domingo, 15 de fevereiro de 2015

DOMINGO DE CARNAVAL - PELA RUA VAZIA

As manhãs de Carnaval são um pouco assim. Como esta, numa avenida do Recife. Os dias seguintes são um pouco assim, com ruas vazias. Fernando Pessoa já por aqui passou. Bruno Barbey (n. 1941) é, curiosamente, uma estreia.



Vou com um passo como de ir parar  

Pela rua vazia  
Nem sinto como um mal ou mal-'star  
A vaga chuva fria...


Vou pela noite da indistinta rua  

Alheio a andar e a ser  
E a chuva leve em minha face nua  
Orvalha de esquecer ... 


Sim, tudo esqueço.Pela noite sou  

Noite também  
E vagaroso eu                    ...] vou,  
Fantasma de magia. 


No vácuo que se forma de eu ser eu  

E da noite ser triste  
Meu ser existe sem que seja meu  
E anônimo persiste ... 


Qual é o instinto que fica esquecido  

Entre o passeio e a rua?  
Vou sob a chuva, amargo e diluído  
E tenho a face nua.  

sábado, 14 de fevereiro de 2015

SÁBADO DE CARNAVAL - ZUCA-ZUCA

O cu dela era um fole??? No Centro Cultural de Belém??? Na presença de S. Exa. o Senhor Presidente da República??? Pois bem, foi isso mesmo que aconteceu no dia 25 de janeiro. Uma moda brejeiríssima, na interpretação deste grupo da Aldeia do Corvo. Um momento de boa disposição, minha, nossa e das senhoras do grupo, que estavam divertidíssimas. No público, um ou outro puritano fazia cara de pau. Mas era só cara...

Sábado de Carnaval sem samba, nem zumba, mas com zuca-zuca.

Zuca-zuca, Aldeia do Corvo from Faux on Vimeo.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

OS NOMES DESTA TERRA: DE LACALT ATÉ MOURA

Excerto (modificado) de um texto já com algum tempo, mas só agora publicado (conjuntamente com José Gonçalo Valente e Vanessa Gaspar):

Quatro fragmentos de dolia existentes em Moura permitem relançar o debate em torno da toponímia local e a colocação de hipóteses sobre o nome antigo da cidade. Moura conta-se no grupo dos sítios para os quais não dispomos de dados no que à épca romana diz respeito. A hipótese de uma correspondência entre Nova Civitas Arucitana e Moura foi desmontada, há anos e de forma definitiva, por José d’EncarnaçãoAs peças descobertas na Rua de Arouche, na Primeira Rua da Mouraria e nas reservas do Museu Municipal referem, como vimos, a existência de uma Ecclesia Santa Maria Lacaltensis. Ou seja, de uma igreja consagrada a Santa Maria, numa localidade denominada Lacalt ou Lacalta. A concentração de peças num só sítio permite supôr que o nome romano ou tardo-romano de Moura seria esse. A hipótese é plausível, mas deixa outra questão em aberto, o da sua modificação dentro do período islâmico. A ligação entre Julumaniya e Moura é um equívoco que remonta ao século XIX e que não será aqui tida em conta. Se aceitarmos como válido o texto de Ibn al-Faradi e a proposta que, a partir dele, faz David Lopes, fazendo corresponder a islâmica Mura com a atual Moura, ligação hoje aceite de forma generalizada, temos uma base de trabalho para a toponímia posterior ao século XI. Continua por saber o nome da localidade em épocas anteriores.

O nome de Lacalt vem abrir novas possibilidades de explicação para a localização de um topónimo islâmico (Laqant), do qual está próximo foneticamente e para o qual se têm esboçado várias teorias. As referências a Laqant surgem, quase sempre, com a exceção do oriental Yaqut, em textos antigos, reportando-se a acontecimentos cuja cronologia não ultrapassa o período califal.

O que nos dizem as fontes sobre Laqant?

