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domingo, 30 de agosto de 2020

MUDEJAR CONIMBRICENSE

Uma parte do passado de Coimbra continua por valorizar, de forma global e assertiva. Cidade mediterrânica mais a norte, talvez uma certa vertente fradesca tenha contribuído para ocultar a presença do sul islâmico. Poucos conhecem a inscrição em língua árabe nos muros da Sé Velha, tal como é globalmente desconhecida a presença impactante dos azulejos sevilhanos no seu interior. O Museu Nacional de Machado de Castro tem, felizmente, um teto mudejar em exposição. O teto não pode ser deslocado do sítio. Mas há outros fragmentos, que serão vistos em Lisboa, que ilustram bem um período e uma arte.



quinta-feira, 20 de agosto de 2020

A CRUZ E O MARTÍRIO

Um grupo de franciscanos foi martirizado em Marrocos, no início de 1220. Esse foi o ponto de partida para um projeto que devia ter sido de uma forma e depois foi de outra. Que foi, afortunadamente, acolhido no Museu Nacional de Arte Antiga, onde da ideia inicial se passou a outra, bem mais abrangente e interessante.

Por entre as oscilações que estes processos sempre conhecem, há uma peça firme. A cruz do próprio MNAA, assim descrita por Joaquim Caetano no site Discover Islamic Art

Cruz flordelisada, com intersecção da haste e dos braços em quadrado, nó esférico achatado e haste tubular de encaixe. A decoração do campo da cruz é formada por uma fita contínua que contorna o perímetro de toda a peça e forma no seu interior losangos e triângulos preenchidos por motivos geométricos e florais. Nos cantos do quadrado onde se inscreve o centro da cruz desenham-se quatro octifóleos. O reverso é igualmente delimitado por uma fita, sendo os braços e a haste, preenchidos por entrelaçados geométricos de inspiração vegetalista. No centro forma-se uma grande circunferência decorada com entrelaçados geométricos, bastante complexos, formando múltiplos centros, que constituem o mais típico elemento islâmico da decoração da cruz. Não só a decoração, como a forte probabilidade de o metal ter sido extraído de uma mina norte-africana, parecem documentar nesta peça um trabalho de artista das comunidades islâmicas peninsulares, cristianizado ou não, mas trabalhando obviamente para os reinos cristãos ibéricos.

Este tipo de cruzes tinha uma dupla função, servindo como cruz de alçar, utilizada em procissões e funerais, mas podia igualmente ser assente em bases e funcionar como elemento do aparelho litúrgico do altar.

Uma peça de primeira linha para um projeto bem assente no martírio.

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

ÁGUA – PATRIMÓNIO DE MOURA (CINCO ANOS DEPOIS)

Tenho, ao longo dos anos, somado experiências, no âmbito das exposições, que considero particularmente gratificantes. Desde “Moura na época romana” até às que estão “em fase de montagem” (o covid é quem mais ordena...), contam-se quase 20 projetos, ao longo de 30 anos, e com passagens por terras africanas e americanas.

É-me difícil dizer qual foi o que mais me agradou ou o mais completo. Ou aquele em que colhi mais ensinamentos. Talvez o de maior impacto público tenha sido “Portugal Islâmico” (1998), por ter sido a primeira síntese arqueológica daquele período. Ou o que mais me tenha impressionado tenha sido “Lusa: a matriz portuguesa” (2007), no Rio de Janeiro, por ter ultrapassado a inimaginável fasquia dos 750.000 visitantes.

Feito o balanço, e agora com três exposições em fase de preparação, a aguardar luz verde dos melhores dias que virão, talvez a experiência mais marcante tenha sido “Água – património de Moura”. Em primeiro lugar, pelo desafio de conceber um guião e de o pôr em prática, ao mesmo tempo que desempenhava outras tarefas, bem mais complexas, de resto. Depois, pela especificidade e caráter volátil do tema. Houve uma opção de base, que mantenho e continuo a considerar válida. Do ponto de vista conceptual, creio que muitos museus locais têm muito a ganhar com abordagens "não-diacrónicas" das coleções ou do património local. Daí que a água fosse vista na sua intemporalidade, explicando-se a importância decisiva que o aquífero Moura-Ficalho tem em todo este território.

