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sexta-feira, 28 de agosto de 2020

POESIA NA LOURINHÃ

Retomo o périplo arquitetónico. No meio dos projetos e das fachadas, há outro Portugal que surge. Mesmo a chegar à Lourinhã, encontro esta placa:










LENHA BATATA

PARA AGRIA E DOCE

LAREIRA


No verso lê-se:

BATATA LENHA

AGRIA E DOCE PARA

LAREIRA


Em tempos que já lá vão o Jornal de Letras publicava coisas assim. Os autores eram apresentados como novos valores da poesia.

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

SUDÃO ORIENTAL

Sudão - سُودَان [sûdân] é o plural de أَسْوَد [as-swad], que quer dizer negro. Antes designava toda uma parcela de África. Hoje é uma zona específica. De onde vem Nyanjam Malek. E não, a beleza não é "exótica". A beleza é.


Femme noire

Femme nue, femme noire
Vétue de ta couleur qui est vie, de ta forme qui est beauté
J'ai grandi à ton ombre ; la douceur de tes mains bandait mes yeux
Et voilà qu'au cœur de l'Eté et de Midi,
Je te découvre, Terre promise, du haut d'un haut col calciné
Et ta beauté me foudroie en plein cœur, comme l'éclair d'un aigle

Femme nue, femme obscure
Fruit mûr à la chair ferme, sombres extases du vin noir, bouche qui fais lyrique ma bouche
Savane aux horizons purs, savane qui frémis aux caresses ferventes du Vent d'Est
Tamtam sculpté, tamtam tendu qui gronde sous les doigts du vainqueur
Ta voix grave de contralto est le chant spirituel de l'Aimée

Femme noire, femme obscure
Huile que ne ride nul souffle, huile calme aux flancs de l'athlète, aux flancs des princes du Mali
Gazelle aux attaches célestes, les perles sont étoiles sur la nuit de ta peau.

Délices des jeux de l'Esprit, les reflets de l'or ronge ta peau qui se moire

A l'ombre de ta chevelure, s'éclaire mon angoisse aux soleils prochains de tes yeux.

Femme nue, femme noire
Je chante ta beauté qui passe, forme que je fixe dans l'Eternel
Avant que le destin jaloux ne te réduise en cendres pour nourrir les racines de la vie.

Léopold Sédar Senghor, Chants d'ombre


quarta-feira, 19 de agosto de 2020

HYDRA

Na televisão, passa uma série filmada em Corfu. Creio que é em Corfu, mas não me dei ao trabalho de confirmar. Recuo 14 anos e desemboco em Hydra e no Mosteiro do Profeta Elias, perto da cidade em linha reta, mas lá bem no alto.

Essa é uma memória de Hydra. As outras:

Que éramos bem mais novos (nós 43, a Luísa tinha 9, o Manuel ainda não chegara aos 13);

O porto;

Uma ilha sem carros;

Uma cidade que não é branca de postal turístico;

A árvore no meio da praça;

O restaurante Manolis, cuja dona nos atendia e depois recuava sem nos virar as costas, parecendo que deslizava sobre rodas;

A trovoada medonha que se abateu sobre a ilha;

Um poema de Sophia.

Há na manhã de Hydra uma claridade que é tua
Há nas coisas de Hydra uma concisão visual que é tua
Há nas coisas de Hydra a nitidez que penetra aquilo que é olhado por um deus
Aquilo que o olhar de um deus tornou impetuosamente presente -

Na manhã de Hydra
No café da praça em frente ao cais vi sobre as mesas
Uma disponibilidade transparente e nua
Que te pertence

O teu destino deveria ter passado neste porto
Onde tudo se torna impessoal e livre
Onde tudo é divino como convém ao real


Hydra, Julho de 1970


domingo, 26 de julho de 2020

MÉRTOLA, PELA MANHÃ


Continuando a perseguir o sr. Duarte Darmas. Hoje, pela manhã, recordando um poema de Cesariny. Porque Mértola é fugidia. A luz de Mértola escapa-se-nos, ao minuto. A vila ganha, a cada instante, contornos físicos. A luz que perdi hoje, vou encontrá-la amanhã.