Um primeiro dado tem a ver com a inclusão do sítio nas negociações que tiveram lugar no primeiro momento da islamização. Vários testemunhos, quer islâmicos quer cristãos, sublinham o caráter relativamente pacífico da “conquista” do Garb, nomeadamente no que toca à existência de negociações que terão caraterizado a islamização de uma parte importante do território a norte do Tejo. A existência dos tratados que permitiram situações como essa foi relatada por Muhammad al-Wazir al-Ghassani no século XVII, a partir de um texto de Ibn Muzayn, autor andaluz do século XI.

A enumeração das fontes islâmicas, omissas quanto a locais precisos, ajuda-nos a delimitar o âmbito territoral no qual nos movemos. Ibn Idhari refere, pouco depois de meados do século VIII uma revolta, que teria tido lugar em Beja ou em Laqant e que teria sido conduzida por Ala b. Mughit al-Yassubi. No final do século VIII, ao mencionar-se uma campanha militar conduzida por Abu Ayyub Sulayman, refere-se a retirada que este teria feito para o “país de Firris e Laqant”. Os textos diferem um tanto sobre o início da revolta. Ibn al-Athir, retomando a interpretação do Fath al-Andalus escreveu: “(...)Ala b. Mughit al-Yassubi passou da Ifriqiya à cidade de Beja, no al-Andalus, onde arvorou a cor negra dos Abássidas e fez fazer a hutba em nome de al-Mansur. Numerosos aderentes se lhe juntaram rapidamente”. A mesma suposta origem norte-africana viria a ser retomada por outros autores, embora a veracidade desta informação mereça grandes reservas. Segundo outra versão, a do Behdjat en-nefs, al-Ala ter-se-ia revoltado num local chamado Laqant, pertencente à kura de Mérida, tendo depois marchado sobre Beja e tornado-se senhor de todo o oeste da Península. A localização não é segura, fazendo-se coincidir Laqant com a zona de Fuente de Cantos, perto de Mérida e Firris com Castillo del Hierro, nas serranias a oriente de Sevilha.

Os documentos da Baixa Idade Média (em particular ao longo dos séculos XIV e XV), num período em que se torna necessário definir de forma mais precisa a divisão entre Portugal e Castela, começam a assinalar novos pontos de referência. Por exemplo, mencionam de modo sistemático a ribeira de Alcarache como limite dos novíssimos termos de Mourão e de Villanueva del Fresno. Ainda que esta zona semi-desértica e controlada por isoladas comunidades de pastores pouco interesse pudesse suscitar em época islâmica não há dúvida que marcava o final do território de Beja e o começo de uma outra área de influência. Foi, afinal, desta região que sairam movimentos tão importantes como o que terá tido origem em Laqant, referido expressamente como fazendo parte do “canton de Beja”. Esta região juntou-se a Sulayman b. Martin em 219/835 para fomentar uma revolta que assolou toda a kura de Beja. A importância estratégica de Laqant leva os Madjous, na invasão de 229/844 a enviar destacamentos para este sítio, bem como para Firrish, Moron e Córdova.

Nesta zona, cerca de 50 quilómetros a leste de Beja, e no limte oriental da kura, as ligações familiares e a componente mullawad continuam a marcar presença preponderante. Ibn Hayyan assinala a revolta de Faraj b. Hayr al-Tutaliqi, que se rebelou em 234/848-849 contra o emir Abd al-Rahman II a partir de Aroche e de Dnhkt, topónimo não identificado. Pode tratar-se de um problema de transcrição e a referência reportar-se a Laqant e não a DnhktVencido pelas tropas do emir, põe-se ao serviço deste e é nomeado para diversos cargos, nomeadamente o de governador de Beja.

É ainda o sítio de Laqant que Abd al-Rahman III coloca sob o comando de Abd al-Malik b. al-Asi, jurisdição que passaria, anos depois, para Abd al-Rahman b. Muhammad b. al-Nazzam, juntamente com Firrıis, Llano de los Pedroches e B.tr.l.s.

