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quarta-feira, 26 de agosto de 2020

NOVO ÉS, VELHO SERÁS

Fotografia - Robert Mapplethorpe
 

Um texto importante, o de Carmen Garcia, no "Público". Na primeira pessoa e sem sentimentalismos fáceis. Direto ao tema.

Era uma vez um lar

Como aluna de Enfermagem, ainda com insuficiente sentido crítico, fiz o melhor que consegui. Num esforço hercúleo para não fugir, franzi o sobrolho em concentração, coloquei um bocadinho de creme perfumado debaixo do nariz, tal como a minha orientadora tinha feito, e uma máscara. E depois passámos horas a fazer pensos.

A Fundação Maria Inácia Vogado Perdigão Silva, em Reguengos de Monsaraz, foi o primeiro lar onde entrei na vida, era ainda aluna de Enfermagem. Lembro-me dos tectos altos do edifício, da simpatia da funcionária que nos recebeu, vestida com uma bata azul e branca aos quadradinhos, e de uma sala de convívio que me pareceu gigante. Infelizmente as recordações boas terminam aqui. E começa o cenário dantesco.

Como aluna de Enfermagem, ainda com insuficiente sentido crítico, fiz o melhor que consegui. Num esforço hercúleo para não fugir, franzi o sobrolho em concentração, coloquei um bocadinho de creme perfumado debaixo do nariz, tal como a minha orientadora tinha feito, e uma máscara. E depois passámos horas a fazer pensos.

Tudo isto que vos conto aconteceu em 2009 e suponho que, ao longo destes 11 anos, muita coisa tenha mudado. Só que aparentemente não mudou o suficiente. E sabem qual é o verdadeiro problema, muito maior que qualquer trica política? É que este lar está longe de ser caso único.

Contei há dias, na minha página pessoal de Facebook, que no início da minha carreira comecei a fazer umas horas num lar de onde acabei por me despedir após ser repreendida aos gritos porque, num dia quente de Agosto, coloquei protector 50+ no rosto de um idoso de 80 anos que andava a trabalhar na horta. Aparentemente e segundo me gritaram, o protector era demasiado caro para ser utilizado assim. Ainda estou para perceber o que raio seria este “assim”, mas nesse dia percebi que, nestes casos, não pode existir um “se não os podes vencer, junta-te a eles”. A única solução, quando não conseguimos mudar as más práticas, é vir embora e denunciar. Mesmo que as denúncias caiam quase sempre em saco roto.


Sei que é importante que no caso de Reguengos se apurem responsabilidades. Também sei as coisas terríveis que os meus colegas lá viram e viveram. Sei do cheiro a urina, dos idosos só de fralda, do calor abrasador e da falta de condições. Mas também sei que é ainda mais importante que nos façamos ouvir agora, enquanto sociedade, para mudar de uma vez por todas o paradigma de muitos lares deste país.


Não vou cair no caminho fácil do “se fossem cães estava toda a gente indignada”, porque, além de ser um argumento vazio, me parece falacioso. Eu também me preocupo com os cães. E isso não quer dizer que não me preocupe com os idosos. Ou com as crianças. Preocupo-me com todos aqueles que, sendo frágeis, temos obrigação de proteger. E preocupo-me ainda mais quando percebo que falhamos.


Reguengos pode servir como bode expiatório, mas está longe de ser caso único. Pensem nos lares que conhecem, pensem em quantos deles têm quartos individuais, em quantos respeitam a sabedoria dos idosos, em vez de os infantilizar, pensem naquelas salas de estar que parecem antecâmaras da morte… E as imobilizações? Já pensaram sobre isso? Todos os estudos apontam que as imobilizações não reduzem de forma significativa o número de acidentes, mas, ainda assim, continuamos a ver em todo o lado idosos presos a camas, cadeirões e cadeiras de rodas.


Parece-me que é altura, enquanto sociedade, de levantarmos a voz e de exigirmos respeito e dignidade para com aqueles que nos deram a vida. É altura de não nos calarmos, de denunciarmos, de não deixarmos passar, de pressionarmos a Segurança Social para que faça inspecções surpresa e para que não feche mais os olhos.


