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terça-feira, 24 de setembro de 2019

NO MEU TEMPO...

"No meu tempo é que era bom...". Era? Não era. Bom era eu ter 20 ou 21 anos. De resto, o ensino universitário era pior, as bibliotecas eram piores, as instalações eram piores. "Eles" agora sabem menos? De certo modo, sim. Mas são os menos culpados desta situação. No meu tempo era pior e havia menos condições. Ontem, à noite, ao terminar a preparação de uma aula, dei-me conta da multiplicidade de recursos que temos ao nosso dispor e a forma como podemos / devemos utilizá-los em nosso benefício. Evitando os pop-ups, que quase se tornaram a dominante.

Em jeito de exemplo. Foi com enorme prazer que dei, há tempos, com desenhos do arquivo de de K.A.C. Cresswell (1879–1974) num site ligado à Fundação Aga Khan. Estão pela net essas e muitas outras coisas, outrora inalcançáveis. São pequeníssimos exemplos que ajudam a mostrar que agora é que é bom.


Ribat de Sousse

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

NATUREZA MORTA COM BIFE

Anda tudo em polvorosa por causa de uma decisão do reitor da Universidade de Coimbra. Não haverá mais carne de vaca nas cantinas da vetusta. Parece medida mais oportunista que outra coisa, como aliás se viu pelo que a seguir disse o líder do PAN.

Havia carne de vaca nas cantinas? Sorte a deles. Nos meus já distantes tempos de estudante (1981/1985) não me recordo, em momento algum!, de tal ter degustado. E bifes só nas natureza mortas das aulas de História da Arte.

Conheci bem três locandas: a de Ciências, a Velha e a Nova, sendo esta última a menos péssima das três. As refeições ficavam por 35$00 (0,15 €).

Raphaelle Peale (1774-1825 pintou este Still Life with Steak c.1817
Munson Williams Proctor Museum of Art

terça-feira, 17 de setembro de 2019

REGRESSO ÀS AULAS

Terças e quintas ao fim dia é altura de rumar à Avenida de Berna. Lecionar História do al-Andalus é o próximo passo. Não dou aulas a uma licenciatura desde 2011 ou 2012. Uma quase "eternidade". Regressar à Universidade Nova agrada-me pelas boas recordações que guardo da casa. Nos tempos de licenciatura, olhávamos, em Letras, a Nova como um sítio rígido e um tanto sisudo. Descobri depois que não era assim, quando lá fiz o Mestrado. O que acontece é que Letras tinha uma irrequieta associação  (bem me lixei à conta disso...) e isso fazia toda a diferença.

Em todo o caso, a história é agora, literalmente outra. A NOVA FCSH é o sítio que se segue, em 2019/2020. Hoje é o dia de arranque.

domingo, 8 de setembro de 2019

CAMINHOS DA HISTÓRIA - 2019/2020

Com a descendência na Universidade (Universiteit Leiden e ISCTE), só mesmo a curiosidade académica me fez rever notas de acesso e estabelecer comparações. Candidatei-me, no verão de 1981, a História (variante de História da Arte), a Comunicação Social e a Antropologia. Tinha 14,85 de nota de candidatura (uma classificação que não era especialmente alta) e desejava ardentemente não entrar em História da Arte, para poder estudar Comunicação Social. Falhei. O resto não foi mau de todo. Houve estudo (tive melhores notas na faculdade que no liceu), houve política e, sobretudo, o despertar para o mundo e para a idade adulta.

Em 1981/82 foram admitidos, na Faculdade de Letras de Lisboa, 200 alunos em História e 42 em História da Arte. Este ano, História, História da Arte e Arqueologia somaram 138 admissões. Pagava de propinas 6 euros, agora pagam-se 871 euros.

