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sábado, 1 de dezembro de 2018

SIM ÀS CORRIDAS DE TOUROS!

SIM!

         Quando vi a primeira corrida de touros devia ter uns 6 ou 7 anos. Em 1969 ou em 1970, seguramente. Ainda o Real de Moura não existia… Não mais esqueci a cor e o som daquela tarde, a enorme vibração de uma praça cheia, o calor daquela tarde de setembro. Fiquei conquistado. Desde esse dia, e para sempre.
A recente polémica em torno do IVA das corridas de touros é bem mais que um detalhe fiscal. A receita do Estado não deverá ter um acréscimo substancial à custa destes atos culturais. O que se quis dar foi um sinal. Ou seja, quem está no Poder quis separar as águas: de um lado estão os civilizados (eles), do outro os incivilizados (nós, os que gostamos de corridas). De um lado está o Progresso (eles), do outro os Retrógrados (nós). É uma atitude de insulto ante a nossa Cultura, que não me dou ao trabalho de rebater. As coisas do fundo da Alma não as discuto. Por isso, sim! Sim à tauromaquia! Sim às corridas! Sim, mil vezes sim, aos nossos forcados! Um dia, há já muitos anos, escrevi isto a propósito de uma lide de Enrique Ponce: “debaixo do capote de Enrique passaram, em poucos minutos, a lenda do minotauro, as feras dos circos romanos e a vaca que matou um califa, numa noite cálida de Marrakech. O touro de que Enrique agora se esquiva já foi mil vezes retratado. É ele que está pintado nos vasos áticos, é ele que, desde há milhares de anos, dá colorido aos frescos das paredes e aos mosaicos dos chãos. Já se chamou Pocapena, Islero, Avispado. Foi ele quem matou de morte horrível Manuel Granero e El Yiyo. Foi ele quem aniquilou a arte de Joselito e a de Manolete. Foi ele quem inspirou as mais trágicas páginas de García Lorca”. As corridas de touros são Arte e Poesia numa arena. As corridas de touros são uma cultura milenar dentro de um ruedo. Os frescos do palácio de Knossos, onde se vêem recortadores e uma lide de um touro, têm 3500 anos.
         A temeridade dos forcados é tão antiga como o solo que pisam. São gestos antigos que cruzam o nosso sul. São gestos que vivem do nosso sol. Que são antigos e que devem ser eternos. Marcou-me, do ponto de vista pessoal, o modo fraterno como me trataram, ao longo dos anos. Estou e estarei com eles. Na defesa do que é nosso.
         A defesa do Património Cultural não pode, por isso, ser marcada por gestos de circunstância e consoante as conveniências do momento. Não é assim numa altura e assado na outra. Como fazem alguns políticos, com tanto de oportunistas como de hipócritas. A tauromaquia é, desde maio de 2012, por proposta que subscrevi, Património Cultural de Interesse Municipal. Estou, e estarei, na defesa deste nosso Património. Agora e para sempre.

Publicado hoje, em "A Planície"