A minha avó, que felizmente esteve sempre em casa connosco, dizia muitas vezes: “Filho és, pai serás, como fizeres assim encontrarás.” E eu acho que podemos adaptar esta frase para um “novo és, velho serás”.

domingo, 19 de julho de 2020

QUANDO O PATRIMÓNIO É ARMA POLÍTICA

A recente decisão turca de reconverter a basílica de Santa Sofia em mesquita é mais um capítulo na já longa história do monumento. De basílica para mesquita, depois museu, agora novamente mesquita. Esta última mudança causou comoção e protestos um pouco por todo o nosso mundo ocidental. A intenção fora expressa por Recep Tayyip Erdogan, em março de 2019, durante a campanha eleitoral para as eleições municipais. O tema nem sequer é recente. Há mais de 50 anos, o poeta islamista Necip Fazil Kisakurek protestava publicamente contra o estatuto de museu dado à antiga mesquita. E profetizava que o regresso ao passado seria uma questão de tempo. Não se enganou.

Esta decisiva mudança de estatuto representa um retrocesso? Não tenho dúvidas que as modificações de uso de monumentos, determinadas de modo reativo e como forma de marcar uma agenda política, são sempre um recuo. Também aqui não há novidades. No fundo, e de forma talvez demasiado simplificadora, aquilo que nós, ocidentais, valorizamos do ponto de vista cultural e patrimonial, é aquilo que outros rejeitam. A destruição dos Budas de Bamyan e de importantes testemunhos históricos e artísticos em Palmyra são as duas faces da intolerância e, também, de uma forma de afirmação política anti-ocidental. Nestes dois casos, tal como no de Santa Sofia, estamos ante exemplos de monumentos e de sítios classificados pela UNESCO como Património da Humanidade.

Não é tanto sabermos que a antiga basílica de Constantinopla volta a ser mesquita que é o fator principal de preocupação. Em boa verdade, o monumento está na Turquia e é aos turcos que, em última análise, cabe uma decisão sobre o uso a dar aos seus edifícios históricos. Claramente, têm esse direito, por muito que tal custe a um paternalismo ocidental que me faz lembrar, irresistivelmente, o episódio do astrónomo turco em “O principezinho”. O tal que só foi levado a sério quando se passou a vestir como nós.

O problema principal está nos danos colaterais. Erdogan, que se veste como nós, tem uma agenda política claramente traçada, desde há muito. Ao reverter Santa Sofia,passando por cima da Convenção do Património Mundial de 1972,deu mais um claro sinal à Europa. E arriscou, também, abrir a caixa de pandora do Património. Claro que deu garantias que fica “quase tudo” como antes. Toda a gente, independentemente do seu credo e nacionalidade, pode continuar a visitar a mesquita. E também está garantida a preservação dos mosaicos cristãos que cobrem as paredes interiores de Santa Sofia. Que serão, pudicamente, tapados com cortinas ou com raios laser durante as orações. Uma operação que terá de ser repetida 1825 vezes por ano. A tentação seguinte será, bem o temo, a cobertura dos mosaicos por períodos mais dilatados de tempo. Soluções diplomáticas como este “tapa-destapa” esbarram, mais cedo ou mais tarde, na realidade do quotidiano, nas pressões de grupos radicais e nos interesses políticos à qual a realidade e a perenidade do Património são alheias.

Hoje, no "Público"

sábado, 11 de julho de 2020

NÃO MATAR A MEMÓRIA

O alvoroço tem sido constante. E tem vindo num crescendo ruidoso, que se torna difícil de suportar. Exige-se a remoção de estátuas e de outros monumentos em memória de figuras históricas. Chefes militares, políticos, clérigos, todos têm sido alvo da fúria purificadora. Nem o Padre António Vieira escapou...
Se tomarmos como padrão a ética do século XXI, pouco escapará. Camões tinha um escravo, Afonso de Albuquerque foi um facínora, D. João II de perfeito só tinha o cognome e podemos multiplicar os nomes e as figuras. Nenhum corresponde ao padrão de neutralidade em que alguns querem tornar os nossos dias. É tão simples quanto isto: o contexto cultural, económico, social, religioso e político de 1383 ou de 1755 nada têm a ver um com o outro e, muito menos, com os valores dos nossos dias. A esta luz, quase tudo o que outrora se fez ou é ofensivo ou agressivo ou viola os direitos de minorias. Dizia-me, há dias, um historiador de arte, a propósito de um muito assertivo, e absurdamente incensado, grupo de pressão “vais ver que ainda vão armar estrilho à volta dos Painéis de S. Vicente, por haver poucas mulheres representadas...”. Não me espantará se qualquer coisa do género emergir.
Que fazer, então? A solução mais fácil é a do arrasamento. Como fizeram os taliban com os budas de Bamyan. Elimina-se aquilo de que discordamos. O que implica, também, eliminar a memória do que se passou. Ou reescrever ou tentar recriar essa mesma memória, o que é igualmente perigoso.
Foi esse tremendo equívoco que esteve na base do falhanço do abortado Museu da Descoberta (nunca percebi a razão do singular, para ser sincero). Assinalar datas, personagens e factos não implica, necessária e obrigatoriamente, o retomar do discurso nacionalista e da vulgata heróica. Ao contrário, a presença física desses heróis do passado – o Padrão dos Descobrimentos e Afonso de Albuquerque, em Belém; Vasco da Gama, em Angra do Heroísmo, António Raposo Tavares, em Beja – ajudam-nos a explicar factos e a contextualizar atitudes. A maior parte delas condenáveis, à luz da nossa moral.
Por mais que não gostemos de muitas coisas que se passaram, elas aconteceram, são factos que fazem parte do nosso passado e que não podem ser apagados. Mandar fora estátuas, padrões, inscrições, quadros, porque “ofendem” ou são “opressivos” é abrir uma caixa da pandora que será depois quase impossível fechar. Continuo a defender que é preferível a contextualização à destruição, a pedagogia à negação. Porque a outra tentação, a do apagamento, é claramente perigosa. Pode até ser mais simpática e consensual num primeiro momento. Virá depois o vazio e o pôr em risco a memória. Que é, manifestamente, algo de que não podemos prescindir. Nem individual, nem coletivamente.

