É uma planta do Mediterrâneo Ocidental. A hortelã da ribeira (mentha cervina) tem outros nomes: alecrim-do-rio, erva-peixeira, hortelã-crespa, hortelã-dos-campos, hortelã-dos-pântanos e menta-peixeira. O sabor e a textura da hortelã da ribeira fazem parte das nossas vidas. Não há nenhum fado sobre a hortelã da ribeira. No dia em que partiu Celeste Rodrigues (injustamente na sombra...) aqui fica, à falta de hortelã, este verde limão.
Mostrar mensagens com a etiqueta obituário. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta obituário. Mostrar todas as mensagens
quarta-feira, 1 de agosto de 2018
quarta-feira, 23 de maio de 2018
ROBERT INDIANA (1928-2018)
O homem de LOVE vivia em reclusão, há vários anos. Tido como de temperamento difícil (um expressão que tardo em descodificar), viu a sua obra injustamente ofuscada por uma só palavra e por um só trabalho. Ainda há dias referi a juventude das suas criações. Robert Indiana partiu agora, levando LOVE e HOPE.
JÚLIO POMAR (1926-2018)
Dois cidadãos que geraram unanimidade: António Arnaut e Júlio Pomar. Este último percorreu longas décadas, num percurso coerente, solidário, sério. Evoluiu das margem do neo-realismo para uma pintura poética e hedonista. Como neste Le bain turc, d'après Ingres. O quadro tem 50 anos. Mas não parece.
De uma entrevista a Júlio Pomar, ontem desaparecido, no D.N.:
O que ensinava?
Desenho, desenho geométrico. Mas em menos de um mês tinha ordem de despedimento. E foi um bem. Tenho a agradecer muito ao Salazar e aos seus acólitos, que cuidavam da boa reputação dos ensinantes. Fiquei um bocado atrapalhado na altura, mas foi uma coisa muito boa que eles me fizeram. Eu podia ter-me habituado, como era o caso dos meus colegas que acabavam em professores, e depois bonecos era uma coisa que se fazia quando se era estudante, na escola. Na melhor das hipóteses, ia-se à Brasileira. Estou a fazer graça, mas no fundo é muito a sério. Não me parece que eu tivesse uma massa diferente dos outros. Se eu tivesse continuado, aquilo tomava o tempo e o tempo rareava para outras coisas, acontecia-me a mesma coisa. Havia grandes probabilidades. Foi ótimo. Por mal fazer, bem haver.
segunda-feira, 21 de maio de 2018
AS LÁGRIMAS DE ARNAUT
Foi uma das imagens televisivas que me causou mais impacto, numa já longínqua adolescência. À saída de uma visita à Mitra, o Ministro dos Assuntos Sociais foi-se abaixo e começou a chorar. Foi prestando declarações aos jornalistas, enquanto fumava um cigarro e (se) tentava acalmar.
António Arnaut foi ministro durante sete meses, em 1978. Sempre defendi que não é duração da permanência nos cargos que torna a ação relevante, et pour cause...
O Serviço Nacional de Saúde, de cuja arquitetura tem a paternidade, foi aprovada apenas em setembro de 1979. Viviam-se os dias do 5º. Governo Constitucional. Era ministro Alfredo Bruto da Costa, outra figura notável do nosso País.
O Serviço Nacional de Saúde cresceu e afirmou-se. Há falhas? Há. Há insuficiências? Sim. Há atrasos? Também. Falta de pessoal? Sem dúvida. Ainda assim a qualidade do serviço que há em Portugal não tem comparação com a realidade de há 40 anos. Em termos globais, foi dos setores em que houve mais se progrediu em Portugal. E que melhor serviço é prestado. Fui disso testemunha, enquanto utente ou amigo ou familiar de utentes, ao longo dos anos.
Talvez por isso, e pelo que custa (e ainda bem que custa) ao Estado, tenhamos de ler coisas como esta:
"Até que idade faz sentido que o Estado garanta cuidados de saúde caríssimos que prolongam vidas já com pouca qualidade?" (José Manuel Fernandes - Observador - 5.4.2018). Nesta pergunta, de um jornalista próximo da extrema-direita, está a essência do combate ao S.N.S. Quem quiser saúde que a pague. Exatamente o contrário do que pensou, e fez, António Arnaut.
