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domingo, 23 de agosto de 2020

SUDÃO OCIDENTAL

Do Mali chegam notícias perturbadoras. Jacques Majorelle (1886-1962) retratou a placidez doutros tempos de Bamaco, neste quadro de meados da década de 40 do século passado.

E agora, como estará Bamaco?

Haverá acácias e belas mulheres à sua sombra, nos domingos de Bamaco? As águas do Níger trarão frescura aos domingos de Bamaco? Correrá um pouco do harmattan, o terrível vento do deserto, nas ruas dos domingos de Bamaco? Soprará esse vento sobre as águas do Níger, por entre as acácias e as belas mulheres? Que oásis haverá?

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domingo, 9 de agosto de 2020

DE VLAMINCK, REVISTO E SEM COR

Dir-se-ia que não tenho mais nada que fazer, e não é verdade. Mas andando à volta dos fauvistas, encontrei uma obra de Maurice de Vlaminck (1876-1958) que me levou ao ocioso exercício de "como será hoje?". O sítio, em Bougival, não é difícil de encontrar. O colorido, ao jeito de Olinda, da paleta de De Vlaminck, deu lugar a uma realidade menos festiva.

Este exercício comparativo, e a arqueologia visual dos sítios, estão no centro de vários trabalhos. Resultados a publicar nos próximos meses.


sábado, 18 de julho de 2020

CAMOËNS

Essa coisa do til... E dos ditongos... Em todo o caso, a tela perpetua a morte de Camões. É obra de Joseph Léon de Lestang-Parade (1810-1887) e está hoje no Musée Granet, em Aix-en-Provence.

Le Camoëns escreveu sonetos como este:

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontade
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.
O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E enfim converte em choro o doce canto.
E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.



quinta-feira, 18 de junho de 2020

A PROPÓSITO DE HIPOCRISIA

A hipocrisia e a mentira são irmãs gémeas. Ao lado delas está o bem-parecer. Desse minueto de sorrisos falsos se alimenta muita gente.
Squelette arretant masques (1891) - James Ensor
AS PESSOAS SENSÍVEIS
As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas
O dinheiro cheira a pobre e cheira
À roupa do seu corpo
Aquela roupa
Que depois da chuva secou sobre o corpo
Porque não tinham outra
O dinheiro cheira a pobre e cheira
A roupa
Que depois do suor não foi lavada
Porque não tinham outra
“Ganharás o pão com o suor do teu rosto”
Assim nos foi imposto
E não:
“Com o suor dos outros ganharás o pão”.
Ó vendilhões do templo
Ó construtores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheios de devoção e de proveito
Perdoai-lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem.

Sophia de Mello Breyner Andresen

sexta-feira, 12 de junho de 2020

CIDADE BRANCA

Esta pintura quase encerraria um projeto que a pandemia levou. O melhor, talvez se faça, "reformatadamente". Nem fazia parte do alinhamento original, porque não a conhecia. Um feliz acaso levou-me, uma manhã, à Fundação Arpad Szenes - Vieira da Silva. Ganhou ali novo significado a expressão cidade branca. Que, na verdade, só o é de forma figurada.

Este guache de Maria Helena Vieira da Silva (1908-1992) passaria a ter lugar de destaque num final de percurso. Até porque, estranhamente, numa cidade como Lisboa, não há muitas representações do Castelo de S. Jorge: Carlos Botelho, Maluda, Carlos Calvet... Depois, há autores mais antigos, como Alfredo Keil ou Alberto de Souza.

Nunca em tal tinha pensado, depois o facto não deixou de me espantar.

terça-feira, 26 de maio de 2020

MAS ISTO É O QUÊ?

O "Expresso" resolveu dar guarida a uma inacreditável carta de um conjunto de personalidades que, a propósito dos Painéis de S. Vicente, "acha que". Não há, entre o distinto grupo, um único investigador de História da Arte. Pela óbvia razão que qualquer profissional da área teria vergonha de subscrever aquele texto. Onde, entre outras coisas, se avança como motivação o facto da Ministra da Cultura não ter respondido a uma carta do matemático Jorge Almeida. Que é, também, entusiasta dos Painéis nas horas vagas.