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco

quarta-feira, 22 de julho de 2020

LABIRINTO BABILÓNICO

Um labirinto em argila, com cerca de 4.000 anos. Esta extraordinária peça pertence a uma coleção norueguesa, a Schoyen Collection.

De Jorge Luis Borges (1899-1986), o homem dos labirintos:

LABERINTO

No habrá nunca una puerta. Estás adentro
y el alcázar abarca el universo
y no tiene ni anverso ni reverso
ni externo muro ni secreto centro.

No esperes que el rigor de tu camino
que tercamente se bifurca en otro,
que tercamente se bifurca en otro,
tendrá fin. Es de hierro tu destino

como tu juez. No aguardes la embestida
del toro que es un hombre y cuya extraña
forma plural da horror a la maraña

de interminable piedra entretejida.
No existe. Nada esperes. Ni siquiera
en el negro crepúsculo la fiera.

"Elogio de la sombra" (1969)


sábado, 18 de julho de 2020

CAMOËNS

Essa coisa do til... E dos ditongos... Em todo o caso, a tela perpetua a morte de Camões. É obra de Joseph Léon de Lestang-Parade (1810-1887) e está hoje no Musée Granet, em Aix-en-Provence.

Le Camoëns escreveu sonetos como este:

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontade
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.
O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E enfim converte em choro o doce canto.
E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.



sexta-feira, 17 de julho de 2020

MANTOS DE LUZ

A fotografia de cima é de ontem à noite, em Moura. Houve celebração, nas Festas em Honra de Nossa Senhora do Carmo, em tempos de pandemia. A ideia foi muito feliz e resulta lindamente. Cobrir o chão com luz dá aquele tapete e ilumina o tempo que há-de vir.

A de baixo pertence ao projeto Caligrama, que a artista plástica Eva Lootz montou no Khan Assad Pasha, na cidade velha de Damasco, no Outono de 2003.

E, de Fernando Pessoa,

NÃO QUERO IR ONDE NÃO HÁ A LUZ,


Não quero ir onde não há a luz,
Do outro lado abóbada do solo,
Ínfera imensa cripta, não mais ver
As flores, nem o curso ao sol de rios,
Nem onde as estações que se sucedem
Mudam no campo o campo. Ali, no escuro,
Só sombras múrmuras, êxuis de tudo,
Salvo da saudade, eternas moram;
Região aos mesmos íncolas incógnita,
Dos naturais, se os tem, desconhecida.
Ali talvez só lírios cor de cinza
Surgirão pálidos da noite imota.
Ali talvez só gelo com as águas,
Como a cegos, serão, e o surdo curso,
No côncavo sossego lamentoso,
Se acaso à vista habituada aclare,
Será como um cinzento tédio externo.

Não quero o pátrio sol de toda a terra
Deixar atrás, descendo, passo a passo,
A escadaria cujos degraus são
Sucessivos aumentos de negrume,
Até ao extremo solo e noite inteira.

Para que vim a esta clara vida?
Para que vim, se um dia hei-de cair
Da haste dela? Para que no solo
Se abre o poço da ida? Porque não
Será sem fim (...)

sábado, 11 de julho de 2020

... FICA NO NORTE E É VILA DO CONDE

Há muitos anos que não ía a Vila do Conde. A passagem foi rápida, para fotografar um edifício desenhado pelo prolixo Octávio Lixa Filgueiras (1922-1996). Ao vivo, gostei bem mais do que os alçados vistos no arquivo, devo dizer.

À chegada, um taipal da autarquia tinha um excerto de um poema de Ruy Belo (1933-1978), dedicado a Vila do Conde. É, creio, uma das mais bonitas declarações de amor a um sítio.