Texto publicado ontem, no "Diário de Alentejo"

sábado, 20 de junho de 2020

UM POUCO DISCRETO CONVITE À REBALDARIA

Escreve Daniel Oliveira no Expresso:

"A paciência acabou esta semana, quando se confirmou que entidades sediadas ou com filiais em paraísos fiscais fora da UE podem concorrer sem qualquer restrição aos apoios extraordinários do Governo. Fogem a pagar os impostos cá, mas têm direito a usar os impostos dos de cá. Com prioridade sobre muitos cidadãos desesperados. 
As perdas fiscais de milhares de milhões anuais não são uma fatalidade, resultam de cumplicidade. Com assinatura: PS, PSD, CDS e IL. E a conveniente ausência do Chega. Fossem uns tostões para beneficiários do RSI e Ventura gritaria presente. Já para aborrecer quem lhe paga...".

É raro que esteja tão de acordo com Daniel Oliveira como hoje. A verdade é que só o PCP, os Verdes, o Livre e o BE estiveram contra esta inacreditável medida. Os nossos impostos vão financiar quem foge aos impostos. Nem o D. Corleone se lembraria de tal coisa.

quarta-feira, 20 de maio de 2020

PRO MEMORIA

O Estado é aquela entidade, só aparentemente abstrata, na qual muitos gostam de bater desalmadamente. E que, por vezes, parece ser uma coutada dos ricos e poderosos. Uma tradição antiga e que a República apenas reformatou.

Ontem, o Governo da República passou a números concretos o apoio aos grandes grupos de comunicação social. O orçamento da Cultura vai, em grande parte, para a RTP. O Património Cultural, que é parte decisiva da nossa memória coletiva, as bibliotecas, o apoio à criação não têm tanta atenção. Veja-se o valor de apoio às Artes, que é pouco superior ao que cabe à IMPRESA. Aguarda-se, com impaciência, o que tem a dizer José Gomes Ferreira.


quarta-feira, 6 de maio de 2020

MODOS DE DIZER

Há muitos anos, John Berger escreveu um importante ensaio intitulado "Modos de ver". Que explicava as formas de ver e de interpretar, e de nos levar a interpretar, as obras de arte. Chamava, num determinado ponto, a atenção para o valor condicionado da palavra. Lembrei-me dele, pela manhã, ao olhar a capa do Público. Podiam ser apresentadas muitas fotografias, mas foi aquela. Podiam ser dados muitos títulos, mas foi aquele. O dos crimes contra o Estado. Está (quase) tudo dito.

sábado, 4 de abril de 2020

GANGSTERISMO - EM VERSÃO POLITICA INTERNACIONAL

No Guardian, insuspeito de filocomunismo:About 200,000 N95 masks were diverted to the US as they were being transferred between planes in Thailand, according to the Berlin authorities who said they had ordered the masks for the police force.Andreas Geisel, the interior minister for Berlin state, described the diversion as “an act of modern piracy” and appealed to the German government to demand Washington conform to international trading rules. “This is no way to treat trans-Atlantic partners,” Geisel said. “Even in times of global crisis there should be no wild west methods.”

