. Mais os de São Manços e os de Beja.

Como os de Moura. Era aqui que queria chegar e é aqui que bate o ponto. Se alarde, nem espavento, os Forcados de Moura estiveram presentes nesta campanha de solidariedade. Fraternidade e solidariedade são palavras que rimam com os moços do Real de Moura. A fraternidade presente num grupo com quase 50 anos, e que representa o concelho e deixa Moura bem vista, por onde quer que passa. A solidariedade que se manifesta na praça, nos bons e nos maus momentos. E, também, fora dela. Que tenham dito “presente!” para tomarem cargo a Festa de Nossa Senhora do Carmo diz bem o que lhes vai na alma. Que tenham assegurado, em simultâneo, a preparação da temporada e a festa da padroeira é verdadeiramente invulgar. Esta parte não me contaram, eu vi.

Não haverá, quase de certeza, temporada. Não é por isso que a atitude é menor. Não é por isso que o esforço e o empenho diminuem. Nunca fui forcado. Mas percebi, em especial no decurso dos últimos anos, e no afortunado contacto que com eles tenho tido, que a pega é em si, mais que um ato de bravura (que o é) é uma atitude e um princípio. Na arena e na vida.

Fiquei orgulhoso com esta atitude, e sabia que os moços do Real de Moura iriam estar na linha da frente. Foi assim que aconteceu, embora sem grande reconhecimento público. Os forcados não têm “imprensa”. Por isso, os gestos generosos como estes passam sem visibilidade e é hoje mais fácil atacá-los que tomar a sua defesa. É pena e não é justo.

Daqui a umas semanas, ou uns meses, a vida vai recomeçar o seu curso. Aos poucos e devagar. Voltaremos a conviver. O Real de Moura cá estará. E nós em eles. Porque a cidadania, a solidariedade e a generosidade não se apregoam. Praticam-se. Em 2021, eles terão a festa da padroeira de que gostariam. E terão, seguramente, a temporada alta do costume. Aquela que merecem ter.

Crónica no jornal "A Planície" de hoje

quinta-feira, 9 de abril de 2020

SÍSIFO

Entre 19 e 21 de abril de 1506, 4.000 pessoas foram massacradas em Lisboa. Eram, na sua maioria, judeus. Havia peste em Portugal. Em tempos de peste e de seca, havia que criar bodes expiatórios e culpar alguém da desgraça que a todos atingia. Os relatos são impressionantes e se alguém quiser testar a ideia dos “brandos costumes” não tem mais que ler as narrativas da época. Damião de Góis deixa-nos esta descrição: “e por já nas ruas nam acharam nenhus christãos nouos, foram cometer com vaiues (vaivéns) e eicadas (escadas), has casas em que viuiam, ou onde sabiam que estauam, e tirandohos dellas, arrasto pelas ruas, cõ seus filhos, molheres e filhas, hos lançauam de mistura viuos e mortos nas fogueiras, sem nenhua piedade, e era tamanhaha crueza que atte nos mininos, e nas crianças que estauão no breço (berço) há executauam, tomandohos pelas pernas fendendo hos em pedaços, e esborrachandohos darremesso nas paredes”.

A culpa da pandemia, atribuída hoje aos estrangeiros, é a trineta do massacre. Este, felizmente, impossível de repetir em Portugal. Ainda assim, há dias eram os nepaleses, coitados deles..., os alvos da desconfiança. Diga-se de passagem, que a peste de 1506 continuou por mais algum tempo, sem que o sangue dos judeus tivesse apressado o fim da epidemia.

O medo do desconhecido não desapareceu. Mudou de forma e tomou outras linhas. Somos confrontados, a cada dia que passa, com novos avanços e com novas limitações. Num dia futuro, o tormento por que passamos será banal e encarado com despreocupação. Por agora, temos o desconhecido, o medo e a incerteza à nossa frente. A barbárie da turba lisboeta, assim se espera, não voltará. Dentro de meses, retomaremos a reconstrução do nosso mundo. Com menos dificuldade, ou de forma pesada e penosa. Recordemos aos que, em tom trágico, dizem “nada voltará a ser como antes”, o que era o mundo longínquo sem antibióticos, sem meios de diagnóstico, sem telecomunicações, ou o que era o mundo recente sem Serviço Nacional de Saúde (esse braço médico da opressão esquerdista, na visão da nossa amada direita). Estamos como Sísifo, o da mitologia grega. Que, depois de várias vezes ter enganado os deuses, foi por eles castigado a empurrar, durante a eternidade, um bloco de mármore até ao alto de um monte. Quando estava quase a conseguir, a pedra rolava encosta abaixo. Sísifo tinha de recomeçar. A situação repetia-se, sem cessar.

A nossa sina é a de Sísifo. Trata-se de recomeçar. Uma vez e outra. De pouco nos servem os lamentos e os queixumes. Usemos antes a tenacidade, a perseverança, o empenho, o esforço. Ao contrário de Sísifo, venceremos. Ainda que só por pouco tempo.

Crónica publicada em "A Planície"

Sísifo numa peça do séc. IV a.C. (Museu Arqueológico Nacional - Nápoles)

domingo, 1 de março de 2020

A MOURARIA EM LIVRO

Há projetos que gostaria de ter terminado de forma mais rápida. O livro sobre a Mouraria cai nesse grupo. Os motivos são ora difusos, ora obscuros. O ponto de partida foi um conjunto de materiais cerâmicos, de excecional qualidade, recolhidos em duas campanhas arqueológicas. Publicar e ler séries de cacos sempre me pareceu tão excitante como consultar os catálogos do IKEA. Fotografias, números de inventário, medidas. Fazer da História uma leitura técnica é um aborrecimento sem fim. 

