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terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

FELLINIANO

Um homem, nascido há 100 anos, deu origem a um adjetivo. Federico Fellini (1920-1993) é quase inclassificável. Volto, com muita regularidade, a Fellini. Divertido, polémico, circense, caloroso, fantasioso, apaixonado, podíamos gastar horas adicionado qualificativos. Fellini nunca ganhou nenhum Óscar (envergonhados, deram-lhe um honorário...), nem ganhou em Berlim nem em Veneza. Vá lá, 8 1/2 valeu-lhe uma Palma de Ouro. Que importa? Os filmes de Fellini "ameaçam" tornar-se eternos. Amarcord talvez seja, no seu memorialismo, um dos mais fellininanos. É um dos que mais gosto. Fica aqui o trailer. Viva Fellini!

sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

#HASHTAGS EM ARTE ANTIGA

Podia criar uma carrada de hashtags a partir da reunião da passada semana:

#badanas
#gramagem
#couché
#mate
#chromocard
#lombada
#plastificação
#semi-mate
#gráficas
#revisão

E, acima de tudo,
#prazos

Foi um projeto quase inesperado. “Nasceu” depois de se olhar, vezes sem conta, para um quadro, com pouco mais de 500 anos. O Joaquim tinha pensado numa coisa, eu noutra, afinal eram coincidentes. Acabámos visitando Travassô e a procissão em honra dos mártires. Não foi propriamente uma epifania, mas às vezes até me parece que sim. Estamos em V2 – para falar em termos aeronáuticos – e, daqui até junho de 2020, isto é um instante... Guerreiros e mártires à vista.


Os "olhares" são de uma exposição anterior...

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

SPANISH BOMBS

Falei de London Calling há exatamente dez anos. O disco tinha saído em 1979. Dos 30 chegámos aos 40. O duplo ainda está cá por casa. Em 2009, o jovem Manuel ficou espantado por eu conhecer os Clash. Oxalá ele ainda se lembre deles, digo eu agora.

O espanhol de Joe Strummer não é bem canónico. Mas quem quer saber disso, não é verdade?

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

JORGE DE SENA

O centenário que passou à margem de Portugal.

Beirut, por Koudelka


OS PARAÍSOS ARTIFICIAIS


Na minha terra, não há terra, há ruas;
mesmo as colinas são de prédios altos
com renda muito mais alta.

Na minha terra, não há árvores nem flores.
As flores, tão escassas, dos jardins mudam ao mês,
e a Câmara tem máquinas especialíssimas para desenraizar as árvores.

Os cânticos das aves - não há cânticos,
mas só canários de 3º andar e papagaios de 5º.
E a música do vento é frio nos pardieiros.

Na minha terra, porém, não há pardieiros,
que são todos na Pérsia ou na China,
ou em países inefáveis.

A minha terra não é inefável.
A vida da minha terra é que é inefável.
Inefável é o que não pode ser dito.

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

27.9.1979 - A MORTE SAIU À RUA

Foi há 40 anos. Recordo-me do dia com se fosse hoje. Dois trabalhadores da UCP Bento Gonçalves, no concelho de Montemor-o-Novo, foram mortos a tiro, durante uma ação de protesto. António Casquinha, de 17 anos, e José Geraldo "Caravela", de 54, militantes comunistas, já não voltaram casa, nessa trágica quinta-feira.

A força da GNR disparou para ar... Era primeira-ministra Maria de Lurdes Pintasilgo. Era Ministro da Agricultura Joaquim da Silva Lourenço. Era Ministro da Administração Interna Manuel Costa Brás. Era Ministro da Justiça Pedro Sousa Macedo, mais tarde presidente do Supremo. Não houve conclusões. Ninguém foi acusado. Ninguém foi responsabilizado.

O momento foi imortalizado por João Hogan. A extraordinária tela pertence à Câmara Municipal de Cuba. Foi ocultada entre 2001 e 2013, por opção do presidente da câmara de então. Está hoje em lugar digno e apropriado.


