Mostrar mensagens com a etiqueta viagens. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta viagens. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 27 de agosto de 2019

MARRAQUEXE EXPRESS

Ao procurar imagens para um projeto em desenvolvimento, fui dar com um conjunto de fotografias antigas de Marraquexe, ponto central do tema que nos ocupa. Ainda desabafei para o meu colega, e amigo há quase 40 anos, "ainda vamos ser acusados de promotores do exotismo ou de orientalistas filhos do pós-colonialismo, vais ver a barraca...". Embora não pareça, ele tem muito mais juízo que eu e não (me) ligou nenhuma. Há muitos anos (seis, para ser preciso) que não vou a Marraquexe. Mas a imagem perene será, sempre, a daquele setembro de 1981, quando alguns sítios da cidade se pareciam ainda um pouco com o cliché orientalista.

E, isso sim, lembro-me de irmos no autocarro, estrada fora, enquanto na minha cabeça soavam os Crosby, Stills and Nash:

Would you know we're riding
On the Marrakesh Express
Would you know we're riding
On the Marrakesh Express
All on board that train


terça-feira, 20 de agosto de 2019

TRUJILLO

Não ia a Trujillo desde 1974. Ou, talvez, 1975. Só recordava, vagamente, a Plaza Mayor. Juraria que a estátua de Francisco Pizarro estava no centro. Afinal, não está. Também tinha a ideia de um sítio muito bonito. Uma recente passagem por Trujillo, sim é um bonito cenário, gerou a mesma sensação de desconforto que outras cidades me tinham provocado. Arrisco-me a ser defenestrado ao dizer que me asfixiam sítios como Úbeda ou Cáceres... Demasiados palácios, demasiados brasões, fachadas cegas, arquitetonicamente irrepreensíveis, mas mudas e opacas. Demasiada aristocracia, muitos marqueses. Falta gente, falta povo, sobra sobranceria. Podemos passar, mas não ficar.

Os palácios? Viraram boutique hotel ou alojamento de luxo.

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

BIBLIOGRAFIA MOURENSE - UM REGISTO PESSOAL: 7/13

Uma viagem a Bissau, no início de 2010, foi o pretexto para uma frenética recolha de imagens. As peripécias não foram poucas, durante os quatro ou cinco dias em que permaneci sozinho na cidade... O extraordinário interesse do sítio motivou o resto. Que se traduziu na proposta, ao presidente da câmara José Pós-de-Mina, para que se preparasse um pequeno livrinho, com umas dezenas de fotografias, a editar por ocasião da passagem por Moura do Eng. Armando Napoco, em maio desse ano.

A ideia de fazer uma edição bilingue esbarrou na dificuldade da tradução. Mesmo os colegas guineenses que falam o crioulo de forma corrente hesitam na forma de verter as palavras na sua forma escrita. Valeu-me o meu amigo Domingos Soares Semedo (Mingó), que convenceu a sua mulher, Odete Semedo (antiga Ministra da Educação), a fazer a tradução. O livro saiu mesmo. Aqui fica, em duas versões, o primeiro parágrafo do meu texto.


As cidades são um palimpsesto. As cidades escrevem-se no tempo e são a escrita do tempo. As cidades escrevem-se devagar, ao longo de séculos ou de milénios. Os séculos mudam-nas, apagam e reescrevem as suas páginas. Que são refeitas vezes sem conta. De dia e de noite, porque as cidades são, como as consoantes do alifato, solares e lunares. Os dias de Bissau e as noites de Moura fazem parte dessa escrita, que nem sempre é linear. E que nunca é silenciosa.


Prasas i suma ora ku bu na djubi rostu di fidju, ma bu na odja parsensa di rostu di si mame ku si papi. Sidadis o prasas e ta skirbidu na tempu, ma elis na se po di kurpu i kusa ku skirbidu. Prasa ta skirbidu divagarinhu, pikininu... pikininu, anu fora anu dentru. Anus ku ta muda sidadis, anus ku ta paga, i ta skirbi i torna skirbi mas na si fodjas. Si fodjas ta fasidu i torna fasidu, kantu bias ku ningin ka pudi kaba kontal. Prasas i suma letra di alfabetu, di dia e ta iardi suma sol, di noti e ta lumia suma lun’a. Dias di Bissau ku notis di Moura e fasi parti di e skrita; un skrita ku si kaminhu i ka di kumpridu. Ma tambi i ka di mukur-mukur.