Lóbis na Cultura? Há-os para todos os gostos. Estes conseguiram ser ouvidos no correio da manhã das elites.



Eis os subscritores:
Alexandre Manuel, jornalista e professor universitário
Amadeu Lopes-Sabino, escritor
Aniceto Afonso, historiador
Arnaldo Madureira, professor universitário e historiador
Avelino Rodrigues, jornalista de investigação
Carlos Almada Contreiras, historiador
Carlos Blanco de Morais, professor catedrático de Direito e analista de política internacional
Carlos Gaspar, investigador em relações internacionais
Carlos Matos Gomes, escritor
Catarina Figueiredo Cardoso, curadora independente
Cecília Barreira, historiadora da cultura
Guilherme Valente, editor e ensaísta
Irene Pimentel, historiadora
José António Veloso, jurista e investigador
Jorge Bacelar Gouveia, professor catedrático de Direito
José Carlos Costa Marques, escritor
José Vera Jardim, ex-ministro da Justiça e jurista
Luís Salgado de Matos, cientista social 
Margarida Ponte Ferreira, escritora
Maria do Carmo Moser, produtora de filmes
Miguel Freitas da Costa, ensaísta
Nuno Júdice, escritor
Paulo Cintra, fotógrafo
Teresa Venda, ex-deputada e administradora

sábado, 9 de maio de 2020

AO SOL, EM CHIPRE

Às voltas pela pintura - nada de meu, não sei desenhar nem pintar -, à procura de soluções finais para uma exposição que deveria ter inaugurado no dia 19 de março e que passou para junho (penso eu, mas já não sei nada), fui parar a Chipre e às paisagens de David Bomberg (1890-1957). E dei comigo a ter saudades do verão e do sol. Ao fim da tarde, se não chover, vou a Além-Rio. Depois, regresso ao trabalho, e depois talvez vá a Chipre.

quarta-feira, 29 de abril de 2020

AMORAS

Há muitos dias que não saía de casa. Foram 40, para ser preciso.

Ontem e hoje quebrei essa rotina. Quebrámos, em dueto solitário. Até ao Além-Rio, depois junto à Achada de S. Sebastião. Subitamente, "olha, amoreiras com amoras". As amoreiras em frente à escola costumam estar varridas. A rapaziada da escola trata delas. Tanto melhor para eles. Agora, sem escola, nem clientes, as amoreiras estão bem compostas. Regressei a outros tempos e a outros sítios. As amoras não se apanham, por cá, como no quadro de Elizabeth Forbes (1859-1912). Pouco importa. O que conta é o gesto e o momento. Ontem pintalguei, convicto e feliz, uma camisa. Em certas alturas, a felicidade momentânea está nos ramos de uma amoreira.


You ate that first one and its flesh was sweet
Like thickened wine: summer's blood was in it
Leaving stains upon the tongue and lust for
Picking, como no poema de Seamus Heaney.

quarta-feira, 15 de abril de 2020

HOCKNEY, SEGURAMENTE

Os Presidentes da República fazem-se retratar à antiga, em tela e em pose. Há apenas dois retratos de excepcional qualidade, o de Mário Soares (por Júlio Pomar) e o de Jorge Sampaio (por Paula Rego). Os outros arrastam-se, entre o banal e o penoso.

Se tivesse dinheiro para tal, a quem pediria um retrato destes? Não a solo, mas com os quatro cá de casa. De entre os vivos, seguramente a David Hockney (n. 1937), uma paixão antiga, descoberta nos tempos de liceu, quando frequentava o Instituto Britânico. Esta tela data de 1977. Quem ali está são os pais do pintor.

segunda-feira, 30 de março de 2020

SIRONI EM MÉRTOLA

Quando era pequeno, detestava os documentários televisivos sobre museus. Todas aquelas salas vazias, todas aquelas estátuas mortas. E a voz do locutor, mais morta que as estátuas. Quando aquilo começava, desligava o televisor. Tal como não gostava de olhas para quadros sem gente. De Chirico fazia-me medo e passava rapidamente a página da "Enciclopédia Verbo Juvenil" onde estava a sua tela.