O edifício tinha dificuldades logísticas, e de percurso, que foram superadas, com esforço e numa permanente procura de soluções. Resolvemos aproveitar os espaços circundantes, apesar do seu ar precário e inacabado. Assumiu-se aí um certo estilo “arte povera”, que tão bem resultou nas sucessivas exposições (uma sobre aquedutos, outra com fotografias de José Manuel Rodrigues) que ali se montaram. Tal como foi gratificante receber no local João Neto, Pedro Inácio, Jorge Calado, Alexandre Pomar, entre muitos outros, em sucessivos debates. Programas de animação vocacionadas para o público infantil completaram o leque da programação.

Durante dois anos, “Água - património de Moura” esteve patente ao público. O local foi visitado por colegas autarcas de Portugal, Espanha, Cabo Verde, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe. Claro que cabe aqui especial menção a visita do Presidente da República Portuguesa. Tal como cabe destaque para os vários prémios com que a exposição foi distinguida.

Faço questão de assinalar a data. E de recordar os nomes dos que estiveram com o projeto: Marisa Bacalhau, Vanessa Gaspar, Patrícia Novo, Francisco Mota Veiga e a Terraculta, Jorge Silva, António Viana, Vítor Vajão, Jorge Murteira, Manuel Passinhas da Palma, José Finha, a equipa de arqueologia (Mário Romero, Luísa Almeida, Marta Coeho) e vários etc. 

Um lustro passou. Aquele projeto deixou marcas fundas. A minha vida profissional tomaria outro caminho. Faço questão de recordar aquela exposição. Em especial numa altura em que leio tantas declarações de amor ao tema "museus". Com alguma frequência, vindas de quem não tem a mais remota ideia do que está a dizer.


Crónica em "A Planície"

quinta-feira, 30 de julho de 2020

ÁGUA - PATRIMÓNIO DE MOURA: A REABERTURA DO MATADOURO

Faz hoje 5 anos que abriu ao público a exposição Água - património de Moura. Foi um dos raros momentos em que, durante aquele mandato autárquico, meti as mãos na massa e dirigi diretamente um projeto na minha área de trabalho. Isso aconteceu por razões que não vêm agora ao caso.

Do ponto de vista conceptual, creio que muitos museus locais têm muito a ganhar com abordagens "não-diacrónicas" das coleções ou do património local. Embora possa e deva haver sempre documentação disponível sobre a história do sítio e do território. Mas isso é tema que dava pano para mangas.

Durante dois anos, Água - património de Moura esteve patente ao público. Houve outras exposições temporárias que se lhe associaram, houve debates e conferências, o local foi visitado por colegas autarcas de Portugal, Espanha, Cabo Verde, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe. Claro que cabe aqui especial menção a visita do Presidente da República Portuguesa. Tal como cabe destaque para os vários prémios com que a exposição foi distinguida.

Faço questão de assinalar a data. Porque aquele 30 de julho de 2015 não foi um dia como os outros. Nem para mim, nem para o Município, nem para todos os que estiveram envolvidos no projeto.


quarta-feira, 15 de julho de 2020

WWW.DUARTEDARMAS.COM - dia 1

Arrancou e já há site: www.duartedarmas.com. É só a capa, mas dentro de semanas começará a ser preenchido. Até ao final do ano, o projeto estará terminado. Uma longa caminhada (iniciada em 2004!), que agora se aproxima do fim. Como eram, como são. Com a ajuda de um drone.

São vinte os sítios abrangidos:

Alandroal
Alpalhão (Nisa)
Arronches
Assumar (Monforte)
Campo Maior
Castelo de Vide
Elvas
Juromenha (Alandroal)
Mértola
Monforte
Monsaraz (Reguengos de Monsaraz)
Montalvão (Nisa)
Moura
Mourão
Nisa
Noudar (Barrancos)
Olivença
Ouguela (Campo Maior)
Serpa
Terena (Alandroal)

sexta-feira, 12 de junho de 2020

CIDADE BRANCA

Esta pintura quase encerraria um projeto que a pandemia levou. O melhor, talvez se faça, "reformatadamente". Nem fazia parte do alinhamento original, porque não a conhecia. Um feliz acaso levou-me, uma manhã, à Fundação Arpad Szenes - Vieira da Silva. Ganhou ali novo significado a expressão cidade branca. Que, na verdade, só o é de forma figurada.

