Uma parte do passado de Coimbra continua por valorizar, de forma global e assertiva. Cidade mediterrânica mais a norte, talvez uma certa vertente fradesca tenha contribuído para ocultar a presença do sul islâmico. Poucos conhecem a inscrição em língua árabe nos muros da Sé Velha, tal como é globalmente desconhecida a presença impactante dos azulejos sevilhanos no seu interior. O Museu Nacional de Machado de Castro tem, felizmente, um teto mudejar em exposição. O teto não pode ser deslocado do sítio. Mas há outros fragmentos, que serão vistos em Lisboa, que ilustram bem um período e uma arte.
domingo, 30 de agosto de 2020
quinta-feira, 20 de agosto de 2020
A CRUZ E O MARTÍRIO
Um grupo de franciscanos foi martirizado em Marrocos, no início de 1220. Esse foi o ponto de partida para um projeto que devia ter sido de uma forma e depois foi de outra. Que foi, afortunadamente, acolhido no Museu Nacional de Arte Antiga, onde da ideia inicial se passou a outra, bem mais abrangente e interessante.
Por entre as oscilações que estes processos sempre conhecem, há uma peça firme. A cruz do próprio MNAA, assim descrita por Joaquim Caetano no site Discover Islamic Art:
Cruz flordelisada, com intersecção da haste e dos braços em quadrado, nó esférico achatado e haste tubular de encaixe. A decoração do campo da cruz é formada por uma fita contínua que contorna o perímetro de toda a peça e forma no seu interior losangos e triângulos preenchidos por motivos geométricos e florais. Nos cantos do quadrado onde se inscreve o centro da cruz desenham-se quatro octifóleos. O reverso é igualmente delimitado por uma fita, sendo os braços e a haste, preenchidos por entrelaçados geométricos de inspiração vegetalista. No centro forma-se uma grande circunferência decorada com entrelaçados geométricos, bastante complexos, formando múltiplos centros, que constituem o mais típico elemento islâmico da decoração da cruz. Não só a decoração, como a forte probabilidade de o metal ter sido extraído de uma mina norte-africana, parecem documentar nesta peça um trabalho de artista das comunidades islâmicas peninsulares, cristianizado ou não, mas trabalhando obviamente para os reinos cristãos ibéricos.
Este tipo de cruzes tinha uma dupla função, servindo como cruz de alçar, utilizada em procissões e funerais, mas podia igualmente ser assente em bases e funcionar como elemento do aparelho litúrgico do altar.
sexta-feira, 7 de agosto de 2020
ÁGUA – PATRIMÓNIO DE MOURA (CINCO ANOS DEPOIS)
Tenho, ao longo dos anos, somado experiências, no âmbito das exposições, que considero particularmente gratificantes. Desde “Moura na época romana” até às que estão “em fase de montagem” (o covid é quem mais ordena...), contam-se quase 20 projetos, ao longo de 30 anos, e com passagens por terras africanas e americanas.
É-me difícil dizer qual foi o que mais me agradou ou o mais completo. Ou aquele em que colhi mais ensinamentos. Talvez o de maior impacto público tenha sido “Portugal Islâmico” (1998), por ter sido a primeira síntese arqueológica daquele período. Ou o que mais me tenha impressionado tenha sido “Lusa: a matriz portuguesa” (2007), no Rio de Janeiro, por ter ultrapassado a inimaginável fasquia dos 750.000 visitantes.
Feito o balanço, e agora com três exposições em fase de preparação, a aguardar luz verde dos melhores dias que virão, talvez a experiência mais marcante tenha sido “Água – património de Moura”. Em primeiro lugar, pelo desafio de conceber um guião e de o pôr em prática, ao mesmo tempo que desempenhava outras tarefas, bem mais complexas, de resto. Depois, pela especificidade e caráter volátil do tema. Houve uma opção de base, que mantenho e continuo a considerar válida. Do ponto de vista conceptual, creio que muitos museus locais têm muito a ganhar com abordagens "não-diacrónicas" das coleções ou do património local. Daí que a água fosse vista na sua intemporalidade, explicando-se a importância decisiva que o aquífero Moura-Ficalho tem em todo este território.