No Público, igualmente insuspeito de tais tentações:Turquia bloqueia avião com ventiladores comprados por Espanha para reforçar o próprio sistema de saúdeCentenas de ventiladores foram comprados à China pelas autoridades espanholas para reforçar os meios disponíveis em alguns hospitais. Os aparelhos, que deviam ter chegado no passado sábado, ainda não saíram da Turquia, que diz que a prioridade são os seus pacientes e que os enviará “dentro de algumas semanas” a Espanha.

Em suma, lemos nós, o gangsterismo, o salve-se quem puder (e a antecâmara do caos) ao vivo e à nossa frente.

Double Elvis, por Andy Warhol (1963)

segunda-feira, 23 de março de 2020

COMEÇA A SEMANA

Nestes dias que correm, uma revista humorística espanhola, encerrada há mais de 40 anos, revela-se uma mina inesgotável. El Perich, uma vez mais.

sábado, 15 de fevereiro de 2020

O DIÁCONO DAVID DINIS

Quando li, ontem, a chamada do Expresso dizendo que, segunda uma sondagem, só um partido à esquerda subia, não pude deixar de rir. O facto de não se nomear esse partido tornava evidente que só podia ser a CDU a subir...

O diácono David Dinis - "os comu..., os comu..." - é um caso incurável. O texto tem 147 linhas (tive a pachorra de contar). Só na linha 110 consegue escrever - "os comu..., os comu..." - a CDU (que ganha 1,7 pontos). São menos de 30 carateres, num texto de cerca de 5.000.

Deixei, há muito, de comprar o "Expresso". Cada vez vale menos a pena. Agora venho à Biblioteca Municipal, só para ter a certeza que foi uma decisão acertada. A minha outra decisão acertada é continuar na mesma área política.


sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

QUINTA COLUNA Nº. 8: MÉRTOLA, O CAMPO ARQUEOLÓGICO E O FUTURO

Cláudio Torres recebeu, no dia 11 de janeiro, a Medalha de Mérito Cultural. Em rigor, é a segunda vez que recebe tal distinção. O galardão entregue, em 1998, ao Campo Arqueológico de Mértola era dele, também. Claro que representou um reconhecimento para a equipa, mas, no essencial e de modo natural, quem estava no centro das atenções era o próprio Cláudio.
Duas décadas se passaram e o Ministério da Cultura – essa entidade estranha de que os governos de Direita nunca gostam… – volta a manifestar o seu reconhecimento a Cláudio Torres. Foi uma festa muito bonita e emotiva. Como colaborador da casa, membro fundador do Campo Arqueológico de Mértola, atual investigador da equipa e, sobretudo, como amigo do Cláudio, lá estive. As intervenções – de Ana Paula Amendoeira, de Rosinda Pimenta, de Graça Fonseca, de Cláudio Torres – foram excelentes. Muito apropriadamente festivas, mas também de clara intenção política. Sem picardias, mas colocando os pontos nos iii. Fixemo-nos num ponto da intervenção do próprio Cláudio: “oxalá a gente consiga organizar aqui, em continuidade, um centro de investigação, que possa abrir, para o futuro, novas perspetivas, novas formas de investigar e de trabalhar, que possa desenvolver esta zona de uma forma mais coerente”. Não é só uma questão de dinheiro, sublinharia a ministra Graça Fonseca. Decerto que não. O problema é, antes de mais, demográfico. De capacidade de renovação de gerações. Do sangue novo que falta. O próprio Campo Arqueológico é disso exemplo. Sedimentada a equipa nos anos 90, não tem havido grandes possibilidades de incorporação de novos membros permanentes. As fontes de financiamento e de apoio têm sido a Fundação para a Ciência e a Tecnologia, os fundos comunitários e a Câmara Municipal de Mértola. Os projetos e as bolsas da Fundação têm tido altos e baixos e trabalhar na corda bamba, a todos os níveis, é tudo menos fácil. Os fundos comunitários têm o problema da chamada contrapartida nacional. Ou seja, aquilo que a entidade tem de garantir, do ponto de vista financeiro. Uma entidade sem recursos financeiros próprios tem de recorrer a outras fontes de financiamento, de modo a cobrir a parte que lhe diz respeito. E aqui entra a Câmara Municipal de Mértola. Que tem apoiado, de forma firme e ao longo de 40 anos, a investigação histórica e arqueológica em Mértola. Recentemente, foram aprovados mais dois projetos: “Mértola Romana”, apresentado pela Fundação Serrão Martins, no montante de 173.732 euros, outro, “Arqueologia in progress”, pelo próprio Campo Arqueológico de Mértola, com um orçamento de 245.877 euros. Ao todo, são 419.609 euros, para investir até final de 2020, no primeiro caso, e até meados de 2021, no segundo. Conheço bem estes mecanismos de financiamento – foi pelouro que tive, durante mais de uma década, em Moura –, e uma coisa posso garantir. Não conheço outro caso de uma pequena Câmara Municipal que apoie, de forma tão consistente e continuada, um projeto de reabilitação patrimonial como o de Mértola.
O Campo Arqueológico de Mértola continua no centro das atenções. E do programa de valorização que em Mértola tem lugar. É o Campo um sítio de estudo do passado, mas, necessariamente, do futuro. Com a Câmara Municipal, sem dúvida, com as universidades, com os poucos fundos privados que apoiam tão “exótica” atividade. Com os membros atuais e com alguns dos antigos, e com os novos que se nos vierem juntar.
Em pano de fundo, está a questão fulcral que Cláudio Torres abordou, e à qual regresso. O da demografia. Os pouco mais de 1000 habitantes da vila e o seu (meu, nosso…) escalão etário, que são uma fragilidade presente futura. Precisamos de gente e, sobretudo, de juventude. Precisamos de investimento público governamental. De medidas fiscais, que vão além da insignificante, em termos de desenvolvimento, taxa variável do IRS. Precisamos do Estado. E não de declarações de amor em tempos eleitorais. O futuro do Campo Arqueológico será o de Mértola. Oxalá se consiga. Mas em jogo solitário não se conseguirá.


