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quinta-feira, 27 de agosto de 2020

SUDÃO ORIENTAL

Sudão - سُودَان [sûdân] é o plural de أَسْوَد [as-swad], que quer dizer negro. Antes designava toda uma parcela de África. Hoje é uma zona específica. De onde vem Nyanjam Malek. E não, a beleza não é "exótica". A beleza é.


Femme noire

Femme nue, femme noire
Vétue de ta couleur qui est vie, de ta forme qui est beauté
J'ai grandi à ton ombre ; la douceur de tes mains bandait mes yeux
Et voilà qu'au cœur de l'Eté et de Midi,
Je te découvre, Terre promise, du haut d'un haut col calciné
Et ta beauté me foudroie en plein cœur, comme l'éclair d'un aigle

Femme nue, femme obscure
Fruit mûr à la chair ferme, sombres extases du vin noir, bouche qui fais lyrique ma bouche
Savane aux horizons purs, savane qui frémis aux caresses ferventes du Vent d'Est
Tamtam sculpté, tamtam tendu qui gronde sous les doigts du vainqueur
Ta voix grave de contralto est le chant spirituel de l'Aimée

Femme noire, femme obscure
Huile que ne ride nul souffle, huile calme aux flancs de l'athlète, aux flancs des princes du Mali
Gazelle aux attaches célestes, les perles sont étoiles sur la nuit de ta peau.

Délices des jeux de l'Esprit, les reflets de l'or ronge ta peau qui se moire

A l'ombre de ta chevelure, s'éclaire mon angoisse aux soleils prochains de tes yeux.

Femme nue, femme noire
Je chante ta beauté qui passe, forme que je fixe dans l'Eternel
Avant que le destin jaloux ne te réduise en cendres pour nourrir les racines de la vie.

Léopold Sédar Senghor, Chants d'ombre


quarta-feira, 26 de agosto de 2020

NOVO ÉS, VELHO SERÁS

Fotografia - Robert Mapplethorpe
 

Um texto importante, o de Carmen Garcia, no "Público". Na primeira pessoa e sem sentimentalismos fáceis. Direto ao tema.

Era uma vez um lar

Como aluna de Enfermagem, ainda com insuficiente sentido crítico, fiz o melhor que consegui. Num esforço hercúleo para não fugir, franzi o sobrolho em concentração, coloquei um bocadinho de creme perfumado debaixo do nariz, tal como a minha orientadora tinha feito, e uma máscara. E depois passámos horas a fazer pensos.

A Fundação Maria Inácia Vogado Perdigão Silva, em Reguengos de Monsaraz, foi o primeiro lar onde entrei na vida, era ainda aluna de Enfermagem. Lembro-me dos tectos altos do edifício, da simpatia da funcionária que nos recebeu, vestida com uma bata azul e branca aos quadradinhos, e de uma sala de convívio que me pareceu gigante. Infelizmente as recordações boas terminam aqui. E começa o cenário dantesco.

Como aluna de Enfermagem, ainda com insuficiente sentido crítico, fiz o melhor que consegui. Num esforço hercúleo para não fugir, franzi o sobrolho em concentração, coloquei um bocadinho de creme perfumado debaixo do nariz, tal como a minha orientadora tinha feito, e uma máscara. E depois passámos horas a fazer pensos.

Tudo isto que vos conto aconteceu em 2009 e suponho que, ao longo destes 11 anos, muita coisa tenha mudado. Só que aparentemente não mudou o suficiente. E sabem qual é o verdadeiro problema, muito maior que qualquer trica política? É que este lar está longe de ser caso único.

