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quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

GEOMETRIA DESCRITIVA

A manhã de domingo pela Lisboa Oriental deu para um passeio ao Museu Nacional do Azulejo. Um tesouro escondido na cidade. Um sítio deslumbrante e muito português.

Havia desenhos geométricos por toda a parte. Para quem, como eu, gosta destes padrões foi divertido e proveitoso.

O binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo.
O que há é pouca gente para dar por isso.
óóóó---óóóóóó óóó---óóóóóóó óóóóóóóó

(O vento lá fora.)

Álvaro de Campos, 15-1-1928




domingo, 6 de dezembro de 2020

DIA DE QUASE INVERNO - II

Mudando de assunto

Entramos no inverno longo túnel

A noite cresce como a orla da maré

numa manhã de mar e de neblina

Nunca mais saberei quem passou no corredor

Estendo-te a mão por cima destes séculos agrippa d’aubigné

Se eu pudesse lutero fazer alguma coisa por ti

Assim recordo apenas múltiplas cadeiras onde me sentei

e aquelas coisas todas que esqueci

Alguém alguma vez pela vidraça de um café

me terá visto e terá querido ser quem sou?

Pintaria matisse a dança II

alguém leria a trilogia das barcas

«Foi assim que voltei para frança»

Para onde voltaste verdadeiramente erasmo?

Estou tanto na velhice como nestes dias

compro o meu sono em comprimidos na farmácia

juro que nunca vi a invencível explosão das folhas

e choro tudo o que passou só porque fui capaz

Eu não dispenso a morte eu quero morrer muito

levar de uma só vez aquilo que me leva

e ficar a esquecer no meu mais puro espanto

Não perguntem quem sou

neste momento em que recordo e escrevo

Alguma parte minha banha agora

o mar mediterrâneo do verão?

Farão ski em sesimbra ao fim da tarde

ou em vila do conde uma certa manhã?

E uns olhos azuis no comboio para versalhes?

E que fazer agora destas mãos

da cara que mostrar todos os anos par?

Entramos no inverno. Quantos são?

Tenho uma vasta obra publicada

e tenho a morte em preparação

in Homem de Palavra[s]
Hoje, veio-me à memória este poema de Ruy Belo (1933-1978). Sempre me causou grande impressão que o poeta associasse o inverno a um túnel. O que não deixa de ser verdadeiro.
E agora? Um pouco mais de sol, um pouco mais de azul e um pouco mais de sul. Como aqui:


sábado, 5 de dezembro de 2020

DIA DE QUASE INVERNO - I

NATAL, E NÃO DEZEMBRO

Entremos, apressados, friorentos,
numa gruta, no bojo de um navio,
num presépio, num prédio, num presídio
no prédio que amanhã for demolido...
Entremos, inseguros, mas entremos.
Entremos e depressa, em qualquer sítio,
porque esta noite chama-se Dezembro,
porque sofremos, porque temos frio.

Entremos, dois a dois: somos duzentos,
duzentos mil, doze milhões de nada.
Procuremos o rastro de uma casa,
a cave, a gruta, o sulco de uma nave...
Entremos, despojados, mas entremos.
De mãos dadas talvez o fogo nasça,
talvez seja Natal e não Dezembro,
talvez universal a consoada.

Este belo poema de David Mourão-Ferreira (1927-1996) deu-me o mote do dia. Que parece ser o mote dos últimos tempos. A pandemia partirá, ainda que deixando marcas físicas e na alma. Onde é que gostaria de estar, neste preciso momento? Aqui:


segunda-feira, 30 de novembro de 2020

LISBOA CINZA

Ninguém na Avenida Lusíada, quase ninguém no Campo Pequeno. A cidade esteve deserta e estranhamente silenciosa. Parecia um cidade antiga, saída de outros tempos. De repente, alguém me vem lembrar que Fernando Pessoa desapareceu há 85 anos. A cinza da tarde fez-se noite. A cidade branca é agora uma miragem de filme.

Cai chuva do céu cinzento

Cai chuva do céu cinzento
Que não tem razão de ser.
Até o meu pensamento
Tem chuva nele a escorrer.

Tenho uma grande tristeza
Acrescentada à que sinto.
Quero dizer-ma mas pesa
O quanto comigo minto.

Porque verdadeiramente
Não sei se estou triste ou não,
E a chuva cai levemente
(Porque Verlaine consente)
Dentro do meu coração.



terça-feira, 10 de novembro de 2020

A VIDA BREVE DE BARRY LYNDON

Não conheço outro cineasta que melhor tenha escolhido as suas bandas sonoras e os temas apropriados a cada momento. Como em tantas coisas, Stanley Kubrick (1928-1999) esteve acima dos seus pares.