Moura Bissau
Autores: Santiago Macias, José Pós-de-Mina e Armando Napoco
Formato - 16 x 16
Nº de páginas - 46
Ano de edição - 2010
Classificação CDU - 
77 Macías, Santiago
77(469)"19/20"
061.4(469)"2001


sábado, 27 de julho de 2019

REGRAS DE COMUNICAÇÃO

O propósito de um painel à porta de um estabelecimento é informar, certo?

Há caracóis.
Temos pneus novos e recauchutados.
Computadores a partir de xis euros.

Este portão é um naïve e eficaz meio de comunicação. Os serviços da oficina estão ali bem explicados. Menos, para mim, a parte da cama, que me parece meio enigmática.

Ainda existirá? A fotografia data de 2012 e foi feita em Bolama.

quarta-feira, 24 de julho de 2019

STARDUST MEMORIES Nº. 28: HAWKER SIDDELEY HS 748

Faz hoje 30 anos. Nunca tinha ido a Cabo Verde e aproveitámos a hospitalidade da Maria João e do Carlos. A casa deles era num sítio chamado Terra Branca. Há poucos anos, voltei ao local e foi com dificuldade que reconheci o edifício, hoje rodeado pelo crescimento da cidade da Praia.

A Praia ainda não tinha aeroporto internacional. Isso obrigou-nos a uma razoável seca de sete ou oito horas no Sal. De Lisboa para o Sal o voo era feito pela TAP, num Airbus A 310, um modelo que a companhia não tem há muito. Do Sal para a Praia, os aviões eram estes: os Hawker Siddeley HS 748, um modelo que os TACV também já não têm ao serviço. Bom, a verdade é que 30 anos se passaram...

Nunca escrevi sobre essa viagem, que tantas e tão fundas marcas me deixou. Poderia começar pela viagem no Hawker, onde um trio de animados emigrantes, vindos de Portugal, se entretinha a contar anedotas em crioulo. Não conheço a língua, mas deu para perceber que algumas delas eram sobre alentejanos.

quinta-feira, 6 de junho de 2019

1757 DIAS E 18.236 KMS. EM TRIÂNGULO ISÓSCELES

Un port est un séjour charmant pour une âme fatiguée des luttes de la vie. L’ampleur du ciel, l’architecture mobile des nuages, les colorations changeantes de la mer, le scintillement des phares, sont un prisme merveilleusement propre à amuser les yeux sans jamais les lasser. Les formes élancées des navires, au gréement compliqué, auxquels la houle imprime des oscillations harmonieuses, servent à entretenir dans l’âme le goût du rythme et de la beauté. Et puis, surtout, il y a une sorte de plaisir mystérieux et aristocratique pour celui qui n’a plus ni curiosité ni ambition, à contempler, couché dans le belvédère ou accoudé sur le môle, tous ces mouvements de ceux qui partent et de ceux qui reviennent, de ceux qui ont encore la force de vouloir, le désir de voyager ou de s’enrichir.


Le port, de Charles Baudelaire, para quem está de regresso.

domingo, 31 de março de 2019

REVIVENDO O PASSADO, EM ALMONASTER LA REAL

Ir a Paymogo era uma aventura. Hoje, são cerca de 70 quilómetros entre Moura e Paymogo. Em 1973, não era assim... Do Rosal ia-se até Cortegana, depois a Almonaster la Real, depois, serra dentro, até Valdelamusa. De seguida Cabezas Rubias, em direção a Puebla de Guzmán (onde o carocha amarelo fez, uma vez, sensação, comentavam uns miúdos "mira qué coche tan bonito...", que os VW eram uma raridade na Espanha franquista). Chegava-se a Paymogo depois de uns longos, lentos e penosos 170 quilómetros.

Ontem, a caminho de Aracena, decidi-me por um desvio a Almonaster. Há muito tempo que não visitava a mesquita. Resolvi fotografar o mihrab, para um livro em fase final de produção. Já tenho fotografias de sobra, "pero nunca se sabe..."