Nem o arquiteto nem o poeta eram de Vila do Conde, por sinal.


O lugar onde o coração se esconde
é onde o vento norte corta luas brancas no azul do mar
e o poeta solitário escolhe igreja pra casar
O lugar onde o coração se esconde
é em dezembro o sol cortado pelo frio
e à noite as luzes a alinhar o rio
O lugar onde o coração se esconde
é onde contra a casa soa o sino
e dia a dia o homem soma o seu destino
O lugar onde o coração se esconde
é sobretudo agosto vento música raparigas em cabelo
feira das sextas-feiras gado pó e povo
é onde se consente que nasça de novo
àquele que foi jovem e foi belo
mas o tempo a pouco e pouco arrefeceu
O lugar onde o coração se esconde
é o novo passado a ida pra o liceu
Mas onde fica e como é que se chama
a terra do crepúsculo de algodão em rama
das muitas procissões dos contra-luz no bar
da surpresa violenta desse sempre renovado mar?
O lugar onde o coração se esconde
e a mulher eterna tem a luz na fronte
fica no norte e é vila do conde

sábado, 27 de junho de 2020

VAMOS VER O POVO, VAMOS VER O POVO...

"Ser rico deve ser uma coisa porreira...", disse aquele meu amigo, bem mais velho que eu, e soltou uma sonora gargalhada. Estávamos em casa dele, na Lapa, e na televisão passava um documentário sobre a rodagem do "Apocalypse now". Francis Ford Coppolla, deus ex machina, regia aquele exército num jeito barroco. Os meios eram impressionantes. A cena dos helicópteros foi filmada em tempo real, e sem recurso a computadores. Uma coisa de ricos.

Lembrei-me muitas vezes deste episódio, nos últimos três meses. A diferença entre uns e outros está bem espelhada naquele que é um dos palcos evidentes da diferenciação social: os transportes públicos. O presidente da Câmara de Loures, Bernardino Soares, deixou isso bem claro numa entrevista à Antena Um, a meio da semana. Há mais casos naqueles concelhos - Amadora, Loures, Odivelas etc. - precisamente porque são os sítios onde as pessoas mais usam os transportes públicos e onde não têm alternativas Têm mesmo de ir trabalhar e têm de ir assim. A todos ocorre "ser rico deve ser uma coisa porreira...". É esse o teor, com nuances, de muitas conversas que ouço nos transportes públicos.

As fantasias ambientais que se propagandeiam, as ideias dos transportes limpos, baratos e eficazes, são boas para abrir telejornais e para as páginas da imprensa dominada pelas classes A e B. A realidade, e essa eu conheço bem!, é outra. A outra realidade é a do povo. Que uma certa classe política - não o PCP, que esse está sempre onde está o povo - frequenta, com curiosidade de zoo.



Vamos ver o povo
Que lindo é
Vamos ver o povo.
Dá cá o pé.

Vamos ver o povo.
Hop-lá!
Vamos ver o povo.

Já está. 


Mário Cesariny de Vasconcelos (1923-2006) in Nobilíssima Visão (1959)

quinta-feira, 18 de junho de 2020

A PROPÓSITO DE HIPOCRISIA

A hipocrisia e a mentira são irmãs gémeas. Ao lado delas está o bem-parecer. Desse minueto de sorrisos falsos se alimenta muita gente.
Squelette arretant masques (1891) - James Ensor
AS PESSOAS SENSÍVEIS
As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas
O dinheiro cheira a pobre e cheira
À roupa do seu corpo
Aquela roupa
Que depois da chuva secou sobre o corpo
Porque não tinham outra
O dinheiro cheira a pobre e cheira
A roupa
Que depois do suor não foi lavada
Porque não tinham outra
“Ganharás o pão com o suor do teu rosto”
Assim nos foi imposto
E não:
“Com o suor dos outros ganharás o pão”.
Ó vendilhões do templo
Ó construtores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheios de devoção e de proveito
Perdoai-lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem.