O final de Barry Lyndon (1975) é um momento exemplar de cinema. A ação decorre sem palavras. Os olhares e os gestos chegam para sublinhar o que se está a passar. O trio No.2 Op.100 de Franz Schubert pontua, de forma perfeita, a cena. Basta ver e ouvir.

Esta peça de Schubert é o indicativo do programa "A vida breve" de Luís Caetano na Antena 2. Vale a pena.

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

CASTELO DE MOURA - FAÇA-SE LUZ!

E ao falar do Castelo de Moura, não é que me esqueci da iluminação? Ainda por cima, um projeto ao qual estive pessoalmente ligado. Um processo construído, pago e instalado e que, por razões que agora não são relevantes, não foi possível por em funcionamento em 2017. Em fevereiro de 2018 escrevi isto: Testes de luz, feitos há uns anos, no Castelo de Moura. Um trabalho brilhante, literalmente, de Maria João Pinto-Coelho. Este foi dos projetos que não tive oportunidade de terminar. Um dia será terminado, seguramente. Hoje, a iluminação do Castelo de Moura foi parcialmente ligada. Falta a Torre de Menagem, nas suas quatro faces. Se isso for feito, fico contente, claro. Gosto sempre de ver que são concluídos projetos nos quais trabalhei.












Registei a fachada do convento, transformada em cara. Ou em carranca, melhor dizendo. Os olhos cheios de luz, como escreveu Baudelaire. Les fleurs du mal, ainda e sempre.


Le flambeau vivant

Ils marchent devant moi, ces Yeux pleins de lumières,
Qu'un Ange très savant a sans doute aimantés ;
Ils marchent, ces divins frères qui sont mes frères,
Secouant dans mes yeux leurs feux diamantés.

Me sauvant de tout piège et de tout péché grave,
Ils conduisent mes pas dans la route du Beau ;
Ils sont mes serviteurs et je suis leur esclave ;
Tout mon être obéit à ce vivant flambeau.

Charmants Yeux, vous brillez de la clarté mystique
Qu'ont les cierges brûlant en plein jour ; le soleil
Rougit, mais n'éteint pas leur flamme fantastique ;

Ils célèbrent la Mort, vous chantez le Réveil ;
Vous marchez en chantant le réveil de mon âme,
Astres dont nul Soleil ne peut flétrir la flamme !

terça-feira, 6 de outubro de 2020

CHÃO NEGRO

Foi nas palavras de Urbano e de Adriano que pensei, ao olhar este pavimento, algures na Macaronésia. E nas malhas que o tempo tece, também.














Ó Alentejo dos pobres

Reino da desolação

Não sirvas quem te despreza
É tua a tua nação.
Não sirvas quem te despreza
É tua a tua nação.

Não vás a terras alheias
Lançar sementes de morte
É na terra do teu pão
Que se joga a tua sorte.
É na terra do teu pão
Que se joga a tua sorte.

Terra sangrenta de Serpa
Terra morena de Moura
Vilas d'angústia em botão
Dor cerrada em Baleizão.

Ó margem esquerda do verão
Mais quente de Portugal
Margem esquerda deste amor
Feito de fome e de sal.
Margem esquerda deste amor
Feito de fome e de sal.

A foice dos teus ceifeiros
Trago no peito gravado
Ó minha terra morena
Como bandeira sonhada.
Ó minha terra morena
Como bandeira sonhada.

Terra sangrenta de Serpa
Terra morena de Moura
Vilas d'angústia em botão
Dor cerrada em Baleizão.

domingo, 27 de setembro de 2020

VOZES DO MAR

Tarde quente e húmida, no Funchal. Faço uma pausa enquanto o sol roda. Nunca tanto o sol me condicionou, como nestas últimas oito semanas. A luz está limpa e mediterrânica. Faço quase quatro quilómetros ao longo da Estrada Monumental. Há vozes do mar por ali.


VOZES DO MAR


Quando o sol vai caindo sobre as águas
Num nervoso delíquio d'oiro intenso,
Donde vem essa voz cheia de mágoas
Com que falas à terra, ó mar imenso?...

Tu falas de festins, e cavalgadas
De cavaleiros errantes ao luar?
Falas de caravelas encantadas
Que dormem em teu seio a soluçar?

Tens cantos d'epopeias? Tens anseios
D'amarguras? Tu tens também receios,
Ó mar cheio de esperança e majestade?!

Donde vem essa voz, ó mar amigo?...
... Talvez a voz do Portugal antigo,
Chamando por Camões numa saudade!