Este guache de Maria Helena Vieira da Silva (1908-1992) passaria a ter lugar de destaque num final de percurso. Até porque, estranhamente, numa cidade como Lisboa, não há muitas representações do Castelo de S. Jorge: Carlos Botelho, Maluda, Carlos Calvet... Depois, há autores mais antigos, como Alfredo Keil ou Alberto de Souza.

Nunca em tal tinha pensado, depois o facto não deixou de me espantar.

sexta-feira, 29 de maio de 2020

IBN AL-WARDI E A SUA PÉROLA IMACULADA DOS PRODÍGIOS E PEDRA PRECIOSA DAS MARAVILHAS

Por razões que não vêm ao caso, falei hoje, por várias vezes, neste mapa. É peça selecionada para um projeto em curso, se o covid deixar, que cada dia parece mais incerto que o anterior. Escolhi-a para a exposição por razões que, em detalhe, ocupariam demasiado espaço. É uma cópia tardia (feita por Fr. João de Sousa) de uma obra de Ibn al-Wardi, autor que viveu na primeira metade do século XIV. Esta verdadeira preciosidade conserva-se na Biblioteca Pública de Évora (Cod. CXVI/1-42)

O mapa em si, orientado a sul, mostra-nos África na parte superior, a Europa à direita, em baixo, e a Ásia à esquerda, em baixo. O mapa identifica os rios Nilo, Ganges e Indo, o Mar Mediterrâneo e o Oceano Índico.

terça-feira, 24 de março de 2020

DISCOVER ISLAMIC ART

E mais um museu virtual. Este surgiu muito antes da crise. Está em linha há uns 13 anos. O projeto arrancou em 2002 e quase me parece impossível que tenha decorrido todo este tempo. Continua a ser uma interessante base de dados, com muitos pontos de contactos entre museus e coleções de várias partes do mundo. E que inclui várias exposições temáticas.

Ver - http://islamicart.museumwnf.org

domingo, 22 de março de 2020

A MINHA ILHA DESERTA

Que livros levar? Na verdade, isto foi um pouco às avessas... Que livros trazer para Mértola... Não estou em nenhuma ilha (espero estar um dia, com Trás os Montes a leste e a baía à frente) e, em todo o caso não iria ler para a praia. Pelo menos, livros. Detesto ler livros na praia, com o sol a queimar as páginas, o cheiro ao papel quente, a areia a meter-se entre as folhas.

Desde manhã cedo que estou noutra ilha. Os livros que trouxe marcarão parte dos dias que se seguem - só pequena parte, que há tarefas prioritárias no domínio da comunicação e da conceção de conteúdos -, porque não atiro a toalha ao tapete e me recuso a desistir de trabalhos em curso. Não se concretizam em abril ou em maio? Depois será. Por agora, navego entre catálogos de museus, mais as obras de Idrisi, os estudos sobre o ribat da Arrifana e a poesia de Verlaine, que também dá uma ajuda, por fora.

segunda-feira, 2 de março de 2020

O OURO DE ÁLVARO PIRES DE ÉVORA

Admito que gosto mais de Fra Angelico que de Álvaro Pires de Évora. Não são os meus domínios, não sou, nem de perto..., conhecedor, e o meu gosto é, sobretudo, "impressionista".

Nova e feliz passagem pelo M.N.A.A., ontem de manhã, deixou-me outras certezas:

1. É uma das grandes exposições dos últimos anos. A montagem contrasta o cinza escuro das paredes com o ouro bizantino.

2. A contextualização - Álvaro Pires de Évora e o seu tempo - é claríssima.

3. Trazer outros pintores da época ajuda muito os não-iniciados na matéria a situarem-se.

4. Deve ser mais uma das minhas bizarrias, mas uma das coisas de que mais gostei foram as sinópias, os desenhos preparatórios da pintura a fresco. Sempre gostei de espreitar o que não se vê de imediato. Isso fez-me recuar aos motivos que me levaram para História da Arte...

5. Com a fasquia alta, aumenta o stress para a próxima exposição.



sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

FOTOGRAFIA OBRIGATÓRIA

É uma espécie de anti-aniconismo. Escrevo dois textos, para duas publicações diferentes. Não quero imagens, só o texto corrido. Recebo mails "isso é que não pode ser, os textos têm de ser ilustrados, são as normas sabe?...". E ouço isto, uma, duas, três vezes. Mas que raio... como se ilustra a Reconquista do Alentejo? Como se traduz em imagem a importância de arqueologia num processo de desenvolvimento? Não quero imagens, "pois, mas tem de mandar sugestões". Nada melhor que uma solução "gráfica". As ilustrações serão tão esotéricas como a exigência, é o que é.