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

FAKE NEWS NA CÂMARA DE MOURA

Não pretendo roubar espaço ao jornal, nem tempo a eventuais leitores. Mas há uma coisa que não posso deixar passar em claro, pelas responsabilidades que tive no Município de Moura. É a mentira continuada, que pode colar. Assim, e muito sucintamente:
Foi/é motivo de orgulho ter estado ao serviço do meu concelho, designadamente pela oportunidade de ter trabalhado em projetos que considero cruciais. Em relação a um texto assinado no jornal “A Planície”, pelo atual executivo, tenho a esclarecer o seguinte, por serem matérias que dizem respeito ao meu mandato:
1.       Bairro do Carmo – segundo o atual executivo, “o orçamento não contemplava um metro quadrado de reboco”. Isto não é verdade. O projeto contemplava reboco nas novas construções, naturalmente. E a colocação de reboco nas zonas onde houvesse intervenções que implicassem a sua reposição. O reboco em bom estado não teria necessidade de ser substituído. Sendo uma obra de custos controlados, o essencial era garantir condições de habitabilidade e melhorar a qualidade das casas. Foi para isso que o projeto se fez. O único erro grosseiro é a afirmação do Sr. Presidente Álvaro Azedo.
2.       Torre do Relógio (Amareleja) – “acrescentámos o projeto de iluminação a esta obra”. Isto não é verdade. O projeto de iluminação decorativa foi entregue à Câmara Municipal em 16 de novembro de 2016, pelo eng. Vitor Vajão, e tem estimativa de custos. A sua adaptação à obra em curso era mais que possível. A larguíssima experiência do autor tornaria isso numa tarefa fácil. O Sr. Presidente Álvaro Azedo pode atirar dinheiro à rua, encomendando o que já estava feito. Não pode é dizer que os projetos não existem.
3.       Centro Documental da Oliveira – “é um projeto que valorizamos”, diz o texto do atual executivo. Mas a verdade é que não o vão executar. A intervenção tinha um custo de 2.770.000 euros, dos quais a Câmara Municipal iria pagar 15%. A obra comportaria a reabilitação total do antigo edifício do grémio. Agora, a obra é só na fachada e no telhado O Sr. Presidente Álvaro Azedo opta por deixar o projeto de lado e concretizar apenas uma pequena parte. Não haverá Centro Documental nem nova Biblioteca. É uma opção de gestão. Poucochinha e sem ambição. Que registo.
4.       Gare Rodoviária – “o projeto não contemplava a zona de embarque e desembarque de passageiros e paragem de autocarros”, afirma o atual executivo, liderado por Álvaro Azedo. O que quererá isto dizer? É que o projeto comportava todos os aspetos necessários a um adequado funcionamento. E foi resultado de uma ampla e complexa negociação com a Infraestruturas de Portugal (empresa que herdou o património da CP). O concurso podia ter sido lançado em final de 2017, como estava previsto. A menos que se ponham a fazer bonitinhos e floreados nos projetos, implicando mais dispêndio.
5.       Dívida da água – “os executivos da CDU não pagaram as faturas de fornecimento da água”, afirma o atual executivo, liderado por Álvaro Azedo. Esta afirmação é uma mentira grosseira. O acordo de pagamento da dívida da água com a ÁGUAS PÚBLICAS DO ALENTEJO foi aprovado pela Câmara Municipal e pela Assembleia Municipal em 2014. O PS votou a favor desse acordo. O qual foi posto em prática de imediato. E foi cumprido. Verbas pagas, tanto do acordo, como da faturação corrente? 1.139.000 euros em 2015, 1.251.000 euros em 2016, 1 188.000 euros em 2017. Começou o mandato do Sr. Presidente Álvaro Azedo. Valores pagos? 535.000 euros, nos primeiros dez meses de 2018. Que se passou? O novo executivo fez, em final de 2017, um novo acordo de pagamento. Do qual pagou ZERO. Ou seja, os 535.000 euros dizem apenas respeito à faturação corrente. Se a dívida se acumulou, a responsabilidade é do Sr. Presidente Álvaro Azedo. Que devia assumir essa responsabilidade, e não atirá-la para cima de executivos anteriores.

Outras questões da carta do executivo são opinativas e não me merecem perda de tempo. Percebo, humanamente, a necessidade de tentar apagar os projetos anteriores, fingindo que o que agora se apresenta é coisa nova. Não é.
                Ao executivo da Câmara Municipal diria que é preciso mais e melhor trabalho, mais dedicação, mais esforço, para dirigir os destinos de um concelho como o nosso. Continuar o que já estava iniciado é-nos lisonjeiro, mas não chega.

A si, Sr. Presidente Álvaro Azedo, não lhe reconheço conhecimentos, preparação, experiência ou currículo para me passar atestados de incompetência. Como, de resto, a sua ação tem vindo a demonstrar.




Crónica publicada hoje, em "A Planície"

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

O VINHO QUE APAGA O FUMO


O episódio passou-se há muitos anos, talvez em 1971 ou 1972. Foi à hora de saída da escola primária. A escola ficava na praça, na casa que hoje pertence ao meu amigo Francisco Manta. O meu companheiro de caminho para casa era o António Pato Oca. Subíamos a Rua 1º de dezembro, depois a do Poço, em direção à Porta Nova. Naquele princípio de tarde, uma animação suplementar nos estava reservada. Mal tínhamos cruzado a porta da escola, vimos um homem parar a sua V5 junto à parede do café do senhor Daniel Costa Rodrigues. Desceu-se da mota e, por artes mágicas, o assento pegou fogo. Não era assim um grande fogo, nem era bem fogo, na prática era só fumo e nada de chama mas, se alastrasse ao resto e atingisse o depósito, adeus motorizada.

