segunda-feira, 15 de junho de 2015

CAMARATE

A primeira indicação foi quase misteriosa, “para fazeres as impressões em suporte digital vais à AGIR”, determinou o Luís. AGIR só me fazia lembrar um daqueles grupúsculos de intervenção política que enxameiam, como se fossem muito relevantes, as páginas dos jornais. Não, não é nada disso e fica em Camarate, clarificou o Luís. Camarate é um sítio mítico da política portuguesa, mas eu nunca tinha ido a Camarate. A indicação da morada da empresa não era evidente. Uma Rua Particular, na Quinta das Rosas, e eu não fazia a mínima ideia de como lá chegar. Rua Particular parece coisa improvável, mas é mesmo assim. Imaginei-me a entrar num táxi e o taxista a virar-se para trás, de ar furibundo, a perguntar “e essa merda fica onde?”. Já me aconteceu e não me apetecia repetir.

Aí vou, eixo norte-sul fora. Há uma rotunda, outra rotunda, é sempre na primeira à direita e passo por um palacete do século XIX. É um daqueles que encontramos nas obras de Eça de Queirós, mas já não encontramos púdicas donzelas, nem impúdicas miss Sarah. Quase todas as casas senhoriais faliram, passaram a turismos de habitação ou se “equipamentarizaram”: lares, bibliotecas, museus...

A partir daí, é outra Camarate que emerge. A clandestinização do espaço é geral. A balbúrdia urbana também. Resolvo não usar o google mas só para ver o que acontece. Há ruas progressistas – Ramiro Correia, Adriano Correia de Oliveira... – e outras colonialistas – Heróis de Mucaba, Santo António do Zaire, Heróis dos Dembos... – , que entrocam em vias ora enigmáticas (Rua Projetada A), ora bucólicas (Rua das Oliveiras). Umas acabam nas outras, em harmonia. Ninguém se incomoda. Somos assim. Complacentes e distraídos.

Foi assim que desemboquei no “Sousa dos Radiadores”. Ali perto, um senhor, de ar vínico e rotudamente aposentado, nunca ouvira falar da AGIR. Como seria de imaginar. Desisto da navegação à vista e invoco São Google. Estava, afinal, muito perto. Retomo o caminho, por ruas de prédios escalavrados. Há velhas marquises de alumínio, à mistura com jardins de infância de nomes imaginativos. Vivendas dos anos 50, blocos de habitação e armazéns acotovelam-se, numa lógica obscura. Há cores e sons em desarmonia, por toda a parte.

Estaciono, numa rua deserta e onde só há armazéns. O ambiente é de série policial americana. Não se vê vivalma e os portões estão fechados. Alguém me acena, à distância. Chegara à AGIR. Recolho as impressões e saio, em direção à auto-estrada... Deixo para trás a improvisação de Camarate, as marquises, a parafernália de cores, os armazéns metidos em casas e as oficinas de nome tipicamente lusitano. À medida que me afasto, ganho uma certeza: só em Portugal um sítio como Camarate é possível. A inversa é, também, verdadeira. Pela simples razão que Camarate é um espelho de Portugal. E não é de agora. É-o de há muitos anos.


Crónica publicada hoje, em "A Planície".

SUDOESTE(s)


Sexta foi dia de sudoestes. Regresso ao passado, em ambos os casos. Uma exposição evocativa de "A I Idade do Ferro no Sul de Portugal: Epigrafia e Cultura", montada no Museu Nacional de Arqueologia em 1980. O (re)lançamento de um livro de um projeto que iniciei em 2010 (primeiro a sós, depois com Virgílio Lopes, mais tarde com Susana Gómez Martínez), com novas visões sobre o sudoeste na Alta Idade Média.

O território do sudoeste peninsular continua a ser fonte de investigação e de debate. Espaço de encontro, de combate e de comércio, esta área da nossa mesopotâmia, contrastada geograficamente e de grande riqueza patrimonial, merece bem todo o nosso esforço.

À entrada do museu está a enigmática escrita do sudoeste, com vários símbolos em king size. Uma belíssima ideia, que dá visibilidade escultórica ao Património.