A morte saiu à rua num dia assim
Naquele lugar sem nome pra qualquer fim
Uma gota rubra sobre a calçada cai
E um rio de sangue dum peito aberto sai

O vento que dá nas canas do canavial
E a foice duma ceifeira de Portugal
E o som da bigorna como um clarim do céu
Vão dizendo em toda a parte o pintor morreu

Teu sangue, Pintor, reclama outra morte igual
Só olho por olho e dente por dente vale
À lei assassina, à morte que te matou
Teu corpo pertence à terra que te abraçou

Aqui te afirmamos dente por dente assim
Que um dia rirá melhor quem rirá por fim
Na curva da estrada, há covas feitas no chão

E em todas florirão rosas duma nação

(José Afonso)

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

IMPROVISAÇÃO 33

Não é bem uma improviso e só voltarei a assinalar este dia em 2021 (35 anos) e em 2026 (40 anos). Se lá chegar. Faz hoje 33 anos que entrei para a Função Pública. Improvisation 33 (Orient 1) é o título do quadro que Wassily Kandinsky (1866-1944) pintou em 1913.

Dia 25 de setembro de 1986 calhou a uma quinta-feira. Aos 23 anos, 3 meses e 22 dias tornava-me Chefe da Divisão Sócio-Cultural da Câmara Municipal de Moura. Iria penar um tanto...

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

JORGE - 50

Só conheci, pessoalmente, o Jorge no ano de 2005. Tinha acabado de chegar à Câmara de Moura e um dia o Rafael desafiou "e se fossemos até à do Liberato?". Nos primeiros momentos, senti-me um pouco intruso, merecendo um tratamento algo cerimonioso e distante. Cordial, mas distante. O "desconforto" durou pouco. Na televisão passava um programa sobre a vida selvagem. Às tantas, o Jorge vira-se para mim e, com um ar muito pensativo, tem esta tirada: "desculpe lá, o meu amigo é vereador e deve saber destas coisas; quantas leiras de coentros serão precisas para fazer um petisco com a orelha daquele elefante?". Apanhado de surpresa, desmanchei-me a rir. O resto da taberna fez o mesmo.

A taberna é um sítio popular, onde o Jorge foi dando largas à sua criatividade e boa disposição. A taberna tornou-se ponto de referência em Moura. Por mérito do Jorge e da sua família. Aproveitei essa onda e a TSF fez dali um programa à escala nacional. O Presidente da República esteve lá, cortando presunto e bebendo vinho tinto.

A dada altura, o Jorge passou a identificar-se como Bastonário da Ordem dos Taberneiros. Um título que ninguém reclamara e que bem lhe assenta. Entre 2005 e 2017, perdi a conta ao número de vezes que entrei na Taberna do Liberato. Do simples conhecimento com a Alice e com o Jorge passou-se à simpatia, daí à amizade. Foram muitas horas de conversa ao longo de uma dúzia de anos. Foi a certeza de estar ante gente franca, solidária e séria. E que foi enfrentando as agruras da vida com coragem e boa disposição. A passagem do Jorge Liberato pelos Bombeiros é outra dessas facetas fundamentais, e onde continua a dar provas de empenho e de vontade de ajudar.

Tive, do ponto de vista pessoal, tocantes provas de amizade. De uma delas, no final de setembro de 2013, não me esquecerei. A partir de outubro de 2017, a minha vida mudou de coordenadas. A única coisa de que sinto falta é do convívio com as pessoas (nem tão poucas como eu imaginaria, nem tantas como outros pensarão...). De pessoas como a Alice e como o Jorge, sem dúvida. Um ponto da minha peregrinatio a Moura é a taberna. Para poder estar com os proprietários do sítio e mais com alguns habitués de longa data.

Como, há meses, escrevi:

Més que un club, dizem os adeptos do Barcelona da sua agremiação. Os que, ao longo de muitos anos, temos vindo a passar pelo Liberato podemos proclamar, com convicção “mais que uma taberna”. Bebemos copos? Sim. E ouvimos e contamos histórias? Claro, nem outra coisa seria de esperar. Sobretudo, temos a presença da Alice e do Jorge. Nos últimos tempos, uma nova faceta se veio juntar às muitas outras da Taberna do Liberato. Nasceram as Tertúlias dos Templários. À animação habitual, à música ocasional, à permanente boa disposição veio juntar-se a História. Num registo descontraído, mas nem por isso menos rigoroso. A Taberna do Liberato é uma taberna? É, e é muito mais que uma taberna. É um sítio com alma.