Mais comparações, ao nível das notas de entrada:
História
Universidade de Lisboa - 14,30
Universidade Nova de Lisboa - 15,40 (!)
Universidade de Coimbra - 13,80
Universidade do Porto - 15,28

História da Arte
Universidade de Lisboa - 12,10
Universidade Nova de Lisboa - 12,25
Universidade de Coimbra - 12,00
Universidade do Porto - 14,20

Arqueologia
Universidade de Lisboa - 12,20
Universidade Nova de Lisboa - 12,80
Universidade de Coimbra - 11,80
Universidade do Porto - 13,44

segunda-feira, 1 de julho de 2019

O MOODLE E O RESTO


Nenhum estudante do ensino superior de “A Planície” ignora esta expressão. MOODLE quer dizer Modular Object-Oriented Dynamic Learning Environment. É uma plataforma de apoio ao estudo. Diz a wikipedia (e isto vale o que vale) que está disponível em 75 línguas diferentes. Conta com 25.000 websites registados, em mais de 175 países.
O meu entusiasmo com estas plataformas é limitadíssimo. Habituei-me a carregar nelas a bibliografia e os powerpoints das aulas. Como estes me servem apenas de ponto de partida, não é terrivelmente interessante passar aos alunos um desfilar de imagens. Mas as regras são essas.
O meu primeiro embate com as benditas plataformas deu-se há bem mais de 10 anos. Fui aos Serviços Académicos, em Gambelas, lançar as notas. “Ah, mas isso agora é feito na plataforma”. A senhora sentou-se ao meu lado e garantiu “isto é facílimo”. Faz-se assim, assim e assim. E assim e assim. Ao oitavo ou nono “agora clica aqui”, pedi “espere, espere”. Puxei do bloco de apontamentos e fiz um diagrama com setas, repetindo os passos. Uma seta na diagonal para cima e para a direita, outra para o lado, agora em cor vermelha. Um círculo. Um ponto de exclamação, auxiliares de memória uns a seguir aos outros. Expliquei a uma atónita funcionária “assim, não tenho de usar a memória para repetir estes passos de cada vez que aqui venho”. Olhou-me com um ar de piedade. Senti a tentação de lhe dizer que, no meu liceu, havia um pbx (o que será um pbx?, perguntará algum jovem que leia este texto), os “pontos” eram feitos com stencil, não havia computadores pessoais, muito menos havia moodle.
O moodle tem vantagens? Sim, tal como a plataforma “academia”. Tal como é uma tremenda vantagem podermos recorrer a textos que estão disponíveis na net e aos quais antes só podíamos aceder em longínquas bibliotecas. Mas o moodle e as plataformas não excluem as bibliotecas, a recolha de apontamentos e, sobretudo, as longas horas de conversa à volta de temas. "Sabem como é que recrutam professores para uma das melhores universidades americanas? Pedem três livros escritos por cada um dos candidatos e é com base nisso que fazem a seleção". A afirmação foi feita ao nosso grupo, em Mértola, por José Mariano Gago, há uns bons 10 anos. Ou seja, nem peer reviews, nem dados coisométricos, nem citações, apenas a leitura e a análise de textos.
A investigação tornou-se uma técnica ensimesmada e defensiva. “Tens um estilo de escrita que é pouco académico”, comentou uma muito jovem amiga. Repetia, sem o saber, o comentário da minha orientadora de mestrado. Tomei a frase como um elogio. Ora então, vivam então a liberdade da escrita e a busca da perfeição da escrita. É nisso que penso sempre, olhando as pisadas de António Borges Coelho, a única pessoa que conheço que sabe conjugar linguagem poética, um estilo fluido de narrativa e o absoluto rigor de análise. Isso, e a leitura, são coisas decisivas. O moodle é uma circunstância com a qual se tem de viver. Como a rinite crónica.
Em setembro, regressa o moodle – via Universidade Nova - à minha vida. Será utilizado de forma parcimoniosa e pessoal. E com o recurso a diagramas. Daqueles que causam risos em colegas mais novos dos serviços académicos.

Crónica publicada hoje, em "A Planície"

terça-feira, 18 de junho de 2019

BIBLIOTECA NACIONAL - UMA VIAGEM NO TEMPO

Por qualquer injustificada razão, era considerado por alguns colegas de licenciatura como um maníaco das bibliotecas. Um pacífico louco furioso, capaz de ficar horas a fio fazendo fichas e coligindo apontamentos. Ou transcrevendo manuscritos na Torre do Tombo. É verdade que gostava de frequentar bibliotecas e arquivos. O resto é invenção de almas mal intencionadas.

