segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

AMARELEJA - DIA 3: VINA PARANT ANIMUM VENERI, NISI PLURIMA SUMAS

O vinho estimula o amor, se não se tomar em excessoPúblio Ovídio Naso (43 a.C.-17 d.C.) sabia destas coisas, mas não sabemos a opinião da senhora da fotografia sobre o vinho ou sobre Ovídio.

Não tenho o hábito de repetir fotografias, mas esta, de Katy Grannan, merece bem uma repetição. Faço-o por causa da celebração do vinho, da pose festiva da senhora e, bem entendido, por causa de Ovídio.



No Livro III, da Arte de Amar, eis os versos 59-66:
Tende desde já na lembrança que a velhice há-de chegar;
e não deixeis, por isso, esvair-se tempo algum na ociosidade;
enquanto vos for consentido e conservardes, ainda, a idade da Primavera,
gozai; vão-se os anos, do mesmo modo que a água corrente;
nem a onda que passou voltará de novo a ser chamada,
nem a hora que passou logra tornar atrás.
Há que aproveitar a idade. Com passo rápido se escapa a idade,
e não é tão boa a que vem depois, quão boa foi a que veio antes.

Tradução de Carlos Ascensões André, Arte de Amar, Livros Cotovia, Lisboa, 2006.

domingo, 7 de dezembro de 2014

AMARELEJA - DIA 2: IN VINO VERITAS

Mais Amareleja. Rota das tabernas em perspetiva. E mais música ao longo do dia. E a oportunidade de rever amigos. Baudelaire era, talvez, demasiado otimista quanto ao que "nous rend triomphants et semblables aux Dieux"... Mas, às vezes, a sensação é um pouco essa.



Le vin du solitaire



Le regard singulier d’une femme galante
Qui se glisse vers nous comme le rayon blanc
Que la lune onduleuse envoie au lac tremblant,
Quand elle y veut baigner sa beauté nonchalante ;
Le dernier sac d’écus dans les doigts d’un joueur ;
Un baiser libertin de la maigre Adeline ;
Les sons d’une musique énervante et câline,
Semblable au cri lointain de l’humaine douleur,
Tout cela ne vaut pas, ô bouteille profonde,
Les baumes pénétrants que ta panse féconde
Garde au cœur altéré du poète pieux ;
Tu lui verses l’espoir, la jeunesse et la vie,
- Et l’orgueil, ce trésor de toute gueuserie,
Qui nous rend triomphants et semblables aux Dieux !
Charles Baudelaire, Les Fleurs du Mal, 1861

Mosaico do século III, no Museu de El Jem (Tunísia). Quem é? Baco, claro está.

sábado, 6 de dezembro de 2014

AMARELEJA - DIA 1: IN VINO SANITAS

Wine and soul é uma obra do sul-coreano Chag Tae-Sub. In vino sanitas, podia ter dito Plínio, o Velho (23-79). Não creio que tenha dito, mas para o caso tanto dá. Irei dando nota do que, nos próximos dias de celebração, se vai passar.

Começa hoje a XIII Feira da Vinha e do Vinho, em Amareleja.


Flourishing vine, whose kindling clusters 
glow
Beneath the autumnal sun, none taste of 
thee;
For thou dost shroud a ruin, and below
The rotting bones of dead antiquity.
The vine-shroud, de Percy Bysshe Shelley, é uma boa maneira de dar início a estes dias.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

PASOLINI: OS CONTOS DE CANTUÁRIA

Segundo passo na trilogia de Pier Paolo Pasolini. A história do frade que vai ao inferno tem contornos boschianos. Não O Pasolini de que mais gosto. É aqui incluído por uma questão de rigor cronológico. Antes do inspirador e, para mim, decisivo Il fiore dele mille e una notte.