O Jorge chega hoje ao meio século. Daí este texto, que é uma mensagem e um abraço de parabéns. À tua e à da tua família, Jorge. Na feira, aí nos encontraremos!


Recebendo o Presidente da República, em 2016.
Em dezembro do ano passado, tirando partido de uma tranquila tarde.

domingo, 25 de agosto de 2019

ESPOSENDE

A fotografia é de 1971. O autor é Armindo Cachada. Representa a romaria de S. Bartolomeu do Mar. Mostra-nos um Portugal telúrico, antigo e rural. Ao olhar, ontem à tarde, para esta imagem, ocorreu-me que muitos políticos só frequentam estes ambientes em datas pré-eleitorais. Ou que muitos académicos o fazem na perspetiva do voyeurismo.

É a altura das romarias de verão. Por entre o pó, o mar, o calor e a festa genuína. Mais ou menos religiosa, mais ou menos profana.

Dado curioso na fotografia: não está ninguém dentro de água. Parto do princípio que o banho ritual ainda não se iniciara...

domingo, 18 de agosto de 2019

WOODSTOCK

É banal falar, no dia de hoje, de Woodstock. É que passam exatamente 50 anos sobre o fim do festival. Festivais e concertos nunca foram exatamente "a minha praia". Tal como os domínios da "contra-cultura" nunca o foram... Mas gostei muito do filme de Michael Wadleigh, um prodígio de improviso e de capacidade  de montagem.

quarta-feira, 31 de julho de 2019

OMAR TORRIJOS

Homenagem ao patriota panamiano Omar Torrijos (1929-1981), no ano em teria completado 90 anos e no dia em que passam 38 anos da sua morte, num misterioso acidente de avião. Há um livro que trata, de perto, a realidade política de Omar Torrijos. Foi escrito por Graham Greene e intitula-se Getting to Know the General: The Story of an Involvement.

Torrijos negociou com Carter a devolução do território em volta do Canal. A política do big stick continua ativa. Guess what? Com tanta dimócraci e tantos iuman raites, os territórios panamianos anda não são panamianos. E nem vale a pena recordar como se inventou um país chamado Panamá.

Omar Torrijos, na sua fotografia de que mais gosto: com um grupo de crianças, na represa do rio Bayano (1973)

segunda-feira, 10 de junho de 2019

SÍNDROME KILAS

Do filme de José Fonseca e Costa (1933-2015) "Kilas, o mau da fita" (1980):

Num instante cresci. Ganhei peso colocando à porta uma placa cheia de pintarola que dizia assim: Rui Ventura Tadeu import / export. Que era para que ninguém me viesse à mão com a história de eu não fazer nenhum e andar a chular a Rita.

Como diz um amigo meu, estas frases definem toda a arte de ser português. No fundo, não se produz grande coisa, anda-se a fingir e o importante é ficar bem na chapa. É assim há mais de 800 anos.

Hoje é Dia de Portugal.


quinta-feira, 6 de junho de 2019

UNIÃO SOVIÉTICA? QUAL UNIÃO SOVIÉTICA?

Comemoram-se os 75 anos do desembarque na Normandia. Que o bloco ocidental queira desvalorizar sagas como o cerco de S. Petersburgo ou a batalha de Volvogrado, é uma coisa. Que se opte por não convidar Putin para este Dia D é outra. Que se queira apagar o papel da União Soviética na derrota da Alemanha nazi é uma atitude penosa e à altura dos líderes que a Europa tem. Que se convide Merkel e se ponha na legenda da fotografia que é uma imagem dos representantes das Forças Aliadas dá imensa vontade de rir.

Putin não é comunista, nem socialista, clarifique-se. Nem, à luz da nossa lógica, particularmente recomendável. É o herdeiro de Bizâncio e representa uma mentalidade imperial. A Rússia é isso. Não é preciso estudar ciência política ou qualquer outro ramo do ocultismo. Eisenstein e um par de livros dão uma ajuda.


sábado, 23 de março de 2019

GULBENKIAN

Nasceu na Turquia. Fez fortuna no Médio Oriente. Instalou-se em Portugal. A Fundação Calouste Gulbenkian tem o seu nome e o seu legado. A Fundação é obra do fundador e de um grupo de homens de génio que a construiu depois dele. E Portugal nunca mais foi o mesmo. A verdade é essa e não vale a pena tentar refazer essa verdade.