E leio Drummond de Andrade, que sabia de fotografia.

DIANTE DAS FOTOS DE EVANDRO TEIXEIRA

A pessoa, o lugar, o objeto
estão expostos e escondidos
ao mesmo tempo, sob a luz,
e dois olhos não são bastantes
para captar o que se oculta
no rápido florir de um gesto.

É preciso que a lente mágica
enriqueça a visão humana
e do real de cada coisa
um mais seco real extraia
para que penetremos fundo
no puro enigma das imagens.

Fotografia-é o codinome
da mais aguda percepção
que a nós mesmos nos vai mostrando,
e da evanescência de tudo
edifica uma permanência,
cristal do tempo no papel.

Das lutas de rua no Rio
em 68, que nos resta,
mais positivo, mais queimante
do que as fotos acusadoras,
tão vivas hoje como então,
a lembrar como exorcizar?

Marcas de enchente e de despejo,
o cadáver insepultável,
o colchão atirado ao vento,
a lodosa, podre favela,
o mendigo de Nova York,
a moça em flor no Jóquei Clube,

Garrincha e Nureyev, dança
de dois destinos, mães-de-santo
na praia-templo de Ipanema,
a dama estranha de Ouro Preto,
a dor da América Latina,
mitos não são, pois que são fotos.

Fotografia: arma de amor,
de justiça e conhecimento,
pelas sete partes do mundo,
viajas, surpreendes, testemunhas
a tormentosa vida do homem
e a esperança de brotar das cinzas.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

JAGHBUB

De tempos a tempos, lá vem o palavrão: jaghbub. Os gráficos ficam de cabelos em pé, porque não há alternativa ao uso desta fonte. Ou melhor, há, mas com base em "truques" morosos e que esgotam a paciência ao mais pintado...

O que é o jaghbub? É uma variante do times new roman. E a única fonte que permite fazer as transliterações fonéticas do alifato. Trocando por miúdos, e dando um exemplo: o som "ch" em árabe corresponde à consoante ش . Que é transliterada com um "s", com um acento circunflexo invertido (ver penúltima linha do texto). O problema maior é que instalar isto num PC não é fácil. Resultado, tenho de andar a passear o meu macbook da biblioteca para o gabinete, enquanto acabo um texto. Que terei de entregar amanhã, acompanhado com um pdf. Porque já sei que vai "desconfigurar" e os gráficos, entre arrepelões de cabelos, vão ter de cotejar os textos. Ou seja, o jaghbub é uma chatice necessária e cientificamente correta...

Título do texto? O Gharb al-Andalus - cristãos e muçulmanos no século dos almoádas. Um mano-a-mano com Cláudio Torres, recuperando o prazer de escrever a meias com o meu mestre. Nada mau, tantos anos passados sobre a última coisa em conjunto.

Ver - https://org.uib.no/smi/ksv/jaghbub.html


domingo, 16 de fevereiro de 2020

PINACOTECA CASCALENSE

Fiquei com a ideia que o projeto da curadora Luísa Soares de Oliveira passou, em parte, por um exercício de mimetismo com as antigas pinacotecas reais. Sendo assim, ou não, a montagem está perfeitamente conseguida. A exposição da pintura de Moita Macedo (1930-1983) revê parte do seu percurso (nesse sentido, será mais uma escolha que uma antologia), em especial a sua vertente mais gestualista ou memográfica, como o próprio gostava de dizer.

Se uma pintura me chamou a atenção foi a Senhora de Akita. Em determinada fase da sua produção, Moita Macedo, cuja obra tem matriz oriental, dá especial atenção a temáticas que o aproximam do Japão. Como e porquê é o que falta saber...

Até 26 de abril.
Terça-feira a domingo, das 10h00 às 18h00


Gallery of Archduke Leopold Wilhelm in Brussels (1650)
David Teniers, o Novo (1610-1690)
Petworth House and Park

domingo, 9 de fevereiro de 2020

PELA TARDE DE SILVES

A Câmara Municipal de Silves organizou uma simpática abertura das Caligrafias, na torre de menagem do castelo. Foi um ida e volta em registo blitz. O suficiente para recordar o que foi a aventura da montagem da exposição Algarve Islâmico, inaugurada a 16.7.2010 (v. aqui). A tarde estava cinzenta, a fazer recordar o célebre poema céu pluvioso, de Ibn Ammar. Mas deu para ver que Silves continua bonita.