Parámos os dois a ver no que davam as modas. Encostados à parede e fascinados com o acontecimento. Em Moura, poucas coisas aconteciam e era preciso aproveitar cada instante. O fumo alastrava, ante a aflição do homem. Não havia telefones automáticos e os telemóveis eram coisas de ficção científica. A parede da casa, à esquina da Rua Santana e Costa, era diferente do que é hoje. Onde agora está a janela manuelina do atual restaurante havia só a parede, e uma pequena janela do café. De súbito, um bombinho [a palavra não existe nos dicionários, mas a crónica é só para a gente…] salta da minúscula abertura para a rua. Atrás do bombinho, aparece a cabeça do sr. Fernando José Chaparro. Pendurado, tanto quanto podia, da janela, gritou para dentro “liga!”. Começa a jorrar líquido. Em poucos segundos, o fumo amainou e, se assim se pode dizer, estava extinto, para alívio do dono da motorizada e para gáudio de todos nós. Aplausos e vivas. Estranhámos a cor amarelada do líquido extintor. Tal como notámos, logo de seguida, um cheiro acre e intenso na rua. Nessa altura, já o interior da taberna era uma trovoada de gargalhadas. O sr. Fernando Chaparro, sendo o bombinho muito curto e não chegando à torneira da água, ligara-o a uma pipa de vinho branco. A eficácia extintora da pomada ficou comprovada. Ante as piadas e os dichotes, encolheu os ombros “um homem tem que se desenrascar, não é verdade?”. É, decerto. Outras contas à vida ficou a deitar o senhor Daniel, a quem a atitude determinada do improvisado bombeiro deve ter custado uma mão-cheia de copos de três.

O sr. Fernando Chaparro deixou-nos há muito, demasiado cedo. Este episódio, como tantos outros de tempos de infância e de juventude, colou-se à minha memória. Pensava ter já relatado o sucedido ao meu amigo e colega José Chaparro. Afinal não. Aqui fica, pois, meu caro José, esta breve evocação do teu pai e do dia em que o vinho apagou o fumo.

Foi aqui, como diria o outro.
Hoje, em "A Planície"

sábado, 29 de setembro de 2018

JUDEUS EM MOURA

Pormenor do fol. 388 v. do manuscrito da Bodleian Library (segundo estudo de Tiago Moita)

Que Moura tinha uma comuna de judeus é facto há muito conhecido. Até à data, contudo, não se conseguiu localizar, de forma inequívoca, o sítio da judiaria. Ou seja, do bairro onde morava a comunidade. Não temos, sequer, prova de que viveriam num sítio apartado, como os mouros. Os documentos que consultei, em tempos, na Torre do Tombo apontavam para uma “concentração” de comerciantes judeus no quarteirão onde mais tarde se instalou a Misericórdia. Não é de estranhar que assim fosse. Tratava-se de um grupo bem instalado na vila, com meios financeiros acima da média e com instrução e hábitos culturais que os destacava dos restantes moradores.

Dos judeus de Moura nada ficou. A razia que se seguiu à expulsão, em finais do século XV, foi quase total. Não temos uma única lápide funerária, um só indício quanto à localização da sinagoga ou qualquer evidência da presença da comunidade judaica na nossa terra. Não fossem os textos na Torre do Tombo e poderíamos dizer que nunca teriam existido.

Mas há mais e melhor que os pergaminhos das Chancelarias Régias. Fui, há tempos, contactado por um teólogo ribatejano, Tiago Moita. Veio, simpaticamente, dar-me conhecimento da existência de uma Bíblia Hebraica, feita em Moura. Data de 1470 e está hoje na Bodleian Library, em Oxford. Tem a cota MS Canon. Or. 42. Tiago Moita fez a sua investigação neste domínio, tendo-se doutorado com uma tese intitulada “O livro hebraico português na Idade Média: do Sefer He-Aruk de Seia (1284-85) aos manuscritos iluminados tardo-medievais da Escola de Lisboa e os primeiros incunábulos”. Coligiu cerca de 60 manuscritos hebraicos, produzidos entre os séculos XIII e XV. Ainda que Lisboa lidere, em termos de quantidade de documentação produzida, há manuscritos de localidades como Faro, Torres Vedras, Elvas, Évora, Guarda, Leiria, Loulé, Moura, Porto, Santiago do Cacém, Seia e Setúbal. Como se lê no resumo da tese “depois da expulsão dos judeus de Portugal em 1496/97, o principal destino destes livros foi a Península Itálica, além do Norte de África e do Império Otomano, como é patente na informação interna deixada pelos sucessivos proprietários dos volumes”. O que foi, para nós, uma terrível perda cultural tornou-se, para outros, motivo de enriquecimento. A produção de uma bíblia hebraica, ricamente decorada, na nossa terra é um dado a raiar o insólito. No texto “A Bíblia hebraica de Moura: um testemunho de arte mudéjar no Alentejo”, Tiago Moita explica o contexto preciso em que tal sucedeu. Foi copiada por Samuel ben Abraham Altires para Isaac Gabay, um rico mercador lisboeta, no ano de 1470.