Ver: http://www.museuarqueologia.pt

domingo, 14 de junho de 2015

NA AVENIDA

Sempre gostei das marchas. Há muitos anos que não usava umas horas vendo o desfile. Este ano tive a possibilidade de o fazer num sítio tranquilo. Quatro horas, em que me diverti, olhando o que se passava à frente e dos lados. Andava tudo um pouco "sambizado"? É verdade, devem ser os sinais dos tempos. Mas que é uma iniciativa de mérito e muito ao estilo de Lisboa, lá isso é. E teve energia, e cor e música. Contaram-me histórias de bastidores que são sintomáticas de como tudo isto é levado a sério. No essencial, uma grande organização, levada a sério e de forma competente.

Ganhou o Alto do Pina. Gostei mais das de Alcântara e de Alfama. Alcântara apostou em "clássicos" musicais, como os do Conjunto António Mafra (yes!), Alfama numa coreografia espampanante. Mas eu não percebo nada daquilo, e o júri teve razão na escolha, sem dúvida. Alfama ficou em segundo lugar. Os padrinhos da marcha eram Cinha Jardim e João Baião. Devem ter perdido por causa disso...

Havia VIP do nosso "star-system". Ouvia dizer "olha fulano", "olha beltrano" e eu sem fazer ideia de quem se falava, Uma Carla Andrino, uma Vanessa Oliveira. Desvantagens de não ver televisão nem seguir as novelas.

sexta-feira, 12 de junho de 2015

EL DORADO

OK, aqui vai um filme pouco romântico e pouco santos populares. Há muito que pensava colocar aqui uma cena de El Dorado. Vai hoje, dia em que me veio à memória a importância dos filmes antigos e o modo como tudo influenciam, e influenciam mais, à medida que os anos vão passando. El Dorado tresanda a adrenalina, a whisky e a tabaco. É, em muitos aspetos, uma comédia. O veterano e genial Howard Hawks (1896-1977) sabia destas coisas. Gosto tanto deste filme como de Rio Bravo, onde fui buscar a inspiração. James Caan não tem a classe de Dean Martin, mas tem o espantoso nome de Alan Bourdillion Traherne... Só isso é meio filme. O resto é melhor ver.

Um western como escolha da semana.


quinta-feira, 11 de junho de 2015

DA TARDE PARA A NOITE, DE MOURA PARA LISBOA

Foi no sábado e foi ontem. Sábado houve várias iniciativas, e terminei o dia no Festival do Caracol, da Comissão de Festas, muito depois da luz da tarde ter lançado sombras etruscas sobre o pavimento. Ontem foi o 92º aniversário da Casa do Alentejo. Com as Brisas do Guadiana e com o Grupo Coral da Casa do Povo do Sobral da Adiça. Nos salões sumptuosos da Casa do Alentejo. Pairavam musas sobre nós...

As maratonas sucedem-se. Amanhã há mais.






My Shadow

I have a little shadow that goes in and out with me, 
And what can be the use of him is more than I can see. 
He is very, very like me from the heels up to the head; 
And I see him jump before me, when I jump into my bed. 

The funniest thing about him is the way he likes to grow— 
Not at all like proper children, which is always very slow; 
For he sometimes shoots up taller like an india-rubber ball, 
And he sometimes gets so little that there's none of him at all. 

He hasn't got a notion of how children ought to play, 
And can only make a fool of me in every sort of way. 
He stays so close beside me, he's a coward you can see; 
I'd think shame to stick to nursie as that shadow sticks to me! 

One morning, very early, before the sun was up, 
I rose and found the shining dew on every buttercup; 
But my lazy little shadow, like an arrant sleepy-head, 
Had stayed at home behind me and was fast asleep in bed.

(Robert Louis Stevenson)
A escultura é de Santiago Elejalde.

quarta-feira, 10 de junho de 2015

LYON - DIECI ANNI FA...

Faz hoje dez anos, em italiano e tudo. E este post é dedicado aos amigos de longa data, em especial aos que acompanharam mais de perto esta "saga".