Pensámos, o José Gonçalo e eu, em usar as peças de arqueologia – algumas delas especialmente luxuosas – como ponto de partida para um reenquadramento da realidade social do bairro. Porque a Mouraria medieval foi muito mais que um conjunto de ruas, de travessas, de materiais arqueológicos, de casas e de chãos. Não sem esforço, retomaram-se textos e manuscritos antigos. Passámos a trocar – num jogo de ping-pong – pilhas de artigos e de textos de origem diversa, sobre materiais cerâmicos. Não pelas peças em si, mas porque nos ajudavam a enquadrar a cronologia dos achados e, consequentemente, uma época de maior riqueza dos mouros da nossa terra. O compasso começou muito aberto, depois foi-se fechando. “Aquilo” eram, genericamente, coisas do século XIV, talvez mesmo de inícios do XV. Constatámos, com relativa surpresa, que não havia assim tanta bibliografia disponível publicada que nos pudesse dar um enquadramento mais rigoroso. Entra em ação a rede de contactos. Sucedem-se os mails para Jaume Coll (diretor do Museu Nacional de Cerâmica, em Valência), para Alberto García (da Universidade de Granada), para Fernando Villada (do Museu de Ceuta), para amigos lusitanos como Marco Liberato ou Isabel Cristina Fernandes. O cruzamento de informações e a especificidade dos sítios começa a apontar-nos uma datação genérica. “Aquilo” era um conjunto de materiais cerâmicos da segunda metade do século XIV. Poderíamos arriscar algures entre 1350 e 1380, mas pareceu-nos “atrevimento” a mais.

O livro ía tomando formando, num “mix” de materiais e de contexto histórico. Que tópicos fundamentais importa sublinhar sobre os mouros de Moura?

1.   Parte dessa comunidade continuava a explorar a várzea do Ardila, ainda que sob a forma de arrendamento, daí tirando alguma riqueza;
2.   Havia membros dessa comunidade particularmente desafogados, o que lhes permitia encomendar peças cerâmicas de apurado fabrico, com origem em sítios tão longínquos como Sevilha, Málaga e Valência;
3.   Na segunda metade do século XIV, e enquanto decorreu a obra da construção da Torre de Menagem (ah, a importância do investimento público...), a circulação monetária aumentou certamente em Moura. Isso permitiu às famílias utilizar parte do seu pecúlio em bens sumptuários.

Já com o trabalho relativamente avançado, resolvemos incorporar ao livro um ensaio de José Francisco Finha, sobre a identificação da toponímia medieval do bairro. Um estudo minucioso e de grande interesse. Acabámos incluindo os dois textos num livro, a que demos título em latim “Stuvia Historica & Archaeologica – Movra Medievalis”. Haverá um segundo livrinho, em 2021: “Stuvia Historica & Archaeologica – Ossa Islamica”. O conteúdo de ambos será, contudo, em português.

“Stuvia Historica & Archaeologica – Movra Medievalis” tem apresentação pública no dia 14 de março.

Crónica em "A Planície". Um atraso na receção do prefácio levou a passar a data de 7 (data publicada no jornal) para 14 de março.

sábado, 1 de fevereiro de 2020

JOSÉ COSTA SILVA EM MOURA

Foi um dos mais ativos, e menos conhecidos, arquitetos do Estado Novo. De tal modo que não se conseguem facilmente dados sobre a sua biografia. O consulado de Oliveira Salazar associa-se, na arquitetura, a nomes como os de Cristino da Silva, Pardal Monteiro, Cottinelli Telmo, João Simões, Reis Camelo, Jorge Segurado, Paulino Montez, entre outros. O “português suave” que se foi impondo esmagou o talento de muitos deles. Não sou especialista em arquitetura contemporânea, mas os trabalhos de Reis Camelo feitos no pós-25 de abril parecem-me bem mais interessantes que os dos anos 40 e 50...

No meio desta parada de estrelas, é com dificuldade que identificamos o nome de José Costa Silva. Foi, contudo, um dos arquitetos mais destacados da Junta de Construções para o Ensino Técnico e Secundário (JCETS). Projetou os liceus Salvador Correia (Escola Secundária Mutu Ya Kevela), em Luanda, e Salazar (Escola Secundária Josina Machel), em Lourenço Marques (actual Maputo). A portugalidade tropical é, desde há muito, tema de estudo de Ana Vaz Milheiro. Em Portugal, José Costa Silva assinou projetos como o do Liceu de Faro, nos anos 40. Ainda segundo um texto daquela investigadora – apoiando-se em dados de Fernando Moreira Marques, do livro Os Liceus do Estado Novo, são também da sua autoria os liceus Nuno Álvares (Castelo Branco, 1940), Gil Vicente e D. João de Castro (Lisboa, 1944 e 1945, respetivamente), e José Estêvão (Aveiro, 1947). Trabalhou ainda num anteplano de urbanização da Praia da Rocha.

Em 1951, José Costa Silva foi contratado pela Caixa Geral de Depósitos para fazer o projeto da agência de Moura. Refiro-me à agência antiga, na esquina das Ruas da República e 5 de outubro. É um dos menos emblemáticos de toda a história do banco e um dos mais discretos projetos do seu autor. Tem as pesadas características da maior parte dos projetos da Caixa. Sobressaem um ar sisudo e institucional, como se esperaria de uma vetusta entidade do Estado. Há cantarias de ar pesado e gradeamentos em ferro. A grelha em tijoleira, na entrada da casa do gerente, na Rua 5 de Outubro, dá um ar dos tempos e identifica o apego de toda uma geração ao “português suave”. A agência da Caixa foi vendida há muitos anos, tendo o seu espaço sido ocupado por um estabelecimento comercial. De José Costa Silva. pouco mais consegui apurar. Curiosamente, em tempos recentes, fui dar com assinatura dele num projeto concretizado num bem conhecido edifício lisboeta. Para o qual tive de delinear uma exposição, sobre “Lisboa Islâmica”. Que será assim levada a cabo sob a sombra de um arquiteto que ficou ligado a Moura.