De Almonaster tenho sempre presentes as recordações das árvores ao longo da estrada, do ar fresck da serra, do castillo e da placa toponímica. Que teve, até final da década de 70, o símbolo da falange, bem visível à entrada "del pueblo".

Aracena continua bonita, Almonaster está no seu sossego serrano. A falange é, deo gratias, uma recordação mais que arqueológica.


sexta-feira, 15 de março de 2019

MOPTI

Há sítios inspiradores. Mopti foi um desses sítios. Em pouco mais de duas horas, fiz algumas das fotografias de que mais gostei. Não necessariamente as melhores, nem sequer boas fotografias, com toda a probabilidade. Longe da dureza urbana de Bamako, e da poluição de Bamako, o que ficou de Mopti foi o rumor das vozes das pessoas, ao longo das ruas. E a mesquita. E os homens sentados ao longo dos muros da mesquita. À espera não se sabe bem de quê. Do sítio onde estou sentado à mesquita de Mopti, mesmo ao lado do Níger, são 2740 quilómetros. Neste preciso momento, é quase perto.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

HAVERÁ TEMPO...

And indeed there will be time
For the yellow smoke that slides along the street,
Rubbing its back upon the window-panes;
There will be time, there will be time
To prepare a face to meet the faces that you meet;
There will be time to murder and create,
And time for all the works and days of hands
That lift and drop a question on your plate;
Time for you and time for me,
And time yet for a hundred indecisions,
And for a hundred visions and revisions,
Before the taking of a toast and tea.


Um excerto de um poema que não conhecia, The Love Song of J. Alfred Prufrock, de T. S. Eliot. Haverá tempo ou chegará o tempo. Foi isso que me levou à fotografia da entrada do Mausoléu de Sidi Boumedienne, no limite oriental da cidade argelina de Tlemcen.

Não sei se haverá tempo de lá regressar. Mas gostaria de retornar a Tlemcen. A cidade fará parte de um livrinho em preparação.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

STARDUST MEMORIES Nº 24: ALCÁCER CEGUER

Faz por estes dias 20 anos que fui a caminho de Tânger. A missão não era impossível, mas adivinhava-se difícil. Tratava-se de montar, em oito meses, a exposição que iria acompanhar a Cimeira Luso-Marroquina. O primeiro-ministro António Guterres designara-nos (ao Cláudio e a mim) responsáveis pelo projeto.

Foi um percurso empolgante, no qual foram parceiros de jornada Conceição Amaral, José Alberto Alegria, Francisco Mota Veiga, Pedro Moreira, Jorge Murteira, Luís Campos, João Gabriel Isidoro, Maria da Conceição Lopes, João Soeiro de Carvalho, Ana Maria Rodrigues, Pedro Moreira, Rui Patarrana, Joaquim Romero de Magalhães, entre outros, e falando só na parte lusitana.

Em pano de fundo esteve Alcácer Ceguer. Um sítio inalcançável, para mim. Vários vezes o visitei, sempre com a vaga sensação que o caminho não passaria por ali. É o meu falcão da malta privado.

Na exposição, inaugurada com grande pompa em setembro de 1999, marcaram presença duas peças da antiga catedral da cidade, provenientes das escavações arqueológicas de Charles Redman. Se a janela tem o impacto das coisas que são exóticas por estarem fora de contexto, a lápide funerária é uma peça extraordinária, na qual alguém copiou, sem saber que escrevia, um texto em cursivo. Disseram-me, há dias, que está em paradeiro desconhecido...

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

À VOLTA DAS CALIGRAFIAS - DIA 8, EM ÉVORA

Com a exposição quase a terminar, dia 8, às 18 horas, haverá conversa à volta das fotografia e das caligrafias. Participam Ana Paula Amendoeira (Diretora Regional de Cultura do Alentejo), Joaquim Caetano (Conservador no Museu Nacional de arte Antiga), Jorge Calado (curador da exposição) e o autor do blogue.

Algumas semanas mais tarde, a exposição irá uns quilómetros para noroeste. Ainda não há data marcada, mas há essa intenção.

