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sábado, 22 de agosto de 2020

STARDUST MEMORIES Nº. 40: CUADRO FLAMENCO

Levei anos até encontrar este trecho do disco En la cueva. O flamenco, o cante jondo em especial, os fandangos de Huelva estão entre os mais belos sons do Mediterrâneo. Isso é certo, para mim.

Martins Scorsese fez um aproveitamento, absolutamente genial, destes sons no filme "Nova Iorque fora de horas". O frenesim do filme é igual ao som frenético do Cuadro Flamenco. E à voz de Manolo Leiva (1924-2012). E ainda a Manitas de Plata (1921-2014), menos canónico mas, ainda assim interessante. Um 3 em 1 mais que perfeito.

Memórias de outros tempos, da infância à juventude.



sexta-feira, 3 de abril de 2020

E AGORA, MAIS DIFÍCIL AINDA...

Diziam isso, antigamente, nos espetáculos, quando um acrobata executava um número arriscado. Parte da tarde de hoje foi ocupada com um júri de tese de mestrado. Num registo inédito, com presenças muito distantes, fisicamente. Acabou por se divertido. Aquele ritual do "entra o candidato", "entra o público", "agora o júri vai reunir numa sala à parte", foi cumprido. Havia salas virtuais e houve até, no final, uma fotografia de família, em versão printscreen.

Coube-me a parte menos "simpática" (ser arguente da tese), mas tudo se passou bem. Pormenor importante: a candidata, Zabya Abo Aljadayel, estava a prestar provas a partir de Masyaf, na Síria. A 3.915 quilómetros de Mértola. O tema do trabalho, Fatimid material culture in Al-Andalus: presences and influences of Egypt in Al-Andalus between the Xth and the XIIth centuries A.D. é um ponto de partida. O caminho, para a Zabya, está agora a começar.

Da esquerda para a direita:
Susana Gómez-Martínez (diretora da tese), o autor do blogue e Catarina Tente, da FCSH (linha de cima)
Francisco Caramelo (presidente do júri e diretor da FCSH) e Zabya Abo Aljadayel (linha de baixo)

domingo, 3 de novembro de 2019

LE RADEAU DE CARLOS CORREIA

O incansável Prof. Jorge Gaspar continua a dinamizar, ano após ano, iniciativas no Alvito. Ora são as sessões dos Estudos Gerais, ora as exposições no Espaço Adães Bermudes. Ainda no passado sábado pude visitar uma extraordinária mostra do prematuramente desaparecido Carlos Correia. A escolha das obras foi feita por Ana Marin Gaspar, num percurso cuidado e coerente. Parte importante era dedicada às migrações. Com um regresso a La radeau de la méduse, de Théodore Géricault. Aqui revisto e retomado. Com tanta originalidade e brilhantismo como outra obra de Carlos Correia que, a partir de Veronese, retoma as As bodas de Canaã.

Quem mais se pode evocar? Cecília Meireles, bem entendido.


Pus o meu sonho num navio 
e o navio em cima do mar; 
- depois, abri o mar com as mãos, 
para o meu sonho naufragar 

Minhas mãos ainda estão molhadas 
do azul das ondas entreabertas, 
e a cor que escorre de meus dedos 
colore as areias desertas. 

O vento vem vindo de longe, 
a noite se curva de frio; 
debaixo da água vai morrendo 
meu sonho, dentro de um navio... 

Chorarei quanto for preciso, 
para fazer com que o mar cresça, 
e o meu navio chegue ao fundo 
e o meu sonho desapareça. 

Depois, tudo estará perfeito; 
praia lisa, águas ordenadas, 
meus olhos secos como pedras 
e as minhas duas mãos quebradas.

quarta-feira, 20 de março de 2019

O ORIENTE AQUI AO LADO

Ao jeito de uma ante-estreia:

Continuam em confronto, duas teses sobre os primórdios da islamização. Por um lado, perfilam-se os argumentos da escola tradicionalista espanhola, que postula a "hispanização" dos invasores árabes. Ou seja, embora admitindo a existência de uma conquista em inícios do século VIII, afirmava-se que os estrangeiros chegados à Península se teriam progressivamente integrado, não restando alguns séculos depois mais do que vestígios muito ténues da presença desses orientais. A velha imagem da anilina, de Francisco Codera, ganha agora contornos políticos precisos, no quadro da ascensão de partidos como o VOX.