Crónica em "A Planície"

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

O CAMINHO DA NOSSA PROCISSÃO

             Durante muito tempo me questionei sobre a antiguidade do percurso da procissão do Domingo da Festa, em honra de Nossa Senhora do Carmo. Continuo sem saber quando começou a tradição, que faz o caminho (2100 metros, ao todo) por entre as ruas da Moura, cruzando a cidade que se foi construindo entre os séculos XIII e XVIII. Mas tenho a certeza que, em julho de 1816, já era (quase) esse o trajeto. Porque desse ano temos testemunho de uma procissão. O falecimento da rainha, D. Maria I, ocorrera em 20 de março, no Rio de Janeiro, mas só em finais de julho as forças vivas da vila de Moura organizaram o cortejo fúnebre.
No livro de atas da vereação de 1816 da Câmara de Moura encontra-se esta descrição (fols. 61-61v.): “no dia 29 de julho de presente anno de 1816 se ajuntarão nas casas da Camara desta villa todos os officiaes de justiças, misteres, e todos os pautados em procuradores da Camara, e em veriadores, que para esse fim tinhão sido avisados no dia antecedente. Sahio das ditas casas a porcição funebre, formada em duas allas, puchadas pelo cavalheiro José Mathias de São Paio Lobo, que levava o estandarte real de lutto, hindo adiante delle huma escolta de cavalaria do regimento numero 5, que emtão se achava de quartel nesta mesma villa. Atras do estandarte seguião-se todos os officiaes de justiça, depois destes os misteres, logo os pautados em procuradores da camara, depois deles os pautados em veriadores, e procurador da camara autual, e na sua retaguarda a companhia de milicianos, que há nesta villa, comandada pelo tenente della Bentto Maria Segurado. Caminhou a porcição pela Praça em direitura à Rua do Morgadinho, dahi à Rua de Serpa, aonde quebrou o primeiro escudo o veriador mais velho o capittão mor desta villa Francisco de Paula Limpo Quaresma. Seguio a porcição athe a Rua de Santo Agostinho, e fazendo volta o Rocio da Gloria, ahi quebrou o segundo o veriador segundo Marianno Bestel Vinha. Continuou a porcição pela Rua de Gonçalgaracia [sic], e emcaminhado-se a Rua da Assaboeira de frente do passo della quebrou outro escudo o terceiro veriador Sebastião Casqueiro Viera [sic] Gago. Daqui seguiu a porcição pela Rua Longa em direitura a Igreja Matriz de São João Baptista, e fora do adro della se repetio huma piquena oração.”
Os aspetos organizativos são interessantes, com a presença de uma tradição antiga, a da quebra dos escudos representativos da rainha falecida. Mas o mais relevante é o percurso da procissão, que é o mesmo da que ainda hoje se cumpre na Festa de Nossa Senhora do Carmo. Mudaram os nomes de todas as ruas, mas os locais de passagem do cortejo não sofreram alterações: da praça passa-se à Rua do Morgadinho (Miguel Bombarda), depois à Rua de Serpa (Serpa Pinto), em direção à Rua de Santo Agostinho (9 de abril). A partir desse ponto inicia(va)-se o regresso. Primeiro pelo Rocio da Glória (Largo Gago Coutinho), depois pela Rua de Gonçalo Garcia (5 de outubro), infletindo para a Rua da Assaboeira (Dr. Garcia Peres), antes de chegar à Praça pela Rua Longa (Santana e Costa). Como alterações dignas de registo refira-se o facto de hoje a grande procissão de julho alternar entre as ruas de Santana e Costa e de Arouche. E de não terminar, como é evidente, em S. João, mas sim no Carmo.
O tempo passou. E passará. A nossa Moura permanecerá. Esta memória da vila oitocentista é uma prova de que os gestos do quotidiano são também, uma construção no tempo. Uma evidência de que tudo aquilo que fazemos, nas nossas terras, não é fruto do acaso.

Crónica publicada hoje, em "A Planície"

domingo, 1 de dezembro de 2019

VINHO

Numa recente entrevista ao “Diário de Notícias” dizia, textualmente, um desses super-críticos de vinhos “um problema é que Portugal também produz muito lixo. Os vinhos de 4 euros do supermercado, coisas dessas (...)”. A frase é de uma pedantaria sem limites. Lendo o resto da entrevista, com frases tão complexas como as descrições sobre aromas e tabacos que enchem os contra-rótulos de tantas garrafas, fiquei a pensar “ele saberá tudo sobre castas e evoluções, mas não sabe o que é o calor humano que há num simples copo de vinho”. Vinho tem a ver com amizade, com presença e com convívio. O mais espantoso copo que me ofereceram foi há muitos anos, numa aldeia nos confins de Mértola. Era um carrascão violento. A garrafa, de um agricultor já bastante idoso, foi aberta com gestos de preciosidade. O homem estava a dar-me o que era dele. E era tudo o que ele tinha para me dar. Para além da sua enorme generosidade. Beber vinho é isso, essa comovente proximidade, antes dos “aromas evoluídos” e das “sugestões de frutos silvestres”.