Fotografia - Artur Pastor
Crónica publicada hoje, no "Diário do Alentejo"

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

O PLANETA TOI 700 d? É LÓGALI

E diz o OBSERVADOR:

"A NASA descobriu um planeta de dimensões semelhantes às do planeta Terra em zona habitável, na órbita da estrela que lhe deu o nome — TOI 700 d. As imagens reveladas pelo telescópio Spitzer Space mostram que o planeta está numa zona que poderá permitir a existência de água em estado líquido à superfície — e está a apenas 100 anos luz, na constelação Dourado".

Apenas 946.080.000.000.000 kms...

A 90 à hora são 1.200.000.000 anos. É melhor por-me a caminho. Que isto do planeta TOI 700 d é, como dizemos no Alentejo, lógali.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

PEDRO SANTANA LOPES TEM UM VOLKSWAGEN GOLF...

Ovelhas não são para mato, diz-se na minha terra. O dr. Pedro Santana Lopes não deveria tentar escrever sobre cinema. Ao ver o hilariante texto que publicou atribuindo um filme a quem o não realizou, lembrei-me de um (bom) anúncio do VW Golf, do ano de 1984. Parafraseando:

Este é o homem que acha que Chopin compôs concertos para violino;

Este é o homem que pensa que Machado de Assis viveu até aos 164 anos;

Este é o homem que gosta de um filme que Scorsese não realizou.

Ele deve ter um Volkswagen...




sexta-feira, 29 de novembro de 2019

QUINTA COLUNA Nº. 7: O SILÊNCIO DOS EX-PRESIDENTES

Fui há, semanas, muito criticado por uma pessoa amiga por ter publicado uma fotografia da praça principal de Moura deserta, durante o Festival do peixe do rio e do pão. Supostamente, eu estaria a criticar uma iniciativa da autarquia. Logo, tendo sido presidente da câmara não o deveria fazer. Ou seja, os antigos presidentes de câmara passam, assim, a estar sujeitos a uma mordaça. Não devem comentar, criticar ou colocar questões sobre matérias de governação local. Apenas e só, porque já desempenharam essas funções. É uma posição curiosa. Fui, em 2017 e antes de deixar o cargo, acusado de irregularidades graves (iriam chamar a Inspeção-Geral de Finanças, tal a gravidade da coisa…). E havia, dizia o agora presidente, “um polvo dentro da câmara”. Nenhum destas afirmações causou escândalo ou indignação. Ou seja, caluniar é legítimo, publicar uma fotografia, sem qualquer comentário meu, é condenável. Uma perspetiva que, naturalmente, não subscrevo.

Devem os ex-presidentes atuar como pretensos “tutores” ou como auto-nomeados “provedores”? Seguramente que não. Para que conste: dos 461 textos publicados no meu blogue pessoal entre 19 de novembro de 2018 e 19 de novembro de 2019, apenas 14 têm referências críticas a matérias referentes à Câmara Municipal de Moura. Ou seja, 3 (três) %. Se a transição para a vida profissional foi feita em poucas semanas, o afastamento dos dossiês que tinha a meu cargo durou um pouco mais. De forma deliberada, fui-me (re)envolvendo nas matérias profissionais. Sem nunca me afastar de Moura. Nem deixar de estar atento. Uma coisa, é estar sempre a “marcar em cima”, o que me parece despropositado e desadequado. Outra coisa, bem diferente, é impôr-me um silêncio que também não se justifica.