Que as seis dezenas de manuscritos deste período estejam hoje, sem exceção, em bibliotecas estrangeiras (Estados Unidos, Rússia, Suiça, Reino Unido etc.) é uma perda para todos nós. E é motivo de vergonha. Que um deles, de rara beleza, tenha sido produzido por um conterrâneo nosso, desconhecido mas talentoso, deve orgulhar qualquer mourense.

Crónica em "A Planície"

sábado, 1 de setembro de 2018

A MURALHA DESCONHECIDA DE MOURA


A restauração da independência, em 1640, causou alterações importantes em Moura. A cidade não tinha muralhas que abrangessem a maior parte do aglomerado urbano. Ao contrário do que acontecia na maior parte dos sítios do sul, apenas o castelo estava protegido. Era necessário defender os habitantes e os seus pertences. Um primeiro, e radical, projeto foi assinado por Nicolau de Langres, em 1657. A construção da muralha nova, que implicava a destruição de boa parte da cidade antiga, acabou por não ser concretizada da forma prevista. O desenho foi adaptado ao terreno. Muitas casas tiveram de ser demolidas, mas não tantas como Nicolau de Langres preconizava. A fortificação foi sendo construída, ao longo da segunda metade do século XVII.

Grande parte dessa estrutura foi destruída ao longo do século XIX. Os novos tempos, a abertura de ruas, a inutilidade das muralhas levaram a novas e substanciais modificações. Uma parte do que outrora existiu há muito que desapareceu. Temos, apesar disso, ainda alguns troços que resistiram. Que nos resta? A muralha do jardim Dr. Santiago, a que está em frente à antiga Escola Conde Ferreira, a muralha nova, a da Boavista e a da mata da piscina municipal. A todos estes locais se deram, como é sabido e bem visível, novos usos. A partir delas é possível, e com o recurso a desenhos dos séculos XVII e XVIII, reconstituir a fortificação moderna de Moura. Foi isso que se fez num livrinho, publicado há mais de 10 anos, em conjunto com Vanessa Gaspar.

Em final de 2009, um problema de urbanismo levou-me ao terreno de um morador na Rua de Santa Catarina. Constatei, com surpresa, que no interior de um quintal se conservava um troço de muralha seiscentista. Dava seguimento ao baluarte de Santa Catarina (onde hoje está a mata da piscina) e encontra-se nas traseiras da rua com o mesmo nome – veja-sea letra A do esboço, feito a partir do google. Cruzava a atual rua de Santa Justa no ponto assinalado com B. Aí ficava uma das portas de Moura, demolida em meados do século XIX. Seguia depois em direção aos Quartéis – a rua da Bica dos Quartéis tem saída em ângulo reto para o largo pelo facto de à sua frente estar um dos muros da fortaleza.

Esta muralha desconhecida de Moura torna-se, assim, um pouco mais visível, apesar da sua notória discrição. É, também, de fragmentos como este que se constrói a história de um sítio.

Crónica em "A Planície" (edição de hoje)

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

AS CONTAS DO MUNÍCIPIO DE MOURA E A LÓGICA DE MERCEARIA

Continuam os eleitos pelo Partido Socialista fascinados com a minha humilde pessoa. Semana sim, semana não, lá vem mais um ataque ou mais uma crítica ao que fiz ou deixei de fazer. Nove meses depois de terem começado um mandato autárquico já era altura de se preocuparem com outros temas. Até porque os balanços e as comparações virão mais tarde.

Desta vez (“A Planície” de dia 15 de julho) foi António Gomes (ex-vereador) a tomar conta das hostilidades. A minha resposta será curta e direta, para não maçar os leitores.
Fala António Gomes na necessidade de ser sério. Claro que sim, temos de ser sérios em política. António Gomes, que já foi candidato pela APU, pelo PRD, pelo PSD e que estacionou agora no PS terá de fazer o favor de explicar a expressão “ser sério”.

O valor da dívida e o seu significado
Falar em números de milhões, no caso 9 milhões (o valor indicado está errado: eram 7.781.000 €), significa para a esmagadora maioria das pessoas um valor elevado quando comparado com o seu orçamento familiar. 