Lembro-me desse dia de há quase 30 anos, tal como me recordo dos passos dados com o Manuel Ramalho, num final de manhã, em dezembro de 2016. Era um sábado de feira do vinho e fomos Amareleja fora, numa peregrinação que foi incorporando jovens da aldeia. Os copos bebidos foram poucos, mas o ambiente de fraternidade foi muito grande. Um e outro completaram-se. Homero, na Odisseia, fala no “roxo ardente vinho”. O especialista dos vinhos caros não sabe o que isso é. Nunca foi ao Liberato, nem ao Tapas, nem ao Barriga Cheia, nem ao Vela. Johannes Vermeer parece ter estado no Vela e desenhado o chão, um dia, há muito tempo...

Na primavera deste ano, fui à adega de um senhor mais velho, de gestos suaves e de grande cordialidade. Uma pessoa "à antiga", se assim se pode dizer. Queria oferecer-me um par de garrafas da sua produção. Fiquei sensibilizado, mas, sobretudo, enormemente surpreendido. Afinal, o par de garrafas eram umas caixas... Vinho forte, denso, encorpado e saboroso, temperado pela amizade. Beber vinho sem amizade, ou a sós, é vício e tristeza. O meu vinho não é o das “harmonizações”, nem o do “fine dining”, em sítios com pessoas que não conheço nem voltarei a encontrar. Coisas como “tons de flores e especiarias frescas”, “notas de bergamota”, “fumado, salino, com as frutas pretas e do bosque por trás, há notas doces e tostadas da madeira, compotas” ou ainda “frutos do bosque, violetas, notas discretas de madeira de estágio” e “muito balsâmico, com notas de eucalipto e mentol” nada me dizem. São palavras abstratas e que não rimam com amizade, conversa, risos, cante e com aquele rumor de que são feitas as tabernas.


Dentro de dias é a feira da Amareleja. Lá estarei. Cada dia que passa me fazem mais sentido estas palavras, escritas há anos: “entre o céu e a terra se fez a Amareleja. Entre o céu e a terra se faz o vinho da Amareleja, que neste livro tantas vezes encontramos. E que tão presente está na imagem da aldeia. Partamos com o vinho em direção a um céu feérico. Não esqueçamos nunca o poder mágico da terra e do céu feérico sobre nós”.


Crónica em "A Planície"

segunda-feira, 4 de novembro de 2019

O ANO DE 929 NA HISTÓRIA DE PORTUGAL (E MOURA PELO MEIO)

No mesmo dia em esta edição de “A Planície” sai para a rua, está o quotidiano “Público” a colocar à venda um livro intitulado “929”. O convite chegou-me, há meses, de forma um tanto surpreendente, pela mão do historiador Rui Tavares (sim, esse mesmo, o do “Livre”...). Tratava-se de apresentar, em poucas páginas, uma data importante para a história de Portugal. Deveriam perspetivar-se os factos anteriores e posteriores. Ou seja, o que levou a que essa data “acontecesse” e efeitos que ela teve. Uma lógica anglo-saxónica. O Rui não deve estar de acordo, mas acho mesmo que é isso.

Acabei por desafiar Fernando Branco Correia, velho colega e amigo, para esta tarefa. Optámos por uma data menos evidente dentro do período islâmico. A escolha óbvia seria 1147, data da conquista de Lisboa e de Santarém. Mas o menos conhecido ano de 929 era desafio mais estimulante. Que se passou em 929? Ocorreu a unificação do al-Andalus, sob o comando de Abd ar-Rahman III. Essa centralização do poder representou, no caso do ocidente peninsular, o esmagamento das antigas famílias de origem lusitana que, em grande medida, e ao longo dos séculos VIII e IX, continuaram a deter o poder sobre a região. Não era assim que nos “vendiam”, em tempos, o período islâmico na escola, mas a verdade é que as famílias poderosas do que viria a ser o Alentejo foram as mesmas, antes e depois da islamização. Até ao ano de 929.

E onde anda Moura, no meio de tudo isto? Está bem no centro da disputa. O território de Laqant é palco de vários conflitos, entre meados do século VIII e a segunda metade do século IX. A fortificação em si era pequena, não mais de dois hectares, ocupados por escassas centenas de habitantes. Mas o foco principal do território não estava no castelo. Era a prata de Totalica (as minas da Adiça) que suscitavam cobiça. O cronista ar-Razi fala da sua exploração em meados do século X. A importância das minas não escapava à atenção de Córdova. Tal como não escapará, em meados do século XI, ao emir Al-Mutadide.

A prata desapareceu, as minas da Adiça aguardam por um projeto de investigação que as “descodifique”, o estudo dos séculos iniciais do domínio islâmico dará ainda pano para mangas. Já não será ”no meu tempo”...

A redação do livro obrigou-nos a rever fichas, a reler livros, a construir uma lógica de apresentação. Foi útil para agora e, sobretudo, para “o outro” que virá a seguir. De momento está disponível este “929”. Que pode ser consultado nas bibliotecas públicas. Que, entre muitas outras coisas, servem para lermos, poupando dinheiro.

Crónica em "A Planície".

Orientalismo ao jeito peninsular - tela de Dionisio Baixeras Verdaguer (1862–1943), datada de 1885.

terça-feira, 1 de outubro de 2019

A FUTURA FRAGILIDADE DO PASSADO

Não é que fosse o dia ou momento para “aquelas coisas”. Mas ao regressar a Portugal assaltou-me a dúvida “Ibahernando não será por estas bandas?” De facto, assim era. Ibahernando fica 14 quilómetros a sul de Trujillo, na província de Cáceres. A aldeia estava deserta e as duas pessoas a quem mencionei a existência de uma basílica visigoda nunca de tal tinham ouvido falar. Depois de algumas voltas pela carretera CC-24.2 (nome pomposo para tão secundária via) encontro casualmente os proprietários da Dehesa de Magasquilla de los Donaire, onde o sítio arqueológico se encontra. Da basílica nada resta, clarificam. E, contudo, o edifício tinha estruturas visíveis, dali se retiraram placas funerárias romanas e uma inscrição, consagrando a igreja a Santa Maria, na era de 673 (ou seja, 635 d.C.). Hoje não há nada e é preciso ir ao Museu de Cáceres para consultar o espólio que dali saiu.

