terça-feira, 17 de março de 2015

NÓS POR CÁ TODOS BEM

Emigrados uns para a França
Outros para a morte...


Vão e vêm, diz também Sérgio Godinho. O filme de Fernando Lopes (1935-2012) é uma obra muito pessoal, porque em tom de confissão. Não é uma obra-prima, este Nós por cá todos bem, rodado em 1978. Mas é um trabalho interessante, e com uma estrutura meio-documentário, meio-ficção, meio-autobiografia (e já lá vão três meios...).

Não sendo hábito colocar dois filmes na mesma semana, a verdade é que a música de Sérgio Godinho surge como contraponto perfeito ao espantoso anúncio de Pedro Lomba.

segunda-feira, 16 de março de 2015

QUANDO DUARTE DARMAS PASSOU POR MOURA: 2/10 - S. JOÃO BATISTA

Mais uma vista da nossa cidade, nos inícios do século XVI. Agora é a vez da Igreja de São João Batista. Duarte Darmas resolveu mal os problemas de perspetiva. Criou, então, duas visões da igreja, uma para a direita, outra para a esquerda, como se o edifício estivesse construído em V...

A configuração da igreja, a estar representada com algum rigor, mostra um edifício muito diferente do que hoje conhecemos, ainda que nos pareça inverosímil a torre sineira na capela-mor. Qualquer verificação mais precisa torna-se impossível, tendo em conta a derrocada ocorrida no início do século XVIII.

Obra de consulta indispensável: Jorge Segurado, A igreja de S. João de Moura. Da sua arquitectura e da sua história, Lisboa, Parceria A.M. Pereira, 1929. Veja-se também o Boletim da Direção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, nº 45 (1946).

Imóvel classificado como monumento nacional: Decreto n.º 21 355, Diário do Governo, I Série, n.º 136, de 13-06-1932


domingo, 15 de março de 2015

VERTIGEM AZUL - PRÉMIO TURISMO DO ALENTEJO

Outro prémio tocou o concelho, ainda que indiretamente. Na categoria Melhor Animação Turística o prémio foi atribuído à empresa Vertigem Azul - Turismo de Natureza, que promove passeios no Sado e na costa de Tróia - observação de golfinhos e de aves no estuário do Sado.

Qual a relação com o concelho de Moura? Um dos sócios da empresa é Pedro Narra, cujos pais, amarelejenses, estão bem no coração do nosso território.

Os passeios valem bem a pena, isso posso testemunhar.

Site: http://www.vertigemazul.com/

MOURARIA DE MOURA - PRÉMIO TURISMO DO ALENTEJO

Os PRÉMIOS TURISMO DO ALENTEJO são uma iniciativa  que visa distinguir e divulgar projetos de significativa importância turística que tenham contribuído para a melhoria da oferta turística do destino e, de um modo geral, para o reforço da competitividade do sector na região.

O júri decidiu distinguir a Mouraria de Moura, obra reabilitação promovida pela Câmara Municipal, como o melhor na categoria Projeto Público. Um reconhecimento que se vem somar a outros.

Na primavera, no mês de maio, com toda a probabilidade, festejaremos com os habitantes esta distinção. Explicaremos, nessa altura, quais os próximos projetos no domínio da reabilitação urbana.



Em setembro de 2013, fui/fomos atacado(s) com esta afirmação, da qual sublinho um excerto:

"Como sabem, os nossos adversários políticos têm 16 anos de governação. 16 anos é muito ano. Foram 16 anos em que passaram 4 quadros comunitários. Onde houve muito dinheiro. Para muito investimento. Algum foi feito, é verdade. Destacaria duas áreas: a área das energias renováveis, no fotovoltaico, e os museus e a arqueologia. Para além disso, meus amigos, o que é que foi feito mais neste concelho?"

Há coisas que são penosas de ler. Dispenso-me de mais comentários.

sábado, 14 de março de 2015

TAP - 70

A TAP faz hoje 70 anos. A minha primeira viagem de avião, em julho de 1988, foi na TAP, num avião destes (um Boeing 737-200). Ainda me lembro do nome do comandante, que já deve estar reformado há muito...