Contei há dias, na minha página pessoal de Facebook, que no início da minha carreira comecei a fazer umas horas num lar de onde acabei por me despedir após ser repreendida aos gritos porque, num dia quente de Agosto, coloquei protector 50+ no rosto de um idoso de 80 anos que andava a trabalhar na horta. Aparentemente e segundo me gritaram, o protector era demasiado caro para ser utilizado assim. Ainda estou para perceber o que raio seria este “assim”, mas nesse dia percebi que, nestes casos, não pode existir um “se não os podes vencer, junta-te a eles”. A única solução, quando não conseguimos mudar as más práticas, é vir embora e denunciar. Mesmo que as denúncias caiam quase sempre em saco roto.


Sei que é importante que no caso de Reguengos se apurem responsabilidades. Também sei as coisas terríveis que os meus colegas lá viram e viveram. Sei do cheiro a urina, dos idosos só de fralda, do calor abrasador e da falta de condições. Mas também sei que é ainda mais importante que nos façamos ouvir agora, enquanto sociedade, para mudar de uma vez por todas o paradigma de muitos lares deste país.


Não vou cair no caminho fácil do “se fossem cães estava toda a gente indignada”, porque, além de ser um argumento vazio, me parece falacioso. Eu também me preocupo com os cães. E isso não quer dizer que não me preocupe com os idosos. Ou com as crianças. Preocupo-me com todos aqueles que, sendo frágeis, temos obrigação de proteger. E preocupo-me ainda mais quando percebo que falhamos.


Reguengos pode servir como bode expiatório, mas está longe de ser caso único. Pensem nos lares que conhecem, pensem em quantos deles têm quartos individuais, em quantos respeitam a sabedoria dos idosos, em vez de os infantilizar, pensem naquelas salas de estar que parecem antecâmaras da morte… E as imobilizações? Já pensaram sobre isso? Todos os estudos apontam que as imobilizações não reduzem de forma significativa o número de acidentes, mas, ainda assim, continuamos a ver em todo o lado idosos presos a camas, cadeirões e cadeiras de rodas.


Parece-me que é altura, enquanto sociedade, de levantarmos a voz e de exigirmos respeito e dignidade para com aqueles que nos deram a vida. É altura de não nos calarmos, de denunciarmos, de não deixarmos passar, de pressionarmos a Segurança Social para que faça inspecções surpresa e para que não feche mais os olhos.


A minha avó, que felizmente esteve sempre em casa connosco, dizia muitas vezes: “Filho és, pai serás, como fizeres assim encontrarás.” E eu acho que podemos adaptar esta frase para um “novo és, velho serás”.

terça-feira, 18 de agosto de 2020

E ENQUANTO TRUDEAU SE MASCARAVA DE ALADINO...

... eu andava pelo matadouro de Bissau.

Este homem dançava à minha frente, interpondo-se, de tempos a tempos, entre a minha objetiva, os jagudis, as paredes e as vacas. Era uma dança lenta, que quase fazia lembrar os gestos do laamb dos lutadores senegaleses. No final, fez esta pose, um pouco à Travolta, e fiz-lhe uma fotografia. Ato contínuo, virou-se para mim, de braço e dedos esticados e gritou: "BRANCO! ÉS MALUCO!". As pessoas em volta riram. Eu também, não podendo deixar de pensar "pois, ele deve mesmo pensar que há centenas de coisas mais interessantes para fotografar em Bissau do que aves de rapina e paredes sujas de sangue...".

A polémica pífia à volta de disfarces carnavalescos desapareceu. A minha memória da África Ocidental permanece, bem vincada. 

domingo, 9 de agosto de 2020

SEMPRE AOS DOMINGOS

Nunca tive oportunidade de visitar o novo museu da Acrópole. Pode ser que um dia...

Entretanto, e enquanto se prepara trabalho, põe-se às avessas o título de um filme outrora célebre e revê-se o museu antigo, via Elliott Erwitt (n. 1928). Que por ali andou em 1963, quando as máscaras eram outras.


terça-feira, 4 de agosto de 2020

DAS AMENDOEIRAS EM FLOR A DACAR

Ao ver esta fotografia da francesa Charlotte Lapalus, algures no Lac Rose, lembrei-me das minhas mais que longínquas aulas de Língua Árabe. Numa delas, o Prof. Cunha Serra referiu uma das favoritas de um dos califas, conhecida como vara de bambú, pela sua figura esguia e exótica.