Muito pouco é também o que se vê em San Pedro de Mérida, onde estivera em 2008, durante um congresso em dias gélidos. As ruínas estão à vista, ao lado da igreja, de forma anónima e sem explicação. Reconhece-se a zona do altar, e pouco mais. É preciso recorrer a um texto antigo (1962!), de Alejandro Marcos Pous, para ler o que ali se torna difícil de decifrar.

Funciona agora a máquina do tempo. Revejo o inverno 1983/84, em que tomava o caminho da delegação do Instituto Arqueológico Alemão, na Avenida da Liberdade. Um trabalho sobre as basílicas paleocristãs começou a apontar-me um caminho. Os textos de Enrique Cerrillo Martín de Cáceres (n. 1950), então consultados, bem como o monumental estudo de Pedro Palol (1923-2005), foram decisivos. Depois, viriam os estudos, não menos densos, de Paul-Albert Février (1931-1991) e de Noël Duval (1929-2018), sobre o Norte de África. Uma parte significativa desses trabalhos foi usada no doutoramento; outros aguardam novos estudos, que se farão ou não…

O envolvimento na reabilitação da basílica paleocristã de Mértola (1991/93) deu-me a momentânea ilusão de que é possível uma sistemática recuperação do passado. Não o é. A dimensão da tarefa da recuperação dos sítios arqueológicos é uma manta de Penélope, feita e desfeita a cada momento. A fragilidade das igrejas alto-medievais e das mesquitas rurais torna difícil a sua conservação. O esquecimento é maior que a vontade da recordação. Nas áreas urbanas, mais controladas e protegidas, as coisas são um pouco mais fáceis. Nos sítios rurais, o panorama é pior. Longe de tudo, pouco visitados, pouco glamorosos, vão caindo, aos poucos, no esquecimento e na ruína. Dizia-me Miquel Barceló “o poder está nas cidades e os urbanos não querem saber do campo nem dos camponeses”. Nem daquilo que nos deixaram, naturalmente. A finitude, e os limites físicos, da investigação tornaram-se-me ainda mais claros ao sol da Extremadura, naquele final de manhã de domingo. É difícil parar. Mas temos de ter claro que o esquecimento se sobreporá a todos os nossos gestos e que o futuro do passado é marcado por uma fragilidade que se torna doloroso avaliar.

Crónica publicada hoje, em "A Planície"

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

MOURA ARQUEOLÓGICA

Vem este texto a propósito da recentemente inaugurada exposição no antigo matadouro. Utilizando materiais da coleção do Museu Municipal, peças de escavações arqueológicas e réplicas do Museu Nacional de Arqueologia, é apresentada uma panorâmica dos achados arqueológicos no nosso concelho.

É um trabalho de grande mérito de quem se encarregou do comissariado da exposição, José Gonçalo Valente e Marisa Bacalhau. Raramente é possível, por limitação alheia aos comissários, ter materiais de excecional qualidade para todos os períodos históricos. Moura tem a “sorte” (e essa sorte tem muito a ver com a riqueza agrícola e mineira do seu território) de ter uma importante ocupação humana desde a Pré-História.  Hesíodo escreveu, na Teogonia (e isso foi há quase 3.000 anos...) sobre “as Hespérides que guardam belos frutos em ouro e as árvores que os sustentam, para lá do famoso oceano”. Os metais da Ibéria terão criado este Jardim das Hespérides. Sem eles, não teríamos os belos materiais que “Moura Arqueológica” nos mostra, em especial para épocas mais recuadas.

É um trabalho seguro e de grande qualidade, aquele que Marisa Bacalhau e José Gonçalo Valente construíram. É também a oportunidade para revermos muito bons materiais, nem sempre conhecidos da nossa terra. O thymiaterion e o tesouro do Álamo, pertencentes ao Museu Nacional de Arqueologia, podem ser vistos através de réplicas. Os botões em ouro do Castro dos Ratinhos são uma novidade absoluta, por nunca terem estado expostos. Trazem-se para este contexto explicativo um fragmento cerâmico que refere uma igreja do século VII (Santa Maria Lacantensis), hoje desaparecida, e a lápide fundacional do minarete da mesquita de Moura, de meados do século XI. Os materiais são o suporte necessário de uma exposição. Mas não chegam para construir um percurso. Daí que a linha de tempo construída pelos responsáveis pela exposição seja fundamental para se perceber o contexto em que nos movemos. Resultou bem, e daí as coisas se tornarem claras.

Por um princípio que, em tempos e por várias vezes, discuti com a Marisa e com o José, não sou grande adepto das chamadas abordagens diacrónicas ou de sucessão temporal. Mas isso é aqui o que menos interessa. Fundamental mesmo é ver a exposição e ver que há profissionais como Marisa Bacalhau e como José Gonçalo Valente que fazem falar as coisas do passado, em nome da nossa terra.

Esta Moura partiu da arqueologia e fez-se um belo museu. Quem havia de dizer?...