Sou passageiro regular, ainda que muito pouco frequente, da TAP. Dizer mal da TAP é  quase um desporto nacional. Na verdade, em 26 anos, nunca tive nenhuma especial razão de queixa da companhia. O mesmo não poderei dizer de outras companhias, onde impera a frieza ou, até, a antipatia.

A TAP é território lusitano. Senti isso imensas vezes entre os passageiros, em Orly, ou a bordo. É por essas razões, que são em primeiro lugar sentimentais, que me custa imaginar a perda de identidade nacional da companhia. O sentimento pesa pouco nos negócios? Talvez... Mas a ninguém passa pela cabeça vender a Torre de Belém ou os Jerónimos. Justamente porque são símbolos.

Parabéns à TAP!

VAI E VEM

É um filme crepuscular. João César Monteiro (1939-2003) sabia que não lhe restava muito tempo e ensaiou esta despedida, com título de Vai e Vem (2002). Ocorreu-me esta escolha, embora o filme não seja dos melhores do autor, por causa do título e do insólito programa VEM. Mais uma brilhante criação do blogger Pedro Lomba...

Há quem julga que pode pilotar aviões só porque brinca com o Flight Simulator.
Há quem julga que governar é uma sucessão de mind games.
Não é, claro, e o resultado está à vista.



"O que é bom na freguesia das Mercês é bom nos Champs-Elysées", dizia João Vuvu a uma jovem candidata a miss. Pedro Lomba viu o filme, de certeza que viu.

sexta-feira, 13 de março de 2015

A GAIOLA DOS CANÁRIOS

Foi há dias, no futebol. Os apoiantes do Estoril-Praia ficaram confinados a uma gaiola, no Estádio da Luz. Está bem que eles são os canários, mas o "espetáculo" era constrangedor. Havia mais polícias e stewards que membros da claque... A este triste ponto chegámos. Lembrei-me de textos que, no início dos anos 80, lia nas aulas de inglês. Em diversos já se abordava a questão do hooliganismo. Tudo isso nos parecia longínquo. Agora já não é assim. Cada vez mais ir ao futebol é um desabafo coletivo. Uma catarse low-cost. Uma coisa triste.

O que é que o poema tem a ver com isto? Nada, a não ser o título. Escolhi-o por ser bonito, nada mais.



The cage

In the waking night

The forests have stopped growing
The shells are listening
The shadows in the pools turn grey
The pearls dissolve in the shadow
And I return to you

Your face is marked upon the clockface,
My hands are beneath your hair
And if the time you mark sets free the birds
And if they fly away towards the forest
The hour will no longer be ours

Ours is the ornate birdcage
The brimming cup of water
The preface to the book
And all the clocks are ticking
All the dark rooms are moving
All the air's nerves are bare.

Once flown
The feathered hour will not return
And I shall have gone away.

David Gascoyne (1916–2001) 

quinta-feira, 12 de março de 2015

REABILITAÇÃO URBANA? OU ARQUEOLOGIA E MUSEUS?

Vamos avançar para a terceira edição do Fórum 21. Tema: Reabilitação Urbana? Ou arqueologia e museus? Debate alargado com técnicos envolvidos em projetos concluídos, bem como noutros ainda em curso.

Que cidade temos?
Que cidade construímos?
Qual o papel do património no desenvolvimento cultural, social e económico de um sítio?
Que visão do espaço urbano tempos/queremos para o futuro?

Vai ser no dia 10 de abril. Entre as 9.30 e as 18.30. Quatro mesas-redondas, com cerca de 20 participantes.