Não tenho a certeza que se tratasse da célebre Zahara, uma senhora do norte, que está na origem da nossa lenda das amendoeiras em flor. Mas o perfil não se devia afastar muito do desta mulher.

A fotografia de moda não tem que ser banal ou ostensiva.

Ver - http://charlottelapalus.com

domingo, 26 de julho de 2020

MÉRTOLA, PELA MANHÃ


Continuando a perseguir o sr. Duarte Darmas. Hoje, pela manhã, recordando um poema de Cesariny. Porque Mértola é fugidia. A luz de Mértola escapa-se-nos, ao minuto. A vila ganha, a cada instante, contornos físicos. A luz que perdi hoje, vou encontrá-la amanhã.

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco

sexta-feira, 17 de julho de 2020

MANTOS DE LUZ

A fotografia de cima é de ontem à noite, em Moura. Houve celebração, nas Festas em Honra de Nossa Senhora do Carmo, em tempos de pandemia. A ideia foi muito feliz e resulta lindamente. Cobrir o chão com luz dá aquele tapete e ilumina o tempo que há-de vir.

A de baixo pertence ao projeto Caligrama, que a artista plástica Eva Lootz montou no Khan Assad Pasha, na cidade velha de Damasco, no Outono de 2003.

E, de Fernando Pessoa,

NÃO QUERO IR ONDE NÃO HÁ A LUZ,


Não quero ir onde não há a luz,
Do outro lado abóbada do solo,
Ínfera imensa cripta, não mais ver
As flores, nem o curso ao sol de rios,
Nem onde as estações que se sucedem
Mudam no campo o campo. Ali, no escuro,
Só sombras múrmuras, êxuis de tudo,
Salvo da saudade, eternas moram;
Região aos mesmos íncolas incógnita,
Dos naturais, se os tem, desconhecida.
Ali talvez só lírios cor de cinza
Surgirão pálidos da noite imota.
Ali talvez só gelo com as águas,
Como a cegos, serão, e o surdo curso,
No côncavo sossego lamentoso,
Se acaso à vista habituada aclare,
Será como um cinzento tédio externo.

Não quero o pátrio sol de toda a terra
Deixar atrás, descendo, passo a passo,
A escadaria cujos degraus são
Sucessivos aumentos de negrume,
Até ao extremo solo e noite inteira.

Para que vim a esta clara vida?
Para que vim, se um dia hei-de cair
Da haste dela? Para que no solo
Se abre o poço da ida? Porque não
Será sem fim (...)

quarta-feira, 15 de julho de 2020

WWW.DUARTEDARMAS.COM - dia 1

Arrancou e já há site: www.duartedarmas.com. É só a capa, mas dentro de semanas começará a ser preenchido. Até ao final do ano, o projeto estará terminado. Uma longa caminhada (iniciada em 2004!), que agora se aproxima do fim. Como eram, como são. Com a ajuda de um drone.

São vinte os sítios abrangidos:

Alandroal
Alpalhão (Nisa)
Arronches
Assumar (Monforte)
Campo Maior
Castelo de Vide
Elvas
Juromenha (Alandroal)
Mértola
Monforte
Monsaraz (Reguengos de Monsaraz)
Montalvão (Nisa)
Moura
Mourão
Nisa
Noudar (Barrancos)
Olivença
Ouguela (Campo Maior)
Serpa
Terena (Alandroal)

terça-feira, 7 de julho de 2020

ESCADOTE

Logo eu, que tanto DETESTO bricolage, passei a ter como companhia obrigatória um escadote. Várias vezes ao dia. Não é o mesmo, bem entendido. Em cada local a fotografar, peço sempre antecipadamente um escadote. O pedido tem causado estranheza, logo desfeita ante a simples explicação, que é preciso ganhar altura, porque melhora as perspetivas etc. etc..