Entre as 10 e as 13 de dia 10.6.2005 penei, no  Amphithéatre Benveniste, às mãos de um júri cordial, mas taxativo... Muitas vezes percorrera, em anos anteriores, os corredores da Maison de l'Orient Méditerrannéen. Sabia que aquela seria A sala... A plateia era pequena. Alguns amigos marroquinos e a família. A involuntária ironia de tudo aquilo é que me inscrevera, em 1996, na Université Lumière - Lyon 2. Lumière por causa da luz do conhecimento? Nem por isso. Lumière em homenagem aos irmãos Auguste e Louis, naturais da cidade. Sempre a sombra do cinema.

A tese tinha um título assim à séria, La kura de beja et le territoire de Mértola entre l’antiquité tardive et la reconquête chrétienne. Quando a publiquei mudei o título, de forma radical e emotiva, para algo completamente diferente.

O tempo, e outras opções emotivas, trocaram-me as voltas. Da placidez da investigação passei para outra dimensão. Há quase dez anos, também.

A tese pode ser consultada na net.
To whom it may concern: http://theses.univ-lyon2.fr/documents/lyon2/2005/macias_s#p=0&a=top

Da esquerda para a direita: Christophe Picard (presidente do júri - Univ. de Paris I), Pierre Guichard (diretor da tese - Univ. de Lyon 2), o autor da blogue e Jean-François Reynaud (Univ. de Lyon 2)

Da esquerda para a direita: O autor do blogue, efusivamente abraçado por André Bazzana (CNRS), que esconde Cláudio Torres (CAM), Maria da Conceição Lopes (Univ. de Coimbra), Christophe Picard e Pierre Guichard.

terça-feira, 9 de junho de 2015

A MANIFESTAÇÃO QUE NUNCA EXISTIU

Foi no sábado. Nem nesse dia, nem depois disso. Nada, zero, silêncio total na comunicação social, on-line e off-line. Percebe-se porquê. 100.000 no centro de Lisboa dão que pensar. E, se olharmos as sondagens, melhor se entende. A subida da CDU leva a que os mesmos de sempre joguem na bipolarização. Tem dado o que deu e, do ponto de vista das sondagens, está como está...


NUNO MELO (1960-2015)

Homenagem a Nuno Melo, hoje desaparecido. Ator de muitos papéis, participou também noutras áreas da comunicação. Como a publicidade, onde foi inspirado protagonista de um dos meus anúncios preferidos. Muitos compatriotas sentiram-se molestados com esta sátira. Discordei e discordo, porque o "reclame" da Royco exprime bem alguns traços da alma alentejana.

domingo, 7 de junho de 2015

SOB O SIGNO DO CINEMA - NAMIBE

Tenho vivido, de uma forma ou de outra, sob o signo do cinema. Tenho pelas antigas salas de cinema uma verdadeira paixão. O som soava de outra forma, as imagens tinham uma grandeza superior. As minhas solitárias incursões pelo território lisboeta envolviam sítios hoje desaparecidos, como o Monumental ou o Éden. Ou outros hoje abastardados, como o Condes ou o Império. Do gosto pelo cinema ao gosto pelo sítios em si foi um passinho.

Ao consultar, há dias, páginas sobre o cinema, encontrei esta sala. Fica no Namibe, data do fim do período colonal e é da autoria do arq. Botelho Pereira. Uma peça fantástica. de desenho nimeryano. A obra nunca foi terminada. Nos textos que consultei anuncia-se agora o recomeço. Mais de 40 anos depois do arranque.

sábado, 6 de junho de 2015

FESTIVAL TERRAS SEM SOMBRA - HOJE, EM MOURA

É hoje à noite, às 21.30, na igreja de S. João Batista. Regressa o Festival Terras Sem Sombra a Moura, numa iniciativa do Departamento de Património Histórico e Artístico da Diocese de Beja, que conta com o apoio da Câmara Municipal de Moura.