Sophia de Mello Breyner Andresen

terça-feira, 9 de junho de 2020

A PROPÓSITO DE SOLIDARIEDADE

Confunde-se, amiúde, a ideia de solidariedade com caridade. Uma e outra não são, sequer, as duas faces de uma moeda. A propósito do calor da solidariedade aqui fica um poema de Alexandre O'Neill (1924-1986). Foi escrito no ano quente de 1975.

A CAMA QUENTE

Homenagem aos mineiros do Chile
que dormem, singelo,
pelo sistema de "a cama quente"


Na mina trabalha-se por turnos.
Quando se volta, nem se tiram os coturnos.

Bebido o café negro e trincado o casqueiro,
joga-se o corpo ao sono, mas primeiro,

enxota-se o camarada da cama ainda quente,
que não há camas, no Chile, pra toda a gente.

Do calor que sobrou o nosso se acrescenta
pra dar calor ao próximo que entra.

Vós, que dormis em camas, como reis,
tantas horas por dia, não sabeis

como é bom dormir ao calor de um irmão
que saiu ao nitrato ou ao carvão

e despertar ao abanão (é o contrato!)
de um que chega do carvão ou do nitrato!

É este sistema, minha gente,
que se chama no Chile "a cama quente"...


A Serra Pelada, na objetiva de Sebastião Salgado

terça-feira, 5 de maio de 2020

LÍNGUA PORTUGUESA

O cartaz é muito bonito.
Os poemas em língua portuguesa também o são.
Esta cantiga de amigo, de Martim Codax, está na raíz da nossa língua.

Ay Deus, se sab' ora meu amigo

Ay Deus, se sab' ora meu amigo
com' eu senneira estou en Vigo!
E vou namorada.

Ay Deus, se sab' ora meu amado
com' eu en Vigo senneira manno!
E vou namorada.

Com' eu senneira estou en Vigo,
e nullas gardas non ei comigo!
E vou namorada.

Com' eu senneira en Vigo manno,
e nullas gardas migo non trago!
E vou namorada.

E nullas gardas non ei comigo,
ergas meus ollos que choran migo!
E vou namorada.

E nullas gardas migo non trago,
ergas meus ollos que choran ambos!
E vou namorada.


domingo, 3 de maio de 2020

LEPTIS MAGNA - ROLO 274, NEGATIVO 10


WHERE towers are crushed, and unforbidden weeds
O’er mutilated arches shed their seeds,
And temples, doomed to milder change, unfold
A new magnificence that vies with old,
Firm in its pristine majesty hath stood
A votive column, spared by fire and flood;

Não era bem a Coluna de Trajano, do poema de William Wordsworth, que ali estava. Antes parecia uma serpente, no meio das ervas de Leptis Magna, a meio daquela tarde, na primavera de 2008.

No meio das arrumações, procurei a origem da imagem que estava guardada no computador. Tinha quase a certeza que a tinha visto, e copiado, na net. Não era nada disso. Nem tudo é digital. Fui dar com o original nos negativos p/b: rolo 274, negativo 10.

Como estará Leptis Magna? Que terá acontecido em todos aqueles sítios?



quarta-feira, 29 de abril de 2020

AMORAS

Há muitos dias que não saía de casa. Foram 40, para ser preciso.

Ontem e hoje quebrei essa rotina. Quebrámos, em dueto solitário. Até ao Além-Rio, depois junto à Achada de S. Sebastião. Subitamente, "olha, amoreiras com amoras". As amoreiras em frente à escola costumam estar varridas. A rapaziada da escola trata delas. Tanto melhor para eles. Agora, sem escola, nem clientes, as amoreiras estão bem compostas. Regressei a outros tempos e a outros sítios. As amoras não se apanham, por cá, como no quadro de Elizabeth Forbes (1859-1912). Pouco importa. O que conta é o gesto e o momento. Ontem pintalguei, convicto e feliz, uma camisa. Em certas alturas, a felicidade momentânea está nos ramos de uma amoreira.