Ora as dívidas não se medem em valor absoluto (monetário), mas sim em valor relativo. 
A dívida municipal é medida em relação à média da receita corrente, considerando-se saudável a dívida dos municípios que no seu total não ultrapasse os 100% e em que a dívida não financeira (a que não resulta de empréstimos) não ultrapasse os 75%. E, dadas as necessidades considera-se que não existe desequilíbrio conjuntural (curto prazo) se for inferior a 150% e não existe desequilíbrio estrutural se situar abaixo dos 225%. Em 30 de setembro de 2017 a dívida total do município de Moura era de 61,6 % da média da receita corrente e a dívida não financeira era de 14%. Ou seja, 14% para um limiar de 75%. E desde 2012 os valores da dívida total em relação à média da receita corrente foram sucessivamente de 93%; 98%; 100%; 97%; 68% e 61,6%. Ou seja, quando o novo executivo tomou posse, tinha o valor mais baixo dos últimos anos. Os números são claros e falam por si. A dívida baixou. Esquece António Gomes que o PS chumbou um pedido de empréstimo (não foram dois, foi o mesmo apresentado duas vezes, seja lá sério) e aprovou outro (o do cemitério), no valor de 1.500.000 euros.

Investimento e seu financiamento
Durante o período de 2009 a 2017 a gestão CDU realizou investimentos (ditos não prioritários tais como rede de águas, parque escolar, reabilitação de património,reequipamento do parque de máquinas...) no montante de 31 milhões de euros.Desses 22% foram garantidos pelo recurso a fundos comunitários e à venda das ações da Central Fotovoltaica (o tal projeto que o PS não queria, lembra-se António Gomes?).Ora, garantir que mais de 1/5 do investimento fosse financiado por estas duas fontes de financiamento exige trabalho e competência. Prestarei oportunamente contas sobre o que foi feito e como foi feito.


Custos Fixos de 65%?
Duas notas
O desenvolvimento do País por intervenção do Poder Local reflete-se no investimento que tem sido realizado ao longo dos mandatos (e por isso o fizémos e o classificamos como prioritário), sendo certo que daí tem resultado um crescimento nos custos de manutenção em detrimento dos meios libertos para investimento. É por esta razão que a Lei de Finanças Locais sofreu uma profunda alteração em 2014. O que estava disponível para investimento, no caso de Moura passou de 3,6 milhões de euros em 2011 para 908 mil em 2017. As dificuldades começam aí e não na nossa suposta má gestão.

O segundo equívoco é mais complexo, e mais difícil de entender a argumentação de António Gomes. Para o resultado líquido de 5 milhões de euros negativos a componente educação tem um contributo de 17% (844 mil euros), dos quais 114 mil euros provenientes de amortizações do parque escolar em resultado dos tais investimentos ”não prioritários”.
Ossetores da água, saneamento e resíduos, que são serviços essenciais, tem um contributo de 70% (3,5 milhões de euros) no total do resultado negativo. Para atingir o nível de equilíbrio, pretendido pelo Governo, seria necessário agravar as tarifas da água, saneamento e resíduos em mais de 200%. Será este o caminho que António Gomes pretende para garantir o tão falado desequilíbrio operacional, ou será que acabará por reconhecer que a gestão consciente da CDU ao não seguir esse caminho, tomou opções fundamentais para garantir qualidade de vida aos seus munícipes, suportando nas contas do município défices operacionais de 5 milhões ao ano?

Caro António Gomes, não me faça perder tempo… Tenho trabalhos e projetos em redação. Trate/tratem de fazer algo que se veja, em termos de investimento. E não se perca o balanço na área da regeneração urbana, que tão bons frutos deu. Estão em execução ou previstos projetos que iniciámos e cujo financiamento garantimos: Torre do Relógio, Bairro do Carmo, Terminal Rodoviário, Muralhas… Parece-me bem. É só avançar. E criar outros. Façam lá isso.

Crónica publicada hoje, em "A Planície"

quarta-feira, 4 de julho de 2018

MEMÓRIA DA MOURARIA

MEMÓRIA DA MOURARIA
(texto para a Alice Reis e para o Jorge Liberato)

Durante muito tempo me perguntei “afinal, quem vivia na Mouraria de Moura?”. Quem era aquela gente que, depois da reconquista da vila, por aqui foi ficando? De que viviam? Que contactos tinham fora da nossa região?