terça-feira, 15 de maio de 2018
RAÚL MIGUEL ROSADO FERNANDES (1934-2018)
Não tínhamos afinidades e só o conheci pessoalmente nos anos 90, quando pertenci a uma comissão no âmbito do Ministério do Planeamento e da Administração do Território. Não éramos nem fomos próximos, mas tivémos, a partir daí uma relação de grande cordialidade. Que se reforçou na altura em que nos foi atribuído (a Cláudio Torres e a mim, ex-aequo com o matemático Jorge Buescu, o Prémio Rómulo de Carvalho). Sem grande cerimónia, pedi-lhe que me traduzisse para latim o título de duas exposições fotográficas ("ó homem, para que é você quer isso numa língua que já ninguém fala?", exclamou entre sonoras gargalhadas). Foi assim que apareceram Lux et umbra meridianae e A riuis Anatis fluminis extremum mundi uideri potest (qualquer erro é da minha responsabilidade, bem entendido...). Pessoas como ele fazem-nos falta. Pela independência e pela liberdade de espírito que tinha. Pela erudição e pela qualidade como académico.
quinta-feira, 26 de abril de 2018
NO ADEUS A ABBAS
O desaparecimento de Attar Abbas (1944-2018), ontem ocorrido, não vai ter grande impacto por estas bandas. Com a exceção que os seguidores da Fotografia irão ser. As imagens deste repórter iraniano estão ao alcance de um clic. A muitas delas se aplica, com toda a propriedade, a ideia que uma imagem vale por mil palavras. Estas duas, do Irão e da África do Sul do apartheid valem por si.
sexta-feira, 6 de abril de 2018
HEIDI
Morreu o realizador da série Heidi. Que Isao Takahata (1935-2018) descanse em paz.
Verdade se diga, eu detestava a série, tal como odiei o livro. Uma treta xaroposa oitocentista. Detesto tretas xaroposas. Ainda por cima, os bonecos eram uma fraude, desenhos sem animação em que só se mexia a boca ou o cenário.
Às vezes, em momentos de boa disposição, ainda dou comigo correndo no mesmo sítio, de braços abertos e gritando: "bodzita! bodzita!" (pelo menos era isso que ela parecia dizer quando chamava o avozinho). É o meu momento Heidi.
quinta-feira, 15 de junho de 2017
ANTÓNIO AUGUSTO MARQUES DE ALMEIDA (1936-2017)
Foi meu professor de Matemática para as Ciências Sociais e Humanas no ano letivo de 1981/82. A primeira aula foi no dia 7 de dezembro, na sala 7. Recordo o sorriso meio irónico com que entrou na sala e deparou com a turma, silenciosa e aterrorizada. Matemática?? A cadeira era obrigatória. Com sensibilidade e inteligência, o Prof. Marques de Almeida levou a "coisa" por outros caminhos. Interessou-nos por Bento de Jesus Caraça, pela matematização do real, pela visão qualitativa e não quantitativa. As aulas eram espaços de liberdade e Marques de Almeida obrigava-nos a improvisar. Uma das componentes obrigatórias era a "apresentação oral". Tinhamos de falar durante 10 ou 15 minutos sobre um tema à nossa escolha. Optei pelo cinema português e pela visão que os estrangeiros colhiam de Portugal através dos filmes. Com aquele pequenos exercício, Marques de Almeida queria que nos disciplinássemos e que puséssemos o cérebro a trabalhar cronometricamente. Lembrei-me do seu austero "tens 10 minutos para terminar" muitas vezes ao longo da vida. Orientou-me nas leituras, obrigou-me a ler o Capitalismo monárquico português, de Manuel Nunes Dias, fez-me trabalhar sobre a feitoria portuguesa de Antuérpia e, sobretudo, ajudou-me.
Perdido em dúvidas filosóficas, sozinho e sem vontade especial de estudar História, teria errado se não fosse o apoio que me deu. A generosa nota com que terminei Matemática foi um impulso decisivo para a carreira que mais tarde escolhi. Marques de Almeida parecia-me um homem quase idoso. Constato agora que tinha apenas 45 anos... Faleceu ontem. Vi-o a última vez há uns bons quatro ou cinco anos.
Coincidências e ironias do destino: doutorei-me, em Lyon, no amphithéâtre Benveniste. O nome de judeu que motivou a criação pela família Benveniste, em 1996, de uma cátedra na Universidade de Lisboa. Primeiro diretor dessa cátedra? Marques de Almeida.
Professores importantes no meu percurso de aprendizagem?
António Augusto Marques de Almeida
Cláudio Torres
Eduardo Borges Nunes
João B. Serra
Manuel Rio-Carvalho
Muito poucos, em quatro anos.De entre o que foram meus professores sem me terem dado aulas não posso esquecer António Borges Coelho e José Luís de Matos.
domingo, 4 de junho de 2017
AGORA QUE O MIGUEL NOS DEIXOU
Os anos passam e a ampulheta não
pára. O Miguel iria cumprir 92 anos em agosto, mas já lá não chegou. O corpo
cedeu, mas o espírito não, e até ao último momento manteve-se igual ao homem de
sempre.