Recuei hoje mais de 30 anos, ao visitar a interessante exposição que a Biblioteca Nacional tem patente. Temos mesmo de visitar a exposição, porque durante a hora do almoço os depósitos estão fechados e as requisições de livros ficam em lista de espera. Que tinha a exposição de interessante? A memória da antiga biblioteca, no Chiado. Os desenhos de António Pardal Monteiro e de Jorge Chaves, bem mais orgânicos (e por isso foram chumbados) que a solução final de Porfírio Pardal Monteiro. O mobiliário de Daciano da Costa, sempre à frente do tempo e sempre com soluções intemporais. Deste autor eram os ficheiros em madeira, que enchiam em tempos a sala de referência. Perdi o conto às vezes que abri e fechei essas gavetas e dei volta aos blocos de mobiliário.

Recordo com clareza (esta é para os amigos que me acusam de maníaco) o primeiro livro que requisitei na Biblioteca Nacional, nos primeiros dias de 1982: ÉTUDES SUR LES COLONIES MARCHANDES MÉRIDIONALES À ANVERS DE 1488 À 1567 : PORTUGAIS, ESPAGNOLS, ITALIENS. Um estudo de Jan-Albert Goris (1899-1984), publicado em Lovaina em 1925. O meu primeiro trabalho na Faculdade foi sobre a feitoria portuguesa de Antuérpia. A leitura, no mesmo ano, de capitalismo monárquico português, do académico paulista Manuel Nunes Dias, começou a desenhar-me uma dúvida, depois transformada em certeza: não temos emenda nem cura...


segunda-feira, 17 de junho de 2019

JUDEUS - A ARQUEOLOGIA DOS ESQUECIDOS

Amanhã vou ter uma manhã um pouco diferente. E fico contente por isso. Não pelo facto de ser diferente, em si.

Mas por razões objetivas:
Pelo interesse do tema. A negação do passado judaico tornou-se mais feroz e violenta que a do passado muçulmano. Há um longo caminho a fazer neste domínio. Trabalhos como o de Pedro Mendes são passos decisivos num domínio pontuado por sombras densas;
Por voltar a encontrar o Luis Sebastian e o Adolfo Silveira Martins, que não vejo há anos (o percurso autárquico tornou-me "invisível" neste meio);
Pelo regresso à Nova, que já foi, em diferentes ocasiões "o meu sítio" (aluno do Mestrado de História Medieval entre 1990 e 1992 e, anos volvidos, professor convidado) e que voltará a sê-lo, dentro de meses. Com a curiosidade de, pela primeira vez, ir lecionar numa licenciatura.

quinta-feira, 6 de junho de 2019

1757 DIAS E 18.236 KMS. EM TRIÂNGULO ISÓSCELES

Un port est un séjour charmant pour une âme fatiguée des luttes de la vie. L’ampleur du ciel, l’architecture mobile des nuages, les colorations changeantes de la mer, le scintillement des phares, sont un prisme merveilleusement propre à amuser les yeux sans jamais les lasser. Les formes élancées des navires, au gréement compliqué, auxquels la houle imprime des oscillations harmonieuses, servent à entretenir dans l’âme le goût du rythme et de la beauté. Et puis, surtout, il y a une sorte de plaisir mystérieux et aristocratique pour celui qui n’a plus ni curiosité ni ambition, à contempler, couché dans le belvédère ou accoudé sur le môle, tous ces mouvements de ceux qui partent et de ceux qui reviennent, de ceux qui ont encore la force de vouloir, le désir de voyager ou de s’enrichir.


Le port, de Charles Baudelaire, para quem está de regresso.

sexta-feira, 31 de maio de 2019

ANTÓNIO BORGES COELHO - DIA DE CONDECORAÇÃO

Foi esta tarde, no apropriado cenário da Biblioteca da Ajuda. A Ministra da Cultura entregou a António Borges Coelho a Medalha de Mérito Cultural. Que se veio juntar a outras condecorações que lhe tinham sido atribuídas. Fiz questão em estar, pela enorme admiração que tenho pelo António. Porque sem o seu "Portugal na Espanha Árabe" nunca teria escolhido este caminho. E pelo telefonema descontraído de há umas semanas "oh pá, a ministra vai-me dar uma medalha, vê lá se podes aparecer na Ajuda".