You ate that first one and its flesh was sweet
Like thickened wine: summer's blood was in it
Leaving stains upon the tongue and lust for
Picking, como no poema de Seamus Heaney.

sábado, 25 de abril de 2020

LIVROS, EM ABRIL

Por todos os livros censurados.
Por todos os autores que impedidos de editar.
Por todas as palavras que só muitos anos depois puderam ser ditas.
Porque bibliotecas assim são as dos dias da Liberdade, veja-se este pequeno momento de poesia total, de palavras e de sons.

terça-feira, 14 de abril de 2020

O QUE VEJO DA MINHA JANELA

O QUE VEJO DA MINHA JANELA é um desafio lançado pela Câmara Municipal de Mértola: o que vês, o que pensas que vês, o que gostarias de ver. Na pausa para o almoço, resolvi mandar esta fotografia (feita às 10:04), com uma pequena justificação:
A fotografia está modificada, tal como a realidade também o está.

SOMBRAS

A meio desta vida continua a ser 
difícil, tão difícil 
atravessar o medo, olhar de frente 
a cegueira dos rostos debitando 
palavras destinadas a morrer 
no lume impaciente de outras bocas 
anunciando o mel ou o vinho ou 
o fel. 

Calmamente sentado num sofá, 
começas a entender, de vez em quando, 
os condenados a prisão perpétua 
entre as quatro paredes do espírito 
e um esquife negro onde vão desfilando 
imagens, só imagens 
de canal em canal, sintonizadas 
com toda a angústia e estupidez do mundo. 

As pessoas - tu sabes - as pessoas são feitas 
de vento 
e deixam-se arrastar pela mais bela 
respiração das sombras, 
pela morte que repete os mesmos gestos 
quando o crepúsculo fica a sós connosco 
e a noite se redime com uma estrela 
a prometer salvar-nos. 

A meio desta vida os versos abrem 
paisagens virtuais onde se perdem 
as intenções que alguma vez tivemos, 
o recorte obscuro de perfis 
desenhados a fogo há muitos anos 
numa alma forrada de espelhos 
mas sempre tão vazia, sem abrigo 
para corpo nenhum. 


Fernando Pinto do Amaral

segunda-feira, 30 de março de 2020

SIRONI EM MÉRTOLA

Quando era pequeno, detestava os documentários televisivos sobre museus. Todas aquelas salas vazias, todas aquelas estátuas mortas. E a voz do locutor, mais morta que as estátuas. Quando aquilo começava, desligava o televisor. Tal como não gostava de olhas para quadros sem gente. De Chirico fazia-me medo e passava rapidamente a página da "Enciclopédia Verbo Juvenil" onde estava a sua tela.

Ontem à noite, tive de ir ao multibanco. Por ausência de opção, tive mesmo de ir. Foram, ao todo, 300 metros passeando dentro de um quadro de De Chirico ou de Sironi. O mais impressionante foi o silêncio total que desabou sobre Mértola.

Já o silêncio não é de oiro: é de cristal; 
redoma de cristal este silêncio imposto. 
Que lívido museu! Velado, sepulcral. 
Ai de quem se atrever a mostrar bem o rosto! 

Um hálito de medo embaciando o vidrado 
dá-nos um estranho ar de fantasmas ou fetos. 
Na silente armadura, e sobre si fechado, 
ninguém sonha sequer sonhar sonhos completos. 

Tão mal consegue o luar insinuar-se em nós 
que a própria voz do mar segue o risco de um disco... 
Não cessa de tocar; não cessa a sua voz. 
Mas já ninguém pretende exp'rimentar-lhe o risco!