Agora que o Miguel Urbano Rodrigues
nos deixou, irá fazer-nos ainda mais falta. Isso eu sei. Conheci-o já ele
dobrar a casa dos 60, era um jovem de 23 ou 24, acabado de licenciar, e que ele
tratava com amizade e proximidade (nunca permitiu o “você” ou, muito menos,
“sr. Miguel” ou algo assim). Nos anos seguintes conheci-o bem melhor. E aprendi
coisas. Sobre a importância da amizade, sobre a verticalidade, sobre a
coerência. Foram aulas de imensa utilidade, daquelas que não têm preço.
Contador de histórias imparável, devo-lhe tardes de convívio inesquecíveis, nas
quais narrava acontecimentos que presenciara. Muitos deles estão nos seus dois
livros de memórias (“O tempo e o espaço em que vivi”). O terceiro volume não saiu, e nunca
cheguei a perceber se o Miguel o chegou a escrever. São livros extraordinários.
O Miguel escrevia com fluidez e invulgar elegância. Para isso contribuíam
décadas de prática e uma cultura vasta, que se refletia na sua escrita. Há
histórias pícaras, outras bem sérias.
Já com mais de 80
anos, mantinha uma energia notável. Uma vez disse-me “quando a idade passa,
tudo muda, o nosso corpo muda, muitas vezes de forma surpreendente”. Não perguntei
de que falava, pensando que um dia também terei oportunidade de isso saber.
Aparecia de vez em quando (em Mértola, em Moura, em Serpa). Era então avisado
pelo Carlos Lopes Pereira, amigo de longa data dos dois, “olha, o Miguel está
aí e quer almoçar contigo”. Como na primavera do ano passado, num dos nossos
últmos encontros. O almoço demorava horas, com um sempre acutilante Miguel a
opinar, a inquirir, a comentar. Uma crónica é um espaço curto para tão grande
mourense, mas gostaria de frisar que uma das coisas que mais me marcou – num
país de “consensinhos”, de “saias rodadas” e de gente maviosa – foi, sempre, a
frontalidade com o Miguel tratava os assuntos. Muitas vezes me disse “não estou
de acordo contigo” e passava à explicação do seu ponto de vista, de forma
direta e sem rodriguinhos. Aceitava, sempre, o contraditório, ainda que nele
não se revisse. Foi outra das lições decisivas que me deu. Verdade se diga que
a nossa mais radical divergência era sobre o vinho tinto Rioja, que ele
abominava…
Não perdoava falhas na
Língua Portuguesa, nem a ignorância travestida de saber. Uma vez, apareceu num
almoço em que estávamos um arrivista que se “interessava pelo Mediterrâneo”. E
que andava “a investigar”. Sentou-se à nossa mesa. Depois de muita conversa, às
tantas disparou “ó Miguel Urbano, qual é a diferença entre árabes e berberes?”.
O Miguel alinhavou, de mau humor, duas ou três frases sobre a questão. A partir
daí, e sempre que nos encontrávamos, recordava “aquele moço é de uma ignorância
enciclopédica”.
Militante do Partido
Comunista Português desde 1964, foi editorialista de política internacional de
“O Estado de São Paulo”, o maior periódico da América Latina. Foi deputado e
presidente da Assembleia Municipal de Moura. Político, escritor e jornalista.
Em todos os domínios deixou marca de qualidade, de competência e de coerência.
Agora que nos deixou,
recordo o seu “num homem há muitos homens e numa vida muitas vidas”. À medida
que amigos nos vão deixando – começo a entrar nessa idade – há uma parte das
nossas vidas que fica para trás e há uma parte de nós que já não volta. Senti
isso com duas ou três pessoas muito especiais. Senti isso, fundamente, quando
recebi a SMS comunicando-me que o Miguel partira.
terça-feira, 23 de maio de 2017
ROGER MOORE (1927-2017)
Recordarei sempre Roger Moore não tanto pelo 007, mas sim porque lá em casa nunca me deixaram ver O santo. Hábitos espartanos remetiam-me para o leito às 22h em ponto, sem possibilidade de negociação. Em todo o caso, recordarei sempre com prazer um ator que sem ser grande ator tinha aquele flair muito particular de fazer parecer que sim.
Como estou em dia de recordações, aqui fica a sequência inicial de A view to a kill, com música dos Duran Duran (e sim, outro pecado, eu gostava dos Duran Duran...), o último 007 de Moore. Pois, fez bem... Basta ver a cena de cama com Grace Jones, então com 37 anos...
Gosto muito dos filmes da série 007. Aqui fica esta abertura, em homenagem a Moore e aos Duran Duran. E a Grace Jones.