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

AQUELA MÚSICA ANTIGA DA PROVENÇA E DA TOSCÂNIA

Ao ver ontem uma fotografia de David Monge da Silva veio-me à memória um episódio ocorrido há muitos anos (vinte, talvez). Dei boleia, até ao Rosal de La Frontera, a um casal americano: Maan Madina e Marilyn Jenkins. A dado momento, entre Aldeia Nova e Ficalho, Maan olhou atentamente a paisagem em volta e pediu-me para parar o carro. Andou um pouco pela berma da estrada, para depois me dizer "isto é tal e qual o meu Líbano; faz-me lembrar as paisagens da minha infância". Tive vergonha de lhe perguntar há quanto tempo não ía à terra, mas fiquei com a sensação que seria há muitos anos...

A fotografia sugere-me a Toscânia, tal como paisagens sírias, italianas e jordanas me lembraram a minha margem esquerda natal. Tive, em Madaba, a ilusão de andar pelas terras em volta do Sobral da Adiça.


Balada do Poema que não Há

Quero escrever um poema 
Um poema não sei de quê 
Que venha todo vermelho 
Que venha todo de negro 
Às de copas às de espadas 
Quero escrever um poema 
Como de sortes cruzadas 

Quero escrever um poema 
Como quem escreve o momento 
Cheiro de terra molhada 
Abril com chuva por dentro 
E este ramo de alfazema 
Por sobre a tua almofada 
Quero escrever um poema 
Que seja de tudo ou nada 

Um poema não sei de quê 
Que traga a notícia louca 
Da história que ninguém crê 
Ou esta afta na boca 
Esta noite sem sentido 
Coisa pouca coisa pouca 
Tão aquém do pressentido 
Que me dói não sei porquê 

Quero um poema ao contrário 
Deste estado que padeço 
Meu cavalo solitário 
A cavalgar no avesso 
De um verso que não conheço 

Que venha de capa e espada 
Ou de chicote na mão 
Sobre esta noite acordada 
Quero um poema noitada 
Um poema até mais não 

Quero um poema que diga 
Que nada há que dizer 
Senão que a noite castiga 
Quem procura uma cantiga 
Que não é de adormecer 

Poema de amor e morte 
No reino da Dinamarca 
Ser ou não ser eis a sorte 
O resto é silêncio e dor 
Poema que traga a marca 
Do Castelo de Elsenor 

Quero o poema que me dê 
Aquela música antiga 
Da Provença e da Toscânia 
Vinho velho de Chianti 
Com Ezra Pound em Rapallo 
E versos de Cavalcanti 
Ou Guilherme de Aquitânia 
Dormindo sobre um cavalo 

E com ele então dizer 
O meu poema está feito 
Não sei de quê nem sobre quê 

Dormindo sobre um cavalo 

Quero o poema perfeito 
Que ninguém há-de escrever 
Que ele traga a estrela negra 
Do canto e da solidão 
Ou aquela toutinegra 
De Camões quando escrevia 
Sôbolos rios que vão 

Que venha como um destino 
Às de copas às de espadas 
Que venha para viver 
Que venha para morrer 
Se tiver que ser será 
E não há cartas marcadas 
Só assim poderá ser 
O poema que não há 

Manuel Alegre - "Babilónia"

quarta-feira, 25 de julho de 2018

O MEU AIRBUS A380 - pequena crónica aero-ferroviária

Foi um cume da parolice a excitação à volta da aterragem de um avião, que teve lugar na passada segunda-feira, no Aeroporto de Beja.

Enquanto isso acontecia, e um engarrafamento assinalável era gerado na rotunda à entrada de Beja, os utentes da CP eram enfiados dentro de um autocarro a caminho de Casa Branca. "Vamos lá mas é ver se dou com o caminho", disse-me o motorista, quando o inquiri acerca do cumprimento do horário. Pensei que fosse uma piada. Não era. Em Viana enganou-se e teve de volta para trás numa rotunda. Não havia ninguém para cobrar o bilhete e meti-me no inter-cidades. Quis pagar com multibanco. O revisor olhou-me com ar "olha para este armado em fino". Só em contado. Mainada. Aterrei em Sete Rios com quase uma hora de atraso.