David Mourão-Ferreira

Mario Sironi

quarta-feira, 25 de março de 2020

POLÍTICA E POESIA

Em tempo de arrumações aparece de tudo um pouco. Como esta memória já longínqua. 2000 foi o Ano Internacional do Livro. Resolvi, enquanto presidente da Assembleia Municipal de Moura, associar o órgão à celebração, lendo no final de cada sessão dois poemas. Foi o bom e o bonito. Houve discreta e generalizada chacota. Indiferente às bocas, segui em frente. Um hábito antigo.

No meio dos papéis, só encontro os poemas lidos em 2001. Mas tenho a certeza de que em 2000 também houve poesia no final das sessões. Recordo, em particular, de estar a ler um e de ouvir os risinhos abafados de Manuel Bravo, primeiro secretário da Assembleia. Era este, de Alexandre O'Neill:

O respeitoso membro de azevedo e silva
nunca perpenetrou nas intenções de elisa
que eram as melhores. Assim tudo ficou
em balbúrdias de língua cabriolas de mão.

Assim ficou tudo até que não.

Azevedo e silva ao volante do mini
vê a elisa a ultrapassá-lo alguns anos depois
e pensa pensa com os seus travões
Ah cabra eram tão puras as minhas intenções

E a elisa passa rindo dentadura aos clarões.



28.2.2001
Aquela triste e leda madrugada - Luís de Camões
Aquela clara madrugada - Manuel Alegre

2.4.2001
Catarina Eufémia - Sophia de Mello Breyner Andresen
Lá do planalto dos altos fornos - Mário Dionísio

13.4.2001
Busque Amor novas artes, novo engenho - Luís de Camões
Ser benfiquista - Manuel Paulino Gomes Júnior

27.06.2001
Barca Bela - Almeida Garrett
Imagem - Sebastião da Gama

29.8.2001
Vês desaparecer o rouxinol? - Joaquim Manuel Magalhães
Nunca ouvi um alentejano cantar sozinho - José Gomes Ferreira

26.9.2001
Estrada de fogo - Fiama Hasse Pais Brandão
Ao sentir tremer o mundo - António Aleixo

14.11.2001
Guerra - Cecília Meireles
Desceu tão de repente o sol - Fernando Pinto do Amaral

Gaspar Melchor de Jovellanos, por Francisco Goya

sábado, 21 de março de 2020

COMEÇA A PRIMAVERA

Começa, sem que nisso se fale. Verlaine, o do absinto, falava-nos do luar. O tom crepuscular da (trucidada pela crítica) encenação de La traviata levou-me de um ponto ao outro. Aquele ar de gazebo tem a ver com o luar.

Clair de lune

Votre âme est un paysage choisi

Que vont charmant masques et bergamasques
Jouant du luth et dansant et quasi
Tristes sous leurs déguisements fantasques.

Tout en chantant sur le mode mineur

L'amour vainqueur et la vie opportune,
Ils n'ont pas l'air de croire à leur bonheur
Et leur chanson se mêle au clair de lune,

Au calme clair de lune triste et beau,

Qui fait rêver les oiseaux dans les arbres
Et sangloter d'extase les jets d'eau,
Les grands jets d'eau sveltes parmi les marbres.


sexta-feira, 20 de março de 2020

RAINHAS DO MAR

Dia de repetições aqui do blogue. Duas mulheres geniais, que viveram poucos mas intensos anos: Cecília Meireles (1901-1964) e Margaret Bourke-White (1904-1971).

O REI DO MAR
Muitas velas. Muitos remos.
Âncora é outro falar...
Tempo que navegaremos
não se pode calcular.
Vimos as Plêiades. Vemos
agora a Estrela Polar.
Muitas velas. Muitos remos.
Curta vida. Longo mar.
Por água brava ou serena
deixamos nosso cantar,
vendo a voz como é pequena
sobre o comprimento do ar.
Se alguém ouvir, temos pena:
só cantamos para o mar...
Nem tormenta, nem tormento
nos poderia parar.
(Muitas velas. Muitos remos.
Âncora é outro falar...)
Andamos entre água e vento
procurando o Rei do Mar.