É este o ponto de arranque para a conferência de amanhã, no encontro da Associação dos Arqueólogos Portugueses, no Largo do Carmo. Há pontos de confluência, entre Oriente e Ocidente? Há. E tantos eles são. A imagem de baixo é emblemática: o mausoléu de S. João Batista, na mesquita de Damasco, é local de oração de cristãos e de muçulmanos.

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

VISITA A MÉRTOLA

É hoje, às 23 horas, na RTP 2. É o programa Visita Guiada. Tem um piqueno senão: às vezes, a entrevistadora fala tanto quanto os entrevistados... Espero que não seja o caso.

No centro da imagem está a casa X. Tantíssimas dores de cabeça que me deu...

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

DECÁLOGO MEDITERRÂNICO: HORTELÃ DA RIBEIRA


É uma planta do Mediterrâneo Ocidental. A hortelã da ribeira (mentha cervina) tem outros nomes: alecrim-do-rio, erva-peixeira, hortelã-crespa, hortelã-dos-campos, hortelã-dos-pântanos e menta-peixeira. O sabor e a textura da hortelã da ribeira fazem parte das nossas vidas. Não há nenhum fado sobre a hortelã da ribeira. No dia em que partiu Celeste Rodrigues (injustamente na sombra...) aqui fica, à falta de hortelã, este verde limão.

domingo, 25 de fevereiro de 2018

DECÁLOGO MEDITERRÂNICO: LIMÕES

Die zitronen! Die zitronen!, exclamava um excitadíssimo grupo de turistas alemães uma vez, ao espreitar um quintal em Mértola. Eram limões que, suponho, conheceriam apenas das prateleiras dos supermercados. As cidades do sul têm sol e têm cheiros. Por isso, o norte europeu me deixa sempre tão frio.

Início de um decálogo sobre frutos que dão cor e sensações à vida.

Em árabe é ليمون. Ou seja, lymun.


Alexander Zimin (n. 1970) pintou esta paisagem com um limoeiro. Não há referência ao sítio, mas apostaria que é em Itália.

Os limões

Escuta, os poetas laureados
movem-se apenas entre plantas
com nomes pouco comuns: buxos, ligustros ou acantos.
Por mim, prefiro os caminhos que vão dar às fossas
cobertas de ervas onde em lameiros
meio secos os miúdos apanham
alguma enguia definhada:
as veredas que bordejam as ravinas,
descem por entre os tufos dos canaviais
e entram pelas hortas, por entre os limoeiros.

É melhor ainda quando a algazarra dos pássaros
se cala engolida pelo azul do céu:
mais claro se ouve o sussurro
dos ramos amigos no ar que quase não se move,
e as impressões deste cheiro
que não consegue separar-se da terra
e faz chover no peito uma doçura inquieta.
Aqui das divertidas paixões
por milagre cala-se a guerra,
aqui também nós os pobres temos a nossa parte de riqueza
que é o cheiro dos limões.

Olha, nestes silêncios em que as coisas
se abandonam e parecem perto
de trair o seu último segredo,
esperamos por vezes
descobrir um erro da Natureza,
o ponto morto do mundo, o elo que não liga,
o fio do novelo que finalmente nos leva
ao centro de uma verdade.
O olhar procura derredor,
a mente indaga harmoniza separa
no perfume que se espalha
quando o dia mais enfraquece.
São os silêncios nos quais se vê
em cada sombra humana que se afasta
alguma perturbada Divindade.

Mas a ilusão perde-se e o tempo transporta-nos
até ruidosas cidades onde o azul se mostra
apenas em pedaços, no alto, entre os telhados.
Então a chuva cansa a terra: concentra-se
o tédio do inverno sobre as casas,
a luz torna-se avara – a alma amara.
Quando um dia, de um portão entreaberto
por entre as árvores de um pátio
se nos depara o amarelo dos limões;
e o gelo do coração se desfaz,
e ao peito afluem
as suas canções
as trombetas de ouro da solaridade.

Eugenio Montale (1896-1981)
Tradução de José Manuel de Vasconcelos