Amanhã terá lugar, no mesmo âmbito, uma visita à Herdade da Contenda.

sexta-feira, 5 de junho de 2015

DRESS CODE III: erros trágicos

O recente despedimento de um treinador de futebol vincou a importância do dress code, em todas as circunstâncias. A ausência de um adequado dress code nos primeiros momentos da História da Humanidade foi causa de grandes arrelias e de grandes penas.

Conclusão (demasiado elementar): não usar a roupa apropriada pode dar direito a expulsão. Uns foram postos fora do Paraíso, outro foi posto fora do Sporting. Onde, como sabeis, entrou Jesus. No fundo, está tudo certo. 


Peter Paul Rubens (1577-1640), um pintor com um gosto marcado pelas moças assim mais nutridas.

HERDADE DOS COTÉIS - GRANDE MEDALHA DE OURO

Foram há dias revelados os resultados do concurso internacional de vinhos "La selezione del sindaco". Uma prova de grande prestígio realizada em Itália. Vinhos eram mais de 1100. Medalhas foram quase 300: 27 grandes medalhas de ouro, 141 de ouro e 129 de prata. No primeiro escalão está um vinho da Herdade dos Cotéis. Exatamente, aqui de Moura.

Em concreto, foi classificado do seguinte modo:
13º entre 297 premiados.
9º no cômputo dos vinhos portugueses.
1º na lista dos vinhos do Alentejo.

Da nota de imprensa da Câmara Municipal de Moura:

[O] concurso “La Selezione del Sindaco” tem um fator diferenciador de outros concursos enológicos, na medida em que participam conjuntamente os produtores e os municípios.

A Câmara Municipal de Moura felicita a empresa Herdade dos Coteis e o seu proprietário, José Venâncio, por mais esta distinção que vem comprovar, novamente, a qualidade e a excelência do vinho que é produzido pela empresa, já por várias vezes galardoada em concursos nacionais e internacionais.

Ver: http://www.cittadelvino.it

quinta-feira, 4 de junho de 2015

UMA CIDADE E O SEU MUSEU: 13/20 - BAMACO

Revisito Bamaco, cidade que já aqui passou várias vezes. Um texto que saiu no Público, em 2008 (v. mais abaixo), e uma peça na qual me "fixei". Não guardo grande memória do Museu Nacional do Mali. Mas esta peça levou-me a comprar o catálogo.

Que o museu tenha grande arte africana é banal. Que conserve esta lápide funerária é extraordinário: provém da necrópole de Sané, em Gao. Poderá datar do século XII ou XIII d.C. O facto espantoso é ter sido importada da região de Almeria, no sul de Espanha. Que fica a 2300 km. Que a classe superior de Gao mandasse esculpir essas lápides a tal distância diz bem do prestígio dos ateliês andaluzes e diz bem da pujança do comércio entre o Mediterrâneo e as regiões sub-saarianas.

Sei que uma equipa de arqueólogos japoneses esteve a trabalhar em Gao. Desconheço os resultados dessa investigação ou, sequer, quem eram esses arqueólogos. Uma dúvida que se tornou numa quase obsessão. O tema das necrópoles islâmicas anda num limbo, há quase 20 anos.


DOMINGO EM BAMACO

É assim que se chama o disco, Dimanche à Bamako. E nós ficamos a imaginar como será o dimanche à Bamaco. Haverá acácias e belas mulheres à sua sombra, nos domingos de Bamaco? As águas do Níger trarão frescura aos domingos de Bamaco? Correrá um pouco do harmattan, o terrível vento do deserto, nas ruas dos domingos de Bamaco? Soprará esse vento sobre as águas do Níger, por entre as acácias e as belas mulheres? Que oásis haverá?

Há poucos oásis em Bamaco. A planta da cidade vista só em planta é um enredo de ruas direitas e há até guias que falam nas árvores dos bairros de Sogoniko ou de Badalabougou. Foi talvez assim um dia, e agora temos pena de não termos conhecido esses dias e esses domingos de Bamaco. Agora os dias são de caos, há fumo, meu Deus, há fumo e mais fumo. A cidade vive envolta em fumo. Dos carros com carburadores asmáticos, do lixo a arder ao lado dos hotéis e dos campos de golfe, do lume dos restaurantes, digamos que são restaurantes, que aparecem por toda a parte. Afinal o vento não sopra em Bamaco e por isso o fumo não viaja, ficando a pairar sobre a cidade. A cidade colonial é uma miragem curta nesta parte do Sudão e as glórias passadas fenecem por entre destroços.