Perto do final do século X, Laqant era ainda referida como kura: “en el jumada de este año [362 h., ou seja, entre outubro de 972 e outubro de 973), salió el sahib al-radd Abd al-Malik ibn Ibn al-Mundhir Ibn Said a las coras occidentales – que son: Ferris, Laqant, Sevilla, Niebla, Carmona, Morón, Ecija y Sidonia – en visita de inspección (...)”. Pela mesma época, e numa história da conquista da Península, é feita a seguinte referência explícita quando se fala da rota seguida pelas tropas: “después de Sevilla se fué a Lacant (es decir) a un lugar que se llamó “el desfiladero de Musa” en las cercanías de Lacant, en dirección a Mérida”.

Yaqut nos séculos XII-XIII, refere ainda o nome da localidade, mas a verdade é que nunca visitou o ocidente, sendo as suas informações fruto de dados recolhidos junto de outros autores. Sobre Laqant diz que “es el nombre de dos castillos (husun) pertenecientes a Mérida, en al-Andalus: Laqant la Mayor (Laqant al-kubra) y Laqant la Menor (Laqant al-sugra) y están situados de modo que se miran frente a frente”.

Não é possível estabelecer uma ligação direta entre o nome antigo de Moura, partindo do princípio que o mesmo foi Lacalta, e o toponómio de Laqant. A ligação entre ambos parece-nos, contudo, passível de ser sustentada. São conhecidas as ligações antigas entre a zona de Moura e o eixo viário que ligava Mérida a Sevilha. O caminho entre Beja e Sevilha passava a curta distância da nossa cidade e seria, decerto, um meio privilegiado do contacto com a zona costeira meridional.

A mutação do nome, ocorrida presumivelmente nos século X-XI, tal como sucedeu noutros sítios do Garb, como Ocsónoba, justificaria o esquecimento do nome antigo e a “criação” de um novo topónimo.

Versão completa em O sudoeste peninsular entre Roma e o Islão.



quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

UMA LIDE MORTAL, À LUZ DA LUA

Uma das músicas que me fez companhia, no caminho desta tarde, foi o fado A Última tourada real em Salvaterra, cantado por Rodrigo. A morte do Conde dos Arcos, ocorrida em 1779, é um facto conhecido. Menos conhecida, decerto, é a narrativa da colhida do califa Yusuf al-Mustansir, que lidava vacas à noite, em Marrakech. A narrativa é imprecisa e refere apenas o facto em si (cito de memória, e salvo erro, a partir de um texto de Ibn Idhari). Al-Mustansir não era propriamente um maletilla à procura de um lugar ao sol. O seu reinado foi curto. Morreu, no decurso dessa lide, no dia 12 de Dhu'l-Hijja de 620 (6 de janeiro de 1224, no nosso calendário).




Esquecida essa raíz mediterrânica, as corridas organizadas segundo o modelo hoje vigente voltaram ao norte de África pela mão dos colonizadores. Quando estes partiram, as corridas terminaram. De cima para baixo, as praças de touros de Oran, Casablanca e Tânger.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

LITUÂNIA MEDITERRÂNICA


Adebayo Akinfenwa jogou no F.K. Atlantas, da Lituânia. Um país da Europa meridional, assevera o Diário de Notícias de hoje. Aqui entre nós, quem nunca provou um bom azeite da Lituânia, não sabe o que anda a perder...


terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

CARNAVAL - 21 OU 23 DE FEVEREIRO DE 1982

Ou domingo de Carnaval ou terça-feira de Carnaval. Foi em 1982. No grupo há 4-pessoas-4 que estão hoje ligadas, de uma forma ou de outra, à Câmara Municipal de Moura. Incluindo o "Al Jolson"...

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

ALGUÉM SABE O QUE É A ESCÓCIA?