Os ex-presidentes não são senadores? Decerto que não. Cola-me mal a imagem e não tenho jeito para poses hieráticas. Muito menos estão (estamos) obrigados à mudez. Menos ainda quando são (eu sou) vergastados, com regularidade.

Devem os ex-presidentes guardar silêncio? Naquilo que é o quotidiano de um concelho, sim. Nunca me entusiasmaram os comentários críticos que se reportam ao passeio partido, à erva que não é cortada, à placa toponímica que está torta. São minudências que não refletem o que, de facto, importa, na gestão de uma autarquia. Nunca liguei, nunca ligarei a comentários desse teor. Venham de onde vierem, tenham como destinatário quem tiverem. Já outras questões não me merecem silêncio. Sinto-me no direito de questionar, como qualquer cidadão. Com mais distanciamento, decerto, mas sempre tendo em conta o que antes disse quem agora está no poder, de que aleivosias quis fazer lei, o que se propôs fazer e o que está, afinal, a fazer.

Se há coisas sobre as quais não devo guardar silêncio? Claro, mas não vou estar aqui a entrar em detalhes desnecessários. Sobre essas matérias preparo análise mais aprofundada, de crítica e auto-crítica, de leitura das coisas e de auto-avaliação. Não esquecerei, claro, aquilo que alguns dizem quando estão na oposição e a falta de vergonha com que fazem exatamente o oposto do que haviam jurado quando passam para o poder. É justamente esse oportunismo, feito de sorrisos maviosos, de discursos com mais açúcar que um xarope para a tosse, é precisamente essa incapacidade para fazer acontecer, para executar e para avançar que nunca nos devem remeter ao silêncio. É a falta de caráter e de princípios que é preciso denunciar e combater. Tenhamos nós sido ex-qualquer coisa ou não.

Paris Nogari (c. 1536–1601)
Allegoria del silenzio. 1582 (Vaticano)


Crónica publicada hoje no "Diário do Alentejo"
(o texto do DA tem uma "gralha de corretor", que já ía no original... é maviosos e não outra coisa)

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

QUINTA COLUNA Nº. 6: SÃO CUCUFATE

Quarenta anos passaram e chegou o tempo da celebração. A festa que aconteceu no passado fim de semana sublinha tudo isso. O passar do tempo e o êxito da tarefa. O sítio arqueológico era, no final dos anos 70, pouco mais que um sumptuoso cenário. Tomou a seu cargo a direção do projeto de escavações do sítio um ainda jovem professor da Universidade de Coimbra. Aos 45 anos, Jorge Alarcão reuniu uma equipa disposta a fazer a fazer da arqueologia muito mais que um simples trabalho de campo. As escavações prologaram-se por vários anos. Em 1990, eram dados à estampa dois monumentais volumes resumindo os trabalhos arqueológicos, sob a direção de Jorge Alarcão, de Robert Étienne e de François Mayet. “Les villas romaines de São Cucufate” é um trabalho exemplar e de fôlego. Ao longo dos anos em que os trabalhos foram concretizados o Município da Vidigueira era dirigido por um alentejano maior, o comunista Carlos Góis. Um homem vertical e digno, que apostou no Património muito antes disso ser moda ou um gesto de bem parecer.

São Cucufate é hoje um sítio visitável e com um percurso didático. O sítio é uma vitória sobre a inércia. Das várias fases da estação arqueológica é a “villa” do século IV a que chegou até nós de forma mais visível. Podemos imaginar o esplendor do palacete nos seus dias de maior riqueza. Com o tanque em frente ao edifício, com os banhos e as amenidades que os senhores do sítio criavam para um quotidiano que era a antecâmara do paraíso. O templo que ali vemos foi depois cristianizado, tal como o de Milreu ou o da Quinta do Marim. O sítio foi ganhando um pendor religioso cada vez mais vincado. Até cair no esquecimento e ser resgatado pela arqueologia.

A celebração do passado fim de semana é um sinal dos tempos. Um sinal necessário, mas melancólico. Os grandes projetos de arqueologia do sul estão num ponto de viragem. A escavação de Mértola arrancou em 1978, a de Silves sensivelmente na mesma altura, Mesas do Castelinho começou alguns anos mais tarde. O compromisso autárquico de outrora é hoje, e com a exceção de Mértola, menor e marcado por outras prioridades. Vive-se um fim de ciclo.