Nos dias que não são dimanche há mais trânsito e nota-se muito mais o fumo. Há mais carros, mais motoretas e maquinetas. Nesses dias um milhão de pessoas cruza o gigantesco bairro da lata que Bamaco é, e nós ficamos sem perceber nada. De que vivem todas aquelas pessoas? De que vivem os vendedores se não há ninguém para comprar ou, pelo menos, ninguém parece comprar coisa alguma? Quando é dimanche à Bamako respira-se um pouco melhor, sem o travo do gasóleo a arder nas narinas e na garganta. Quando é dimanche podemos fugir mais ao fumo.

Aos domingos podemos esgueirar-nos um pouco mais à vontade, por entre as latas das barracas, por entre os montes de lixo semeados à toa. Para quem gosta dos mercados, há o novo mercado, nos guias lê-se que é novo mas parece já ter nascido com muitos anos. Mais longe, na margem do Níger, uma sugestão de jardim dá um pouco de placidez aos domingos de Bamaco.

Há uns séculos atrás ninguém passeava ao longo do Níger nas tardes de domingo porque a cidade ainda não existia. Nesses dias havia pirogas que passavam por entre as ilhotas onde agora os poucos pássaros vão pousar. Mas as pirogas partiram e o rio é agora um deserto de água. Nesses dias lá longe os caminhos do Níger levavam para Tombouctu e para Gao. É para aí que iremos um dia, porque lá onde estão não há fumo, de certeza que não, nem um milhão de pessoas amontoadas, como nesta aldeia de homens e mulheres gentis.

Agora é Inverno em Bamaco, aceitemos que 35º possam ser Inverno, e por isso o tempo é muito seco. O calor ainda vem longe e mais longe ainda está a chuva. Tenho dificuldade em imaginar como serão esses domingos de Verão, com a chuva que não pára, o calor terrível, o fumo dos carburadores asmáticos e a maior parte das ruas a serem pasto da lama e dos mosquitos.

Na próxima vez vou chegar a um domingo. Vai ser num dos beaux dimanches cantados por Amadou e Mariam. Nesse domingo haverá, decerto, menos fumo e menos gente perdida a deambular pelas ruas. Haverá, decerto, belas mulheres cujas pulseiras rivalizam, por entre as acácias, com a curva da corrente do Níger.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

JE SUIS MADEIRA

Se é assim, a Câmara Municipal de Moura também quer o mesmo tratamento. Je suis Madeira, ok?

No texto da notícia gostei de uma passagem "Olá Semanário": "(...) os dois governantes - que não esconderam a sua amizade pessoal - caminharam juntos (...)". Porque raio teriam de esconder a amizade? Há cada uma...

LUZ ORIENTAL



Pus o meu sonho num navio


Pus o meu sonho num navio 
e o navio em cima do mar;
depois abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar.

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre dos meus dedos
colore as areias desertas

O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho dentro de um navio...

Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.

Depois, tudo estará perfeito:
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.

Descobri este fotógrafo há dias e quase senti vergonha de não conhecer esta luz do oriente. Fan Ho nasceu em Shangai em 1937. Não conheceu, decerto, Cecília Meireles. Mas gostaria de ter conhecido.

Ver: http://www.fanhophotography.com

terça-feira, 2 de junho de 2015

DIA DA CRIANÇA: JEAN YANNE, OS TELETUBBIES E O CORPO DE INTERVENÇÃO

Crianças polícias contra crianças manifestantes, algures no Alentejo.

O pior de tudo isto foram as reações exacerbadas a propósito desta iniciativa no Dia da Criança, que envolveu a PSP e uma autarquia. Podia ter-se evitado? Podia. A ideia foi boa? Não foi, foi mesmo uma desgraça. Justificavam-se tantas reações histéricas? Acho que não. Cada coisa no seu sítio e com a dimensão devida.