Esta verdadeira Volta a Portugal em Escadote dá pano para mangas. Já os apanhei de todas as formas, pesos e feitios.

Um GNR, no Crato "eh pá, espere lá aí, que ainda me cai daí abaixo e tenho de tomar conta da ocorrência; eu seguro o escadote" (e segurou mesmo);
Em Loulé "se eu fosse ao meu amigo, não ficava aí em cima muito tempo; esse é mais falso que Judas";
Em Bragança, um agente da PSP, "quer que mande parar o trânsito agora, enquanto está aí em cima?" (e parou mesmo, vá lá que ninguém me conhece por aquelas bandas...)
Em Montalegre, escarninhamente, "que chegar ao chéu?";
Outro GNR, em Lousada, "se puder, tente não cair".

Quando o escadote não dá, uso da maior lata. Na Vidigueira, terreno conhecido, coloquei-me na sala de sessões da Câmara Municipal; em Cuba, numa habitação particular, com uma senhora idosa intrigada com todo aquele aparato e contentíssima por ajudar; em Chaves, subi ao primeiro andar da biblioteca municipal; em Vila Real, fiz alpinismo nas paletes dos materiais de uma obra . Mas o melhor foi em Amarante, onde me deixaram usar o quarto de um hostel ("vá lá, sim, não se preocupe, sim, sim, pode ir sozinho") para ter a perspetiva que não conseguia de outra forma.

Amanhã, nova corrida, nova viagem.

quinta-feira, 2 de julho de 2020

2020, ODISSEIA EM VALENÇA

Tui está do outro lado do rio. O crepúsculo vai bonito. Mas o solitário jantar 
é soturno. Só se ouvem os meus talheres. Nem poderiam ouvir-se outros. Estou sozinho no restaurante. Sou o Dave desta história.

Antes, ao andar dentro da fortaleza, dei-me conta que não há bares ou restaurantes abertos. Um padrão que tenho vindo a constatar ao longo das últimas três semanas. Amanhã é a raia. De Melgaço a Mértola esperam-me 660 quilómetros. É logali.

segunda-feira, 29 de junho de 2020

A OUTRA LÍNGUA

Quase podemos pensar noutro país, quando entramos em Miranda do Douro e damos com as placas informativas bilingues: português e mirandês. O mirandês ganhou, há perto de duas décadas, estatuto de língua oficial. Tem um som que me é estranho. E que me soa melodioso, quando o ouço. E que mergulha as suas raízes em falares medievais asturo-leoneses. As fronteiras são, aqui, administrativas e recentes.

Miranda fica longe de Moura e de Mértola. Mas não é o topo setentrional deste projeto. Ainda me faltam Montalegre e Melgaço. "Isto" vai a 22% do total. No final da semana passa a 33%, no final da seguinte a 45%.

quinta-feira, 25 de junho de 2020

COISAS DA AMIZADE

"Tenho aqui um máquina para ti". Tens o quê, respondi receando não ter ouvido bem. "Sim, uma máquina fotográfica, não me entendo com o viewfinder, é uma PRAKTICA".  Uma FX 3. Mais espantado fiquei. São máquinas à antiga, robustas, com boas óticas. Coisas sérias e que merecem um tratamento como deve ser. Dias depois, em frente ao matadouro, e ante a minha (mais uma...) surpresa, aparece-me o José Gonçalo Valente com a relíquia, "toma, é tua". E arrancou-me, deixando de máquina na mão.

Dentro de dias entra em cena. Com os incontornáveis FP4 e HP5, os rolos de sempre. Com a idade, fixamo-nos a pormenores.