Foi há quase 30 anos. A turma daquela pós-graduação da Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa era multifacetada e dali iriam sair algumas figuras notáveis (o escriba não se inclui no grupo). As aulas eram variadas e interessantíssimas. Houve alguns momentos de "terror" à mistura. Lembro-me, de forma recorrente, de um. A aula era com o Prof. Frederico George (1915-1994), arquiteto de grande prestígio e nome maior da Academia. Explicava, fazendo esquemas a giz no quadro. Esquiçou uma coluna. A dada altura, virou-se para nós e fuzilou "alguém sabe o que é a escócia? e vejam lá o que vão responder, se fazem favor". Olhou para mim fixamente e pensei "vai-me perguntar a mim e é uma barraca...". Eu sabia que a escócia era uma moldura na base de uma coluna, mas seria incapaz de a localizar, com precisão. Ninguém, numa turma de 25, respondeu. O Prof. George fez um sorriso escarninho e disse, em voz baixa mas percetível, algo como "antes éramos obrigados a saber estas coisas".

Agora já sei, e não esquecerei, o que é a escócia... Com o Prof. Frederico George, e com outros, aprendi a importância do rigor. Aliada à importância, que não é menor, da capacidade de reconhecimento do erro e da necessidade de melhorar em cada momento. Coisa que nem sempre se consegue.

domingo, 8 de fevereiro de 2015

CHEGAR A CASA - ON LOCATION

Dia e meio noutra realidade. Rodagem, em Mértola e em Moura, da curta-metragem "Chegar a casa". A estrear no Festival Islâmico de 2015, com o apoio da Câmara Municipal de Mértola. A quem manifesto o meu reconhecimento pelo interesse com que encarou este projeto, um pouco diferente do que é habitual, no meu percurso.

A participação de jovens alunos da Escola Profissional de Moura integra-se no seu percurso formativo, no domínio do Projeto Interculturalidades. São eles quem "conta" a história de um homem perdido e à procura do sítio de origem.


Da esquerda para a direita: o autor do blogue, Pércida Camará, Azeneide Batista, Sana Contá e Joceline Cabral.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

5000 % DE LUCRO?

5000%? Este medicamente dá 5000% de lucro à indústria farmacêutica?

Achei curioso que a denúncia tenha vindo de um ministro politicamente conservador e que antes trabalhou no setor financeiro. E que passou pelos impostos, onde deixou muito boas indicações. Ouvi-o uma vez usar a expressão "aviltante" a propósito dos salários de alguns clínicos do SNS. Atitudes à esquerda num homem de direita. Todos nós temos diferentes facetas. Como se prova com estas evidências.


TERRA ESPANHOLA

Mais um filme dos dias de juventude. Vi-o na Cinemateca, em 1980 ou 1981. O filme é épico, e o empenhamento de Joris Ivens (1898-1989) sente-se em cada fotograma. Não há cinema documental isento, independente ou distanciado. Tudo isso passa pela obra de Ivens, que permaneceu generoso e lutador ao longo da sua carreira. O documentário é O grande género. Uma certeza que foi ganhando foros de quase-religião ao longo da minha vida.

A Guerra Civil Espanhola como tema e como escolha cinéfila desta semana.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

BUAL ASSIM UM POUCO AGRÍCOLA

Durante a reunião, não pude deixar de reparar em dois quadros: um à minha frente, que não consegui identificar, ainda que o estilo me seja familiar; outro à esquerda, de pendor pop. Afinal, constatei no final, era uma obra de Artur Bual (1926-1999). Menos gestualista do que seria de esperar, algo warholiana na repetição de temas. Um pouco na onda deste Alfama. Não sei o que pensaria Bual ao ver-se em ambientes ministeriais... Logo ele, tão pouco formal e tão pouco reverente... Em pano de fundo estiveram diferentes conceções de vida e distintas formas de perceber a sociedade. São, não tenhamos dúvidas, dois países num só.

Ao sair, para o ar frio e húmido do Terreiro do Paço, lembrei-me de um poema de José Gomes Ferreira. Um poeta de quem não gosto especialmente. Mas este poema é um pouco diferente de todos os outros.