Pier Paolo Pasolini em mais uma escolha cinéfila.



quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

S. JAIME DE COMPOSTELA? MAS QUEM DIABO É O S. JAIME DE COMPOSTELA?

Já lá vão uns bons anos. O "Público" tinha, na altura, um suplemento literário. Não recordo como nem porquê recebi um contacto do jornal. Queriam que eu fizesse a recensão de um determinado livro, de um consagrado medievista americano. O livro não era especialmente original ou ousado, no que à presença muçulmana diz respeito. Era suficientemente neutro e informativo e estava bem escrito. O problema foi quando comecei a chocar, uma, duas, três, várias vezes, com a referência a um misterioso S. Jaime de Compostela. "Ó deuses", pensei, será possível que?... Foi mesmo possível. A tradutora, distraidamente, não se deu conta que Santiago corresponde, em inglês, a St. James. Vai daí, encheu o livro com o nome de um santo que ninguém conhece por aquele nome. Uma daquelas chatices que obnubila o resto. O livro ainda anda lá por casa. Mas este fait-divers foi o que me ficou...

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

ÁRVORE NOSSA

Há dias melhores que outros. Hoje, o dia começou assim. Com a árvore da partilha a erguer-se à nossa frente. Fruto do engenho, do trabalho e do entusiasmo de muitos. Um esforço coletivo para termos uma árvore de Natal diferente, em Moura. Da manhã para a noite tudo mudou.



 antes

durante

depois


Cada árvore é um ser para ser em nós

Cada árvore é um ser para ser em nós
Para ver uma árvore não basta vê-la
A árvore é uma lenta reverência
uma presença reminiscente
uma habitação perdida
e encontrada
À sombra de uma árvore
o tempo já não é o tempo
mas a magia de um instante que começa sem fim
a árvore apazigua-nos com a sua atmosfera de folhas
e de sombras interiores
nós habitamos a árvore com a nossa respiração
com a da árvore
com a árvore nós partilhamos o mundo com os deuses

António Ramos Rosa

UM POUCO DE SADE

Sade morreu há 200 anos (2.12.1814). O autor é, muita vezes, reduzido a uma caricatura e a um adjetivo. O excerto que se segue é do livro Histoire de Juliette. Sade combate o complexo do pecado original. De uma forma bem discreta. O onirismo da imagem de Duane Michals vai no mesmo sentido, creio eu.


O mes amis ! je vous le demande, un homme rempli de bonté planterait-il dans son jardin un arbre qui produirait des fruits délicieux, mais empoisonnés, et se contenterait-il de défendre à ses enfants d'en manger, en leur disant qu'ils mourront s'ils osent y toucher ? S'il savait qu'il y eût un tel arbre dans son jardin, cet homme prudent et sage n'aurait-il pas bien plutôt l'attention de le faire abattre, surtout sachant très bien que, sans cette précaution, ses enfants ne manqueraient pas de se faire périr en mangeant de son fruit, et d'entraîner leur postérité dans la misère ? Cependant, Dieu sait que l'homme sera perdu, lui et sa race, s'il mange de ce fruit, et non seulement il place en lui le pouvoir de céder, mais il porte la méchanceté au point de le faire séduire. Il succombe et il est perdu ; il fait ce que Dieu permet qu'il fasse, ce que Dieu l'engage à faire, et le voilà éternellement malheureux. Peut-on rien au monde de plus absurde et de plus cruel ! Sans doute, et je le répète, je ne prendrais pas la peine de combattre une telle absurdité, si le dogme de l'enfer, dont je veux anéantir à vos yeux jusqu'à la plus légère trace, n'en était une suite affreuse.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

O ADVERSÁRIO DE DON CAMILLO

Don Camillo, o padre, e Peppone, o presidente da câmara comunista, foram os adversários e protagonistas de um célebre série de cinco filmes, produzidos nos anos 50 e 60. Vemos na imagem não o sindaco, mas sim o padre, genial criação de Fernandel.

Há pouco recebi, a propósito do prémio atribuído à Mouraria, um mail de felicitações de uma querida amiga dos tempos de faculdade. Católica e de direita, começa sempre as missivas por "Caro Peppone". OK, já me chamaram coisas piores...