Como estou em dia de recordações, aqui fica a sequência inicial de A view to a kill, com música dos Duran Duran (e sim, outro pecado, eu gostava dos Duran Duran...), o último 007 de Moore. Pois, fez bem... Basta ver a cena de cama com Grace Jones, então com 37 anos...
Gosto muito dos filmes da série 007. Aqui fica esta abertura, em homenagem a Moore e aos Duran Duran. E a Grace Jones.
quinta-feira, 26 de janeiro de 2017
MÁRIO RUIVO (1927-2017)
Morreu Mário Ruivo. Fui por ele, em tempos, empossado como membro do Conselho Nacional do Ambiente. Homem sábio e de grande cordialidade, conduzia as reuniões do Conselho de forma suave e eficiente. Conservarei dele gratas recordações e, sobretudo, a lição da importância que a atividade permanente e a jovialidade devem desempenhar nas nossas vidas.
Da página do CNADS:
Personalidade ilustre, profundamente empenhado na ciência, na valorização do conhecimento, no desenvolvimento, com particular incidência na problemática dos oceanos. Aliou esse percurso a um compromisso com causas públicas, as quais estiveram sempre presentes ao longo da sua vida, desde o final dos anos 40 do século passado.
Abraçando a investigação científica no domínio dos recursos vivos do mar, logo após a sua licenciatura, foi contudo obrigado a emigrar no final dos anos 50. Integrou então os quadros da FAO até ao 25 de abril de 1974. No período da Democracia, para além de membro dos Governos provisórios, desenvolveu atividades diversas com especial relevo para os assuntos do Mar, desde o fomento da investigação científica através das agências governamentais que têm essa função (JNICT e FCT), até à animação de iniciativas públicas com impacte internacional (Comissão Intergovernamental da UNESCO, Coordenador do Relatório “O Oceano, O Nosso Futuro”, Conselheiro Científico da Expo 98 “Os oceanos, um património para o futuro”).
Assegurou a Presidência do Conselho Nacional do Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (CNADS) desde a sua constituição, garantindo um equilíbrio ímpar no seu funcionamento e nas posições que este órgão foi assumindo ao longo de quase vinte anos de atividade. A intervenção direta de Mário Ruivo garantiu que tenha prevalecido neste Conselho um ambiente de exigência científica e de convergência multidisciplinar, o que permitiu que este órgão usufruísse de uma capacidade singular de acompanhamento crítico das iniciativas públicas e privadas com impacte no ambiente e no território.
Mário Ruivo expressou, até ao momento em que nos deixou, uma permanente apetência e uma extraordinária e clara visão para intervir e fomentar o desenvolvimento de iniciativas estratégicas em domínios diversos da vida social e científica, com particular incidência na sua paixão de sempre: Os Oceanos.
Personalidade com uma visão global do mundo que nos rodeia, dedicou toda a sua vida a inquietar o conhecimento, a fomentar a investigação científica, a intervir na gestão pública, a mobilizar capacidades, a defender inovações e a criar ambientes propícios que abrissem caminhos para um desenvolvimento harmonioso, sempre ancorado na preservação dos recursos ambientais.
Mário Ruivo deixa-nos, por tudo isso, com um sentimento de imensa saudade.
Ver - http://www.cnads.pt
segunda-feira, 16 de janeiro de 2017
JUAN ZOZAYA STABEL-HANSEN (1939-2017)
Recebi a notícia, friamente, por mail. Faleceu, em Madrid, Juan Zozaya Stabel-Hansen.
Conheci-o em Mértola, no início de 1987, faz agora 30 anos e tudo passou tão depressa. Era, já nessa altura, um dos nomes maiores da arqueologia islâmica. Homem fraterno e tranquilo, tratava os mais jovens como se fossem seus pares. Conhecia como poucos a arte mediterrânica e a arqueologia islâmica. Uma erudição discreta e isenta de vaidade.
Um dos museus que me causou mais impacto foi, decididamente, o Museo Arqueológico Nacional, onde estive pela primeira vez em janeiro de 1987. Enquanto o meu amigo Juan Zozaya foi subdirector da instituição visitava-o com alguma regularidade, nos tempos em que a minha vida mertolense estava a começar. Recordo que o meu castelhano com forte sotaque (muito diferente do puro andaluz do meu pai) causava surpresa ao contínuo que me atendia. Fui brindado com a pergunta "es usted argentino?" (duas vezes) e "es usted paraguayo?" (uma vez). O senhor teria tão fraco ouvido como má memória...