Florbela Espanca

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

POESIA NA LOURINHÃ

Retomo o périplo arquitetónico. No meio dos projetos e das fachadas, há outro Portugal que surge. Mesmo a chegar à Lourinhã, encontro esta placa:










LENHA BATATA

PARA AGRIA E DOCE

LAREIRA


No verso lê-se:

BATATA LENHA

AGRIA E DOCE PARA

LAREIRA


Em tempos que já lá vão o Jornal de Letras publicava coisas assim. Os autores eram apresentados como novos valores da poesia.

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

SUDÃO ORIENTAL

Sudão - سُودَان [sûdân] é o plural de أَسْوَد [as-swad], que quer dizer negro. Antes designava toda uma parcela de África. Hoje é uma zona específica. De onde vem Nyanjam Malek. E não, a beleza não é "exótica". A beleza é.


Femme noire

Femme nue, femme noire
Vétue de ta couleur qui est vie, de ta forme qui est beauté
J'ai grandi à ton ombre ; la douceur de tes mains bandait mes yeux
Et voilà qu'au cœur de l'Eté et de Midi,
Je te découvre, Terre promise, du haut d'un haut col calciné
Et ta beauté me foudroie en plein cœur, comme l'éclair d'un aigle

Femme nue, femme obscure
Fruit mûr à la chair ferme, sombres extases du vin noir, bouche qui fais lyrique ma bouche
Savane aux horizons purs, savane qui frémis aux caresses ferventes du Vent d'Est
Tamtam sculpté, tamtam tendu qui gronde sous les doigts du vainqueur
Ta voix grave de contralto est le chant spirituel de l'Aimée

Femme noire, femme obscure
Huile que ne ride nul souffle, huile calme aux flancs de l'athlète, aux flancs des princes du Mali
Gazelle aux attaches célestes, les perles sont étoiles sur la nuit de ta peau.

Délices des jeux de l'Esprit, les reflets de l'or ronge ta peau qui se moire

A l'ombre de ta chevelure, s'éclaire mon angoisse aux soleils prochains de tes yeux.

Femme nue, femme noire
Je chante ta beauté qui passe, forme que je fixe dans l'Eternel
Avant que le destin jaloux ne te réduise en cendres pour nourrir les racines de la vie.

Léopold Sédar Senghor, Chants d'ombre


quarta-feira, 19 de agosto de 2020

HYDRA

Na televisão, passa uma série filmada em Corfu. Creio que é em Corfu, mas não me dei ao trabalho de confirmar. Recuo 14 anos e desemboco em Hydra e no Mosteiro do Profeta Elias, perto da cidade em linha reta, mas lá bem no alto.

Essa é uma memória de Hydra. As outras:

Que éramos bem mais novos (nós 43, a Luísa tinha 9, o Manuel ainda não chegara aos 13);

O porto;

Uma ilha sem carros;

Uma cidade que não é branca de postal turístico;

A árvore no meio da praça;

O restaurante Manolis, cuja dona nos atendia e depois recuava sem nos virar as costas, parecendo que deslizava sobre rodas;

A trovoada medonha que se abateu sobre a ilha;

Um poema de Sophia.

Há na manhã de Hydra uma claridade que é tua
Há nas coisas de Hydra uma concisão visual que é tua
Há nas coisas de Hydra a nitidez que penetra aquilo que é olhado por um deus
Aquilo que o olhar de um deus tornou impetuosamente presente -

Na manhã de Hydra
No café da praça em frente ao cais vi sobre as mesas
Uma disponibilidade transparente e nua
Que te pertence

O teu destino deveria ter passado neste porto
Onde tudo se torna impessoal e livre
Onde tudo é divino como convém ao real


Hydra, Julho de 1970


domingo, 26 de julho de 2020

MÉRTOLA, PELA MANHÃ


Continuando a perseguir o sr. Duarte Darmas. Hoje, pela manhã, recordando um poema de Cesariny. Porque Mértola é fugidia. A luz de Mértola escapa-se-nos, ao minuto. A vila ganha, a cada instante, contornos físicos. A luz que perdi hoje, vou encontrá-la amanhã.

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco

quarta-feira, 22 de julho de 2020

LABIRINTO BABILÓNICO

Um labirinto em argila, com cerca de 4.000 anos. Esta extraordinária peça pertence a uma coleção norueguesa, a Schoyen Collection.

De Jorge Luis Borges (1899-1986), o homem dos labirintos:

LABERINTO

No habrá nunca una puerta. Estás adentro
y el alcázar abarca el universo
y no tiene ni anverso ni reverso
ni externo muro ni secreto centro.