Crónica em "A Planície"

segunda-feira, 1 de julho de 2019

O MOODLE E O RESTO


Nenhum estudante do ensino superior de “A Planície” ignora esta expressão. MOODLE quer dizer Modular Object-Oriented Dynamic Learning Environment. É uma plataforma de apoio ao estudo. Diz a wikipedia (e isto vale o que vale) que está disponível em 75 línguas diferentes. Conta com 25.000 websites registados, em mais de 175 países.
O meu entusiasmo com estas plataformas é limitadíssimo. Habituei-me a carregar nelas a bibliografia e os powerpoints das aulas. Como estes me servem apenas de ponto de partida, não é terrivelmente interessante passar aos alunos um desfilar de imagens. Mas as regras são essas.
O meu primeiro embate com as benditas plataformas deu-se há bem mais de 10 anos. Fui aos Serviços Académicos, em Gambelas, lançar as notas. “Ah, mas isso agora é feito na plataforma”. A senhora sentou-se ao meu lado e garantiu “isto é facílimo”. Faz-se assim, assim e assim. E assim e assim. Ao oitavo ou nono “agora clica aqui”, pedi “espere, espere”. Puxei do bloco de apontamentos e fiz um diagrama com setas, repetindo os passos. Uma seta na diagonal para cima e para a direita, outra para o lado, agora em cor vermelha. Um círculo. Um ponto de exclamação, auxiliares de memória uns a seguir aos outros. Expliquei a uma atónita funcionária “assim, não tenho de usar a memória para repetir estes passos de cada vez que aqui venho”. Olhou-me com um ar de piedade. Senti a tentação de lhe dizer que, no meu liceu, havia um pbx (o que será um pbx?, perguntará algum jovem que leia este texto), os “pontos” eram feitos com stencil, não havia computadores pessoais, muito menos havia moodle.
O moodle tem vantagens? Sim, tal como a plataforma “academia”. Tal como é uma tremenda vantagem podermos recorrer a textos que estão disponíveis na net e aos quais antes só podíamos aceder em longínquas bibliotecas. Mas o moodle e as plataformas não excluem as bibliotecas, a recolha de apontamentos e, sobretudo, as longas horas de conversa à volta de temas. "Sabem como é que recrutam professores para uma das melhores universidades americanas? Pedem três livros escritos por cada um dos candidatos e é com base nisso que fazem a seleção". A afirmação foi feita ao nosso grupo, em Mértola, por José Mariano Gago, há uns bons 10 anos. Ou seja, nem peer reviews, nem dados coisométricos, nem citações, apenas a leitura e a análise de textos.
A investigação tornou-se uma técnica ensimesmada e defensiva. “Tens um estilo de escrita que é pouco académico”, comentou uma muito jovem amiga. Repetia, sem o saber, o comentário da minha orientadora de mestrado. Tomei a frase como um elogio. Ora então, vivam então a liberdade da escrita e a busca da perfeição da escrita. É nisso que penso sempre, olhando as pisadas de António Borges Coelho, a única pessoa que conheço que sabe conjugar linguagem poética, um estilo fluido de narrativa e o absoluto rigor de análise. Isso, e a leitura, são coisas decisivas. O moodle é uma circunstância com a qual se tem de viver. Como a rinite crónica.
Em setembro, regressa o moodle – via Universidade Nova - à minha vida. Será utilizado de forma parcimoniosa e pessoal. E com o recurso a diagramas. Daqueles que causam risos em colegas mais novos dos serviços académicos.

Crónica publicada hoje, em "A Planície"

sexta-feira, 31 de maio de 2019

CARO LEITOR DE "A PLANÍCIE"

Peço desculpa por, uma vez mais, tornar a temas que têm sido mais que conversados e que, pensava eu, estavam arrumados. Não estão, porque há quem pense que uma mentira muitas vezes repetida pode tornar-se verdade. Não é assim, como facilmente veremos.


Num muito recente artigo de opinião, decidiu o Presidente da Câmara de Moura atacar o seu antecessor. Que é o autor deste artigo. O tempo passa e a obsessão mantém-se. Já lá vão 570 dias desde que deixei funções. Nem assim Álvaro Azedo sossega. Ele lá saberá porquê…

Não me merecem comentários frases de Álvaro Azedo, a meu respeito, como “suspendeu um mandato (…) porque tinha de tratar da sua vidinha” ou “se acha tão melhor que os outros ao ponto do seu partido lhe ter virado as costas”. Não há resposta para este nível de escrita.

Mais complicado é Álvaro Azedo continuar a insistir na mentira de “os executivos CDU nunca honraram o compromisso de pagar a água que compraram à AGDA e venderam à população”. Vou voltar a repetir números e factos, para que não restem dúvidas. Foi feito um acordo para pagamento da dívida, votado em 2014 pela Câmara Municipal e pela Assembleia Municipal, e que contou com os votos favoráveis do PS. A Câmara Municipal pagou, entre 2015 e 2017, um total de 3.578.000 euros à AGDA. Quando deixei de ser Presidente da Câmara, a dívida ainda existente era de 1.163.000 euros. Em 31 de dezembro de 2018 era de 1.708.000 euros. Sob a gestão de Álvaro Azedo a dívida aumentou 545.000 euros. Estes são os números oficiais e não vale a pena andar com malabarismos.

Descabidas são as afirmações a propósito da Torre do Relógio da Amareleja. Custa a crer que o projeto tenha sido “feito contra a vontade do povo”, como escreve Álvaro Azedo. Muito pior é dizer, a meu respeito: “conseguiu assinar dois protocolos distintos com dois párocos da Amareleja” e “aproveitou as férias de um para assinar um novo protocolo com outro, alterando o compromisso que tinha com a Fábrica da Igreja da Amareleja”. Ou seja, atribui-me a infame atitude de, à socapa, andar a modificar documentos para enganar pessoas.