Desenho: Sempé

quarta-feira, 11 de março de 2015

11 DE MARÇO - de 1975 aos cats and dogs


O "11 de março" foi há 40 anos. Eu tinha 11 na altura e a memória que conservo é algo difusa. Recordo a balbúrdia permanente que a cidade de Lisboa então era. Havia manifestações. E barbudos e calças à boca de sino e tropas na rua. Um carnaval permanente. Em março de 1975 houve nacionalizações: banca, seguros, indústria etc. Um país diferente estava a emergir naqueles dias da Revolução. Recordemos a composição do governo:

Primeiro-Ministro
Vasco Gonçalves

Ministros sem pasta
Álvaro Cunhal
Ernesto Melo Antunes
Joaquim Magalhães Mota
Vítor Alves

Ministro da Defesa Nacional
Silvano Ribeiro

Ministro da Coordenação Interterritorial
António de Almeida Santos

Ministro da Administração Interna
Manuel da Costa Brás

Ministro da Justiça
Francisco Salgado Zenha

Ministro da Economia
Rui Vilar

Ministro das Finanças
José da Silva Lopes

Ministro dos Negócios Estrangeiros
Mário Soares

Ministro do Equipamento Social e Ambiente
José Augusto Fernandes

Ministro da Educação e Cultura
Manuel Rodrigues de Carvalho

Ministro do Trabalho
José da Costa Martins

Ministra dos Assuntos Sociais
Maria de Lurdes Pintasilgo

Ministro da Comunicação Social
Jorge Correia Jesuíno

A banca era do povo. Não podia ser do povo, porque dava prejuízo e eram precisos especialistas para dirigir a banca. Especialistas da City e assim. Foi um sistema de vasos comunicantes. Saiu o povo. Entraram os grandes financeiros (BPN, BPP, BES). Depois saiu o dinheiro.

Agora a banca é cats and dogs... Como no quadro de Jan Fyt (1611– 1661). O que são cats and dogs? Vejam o que isso quer dizer na bolsa sff.

terça-feira, 10 de março de 2015

XADREZ

Desafio matinal: jogar xadrez com alunos da Escola Secundária. Há um clube, dinamizado por um grupo de entusiastas. Uma situação inédita, num longo percurso pessoal. A situação teve graça, até porque revi nas ingenuidades dos jovens praticantes as minhas falhas de então (que são, no essencial, as de hoje, porque pouco mais sei que movimentar as peças).

Um início de manhã um pouco diferente do habitual. E como o xadrez é jogo aristocrático e oriental, socorro-me das palavras do persa Umar-i Khayyam (1048-1132). E do célebre Livro de Jogos, de Afonso, o Sábio. Onde se mostra como um jogo de xadrez desempenhou um papel importante na diplomacia da época.



Porque esta vida no es
-como probaros espero-,
Mas que un difuso tablero

de complicado ajedrez.
Los cuadros blancos: los días
los cuadros negros: las noches...
Y ante el tablero, el destino
acciona allí con los hombres,
como con piezas que mueven
a su capricho sin orden...
Y uno tras otro al estuche
van. De la nada sin nombre.




segunda-feira, 9 de março de 2015

QUANDO DUARTE DARMAS PASSOU POR MOURA: 1/10 - A TORRE DO RELÓGIO

Duarte Darmas desenhou as fortificações da fronteira portuguesa, por volta de 1510. O seu Livro das Fortalezas é uma peça insubstituível para o estudo das localidades da raia. Moura é, felizmente, uma delas. Ao longo de dez textos irei dando nota dos detalhes que Duarte Darmas sublinhou na nossa terra. E isto porque os seus registos têm uma curiosa característica: o aglomerado urbano é representado como se as casas fossem todas mais ou menos iguais, sublinhando o desenhador os aspetos mais relevantes de cada localidade.

Farei, ao jeito cinematográfico, insertos daquilo que ele "viu" em Moura. Começo pela atual torre do relógio, que é mostrada com uma certa imponência, com um campanário, sem que se perceba se os rendimentos da localidade eram, ou não suficientes, para comprar um relógio. Dá a ideia que não... É, em todo o caso, curioso assinalar que a torre já então se destacava das demais. Característica que hoje se mantém. 