Hoje, apanhei a altometora (o inter-cidades não deu sinal de vida) para Évora. O altifalante ia educadamente avisando "senhores passageiros blablabla o atraso é de 6 minutos". Depois 20 minutos, 24 minutos, 45 minutos, 51 minutos, 56 minutos. Chega-se a Évora uma hora e cinco minutos depois da hora. Os que foram para Beja tiveram menos sorte. Tinham o autocarro à espera.

Menos mal. Temos o maior avião do mundo estancionado em Beja. Essa é que é essa.

o A380 à saída de Beja (23.7.2018)

outro A380, à saída de Sete Rios (25.7.2018)

sexta-feira, 22 de junho de 2018

MOURA, SOB O SIGNO DOS HERMANOS VARGAS

A proximidade das Festas de Moura levou um amigo a convidar-me a participar num projeto que envolve a divulgação de fotografias da cidade, e que vai ter lugar durante os dias da festa. Dei-me conta, com espanto!, que quase só tenho fotografias noturnas. Ou das escavações arqueológicas. O espectro dos Hermanos Vargas, com as suas imagens de Arequipa pairando sobre mim... Não há luas nas fotografias, mas tenho Paul Verlaine.



La lune blanche…


La lune blanche
Luit dans les bois ;
De chaque branche
Part une voix
Sous la ramée…

Ô bien-aimée.

L’étang reflète,
Profond miroir,
La silhouette
Du saule noir
Où le vent pleure…

Rêvons, c’est l’heure.

Un vaste et tendre
Apaisement
Semble descendre
Du firmament
Que l’astre irise…

C’est l’heure exquise.

segunda-feira, 18 de junho de 2018

A ALTOMETÔRA PRA LESBOA


Esta é a altometôra que veio de Beja, ontem ao fim da tarde. A CP cuida da nossa saúde. Assim, em vez de irmos gastar dinheiro ao spa e à sauna, tivemos a sauna incluída no belhete. Eu não sou de esquisitices, mas aquilo estava assim um bocadinho pro quente. E eu até nem gosto de ares condicionados. Mas aquela caixa de lata, fechada e sem se poder abrir uma janelinha, tava quente (acho que já disse isto). Ficámos à espera na Casa Branca. Bom, agora vem aí o intercidades e agora é que vai ser. Não vai. Veio outra altometôra. Elétrica e com ar condicionado e tal, mas lenta pa caraças. Ao menos era uma altometôra democrática. Nã há cá primeiras nem segundas classes. Isto é tudo 'mocrático e igual. Resultado, pudemos ver melhor a paisagem. Chegámos com meia hora de atraso. Foi uma forma de nos compensarem. Pagámos o mesmo e tivemos mais tempo de viagem.

A CP é como aqueles bares chunga onde vamos e dos quais nunca desistimos. A gente ama porque sim. E não desiste.

sábado, 16 de junho de 2018

MESQUITA DE CÓRDOVA

Um expressiva reconstituição da forma como evoluiu a mesquita de Córdova. A tecnologia permite hoje coisas assim. Dá-nos a possibilidade de, com razoável fiabilidade, ter acesso a informação útil. E didaticamente relevante.

O pior é quando ficamos por aqui. Ou seja, quando se acha que os multimedia são a solução em termos de exposições e no que à comunicação diz respeito. Não são tal. São um recurso. Estão ao serviço de um discurso. Não são O discurso.

Dito isto, tanto vezes que penso "back to basics!". Regresso às fichas de leitura, aos manuais de História da Arte, aos dicionários, à escrita à mão, com caneta de tinta permanente. Pensa-se melhor à mão... Faço sempre assim as correções, em cima de textos impressos. Com setas e diagramas. Está a ser o destino do livro sobre a Mouraria de Moura...


sexta-feira, 8 de junho de 2018

ELEMENTOS - FOGO 1

Aqui se recorda o projecto Caligrama, que a artista plástica Eva Lootz montou no Khan Assad Pasha, na cidade velha de Damasco, no Outono de 2003. O antigo espaço otomano viu o seu solo, e as escadas, preenchidos por centenas de pequenos pontos de luz, que davam ao sítio um ar ao mesmo tempo acolhedor e fantasmagórico. Não vem aqui ao caso como conheci Eva Lootz, nem como fui "desembarcar" na instalação, justamente no dia em que esta era inaugurada.