Recordo a grande surpresa que tive com a rica e diversificada coleção do MAN. E retenho, com clareza, a confirmada paixão que senti pela arte islâmica e pelos ambientes paradisíacos que retratava. Como nos cofres em marfim, que nunca me cansarei de admirar. Devo ao Juan inúmeras facilidades, contactos e informações. A genuína vontade em ajudar estava sempre presente. O seu percurso foi marcado pelo brilhantismo e pela generosidade. Fui-o encontrando, quase sempre em Mértola, ao longo destes anos. A vez derradeira foi há sete meses.
Fez parte de uma lista de colegas e amigos que estiveram comigo quando me candidatei à Câmara de Moura, em 2013. Quando lhe telefonei a pedir apoio, respondeu-me com a sua típica gargalhada e um "claro que sí, camarada!".
Estarás sempre entre nós, Juan.
domingo, 8 de janeiro de 2017
ANTÓNIO TERESO (1927-2017)
No site do PCP:
O Secretariado do Comité Central do Partido Comunista Português informa com mágoa e tristeza, do falecimento hoje dia 7 de Janeiro aos 89 anos, de António Tereso. Militante comunista que dedicou a sua vida à luta dos trabalhadores e do povo português pela liberdade, pela democracia, pelo socialismo.
Na prisão de Caxias desempenha complexo e destacado papel na preparação e concretização da fuga de oito destacados dirigentes e militantes comunistas do Forte de Caxias no carro blindado de Salazar, a 4 de Dezembro de 1961.
«Foi com sacrifício que aceitei a tarefa de “rachar”. Foi o que mais me custou na vida», afirmou, visivelmente emocionado, António Tereso. Por indicação de José Magro, viveu juntamente com o inimigo durante dezanove meses. O objectivo era encontrar uma hipótese de fuga.
A ruptura com os seus camaradas – de que apenas um pequeno número de dirigentes sabia tratar-se de uma encenação – deu-se durante um almoço.
«Atirei com um prato de arroz à cara de um preso, mas ele, em vez de se virar a mim, começou-se a rir, o que me dificultou a tarefa.» De rompante, começou a esmurrar a porta gritando que queria sair daquela sala. Dezanove dias depois mudou-se para a «sala dos trabalhos». Até conseguir a transferência, ficou na sala com os seus camaradas. Esses dias, recordou, foram «muito difíceis».
«Eram todos meus amigos», confessou.
Começava assim o seu percurso de «rachado», ao serviço dos carcereiros. Tereso contou como conseguiu ganhar a confiança dos inimigos. Havia que esperar que «eles precisassem de nós. Foi essa a minha vitória». «Um dia chego ao pé do director, o Gomes da Silva, e disse-lhe: se precisar do carro lavado, eu lavo-lhe o carro», recorda António Tereso. O director concordou. Antes de trabalhar como motorista da Carris tinha lavado carros e fazia aquilo bem. «Ficou muito contente e ganhei um cliente», ironizou.
A confiança que ganhou foi tanta que chegou a conduzir o director fora da prisão e este deu-lhe permissão para ir ao seu gabinete sempre que necessário. Daí para a frente, recordou, os «carcereiros quando queriam alguma coisa vinham ter comigo para eu ir ver ao gabinete do director se ele estava lá. Eu tinha esta liberdade toda».
Também o guarda Lourenço, um PIDE reformado, foi conquistado pelo falso «rachado». Numa ocasião, ao lavar o seu carro, Tereso encontra um pequeno coração de ouro. «Depois de lhe lavar o carro, devolvo-lhe o coraçãozinho. Ele respondeu: “há dois anos que procurava isso, é da minha netinha”.». Após contar à mulher o sucedido, esta responde: «esse homem é sério demais para estar preso.»
A confiança era tanta que lhe é oferecido um lugar como motorista da PIDE, a ganhar 1 500 escudos. Tereso comunica o sucedido ao Partido. A resposta, recorda, foi «não há fuga para ninguém, agarra-me isso com as duas mãos». Faltavam três meses para sair em liberdade…
Um dia, passeava com o director pela prisão e depara-se com o carro, estacionado numa garagem. O desafio vem do próprio responsável da cadeia. «Há-de me pôr este carro a trabalhar», disse-lhe. «Quando ele me diz isso, eu esqueci os meses e a liberdade, esqueci tudo», lembrou. Nessa noite, comunicou ao Partido: temos fuga!»
MÁRIO SOARES (1924-2017)
Valerá a pena fazer um dia, daqui a uns anos, a releitura das reações à morte de Mário Soares. Tenho seguido, com grande interesse, os panegíricos e as homenagens emocionadas dos que lhe eram próximos, pessoal ou politicamente. Tenho lido, com não menos interesse, as mensagens de conveniente pesar doutros quadrantes políticos. Evito ler júbilos lamentáveis e outros insultos, que brotam à esquerda e à direita. O curto testemunho de António Barreto foi, até agora, o texto mais interessante qe li (v. aqui).