Calouste Gulbenkian nasceu em Üsküdar, faz hoje 150 anos.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

BANCO DE GORRINGE

Este é um mais um banco que, por norma, dá problemas. Diz a wikipedia (oxalá bata certo) que  se situa "a cerca de 120 milhas marítimas a oeste-sudoeste do Cabo de S. Vicente. A microplaca da Península Ibérica e a placa africana convergem de forma oblíqua ao longo do acidente geológico Açores-Gibraltar, provocando o levantamento da litosfera oceânica que formou o banco de Gorringe". É a fricção das duas placas que está na origem dos terramotos que, regularmente, sentimos.

A última destas libertações de energia de maiores dimensões fez-se sentir na madrugada de 28 de fevereiro de 1969. Faz hoje 50 anos. Recordo três coisas, com toda a nitidez: a minha mãe a arrancar-me da cama (velho hábito, durmo como uma pedra e nem aquele ronco inesquecível vindo do fundo da terra, despertou os meus 5 anos); o meu pai a subir e a descer a escada, atarantado, enquanto a casa chocalhava, porque trancara a porta e não sabia da chave; e de passar parte da noite, animadamente, com a rapaziada da vizinhança na parte de trás da carrinha de um vizinho que era vendedor das máquinas OLIVA. Era uma AK 400...

A casa

O carro

O epicentro


E um poema de Fernando Pinto do Amaral que creio vir a propósito:

Desceu tão de repente o sol por onde
andámos. Já não o vejo
essa janela para além das árvores,
esse lugar-refém
de tudo o que senti. A própria infância
confundiu as imagens, quis amar
a voz do seu segredo.

Se ainda existe o verão, porquê
a nostalgia, a dor feliz que foge e não
regressa? A cada instante parece outra
a melodia
nos olhos do meu pai do meu irmão
e eu sei adormecer, rezar ainda
com a minha mãe à cabeceira.

Quais são as cores da morte? Uma paisagem
acontecendo, em sombra, os objectos
esquecendo-se de nós - numa só vida
começam e acabam mais outras
vidas.

Era uma casa cor-de-rosa e do meu quarto
Podia ver-se o mar.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