Durante muito tempo tive, erradamente, a ideia que eram apenas pequenos hortelões, artesãos sem grandes rendimentos. O tempo, novas leituras, os estudos de outros colegas, a arqueologia, obrigaram-me a rever uma posição tão radical.

Começando pelo mais fácil. Quem era Brafama? Um proprietário do século XIV, depois “passado” à História como noivo de Salúquia. Era um dos membros de uma comunidade que tinha terras e que, apesar de ter sido desapossada da rica várzea do Ardila, a continuou a explorar. E daí tirava rendimentos muito significativos. A minha colega Filomena Barros, que tem estudado aprofundadamente as comunidades muçulmanas, não tem dúvidas em dizer que a Mouraria de Moura era das mais ricas do País. Daí que o rei recorresse aos seus habitantespara pedir empréstimos para financiar a Coroa. Só nos ano de 1440 foram três ajudas ao Estado, num total de 18.000 réis (dá qualquer coisa como nove cêntimos, na moeda atual).

A imagem de uma comunidade que tinha uma vida bem mais desafogada do que em tempos pensei foi-se construindo com o tempo. Tinham meios para encomendar placas funerárias escritas, como a que assinalou a mortede Ismail Ibn Abi Abd Allah al-Ansari.Era um morador do bairro, que faleceu no dia 17 de shaban de 769. Uma data do calendário muçulmano que corresponde ao dia 7 de abril de 1368.Não esqueçamos, já agora,que a mouraria foi instalada sobre parte do antigo cemitério muçulmano.

Os habitantes da mourariatinham meios para manter uma mesquita, que se situava onde hoje é o largo. Essa mesquita tinha um “al-faqih”, um legista que devia fazer também o papel de capelão ou almoedão, cabendo-lhe o chamamento à oração.

Não se poderá que os habitantes fossem cosmopolitas, pelos nossos padrões atuais. Mas tinham contactos fora das fronteiras do Reino de Portugal. Duranteescavações arqueológicasrealizadas há anos no bairropor José Gonçalo Valente e por Vanessa Gasparapareceu um assinalável espólio cerâmico. De onde vinham os luxuosos pratos usados pela elite local? De Sevilha, de Málaga, de Valência. Na segunda metade do século XIV – a cronologia das peças parece ser coerente – havia gente na Mouraria com capacidade financeira para encomendar peças nos melhores ateliers da Península Ibérica.

Que temos hoje?Três ruas (Primeira, Segunda e Treceira, assim mesmo),uma travessa e um largo.Um bairro bonito. E tem as pessoas, que são melhores que as ruas e que as luzes.

Prepara-se, por esta altura, um livrinho sobre a Mouraria. Daqui por uns meses está na rua.



Texto para "A Planície" de hoje. Com uma correção: Brafama era do século XIV, não do XV.

quinta-feira, 14 de junho de 2018

AMARELEJA, UMA JORNADA SENTIMENTAL


Recordava, no outro dia ao almoço, com Jorge Calado, a produção do livro “Amareleja”. O Jorge, que só ali foi, pela primeira vez, em 2016, apanhou depressa o pulsar da aldeia [chamemos-lhe assim, como gostam muitos amarelejenses]. “É uma terra forte e com grande orgulho e identidade”, dizia, convicto. O Jorge gostou imenso da Amareleja, o que facilmente se percebe pelo texto que escreveu.

Ao longo de quatro anos vivi, com especial intensidade, a relação com a Amareleja. Sem grande suporte político, e contando com um punhado de amigos, fui passando pela aldeia uma vez e outra. Uma atitude muito criticada por vários mourenses das minhas relações “eles não ligam a ninguém, o que é que lá vais fazer tantas vezes?”. Discordei sempre dessa perspetiva. E ia à Amareleja porque gostava de lá ir. Porque nunca gostei de pessoas que dizem que sim só porque sim. E os amarelejenses nunca dizem que sim só porque sim, para fazerem o frete e por bem parecer. Tive, entre 2013 e 2017, momentos duros. Alguns bastante difíceis. Decidi que nunca desistiria. Porque gostava muito da Amareleja. Porque gosto muito do sítio e das pessoas desse sítio. Nunca promoveria e participaria num livro sobre um sítio que me fosse indiferente. Por isso escrevi que “é a paixão dos fortes feita rua e gente”. E também que “a aldeia é um sítio e muito mais do que um sítio. A Amareleja espraia-se em linhas longas e contínuas, Ferrarias abaixo, Alto de Bombel acima. Não há declives fortes ou cortes abruptos. A Amareleja estende-se num suave ondular, numa geografia toda feita de recortes e de imprecisões. Como suave é o andar das mulheres com quem nos cruzamos. O poder ordenador das leis e do urbanismo chegou tarde às terras mais escondidas. As amarelejas do interior habituaram-se a tomar conta de si. O ziguezaguear das ruas e a improvisação dos limites são a marca de sítios assim”.