As caligrafias estarão por Silves até ao próximo dia 12 de abril.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

CALIGRAFIAS EM SILVES - FIM DE UM CICLO

Dia 8, às 16 horas, tem lugar a inauguração da exposição CALIGRAFIAS. As fotografias poderão ser vistas na Torre de Menagem do Castelo de Silves. É o sexto e, por opção minha, derradeiro ponto do percurso.

2018 (out.) - Évora (Direção Regional de Cultura)
2019 (fev.) - Alvito (Centro Cultural)
2019 (mai.) - Cuba (Biblioteca Municipal)
2019 (jun.) - Mértola (Castelo)
2019 (out.) - Moura (S.F.U.M. Os Amarelos)
e
2020 (fev.) - Silves (Torre de Menagem)

Aqui ficam os agradecimentos à Fundação Millenniumbcp, à Direção Regional de Cultura do Alentejo, às Câmaras Municipais de Alvito, Cuba, Mértola e Silves e à Sociedade Filarmónica União Mourense "Os Amarelos". E a Jorge Calado, bem entendido.

Aqui fica também a simpática nota que Vasco Medeiros Rosa assinou, em 2018, no "Observador". A do "autarca heterodoxo" fez as minhas delícias.


segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

ADALBERTO ALVES - 40 ANOS DE VIDA LITERÁRIA

Foi hoje, ao fim da tarde. Teve lugar, na Biblioteca Nacional, a apresentação da mostra sobre os 40 anos de vida literária de Adalberto Alves. Uma sala a abarrotar, num final de tarde cheio de evocações e que incluiu a leitura de alguns poemas de Almutâmide. Na verdade, a iniciativa é um dois-em-um, com outra mostra sobre o poeta do século XI a decorrer em paralelo.

Em breve sairá um livro que inclui cerca de duas dezenas de testemunhos sobre a obra de Adalberto Alves. Teve a simpatia de me convidar. Aqui fica o texto que escrevi.


ADALBERTO ALVES: INVESTIGAÇÃO E DIVULGAÇÃO

As palavras “Invisível a meus olhos, trago-te sempre no coração” acompanharam-me, dias a fio, em 1999. A leitura do poema de Almutâmide, na tradução de Adalberto Alves, fazia parte de um pequeno filme integrado na exposição Marrocos-Portugal: portas do Mediterrâneo. Sob o céu inspirador de Tânger, celebravam-se os encontros e desencontros da História e, também, aqueles que a ajudaram a divulgar aspetos da beleza do passado. Como é o caso de Adalberto Alves.

Não é muito comum que se faça, aos 46 anos, a primeira publicação num domínio tão especializado como o da cultura árabe. Foi um duplo regresso às raízes, as mediterrânicas, que são as de todos nós, e a Beja, terra dos antepassados de Adalberto Alves. À edição promovida pela Câmara Municipal de Beja, rendendo homenagem ao poeta que ali nasceu em 1040, seguiram-se muitas outras publicações. Não foram só as traduções, cuidadas e que recriam o tom poético, sem o trair. Foram sendo dados à estampa trabalhos fundamentais, ora de tradução (o muito justamente celebrado O meu coração é árabe, 1987) ora de divulgação (A herança islâmica em Portugal, 2001), ora de mais aturada investigação (As sandálias do mestre, 2009). Esta última obra deu a conhecer, junto de um público mais vasto, a figura de Ibn Qasi. Ajudou-nos a compreender e a descodificar a complexa personalidade do líder político e religioso e militar que viveu no nosso território. Deste místico do nosso sudoeste peninsular chegou até nós uma obra completa, conservada numa biblioteca de Istambul. Foi esse intenso trabalho de pesquisa e de reflexão filosófica que valeu a Adalberto Alves o prestigioso “Prémio Sharjah da UNESCO para a Cultura Árabe”.