A ideia de colocar jovens agentes vs. jovens manifestantes é bizarra. Teve, para mim, o mérito de fazer apelo à minha gasta memória, trazendo para primeiro plano um velho filme de Jean Yanne (1933-2003), intitulado, em língua lusitana, "O que nós queremos é dinheiro". Vi-o no Cine-Teatro Caridade, em 1978 ou 1979. As flausinas que atiram pedras aos choques remetem, por seu turno e do ponto de vista cromático e visual, para os teletubbies. Como diz um amigo meu, dado a conspirações, "isto anda tudo ligado".



CENTRO DE ACOLHIMENTO A MICROEMPRESAS DE MOURA - ÚLTIMA CURVA

Quase no final do percurso. Depois de um caminho difícil, estamos em condições de dar mais um importante passo na abertura do Centro de Acolhimento a Microempresas de Moura. As condições  de funcionamento privilegiam nitidamente as novas empresas e as que criam mais postos de trabalho.

O espaço será gerido pela empresa municipal Lógica. Na reunião tida com os potenciais investidores no início desta semana registámos interesse de cerca de uma dezena de empresas, de vários ramos de atividade.

Nota de imprensa ontem divulgada:
Os empresários interessados em iniciar atividade no concelho de Moura já têm à sua disposição o Centro de Acolhimento a Microempresas de Moura (CAMM). 
O CAMM é uma infraestrutura de acolhimento e incubação de empresas, está localizado no Parque Tecnológico de Moura e é gerido pela Lógica, EM SA. 

Destina-se sobretudo à instalação de novas empresas, facilitando o início de vida destes novos negócios, através da cedência do espaço a custo zero, durante os primeiros 12 meses.
É uma infraestrutura especialmente vocacionada para apoio e instalação das seguintes áreas de negócio: energias renováveis, novas tecnologias, design, comunicação empresarial, serviços de apoio avançado às empresas, animação, turismo, ensino e formação, investigação, apoio à comunidade, ambiente e atividades a montante e a jusante da agro-silvo-pastorícia, bem como empresas ligadas às artes e ofícios.
O Centro de Acolhimento a Microempresas de Moura dispõe de sala de reuniões, bar, receção, 5 salas para empresas de serviços e 6 espaços polivalentes para empresas.
As normas de funcionamento e acesso ao CAMM, bem como a ficha de candidatura estão disponíveis em www.logica-em.com/camm.
A entrada em funcionamento do Centro de Acolhimento a Microempresas de Moura é mais uma medida de apoio à atividade empresarial no concelho de Moura. Numa altura em que as dificuldades em iniciar novos negócios são cada vez maiores, o município de Moura contraria esta tendência promovendo iniciativas que estimulem e incrementem o tecido empresarial do concelho.

Moura, 1 de junho de 2015
O GABINETE DE COMUNICAÇÃO E RELAÇÕES PÚBLICAS DA CÂMARA MUNICIPAL DE MOURA

Imagem do Parque Tecnológico em 2009. O edifício do CAMM é o do lado esquerdo.

Tabela de preços. 

Normas de acesso e de funcionamento
Formulário de candidatura
Ver:

http://www.logica-em.com/camm/

segunda-feira, 1 de junho de 2015

PEDRO CAIXINHA

Chama-se Pedro Caixinha, é de Beja e é campeão do México, à frente da equipa do Santos Laguna. A nossa imprensa, mesmo a desportiva, quase nada traz sobre o assunto. Para quem não tenha percebido, eurocentrismo ou ocidentalocentrismo é isto...