Quando esse convívio regular terminou, alguma coisa me ficou a faltar. No dia 24 irei recuperar um pouco, nem que seja só um pouco, do tempo perdido nos últimos meses. Irei ao Alto de Bombel? Certamente. E ao bar da música. E ao do GDA, seguramente. E à sociedade do terreiro, sem dúvida. E haverá viagem à Lua. E à do Vela. E ao Barriga Cheia. E ao Moreira. E ao novo Xico Mota. E por aí fora, tarde fora, noite dentro. E acho que o dia se me fará curto para tanto sítio.

No próximo dia 24 irei estar na inauguração do bar do Campo das Cancelinhas, na Amareleja. Retomarei, nem que seja só por umas horas, a minha jornada sentimental. Numa terra que é a paixão dos fortes. E que se não existisse, eu também não existiria.

Crónica publicada hoje, em "A Planície".

quinta-feira, 31 de maio de 2018

CARTA ABERTA AO PRESIDENTE DA CÂMARA DE MOURA


CARTA ABERTA AO PRESIDENTE DA CÂMARA

Senhor Presidente,

Mantive um quase total silêncio durante os sete primeiros meses do seu mandato. Não me pareceu apropriado, depois de ter sido presidente da câmara até outubro de 2017, por-me a fazer comentários sobre a sua atuação ou sobre as opções do atual executivo.

Um ponto ficou por esclarecer e por ele esperei. O senhor por várias vezes aludiu às contas da Câmara Municipal de Moura. Que havia problemas com as contas e que havia questões menos claras nas Finanças do Município.O tempo passou. Entretanto, foram aprovadas as contas de 2017. Não li, em todo o relatório, um único reparo digno de registo. Um só que fosse. Posso dar dados relevantes quanto às contas do anterior mandato. Os pagamentos em atraso (faturas vencidas a mais de 90 dias)eram de 967.780 euros em 31.12.2013. E eram de 89.445 euros em final de setembro de 2017 quando, na prática, o nosso mandato terminou. Durante os meses seguintes (novembro e dezembro de 2017)esses pagamentos baixaram para 70.987 euros. Uma quebra de 20%.A qual vem de trás, até porque o diminuição da dívida foi, ao longo do nosso mandato, de cerca de 90%. Os números estão no relatório que o senhor presidente apresentou.De resto, o senhor presidente, que tanto enfatizou que tinha pago 19.000 euros em dois meses, sabe perfeitamente que uma câmara falida e sem dinheiro não podia ter feito esses pagamentos de um dia para o outro. É que o dinheiro não apareceu de um dia para o outro. Já lá estava, senhor presidente...

Também importa referir os seguintes dados: uma Câmara falida não pode pedir empréstimos à banca.Essa capacidade andou, nos anos de 2016 e de 2017, na casa dos 2.000.000 de euros. Isso também não se consegueem dois meses, como facilmente se entende.

Desmandos? Ilegalidades? As contas de 2017, que o senhor aprovou, foramauditadas por um Revisor Oficial de Contas. O qual escreve coisas como “o Município está em equilíbrio orçamental” (página 64 do relatório).Onde é que estão, afinal, as surpresas e onde é que faltei à verdade?

Vale a pena voltar a perguntar:
Qual foi a resposta da Inspeção-Geral de Finanças ao pedido de auditoria?

Onde está a auditoria que foi pedida à Inspeção-Geral de Finanças?
Quais são os resultados da auditoria ou quando se prevê que estejam disponíveis?
Quais foram as surpresas menos positivas? Onde é que isso está escrito,conforme o senhor prometeu que faria,no relatório e contas referente a 2017 e que, no essencial, diz respeito ao executivo que chefiei?

Não comento, para já, as questões do quotidiano autárquico mourense. Mas uma coisa tem de ficar clara: tem de haver, na política, decência, seriedade,elevação e compostura. E, volto a insistir, preparação. Lançar lama sobre a atuação de quem o antecedeu não corresponde a nenhuma destas exigências. Deixar suspeições é pior ainda. Pelo que aguardo, serenamente, uma explicação da sua parte.