VAI HAVER FESTA NA MOURARIA

A obra municipal de requalificação dos espaços públicos do bairro da Mouraria, na cidade de Moura, foi distinguida na edição deste ano dos prestigiados Prémios do Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana. Esta intervenção de reabilitação urbana foi concluída em 2013.

A candidatura da “Requalificação dos Espaços Públicos da Mouraria de Moura”, na variante “Reabilitação de Espaços Públicos”, foi formalizada pelos seus projetistas, arquitetos Sofia Salema e Pedro Guilherme, e promovida pela Câmara de Moura.

O júri dos Prémios IHRU 2014 foi constituído por personalidades indicadas pelo IHRU e por representantes da Ordem dos Arquitetos, da Associação Portuguesa dos Arquitetos Paisagistas, da Ordem dos Engenheiros, do Laboratório Nacional de Engenharia Civil e do Grémio do Património.

A cerimónia pública de entrega dos Prémios IHRU 2014 realiza-se na quinta-feira, 4, às 16:30, no Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG), em Lisboa. Preside o ministro do Ambiente, Ordenamento do Território e Energia, Moreira da Silva.

(da nota de imprensa da CMM)



Fotografias: António Dimas

Mais um passo na caminhada... Um caminho longo e difícil, iniciado há muitos anos. Mais uma obra que teve de se debater com inúmeras objeções. Agora, cada vez que ouço dizer "mais museus! mais arqueologia" fico feliz e tranquilo. Sobretudo, fico seguro do caminho que, desde 1998, andamos a percorrer.

A garantia: na primavera de 2015 haverá uma pequena comemoração, nas ruas do bairro, destinada a assinalar este prémio. Nome da dita? Há festa na Mouraria, claro está.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

ROMANCE, SEM MÉTRICA NEM RIMA, DO AUTARCA

Sem oito versos, nem métrica, nem rima. Mas "isto", entre quinta à noite e hoje ao meio-dia, foi de seguida. Ante a incapacidade poética de escrever um romance (o uso da combinação métrica homónima e tal nem pensar...), narro cinco dias intensos e recompensadores.

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1. Primeira paragem, na tarde de quinta-feira, com a abertura da Ágora Social. O espaço está a funcionar. A aposta da Câmara nesta área tem contornos claros e terrenos de intervenção mais que definidos. A Habitação é um domínio central neste contexto. Temos cerca de quatro dezenas de situações críticas a resolver. A maior estará solucionada durante o ano de 2015.

2. Sexta de manhã, deslocação a Portel. A Câmara Municipal está presente na Feira do Montado. O stand promove a Feira da Vinha e do Vinho, que terá lugar nos dias 6, 7 e 8. Mas o objetivo principal foi a participação na Assembleia Intermunicipal da Associação Transfronteiriça Lago Alqueva. Prepara-se o futuro próximo. 2014 já lá vai e 2020 está quase aí.

3. Reunião extraordinária de Câmara, pela tarde. Nada de especial a registar, para além da impreparação de algumas pessoas...

4. Festa do Centro Infantil Nossa Senhora do carmo, que cumpre 80 anos. Um momento agradável de festa, convívio e música.

5. Montaria na Contenda. Novos métodos de trabalho, novos modelos de gestão. Menos portas, mais aposta no futuro e a procura de uma crescente credibilização para a Herdade da Contenda.

6. Regresso a Moura, para intervir na sessão inaugural do encontro da JUVEBOMBEIRO. Poucas iniciativas me levaria a este blitz, sair da Contenda às 9, chegar a Moura às 9.45, falar na sessão de abertura e voltar a sair para Santo Aleixo às 10.20.

7. Regresso à Contenda. O balanço foi muito melhor do que se esperaria. Foi, sobretudo, importante registar a confiança e o otimismo que a iniciativa gerou. Próximo evento: dia 13 de dezembro.

8. No regresso, paragem na Amareleja. A obra do Pavilhão das Cancelinhas avança, de forma nítida. Em breve, será dado início à colocação da cobertura. Em meados de 2015, a Amareleja conta com mais uma importante infraestrutura.