Nunca ouvi um alentejano cantar sozinho
com egoísmo de fonte.
Quando sente voos na garganta
desce ao caminho
da solidão do seu monte,
e canta
em coro com a família do vizinho.
Não me parece pois necessária
outra razão
– ou desejo
de arrancar o sol do chão –
para explicar
a reforma agrária
no Alentejo.
É apenas uma certa maneira de cantar.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

CURVAS

LAS PERSONAS CURVAS 

Mi madre decía: a mí me gustan 
las personas rectas.
A mí me gustan las personas curvas, 
las ideas curvas, 
los caminos curvos, 
porque el mundo es curvo 
y la tierra es curva 
y el movimiento es curvo; 
y me gustan las curvas 
y los pechos curvos 
y los culos curvos, 
los sentimientos curvos; 
la ebriedad: es curva; 
las palabras curvas: 
el amor es curvo; 
¡el vientre es curvo!; 
lo diverso es curvo. 
A mí me gustan los mundos curvos; 
el mar es curvo, 
la risa es curva, 
la alegría es curva, 
el dolor es curvo; 
las uvas: curvas; 
las naranjas: curvas; 
los labios: curvos; 
y los sueños; curvos; 
los paraísos, curvos 
(no hay otros paraísos); 
a mí me gusta la anarquía curva. 
El día es curvo 
y la noche es curva; 
¡la aventura es curva! 
Y no me gustan las personas rectas, 
el mundo recto, 
las ideas rectas; 
a mí me gustan las manos curvas, 
los poemas curvos, 
las horas curvas: 
¡contemplar es curvo!; 
(en las que puedes contemplar las curvas 
y conocer la tierra); 
los instrumentos curvos, 
no los cuchillos, no las leyes: 
no me gustan las leyes porque son rectas, 
no me gustan las cosas rectas; 
los suspiros: curvos; 
los besos: curvos; 
las caricias: curvas. 

Y la paciencia es curva. 
El pan es curvo 
y la metralla recta. 
No me gustan las cosas rectas 
ni la línea recta: 
se pierden 
todas las líneas rectas; 
no me gusta la muerte porque es recta, 
es la cosa más recta, lo escondido 
detrás de las cosas rectas; 
ni los maestros rectos 
ni las maestras rectas: 
a mí me gustan los maestros curvos, 
las maestras curvas. 
No los dioses rectos: 
¡libérennos los dioses curvos de los dioses rectos! 
El baño es curvo, 
la verdad es curva, 
yo no resisto las verdades rectas. 
Vivir es curvo, 
la poesía es curva, 
el corazón es curvo. 
A mí me gustan las personas curvas 
y huyo, es la peste, de las personas rectas.
Jesús Lizano



Nude n. 142 (1949-50)
Irving Penn

Não é o ângulo reto que me atrai. Nem a linha reta, dura, inflexível, criada pelo homem. O que me atrai é a curva livre e sensual. A curva que encontro nas montanhas do meu País, no curso sinuoso dos seus rios, nas ondas do mar, nas nuvens do céu, no corpo da mulher preferida. De curvas é feito todo o Universo - o Universo curvo de Einstein.
Oscar Niemeyer


Jesús Lizano (n. 1931) é um poeta livre. Irving Penn (1917-2009) foi um fotógrafo livre. Tal como livre foram o espírito e a carreira de Oscar Nimeyer (1907-2012). Curvas e liberdade, de mãos dadas.

SOFTPORNO NA RTP1

Não conhecia a série Tempo Final (a televisão tem andado arredada das minhas disponibilidades) mas o nome do realizador, Leonel Vieira, prometia. Minha-nossa-senhora! O episódio deu direito a sexo ocasional, strip masculino, álcool, vinganças, traições etc. O que há de mal num filme assim? Nada. Quentin Tarantino faz isso e muito mais, com talento. Só que "isto" da RTP1 é um softporno manhoso - o melhor é uma cena de sexo vista através de um vidro fosco, que dava para perceber que o ator principal não tirou as cuecas, o que torna o ato em si algo de prodigioso... -, exibido à custa do dinheiro de todos nós.