Foi bom ter ido. Ouvi-o falar dos seus historiadores de referência, Fernão Lopes, João de Barros e Alexandre Herculano. Ouvi-o invocar a família, os amigos, os alunos... E ouvi a ministra fazer um quentíssimo e emotivo discurso. Não estava à espera e achei o texto lido por Graça Fonseca de enorme qualidade. Ainda bem, porque o António mereceu.

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

MANUAL DE DESTRUIÇÃO

É das piores coisas que nos podem acontecer. Nada mais dramático que a sensação de impotência ante desmandos legais. A cidade de Coimbra parece detestar o seu património. Já não bastava a chacina da Cidade Alta. Agora é na área ribeirinha.

Um trabalho final do curso de doutoramento, que ontem tive de arguir, na Universidade Nova, deu-me a dimensão de uma operação urbanística, que simboliza a mais acabada vaidade autárquica. Aspeto positivo, o trabalho de investigação da candidata é de grande qualidade e promete dar origem a uma tese de alto nível. Para o arguente, é sempre melhor assim...

De muito menos qualidade é a demolição de contornos haussmanianos. Um bota-abaixo com laivos de avanço em direção a qualquer sítio. O traço a vermelho dá nota da vergonha rasgada a estilete na Baixinha. Vai haver modernidade. E vias de circulação. Vai haver progresso. Olá se vai.


quinta-feira, 29 de novembro de 2018

PARABÉNS, LURDES!

Tínhamos falado disto no verão. Durante um almoço na esplanada do Rubro (passe a publicidade) disse-me que estava com alguma esperança. Mas não mais que isso. Transmitiu-me um pouco aquele sentimento do pode-ser-que-sim-mas-não-tenho-a-certeza. Conheço a Lurdes há mais de 30 anos e uma coisa eu sabia. Se tinha apresentado uma proposta, esta era de qualidade. Contou-me os detalhes do exigente processo de avaliação. E disse-me que até final de novembro haveria novidades. Houve. E boas. Transcrevo do site da Nova:

Conselho Europeu de Investigação (European Research Council, ERC), distinguiu Maria de Lurdes Rosa, Professora da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade NOVA de Lisboa (NOVA FCSH) e investigadora do Instituto de Estudos Medievais, com uma bolsa de 1,6 milhões de euros. Esta bolsa é a primeira Consolidator Grant na área da História atribuída pelo ERC a um investigador português.
O financiamento permite continuar a estudar a história dos morgados nos séculos XIV a XVII, numa perspetiva comparada, em Portugal, seus espaços atlânticos, e outras sociedades da Europa do sul.
Ao trabalho, Lurdes. E muitos parabéns!

terça-feira, 27 de novembro de 2018

UNIVERSIDADE DE LISBOA - PRÉMIO 2018

Feliz final de tarde, o de ontem. A cerimónia de entrega do Prémio Universidade de Lisboa de 2018 teve lugar no salão nobre da Reitoria. António Borges Coelho recebeu a distinção das mãos do Reitor, António Cruz Serra, e do Presidente da Caixa Geral de Depósitos, Paulo Macedo. Foi o quinto premiado, desde que, em 2014, se começou a atribuir este galardão. Antecederam-no Adriano Moreira, Nuno Teotónio Pereira, Jorge Calado e Maria de Sousa.

Continua, aos 90 anos, a escrever com o sentido poético de sempre. Continua com o rigor de sempre. Com a mesma fraternidade. Com o mesmo sentido de combate. Pela História e pelos Homens.


sexta-feira, 7 de setembro de 2018

BREVEMENTE: GRAUS ACADÉMICOS NOS BRINDES DA FARINHA AMPARO

Juro que não é embirração. Mas estes esquemas de facilitismo deixam-me furioso.
Só por brincadeira (se a brincadeira não for muito cara...) vou pedir equiparação da minha licenciatura em História da Arte - a nota nem foi má de todo - a mestrado. E se para ter mesmo o grau tiver só de apresentar uma dissertação, vou nessa.