CLÁUDIO TORRES - 80 ANOS

CLÁUDIO,

Não vou poder estar hoje aí, em Mértola. Logo hoje, que é data redonda e fazes 80 anos. Ligamos muito a essas coisas, e logo hoje é que falho. Ainda assim, e como este dia marca a tua entrada na nona década, achei que devia escrever-te esta carta. Pública e aberta. Normalmente, carta aberta é pancadaria. Não é este o caso. Não é, também, uma carta laudatória, nem nostálgica. E só é novidade porque, nestas coisas, prefiro a discrição.
Recuemos umas décadas. O Diretor de História da Arte e tu entraram na aula. Ele fez as apresentações: “este senhor chama-se Cláudio Torres e vai ser vosso professor no próximo ano”. Estava-se em plena crise das Torres das Amoreiras e deste uma aula explicando porque é que não nos sentimos agredidos por uma catedral gótica, mas sentimos o peso de arranha-céus repetitivos e sem pontos de referência. A explicação foi feita desenhando no quadro, com giz. O mesmo método que usarias sempre, nas aulas, para explicar o funcionamento dos zigurates, a modulação das muralhas ou a topografia da Lisboa Islâmica. Hoje, serias defenestrado se tal fizesses…
Dois dias antes do natal passado, e com um copo de moscatel à frente, confessei-te, no meio da nossa longa conversa, que tenho saudades de escrever livros e de preparar exposições contigo. Aqui me contradigo e cedo à nostalgia. O frenesim dos anos 1991/2001 não o repetirei. Não o repetiremos. Em final de 2001, com a inauguração do Museu Islâmico, fechou-se um capítulo. Isso era mais que claro. Ao longo dos anos, tornou-se também evidente que o modelo de trabalho que desenvolvíamos tinha, ele próprio, um tempo e um limite. Aí nunca concordámos, como bem sabes. Sou defensor de soluções mais formais, mais institucionais e muito mais conservadoras. De ligações fortes a Universidades (o acordo com Coimbra foi tirado a ferros…), a bancos, empresas e fundações. Num sistema de “matching funds”, e não de apenas de subsídios ou de donativos. Mas, como sempre disse e aqui reafirmo, este projeto é teu. A condução da máquina cabe-te. Como sempre sucedeu.
Como no futebol, a grande aprendizagem colhida em Mértola foi a de saber ver as jogadas pelo ângulo inverso. A de perceber que as pequenas coisas são as mais importantes, e que as pessoas “pouco importantes” são as decisivas. Por isso, os anos trabalhando contigo foram mais importantes que os graus académicos. E não há MBA, pós-graduações em políticas públicas, doutoramentos etc. que valham a outra formação por que aí passei. E que foi a humana e a política, antes de mais.
Quando, há meses, decidi tomar outro rumo, várias pessoas me perguntaram “mas houve chatices com o Cláudio?”, “zangaram-se?” etc. Nada disso. Nem por sombras. Dificilmente tal acontecerá. E nunca, em caso algum, deixarei de mostrar o meu reconhecimento pelos anos extraordinários que correram entre agosto de 1991 e fevereiro de 2006. Quinze anos de exposições, de livros, de correrias, de escavações, de Portugal Islâmico, de Marrocos-Portugal, de Memórias Árabo-Islâmicas, de Terras da Moura Encantada etc. De uma aprendizagem intensa e de todas as oportunidades que me foste dando e que fui aproveitando. Claro que ainda fui voltando, depois de 2006, mas já não era a mesma coisa. Também não queria regressar, em 2018, ao sítio onde fui feliz. Foram dois sítios, de facto, Mértola e Moura, o que me deu o privilégio raro de ter duas terras.
Nesses 15 anos, aprendi a desempenhar o meu papel de ator secundário. Digo-to com convicção e sem qualquer melindre. Aproveitei a placa giratória que o Campo foi, e ainda é. É agora muito menos que antes, como bem sabes. Mas o mundo mudou, e nós com ele.
O projeto vai continuar? Claro que sim. Quem o duvida? Não voltará a ser o que era? Decerto que não. Não pode, nem deve. Também não pode, nem deve, perder a alma. Como isso vai ser feito, é coisa que cabe a quem aí está. Pela minha parte, foi uma sorte poder ter aí estado durante tantos anos.
A parte mais divertida de tudo isto? Ter podido escrever e publicar, nos 40 anos do Campo, um texto como “350.400 horas mais tarde…”. Sem bibliografia nem um raio de uma citação. E borrifar-me para o que os “cientistas” pensem ou deixem de pensar acerca disso. Essa descontração foi sendo aprendida contigo, fica a saber.
Não estou aí hoje, mas espero estar em 2020. Por isso, aqui da Madragoa, te saúdo e brindo, com um copo de vinho tinto, como deve ser e manda a lei, “à tua e à nossa”.

Texto publicado hoje, no "Diário do Alentejo"

sábado, 5 de janeiro de 2019

NOITE DE REIS

Noite de Reis, que será logo mais. Ao rever, na net, os mosaicos de Santo Apolinario Nuovo, dei com esta extraordinária representação dos Reis Magos. Baltazar não é aqui negro, apenas mais moreno que os outros, presumindo-se que o toque "mouro" seja dado pelas barbas.

Os Reis Magos apresentam calças ao estilo persa, mostrando assim que são "estrangeiros". Na verdade, tão cingidas e com tão exuberante colorido, mais parecem leggings dos nossos dias, bastante trendy por sinal...

Romance dos Três Reis Magos
Escutai, ó nobre gente, escutai e ouvireis,
Que da parte do Oriente, são chegados os três Reis.

São chegados os três Reis, da parte do Oriente,
Visitar o Deus Menino, alto Deus Omnipotente.