Existem, efetivamente, dois protocolos, porque o primeiro documento não era totalmente adequado às condições exigidas para a candidatura a apresentar aos fundos comunitários, tendo em vista o financiamento da obra. Só assim se entende que os dois protocolos (o de 2015 e o de 2016) tenham sido aprovados por unanimidade (votos da CDU e do PS) nas reuniões de câmara.

Facto fundamental, conseguimos um apoio para a concretização da obra na ordem dos 85%, pagando a Câmara apenas os 15% remanescentes. A única alteração relevante no segundo documento é a diminuição do direito de superfície (ou seja, da posse do edifício) de 30 para 12 anos. Ou seja, a Fábrica da Igreja recupera a posse plena da Torre 18 anos antes do que estava previsto. Estiveram, em todo este processo, subjacentes princípios de boa fé e de lealdade, que são devidos à Fábrica da Igreja da Amareleja, o que fica claro não só porque tem de volta o edifício completamente recuperado muito antes do que estava previsto, como pelo facto (e isso ficou escrito no segundo documento) de ser a Fábrica da Igreja “a única usufrutuária do espaço da Igreja do Relógio da Amareleja” (cláusula sexta). Ou seja, em que é que enganei as pessoas, sr. Álvaro Azedo?

Dediquei 24 anos de vida ao concelho (12 na Assembleia Municipal, dos quais 4 como presidente; 12 na Câmara, dos quais 4 como presidente). Entendo os lugares autárquicos como sítios de honra. A forma como Álvaro Azedo pretende atingir-me – querendo lançar sobre mim lama e suspeições – não é séria nem decente.

Deixo uma garantia final. Continuarei presente em Moura. E estarei sempre empenhado no futuro da minha terra.


Crónica em "A Planície" (1.6.2019)

quinta-feira, 2 de maio de 2019

OUTRA VEZ A DÍVIDA DA ÁGUA…

Há quase seis meses que não escrevia um texto sobre política local. Não tinha a mínima intenção de o voltar a fazer, nos próximos tempos. Depois da série de perfeitos disparates que me levaram a escrever um texto sobre as “fake news” na Câmara de Moura pensava ter algum sossego. Qual quê…

Volta, não volta, lá vem a conversa fiada da dívida da Câmara. E, de forma obsessiva, a dívida da água. O que revela má-fé e falta de capacidade para se enfrentarem os
problemas, que fazem parte do quotidiano de uma Câmara.

Frase dita e repetida: “os executivos da CDU não pagaram as faturas de fornecimento da água”, afirma o atual executivo, liderado por Álvaro Azedo. Esta afirmação é uma mentira grosseira. E uma mentira várias vezes repetida pode ser aceite como verdade por algumas pessoas, menos atentas. Vou ter, assim, de voltar a dizer o que já escrevi. O acordo de pagamento da dívida da água com a ÁGUAS PÚBLICAS DO ALENTEJO foi aprovado pela Câmara Municipal e pela Assembleia Municipal em 2014. O PS votou a favor desse acordo. O qual foi posto em prática de imediato. E foi cumprido. Verbas pagas, tanto do acordo, como da faturação corrente? 1.139.000 euros em 2015, 1.251.000 euros em 2016, 1 188.000 euros em 2017. Essa é a realidade do nosso mandato. Valores da dívida à AGDA? Esse valor era de 1.163.000 euros no momento em que deixámos funções. Sublinho que esses números se reportam aos valores em atraso mais à faturação corrente. Começou o mandato do Sr. Presidente Álvaro Azedo. Qual a evolução da dívida? Subiu para 1.708.000 euros em 31 de dezembro de 2018. Mais 545.000 de dívida em pouco mais de um ano. Uma Câmara de torneiras abertas.

Repito ainda: o novo executivo fez, em final de 2017, um novo acordo de pagamento. Do qual pagou, até final de 2018, ZERO. Se a dívida se acumulou, a responsabilidade é do Sr. Presidente Álvaro Azedo. Que devia assumir essa responsabilidade, e não atirá-la para cima de executivos anteriores. Fica a curiosidade em saber qual será o montante da dívida da água no final deste mandato. Saberá o executivo responder?

A Câmara tem pago outras dívidas? Sim, no seguimento da prática que vinha de trás. A Câmara pode pagar neste momento mais dívida? Sim, porque os investimentos feitos são perfeitamente ridículos. Com exceção dos contratos que deixámos assinados – obras da Torre do Relógio e do Bairro do Carmo –, só agora foi começada a obra da piscina. Nas freguesias, zero. Muita parra e pouca uva. É por isso que as despesas de investimento passaram de 4.945.000 em 2015 e 4.446.000 em 2017 para 2.916.000 em 2018. Muitas caminhadas, muitas festas, muitas visitas, muitas apresentações de projetos, quase nada de investimento. Pouquíssima obra e quase nada de inovação (não de inovação no papel, mas da que se concretiza e da que faz a diferença).

Continuo tranquilamente o meu trabalho, que também inclui Moura (incluirá sempre!). Continuo na expectativa. E aguardo, bem entendido, a auditoria que a Inspeção-Geral de Finanças iria fazer ao nosso mandato. Já foi pedida?