Em linguagem direta: as licenciaturas pós-Bolonha são insuficientes. Andamos a preparar técnicos super-especializados, que ficam com um conhecimento muito limitado do que alheio à sua área específica de formação. Parece que o argumento é o mercado de trabalho. Tremam, filósofos e latinistas... À margem, e a peso de ouro, vão nascendo super-elites.

Posts anteriores sobre este tema:

18.2.2010
https://avenidadasaluquia34.blogspot.com/2010/02/bolonha.html

18.7.2011
https://avenidadasaluquia34.blogspot.com/2011/07/ainda-es-do-tempo-das-licenciaturas.html


sábado, 14 de julho de 2018

ANTÓNIO BORGES COELHO - PRÉMIO UNIVERSIDADE DE LISBOA 2018

Do site do Centro de História da Universidade de Lisboa:

O Prémio Universidade de Lisboa 2018 foi atribuído, no passado dia 4 de Julho, a António Borges Coelho, investigador emérito do Centro de História da Universidade de Lisboa e Professor Catedrático Jubilado da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Citando a deliberação do júri, "António Borges Coelho é um nome singular na historiografia portuguesa contemporânea. A sua obra incide sobre tópicos tão diversos como as raízes da expansão portuguesa, a revolução de 1383, a história da Iniquisição, a multissecular presença árabe no que é hoje Portugal, e a historiografia portuguesa. Este trabalho, inovador nos domínios tratados, culmina numa História de Portugal em diversos volumes, que prossegue, em que o autor cumulativamente delineia uma interpretação global do percurso histórico nacional, das origens à actualidade. Foi, a partir de 1974, professor na Faculdade de Letras de Lisboa, onde atingiu a cátedra. Formou, ao longo de décadas, centenas de alunos, nos quais deixou marcas, pelas suas qualidades humanas e pedagógicas. Para além da relevância do seu percurso científico, muitas vezes prosseguido em circunstâncias adversas, o júri sublinhou a grande erudição e acessibilidade da sua obra, e o seu comprometimento com a cultura e língua, evidenciado no modo como integra na narrativa dos acontecimentos a carcterização detalhada de instituições, informações demográficas, e estruturas económicas, sociais e culturais."


Gosto em especial da frase "formou, ao longo de décadas, centenas de alunos, nos quais deixou marcas, pelas suas qualidades humanas e pedagógicas". Não foi meu professor, do ponto de vista formal, mas foi-o de muitas outras formas.


*****

Ler este início do seu livro Raízes da expansão portuguesa, aos 16 anos, deixou-me marcas inapagáveis:


Ao sul e leste o Saará, a oeste o Atlântico, a norte o Mediterrâneo, a oriente desertos e a estrada natural do norte de África, a estrada das invasões, das especiarias e do Islão: eis Marrocos.

No mapa parece um cavalo deitado voltado para o Mediterrâneo com a garupa nervosa bem recortada sobre o Atlântico. A cordilheira do Atlas com os seus 4000 metros de altitude liberta-o da estepe e dos desertos do Leste. Depois os seus campos vão descendo de planalto em planalto, abrindo sobre o oceano os seus largos terraços de terras úberes. Atlas, o velho gigante, não sustenta o céu com os seus ombros possantes, mas sustém estes açafates mouriscos que podem abarrotar de cereais, de gados e de frutas. Um outro braço de montanhas corre paralelamente ao Mediterrâneo - é a cordilheira do Rif, muralha onde vêm quebrar-se as ondas invasoras.


sexta-feira, 6 de julho de 2018

MANHÃ ACADÉMICA

Dia de regressar à Nova. Interrupção nas férias, paragem nas escavações, etc. etc. Acho sempre divertido quando sou sempre o extra nestas coisas... "Está agora em que universidade, professor?", foi a pergunta ao telefone. De momento, em nenhuma.

Entre 21 relatores, só Maria João Albuquerque (da Secretaria Geral do Ministério da Administração Interna) e eu estamos fora desse grupo.

segunda-feira, 4 de junho de 2018

STARDUST MEMORIES Nº 19: ASSISTENTE DE ARQUEOLOGIA MEDIEVAL (1993/94)

Uma antiga aluna da Universidade do Algarve mandou-me esta fotografia, na sequência do encontro dos 40 anos do Campo Arqueológico de Mértola. É de uma visita de estudo da turma de Arqueologia Medieval do ano letivo 1993/94. Não havia fome em Mértola, a despeito do meu aspeto. E o casaco não me foi emprestado por alguém mais forte. Durante muitos anos, tive o hábito de comprar casacos acima do número...