O caminho de um ano, fizeram-no em treze dias,
Por favor muito soberano, do Infante Rei Messias.

Guiados por uma estrela, que a todo o mundo dá luz,
Buscar vão outra mais bela, que é o Menino Jesus.

Foram a casa de Herodes, por ser o maior reinado,
Que lhes ensinasse o caminho, onde Jesus era nado.

Herodes como malvado, como perverso, malino,
Aos Santos Reis ensinou, às avessas o caminho.



Os três Reis como eram santos, uma estrela os guiou,
Em cima duma cabana, a estrela se pousou.

A estrela se escondeu, chegando a uma cabana,
Todos três se ajoelharam, a Jesus, neto de Ana.

A cabana era pequena, não cabiam todos três,
Adoraram o Deus Menino, cada um por sua vez.

Todos três lhe ofereceram, ouro, mirra e incenso,
Não lhe ofereceram mais, porque era o Deus imenso.

Ofereceram-lhe ouro fino, como Rei universal,
Incenso, como divino, e mirra, como mortal


quinta-feira, 25 de outubro de 2018

AMADEO

Vale a pena ler a entrevista de Helena de Freitas, há dois anos. O essencial está em duas linhas: "um dos momentos mais extraordinários deste processo foi o meu primeiro encontro com Laurent Salomé, diretor do Grand Palais, que me recebeu com uma interrogação. Ao folhear lentamente as páginas do catálogo, perguntou-me: mas afinal quem é este artista e como é possível eu não o conhecer?". Justamente, é essa a questão. Como é possível que um génio como Amadeo de Souza-Cardoso (1887-1918) permaneça na penumbra? Desde logo, por que os poderes públicos nunca cuidaram devidamente da sua promoção. Há quem seja exímio em descobrir, com regularidade, artistas de segunda linha, que são depois promovidos como génios desconhecidos. Amadeo não teve essa ventura. Só agora, muito tarde, começa esse processo.

Faz hoje um século que Amadeo de Sousa-Cardoso morreu, aos 30 anos. Será que dá abertura de telejornal?

Ler - https://gulbenkian.pt/noticias/segredo-bem-guardado-da-arte-moderna/

A casita clara - paisagem (1915)

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

O TAL CANAL

E assim se passaram 35 anos. A estreia ocorreu no dia 22 de outubro de 1983. Recordo, com nitidez, que estava, melancolicamente e sem especial entusiasmo, a meio da licenciatura. Estava a começar o 3º ano e uma cadeira (Arqueologia Medieval) viria a determinar parte da minha vida.

O arranque de "O tal canal" foi acolhido com entusiasmo entre a rapaziada. O país de então era muito mais cinzento e muito menos vibrante que o de hoje. Quem disser o contrário, que se ponha na bicha para o lar... O programa de Herman José, então com apenas 29 anos, foi um dos momentos que ajudou a mudar Portugal. E havia coisas que o politicamente correto de hoje chacinaria. Como a imagem de Herman, vestido de oficial nazi, proclamando "Em Treblinka, judeu não brinca". Imaginam a bernarda que seria?

O genérico é pouco sofisticado, aos olhos de hoje? Talvez, e depois?

Celebremos o humor. Eu há fiz a minha parte, dando umas boas gargalhadas entre as 12.00 e as 12.30.



Ler - https://observador.pt/especiais/35-anos-depois-como-herman-jose-recorda-o-tal-canal/

domingo, 7 de outubro de 2018

90

O blogue de Vítor Dias veio "corrigir-me". Estava convencido que o 90º. aniversário de António Borges Coelho teria lugar dentro de dias. É hoje. Vou encontrá-lo daqui a semanas. Num momento que é mais que justo. E que ainda causará, disso tenho a certeza!, alguns engulhos.

Um abraço de parabéns ao António Borges Coelho (hoje não me atrevo a telefonar-lhe... será só aqui e por mail). A quem tanto devo/devemos, por tantas aulas, dentro e fora da universidade.

terça-feira, 11 de setembro de 2018

11 DE SETEMBRO

Faz hoje 45 anos que Salvador Allende (1908-1973) foi assassinado. Pelos paladinos da dimócraci e dos iuman rraites. E às mãos daquele que nomeara.