Uma página é curta para abordar tão densa e profícua obra. Não é possível, nem desejável, um balanço. Mas é, seguramente, o espaço para celebrar o autor e o poeta que nos tem ajudado a entender, e a desmistificar, uma parte desse coração que é de todos nós.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

... E MÉRTOLA

“Lugares Encantados, Espaços de Património” é a exposição que vai ficar no Museu Nacional de Etnologia, até ao próximo mês de outubro. São quatro os sítios à volta dos quais se reflete o significado da patrimonialização: Fátima, Sintra, Mouraria de Lisboa e Mértola. É um trabalho de grande interesse onde Mértola aparece bem de destaque. O binómio arqueologia-Festival Islâmico está no centro dos tópicos sobre a vila. O diretor do Museu Nacional de Etnologia fez questão de referir o contributo do Museu de Mértola. Soube-me bem ouvir aquilo, mesmo nada tendo a ver com a organização.

Ao entrar na sala, fui surpreendido por uma fotografia. Lá estava eu, dentro do silo 4, em agosto de 1986. Foi há quase 34 anos. Pelos painéis do setor Mértola da exposição fui reencontrando inúmeros amigos. Embaraçado comigo mesmo, não consegui lembrar-me do nome de alguns que passaram transitoriamente pelo projeto. Mas reencontrar Mértola no Restelo foi uma sensação especial.



quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

HAVERÁ "LISBOA ISLÂMICA"

Nem sempre os projetos se conseguem concretizar como desejaríamos. Há imprevistos e as coisas deslizam. Prazos, locais, guiões etc. Foi assim com a exposição Lisboa Islâmica. Ficou gizada e preparada durante os meus tempos na Câmara Municipal de Lisboa. Preparei um guião, com 4 setores, que era para o Mercado do Forno do Tijolo. Teve de ser alterado, por bons motivos. De 4 passou para 5 núcleos. Será concretizada em 2020. Ganhei nova alma depois da decisiva reunião desta manhã. Detesto deixar trabalhos a meio, embora tivesse a convicção que o projeto iria andar. E vai. Com um bonito projeto que enquadra materiais, imagens e sons.

1) Desempenharei, com prazer, as funções de autor/comissário da exposição;
2) A exposição terá lugar no Ateneu Comercial de Lisboa;
3) A inauguração será em final de setembro;
4) Haverá vídeos que enquadram passado e presente;
5) Teremos Lisboa Islâmica.

Excerto do célebre desenho da Biblioteca de Leiden (séc. XVI): o castelo e a sé

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

MÁRTIRES DE MARROCOS: 800 ANOS

Faz hoje precisamente 800 anos (16 de janeiro de 1220) que ocorreu o martírio dos franciscanos, em Marrocos. Os mártires e o último século da Reconquista são o tema da exposição que está a ser preparada para o Museu Nacional de Arte Antiga. Arte e arqueologia, norte e sul, Cristandade e Islão, os encontros e desencontros da História poderão ser vistos, no verão deste ano.

Quem participará no catálogo? Cláudio Torres, Hermenegildo Fernandes, Yassir Benhima, Isabel Cristina Ferreira Fernandes, Susana Gómez Martínez, Miguel Gomes Martins etc.

Guerreiros e mártires tem inauguração no final da primavera.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

PARIS, 1972

O veteraníssimo Richard Estes (n. 1932) passou pelo blogue em 2014 e em 2016. Esta tela hiper-realista de 1972 lança-me no tão borgesiano e querido tema dos espelhos. A semana vai andar por aí, entre realidades que se cruzam e se refletem. Isto anda tudo ligado, como gostam de dizer os da teoria da conspiração.


The Other Side of a Mirror
I sat before my glass one day,
     And conjured up a vision bare,
Unlike the aspects glad and gay,
     That erst were found reflected there –
The vision of a woman, wild
     With more than womanly despair.
Her hair stood back on either side
     A face bereft of loveliness.
It had no envy now to hide
     What once no man on earth could guess.
It formed the thorny aureole
     Of hard unsanctified distress.
Her lips were open – not a sound
     Came through the parted lines of red.
Whate'er it was, the hideous wound
     In silence and in secret bled.
No sigh relieved her speechless woe,
     She had no voice to speak her dread.
And in her lurid eyes there shone
     The dying flame of life's desire,
Made mad because its hope was gone,
     And kindled at the leaping fire
Of jealousy, and fierce revenge,
     And strength that could not change nor tire.
Shade of a shadow in the glass,
     O set the crystal surface free!
Pass – as the fairer visions pass –
     Nor ever more return, to be
The ghost of a distracted hour,
     That heard me whisper, "I am she!"
Mary Coleridge (1861-1907)