Jorge Alarcão deixa uma marca indelével na Arqueologia Portuguesa. Sabiamente, optou por publicar as suas obras de maior fôlego (de que foi autor ou coordenador) em línguas usadas de forma corrente pela comunidade científica. São disso exemplo as “Fouilles de Conimbriga” (em sete volumes, entre 1974 e 1977) e “Roman Portugal” (em dois volumes, que são quatro..., publicados em 1988). O conhecimento cruzou fronteiras.

Nos dias que passam as prioridades são outras. Claro que há novos projetos e uma nova geração a fazer coisas e a iniciar o seu percurso. Com a certeza, porém, que não poderão contar com homens como Carlos Góis ou como Serrão Martins. Impera o curto prazo. A visão de longo prazo desse outro alentejano maior que se chama Jorge Alarcão é coisa cada vez mais rara.

O ciclo de São Cucufate está, por agora, encerrado., A reabilitação foi feita, escutou-se aquilo que o chão nos diz e os livros foram publicados. Aguardemos o que a próxima geração (não a minha, que já não é a próxima) tem para dizer.

O sítio de São Cucufate está classificado como monumento nacional desde 1947.

As ruínas de São Cucufate, em tempos que já lá vão.

Crónica publicada hoje, no "Diário do Alentejo".

domingo, 1 de setembro de 2019

QUINTA COLUNA Nº. 5: FESTIVAL ISLÂMICO VEZES DEZ

Na próxima edição, em 2021, há-de comemorar-se o 20 º. Aniversário do Festival Islâmico de Mértola. Do ponto de vista do sítio, é quase um ovo de colombo. É difícil encontrar outro local onde se conjuguem tantos fatores favoráveis para um tão grande sucesso. Como quando os astros estão todos alinhados e, segundo dizem, acontecem coisas extraordinárias. E, sem meias palavras, o Festival Islâmico é um acontecimento extraordinário. O sítio, com ruas estreitas e sinuosas, por entre a cal e as improvisadas sombras, tem em si todo o Mediterrâneo, histórico, cultural e humano. O investimento feito no património da vila – e que conheceu, nos últimos anos, um assinalável incremento – torna-se mais visível naqueles dias e põe em evidência aquele que foi o último porto do Mediterrâneo. Ou, como prefere dizer um colega e amigo, o primeiro do Atlântico. Já são dois dados dignos de registo. Juntemos-lhe um terceiro. É comum outros festivais de pendor histórico recorrerem a “pacotes”: três malabaristas, mais um sortido de dromedários, uns desfiles e um programa musical a preceito. Em Mértola, porém, o fator local é essencial. A arquitetura do festival é construída por trabalhadores da autarquia. Portas como as que recriam a arquitetura do período islâmico ou fontes redesenhadas são fruto do trabalho de Manuel Passinhas da Palma e Margarida Rosário. Esse toque pessoal é outra das pedras de toque do festival.

São tudo rosas? Claro que não. O festival enfrenta, passadas dez edições, novos desafios. A candidatura a Património da Humanidade é um deles e não o menor, decerto. A pressão acrescida que uma tal classificação pode trazer vai obrigar à criação de mais infraestruturas, de maior capacidade de resposta a todos os níveis, de uma programação que será (ainda) mais exigente. O programa do festival tem estado à altura da responsabilidade, mas a necessidade de criar novos interesses e novos públicos implicará, provavelmente uma nova estrutura organizativa e de conteúdos.

Várias vezes, fora de Mértola, me questionaram sobre o caráter dúbio da designação. “Festival Islâmico” pode remeter para o domínio da propaganda ou do proselitismo. Não é assim. Nem o festival é de cultura islâmica, num sentido estrito. O passado islâmico é, nesse sentido, um ponto de partida, mas não necessariamente de chegada. Parece contraditório? Talvez, e daí? É preferível que o seja, e que as coisas aconteçam, do que embarcarmos num qualquer inútil debate sobre designações, como o que envolveu o falecido Museu da Descoberta.

O Festival Islâmico tornou-se imagem de marca da vila. Com orgulho e com convicção. Não há melhor prova disso que a pergunta, que tantas vezes me repetem, nos lugares onde vou, “para o ano há festival?”. Lá respondo, sempre, que é nos anos ímpares. Tal com o festival, que também é ímpar.

Venha o 11º., em 2021.