STARDUST MEMORIES Nº 2: ENTRE MONTE GORDO E VILA REAL DE SANTO ANTÓNIO

Estou talvez errado e deve ser a memória a trair-me, mas este carro de transportes coletivos é igual aos que faziam o trajeto entre Monte Gordo e Vila Real de Santo António há mais de 45 anos. Será assim ou era apenas outro, muito parecido? Os veículos, azuis e vermelhos?, pertenciam à Empresa Rodoviária do Algarve. Paravam junto ao café, de amplas janelas, que antes fora casino e depois voltou a sê-lo.

Voltei a entrar no pequeno autocarro, todos estes anos passados. Surpreende sempre a qualidade dos materiais, o uso das madeiras, a solidez dos metais. Fiquei a cismar o que pensariam os construtores daquela época com a quantidade de plásticos e de fancaria com que hoje nos arruinamos...




sábado, 7 de março de 2015

O SUDOESTE PENINSULAR ENTRE ROMA E O ISLÃO

Ecce homo, parece dizer Susana Gómez. Na realidade, não é isso. Fazia, naquele momento, uma revisão do que foi todo o processo que conduziu ao livro hoje apresentado no Museu Regional de Beja. Um projeto a que dei início há 5 anos e que se aproxima agora do fim, depois de um percurso algo difícil. A investigação em torno deste tema envolveu colegas de vários centros de investigação. Mértola foi o ponto de partida e o de chegada. O alfa e o ómega deste caminho.  






sexta-feira, 6 de março de 2015

SUS DOMESTICUS

Num restaurante:

Cliente - Não como carne de porco.
Empregado - Temos cação.
Cliente - Que parte do porco é o cação?

Tinha de acontecer em Moura, evidentemente.

IDADE MÉDIA - MODOS DE VER

O anacronismo é um velho, e quase sempre bem sucedido, truque. Mark Twain (1835-1910) percebeu-o lindamente, com o livro A Connecticut Yankee in King Arthur's Court, escrito em 1889. Lembro-me de uma adaptação televisiva em desenhos animados, que passou na RTP no final dos anos 70.

Gosto deste estilo de anacronismos e de parodiar a seriedade da História. Por isso aproveito os poucos momentos livres para contribuir modestamente numa página satírica do facebook: Na Idade Média é que era bom. É outra maneira de ver a História? É, decerto. Usando em especial os pintores orientalistas de final do século XIX. Que são fonte inesgotável de inspiração...

Jean-Léon Gêrome (1824-1904) e Ettore Simonetti (1857-1909) dão sempre pano para mangas. 



MOURALUMNI - O ARRANQUE

TRAZER AO CONCELHO ANTIGOS ALUNOS
Projeto Mouralumni arranca

A Câmara Municipal de Moura, a Escola Secundária, a Escola Profissional e a Rádio Planície assinaram hoje um protocolo de acordo visando concretizar o Projeto Mouralumni.
O projeto visa convidar a vir a Moura antigos alunos [alumni] do ensino secundário local que vivam fora do concelho e que se tenham destacado em alguma área do ponto de vista profissional. O objetivo é uma troca de experiências entre antigos estudantes e atuais alunos.
Para a concretização do Projeto Mouralumni, a Câmara Municipal de Moura compromete-se a coordenar o projeto; a convidar antigos alunos; a apoiar a deslocação em transporte e, eventualmente, alojamento; e a enviar informação à comunicação social.
A Escola Secundária de Moura e a Escola Profissional de Moura garantem a divulgação interna e espaços para as conversas com professores e alunos.
As iniciativas no quadro do projeto serão noticiadas na Rádio Planície e no jornal “A Planície”.
Assinaram o protocolo de acordo entre os quatro parceiros, nesta quinta-feira, 5, na sala de sessões dos Paços do Concelho, o presidente da Câmara Municipal, Santiago Macias; o diretor da Escola Secundária, José Paulo Coelho; a diretora da Escola Profissional, Sandra Rodrigues; e um dos diretores da Rádio Planície, David Albino.