Ontem à noite, tive de ir ao multibanco. Por ausência de opção, tive mesmo de ir. Foram, ao todo, 300 metros passeando dentro de um quadro de De Chirico ou de Sironi. O mais impressionante foi o silêncio total que desabou sobre Mértola.

Já o silêncio não é de oiro: é de cristal; 
redoma de cristal este silêncio imposto. 
Que lívido museu! Velado, sepulcral. 
Ai de quem se atrever a mostrar bem o rosto! 

Um hálito de medo embaciando o vidrado 
dá-nos um estranho ar de fantasmas ou fetos. 
Na silente armadura, e sobre si fechado, 
ninguém sonha sequer sonhar sonhos completos. 

Tão mal consegue o luar insinuar-se em nós 
que a própria voz do mar segue o risco de um disco... 
Não cessa de tocar; não cessa a sua voz. 
Mas já ninguém pretende exp'rimentar-lhe o risco!

David Mourão-Ferreira

Mario Sironi

quarta-feira, 25 de março de 2020

POLÍTICA E POESIA

Em tempo de arrumações aparece de tudo um pouco. Como esta memória já longínqua. 2000 foi o Ano Internacional do Livro. Resolvi, enquanto presidente da Assembleia Municipal de Moura, associar o órgão à celebração, lendo no final de cada sessão dois poemas. Foi o bom e o bonito. Houve discreta e generalizada chacota. Indiferente às bocas, segui em frente. Um hábito antigo.

No meio dos papéis, só encontro os poemas lidos em 2001. Mas tenho a certeza de que em 2000 também houve poesia no final das sessões. Recordo, em particular, de estar a ler um e de ouvir os risinhos abafados de Manuel Bravo, primeiro secretário da Assembleia. Era este, de Alexandre O'Neill:

O respeitoso membro de azevedo e silva
nunca perpenetrou nas intenções de elisa
que eram as melhores. Assim tudo ficou
em balbúrdias de língua cabriolas de mão.

Assim ficou tudo até que não.

Azevedo e silva ao volante do mini
vê a elisa a ultrapassá-lo alguns anos depois
e pensa pensa com os seus travões
Ah cabra eram tão puras as minhas intenções

E a elisa passa rindo dentadura aos clarões.



28.2.2001
Aquela triste e leda madrugada - Luís de Camões
Aquela clara madrugada - Manuel Alegre

2.4.2001
Catarina Eufémia - Sophia de Mello Breyner Andresen
Lá do planalto dos altos fornos - Mário Dionísio

13.4.2001
Busque Amor novas artes, novo engenho - Luís de Camões
Ser benfiquista - Manuel Paulino Gomes Júnior

27.06.2001
Barca Bela - Almeida Garrett
Imagem - Sebastião da Gama

29.8.2001
Vês desaparecer o rouxinol? - Joaquim Manuel Magalhães
Nunca ouvi um alentejano cantar sozinho - José Gomes Ferreira

26.9.2001
Estrada de fogo - Fiama Hasse Pais Brandão
Ao sentir tremer o mundo - António Aleixo

14.11.2001
Guerra - Cecília Meireles
Desceu tão de repente o sol - Fernando Pinto do Amaral

Gaspar Melchor de Jovellanos, por Francisco Goya

segunda-feira, 2 de março de 2020

O OURO DE ÁLVARO PIRES DE ÉVORA

Admito que gosto mais de Fra Angelico que de Álvaro Pires de Évora. Não são os meus domínios, não sou, nem de perto..., conhecedor, e o meu gosto é, sobretudo, "impressionista".

Nova e feliz passagem pelo M.N.A.A., ontem de manhã, deixou-me outras certezas:

1. É uma das grandes exposições dos últimos anos. A montagem contrasta o cinza escuro das paredes com o ouro bizantino.

2. A contextualização - Álvaro Pires de Évora e o seu tempo - é claríssima.

3. Trazer outros pintores da época ajuda muito os não-iniciados na matéria a situarem-se.

4. Deve ser mais uma das minhas bizarrias, mas uma das coisas de que mais gostei foram as sinópias, os desenhos preparatórios da pintura a fresco. Sempre gostei de espreitar o que não se vê de imediato. Isso fez-me recuar aos motivos que me levaram para História da Arte...