Há coisas assim, e momentos assim. E amigos assim. Este ano não haverá escavações no castelo. Mas ainda temos um par de coisas para fazer. E um livro para lançar. E mais o que se verá, em 2021.

terça-feira, 9 de junho de 2020

A PROPÓSITO DE SOLIDARIEDADE

Confunde-se, amiúde, a ideia de solidariedade com caridade. Uma e outra não são, sequer, as duas faces de uma moeda. A propósito do calor da solidariedade aqui fica um poema de Alexandre O'Neill (1924-1986). Foi escrito no ano quente de 1975.

A CAMA QUENTE

Homenagem aos mineiros do Chile
que dormem, singelo,
pelo sistema de "a cama quente"


Na mina trabalha-se por turnos.
Quando se volta, nem se tiram os coturnos.

Bebido o café negro e trincado o casqueiro,
joga-se o corpo ao sono, mas primeiro,

enxota-se o camarada da cama ainda quente,
que não há camas, no Chile, pra toda a gente.

Do calor que sobrou o nosso se acrescenta
pra dar calor ao próximo que entra.

Vós, que dormis em camas, como reis,
tantas horas por dia, não sabeis

como é bom dormir ao calor de um irmão
que saiu ao nitrato ou ao carvão

e despertar ao abanão (é o contrato!)
de um que chega do carvão ou do nitrato!

É este sistema, minha gente,
que se chama no Chile "a cama quente"...


A Serra Pelada, na objetiva de Sebastião Salgado

sábado, 30 de maio de 2020

INVESTIMENTO PÚBLICO NA ANTIGUIDADE TARDIA

Um livro em preparação (o quinto de 2020, um impresso, dois já maquetados, um em fase de maquetagem e não se consegue terminar nada a 100% "derivado" ao covid...) levou-me a sair para o terreno para testar ângulos de imagens e possibilidades de trabalho. A NIKON D70, do alto dos seus 17 anos, deu excelente conta do recado. A lente não é extraordinária, mas também é nenhuma sucata.

O primeiro "ponto de ataque" foi a torre do rio, em Mértola. É um dos cerca de 40 ou 50 locais a registar. Questão: como evoluem e como desaparecem os sítios e os seus ícones ao longo dos séculos?

A torre é uma estrutura monumental, datada do século V ou do século VI, que se destinava a controlar a entrada na vila. O espavento desta obra, contemporânea do criptopórtico, dos mosaicos e da basílica do Rossio do Carmo só pode ser explicada pela apropriação dos meios do produção por parte de uma elite local. Os recursos da região foram transformados em investimento público. Ou seja, quando uma autarquia é, também, autarcia.

quinta-feira, 28 de maio de 2020

TEMPOS DE NÃO FARRA

O telefonema, às 14:40, era esperado e não me deixou dúvidas. Dia 1 é a hora do regresso. Vai ser tudo de forma faseada, uns agora, outros mais tarde. Não são tempos de farra. Isso ainda vai tardar. A crise do que nos vai na alma está para durar. Os restaurantes e bares que fecharam, as romarias que não haverá, as corridas de touros que vão ser adiadas, o contacto entre as pessoas que vai continuar a rarear, as festas populares que "só em 2021". Uma chatice. Terá que ser assim, mais uns tempos.

Segunda é o recomeço. Com o calendário previsto, só que com uns meses de "delay". Como nas transmissões televisivas.

Spree forever? Só nas fotografias do desmesurado David Lachapelle. Um rapaz da minha idade.

domingo, 24 de maio de 2020

MÚSICA GUINEENSE

É assim que me soa o crioulo, a uma toada musical. E é assim que arranca o livrinho:

Marjen di riu i un tapadu di tarafi. Marjen di riu i un linha ki ka kortadu. Tris ora dipus di ianda na iagu na metadi di tarafi, di seu fungulidu ku di mar fungulidu, barku tchiga Bulama. Na mar no ka na odja sidadi. No na odja son puntu, ku pekaduris manga del suma kakris na kabas.