O papel de Mário Soares na construção do País que hoje somos é inquestionável, estejamos de acordo ou não com o modelo que temos. Foi ele um dos principais fautores da ocidentalização de Portugal. Do ponto de vista do funcionamento do modelo da democracia que temos e na perspetiva económica. O País rural e atrasado de 1973 pouco tem a ver com o de hoje. Isso não foi coisa pouca. Outros desiquilíbrios se fomentaram... Mário Soares, intuitivo e com leitura de curto prazo, acreditava que Portugal seria arrastado pela dinâmica dos grandes e atingiria assim um desenvolvimento pleno. Isso não aconteceu, como bem sabemos.
Foi um português determinante na História do século XX em Portugal? Foi. Não deixava as pessoas indiferentes? De facto, não. Antes isso, que os de "saia rodada" que por aí abundam...
Retrato oficial, por Júlio Pomar (1992)
terça-feira, 3 de janeiro de 2017
JOHN BERGER (1926-2017)
Um recente Fórum 21, que teve a participação de Alexandre Pomar, Jorge Calado e José Manuel Rodrigues intitulou-se Fotografia - modos de ver, em homenagem à célebre obra de John Berger. O ensaísta britânico, ontem falecido em Paris, não precisaria do meu reconhecimento para nada... Mas é autor de uma das dez obras que mais me marcaram (v. aqui).
Reproduzo o texto de uma publicação feita no blogue, em 14 de setembro de 2010.
John Berger usava duas páginas do livro Modos de ver para exemplicar como se manipula uma imagem. Numa página apresentava o quadro com o título, Seara com corvos. Virava-se a folha e a mesma imagem surgia com nova legenda: O último quadro que van Gogh pintou antes de se suicidar. É evidente que, com esta identificação, o pintura passa a ter outra leitura e ganha uma sombria carga dramática.
E, tanto quanto se sabe, Seara com corvos nem sequer foi a derradeira obra de Van Gogh...
Etiquetas:
blogosfera,
livros e leituras,
obituário,
pintura
domingo, 27 de novembro de 2016
FIDEL, UM AQUILES COMUNISTA
Reproduzo o melhor texto sobre Fidel Castro. Um obituário ante-mortem, de Miguel Urbano Rodrigues:
Em meados dos anos 60, encerrando o XII Congresso dos Trabalhadores Cubanos, em Havana, Fidel formulou um desejo: "que no futuro poucos homens, ou mesmo ninguém, tenham a autoridade que tivemos no início da Revolução, porque é perigoso que seres humanos disponham de tanta autoridade".
O revolucionário cubano não podia então prever que essa situação, que o preocupava, iria manter-se por muitas décadas.
A doença que o levou agora a transferir a chefia do Estado e do Partido para o irmão desencadeou a nível mundial uma avalanche de opiniões contraditórias sobre o homem e a sua intervenção na História. Raramente em vida de um estadista célebre se escreveu e falou tanto sobre ele como agora sobre Fidel.
Ele foi na segunda metade do século XX o dirigente do Terceiro Mundo que maior influência exerceu pela palavra e pela acção no rumo de acontecimentos que marcaram o processo da descolonização e as lutas contra o imperialismo.
A meditação sobre a temática do poder pessoal acompanha-o desde a juventude.
Creio que foi sincero ao definir como perigoso o excesso de autoridade concentrada num dirigente. Foram as próprias circunstâncias da História que o investiram de um poder cada vez maior que não ambicionava.
Fidel tinha lido na universidade os clássicos do marxismo. Estudou-os depois na prisão. Mas a sua opção pelo socialismo resultou do movimento, da dialéctica da História.
O atentado terrorista que fez explodir [o navio] La Coubre e a invasão mercenária de Playa Giron, ideada e financiada pelos EUA, ocorreram numa época em que o brado soy y seré marxista-leninista, que alarmou Washington, expressou mais a decisão de defender a Revolução situando-a no campo socialista, do que propriamente uma opção ideológica.
Fidel insistiu muitas vezes no significado que sempre atribuiu à avaliação da correlação de forças. Ao reconhecer que em Cuba foram cometidos muitos erros tácticos na condução do processo, conclui que não identifica um só erro estratégico importante. O mérito, acrescentarei, é seu.
Já na Sierra Maestra durante a luta armada, ele revelara dotes de um grande estratego. Mas foi posteriormente que, na confrontação permanente com o imperialismo, desenvolveu uma capacidade extraordinária de compreender o movimento da História nos momentos em que o seu rumo se define.