Moura, 05 de março de 2015

O GABINETE DE COMUNICAÇÃO E RELAÇÕES PÚBLICAS
DA CÂMARA MUNICIPAL DE MOURA

CASABLANCA

Passou no outro dia na tv, fora de horas. Pensei "não vou ver". Vi. Pensei "já não devo achar piada nenhuma a isto" (o trauma Key Largo ainda estava vivo). Adorei o filme. Tem romance, heróis maus e outros péssimos. Os cenários são ridículos e improváveis? Aquele Norte de África é um modelo imaginado? Os homens em Marrocos não usam o fez? O filme tem erros históricos? Tudo é isso é verdade e nada belisca o encanto do filme. Quem quiser a verdade histórica é melhor ler um compêndio. Quem vê Casablanca pensa em romance.

Espantosamente, nunca aqui tinha citado este filme de Michael Curtiz (1886-1962), rodado em 1942. É o filme que vos deixo, antes de dois dias de pouco sossego.

quinta-feira, 5 de março de 2015

PASSING SHOT NO MUSEU

A decisão devia ter sido ontem, na Assembleia Intermunicipal da CIMBAL. Mas a bancada do PS jogou mais um pouco de ténis, agora com um passing shot. Bola rápida para adiar a decisão mais uns dias. Ou seja, os trabalhadores da Assembleia Distrital não passam para já para a CIMBAL. O PS acha que devem passar para a Câmara de Beja. Os argumentos são difusos e os trabalhadores estão a ser usados num jogo que não é deles. Quanto ao museu, parece ser visto como um fardo...  O problema é que o tempo foge, os prazos se esvaem e não há soluções à vista da parte de quem só parece querer arranjar dificuldades.

Estive em Beja por solidariedade para com os trabalhadores da Assembleia Distrital e porque sinto ser essa a minha obrigação, enquanto presidente daquele órgão. Foi uma noite nula, porque se adiou a decisão para dia 18 de março. Nesse dia lá estarei. Esperando pela decisão final. E que não haja mais ténis. É que passing shots por passing shots sempre prefiro os da Serena Williams...

quarta-feira, 4 de março de 2015

ÀS VOLTAS NA MOURARIA

Aconteceu-me há já algum tempo, em Lisboa. Entre uma reunião e outra achei que era tempo de revisitar a Mouraria. A Mouraria é um dos mais extraordinários sítios de Lisboa. Em tempos prolongava-se mais um pouco para norte. Recorde-se que a Rua do Forno de Tijolo se chamava, no século XIX, Calçada do Almocavar (ou seja, do calçada do cemitério muçulmano). Na Mouraria viveram, até ao final do século XV, os muçulmanos de Lisboa, confinados a um ghetto. É um bairro popular e de povos. Nos últimos tempos, foi "tomado de assalto" por indianos, paquistaneses, senegaleses, guineenses, etc.. Bairro à margem da cidade, antes e depois.

Perdi-me por ali, como nos tempos de juventude. Passei em frente à casa onde morou Fernando Maurício, grande fadista do povo. Virei depois em direção à Rua dos Cavaleiros. Na esquina, um choque entre tradição e modernidade. Chega uma viatura do INEM, sirene a apitar e luzes por todo o lado. Trava a fundo e pergunta o condutor "onde é o Largo das Olarias?" (estranha pergunta para quem vai de urgência e nem um raio de uma planta da cidade tem). Salta uma matrona de negro, volumosa e de chinela no pé "ó querido, tens de virar ali à direita". O carro arranca prego a fundo e toma o caminho errado. Estão quatro pintas, um deles de rabo de cavalo lustroso, outro em tronco nu e coberto de tatuagens caprichosas, encostados a um chaveco; grita um, de forma a ouvir-se no Rossio, "não é por aí pá; éxtúpidocumóc******". O carro trava, recua e corrige a rota. Rio baixinho, não resisto a cenas destas, e sigo para a Rua do Benformoso. Há casas à venda. Da EPUL. A 200.000 euros, no meio da populaça. Anunciam vidros duplos, tv satélite, insonorização total, portas blindadas e muitas outras coisas que fazem as novas classes sentirem-se seguras em bairros antigos e onde o povo anda à solta. No dia em que chegarem novos moradores àquela zona da cidade quem garantirá a alma do bairro? Quem chamará os miúdos às esquinas, como a senhora de ar robusto, no mínimo robusto, que arrastava o neto por um braço e a quem gritava "é sempre a mesma coisa, é só brincadeira e casa nada"? Quem pendurará a roupa nos estendais? Não sei quem irá ali viver. Mas não será nenhum artesão indiano, nem a matrona de seios melancia, nem o mangas da esquina da Rua dos Cavaleiros. A reabilitação torna-se anchluss. A burguesia anexa os espaços do povo. Que há-de ir viver para a periferia. Criando aí novas mourarias. E assim sucessivamente.