As imagens que se publicam provam bem que a criatividade e a imaginação da artista criaram um projecto de excepcional qualidade com meios muito modestos. A fotografia de cima é do site da artista. A de baixo é minha (não tinha tripé e restava-me apenas um rolo de baixa sensibilidade, que "estiquei" ao máximo...) e aqui a deixo, porque gosto de luzes e de sombras.


domingo, 3 de junho de 2018

ONE ART


O filme era de uma mediocridade absoluta e nem o estava a ver. Ia espreitando, enquanto escrevia. Às tantas ouço alguém ler um poema. Que começava "the art of losing isn't hard to master". Aí pensei "eh lá", isto é melhor que o filme. Segui o resto do poema. Era um texto de Elizabeth Bishop. Um poema muito bom. O que tem o arco nabateu de Bosra (Síria) a ver com o poema? Nada. Quase nada. É só a recordação de um sítio extraordinário. Que está perdido.

The art of losing isn't hard to master; 
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster,

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn't hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.

- Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.

segunda-feira, 28 de maio de 2018

DJAMBACÁ

Oito anos se passaram. Quase por acaso, é-me sugerido que use a fotografia, numa iniciativa a arrancar em breve, aqui em Lisboa. Verdadeiramente surpreendido, disse que sim. Veremos que se vai passar...

Há uma história por detrás desta imagem? Há. Em janeiro de 2010, acompanhei um amigo ao Bairro de Santa Luzia, em Bissau. Ia consultar uma djambacá. Pedi autorização para assistir e para fotografar. A feiticeira respondeu com um sorriso coquette e não me deixou começar sem ajeitar o lenço. A sessão foi prolongada, sempre em crioulo e pontuada com os discretos clics da M6. Revelei os rolos em Portugal. Ampliei esta fotografia. Entretanto, já ninguém me sabia dizer a identidade da djambacá ou como fazer chegar-lhe a cópia. Em 2012, levei a fotografia para a Guiné-Bissau. Numa deslocação a Bolama, alguém reconhece a senhora da fotografia. Cuja casa ficava a menos de quatro quilómetros da cidade. O local de habitação era, também, o sítio onde recebia os que procuravam a sua ajuda. Era um sítio escuro, pejado de cabeças de animais e roupa interior feminina. A avaliar pela quantidade, eram muitas as que solicitavam a sua intercessão... As inexistentes condições de luz - e a insistente presença de outras pessoas - levaram-me a não fazer uma só imagem do interior. Fica este registo, de uma viagem a um sítio remoto.

quarta-feira, 11 de abril de 2018

A SÍRIA, DOLOROSAMENTE

Não é coisa que faça com frequência. Repetir textos. Muito menos os meus. E este surge aqui pela terceira vez: 10.12.2009, 19.12.2016 e agora.

Estive na Síria na primeira quinzena de outubro de 2003. A viagem foi feita em total liberdade, à margem de excursões organizadas. O António Cunha, o motorista Fahd Kanara e eu percorremos o país de norte a sul, da fronteira turca à jordana. Uma viagem extraordinária e irrepetível. Dela dei breve testemunho em livrinho, editado em junho de 2005. 

Foi com grande constrangimento que fui vendo a destruição junto à cidadela de Alepo, onde passei várias vezes. A fotografia (de Omar Sanidiki, para a Reuters) contrasta bem com a outra, por mim feita a partir da cidadela, no dia 4 de outubro de 2013.

Estamos em abril de 2018. A guerra, promovida pelos Estados Unidos, começou há anos. O futuro não promete nada de bom.



Na rua que conduz a Bab Sharqi, em Damasco, conserva-se parte de um arco de triunfo romano. Só o arco nos faz recuar aos dias em que S. Paulo viveu naquela rua. O resto há muito deixou de existir e a procura de uma cidade desaparecida torna-se um jogo de imaginação. Talvez Paulo de Tarso passasse todos os dias debaixo do arco de triunfo romano, sobre o qual se passeia agora um gato de ar preguiçoso. Mas aquele monumento é apenas um testemunho raro de uma época esquecida e a História deixa-nos sem respostas na esquina da rua, a que leva a Bab Sharqi, e que está deserta no fim da tarde de sexta-feira.