A turma era um grupo muito interessado e muito perguntador. Sei de um ou dois desses tempos. Os outros, perdi-os de vista.

quarta-feira, 7 de março de 2018

PROF. DOUTOR PEDRO PASSOS COELHO

É quase impossível abordar o tema de forma distanciada. Ou, como no meu caso, sem uma funda sensação de mixed feelings. Aqui vão as perguntas que me tenho feito. E à quais respondo, da forma mais ponderada e refletida que consigo. Sendo, acima de tudo, sincero.

Gostei do desempenho de Pedro Passos Coelho como primeiro-ministro? Não.
Estou de acordo com o que fez com a Administração Pública (e nem sequer me reporto à questão salarial)? Nem por sombras.
Estou de acordo que um antigo primeiro-ministro possa dar aulas numa Universidade, mesmo sem ter feito carreira académica? Estou, completamente.
Mesmo no caso de Passos Coelho? Seguramente.
A Universidade de Lisboa contrata Passos Coelho por que razão? Dá a ideia que se trata de um chamariz ou de ter uma estrela para exibir. É prática corrente nas universidades - menos em Portugal, decerto - contratar quem dê visibilidade à instituição.
O facto de Passos Coelho se ter licenciado com perto de 40 anos devia ser motivo de chacota? A meu ver, não. A questão está em saber que percurso profissional teve antes. É que PPC não foi exatamente o que chamamos de trabalhador-estudante.
Essa prática de contratação devia ser corrente? Sim, mas deveria obrigar a tempo inteiro. Se é para ser, que o seja integralmente. E sendo corrente, não poderá, em caso algum, ser “maioritária”.
Estou de acordo com o estatuto de catedrático? Não. Imagino o que sentem os que tiveram de passar pelos sucessivos obstáculos na carreira... Deveria esse patamar de catedrático convidado a quem, pelo seu percurso de investigação ou carreira (que não de profissional da política) o justificasse. Não é o caso.
A Universidade em Portugal (sobretudo no caso das clássicas) é defensiva e endogâmica? É. É espantoso o número de pessoas que da licenciatura à cátedra vivem ao longo de todo percurso dentro da mesma casa.
Estes convidados devem ter peso na instituição? Não. As universidades não podem entrar (ainda mais) num esquema de saldos. Contributos da sociedade civil podem, e devem ser estimulados. Mas as universidades são sítios de estudo e de investigação. Desviarem-se do essencial, o que inclui a dinâmica e a presença da sociedade civil, e serem transformadas numa feira de vaidades, pode ser o hara-kiri final.

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

INVESTIGAÇÃO CIENTÍFICA E INFLAÇÃO GALOPANTE

Lamentava-me eu, há semanas do preço do livro Arabic medieval inscriptions from the Republic of Mali : epigraphy, chronicles and Songhay-Tuāreg history. Entre 1138 € (usado) e 2013 € (novo). A obra é um extraordinário trabalho de erudição de um académico brasileiro, Paulo de Moraes Farias. Estou, desde ontem, à volta do livro. Um outro estudo, sobre Kumbi Saleh (Mauritânia), veio, afinal, lançar novas pistas, e novas dúvidas, sobre as questões que estou a estudar. E, surpresa maior, os resultados das escavações (de há muitos anos) no Mali, acabam de ser publicados: SUR LES TRACES DES GRANDS EMPIRES - Recherches archéologique au Mali, de Shoichiro Takezawa e de Mamadou Cisse. Por razões de segurança, os trabalhos de terreno no Mali foram suspensos há cinco anos.