Crónica publicada hoje, em "A Planície".

segunda-feira, 1 de abril de 2019

A MEMÓRIA DAS COISAS

Há tempos, um amigo, professor de História da Arte, fez-me notar a preocupação que sempre manifesto com a memória. Constatei depois que assim é. Que, ao longo da minha carreira, sempre tenho, de forma muito vincada, procurado sublinhar a importância do legado dos nossos antepassados. Sublinhar, resgatando, valorizando e contribuindo para deixar para as gerações futuras. Fi-lo, ou isso tentei, em funções muito diferentes, em Mértola e em Moura. Os impactos que isso causou e, sobretudo, as reações que essas iniciativas causaram foram muito interessantes. Algumas verdades se sedimentaram. Uma sobretudo, a do grande Duarte Pacheco Pereira (experiencia he madre das cousas, por ella soubemos radicalmente a verdade). A experiência de fazer, e a experiência que se vai adquirindo. A forma como se valoriza o Património, que é de nós todos e será de quem a seguir vier, diz muito dos valores políticos que temos, e daquilo que defendemos.
São interessantes as perceções que temos do Património. Por isso me recordo tão bem daquela manhã abafada e quente do final de dezembro de 1999. Alguém nos arrastou (ao Carlos Fabião e a mim) até à Elm Street - a última rua onde J.F. Kennedy passou, e a que deu o nome ao filme... -, para vermos a John Neely Bryan Cabin. A cabana estava no meio de uma esplanada. De longe, parecia isolada e sem charme. De perto, era pior ainda. É um local histórico, que representa o sítio onde morou o fundador de Dallas. A falácia é dupla. O edifício já não é o original, construído em 1841 e há muito desaparecido, nem estava exatamente naquele sítio. Pouco importa. Os texanos fizeram da memória do sítio aquilo que conta. Ou seja, criaram uma recordação da origem da cidade.
Temos coisas mais impressivas por cá? Temos. De melhor qualidade arquitetónica. E simbolicamente decisivas para todos nós. Olhando as terras do nosso concelho, e antes de 1841, que temos nós? Torre dos séculos XII, XIV e XVI, no castelo de Moura. Igrejas de interesse em todas as localidades. Arquitetura civil notável a partir do século XVI. Casas apalaçadas que fizeram do centro histórico da cidade aquilo que ele é.
Nem tudo é recuperável ou musealizável ou pode ser conservado. Esse é um facto. Há, contudo, responsabilidades coletivas, que são antes de mais políticas, que nos obrigam a conservar a memória das coisas e dos sítios. Isso inclui recordar os que combateram pela Pátria, os edifícios que trazem consigo o peso da História, factos ocorridos em determinada data ou local. Um Futuro não se constrói sem se fixar o Passado.
O que liga a valorização e a recuperação de imóveis é a mesma linha de atuação e traduz-se em esforço, empenho e na obrigação de dignificarmos a memória dos que nos antecederam. Nada mais simples. De Dallas a Moura a distância é curta.


Crónica publicada hoje, em "A Planície".

sexta-feira, 1 de março de 2019

MÁRTIRES DE MARROCOS

Em janeiro de 1220, cinco frades franciscanos foram degolados em Marrocos. Não era a primeira vez que se aventuravam por terras do Magrebe para evangelizarem os infiéis. Esta tentativa, contudo, custar-lhes-ia a vida. Foram sacrificados no meio de uma trama político-diplomática, que envolveu Pedro Sanches de Portugal, irmão de Afonso II, e mercenário ao serviço do miramolim almóada.

O episódio foi um momento crucial para a afirmação do franciscanismo. Deu origem a uma assinalável produção artística em toda a Europa Ocidental, e a um culto em torno das relíquias dos mártires. Algumas dessas obras são dos séculos XVI e XVII e relacionam-se de perto com a ameaça otomana. Os algozes aparecem vestidos “ao jeito turco”…

Há meses, decidimos (o Joaquim Caetano, do Museu Nacional de Arte Antiga, e eu) dar início a um processo de recolha de imagens e de peças relacionadas com os Mártires de Marrocos. Em Portugal e no estrangeiro. Ao mesmo tempo, iriamos contextualizar essa produção no contexto do final da Reconquista. E utilizando materiais provenientes de diversos trabalhos arqueológicos realizados em Portugal. É que o martírio dos frades ocorreu 3 anos depois da conquista de Alcácer do Sal ao poder muçulmano e 12 anos antes do mesmo ter acontecido em Moura. Tempos intensos, em que muita coisa aconteceu.

Em Portugal manteve-se, e por razões que deixo de lado, uma celebração religiosa em intenção dos Mártires de Marrocos. Em meados de janeiro realiza-se em Travassô (concelho de Águeda) uma festa em memória dos mártires. Lá fomos, a caminho do norte, para assistir às procissões. E a nela participar, porque numa delas (!), o Joaquim foi convidado pelo pároco a explicar o projeto em que estamos a trabalhar. O que fez a contento, e ante o meu divertido silêncio.

A procissão de Travassô é uma celebração impressionante. Pela fé das pessoas, pelo entusiasmo da irmandade, pela teatralização dos factos. À frente do andor com os mártires seguem sete crianças, os cinco franciscanos e os dois algozes. Sob o pálio, vai uma das relíquias.

Saímos de Travassô com fotografias e filmes, que usaremos ou não, se o projeto avançar ou não. Em todo o caso, sentimos que a missão foi cumprida.

Um curioso dado final: o califa carrasco morreria pouco depois (castigo divino?), na que é a primeira colhida tauromáquica fatal de que há registo. A narrativa não é muito precisa e o cronista Ibn Idhari não avança muitos dados. Sabemos apenas que o Yusuf al-Mustansir faleceu quando lidava vacas à noite, em Marrakech. Foi na noite de 12 de Dhu'l-Hijja de 620 do calendário islâmico (6 de janeiro de 1224 d.C.).



Os mártires na procissão de Travassô e no quadro de Francisco Henriques (Museu Nacional de Arte Antiga). Crónica em "A Planície"