Uma pequena compensação: deu para rir um bocado. Há coisas tão inverosímeis que têm este efeito. Ainda que A despedida não chegue aos calcanhares de uma intervenção cirúrgica - salvo erro no filme Raça, de Augusto Fraga - que sempre desconfiei ter sido a inspiração para o Dr. Bão, médico dos Marretas.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

UMA CIDADE E O SEU MUSEU: 10/20 - ATENAS

É quase uma heresia passar por Atenas e preferir esta instituição privada aos grandes símbolos da cidade, que são, também, os de um país e de uma civilização. O museu foi instituído por Antonis Benakis (1873-1954), um riquíssimo comerciante que foi, ao longo da vida construindo uma coleção de obras de arte de incomparável qualidade. Segunda heresia: com tantas e tão variadas peças, fui direitinho ao edifício da coleção islâmica, na busca de elementos de raíz bizantina, até deparar com uma arqueta sículo-árabe. Que, não parecendo, tem a ver com Moura. Voltei depois ao mundo norte-africano e às produções cerâmicas do século V, essas que até agora, e sem surpresa, me têm escapado na mesmíssima Moura.

O Benaki é uma instituição do mundo. E tem lá dentro todo o mundo. Saí contrafeito e dando ouvidos a quem me acompanhava "já chega...". Talvez volte um dia. Nesse dia serei surdo...





O Museu Benaki (Μουσείο Μπενάκη, no original, fui ver ao site, claro, que grego não sei...) tem uma página web que vale a pena ser vista: http://www.benaki.gr

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

QUANDO A LUZ SE APAGA


Quando me preparava para entregar aquela prenda de Natal, numa instituição de solidariedade, estaquei. À minha frente estava um homem, na casa dos 80. Olhava em frente, fixamente. Perdera a visão. E deixara para trás a capacidade de perceber o mundo. A funcionária que me acompanhava comentou, em voz baixa, desnecessariamente baixa, porque ele não nos ouvia, “este é o nosso retrato futuro”. Uma frase certeira e cortante. O que me deixou gelado não foi a velhice, nem a saúde frágil do homem. Nem o alheamento em que vivia, fechado que estava num mundo distante. O que me deixou sem reação foi o facto de eu supor que ele há muito morrera. Uma quase verdade, ainda mais penosa, naquele fim de tarde com pouca luz. Tive vontade de lhe dizer “sou o Santiago, lembra-se de mim?”. Contive-me. Não me via, nem me ouviria. Provavelmente não se lembraria. Muitos anos antes, não seria necessária aquela pergunta. Cruzava-me com ele quase todos os dias, nas ruas de Moura, “está bom, senhor fulano?”. Ele tornava, sempre sorridente, “olá Santiago, tás bom? vê lá se te portas como deve ser, ou vou dizer ao velho João...”. O velho João não era velho, nessa altura, e a velhice estava, para todos nós, ainda demasiado longe.

Aquele senhor, que eu pensava desaparecido neste mundo, está na casa dos 80, eu passei os 50. O tempo acelera-se, com o passar dos anos. Um fenómeno de perceção, incompatível com a medição dos relógios. Cruzo-me todos os dias com jovens do meu bairro. Por razões evidentes, sou hoje mais cumprimentado do que era há três ou quatro anos. No outro dia, pela manhã, quando ía descendo a ladeira da Salúquia, fui assombrado pela imagem do senhor com quem em tempos me cruzava. Ao entrar no restaurante, horas mais tarde, olhei para o moço que, de ar jovial, servia os clientes. Um dia mais tarde, muito mais tarde para ele, visitará, decerto, senhores de olhar perdido e fechados no seu mundo, talvez eu, para quem a luz se apaga aos poucos, sem remissão nem retorno. A vez dele chegará. Mais tarde. Ou, pelos padrões que ele tem hoje, impensavelmente mais tarde.


ERRATA – No meu anterior texto, escrevi “ruas projetadas não temos” [em Moura]. Temos, pois. Até mais que uma. Em todo o caso, em breve deixaremos de ter, uma vez que está em marcha o processo de atribuição de nomes.

Crónica publicada em "A Planície" de 1.2.2015

FIM DE PAUSA


De regresso ao mundonet. De volta está o blogue. Os dias africanos estão, para já, terminados.