Dos dias da Damasco romana ficaram alguns monumentos, menos à vista do que poderíamos esperar. As cidades que se lhe seguiram foram ocultando as anteriores e os roteiros turísticos que os poucos visitantes cumprem, religiosamente, guiam-se, quase só, pela cidade dos últimos 300 anos. Mas a geografia de uma cidade não é um mapa para turistas e a topografia dos sítios não se segue, encontra-se. Uma rua à direita, duas à esquerda, ao acaso e à toa, à procura de respostas.

As ruas de uma cidade são terra firme. Dá prazer deixarmo-nos levar, uma rua à direita, duas à esquerda, sempre ao acaso. Não nos perdemos, porque as trepadeiras das ruas de Damasco, a cruzarem-se nas pérgolas à nossa frente, já um dia as vimos, mas não sabemos onde. Talvez num sítio longe de Damasco. São talvez ruas sonhadas ou já vistas.

Muito do passado de Damasco está hoje escondido em bairros recônditos ou quase desapareceu. As cidades não são uma realidade imóvel e imutável. Menos ainda quando falamos de sítios como este, ocupados há milénios e abalados de tempos a tempos por convulsões, pelas dos homens e pelas que surgem das entranhas da terra. O correr dos anos, o simples martelar do sol e da chuva se encarregaram de fazer o resto. É por isso que a topografia antiga de Damasco há muito se modificou e da cidade onde viveu São Paulo só restam o arco romano na rua que vai para Bab Sharqi, a entrada oriental da cidade, a colunata à saída do souk Hamidieh e algumas das paredes da grande mesquita dos omeias.

É na mudez das pedras que está a resposta a tantas questões. São elas que nos contam o que os textos escritos tantas vezes omitem, por desconhecimento, por convicção ou por conveniência. Entre Bosra e Qalb Lozeh, desde a desolação da estepe de Qasr ibn Wardan até ao oásis de Palmyra é sempre nas pedras onde a História foi gravada que procuramos os relatos do passado. William Henry Waddington escrevia, no final do século XIX, que a causa da destruição dos monumentos antigos da Síria se devia aos muçulmanos e aos cristãos, que tinham usado os edifícios mais antigos como matéria-prima para erguer novas construções. Explicação simplista mas, em grande parte, certeira. Assim se destruiu e se refez, em cada dia, o percurso da História.

A Síria Antiga guarda-se nos museus de Damasco e de Alepo. E nos das antigas capitais coloniais do Ocidente, que pilharam, com método e eficácia, um solo inesgotável. Os mosaicos e algumas das colunas de Apameia estão hoje no Museu de Bruxelas. A maior parte da colunata está no local de origem, ao longo da grande avenida que atravessa a cidade. Ao cruzarmos o Orontes e ao chegarmos às ruínas de Apameia esperam-nos dois quilómetros de avenida deserta, guardada por gigantes de sete metros de altura, perfilados no centro de uma cidade com 255 hectares. A desolação e o silêncio de Apameia tornam-se mais evidentes no fim da tarde, quando a luz se começa a desvanecer e quando tentamos imaginar e refazer a cidade que outrora ocupou aquele planalto e da qual não restam mais que as colunas e o espólio que os ocidentais pilharam.

O coração da Síria Antiga está em Palmyra. A saga de Palmyra é notável, e inclui um desafio a Roma e uma independência ganha por pouco tempo. Roma ficava muito longe e a cidade, no meio do seu oásis, a meio caminho entre o Eufrates e o Mediterrâneo, não resistiu à tentação da liberdade. Quatro anos durou a aventura (268-272), tempo curto mas que chegou para imortalizar a cidade e Zenobia, a sua rainha. Os idiomas oficiais em Palmyra eram o grego e o aramaico. O grego ficou nas pedras e já só interessa aos epigrafistas, aquelas pessoas que transformam a história de outras pessoas em traços e símbolos e em fórmulas de gramática. O aramaico cruzou milhares de anos, tornou-se numa ilha de sons que muito poucos entendem e já só é falado em duas ou três aldeias das montanhas do Kalaamoun.