Escolha dolorosa
Isso aconteceu concretamente na fase crítica em que a Revolução, numa guinada brusca, rompeu com o discurso e a praxis dos anos da utopia para fazer uma escolha dolorosa. Cuba estava à beira do desastre económico e o único país que lhe estendeu a mão foi a União Soviética. Sem essa aliança tudo se teria afundado. Naturalmente o preço foi muito alto. A Revolução entrou num período cinzento – assim lhe chamaram – num processo de burocratização que atingiu duramente a intelligentsia, sufocou o debate de ideias e a criatividade em múltiplas frentes.
Mas não havia alternativa.
Até o Che, o homem novo do futuro, na definição de Fidel, o companheiro entre todos admirado e querido, que tinha sobre o mundo um olhar nem sempre coincidente, reconheceu na sua carta de despedida, ao partir para a aventura africana, que lamentava não se ter apercebido mais cedo das capacidades de liderança e de visão estratégica que faziam do comandante um revolucionário incomparável, único.
Lenine emergiu como um líder incontestado na mais brilhante geração de revolucionários profissionais europeus do século XX. Fidel não foi tão afortunado, nem isso era possível.
O núcleo de quadros revolucionários do Exército rebelde era insuficiente para enfrentar após a vitória os desafios colocados pela História. A geração que acompanhou Fidel forjou-se em circunstâncias muito adversas num pequeno país já bloqueado pelos EUA, vítima de uma guerra não declarada.
A excepção Fidel
Alguns historiadores criticam em Fidel um voluntarismo que nunca conseguiu dominar. Esse voluntarismo marcou-lhe aliás a intervenção nas lutas do seu povo desde os anos da Universidade. A própria definição que Fidel apresenta do "marxismo martiano" como síntese do materialismo dialéctico e do idealismo que vinha de Luz Caballero y Varela confirma uma evidência: a Revolução Cubana configura um desafio à lógica da História. Assim aconteceu com Moncada, com a aventura do Granma, a luta na Sierra, e o choque posterior com o imperialismo norte-americano. A decisão de resistir e a coragem do povo cubano no combate que confirmou ser possível a resistência serão recordadas pelo tempo adiante como acontecimentos épicos da História da humanidade.
Ora o épico não pode ser explicado pela razão.
Para compreendermos a excepção Fidel, os tratados de ciência política são insuficientes.
Identifico nele uma síntese de heróis mitológicos e de heróis modernos que o inspiraram num batalhar que já se tornou História.
Fidel traz à memória Aquiles, Martí e Bolívar.
Do aqueu e do venezuelano herdou a coragem sobre-humana e a fome dos desafios ao impossível aparente. Mas a sede de glória, que acompanhou Bolívar, nunca o fascinou e a desambição foi sua companheira permanente. Contrariamente a Aquiles não atravessou o mar para destruir as Tróias contemporâneas. A sua gente atravessou um oceano mas para levar solidariedade a povos que se batiam pela liberdade.
Do cubano Martí aprendeu que revolução alguma pode vencer sem fidelidade a uma concepção ética da vida, sem amor pela humanidade. E, por humano, apresenta também alguns defeitos dos três.
Ao escrever estas linhas recordo uma conhecida afirmação sua: o dever do revolucionário é fazer a revolução.
Poucos homens em milénios de História colocaram com tanta coerência a sua vida ao serviço desse objectivo, erigido em infinito absoluto.
Imagino-o na sua cama, no hospital, insensível ao vendaval de calúnias desencadeado pela sua doença e tocado pelo furacão simultâneo de afecto, respeito e admiração.
Os revolucionários de todos os povos, onde quer que se encontrem, desejam-lhe um rápido restabelecimento. Agradecem-lhe o que fez pela humanidade.
Quase carregou o Estado e o Partido às costas em períodos de crise. E isso foi negativo. Por ter consciência da lei da vida, sabe que exigiu de si muito mais do que podia e devia. Exagerou.
Recuperada a saúde, poderá ser ainda por longos anos uma consciência actuante da humanidade revolucionaria se, distanciado de esgotantes tarefas do quotidiano, utilizar o tempo para transmitir ao seu povo e ao mundo o saber e a experiência acumulados, a sua lição de moderno Aquiles, de discípulo de Bolívar.
El comandante
Vivi oito anos em Cuba. Mais de uma vez, escutando durante muitas horas os seus discursos na Praça da Revolução em Havana, ou em comemorações do 26 de Julho noutras cidades da Ilha, me interroguei sobre a contradição entre um poder pessoal enorme, minimamente partilhado a nível decisório, e o humanismo de quem o exercia, identificável no amor pelas crianças e na solidariedade com os oprimidos e excluídos de todo o planeta.
Comportam-se como hipócritas conscientes aqueles que por ódio ou fanatismo ideológico qualificam Fidel de ditador brutal e sanguinário, de tirano feroz.