No esperes que el rigor de tu camino
que tercamente se bifurca en otro,
que tercamente se bifurca en otro,
tendrá fin. Es de hierro tu destino

como tu juez. No aguardes la embestida
del toro que es un hombre y cuya extraña
forma plural da horror a la maraña

de interminable piedra entretejida.
No existe. Nada esperes. Ni siquiera
en el negro crepúsculo la fiera.

"Elogio de la sombra" (1969)


sábado, 18 de julho de 2020

CAMOËNS

Essa coisa do til... E dos ditongos... Em todo o caso, a tela perpetua a morte de Camões. É obra de Joseph Léon de Lestang-Parade (1810-1887) e está hoje no Musée Granet, em Aix-en-Provence.

Le Camoëns escreveu sonetos como este:

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontade
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.
O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E enfim converte em choro o doce canto.
E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.



sexta-feira, 17 de julho de 2020

MANTOS DE LUZ

A fotografia de cima é de ontem à noite, em Moura. Houve celebração, nas Festas em Honra de Nossa Senhora do Carmo, em tempos de pandemia. A ideia foi muito feliz e resulta lindamente. Cobrir o chão com luz dá aquele tapete e ilumina o tempo que há-de vir.

A de baixo pertence ao projeto Caligrama, que a artista plástica Eva Lootz montou no Khan Assad Pasha, na cidade velha de Damasco, no Outono de 2003.

E, de Fernando Pessoa,

NÃO QUERO IR ONDE NÃO HÁ A LUZ,


Não quero ir onde não há a luz,
Do outro lado abóbada do solo,
Ínfera imensa cripta, não mais ver
As flores, nem o curso ao sol de rios,
Nem onde as estações que se sucedem
Mudam no campo o campo. Ali, no escuro,
Só sombras múrmuras, êxuis de tudo,
Salvo da saudade, eternas moram;
Região aos mesmos íncolas incógnita,
Dos naturais, se os tem, desconhecida.
Ali talvez só lírios cor de cinza
Surgirão pálidos da noite imota.
Ali talvez só gelo com as águas,
Como a cegos, serão, e o surdo curso,
No côncavo sossego lamentoso,
Se acaso à vista habituada aclare,
Será como um cinzento tédio externo.

Não quero o pátrio sol de toda a terra
Deixar atrás, descendo, passo a passo,
A escadaria cujos degraus são
Sucessivos aumentos de negrume,
Até ao extremo solo e noite inteira.

Para que vim a esta clara vida?
Para que vim, se um dia hei-de cair
Da haste dela? Para que no solo
Se abre o poço da ida? Porque não
Será sem fim (...)

sábado, 11 de julho de 2020

... FICA NO NORTE E É VILA DO CONDE

Há muitos anos que não ía a Vila do Conde. A passagem foi rápida, para fotografar um edifício desenhado pelo prolixo Octávio Lixa Filgueiras (1922-1996). Ao vivo, gostei bem mais do que os alçados vistos no arquivo, devo dizer.

À chegada, um taipal da autarquia tinha um excerto de um poema de Ruy Belo (1933-1978), dedicado a Vila do Conde. É, creio, uma das mais bonitas declarações de amor a um sítio.

Nem o arquiteto nem o poeta eram de Vila do Conde, por sinal.


O lugar onde o coração se esconde
é onde o vento norte corta luas brancas no azul do mar
e o poeta solitário escolhe igreja pra casar
O lugar onde o coração se esconde
é em dezembro o sol cortado pelo frio
e à noite as luzes a alinhar o rio
O lugar onde o coração se esconde
é onde contra a casa soa o sino
e dia a dia o homem soma o seu destino
O lugar onde o coração se esconde
é sobretudo agosto vento música raparigas em cabelo
feira das sextas-feiras gado pó e povo
é onde se consente que nasça de novo
àquele que foi jovem e foi belo
mas o tempo a pouco e pouco arrefeceu
O lugar onde o coração se esconde
é o novo passado a ida pra o liceu
Mas onde fica e como é que se chama
a terra do crepúsculo de algodão em rama
das muitas procissões dos contra-luz no bar
da surpresa violenta desse sempre renovado mar?
O lugar onde o coração se esconde
e a mulher eterna tem a luz na fronte
fica no norte e é vila do conde

sábado, 27 de junho de 2020

VAMOS VER O POVO, VAMOS VER O POVO...

"Ser rico deve ser uma coisa porreira...", disse aquele meu amigo, bem mais velho que eu, e soltou uma sonora gargalhada. Estávamos em casa dele, na Lapa, e na televisão passava um documentário sobre a rodagem do "Apocalypse now". Francis Ford Coppolla, deus ex machina, regia aquele exército num jeito barroco. Os meios eram impressionantes. A cena dos helicópteros foi filmada em tempo real, e sem recurso a computadores. Uma coisa de ricos.