Crónica em "A Planície" (1.3.2015), retomando um texto anterior.


Outros exotismos: pintura do orientalista alemão Gustav Bauernfeind (1848-1904) , representando uma rua de Damasco. Com um senhor vestido ao melhor estilo de explorador colonialista no meio da cena.

terça-feira, 3 de março de 2015

MOURA NA BÊ-TÊ-ELE

Já lá vai a Bolsa de Turismo de Lisboa. A Câmara de Moura marcou presença, com um balcão de promoção do concelho. Presente esteve ainda a novel ALQUEVATOURS, que tive o prazer de visitar. E presentes ainda estiveram os nossos amigos do Grupo Coral e Etnográfico do Ateneu Mourense. Por lapso, não foi referido que estiveram na BTL a convite da Câmara Municipal, mas isso é o menos. Marcaram presença, prestigiaram o concelho e foram efusivamente saudados pelos muitos mourenses no exílio. Pena foi o barulho em volta, mas ainda assim valeu claramente a pena.




segunda-feira, 2 de março de 2015

UMA POLÍTICA DE TERRA QUEIMADA

Reproduzo o texto que hoje mesmo assinei em "A Planície" em resposta a sucessivas e pouco clarividentes prosas assinadas pelo derrotado candidato presidencial Francisco Canudo Sena. Como quem cala consente, achei preferível responder aos erros e às evidentes e pomposas falsidades dos textos de Canudo Sena.

Como a prática do PS tem sido a da política de terra queimada, aqui vos deixo uma reprodução de uma tela de Adam Elsheimer (1578–1610), intitulada Der brand von Troja (O incêndio de Tróia, de 1604) e que está hoje na Alte Pinakothek.


Têm-se tornado habituais ataques violentos à Câmara Municipal e a mim próprio, protagonizados pelos vereadores do Partido Socialista, com destaque para o candidato presidencial Francisco Canudo Sena (FCS).

Eu tinha duas hipóteses: ou o silêncio (atitude que adoto na maior parte das ocasiões) ou a resposta, necessariamente sintética (e para não dar a ideia que não há da minha parte argumentos suficientes).

O Partido Socialista tem praticado uma política de “terra queimada”, com o chumbo sucessivo do orçamento e das grandes opções do plano, sem qualquer justificação aceitável. Os vereadores do PS têm, nas páginas deste jornal, somado os ataques indiscriminados, e não justificados, à vereação e a mim próprio. Num artigo publicado no passado mês de dezembro, foram-me dirigidos estes ataques (e passo a citar): “ausência de capacidade – desrespeito acentuado – sentido discricionário – inqualificável arrogância – incapacidade de auscultação – insensibilidade – fraca ambição – propositado alheamento dos problemas de natureza social – ligeireza – inadequada gestão – ausência de visão – teimosia – despesismo – exercício prepotente – endividamento insustentável – autismo – alheamento das preocupações – défices de aproveitamento – favorecimento – despreocupação”. Não contente com isso, FCS resolveu, em artigos recentes, dirigir-me outros mimos: “incompetência”, “incapacidade de dialogar”, “governo à tripa forra”, “teimosia”, “obstinação”, “acolhimento de clientelas políticas”, etc., etc..