O edifício tinha dificuldades logísticas, e de percurso, que foram superadas, com esforço e numa permanente procura de soluções. Resolvemos aproveitar os espaços circundantes, apesar do seu ar precário e inacabado. Assumiu-se aí um certo estilo “arte povera”, que tão bem resultou nas sucessivas exposições (uma sobre aquedutos, outra com fotografias de José Manuel Rodrigues) que ali se montaram. Tal como foi gratificante receber no local João Neto, Pedro Inácio, Jorge Calado, Alexandre Pomar, entre muitos outros, em sucessivos debates. Programas de animação vocacionadas para o público infantil completaram o leque da programação.
Durante dois anos, “Água - património de Moura” esteve patente ao público. O local foi visitado por colegas autarcas de Portugal, Espanha, Cabo Verde, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe. Claro que cabe aqui especial menção a visita do Presidente da República Portuguesa. Tal como cabe destaque para os vários prémios com que a exposição foi distinguida.
Faço questão de assinalar a data. E de recordar os nomes dos que estiveram com o projeto: Marisa Bacalhau, Vanessa Gaspar, Patrícia Novo, Francisco Mota Veiga e a Terraculta, Jorge Silva, António Viana, Vítor Vajão, Jorge Murteira, Manuel Passinhas da Palma, José Finha, a equipa de arqueologia (Mário Romero, Luísa Almeida, Marta Coeho) e vários etc.
Um lustro passou. Aquele projeto deixou marcas fundas. A minha vida profissional tomaria outro caminho. Faço questão de recordar aquela exposição. Em especial numa altura em que leio tantas declarações de amor ao tema "museus". Com alguma frequência, vindas de quem não tem a mais remota ideia do que está a dizer.
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| Crónica em "A Planície" |
quinta-feira, 30 de julho de 2020
ÁGUA - PATRIMÓNIO DE MOURA: A REABERTURA DO MATADOURO
Do ponto de vista conceptual, creio que muitos museus locais têm muito a ganhar com abordagens "não-diacrónicas" das coleções ou do património local. Embora possa e deva haver sempre documentação disponível sobre a história do sítio e do território. Mas isso é tema que dava pano para mangas.
Durante dois anos, Água - património de Moura esteve patente ao público. Houve outras exposições temporárias que se lhe associaram, houve debates e conferências, o local foi visitado por colegas autarcas de Portugal, Espanha, Cabo Verde, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe. Claro que cabe aqui especial menção a visita do Presidente da República Portuguesa. Tal como cabe destaque para os vários prémios com que a exposição foi distinguida.
Faço questão de assinalar a data. Porque aquele 30 de julho de 2015 não foi um dia como os outros. Nem para mim, nem para o Município, nem para todos os que estiveram envolvidos no projeto.
quarta-feira, 15 de julho de 2020
WWW.DUARTEDARMAS.COM - dia 1
São vinte os sítios abrangidos:
Alandroal
Alpalhão (Nisa)
Arronches
Assumar (Monforte)
Campo Maior
Castelo de Vide
Elvas
Juromenha (Alandroal)
Mértola
Monforte
Monsaraz (Reguengos de Monsaraz)
Montalvão (Nisa)
Moura
Mourão
Nisa
Noudar (Barrancos)
Olivença
Ouguela (Campo Maior)
Serpa
Terena (Alandroal)
sexta-feira, 12 de junho de 2020
CIDADE BRANCA
Este guache de Maria Helena Vieira da Silva (1908-1992) passaria a ter lugar de destaque num final de percurso. Até porque, estranhamente, numa cidade como Lisboa, não há muitas representações do Castelo de S. Jorge: Carlos Botelho, Maluda, Carlos Calvet... Depois, há autores mais antigos, como Alfredo Keil ou Alberto de Souza.