Palmyra é um mostruário de arquitraves, de fustes, de capitéis, de recordações de uma cidade perdida. Chega-se ao oásis de Palmyra depois de cruzar o deserto da Síria, entra-se na cidade pelo ocidente, pela zona onde está o vale dos túmulos. Para lá das ruínas e da cidade nova fica a frescura do oásis. As azinhagas que o cruzam estão, contudo, tão abandonadas como a alameda de Apameia. As hortas, que podiam ilustrar algum relato bíblico ou das Mil e Uma Noites, já pouco produzem, e o rumor da gente que outrora se ouvia pelos vergéis deu lugar ao som dos passos de alguns viajantes mais curiosos. São eles quem franqueia os campos de cultivo, por entre muros que não voltarão a ser reparados e no meio de um silêncio terrível, já só quebrado pelo som dos passos dos que percorrem o oásis à sombra das palmeiras.

O coração de uma Síria intemporal vive em Alepo. Cerca de mil metros separam Bab Antakyah e a cidadela. Em mil metros mergulhamos na máquina do tempo, num souk que saiu das páginas de um texto antigo. O barulho, os pregões, a venda de tecidos repetem-se sem cessar há muitos anos e já um dia ouvimos as vozes dos vendedores do souk de Alepo mas não sabemos onde. Os vendedores, que repartem o espaço com um rigor de geometra, têm centenas de anos. O tempo não passou por eles porque estão resguardados do sol e da luz do dia pela penumbra do souk. O que se vende é tão antigo como o souk, como os sabões de azeite e palma que fizeram a fama de Alepo.

Para lá dos mercados, para além dos monumentos e da História Antiga começa a outra Síria. Aceitemos a hospitalidade do Oriente enquanto o turismo não chega. Aceitemos o chá que nos oferece Muhammad Kadr al-Kadr, o guarda do forte bizantino de Qasr ibn Wardan. Entremos na casa de Brahim Abu Radwan, na aldeia de as-Srouje. Sentemo-nos na sua casa e ouçamo-lo contar a história da sua vida, os anos duros da emigração no Dubai, o regresso à aldeia, a compra de 50 ovelhas e de umas oliveiras. Partilhemos uma refeição de pão e azeite com a família de Lufte Naasif, na aldeia druza de Qalb Lozeh. É uma conversa feliz, feita de muitos silêncios, que se prolonga durante duas horas e poucas vezes, como dessa vez no norte da Síria, estive tão perto de casa. Aceitemos as duas romãs que um rapazito nos oferece à entrada do sítio de Aïn Dara enquanto nos diz “sou curdo”, a vida, o orgulho e o passado de cada comunidade a fazerem-se sentir em cada esquina. Acompanhemos Margarita Curché pelas ruas do bairro cristão de Damasco, por entre as igrejas e as mesquitas que partilham as mesmas ruas, por vezes muito perto, por vezes mesmo lado a lado. Não nos espantemos quando ela cerrar o punho em desafio e clamar em voz alta “aqui somos todos cristãos!”. Margarita refere-se ao bairro, mas o seu bairro é o seu mundo, um mundo que fica junto a Bab Touma, no extremo nordeste da cidade antiga.

Em tempos que já lá vão, a rota de ouro do comércio mediterrânico começava em Sevilha, tocava os portos da Tunísia e ia terminar lá longe, em Alexandria ou em Antioquia. Era um percurso que todos os mercadores conheciam e que várias vezes ao longo do ano tinham que percorrer. À Península Ibérica vinham buscar a prata que faltava a Oriente. Para a Península Ibérica traziam os tecidos e os perfumes que iriam tocar o corpo das andaluzas mais belas. Ou das mais ricas.

Lá longe, para lá de Antioquia, existe ainda ainda um pouco desse mundo. Fica fora das fronteiras da Europa, cada vez mais longe do Ocidente. Às portas do Levante, o ar do Mediterrâneo começa a dar lugar à aridez do deserto. É aí que começa a Síria, onde o Mediterrâneo acaba e até onde chegam as oliveiras. A algumas jornadas do mar fica o oásis de Palmyra e, mais para leste, a imensidão da Mesopotâmia.