9. Ao final da tarde, festa no Ateneu Mourense. Com o perfil da cidade, obra de Álvaro Fialho, a espreitar-nos, os amigos do grupo coral da casa puxaram pelas vozes, em jeito de convívio. Atrevi-me a fazer um pequeno registo, deixando as principais vozes na "invisibilidade"...

10. Ainda tempo, já com o dia a findar, para assistir à peça de teatro "Casamento por encomenda", pelo Grupo de Teatro Amadores de Vila Viçosa. Há uma sala de teatro na Rua do Matadouro, em Moura. Que merece ser visitada.

11. Pensava ter mais uns minutos à volta da escrita, quando uma SMS do Nuno Santana me "intimou" apareçam por volta do meio-dia e meia. Almoço na Associação de Caçadores da Póvoa. Sai-se de lá com novo compromisso: 15 de fevereiro de 2015! Planeamento é isto...

12. Tarde curta na Câmara Municipal, antes de rumar ao Cineteatro, para assistir à exibição do filme Alentejo, Alentejo, de Sérgio Tréfaut. Há muita gente que descobriu o cante alentejano na passada semana... O cante é, em Moura, património de interesse municipal desde 2005.

13. Último momento da semana, antes de umas horas de paragem: celebrando o Dia da Restauração, em Santo Aleixo. Foi bonita a festa, pá! Muita gente na praça, o Hino nacional cantado pelas crianças das escolas, animação histórica e os grupos musicais da terra.

VOLTO JÁ.

domingo, 30 de novembro de 2014

MAOÍSMO ELETRÓNICO



No meio do convívio de ontem à tarde, no ATENEU MOURENSE, o meu amigo António Canudo Capa mostrou-me o relógio de pulso "olha só esta preciosidade que comprei na China". O Tói, velho e convicto militante do PS, nunca teve tentações maoístas. Anda com o relógio por pura diversão. Consegui não me rir muito enquanto fiz a filmagem. O relojeco é, como se diz em gaulês, "un sommet du kitsch".

sábado, 29 de novembro de 2014

ÁFRICA


Ilha Nua
Coqueiros e palmares da Terra Natal
Mar azul das ilhas perdidas na conjuntura dos séculos
Vegetação densa no horizonte imenso dos nossos sonhos.
Verdura, oceano, calor tropical
Gritando a sede imensa do salgado mar
No deserto paradoxal das praias humanas
Sedentas de espaço e devida
Nos cantos amargos do ossobô
Anunciando o cair das chuvas
Varrendo de rijo a terra calcinada
Saturada do calor ardente
Mas faminta da irradiação humana
Ilhas paradoxais do Sul do Sará
Os desertos humanos clamam
Na floresta virgem
Dos teus destinos sem planuras…
Mais um continente que passa pelo blogue. Agora é a vez de África, pela linha do Equador. A pintura é do jovem René Tavares (n. 1983) e está em exposição no Espaço Cacau, na cidade de S. Tomé. Inspira-se no tchiloli. As palavras são de Alda do Espírito santo (1926-2010). Regresso ao tema S. Tomé porque, uma vez mais, tive a sensação de estar a meio de um percurso. Ou de haver outro percurso a fazer. Saí de lá com  dezenas de apontamentos, alguns projetos e, acima de tudo, essa incerteza. Só lá regressarei quando a equação do equador estiver arrumada.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

E AGORA, UMA ANEDOTA A PEDIDO

Pediram-me, há pouco, que contasse uma anedota no facebook. Aproveito o balanço para o fazer no blogue e no facebook. A história é, contudo, verídica.

Num concelho do nosso País, um certo presidente deixou essa função e passou a ser vereador. Numa reunião, alguém o interpelou "senhor vereador", ao que o visado retorquiu "senhor comendador, se faz favor!". Ante a insistência, "mas o senhor não é vereador?", a resposta veio, fulminante "sim, mas agora trate-me por senhor comendador!".

História, mais ou menos anedótica, ocorrida no reino da Lusitânia.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

CANTE ALENTEJANO - para memória futura

Para recordar: em 2012, numa fase crucial da candidatura do cante alentejano a Património Cultural Imaterial da Humanidade, o PS e o PSD abstiveram-se numa votação em que se pedia o apoio da CIMBAL a este processo. Aconteceu isto há dois anos e oito meses. Será que hoje também se absterão de festejar? Parece-me bem que não...