Nunca em tal tinha pensado, depois o facto não deixou de me espantar.
sexta-feira, 29 de maio de 2020
IBN AL-WARDI E A SUA PÉROLA IMACULADA DOS PRODÍGIOS E PEDRA PRECIOSA DAS MARAVILHAS
O mapa em si, orientado a sul, mostra-nos África na parte superior, a Europa à direita, em baixo, e a Ásia à esquerda, em baixo. O mapa identifica os rios Nilo, Ganges e Indo, o Mar Mediterrâneo e o Oceano Índico.
terça-feira, 24 de março de 2020
DISCOVER ISLAMIC ART
Ver - http://islamicart.museumwnf.org
domingo, 22 de março de 2020
A MINHA ILHA DESERTA
Desde manhã cedo que estou noutra ilha. Os livros que trouxe marcarão parte dos dias que se seguem - só pequena parte, que há tarefas prioritárias no domínio da comunicação e da conceção de conteúdos -, porque não atiro a toalha ao tapete e me recuso a desistir de trabalhos em curso. Não se concretizam em abril ou em maio? Depois será. Por agora, navego entre catálogos de museus, mais as obras de Idrisi, os estudos sobre o ribat da Arrifana e a poesia de Verlaine, que também dá uma ajuda, por fora.
segunda-feira, 2 de março de 2020
O OURO DE ÁLVARO PIRES DE ÉVORA
Nova e feliz passagem pelo M.N.A.A., ontem de manhã, deixou-me outras certezas:
1. É uma das grandes exposições dos últimos anos. A montagem contrasta o cinza escuro das paredes com o ouro bizantino.
2. A contextualização - Álvaro Pires de Évora e o seu tempo - é claríssima.
3. Trazer outros pintores da época ajuda muito os não-iniciados na matéria a situarem-se.
4. Deve ser mais uma das minhas bizarrias, mas uma das coisas de que mais gostei foram as sinópias, os desenhos preparatórios da pintura a fresco. Sempre gostei de espreitar o que não se vê de imediato. Isso fez-me recuar aos motivos que me levaram para História da Arte...
5. Com a fasquia alta, aumenta o stress para a próxima exposição.
sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020
FOTOGRAFIA OBRIGATÓRIA
A pessoa, o lugar, o objeto
estão expostos e escondidos
ao mesmo tempo, sob a luz,
e dois olhos não são bastantes
para captar o que se oculta
no rápido florir de um gesto.
É preciso que a lente mágica
enriqueça a visão humana
e do real de cada coisa
um mais seco real extraia
para que penetremos fundo
no puro enigma das imagens.
Fotografia-é o codinome
da mais aguda percepção
que a nós mesmos nos vai mostrando,
e da evanescência de tudo
edifica uma permanência,
cristal do tempo no papel.
Das lutas de rua no Rio
em 68, que nos resta,
mais positivo, mais queimante
do que as fotos acusadoras,
tão vivas hoje como então,
a lembrar como exorcizar?
Marcas de enchente e de despejo,
o cadáver insepultável,
o colchão atirado ao vento,
a lodosa, podre favela,
o mendigo de Nova York,
a moça em flor no Jóquei Clube,
Garrincha e Nureyev, dança
de dois destinos, mães-de-santo
na praia-templo de Ipanema,
a dama estranha de Ouro Preto,
a dor da América Latina,
mitos não são, pois que são fotos.
Fotografia: arma de amor,
de justiça e conhecimento,
pelas sete partes do mundo,
viajas, surpreendes, testemunhas
a tormentosa vida do homem
e a esperança de brotar das cinzas.
terça-feira, 18 de fevereiro de 2020
JAGHBUB
O que é o jaghbub? É uma variante do times new roman. E a única fonte que permite fazer as transliterações fonéticas do alifato. Trocando por miúdos, e dando um exemplo: o som "ch" em árabe corresponde à consoante ش . Que é transliterada com um "s", com um acento circunflexo invertido (ver penúltima linha do texto). O problema maior é que instalar isto num PC não é fácil. Resultado, tenho de andar a passear o meu macbook da biblioteca para o gabinete, enquanto acabo um texto. Que terei de entregar amanhã, acompanhado com um pdf. Porque já sei que vai "desconfigurar" e os gráficos, entre arrepelões de cabelos, vão ter de cotejar os textos. Ou seja, o jaghbub é uma chatice necessária e cientificamente correta...