PALMYRA


Quando saí de Palmyra, em direção a Damasco, pensava que poderia voltar um dia. Nesse outono de 2003 eram raros o turistas ocidentais na Síria. Os sucessivos conflitos na região tornavam aquele País como “desaconselhável”. Ainda assim, nada de especial se passou, e o trajeto pelo deserto foi uma tranquila caminhada que se poderia repetir a qualquer altura. Recordo que, a meio da jornada, parámos numa baiuca com o improvável nome de Baghdad Café... Foi no dia 12 de outubro e ninguém sonhava o que estava para vir. Bashar al-Assad, o tímido oftalmologista que não estava destinado à presidência (esse lugar pertenceria a Bassel, sucessor previsto de Hafez el-Assad, não fosse o destino ter-lhe trocado as voltas..), estava há pouco no Poder e os Estados Unidos ansiavam defenestrá-lo. Falharam e Bashar parece agora um santo, comparado com o Estado Islâmico.

Palmyra era então um sítio à procura de turistas. Os hotéis começavam a invadir o palmar e havia a sensação que a cidade iria sucumbir ao turismo de massas. Retomo o que em 2005 escrevi num livrinho sobre a Síria: “O coração da Síria Antiga está em Palmyra. A saga de Palmyra é notável, e inclui um desafio a Roma e uma independência ganha por pouco tempo. Roma ficava muito longe e a cidade, no meio do seu oásis, a meio caminho entre o Eufrates e o Mediterrâneo, não resistiu à tentação da liberdade. Quatro anos durou a aventura (268-272), tempo curto mas que chegou para imortalizar a cidade e Zenobia, a sua rainha. Os idiomas oficiais em Palmyra eram o grego e o aramaico. O grego ficou nas pedras e já só interessa aos epigrafistas, aquelas pessoas que transformam a história de outras pessoas em traços e símbolos e em fórmulas de gramática. O aramaico cruzou milhares de anos, tornou-se numa ilha de sons que muito poucos entendem e já só é falado em duas ou três aldeias das montanhas do Kalaamoun.

Palmyra é um mostruário de arquitraves, de fustes, de capitéis, de recordações de uma cidade perdida. Chega-se ao oásis de Palmyra depois de cruzar o deserto da Síria, entra-se na cidade pelo ocidente, pela zona onde está o vale dos túmulos. Para lá das ruínas e da cidade nova fica a frescura do oásis. As azinhagas que o cruzam estão, contudo, tão abandonadas como a alameda de Apameia. As hortas, que podiam ilustrar algum relato bíblico ou das Mil e Uma Noites, já pouco produzem, e o rumor da gente que outrora se ouvia pelos vergéis deu lugar ao som dos passos de alguns viajantes mais curiosos. São eles quem franqueia os campos de cultivo, por entre muros que não voltarão a ser reparados e no meio de um silêncio terrível, já só quebrado pelo som dos passos dos que percorrem o oásis à sombra das palmeiras.”

Talvez por isso não recorde nada, rigorosamente nada, da moderna cidade de Palmyra. Os três dias ali passados correram a uma velocidade vertiginosa, num quase torpor, no meio de uma cidade antiga. As memórias começam a confundir-se, à distância destes anos e Palmyra é agora uma amálgama de recordações: o jantar ao luar no relvado do Hotel Zenobia com a exótica Paloma Canivet (e com o António Cunha também...), as deambulações feitas até até à exaustão pelo oásis, as repetidas passagens pelas ruínas da cidade de outrora.

O abandono do oásis parecia prenunciar o fim de um mundo. Mas não o horror que se estendeu sobre a cidade. A morte chegou a Palmyra nesta primavera. Choremos agora... A História do estendal de destruição que o Ocidente permitiu e, sobretudo, cultivou ao longo dos anos no Médio Oriente está por fazer. Mas será feita um dia, decerto. Já cá não estarei. Palmyra, e todas as outras palmyras, também não.

Texto publicado hoje no jornal "A Planície"

domingo, 31 de maio de 2015

DIA D: - 19

A partir de amanhã, os trabalhadores da Assembleia Distrital "passam" para a CIMBAL. A ameaça da mobilidade está afastada, felizmente. A partir de amanhã, presidirei a um órgão fantasma. Dia 19 de junho haverá uma derradeira assembleia para aprovação da conta de gerência. Depois, a ADB entra em estado vegetativo.

Núcleo visigótico - um segredo escondido de Beja