5. Com a fasquia alta, aumenta o stress para a próxima exposição.



domingo, 16 de fevereiro de 2020

PINACOTECA CASCALENSE

Fiquei com a ideia que o projeto da curadora Luísa Soares de Oliveira passou, em parte, por um exercício de mimetismo com as antigas pinacotecas reais. Sendo assim, ou não, a montagem está perfeitamente conseguida. A exposição da pintura de Moita Macedo (1930-1983) revê parte do seu percurso (nesse sentido, será mais uma escolha que uma antologia), em especial a sua vertente mais gestualista ou memográfica, como o próprio gostava de dizer.

Se uma pintura me chamou a atenção foi a Senhora de Akita. Em determinada fase da sua produção, Moita Macedo, cuja obra tem matriz oriental, dá especial atenção a temáticas que o aproximam do Japão. Como e porquê é o que falta saber...

Até 26 de abril.
Terça-feira a domingo, das 10h00 às 18h00


Gallery of Archduke Leopold Wilhelm in Brussels (1650)
David Teniers, o Novo (1610-1690)
Petworth House and Park

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

O SÍTIO ONDE NÃO IREI

Não sei bem porquê, mas esta imagem "apareceu-me", de manhã bem cedo. Claude Monet (1840-1926) esteve em Zaandam em 1871. Por lá ficou 4 meses. Esta imagem do canal chega a ter um toque de fauvismo. Bucólica é. Não se consegue identificar o sítio, no meio da monótona regularidade da arquitetura da Zaandam atual. Arrependi-me de ter ido a Hernández à procura de Ansel Adams. Não voltarei a cair na mesma asneira. Antes a distância e o esforço de imaginar como teria sido o sítio.

Alberto Caeiro

Hoje de manhã saí muito cedo,

Hoje de manhã saí muito cedo,
Por ter acordado ainda mais cedo
E não ter nada que quisesse fazer...
Não sabia por caminho tomar
Mas o vento soprava forte, varria para um lado,
E segui o caminho para onde o vento me soprava nas costas.
Assim tem sido sempre a minha vida, e
Assim quero que possa ser sempre —
Vou onde o vento me leva e não me
Sinto pensar.
Esta obra de Monet está hoje num museu em Atlanta

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

A CÂMARA DE MOURA, O DIREITO À GREVE E OS DIREITOS DOS TRABALHADORES

A minha condição de antigo presidente da câmara tem-me levado a um necessário distanciamento das matérias políticas de Moura. Sobretudo quando de questões de gestão diária se trata. Reduzi praticamente a zero (salvo em resposta a provocações...) as minhas intervenções sobre política local.

Abro hoje uma exceção, depois de vários trabalhadores da Câmara Municipal me terem feito chegar fotografias de uma informação, assinada por um membro do executivo camarário. Que diz essa "informação"? Que os trabalhadores que queiram ir à manifestação a Lisboa, no próximo dia 31, "deverão antecipadamente [fazer] uma participação de ausência por conta do período de férias".

Um escândalo.

A "informação" é uma coação, torpe e ilegal, sobre os trabalhadores. Que estão abrangidos por um pré-aviso de greve e que não têm nada que meter férias ou, sequer, comunicar que vão fazer greve. Foi coisa que nunca vi ao longo de 12 anos de carreira autárquica na Câmara Municipal. Ao contrário, enquanto a CDU esteve na Câmara os direitos dos trabalhadores foram não só respeitados, como promovidos.

Assim vai a minha terra...

Tão depressa se fecharam as "portas abertas" e tão rapidamente cresceram as atitudes policiais e de perseguição.

domingo, 26 de janeiro de 2020

CDS - UMA QUESTÃO DE MARKETING

O congresso do CDS-PP terminou. O final foi um clássico. Um clássico triste, mas "infalível". Como o eleitorado se escapou, muito dele seduzido pelo populismo oportunista do CHEGA, que fazer? Ceder à tentação mais simples e encostar ao discurso dos outros. Esquecem duas coisas banalíssimas, que em momentos de pressão são, por norma, esquecidas. 1) o espaço já foi ocupado; 2) as pessoas preferem sempre os originais às cópias. Qualquer recuperação da argumentação cheguista será vista como cópia. O CDS ameaça o destino de Narciso.