Pensada em 2012, anunciada em abril de 2013, está perto do final esta saga teimosa sobre Bolama. Há dias, um escritor guineense, Geraldo Marinho Pina, enviou-me a tradução do texto. Vamos ao financiamento do que falta.

domingo, 10 de maio de 2020

PRAIA OU NÃO PRAIA

E agora, que praia?
A de Richard Misrach?
Ou a de Martin Parr?
A segunda é quase impossível, a primeira é improvável.
Vai ser o mais estranho verão das nossas vidas.
Fiquemos, para já, com as fotografias.


domingo, 3 de maio de 2020

LEPTIS MAGNA - ROLO 274, NEGATIVO 10


WHERE towers are crushed, and unforbidden weeds
O’er mutilated arches shed their seeds,
And temples, doomed to milder change, unfold
A new magnificence that vies with old,
Firm in its pristine majesty hath stood
A votive column, spared by fire and flood;

Não era bem a Coluna de Trajano, do poema de William Wordsworth, que ali estava. Antes parecia uma serpente, no meio das ervas de Leptis Magna, a meio daquela tarde, na primavera de 2008.

No meio das arrumações, procurei a origem da imagem que estava guardada no computador. Tinha quase a certeza que a tinha visto, e copiado, na net. Não era nada disso. Nem tudo é digital. Fui dar com o original nos negativos p/b: rolo 274, negativo 10.

Como estará Leptis Magna? Que terá acontecido em todos aqueles sítios?



sábado, 18 de abril de 2020

30º DIA

Ao 30º. dia de isolamento dia "voaram" umas centenas de CD, com duplicados e triplicados de relatórios. Mais umas dezenas de dossiês de trabalhos concluídos ou de temas que não retomarei.

Na parede do fundo do gabinete de trabalho, agora transitável e utilizável, há três fotografias, duas compradas em Tânger, uma no Cairo. Da loja na Rua Abd El-Khalik Tharwat para casa veio esta imagem:


Vi uma igual, há dias, à venda por 200 euros. Custa a crer, mas é assim que se faz especulação. Esta de Mértola não sai. Fotografia de Rudolf Franz Lehnert (1878-1948) e Ernst Heinrich Landrock (1878-1966).

terça-feira, 14 de abril de 2020

O QUE VEJO DA MINHA JANELA

O QUE VEJO DA MINHA JANELA é um desafio lançado pela Câmara Municipal de Mértola: o que vês, o que pensas que vês, o que gostarias de ver. Na pausa para o almoço, resolvi mandar esta fotografia (feita às 10:04), com uma pequena justificação:
A fotografia está modificada, tal como a realidade também o está.

SOMBRAS

A meio desta vida continua a ser 
difícil, tão difícil 
atravessar o medo, olhar de frente 
a cegueira dos rostos debitando 
palavras destinadas a morrer 
no lume impaciente de outras bocas 
anunciando o mel ou o vinho ou 
o fel. 

Calmamente sentado num sofá, 
começas a entender, de vez em quando, 
os condenados a prisão perpétua 
entre as quatro paredes do espírito 
e um esquife negro onde vão desfilando 
imagens, só imagens 
de canal em canal, sintonizadas 
com toda a angústia e estupidez do mundo. 

As pessoas - tu sabes - as pessoas são feitas 
de vento 
e deixam-se arrastar pela mais bela 
respiração das sombras, 
pela morte que repete os mesmos gestos 
quando o crepúsculo fica a sós connosco 
e a noite se redime com uma estrela 
a prometer salvar-nos. 

A meio desta vida os versos abrem 
paisagens virtuais onde se perdem 
as intenções que alguma vez tivemos, 
o recorte obscuro de perfis 
desenhados a fogo há muitos anos 
numa alma forrada de espelhos 
mas sempre tão vazia, sem abrigo 
para corpo nenhum. 


Fernando Pinto do Amaral