Tive a curiosidade de ver, de novo, o preço do livro de Paulo Farias. Agora vai de 1874 € (usado) a 4499 € (novo). E não, não foi impresso em folhas de ouro, como repetidamente me perguntam. É um livro de capa dura, em grande formato, mas sem luxo. Uma publicação na tradição académica anglo-saxónica, nada mais.

sábado, 2 de dezembro de 2017

PEER REVIEW

Numa reputadíssima universidade europeia foi descontada pontuação na avaliação de trabalhos de licenciatura, por estes terem recorrido a artigos sem peer review. O facto foi-me narrado por três alunas. Embora não desvalorize o sistema de peer review (no qual os trabalhos  de investigação são avaliados por "pares" do mesmo ofício), embora eu já tenha feito a chamada arbitragem para revistas portuguesas e espanholas, embora já tenha tido artigos meus avaliados por esse método, embora eu faça parte de um  painel de avaliação nacional que atribui notas a projetos, embora tudo isso, acho que se está a ir longe de mais...

Coordenei, durante mais de 20 anos, uma revista onde, de forma deliberada, rejeitámos peer reviews e normas bibliográficas obrigatórias. Tal como nos recusámos a balizar as áreas do conhecimento, entendendo-se arqueologia medieval como algo mais que escavações e materiais. Ouvi das boas. Foi vaticinada vida curta à revista (dois número, garantiu-me um "especialista"). Etc. Já lá vão 25 anos... Já não sou coordenador da publicação. Que continua de boa saúde. Livre, enérgica, tolerante para com os novos valores, anárquica e sem peer reviews.

A despeito da especificidade dos temas que as moças tratavam, numa seleção de bibliografia não deveremos ser tão estritos e rígidos que rejeitemos a aparente "menoridade" de alguns trabalhos. Umberto Eco explicou isso, num livro muito popular nos meus tempos de estudante. Fez-se o contrário e a soberba esmagou a humildade. Foi isso que aconteceu, nada mais.


quinta-feira, 15 de junho de 2017

ANTÓNIO AUGUSTO MARQUES DE ALMEIDA (1936-2017)

Foi meu professor de Matemática para as Ciências Sociais e Humanas no ano letivo de 1981/82. A primeira aula foi no dia 7 de dezembro, na sala 7. Recordo o sorriso meio irónico com que entrou na sala e deparou com a turma, silenciosa e aterrorizada. Matemática?? A cadeira era obrigatória. Com sensibilidade e inteligência, o Prof. Marques de Almeida levou a "coisa" por outros caminhos. Interessou-nos por Bento de Jesus Caraça, pela matematização do real, pela visão qualitativa e não quantitativa. As aulas eram espaços de liberdade e Marques de Almeida obrigava-nos a improvisar. Uma das componentes obrigatórias era a "apresentação oral". Tinhamos de falar durante 10 ou 15 minutos sobre um tema à nossa escolha. Optei pelo cinema português e pela visão que os estrangeiros colhiam de Portugal através dos filmes. Com aquele pequenos exercício, Marques de Almeida queria que nos disciplinássemos e que puséssemos o cérebro a trabalhar cronometricamente. Lembrei-me do seu austero "tens 10 minutos para terminar" muitas vezes ao longo da vida. Orientou-me nas leituras, obrigou-me a ler o Capitalismo monárquico português, de Manuel Nunes Dias, fez-me trabalhar sobre a feitoria portuguesa de Antuérpia e, sobretudo, ajudou-me.

Perdido em dúvidas filosóficas, sozinho e sem vontade especial de estudar História, teria errado se não fosse o apoio que me deu. A generosa nota com que terminei Matemática foi um impulso decisivo para a carreira que mais tarde escolhi. Marques de Almeida parecia-me um homem quase idoso. Constato agora que tinha apenas 45 anos... Faleceu ontem. Vi-o a última vez há uns bons quatro ou cinco anos.


Coincidências e ironias do destino: doutorei-me, em Lyon, no amphithéâtre Benveniste. O nome de judeu que motivou a criação pela família Benveniste, em 1996, de uma cátedra na Universidade de Lisboa. Primeiro diretor dessa cátedra? Marques de Almeida.

Professores importantes no meu percurso de aprendizagem?
António Augusto Marques de Almeida
Cláudio Torres
Eduardo Borges Nunes
João B. Serra
Manuel Rio-Carvalho
Muito poucos, em quatro anos.
De entre o que foram meus professores sem me terem dado aulas não posso esquecer António Borges Coelho e José Luís de Matos.