Que dizer, depois disto? Responder aos insultos com mais insultos? Nem pensar! Os leitores, e os habitantes do concelho, saberão fazer a sua leitura do que se tem passado.

Limito-me a rebater as afirmações falsas e despropositadas dos artigos de FCS:

1. “[o orçamento] previa a contracção de mais um empréstimo até 990.000 euros” – FALSO. A verba de 990.000 euros reporta-se ao empréstimo aprovado, e que está em curso, e não a qualquer outro. Basta dominar minimamente as regras do orçamento, e fazer contas elementares, para saber que assim é.

2. “o orçamento apresentava em classificações não descriminadas, tipo ‘saco azul’, mais de 1.700.000 euros (...) sem que qualquer decisão tenha sido dada sobre tal decisão” – FALSO  E ABSURDO. As classificações do orçamento refletem as verbas das Grandes Opções do Plano. Todas as verbas do orçamento dizem respeito a ações concretas. As câmaras municipais não têm “sacos azuis”. Uma suposição desse género implicaria ilegalidades e a conivência dos funcionários do Aprovisionamento, da Contabilidade e da Tesouraria em tal balbúrdia. Acusações destas são graves e só podem ter uma de duas origens: ou ignorância ou má-fé.

3. “redução em 44.000 euros em sub-objetivos como ‘Mais Educação’” – FALSO. Não houve qualquer redução. Entre a 1.ª e 2.ª versão do orçamento houve despesa paga e que já não podia constar. Isso foi explicado. Usar este argumento revela a mais completa má-fé.

4. “também o apoio à actividade cultural desportiva e social viu reduzida a sua dotação em 28.000 euros” – FALSO. Trata-se, igualmente, de despesa paga e que já não podia constar no orçamento. Também isso foi explicado, mais de uma vez.

5. “verificou-se da primeira para a segunda versão orçamental, um aumento de 108.000 euros [em Comemorações e Eventos]” – FALSO. Também isto foi cabalmente explicado. Uma verba que se pensava utilizar, aquando da 1.ª versão, até final do ano, não foi gasta e teve de ser reinscrita no orçamento. Uma operação administrativa, que foi detalhadamente abordada nas reuniões de câmara. Voltar à carga, desta forma, revela a mais completa falta de honestidade intelectual.

As “acusações” de FCS (que vêm na senda do texto assinado coletivamente pelos vereadores do PS) revelam falta de ética e um completo desconhecimento das mais elementares regras de gestão municipal. E deixam à nossa imaginação pensar o que seria a governação de uma autarquia nas mãos de quem pensa existirem “sacos azuis” nas finanças camarárias...

O nosso caminho prossegue. Temos a decorrer o concurso para reabilitação do Pátio dos Rolins para habitação social; encomendámos o projeto de recuperação do Bairro do Carmo; abrimos outro concurso para a concretização de uma bolsa de estacionamento em frente ao Lar de S. Francisco; temos em curso as obras do Pavilhão das Cancelinhas e de reabilitação do Matadouro. Temos preocupações sociais que vão muito além da conversa fiada. Mantemos uma disposição firme de ultrapassar as dificuldades e de levarmos o concelho avante. É essa a nossa prática, traduzida em ações e não só em palavras.

Francisco Canudo Sena intitula os seus artigos de “O paradoxo da verdade”. Pois é, há políticos, como ele, para quem a verdade e a honestidade intelectual são um incompreensível paradoxo…

Santiago Macias
Presidente da Câmara Municipal de Moura

EL REVOLTOSO

Fechou anteontem ao público a exposição La Revoltosa, do meu amigo Manuel Passinhas. Esteve patente ao público na Casa das Artes, em Mértola. Desenhos e pinturas de grande qualidade. Fechou? Não fechou nada. É só até já.