Crónica publicada na edição de 30.8.2019 do "Diário do Alentejo"

sábado, 10 de agosto de 2019

DA CIÊNCIA À RELIGIÃO: escritos dos dias que passam

O texto do padre Gonçalo Portocarrero de Almada, ontem, no "Observador", trouxe-me à memória o episódio do professor do Instituto Superior Técnico que negava, com argumentação científica, a possibilidade do Sputnik andar à volta da Terra.

Transcreva-se um excerto do que ontem foi publicado:

"Assim sendo, Jesus Cristo foi o primeiro ser humano a quem se pode atribuir, com propriedade, a condição de cosmonauta. Mas não a primeira criatura porque, dada a sua condição divina, unida à natureza humana da sua encarnação, não é criatura, mas o próprio Criador, com o Pai e o Espírito Santo.

Será então que, a primeira criatura humana que viajou no espaço, foi mesmo o astronauta russo Yuri Gagarin? Não, porque, segundo a doutrina católica, também a Mãe de Jesus de Nazaré, Maria, subiu ao Céu em corpo e alma. (...)".

Tive que ler duas vezes, para ter a certeza que o texto era a sério. O padre Teilhard de Chardin morreu três anos de Gonçalo Portocarrero de Almada ter nascido.


segunda-feira, 29 de julho de 2019

CINEMA 15

Foi uma revista importante no começo da adolescência. O tempo torna as coisas difusas. Juraria que surgiu no verão, mas as informações disponíveis apontam para o inverno de 1975. Creio ter comprado todos os números. A revista teve curta existência. Era dirigida por Américo Leite Rosa e tinha como editor Vitoriano Rosa. Os textos eram claros, bem escritos e concisos. Não era uma revista "de esquerda", nem se debruçava sobre cineastas então muito incensados - qualquer demagogia pseudo-marxista passava por genialidade... -, mas também não era isso que eu procurava na revista.

Aos 12 anos, tudo era uma descoberta para quem queria ser cineasta. E dessas leituras retenho, entre outras  coisas, os textos de uma portuguesa chamada Leolina Clara Gomes Dias Simões (1925-2002), que se tornou conhecida com o pseudónimo de Clara D'Ovar. É um nome que está hoje esquecido, mas que teve papel importante nos anos 60 e 70. As crónicas que assinava, pícaras e pouco convencionais, faziam-me rir até às lágrimas.

Não me tornei cineasta. Fiquei-me pela cinefilia. Faz-se o que se pode.

domingo, 7 de julho de 2019

NACIONAL-BONIFACISMO

O que melhor denuncia o texto são os seus excertos:

As mulheres, que sem dúvida têm nos últimos anos adquirido uma visibilidade sem paralelo com o passado, partilham, de um modo geral, as mesmas crenças religiosas e os mesmos valores morais: fazem parte de uma entidade civilizacional e cultural que dá pelo nome de Cristandade. Ora isso não se aplica a africanos nem a ciganos.

Os africanos são abertamente racistas: detestam os brancos, e detestam-se uns aos outros quando são oriundos de tribos ou "nacionalidades" rivais.

O que é que nós temos a ver com este mundo [o dos ciganos]? Nada. O que tem o deles que ver com o nosso? Nada.

Não vale a pena continuar a citar o texto de Maria de Fátima Bonifácio, que ontem saiu no Público. As suas teses são claramente racistas e xenófobas. Na África do Sul dos anos 60 não teriam dito melhor. Textos assim vão alimentar o ovo da serpente que já se desenha. Caricato foi o editorial de Manuel Carvalho, que veio choramingar justificações. Entre outras coisas divertidas escreveu "defendemos uma liberdade mapa de expressão dos nossos colunistas".

sábado, 1 de junho de 2019

CRÓNICAS OLISIPONENSES - XXXI

Já me passou pela cabeça fazer um blogue só sobre o 28...

Dia 29.5 - 8:25. Há uma pequena bicha na paragem do Chiado. Cinco pessoas à minha frente. Depois, chega um nutrido grupo de orientais. Parecem-me ser chineses. Mas não posso garantir que não fossem coreanos... Entramos e ficamos empacotados. A partir desta altura do ano, o 28 torna-se impraticável. Quase não há autóctones. Ouço falar francês, inglês e italiano.

Duas jovens chinesas, acabadas de entrar, começam a pedir licença, "excuse me, excuse me" e saem no Calhariz. Menos de 300 metros depois de terem entrado. Foram cumprir uma tarefa e não ter o prazer de estar e de ver. Cada vez mais, a passagem pelas cidades e pelos sítios é uma check-list. E pouco mais. Um recente texto de Javier Marías explica isso melhor que eu. Leia-se aqui.