Sabem que a acusação é falsa
Quem conhece um pouco Cuba não ignora que existe uma relação de afecto profundo entre o povo cubano e el comandante en jefe. Ele é amado pela esmagadora maioria dos seus compatriotas. Depositam nele uma confiança absoluta. É um sentimento que não cultivou e talvez o inquiete por estar consciente de que qualquer dirigente, por mais dotado e sábio que seja, não pode substituir o colectivo como sujeito transformador da História.
Não há calúnia mediática que resista à prova da vida. Definir como ditador um dirigente amado por um povo que governa há quase meio século é um absurdo maldoso. O consenso entre o governante e a sua gente ridiculariza a diatribe forjada pelos seus inimigos.
A grandeza de Fidel teria obviamente de desencadear campanhas de ódio. Mas não fez surgir somente inimigos e caluniadores. É inseparável também do aparecimento de uma geração de epígonos. Em Cuba e pelo mundo afora eles apareceram. Ora a tendência para a glorificação incondicional dos grandes homens é sempre negativa. Porque não há governante perfeito. E Fidel sabe disso e não gosta que vejam nele um super-homem.
Ele é o que é, um ser mortal, modelado por uma vontade de aço, uma inteligência excepcional, e uma fome insaciável de humanização revolucionária da vida, mas com uma lúcida percepção das limitações da condição humana.
Este texto foi publicado no “Avante!” N.º 1706, 10.Agosto.2006. Foi também publicado no “Granma”.
sábado, 26 de novembro de 2016
terça-feira, 30 de agosto de 2016
QUANDO GENE WILDER ERA WACO KID
Esta é uma das muitas cenas hilariantes de "Balbúrdia no oeste", filme de 1974. Aqui é o pistoleiro decadente Waco Kid que mostra que está de regresso. Mel Brooks nunca foi cineasta de humor subtil, mas animou a minha pardacenta adolescência. Gene Wilder, seu parceiro em três filmes, partiu ontem, aos 83 anos. Em homenagem a Gene Wilder, a um certo estilo de comédia e ao burlesco (re)vejamos estas imagens, de alguém que faz lembrar a rapidez de Lucky Luke.
segunda-feira, 1 de agosto de 2016
MONIZ PEREIRA (1921-2016)
Conheceu uma carreira longa e marcada por sucessos. Grande parte dela, quase toda em boa verdade, foi desenvolvida no Sporting, o seu clube de sempre. Atleta, campeão, treinador e fazedor de campeões, Mário Moniz Pereira deixou-nos ontem. Carlos Lopes terá sido a sua mais conhecida "criação", mas é injusto resumir a um só atleta - ainda que de extraordinária qualidade - décadas de trabalho.
Se um aspeto marca a carreira deste português incomum é ter contribuído para arrumar na prateleira das inutilidades a imagem do lusitano bem comportadinho, mas sempre destinado a lugares secundários. Se hoje temos campeões e gente que se afirma no desporto, em muito o devemos ao Prof. Moniz Pereira.
Facto lateral, mas não menos importante, Moniz Pereira foi um talentoso compositor de fados. Valeu a pena? Claro que valeu a pena, senhor professor.
segunda-feira, 25 de abril de 2016
AGORA QUE MALICK SIDIBÉ NOS DEIXOU...
O tempo passa e foi há cinco anos e meio que Malick Sidibé passou aqui pelo blogue. O grande artista maliano deixou-nos no dia 14 de abril.
Fotografia de estúdio (quase) pura e dura. Aquele (quase) hieratismo deixou marcas e, se não criou escola, ensinou outros a criarem cenários. Um dos que segue o espírito de Malick Sidibé é o alemão Rainer Elstermann. Que, curiosamente, usa em muitas fotografias modelos negros. A melhor homenagem é a da continuidade, creio eu.
Todas estas fotografias, todas as de Malick Sidibé e quase todas de Rainer Elstermann me evocam Vou-me embora para Pasárgada. Vá lá saber-se porquê.
Site - http://www.rainerelstermann.de
Fotografia de estúdio (quase) pura e dura. Aquele (quase) hieratismo deixou marcas e, se não criou escola, ensinou outros a criarem cenários. Um dos que segue o espírito de Malick Sidibé é o alemão Rainer Elstermann. Que, curiosamente, usa em muitas fotografias modelos negros. A melhor homenagem é a da continuidade, creio eu.
Todas estas fotografias, todas as de Malick Sidibé e quase todas de Rainer Elstermann me evocam Vou-me embora para Pasárgada. Vá lá saber-se porquê.
Site - http://www.rainerelstermann.de
Subscrever:
Mensagens (Atom)



