Narciso - Caravaggio, 1594-1596 (National Gallery)

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

MÁRTIRES DE MARROCOS: 800 ANOS

Faz hoje precisamente 800 anos (16 de janeiro de 1220) que ocorreu o martírio dos franciscanos, em Marrocos. Os mártires e o último século da Reconquista são o tema da exposição que está a ser preparada para o Museu Nacional de Arte Antiga. Arte e arqueologia, norte e sul, Cristandade e Islão, os encontros e desencontros da História poderão ser vistos, no verão deste ano.

Quem participará no catálogo? Cláudio Torres, Hermenegildo Fernandes, Yassir Benhima, Isabel Cristina Ferreira Fernandes, Susana Gómez Martínez, Miguel Gomes Martins etc.

Guerreiros e mártires tem inauguração no final da primavera.

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

NIGHTHAWKS TROPICAIS

A esquina, o bar, o silêncio e a rua. Hopper pintou Nighthawks em 1942. Não acredito nestes acasos. Creio que Stan de Zoysa (Sousa?), nascido no Sri Lanka (em 1980), tinha Hopper algures. Não consegui saber onde foi feita a fotografia, mas parece-me ser no Brasil.

Sobre Stan de Zoysa - https://standezoysa.com


segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

PARIS, 1972

O veteraníssimo Richard Estes (n. 1932) passou pelo blogue em 2014 e em 2016. Esta tela hiper-realista de 1972 lança-me no tão borgesiano e querido tema dos espelhos. A semana vai andar por aí, entre realidades que se cruzam e se refletem. Isto anda tudo ligado, como gostam de dizer os da teoria da conspiração.


The Other Side of a Mirror
I sat before my glass one day,
     And conjured up a vision bare,
Unlike the aspects glad and gay,
     That erst were found reflected there –
The vision of a woman, wild
     With more than womanly despair.
Her hair stood back on either side
     A face bereft of loveliness.
It had no envy now to hide
     What once no man on earth could guess.
It formed the thorny aureole
     Of hard unsanctified distress.
Her lips were open – not a sound
     Came through the parted lines of red.
Whate'er it was, the hideous wound
     In silence and in secret bled.
No sigh relieved her speechless woe,
     She had no voice to speak her dread.
And in her lurid eyes there shone
     The dying flame of life's desire,
Made mad because its hope was gone,
     And kindled at the leaping fire
Of jealousy, and fierce revenge,
     And strength that could not change nor tire.
Shade of a shadow in the glass,
     O set the crystal surface free!
Pass – as the fairer visions pass –
     Nor ever more return, to be
The ghost of a distracted hour,
     That heard me whisper, "I am she!"
Mary Coleridge (1861-1907)

domingo, 29 de dezembro de 2019

VELAS

O poema que se segue quase fechou, aqui no blogue, o ano de 2008. Já lá vão 11 (onze!) anos. O poema, sobre a passagem do tempo, faz hoje tanto sentido como naquela altura. Justamente pelo toque de eternidade que comporta.


Velas
Os dias do futuro ficam diante de nós
como fila de pequeninas velas acesas –
douradas, quentes, e vivas pequeninas velas.

Os dias passados ficam para trás,
uma linha triste de velas que se apagaram;
as mais próximas soltam fumo ainda,

velas frias, derretidas, e torcidas.

Não quero vê-las; dá-me dó a sua figura,
e dá-me dó lembrar-me da sua luz primeira.
Olho para a frente para as minhas velas acesas.

Não quero voltar-me para não sentir horror ao ver
que rapidamente se torna longa a linha escura,
que rapidamente se multiplicam as velas apagadas.


O poema é de Konstandinos Kavafis (1863-1933) e data de 1899 (tradução de Joaquim Manuel Magalhães e de Nikos Pratsinis). Não sei de quem é a pintura, que se encontra na coleção Isabel e Alfred Bader, Milwaukee (EUA). Tem sido, por várias vezes, atribuída a Rembrandt, mas não está na base de dados do pintor no RKD (Rijksbureau voor Kunsthistorische Documentatie).

Ver:
https://rkd.nl/en/collections/explore
e
http://rembrandtdatabase.org