Crónica publicada hoje, em "A Planície".

quinta-feira, 29 de março de 2018

BOLSA DE ESTUDOS DR. ALBERTO FERNANDES



Há pessoas que imaginamos como eternas. Temos a certeza, mas a certeza mesmo, que nunca sairão da nossa vida, e que estarão numa qualquer esquina da nossa terra. O Dr. Alberto era uma dessas pessoas. Lembro-me dele, era eu ainda muito pequeno, quando ele já andaria perto dos 40. Parecia-me uma pessoa velha porque, quando somos pequenos, todos os que passaram da adolescência são velhos. O meu pai acompanhava, com frequência, o Dr. Alberto nas suas saídas ao campo, ajudando-o nas tarefas de vacinação dos animais. Numa tarde, e segundo relatos fidedignos, bateram ambos o recorde mundial de salto em altura, ao serem perseguidos por um pouco amigável touro bravo, na Herdade da Galeana.



Às vezes, muito raramente, admitiam garotos como eu nesse círculo. Com tanto de profissional, como de fraterno. Foi assim que passei pelas emoções fortes de um pneu de um carocha rebentado na reta do Sobral, com o carro aos ziguezagues, até parar. E pelo atropelamento de que fui vítima por um leitão furioso por ter sido vacinado, que me atirou, patas ao ar, num monte algures. Devo essas impressivas recordações ao Dr. Alberto. E dou graças à “irresponsabilidade” paterna, que me arrastava, em horas de escola e ainda que com conhecimento da D. Jacinta, por esses caminhos improváveis.



Momento altos? Houve vários. Talvez o mais inesquecível tenha sido em 1984, quando chamaram o Dr. Alberto para anestesiar uns cavalos. Rodava-se, em Noudar, o filme “A moura encantada”, de Manuel Costa e Silva. Numa das cenas, havia uma batalha e havia cavalos mortos. O Dr. Alberto foi chamado para os por a dormir. Deu-me depois boleia para Moura. Onde cheguei, tardíssimo, e depois de uma deambulação por inúmeros sítios. Ele estava capaz de recomeçar o dia, eu mais anestesiado que os cavalos...



Fui encontrando, a espaços, e até há muito pouco, o Dr. Alberto nas mais variadas circunstâncias. A vida não alterou nem a sua bonomia, nem a sua generosidade. Nem a sua amizade pelos Forcados de Moura, que o tinham como homem de grande respeito. Nem a energia. O encontro era selado com um sonoro “Don Santiago!”, a que se seguia um abraço que me deixava as costas em mau estado. Vou ter saudades, para sempre, dessa saudação.



Escrevi, em dezembro de 2011, quando lhe foi atribuído o título de “mourense do ano”: “o Dr. Alberto, como é popularmente conhecido, dedicou toda a sua vida à medicina veterinária, numa atividade que teve, ao longo de muitas décadas, tanto do profundo conhecimento técnico quanto de sacerdócio e de entrega ao próximo. Simpático e dotado de rara simplicidade, é figura popularíssima no concelho de Moura, e muito para lá das suas fronteiras, conseguindo a rara proeza de gerar um amplo consenso entre os mais diversos setores sociais e políticos da nossa terra”. Poderia repetir hoje tudo isso e acrescentar uma faceta da sua personalidade, que sempre me causou funda perplexidade. Tinha uma memória extraordinária, que lhe permitia fixar centenas de números de telemóveis e dizer, de cor, o plantel da equipa de futebol xis de 1968. Dizia-me um familiar, com um sorriso já de saudade, naquela tarde em que me fui despedir do Dr. Alberto, “é claro que depois nunca se lembrava da matrícula do seu próprio carro...”.



Fixar a memória daqueles que tanto se entregaram a uma terra é obrigação de todos nós. Fazê-lo através de um nome de rua, pode ser honroso, mas nunca me pareceu grande solução, por banal. Perpetuar o nome dos que, como Alberto Fernandes, tanto trabalharam para tantos, a todos deve dizer respeito. Creio que a atribuição de uma bolsa de estudos, com o seu nome, destinada a estudantes de veterinária do nosso concelho, seria uma forma apropriada de celebrar a carreira de Dr. Alberto Fernandes. Seria uma iniciativa que tomaria, estando num lugar (Câmara Municipal ou Junta de Freguesia) onde essa capacidade de decisão me coubesse.

Texto publicado em "A Planície". Fotografia do facebook do amigo Luís Lança.