OBRIGADO, TAP!

Dizer mal da TAP é um desporto nacional. Na verdade, em 26 anos, nunca tive nenhuma especial razão de queixa da companhia. E se já tinha razões para ter orgulho num dos símbolos do País, hoje tenho mais. A TAP convidou a comitiva que integrou a candidatura do cante alentejano a património cultural imaterial da Humanidade a regressar a Portugal de avião em vez de o fazer de autocarro. Os cantadores de Serpa, que não tiveram lugar na Embaixada de Portugal, têm lugar num avião da TAP. Galhardia e classe é isto.

ALENTEJO, ALENTEJO

Foi há poucas horas (eram 10:17). O cante alentejano é património cultural imaterial da Humanidade. Não gastemos palavras, a não ser as de felicitações que merecem todos os que estiveram envolvidos neste processo. A começar pelos colegas da Câmara Municipal de Serpa.

Vejamos e ouçamos o cante:

MICHELÃ

Sete coisas que nunca percebi:

Porque é que os cozinheiros agora são chefs e têm o nome bordado nos casacos?
Porque é que já não usam aqueles chapéus altos, que eram giríssimos?
Porque é que os chefs têm de parecer aranhiços, enquanto se debruçam sobre os pratos, onde deixam cair uma (só uma) azeitona e uma (só uma) rodela de rábano?
Porque é que os "empratamentos" (raio de designação) me fazem sempre lembrar as constipações do meu Manel?
Porque é que se leva mais tempo a ler o nome do prato que a comê-lo?
Porque é que havemos de passar fome em sítios assim (já me aconteceu e não sou exatamente um "bom garfo")?
Porque é que ninguém berra "o rei vai nu"?


quarta-feira, 26 de novembro de 2014

LE SOMMEIL

Douce France. O país de Gustave Courbet (1819-1877) e de Paul Verlaine (1844-1896). Esperava poder dedicar o texto de hoje ao cante alentejano, cuja classificação pela UNESCO se decide em terras gaulesas. Fiquemos em terras gaulesas, portanto. Com um pintor e com um poeta que fazem parte do meu panteão pessoal. Por pinturas como esta e por poemas como este.

O quadro data de 1866 e está hoje no Petit Palais.


Femme et chatte

Elle jouait avec sa chatte,
Et c'était merveille de voir
La main blanche et la blanche patte
S'ébattre dans l'ombre du soir.

Elle cachait - la scélérate ! -
Sous ces mitaines de fil noir
Ses meurtriers ongles d'agate,
Coupants et clairs comme un rasoir.

L'autre aussi faisait la sucrée
Et rentrait sa griffe acérée,
Mais le diable n'y perdait rien...
Et dans le boudoir où, sonore,
Tintait son rire aérien,
Brillaient quatre points de phosphore.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

A TEMPO

Deitando contas ao tempo, num dia em que ele não abundou. E em que as horas correram, sem tino nem lógica. Um dia atonal. Que vou reescrever, numa noite que será longa.

A tempo entrei no tempo,
Sem tempo dele sairei:
Homem moderno,
Antigo serei.
Evito o inferno
Contra tempo, eterno
À paz que visei.
Com mais tempo
Terei tempo:
No fim dos tempos serei
Como quem se salva a tempo.
E, entretanto, durei.



Fotografia de Cristina García Rodero. Poema de Vitorino Nemésio. O tempo já passou de vez, decerto, para os retratados. A fotografia data de 1978, justamente o ano em que Nemésio partiu.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

O OVO DA SERPENTE

Os partidos do "arco do poder" fragilizam-se. Não vale a pena repisar casos recentes.  O caso Sócrates é apenas o mais visível e estrondoso de uma série de episódios. Entretanto, o PNR manifesta-se, com um discurso anti-poder. Para já, são só meia-dúzia. Não os menosprezemos...