Título do texto? O Gharb al-Andalus - cristãos e muçulmanos no século dos almoádas. Um mano-a-mano com Cláudio Torres, recuperando o prazer de escrever a meias com o meu mestre. Nada mau, tantos anos passados sobre a última coisa em conjunto.
Ver - https://org.uib.no/smi/ksv/jaghbub.html
domingo, 16 de fevereiro de 2020
PINACOTECA CASCALENSE
Se uma pintura me chamou a atenção foi a Senhora de Akita. Em determinada fase da sua produção, Moita Macedo, cuja obra tem matriz oriental, dá especial atenção a temáticas que o aproximam do Japão. Como e porquê é o que falta saber...
Até 26 de abril.
domingo, 9 de fevereiro de 2020
PELA TARDE DE SILVES
As caligrafias estarão por Silves até ao próximo dia 12 de abril.
quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020
CALIGRAFIAS EM SILVES - FIM DE UM CICLO
2018 (out.) - Évora (Direção Regional de Cultura)
2019 (fev.) - Alvito (Centro Cultural)
2019 (mai.) - Cuba (Biblioteca Municipal)
2019 (jun.) - Mértola (Castelo)
2019 (out.) - Moura (S.F.U.M. Os Amarelos)
e
2020 (fev.) - Silves (Torre de Menagem)
Aqui ficam os agradecimentos à Fundação Millenniumbcp, à Direção Regional de Cultura do Alentejo, às Câmaras Municipais de Alvito, Cuba, Mértola e Silves e à Sociedade Filarmónica União Mourense "Os Amarelos". E a Jorge Calado, bem entendido.
Aqui fica também a simpática nota que Vasco Medeiros Rosa assinou, em 2018, no "Observador". A do "autarca heterodoxo" fez as minhas delícias.
segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020
ADALBERTO ALVES - 40 ANOS DE VIDA LITERÁRIA
quinta-feira, 30 de janeiro de 2020
... E MÉRTOLA
Ao entrar na sala, fui surpreendido por uma fotografia. Lá estava eu, dentro do silo 4, em agosto de 1986. Foi há quase 34 anos. Pelos painéis do setor Mértola da exposição fui reencontrando inúmeros amigos. Embaraçado comigo mesmo, não consegui lembrar-me do nome de alguns que passaram transitoriamente pelo projeto. Mas reencontrar Mértola no Restelo foi uma sensação especial.
quarta-feira, 29 de janeiro de 2020
HAVERÁ "LISBOA ISLÂMICA"
1) Desempenharei, com prazer, as funções de autor/comissário da exposição;
2) A exposição terá lugar no Ateneu Comercial de Lisboa;
3) A inauguração será em final de setembro;
4) Haverá vídeos que enquadram passado e presente;
5) Teremos Lisboa Islâmica.
quinta-feira, 16 de janeiro de 2020
MÁRTIRES DE MARROCOS: 800 ANOS
Quem participará no catálogo? Cláudio Torres, Hermenegildo Fernandes, Yassir Benhima, Isabel Cristina Ferreira Fernandes, Susana Gómez Martínez, Miguel Gomes Martins etc.
Guerreiros e mártires tem inauguração no final da primavera.
segunda-feira, 13 de janeiro de 2020
PARIS, 1972
And conjured up a vision bare,
Unlike the aspects glad and gay,
That erst were found reflected there –
The vision of a woman, wild
With more than womanly despair.
A face bereft of loveliness.
It had no envy now to hide
What once no man on earth could guess.
It formed the thorny aureole
Of hard unsanctified distress.
Came through the parted lines of red.
Whate'er it was, the hideous wound
In silence and in secret bled.
No sigh relieved her speechless woe,
She had no voice to speak her dread.
The dying flame of life's desire,
Made mad because its hope was gone,
And kindled at the leaping fire
Of jealousy, and fierce revenge,
And strength that could not change nor tire.
O set the crystal surface free!
Pass – as the fairer visions pass –
Nor ever more return, to be
The ghost of a distracted hour,
That heard me whisper, "I am she!"





