Lembrei-me muitas vezes deste episódio, nos últimos três meses. A diferença entre uns e outros está bem espelhada naquele que é um dos palcos evidentes da diferenciação social: os transportes públicos. O presidente da Câmara de Loures, Bernardino Soares, deixou isso bem claro numa entrevista à Antena Um, a meio da semana. Há mais casos naqueles concelhos - Amadora, Loures, Odivelas etc. - precisamente porque são os sítios onde as pessoas mais usam os transportes públicos e onde não têm alternativas Têm mesmo de ir trabalhar e têm de ir assim. A todos ocorre "ser rico deve ser uma coisa porreira...". É esse o teor, com nuances, de muitas conversas que ouço nos transportes públicos.

As fantasias ambientais que se propagandeiam, as ideias dos transportes limpos, baratos e eficazes, são boas para abrir telejornais e para as páginas da imprensa dominada pelas classes A e B. A realidade, e essa eu conheço bem!, é outra. A outra realidade é a do povo. Que uma certa classe política - não o PCP, que esse está sempre onde está o povo - frequenta, com curiosidade de zoo.



Vamos ver o povo
Que lindo é
Vamos ver o povo.
Dá cá o pé.

Vamos ver o povo.
Hop-lá!
Vamos ver o povo.

Já está. 


Mário Cesariny de Vasconcelos (1923-2006) in Nobilíssima Visão (1959)

quinta-feira, 18 de junho de 2020

A PROPÓSITO DE HIPOCRISIA

A hipocrisia e a mentira são irmãs gémeas. Ao lado delas está o bem-parecer. Desse minueto de sorrisos falsos se alimenta muita gente.
Squelette arretant masques (1891) - James Ensor
AS PESSOAS SENSÍVEIS
As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas
O dinheiro cheira a pobre e cheira
À roupa do seu corpo
Aquela roupa
Que depois da chuva secou sobre o corpo
Porque não tinham outra
O dinheiro cheira a pobre e cheira
A roupa
Que depois do suor não foi lavada
Porque não tinham outra
“Ganharás o pão com o suor do teu rosto”
Assim nos foi imposto
E não:
“Com o suor dos outros ganharás o pão”.
Ó vendilhões do templo
Ó construtores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheios de devoção e de proveito
Perdoai-lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem.

Sophia de Mello Breyner Andresen

terça-feira, 9 de junho de 2020

A PROPÓSITO DE SOLIDARIEDADE

Confunde-se, amiúde, a ideia de solidariedade com caridade. Uma e outra não são, sequer, as duas faces de uma moeda. A propósito do calor da solidariedade aqui fica um poema de Alexandre O'Neill (1924-1986). Foi escrito no ano quente de 1975.

A CAMA QUENTE

Homenagem aos mineiros do Chile
que dormem, singelo,
pelo sistema de "a cama quente"


Na mina trabalha-se por turnos.
Quando se volta, nem se tiram os coturnos.

Bebido o café negro e trincado o casqueiro,
joga-se o corpo ao sono, mas primeiro,

enxota-se o camarada da cama ainda quente,
que não há camas, no Chile, pra toda a gente.

Do calor que sobrou o nosso se acrescenta
pra dar calor ao próximo que entra.

Vós, que dormis em camas, como reis,
tantas horas por dia, não sabeis

como é bom dormir ao calor de um irmão
que saiu ao nitrato ou ao carvão

e despertar ao abanão (é o contrato!)
de um que chega do carvão ou do nitrato!

É este sistema, minha gente,
que se chama no Chile "a cama quente"...


A Serra Pelada, na objetiva de Sebastião Salgado

terça-feira, 5 de maio de 2020

LÍNGUA PORTUGUESA

O cartaz é muito bonito.
Os poemas em língua portuguesa também o são.
Esta cantiga de amigo, de Martim Codax, está na raíz da nossa língua.

Ay Deus, se sab' ora meu amigo

Ay Deus, se sab' ora meu amigo
com' eu senneira estou en Vigo!
E vou namorada.

Ay Deus, se sab' ora meu amado
com' eu en Vigo senneira manno!
E vou namorada.

Com' eu senneira estou en Vigo,
e nullas gardas non ei comigo!
E vou namorada.

Com' eu senneira en Vigo manno,
e nullas gardas migo non trago!
E vou namorada.

E nullas gardas non ei comigo,
ergas meus ollos que choran migo!
E vou namorada.

E nullas gardas migo non trago,
ergas meus ollos que choran ambos!
E vou namorada.